Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 12/8/95 – Sábado – p. 15 de 15

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 12/8/95 — Sábado

Não se pode fazer uma separação entre o amor e o ódio, porque o amor reto leva potencialmente consigo o ódio; o ódio é uma espécie de outra face do amor * Na medida em que o ódio não exista, não existe amor; na medida em que o amor não exista, não existe ódio * O ódio em Nosso Senhor Jesus Cristo era apenas uma projeção do amor; se Ele não amasse muito não haveria ódio * Quase que não se distingue o amor e o ódio no Fundador porque um se reverte no outro * Na recusa inicial, que na minha infância fiz, já estava o ódio; mas o que houve de primeiro foi o amor dourado a Deus * Olhando para dentro de mim mesmo eu me sentia tão bom, quanto me parecia sentir bom os outros; tão benfazejo, quanto me sentia ser benfazejo para com os outros * O meu ódio nasceu no modo pelo qual me revelaram a existência da sexualidade; descrição da cena * Tentativa diabólica de quebrar a visão dourada na alma do Fundador: “Você ainda é desses bobos que acreditam que cegonha traz criança?” * Não é possível que o não dourado tenha destruído o dourado e que o dourado no mundo seja uma fantasia: nasce de uma mesma sorgente o ódio e o amor * Com a vocação uma vez aceita, o plantio do “Grand-Retour” está feito; a questão é fazer crescer a planta * Se começar uma altercação, as pessoas só tomarão uma posição digna de “Grand-Retour quando forem atingidas e compreenderem que o dourado existe na vida

* Cumprimentos iniciais e pequeno relato do Sr. Paulo Henrique sobre as viagens que realizou

A trombada foi na estrada?

(Sr. P. Henrique: É, foi na estrada. A senhora que mora em frente deu socorro. Ela veio nos mostrar onde, como é que tinha se dado. Ela ajudou a socorrer, etc.)

Mas quer dizer que não podemos comprar nada?

(Sr. P. Henrique: É. É à beira de asfalto, é coisa pública, infelizmente.)

É, não tem.

(Sr. P. Henrique: Enfim, eu senti bênçãos no local também.)

Otimo.

(Sr. P. Henrique: Estivemos no Bom Jesus da Lapa, também outro santuário onde rezamos pelo senhor, na Bahia.)

Ah, na Bahia.

(Sr. P. Henrique: E depois em Belém do Pará, junto a Nossa Senhora de Nazaré.)

No Círio.

(Sr. P. Henrique: É, e diante do Círio de Nazaré fomos também especialmente rezar pelo senhor.)

(Sr. P. Roberto: Eu estou um pouquinho resfriado ainda. Quer dizer, saindo do resfriado.)

Nossa Senhora lhe ajude, meu filho.

Meu Coronel, que Nossa Senhora lhe ajude.

Que é do nosso Guerreiro?

(Sr. Poli: O Guerreiro está doente.)

(Sr. G. Larraín: Está muito resfriado. Ele ligou para mim hoje e ele disse que infelizmente de fato estava muito, muito gripado. Não tinha voz praticamente.)

Coitado.

(Sr. G. Larraín: Então mandou dizer que não podia vir. Pediria uma bênção por ele também.)

Vamos sentar, vamos sentar.

Então, quem é que levanta uma questão, um problema.

(Sr. G. Larraín: Nós teríamos várias coisas para tratar para o senhor, enfim, os assuntos graças a Deus não faltam, salvo que o senhor tivesse algum assunto que o senhor quisesse tratar conosco.)

Não, assunto especial não.

(Sr. G. Larraín: Evidentemente que tudo está girando em torno à Reunião de Recortes de hoje sobre o ódio e também ao Santo do Dia de ontem sobre a “R-CR”, que foi uma coisa absolutamente extraordinária. Não sei se poderíamos perguntar ao senhor sobre isso.)

O que quiserem.

(Sr. G. Larraín: […] Não sei se isso está bem colocado, de um lado, e se o senhor poderia tratar disso, dessa maravilha que é a manifestação de alma da “R-CR” quando o senhor trata, portanto, a própria alma, que produz esse impressão muito “grand-retouresca”, e de outro lado o ódio. Nós vemos que os inimigos vêem isso. Quando os filhos das trevas consideram o senhor, tudo está vendo isso. O silêncio, a conspiração, a trama asquerosa, é tudo em função de que eles vêem e nós ficamos fingindo que não vemos.)

(Sr. Poli: E hoje o “flash” da Reunião de Recortes — para mim foi das Reuniões de Recortes mais “flashosas” da história — foi porque o senhor disse algo sobre o ódio. O manancial de ódio dos dois lados, mas o manancial de ódio do senhor.)

Sim, não tem dúvida.

Eu creio o seguinte: que se nós estudássemos a questão bem no seu ponto-chave, nós resolveríamos com facilidade.

O ponto é esse:

* Não se pode fazer uma separação entre o amor e o ódio, porque o amor reto leva potencialmente consigo o ódio; o ódio é uma espécie de outra face do amor

Faz-se habitualmente uma distinção entre o amor e o ódio. E essa distinção é muito legítima, mas é preciso saber por onde ela corre, senão não se entende nada. Porque no amor entra, como elemento fundamental, uma certa linha de ódio; e no ódio entra, como uma linha grossa, um certo traço de amor.

