Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 5/8/95 – Sábado – p. 12 de 12

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 5/8/95 — Sábado

Comentários das fotografias do Sr. Santiago Canals: ele está sofrido, e se nota em sua pessoa um equilíbrio raríssimo de encontrar * O caso do Sr. Santiago é um exemplo de como Nossa Senhora ajuda nas más horas * Primeiro elemento que compõe o conjunto das vitórias do Fundador: discernimento dos espíritos tem por objeto as situações criadas pelas inter-relações entre as pessoas * Com o Grupo da Venezuela, um exemplo do discernimento dos espíritos do Fundador tendo por objeto as situações criadas pelas inter-relações entre as pessoas * Analisando o ambiente da Quinta Morella o Fundador percebeu que tal ambiente marcava uma porção de modos dos venezuelanos verem São Paulo e as relações com a Rua Pará * Na ofensiva do estrondo eu relacionava as relações deles com os fatos que se passavam; por exemplo, que eles estavam jogados na rua da amargura pelas famílias deles e toda a cidade * A situação tomou seu auge quando João Paulo II noticiou a sua ida à Venezuela e veio logo um descobrimento de uma pretensa conjuração da TFP para assassinar João Paulo II * “É mais do que nunca a hora de fugir, porque aqui está em cena a vida de todas as TFPs”; histórico da saída dos venezuelanos para a Colômbia * Cada um desses lances exigia todo um conjunto de discernimento de espíritos, de compreensão da situação local coletiva, como estava a mentalidade deles e como é que estavam as tentações do demônio

* Comentários das fotografias do Sr. Santiago Canals: ele está sofrido, e se nota em sua pessoa um equilíbrio raríssimo de encontrar

Eu queria mostrar para vocês as fotografias do Santiago Canals.

Vocês tiveram ocasião de ver ou não?

(Sr. Poli: Não, não, senhor.)

Talvez vocês gostassem de ver.

Vai passando aí de um em um.

Se quiserem acender a luz central é à vontade.

(Sr. Guerreiro: Fotografias dele no hospital, é?)

(Sr. F. Antúnez: No hospital. Na prisão.)

(Sr. P. Roberto: Mas, em todo o caso, com muita paz. Parece, não é?)

Muita paz.

Ele disse que teve lá no hospital — manicômio propriamente, não é? — tantas consolações espirituais, que ele chega a ter saudades do manicômio.

(Sr. Guerreiro Dantas: Nossa Senhora!)

(Sr. P. Roberto: De qualquer maneira parece que ele sofreu muito também, não é?)

Ah, sofreu, ele está sofrido. Mas é natural. Não há um de nós que não saísse sofrido dessa história.

Agora, uma coisa que a gente olhando essa cara não pode deixar de comentar consigo, é como se pode achar que esse rapaz está louco.

(Sr. F. Antúnez: É má fé absoluta, uma coisa indignante.)

Absoluta.

Vocês estão vendo que o que tem é, pelo contrário, um equilíbrio raríssimo.

(Sr. P. Roberto: O acerto das respostas que ele deu é impressionante, não é?)

Impressionante.

(Sr. Guerreiro: Depois a postura do corpo, não é?)

Como, meu filho?

(Sr. Guerreiro: O “maintien” do corpo, a postura, é de um homem muito equilibrado, não é?)

Enormemente.

(Dr. Edwaldo: Se se pusesse a foto dele com o tal monstro lá que estava fazendo interrogatório se viria bem qual é o mais equilibrado.)

* Não é raro psicopata ficar psiquiatra

Hahahaha! É claro.

Eu ouvi dizer — você talvez tenha uma idéia disso — que não é raro psicopata ficar psiquiatra.

(Sr. Guerreiro: E psiquiatra ficar psicopata.)

É comum, não é?

(Dr. Edwaldo: É comum e são os que mais se suicidam. Dentro das especialidades médicas, os psiquiatras são os que mais se suicidam.)

Eu não entendi. Como é que é?

(Dr. Edwaldo: Dentro das especialidades médicas, os que mais se suicidam são os psiquiatras.)

São os psiquiatras, é?

(Dr. Edwaldo: É.)

Bom, é porque são meio psicopatas.

(Dr. Edwaldo: É. E depois é o que entra também aí, porque eles entram em contato com muita gente endemoninhada mesmo.)

É.

(Dr. Edwaldo: Que influências eles sofrem e tal?)

É.

(Sr. P. Roberto: Aqui eles traíram, porque colocaram “Plinio no”…)

Fizeram o quê?