Quer dizer, não se pode fazer uma separação tão simples, quase simplória, como se costuma fazer na linguagem corrente.

(Sr. N. Fragelli: Mas no ódio e no amor retos, não é?)

Como é?

(Sr. N. Fragelli: No amor e no ódio retos.)

Retos, retos. Claro.

No que consiste o ódio no amor?

Você toma um amor reto e esse amor reto leva consigo o ódio. Você toma, por exemplo, Nosso Senhor Jesus Cristo. Então, por exemplo, os três amigos de Nosso Senhor Jesus Cristo: Lázaro, Marta e Maria. É o que se pode chamar caracteristicamente de três amigos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles, mais do que tudo, são amigos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não se pode dizer que mais do que tudo eles representam o ódio, eles representam mais do que tudo a amizade. Mas por que essa amizade era o que era, quer dizer, inteiramente profunda, tomando a eles completamente, eles não tinham em si a não ser amor por Nosso Senhor, acontecia que potencialmente havia neles uma sensibilidade especial no que tocasse o contrário do amor.

* Na medida em que o ódio não exista, não existe amor; na medida em que o amor não exista, não existe ódio

O que, aliás, existe em outras formas de amor. Por exemplo, amor materno. O amor materno é, por excelência, uma forma de amor, mas ele tem isso de característico: que a mãe tem uma potencialidade de ódio contra quem toca no filho, que é um corolário do amor. Não se pode considerar este ódio potencial da mãe como um apêndice simplesmente da capacidade que ela tem de ser inimiga. É uma coisa diferente: este ódio é uma reversão do amor, é uma espécie de outra face do amor.

Na medida em que este ódio assim não exista, não existe amor, na medida em que esse amor não exista, não existe ódio. Isto tem que ser assim.

(Sr. P. Henrique: Essa visão a respeito do amor e do ódio eu não sei se na doutrina clássica da Igreja era visto assim, ou na filosofia, na teologia, não sei, ou o senhor é que está dando essa definição, está plasmando isso agora aqui.)

Eu estou plasmando, mas à medida que eu falo estou conferindo com coisas que sei e que me parece que se identificam com isso inteiramente.

(Sr. P. Henrique: […] Quando temos oportunidade de deitarmos esse ódio, nós revitalizamos nossa vocação. Nós nos sentimos bem, inclusive fisicamente, ou mesmo psicologicamente. Quer dizer, é uma coisa sensível.)

Não, é uma coisa sensível.

Depois, isso que eu estou descrevendo, meu filho, é a experiência de nossa vida cotidiana, é essa. Todos nós sentimos isto em nós. O exemplo, como eu volto a dizer, o mais flagrante, é o exemplo do amor materno.

* O ódio em Nosso Senhor Jesus Cristo era apenas uma projeção do amor; se Ele não amasse muito não haveria ódio

Você note bem que nós poderíamos desenvolver esse exemplo com base na Bíblia de um modo muito bonito. Por exemplo, Nosso Senhor quando chorou sobre Jerusalém, comparou Jerusalém ao desejo de reunir em torno de si mesmo os filhos da cidade daí a pouco deicída, com a preocupação da galinha de reunir em torno de si os pintainhos. Ele chorou e disse: “Quantas vezes eu quis fazer isto, mas tu não quisestes!”. Quer dizer, Ele tentou isto várias vezes.

É preciso notar: havia n’Ele esse amor parecido com o materno, de uma excelência muito maior, mas também havia o ódio. No que é que consistia o ódio? É nos que queriam afastar os filhos d’Ele, d’Ele. A esses Ele tinha aversão, Ele falava contra, várias vezes durante o Evangelho, e falava com ódio.

Mas por quê? Esse ódio era apenas uma projeção do amor. Se Ele não amasse muito não haveria isso.

Por exemplo, a ovelha que se perde no carrascal. Ele fala do carrascal com uma evidente antipatia, depois Ele empreende uma espécie de guerra contra o carrascal, para arrancar a ovelha do carrascal; depois Ele, põe sobre seus ombros e a leva para longe. Quer dizer, há uma espécie de expedição militar d’Ele contra o carrascal, que é um ódio ao carrascal, mas é um ódio ao carrascal na medida em que está engajado ali o amor d’Ele à ovelha.

(Sr. P. Henrique: E a hipocrisia da Revolução de pregar só uma face desse amor, que não é um amor real, não é um verdadeiro, não é um amor reto.)

É Mons. Emery.

(Sr. P. Henrique: Não tem consistência nenhuma.)

Nenhuma. Você vai examinar aquilo, aquilo não é nada.

(Sr. P. Henrique: E o senhor foi sempre o mestre de combater isso com toda a força da alma, desmascarar a Democracia-Cristã, tudo quanto é formas de terceira força, enfim, tudo aquilo que não seja “sim-sim, não-não”.)

* Combater, e combater resolutamente, foi o que eu fiz, faço e, se Deus quiser, farei até morrer

Combater, e combater resolutamente. Foi o que eu fiz, faço e, se Deus quiser, farei até morrer.

Quando eu emprego essas fórmulas assim “eu fiz isso, faço, se Deus quiser empregarei até morrer” dá impressão de que o que está falando em mim é o ódio comum, um ódio que, por exemplo, um carroceiro tem de outro em que ele deu uma trombada:

Então, seu bandido, você não sei o quê?

Não, você é um canalha, porque bebebé — e surge o ódio.

É ódio mesmo. A tal ponto é ódio, que não raras vezes sai daí o crime, e o crime de homicídio, porque houve uma inconformidade naquela atitude, etc. Mas é muito diferente esta aversão do que é contrário ao amor meu, e o desejo de exterminar por um interesse, por qualquer coisa. Não vem ao caso.

(Sr. N. Fragelli: Parece que no senhor há um “unum” muito possante do ódio com o amor, e que os atos do senhor são impregnados por essa junção possantíssima. Às vezes é difícil de distinguir o que é a ação do ódio e o que é a ação do amor. Não sei se me engano.)

Não, às vezes deve ser difícil de distinguir.

(Sr. N. Fragelli: Por exemplo, a própria existência da TFP, o modo com que o senhor veste a TFP, o modo com que o senhor nos educa. O senhor só educa, só faz o bem, mas isso é uma tal bofetada na Revolução, pelo simples fato de existir e de aí estar, que não se distingue quase uma característica de outra.)

* Quase que não se distingue o amor e o ódio no Fundador porque um se reverte no outro

Não. Mas é porque não se distingue quase porque uma coisa reverte na outra.

(Sr. N. Fragelli: Eu tenho impressão que se o senhor idealizasse as Cruzadas, as Cruzadas não seriam como foram, teriam outras características em que este “unum” estaria mais visível.)

Eu acredito bem. Mas estariam visíveis os dois lados do unum.

(Sr. P. Roberto: Eu também estava pensando isso, porque na maneira do senhor, por exemplo, acabar com a Ação Católica, ou o “Em defesa”, ou contra a Reforma Agrária, aparece algo de uma fulguração como que divina naquilo que o senhor está fazendo, que aparece o lado da semelhança do senhor com Deus. Isso é o lado do amor.)

O lado do amor.

(Sr. P. Roberto: E é uma coisa que é patentíssima, é muito impressionante.)

(Sr. P. Henrique: Inclusive para os filhos das trevas. Eu tive oportunidade de ouvir, não faz muito, de um fazendeiro que disse: “Como é que esse homem abarca todos os universos da agropecuária, da agricultura e de tudo o que se passa no campo?” Eu disse: “O senhor sabe que ele não tem um palmo de terra e acho que nunca teve?”. Ele disse: “Mas não é possível, porque é tal o conhecimento dele…” Quer dizer, é um conhecimento divino sobre tudo o que se possa passar na vida do campo. O senhor trata na “RAQC” e em outras obras da Reforma Agrária que ele leu e chegou a essa conclusão: que o senhor tem um conhecimento total de tudo o que se pode passar na vida de um homem do campo. É impressionante!)

* O que eu sei da vida do campo está ordenado na minha cabeça de um tal jeito que tendo necessidade de movimentar aquilo que eu sei, aquilo está em ordem

Na realidade, eu mais de uma vez tenho pedido informações sobre coisas do campo, sobre um ou outro ponto, mas são informações inteiramente acessórias e adquiridas assim numa perguntinha, num salão onde eu encontre duas pessoas, etc.

Eu não posso dizer de nenhum modo que o que eu sei da vida do campo é muito, nem que aquilo constitui um sistema, mas está ordenado na minha cabeça de um tal jeito, que tendo necessidade de movimentar aquilo, aquilo está em ordem.

(Sr. P. Roberto: Por exemplo, o que o senhor faz no início da “RACQ” que descreve a vida do campo, é uma coisa que o senhor conhece mais do que qualquer fazendeiro.)

Meu filho, ali um pouco sim, porque eu fui a muita fazenda de parentes, contraparentes, e percebi o que a vida do campo tinha sido. Você vai ver bem, aquilo é muito mais a descrição do que é a vida do campo que estava acabando de ser, mas ainda era, era mais isso do que a vida do campo dos meus dias.

(Sr. P. Roberto: Não tem mais nada disso agora praticamente.)

Nada. Portanto, é uma reconstituição de uma coisa que eu conheci.

Por exemplo, para não ir mais longe:

Eu não acho bonito o Morro Alto, não acho que aquele terreiro diante do Morro Alto seja bonito, e não é, acho que em matéria de paisagem o Morro Alto é infeliz. Só aquela cacarecada de árvores que existem da entrada da fazenda até à chegada de terra é o que pode haver, em matéria de botânica, de infeliz, nem sei o quê. Dá impressão de moças meninotas que nascem com a cara torta, que precisam ir ao dentista e “N” coisas, até se poder apresentar um pouquinho. E ali não houve dentista, nada, nada, nada.