(Sr. P. Roberto: Colocaram “Plinio no”. É a mesma coisa que dizer “pourquoi pas”, não é?)

Eu não ouvi.

(Sr. P. Roberto: “Plinio não”.)

(Sr. M. Navarro: É o “Plinio pourquoi pas”.)

Plinio pourquoi pas.

(Sr. Poli: E está chegando a hora.)

Ah?

(Sr. Poli: Está chegando a hora, não é?)

Vamos ver. Isso é a Providência que resolve.

(Sr. Guerreiro: São tantas fotografias. Nós podemos ver depois.)

* O caso do Sr. Santiago é um exemplo de como Nossa Senhora ajuda nas más horas

Eu queria que vocês vissem… são essas as principais. [Eu queria] que estivesse ao alcance de vocês de terem visto bem, porque é uma coisa que é até formativa, ouviu?

(Sr. P. Roberto: Faz muito bem ver isso, senhor.)

Faz bem, não é?

(Sr. P. Roberto: É. Porque ontem, por exemplo, só o início daquele filme é uma coisa…)

É uma espécie de filme.

(Sr. P. Roberto: Fazia bem aquilo ali, era uma coisa impressionante como ele resistiu bem a todos os sofrimentos que ele passou. Foi uma coisa extraordinária. A gente vê a assistência que se tem nessas horas, não é?)

Isso. Como Nossa Senhora ajuda nas más horas, ouviu?

(Sr. P. Roberto: E o que resultou daí também foi uma coisa extraordinária. Aquilo que o senhor falou da divisão das duas Espanhas.)

Ah, isso…

Você assistiu o jornal-falado de ontem?

(Sr. P. Roberto: Assisti. Pois é, é por isso.)

Você viu ali como a nobreza catalã está cindida, não é?

(Sr. P. Roberto: Cindida. Estávamos comentando até que provavelmente se não fosse o Livro da Nobreza não teriam tido essa adesão que estão tendo agora, não é?)

Isso.

E as quatrocentas cartas de padres?

(Sr. P. Roberto: Pois é isso.)

É uma coisa extraordinária. Quatrocentas cartas é uma coisa extraordinária.

(Dr. Edwaldo: E virão mais.)

Já terão vindo mais, não é? Já estarão bem mais.

(Dr. Edwaldo: Porque é muito pouco tempo.)

Pois é.

(Sr. Guerreiro: Quatrocentas cartas de padre e o assunto está liquidado, não é?)

Haverá muitos padres do lado de lá que são esquerdistas, isso existe também.

Meu filho, você quer me chamar o rapaz com a cadeira?

(Sr. F. Antúnez: Sim, senhor.)

A questão é que essas coisas não são tão simples.

Quatrocentos de cá, quatrocentos de lá, fica uma massa neutra, mas essa massa neutra acaba se cindindo também.

Eu já venho.

(…)

Quem é que põe uma pergunta?

(Sr. Poli: O Sr. Guerreiro tem a pergunta, senhor.)

Diga, então, meu Guerreiro. Qual é a sua pergunta?

(Sr. Guerreiro: Um assunto que nós ficamos conversando antes da reunião nasceu a propósito de considerações que nós vamos fazendo sobre profetismo.)

Sim.

(Sr. Guerreiro: Nos veio um pouco a propósito da questão da Espanha. […] No caso da Espanha agora a gente vê que se o senhor não tivesse pessoalmente cuidado do assunto, a TFP teria naufragado nessa situação. No caso da Venezuela foi o senhor que tirou os rapazes na última hora de lá. O senhor mandou sair e a casa caiu em cima deles. E várias outras situações, em que são situações dificílimas, o senhor coloca o olho, começa a trabalhar, há uma força na ação que o senhor empreende, há uma precisão de como o senhor vê a situação e interpreta, que sem isto, que é a parte operacional do profetismo, o profetismo não existiria.)

Não.

(Sr. Guerreiro: E se tivesse apenas a parte metafísica, religiosa, essa visão “tal enquanto tal” seria um profetismo em matéria da cogitação. Mas o profeta é aquele que impera, que conduz e que leva para os rumos que a Providência deseja.)

Isso.

(Sr. Guerreiro: Então, este operar do profetismo nos fatos, nas situações, nas dificuldades as mais variadas, tudo isto é uma parte da alma do senhor e que está na natureza da matéria. O senhor quase não trata disso conosco. O senhor tem a Comissão B em que o senhor já deu traços muito gerais.