(Sr. P. Henrique: Porque a Reforma Agrária transforma o campo. Aquilo ali é uma idéia em comparação com o que são os assentamentos. O que eles conseguem fazer com a terra é impressionante. Quando a gente sai de um lugar daqueles, a gente sente que mudou o ar, mudou tudo.)

Está vendo?

(Sr. P. Henrique: E como essa natureza é terrível.)

Terrível.

(Sr. P. Henrique: Eles artificialmente ainda a transformam a ficar mais feia, mais horrível.)

* Na recusa inicial, que na minha infância fiz, já estava o ódio; mas o que houve de primeiro foi o amor dourado a Deus

(Sr. G. Larraín: O assunto que se coloca meio de começo é essa questão do ódio e do amor. […] Isso vem de um outro andar superior, que é inteiramente metafísico, sobrenatural e participado do “lumen” que o senhor disse que tinha na infância, de menino e tudo isso. Quando isso foi atingido, aquilo se transformou em ódio.)

Se transformou em ódio propriamente não. Habituou-se a ter a fisionomia do ódio.

(Dr. Edwaldo: Porque o ódio já estava em potencial.)

Na recusa inicial já estava o ódio.

(Sr. G. Larraín: Mas o mundo primeiro é um mundo todo dourado.)

Isso.

(Sr. G. Larraín: Isso sendo atingido, tocado, aconteceu o que o senhor está dizendo. […] O que é esse ponto onde se junta tudo e que parece que é aí onde tudo se choca?)

Neste todo dourado existe um amor ao ser enquanto ser, e mais profundamente um amor a Deus. No fundo é amor de Deus.

A pessoa tomada por esse amor de Deus pode ser dedilhada por alguém que ama a Deus e por alguém que não ama a Deus. Quando a pessoa é dedilhada por alguém que ama a Deus, ela ama os dedos que dedilham. Por quê? Porque no fundo ela ama a Deus.

Quando é dedilhada por alguém que não ama a Deus, ou que até odeia a Deus, ela toda reage num sentido oposto. Mas o que houve de primeiro foi o amor dourado a Deus.

(…)

* Quando bem menino, eu sentia certas coisas em mim que integravam, por assim dizer, o meu próprio ser; por exemplo, a benevolência que eu sentia com o bem que encontrasse em todo o mundo

Quando eu era assim bem menino, bem na minha inocência, eu sentia certas coisas em mim que integravam, por assim dizer, o meu próprio ser, e que eram da seguinte natureza:

Eu sentia em mim uma muito grande bondade, no sentido de que eu era bem intencionado, benévolo, alegre, com o bem que encontrasse em todo o mundo, e desejoso de encontrar diante dos caminhos de minha vida um bem onipresente em todos os lados, que fosse benévolo para comigo, que me quisesse bem como eu os queria, e que fosse benfazejo para mim como eu tinha tendência de ser benfazejo para eles.

Formava uma espécie de convívio paradisíaco que tinha isto de paradisíaco:

Eu me sentia assim, tinha alegria de ser assim, a vontade de ser a vida inteira assim, a idéia — quão ilusória! — de que a vida inteira dos homens era a vida inteira assim, e que, portanto, a vida que se estendia diante de mim, que seria a ordem natural das coisas, esta vida seria a vida como eu a sentia desta maneira.

Há alguma referência a isso, embora muito vaga, na Oração da Restauração. De um modo geral aquela atmosfera da Oração da Restauração, atmosfera primaveril da vida espiritual, era toda ela feita nessa linha.

* Olhando para dentro de mim mesmo eu me sentia tão bom, quanto me parecia sentir bom os outros; tão benfazejo, quanto me sentia ser benfazejo para com os outros

A questão é que olhando para dentro de mim mesmo eu me sentia tão bom, quanto me parecia sentir bom os outros, tão benfazejo, quanto me sentia ser benfazejo para com os outros. Era, portanto, uma espécie de harmonia global, da qual eu seria um fragmento, não um fragmento quebrado, mas um fragmento vivo, como, por exemplo, um galho de uma planta é um fragmento da planta. É quebrado, mas é um prolongamento natural da planta aquele galho. Assim, de toda esta ordem universal eu me sentia como que um galho.

Essa sensação — vou ser ridículo, mas é assim que eu via as coisas — se estendia à minha impressão sobre o meu próprio físico. Quer dizer, vendo-me no espelho — o que eu fiz várias vezes — para ver se eu era mesmo como me pareceria ser, eu tinha impressão de que era.

Tudo isso junto evidentemente não posso dizer que girasse em torno de mamãe, mas se nutria largamente do exemplo de mamãe, da pessoa de mamãe. Ela era toda ela assim dourada, em tudo dela. O que explicava aquele amor que eu tinha a ela e que conservo até nossos dias.

O que sentem os rapazes do Grupo com as fotografias dela se encaminha nessa linha.

* O meu ódio nasceu no modo pelo qual me revelaram a existência da sexualidade; descrição da cena

Agora, vem o ódio. Vocês se reportem simplesmente à primeira cena em que me revelam a existência da sexualidade. O modo pelo qual essa cena se revelava.

Quer dizer, eles formavam uma rodinha… vocês vão dizer que eu estou me atendo a futilidades, mas vamos conversar.

(Sr. G. Larraín: Essa é a descrição do mundo a partir do ódio. É uma maravilha isso.)

Começava por aí:

Era proibido no jardim de vovó — e em todos os jardins de casas onde há crianças — que as crianças brinquem andando sobre o canteiro. O jardim tem umas alamedasinhas, umas coisas feitas para a criança brincar, mas no canteiro não pode brincar. E eles não brincavam nisso, ninguém brincava.

Neste dia esta confraternitas sceleris estava reunida toda ela sobre o canteiro, num lugar proibido, esmagando gramas com uma naturalidade e uma espécie de prazer da ilegalidade. E se sentia neles: “É ilegal, mas é bom assim, porque nós estamos dando um rumo às coisas que vai por aí.”

Isto é muito mais do que ter cuidado com uma grama. É um caminho da vida, é um modo de viver as coisas. Isso eu senti muito.

Depois eles queriam que eu fosse até onde eles estavam, mas eles não queriam vir onde eu estava: “Venha cá, venha você aqui. O que é isso?”. Eu não queria ir. Eles acabaram me atraindo, e eu para evitar uma briga boba fui para cima do gramado. Era uma primeira concessão que eles obtinham de mim. Eles em cima do gramado.

(Dr. Edwaldo: Diabólico, não é?)

Como?

(Dr. Edwaldo: Diabólico.)

É, é. Por isso é que eu tenho esperança que vocês não considerem tudo isso futilidade.

(Sr. N. Fragelli: Ao contrário, simbólico.)

* Descrição do estado de espírito de velhacaria assassina

Quando eu cheguei perto, eles que estavam falando baixinho, manifestavam no olhar alguma coisa de inteiramente diferente do olhar comum deles.

Quer dizer, eles falavam baixo, o que nunca faziam, toda a criança fala alto. Eles estavam falando baixo para não serem ouvidos pelas outras crianças que estavam por ali. O que eles diziam punha o estado de espírito deles numa situação que eu chamaria assim — a palavra é muito carregada, tomada ao pé da letra ela é muito carregada, é exagerada, mas é o que eu encontro para dizer — de uma espécie de velhacaria assassina. Eles se olhavam uns aos outros como quem diz: “Você continua solidário? Você também? Você também? Você também? Então nós todos estamos iguais num ponto sobre o qual conversávamos há pouco?”

Depois todos eles, como em geral na família de mamãe, tinham olhos marrom-escuro, [que] era a cor dos olhos de mamãe. Até um pouco mais escuros que os de mamãe. Mas, afinal, eles no se entreolharem, os olhos ficavam ainda mais escuros e relampagueavam um pouquinho. Eles tinham um riso sardônico que achava engraçado o que eles estavam dizendo e que ia acontecer uma coisa a partir do momento que eles me dissessem algo, um acontecimento ia dar-se.

Eu estava a léguas disso, de maneira que fui entrando como você pode imaginar, todo dourado dentro do negócio.

Então um deles me disse:

* Tentativa diabólica de quebrar a visão dourada na alma do Fundador: “Você ainda é desses bobos que acreditam que cegonha traz criança?”

Você ainda é desses bobos que acreditam que cegonha traz criança?

Eu fiquei meio surpreso com a pergunta, porque me tinham dito e eu não tinha posto em dúvida nem tinha consentido, ficou pelo ar. Eu fiquei assim meio na dúvida e disse:

Propriamente não.

Gargalhada geral:

Está vendo? Ele é bobo, ele acredita que vem uma cegonha pelo ar trazendo uma criança. Naturalmente se disserem para ele que foi uma cegonha que trouxe a ele, ele acredita.

Eu tomei uma atitude de alma assim… no primeiro momento. Mas no segundo momento:

Realmente é pesado. Um meninaço como eu carregado por uma cegonha e não quebra o bico da cegonha? E não cai a criança no chão? E depois como é que chega a cegonha? Nunca no ar eu vejo uma cegonha trazendo uma criança? Como é que é esse negócio?

Hahaha! Hahaha!

É, realmente talvez não seja. Eu precisava… não sei, não sei.

Você é bobo, criança nasce. Você não sabe como você nasceu? Todos nós nascemos assim, nasce de tal maneira assim, do pai e da mãe. O pai e a mãe se conjugam por meio de um tal ato, que é posto por tais órgãos, que têm tal efeito genético, que produz depois a formação da criança, e depois o resto do negócio. Você nasceu assim, tio João Paulo e tia Lucilia tiveram você assim.

Isso não!

Quaaaa-qua-qua! Isso não por quê?

Mamãe não faria uma coisa dessas!

Não faria? Olha aqui: fez! Mas, olhe, não pergunte para ela, porque se você perguntar [ela] vai depois ficar zangadíssima conosco.

Diz um deles:

Vai falar com papai — era irmão de minha mãe, então ela ia falar com o irmão — e papai — que era um homem muito enérgico e iracundo — vai me liquidar. Você não fale com tia Lucilia, mas você vá vendo as coisas, vá observando. Você acaba vendo que nós temos razão.