Mas dentro da questão da opinião pública há depois o problema das lutas quase que pessoais que o senhor tem com o adversário, e como é que o senhor se arranja nessa situação, como é que o senhor se defronta com o adversário nisto. Isso tem também uma beleza muito extraordinária. […]

Eu não sei se o senhor gostaria de tratar disso, se o senhor pudesse nos dar os princípios gerais desse assunto, depois como é que é isto. Porque, realmente, a gente vê um acerto no ver, uma energia, uma força, que os fatos no fundo retomem aquela direção que o senhor desejava e que vê que é necessária, que isso é uma coisa realmente extraordinária. Ela tem menos, digamos, atrativo do que os assuntos metafísicos, religiosos e culturais, mas é de fundamental importância.)

Sem isso nada anda.

(Sr. Guerreiro: Nada anda.)

Nada anda.

(Sr. Guerreiro: A TFP seria um conjunto de monges de estudo, uma entidade católica de estudos. Seria extraordinária.

Esta é uma parte que seria muito interessante o senhor tratar, mesmo porque […] é um gênero de ação que nunca nenhum homem empreendeu. Quer dizer, nunca nenhum homem empreendeu o gênero de ação que o senhor empreendeu. Então a gente percebe que o senhor é um desbravador disso, é um pioneiro desse assunto. […])

* Primeiro elemento que compõe o conjunto das vitórias do Fundador: discernimento dos espíritos tem por objeto as situações criadas pelas inter-relações entre as pessoas

Meu filho, o conjunto de nossas vitórias faz-se dos seguintes elementos:

Antes de tudo e mais nada, um discernimento dos espíritos que não tem por objeto apenas a pessoa, mas tem por objeto as situações criadas pelas inter-relações entre as pessoas.

Por exemplo, eu tenho aqui seis filhos. Me parece que conheço bem esses seis filhos. De outro lado, também é verdade que uma coisa é o modo pelo qual eu vou expor a resposta à sua pergunta porque são esses os seis filhos que estão presentes. Se estivessem aqui mais alguns outros eu procuraria dar uns outros matizes que eu não dou estando esses seis. Daí decorre que cada grupo de pessoas, ainda que pessoas muito chegadas umas às outras pelas idéias, pelos ideais, por tudo quanto nos aproxima e faz de nós um só, ainda que muito chegadas, as diferenças de matiz estabelecem conjuntos que são muito distintos e que formam como que uma mentalidade de um só.

Então, por exemplo, para mim os que estão aqui formam uma só mentalidade, que é diferente se entrasse mais um outro.

Isto é uma coisa formada com muita facilidade, quase intuitivamente, e outra coisa é guardada na memória com uma facilidade também muito, muito grande.

De maneira que, a respeito de um mundo de situações, eu tenho ao alcance da mão como que as fotografias de todas essas situações. Tendo-as em mãos, com muita facilidade eu discirno não só a mentalidade de cada um, mas a espécie de mentalidade coletiva que isto forma.

Depois tem que esse grupo com que eu estou tratando aqui, em muitas eventualidades é possível que tenha que agir juntamente comigo perante terceiros. Então eu tenho que saber os terceiros quem são, eles que grupo formam, que mentalidade formam, como é que é essa coisa. E assim poder imaginar este grupo em luta ou em colaboração com aquele outro grupo, como é que se estabelecem espontaneamente as lutas e as colaborações. Daí discernir o plano segundo o qual, por exemplo, eu devo orientá-los na luta ou na colaboração.

Não sei se eu estou claro na coisa.

(Sr. Guerreiro: Sim.)

* Com o Grupo da Venezuela, um exemplo do discernimento dos espíritos do Fundador tendo por objeto as situações criadas pelas inter-relações entre as pessoas

Agora, isso é quase indescritível, não há descrições para isso.

Eu posso, por exemplo, tomar — você falou da Venezuela — o caso da Venezuela.

Eu conhecia muito bem o Carlos Antúnez e conhecia menos bem — porque com menos intimidade, com menos contatos — os demais componentes do grupo dele, que havia estado em São Paulo umas três ou quatro vezes, mas eu havia estado com eles várias vezes durante essa temporada. O grupo de São Paulo era muito menor, as minhas ocupações eram muito menores, e eu tinha tempo para tomar com certos grupos assim um contato mais detalhado, mais profundo. Via, inclusive, o modo do Carlos tratá-los como era e como é que estava no jeito deles serem tratados.