* Não é possível que o não dourado tenha destruído o dourado e que o dourado no mundo seja uma fantasia: nasce de uma mesma sorgente o ódio e o amor

Aí, nesse momento, pôs-se uma interrogação no dourado. Quer dizer: “Se isto é assim, o dourado não é todo dourado. Se o dourado não é todo dourado, mamãe, não é toda dourada. O dourado no fundo existirá? O que será? Não, não, não, o dourado existe, de qualquer maneira existe, não pode não existir. O mundo seria muito feio e muito diferente do que é se houvesse muitas coisas com este jeito”.

[Vira a fita]

solitário naquele quarto que está lá, por exemplo, cada um diante do outro: “Vocês me ensinam como é”.

Se eu tivesse pensado em fazer isto a coisa mudava.

Daí uma espécie de bifurcação, e eu pensar: “Há coisas no mundo que, por circunstâncias que eu não sei quais são, foram criadas por Deus, mas não são douradas. Há coisas que Deus criou e que são douradas, e há coisas que não são douradas e que Deus não criou. Eu preciso não pôr diante dos olhos as coisas não douradas, porque o que eu quero saber é como é o mundo do dourado. O resto eu ponho de lado, depois, um dia, se verá. Mas não é possível que o não dourado tenha destruído o dourado e que o dourado no mundo seja uma fantasia. Isso não é possível”.

Aqui, neste ponto, vocês vêem bem, de uma mesma sorgente, nascer o ódio e o amor.

Não sei se é necessário desenvolver.

(Sr. N. Fragelli: Sim, sim, seria bom.)

* Outras coisas que me separavam da Revolução; por exemplo, a casa de um italiano que tinha uma sala de tomar café da manhã toda feita de vitrais

Aí eu comecei a notar outras coisinhas que me separavam deles. Por exemplo, o seguinte:

No meu caminho para o São Luiz passava-se por uma casa que eu creio que não existe mais hoje, não tenho certeza. Era uma casa de um italiano, que se via que tinha sido um homem de meia fortuna, mas que com o tempo se tornou abastado. Ele tinha toda a casa dele, depois, como um apêndice da casa, suspenso sobre colunas que davam no jardim, ele tinha uma espécie de sala de tomar café de manhã, toda ela feita de vitrais. Vitrais que não eram vidros transparentes, eram vidros coloridos. Via-se que dentro era uma espécie de câmara de luz, que as mais variadas cores, por causa dos vitrais, se deixavam entrever lá, e que o café da manhã tinha uma alegria e tinha um bom apetite que decorria disso.

Sempre que eu passava por aquela casa gostava de olhar e de imaginar como seria bom que aquela casa fosse de papai e mamãe, para eu poder tomar café de manhã lá.

Isso era eminentemente dourado. Não era questão de comer o café da manhã.

(Sr. G. Larraín: Claro, mas a impostação.)

É.

Eu tinha vontade de, com meninos do colégio que passavam por lá comigo, chamar atenção: “Olhe aquilo que agradável, que bonito.”

Mas eu percebia duas coisas:

* Cada vez mais ia se abrindo uma bifurcação; nessa bifurcação cada vez mais o amor e o ódio

Primeiro, que o deitar atenção numa coisa daquelas levantaria um ódio geral contra mim, não podia ser. Em segundo lugar, uma caçoada:

Você presta atenção nisso? Isso não vale nada, é menina que presta atenção nisso. E nem elas, é na sua cabeça que está aparecendo isso. Isso é uma bobagem, esses coloridos e tudo isso é uma bobagem, não pense nisso.

Então dizer:

Eu penso no quê?

Não pense em nada. Ande por aí, vá vendo tudo sem pensar em nada, recebendo as coisas como elas são sem pensamentos nem nada, e vivendo! Pensar é elevar-se para uma esfera, a partir da qual se parte para outras, e não é bom.

Daí brincadeiras:

Como é, você já tomou o café hoje na casa do Carcamano? Você já pediu para seu pai construir um jardim de inverno na sua casa? Quá-quá-quá! — e daí para fora.

Você está vendo que ia cada vez mais se abrindo uma bifurcação. Nessa bifurcação cada vez mais o amor e o ódio.

Aqui estaria um golpe de vista de conjunto.

(Sr. P. Henrique: […] A Revolução odeia exatamente esse “pulchrum”, ela prega o horror, o contrário, da ordem estabelecida por Deus, de tudo o que decorre daí. Então a gente vê que esse amor — para voltar ao começo da reunião — está intimamente ligado a esse ódio, porque eles têm que andar juntos, aparelhados, senão há um descompasso entre uma coisa e outra.)

* O “puchrum” é amor e o amor é “pulchrum”; pelo contrário, o gosto pelo não “pulchrum” vem com uma espécie de resina de ódio que dá no feio

Depois o pulchrum é amor e o amor é pulchrum. E, pelo contrário, o gosto pelo não pulchrum vem com uma espécie de resina de ódio que dá no feio.

Não sei se eu me estou exprimindo bem.

(Sr. P. Henrique: Não, está claro sim.)

Daí uma cisão que veio, enfim, em descompasso. Mas se vocês procurarem notar acabarão vendo o seguinte: que a TFP é pulchra, ela procura o pulchrum em tudo, e ela o obtém.

Um de nós com o hábito da Contra-Revolução é um pulchrum como a caixa de cristais do italiano rico.

(Sr. G. Larraín: E tem algo de meio angélico.)

Tem qualquer coisa de angélico.

(Sr. G. Larraín: Uma coisa que também está muito ligada à vocação do senhor, é angelizar as coisas.)

Isso, angelizar.

(Sr. G. Larraín: Eu não entro no alardo por razões de saúde ainda, mas o alardo…)

É uma coisa linda!

(Sr. G. Larraín: O alardo é lindo, mas é um alardo angélico.)

Isso.

(Sr. G. Larraín: Evidentemente que os hábitos levam a coisa longíssima, porque se não fosse pelos hábitos…)

E o estandarte.

(Sr. G. Larraín: O estandarte e os eremitas de hábito, aquilo tudo é uma coisa que é humano-angélico, digamos. Tem uma coisa assim.)

Exatamente.

(Sr. G. Larraín: Ontem eu estava no Praesto Sum antes do senhor chegar, e é muito curioso, porque o ambiente do Praesto Sum e de São Bento são extraordinários. Ou seja, a seu modo. E nesse sentido justamente, de uma desinfestação, há um bem-estar…)

* Com a vocação uma vez aceita, o plantio do “Grand-Retour” está feito; a questão é fazer crescer a planta

Há um orvalho de verum, bonum, pulchrum naquelas árvores do Praesto Sum…

(Sr. G. Larraín: E justamente Praesto Sum é diferente de São Bento.)

É.

(Sr. G. Larraín: […] Como chegar nós ou a TFP a um convívio de alma com o senhor que seja nesse mundo dourado. Também para os eremitas se aplica num grau, todos temos que melhorar. Mas que isso se dê de tal maneira, que nós possamos chegar ao Grand-Retour. Porque parece que o Grand-Retour está por aí, nesse dourado.)

Está.

(Sr. G. Larraín: Nesse dourado e nesse ver ao senhor assim, e que de repente algo aconteça por onde a pessoa fique um tanto assim. Eu não sei se é assim mesmo, se não é. O que o senhor vê nisso?)

(Sr. P. Roberto: Quando nós conhecemos o senhor algo disso foi uma surpresa, porque a gente não imaginava que houvesse no mundo alguém que fosse assim. […] O senhor foi uma surpresa de uma coisa angélica, de uma coisa assim que nunca se poderia imaginar que pudesse existir. E como que aquilo nos banhou numa coisa que a gente imaginava que não podia existir mais. Mas naquilo ali já havia algo de uma semente do Grand-Retour que o Sr. Gonzalo está dizendo.)

Sim, já havia.

Vamos dizer mesmo o seguinte: que com a vocação uma vez aceita, o plantio do Grand-Retour está feito. A questão é fazer crescer a planta.

(Sr. P. Roberto: Quer dizer, a gente não abafar a planta, porque a planta está aí, não é?)

Está aí.

(…)

E posto o convite: “Saia de cima do canteiro porque você não é assim”, [digo] “não”.

(Sr. G. Larraín: Aí é que está o problema.)

Porque se eu me puser de acordo com os primos que estão no canteiro, entra em mim outras coisas. Não são luzes, mas são trevas que piscam. E eu não quero renunciar a esse piscar das trevas para conservar as luzes, então começa aquilo.

(Sr. G. Larraín: Depois a noção de que o dourado não é eficaz.)

Aí começa todo o resto.

(Sr. G. Larraín: […] Porque o senhor é eficacíssimo, mas é outra eficácia, é uma eficácia que vem do dourado.)

Vem do dourado, e é outra coisa.

(Sr. G. Larraín: Como o senhor veria isso de Grand-Retour, esse mundo dourado, a degustação disso e a união de alma com o senhor assim? Digamos, “ahorita-ahorita”, posto que estamos na Bagarre, já entrando.)

* A “Bagarre” já é o dia de hoje; análise da atitude dos espanhóis de ontem e de hoje face ao comunismo

Entrando.

(Sr. G. Larraín: Porque não adianta vir com histórias.)

Entrando. A Bagarre é o dia de hoje já.

(Sr. G. Larraín: Se é que não estamos lá dentro.)

A Bagarre já é o dia de hoje.

(Sr. G. Larraín: É evidente. E a gente vê que sem isso não há nada.)

Nada.

(Sr. G. Larraín: E com isso há tudo. […] Não sei como o senhor veria isso, essa comunicação de alma nessa clave com o senhor.)

Por exemplo, o grupo de Madrid, nas comunicações que está nos mandando sobre o estrondo, mandou a seguinte comunicação:

Há anos, desde o Franco, se faz tudo para que a Revolução de 36 ou coisa que o dera, enfim, a Revolução Comunista, seja esquecida, não se fale mais dela, e se fale apenas do dia de hoje. A contra-revolução franquista esquecida também, fala-se apenas do dia de hoje e está acabado. E quem procurasse restituir vida ao mundo Franco ou anti-Franco, este estaria completamente fora do jogo.

Mas agora os espíritos estão mudando, e que, por exemplo, em Barcelona, numa grande praça pública, estão filmando com grande encenação a Revolução Comunista, com todos os assassinatos, crimes, incêndios de imagens, de igrejas em grande estilo, para depois ser representada em teatros, em cinemas, no que você possa querer.

Isto aqui já não é mais… você já está vendo o resto.

(Sr. G. Larraín: Não, é bom o senhor dizer.)

Quer dizer o seguinte: se era verdade que representando tudo dava vida a tudo e era preciso não representar, é verdade que representando dá vida.

O que é em última análise?

(…)

* Se começar uma altercação, as pessoas só tomarão uma posição digna de “Grand-Retour quando forem atingidas e compreenderem que o dourado existe na vida

Você me pergunta o Grand-Retour nisso. Eu digo o seguinte: como estão as coisas nesse instante, se houver uma cisão e começar uma altercação, as pessoas da Holanda continuarão inteiramente como estão, inteiramente. Elas só tomarão uma posição digna desse nome quando atingir a elas, e por algum lado elas compreendam que coisas mais altas estão atingidas e que o dourado existe na vida.

Aí pode haver o Grand-Retour.

(Sr. G. Larraín: Aí é o Grand-Retour do gênero humano, digamos.)

Do gênero humano.

(Sr. G. Larraín: E no Grupo isso…)

Um pouco mais cedo talvez.

Por exemplo, ontem à noite aquele negócio das mil cartas, aquilo é uma coisa de você não saber o que dizer. Mas aquilo é…

(Sr. Poli: É sim.)



(Sr. G. Larraín: Depois eles não conseguem do outro lado… Está mostrado uma coisa aí.)

Está, está.

(Sr. G. Larraín: Uma espada foi desembainhada.)

Claro.

(Sr. G. Larraín: Justamente nisso tudo a gente vê que ou isso é tocado, concretamente lá, em função do dourado, e que provavelmente certas pessoas vão querer desviar para uma cor que não é propriamente dourado, mas é uma espécie de cor parda…)

Vão.

(Sr. G. Larraín: Porque a questão toda vai ser depois manter o dourado de pé e ir dourando cada vez mais. Portanto, apresentando mais a pessoa do senhor e tal. Tem que ser, porque senão eles vão tentar, a tripingança, de fazer uma coisa…)

Nem sei o quê.

Mas me dá vontade, antes de encerrar… Porque eu receio, meus caros, que esteja um pouquinho tarde.

Que horas são agora?

(Sr. G. Larraín: Já são duas e meia.)

(Sr. Poli: O senhor começou mais cedo hoje.)

Duas e meia?

(Sr. G. Larraín: Sim.)

* “A espada de Carlos é o fundamento dos Mandamentos”: isso é douradíssimo

Eu preciso confessar que estou muito cansado. Mas contar uma coisa dourada que o Andreas me mostrou de uma coletânea de frases antigas que ele arranjou lá no São Bento.

Sobre a espada de Carlos Magno está gravado o seguinte: “A espada de Carlos é o fundamento dos Mandamentos”.

(Sr. G. Larraín: Isso é douradíssimo, não é?)

Isso é douradíssimo.

Aliás, ele é o Carlos de ouro, não é?

(Sr. G. Larraín: Sim, mas tem alguém que está à direita dele, não é? Porque nós somos especialistas em ficar em nós, de maneira que temos que fazer um “agere contra”.)

Meus caros, eu sou obrigado a pedir licença.

(Sr. G. Larraín: Senhor, sabe que tem uma foto aqui que o senhor vai gostar. Eu sei que é tarde, mas o senhor não viu ainda. São duas fotos que me mandaram, são umas fotos do senhor com o Sr. Horácio em Amparo. Aqui está ele olhando para o senhor.)

Olhando muito atentamente.

(Sr. G. Larraín: Ele está olhando o ouro mesmo. E esta também. Eu depois queria mandar aumentar — não sei se o senhor queria — e dar para o senhor.)

Gostaria que você me mandasse fazer duas também.

Mas essa é a mesma fotografia.

(Sr. G. Larraín: Não, é um pouquinho diferente a posição dele. Ele nesta está um pouquinho mais sorridente, e nesta está um pouquinho menos. O senhor estava voltado aqui para o outro lado.)

Que lugar é esse aqui?

(Sr. G. Larraín: Isso é na sacada de Amparo.)

Na sacada de Amparo, é?

(Sr. G. Larraín: Sim, senhor. É uma foto que dá muitas saudades, porque justamente…)

Muita, muita, muita.

(Sr. Poli: Ele gostava muito do dourado do senhor, não é?)

Eu acho que ele compreendia bem, não é?

(Sr. G. Larraín: Gostava do ninho do passarinho e todo esse mundo.)

Todo esse mundo.

(Sr. P. Roberto: Parece que ele vivia no dourado do senhor.)

Isso, isso.

Ai, ai, ai, ouviu?

Bem, vamos rezar?

(Sr. G. Larraín: Que o senhor nos dê essa graça de poder viver nisso, pelo amor de Deus, porque é o único que vale a pena.)

Isso.

Há momentos, minha Mãe…

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