Eu me lembro que uma vez, na minha sala da Rua Maranhão, eles estiveram com o Carlos. Falamos, depois eles se levantaram para sair, e o Carlos ia ficar um pouco na sala. Na medida em que eles se levantavam para sair, eles me cumprimentavam, eu os saudava também, e eles saíam. Mas havia uma espécie de pequeno interstício pelo qual entre um e outro ficava um pouco de tempo que eu aproveitava para perguntar ao Carlos pormenores sobre este e aquele. Tanto mais quanto eles tinham estado pouco aqui e eu nem sabia o nome deles. Se eu não soubesse o nome, eles saindo, eu não podia dizer ao Carlos: “Este é assim, aquele é assado”, como é que é, e como não é.

Então eles iam passando e eu perguntava ao Carlos baixinho: “O nome desse como é? E daquele outro como é?”. E às vezes dava um apelido para ficar depois na conversa entre nós. O Carlos guardava isto, porque assim ficava mais cômodo tratarmos das coisas deles.

Passou diante de mim aquele Rugeles e eu disse para o Carlos, baixinho naturalmente:

E esse boca-mole, como é que chama?

O Carlos deu uma gargalhada e eu disse a ele:

Pssit! fique quieto porque ele presta atenção.

Ele vai ficar contento.

Não vai ficar contento nada. Deixe ele sair.

O Carlos saiu com eles, depois, daí a pouco, voltou e disse que ele perguntou ao Carlos o que é que eu tinha perguntado dele. [Ele disse] que eu tinha perguntado do boca-mole e que ele ficou contentíssimo de ser chamado boca-mole.

De lá para cá às vezes eles e o Carlos se referiam a ele como o boca-mole. Não sei se também entre eles, mas ficou assim.

Está vendo que é uma mentalidade. Muito outro não gostaria de ser chamado boca-mole. Você vê o estado de espírito qual é, só numa coisinha.

Assim, um por um a coisa vai tocando.

* Analisando o ambiente da Quinta Morella o Fundador percebeu que tal ambiente marcava uma porção de modos dos venezuelanos verem São Paulo e as relações com a Rua Pará

Eu achei que aquela Quinta Morella que o Carlos comprou, que ficava colocada num alto de uma espécie de montículo de Caracas e que, pelo que eu tive impressão, era para Caracas mais ou menos o que o edifício do Club São Paulo, na esquina da Rua Higienópolis com a Da. Verediana, é para São Paulo. Era assim um sumum.

Eles se instalaram lá com muito contentamento, puseram objetos, compraram coisas, etc. Mas eu notei que toda a Quinta Morella, ou quase toda, era feita de um material muito barato. Enquanto na casa do Antônio Prado tudo é boiserie e mármore, na casa da Quinta Morella era granilite e madeira comum, mas assim com pretensões a faustoso. Os móveis que eles tinham comprado estavam na linha daquela coisa.

Eu percebi bem que formavam um total que eles julgavam que era faustoso, que para a cidade de Caracas era faustoso, mas que, na realidade, não era.

Isso marcava uma porção de modos deles verem São Paulo, de verem as relações deles com a Rua Pará e uma porção de coisas em seguida a isso.

* Na ofensiva do estrondo eu relacionava as relações deles com os fatos que se passavam; por exemplo, que eles estavam jogados na rua da amargura pelas famílias deles e toda a cidade

Veio aquela ofensiva. Vinham as notícias, eu relacionava as reações deles com os fatos que se passavam, ia vendo como era, como não era, etc.

Entre outras coisas que me pareceram muito sintomáticas, dava-se esse fato: que eles estavam jogados na “rua da amargura” na Venezuela, tratados como lixo, e lixo da pior qualidade, pelas famílias deles e por toda a cidade. Eles eram acolhidos na casa deste, daquele ou daquele outro, verdadeiramente por pena, porque eles não tinham onde cair mortos. Naturalmente, se eles se hospedassem em algum hotel, em primeiro lugar, sairia caro, porque eles são numerosos; em segundo lugar, a polícia em dois minutos estava sabendo, e era preciso que eles escapassem da garra da polícia. Em última análise, porque era preciso eles fugirem.

A idéia da fuga eu não apresentei a eles logo. Era evidente que eles não se podiam mais manter lá, mas eles não percebiam. Eles tinham uma certa idéia de que as famílias que os recebiam, recebiam com agrado e até com contentamento, e que não sentiam o humanamente vergonhoso da situação deles.

Tive medo que eles percebessem, porque se eles percebessem, eles provavelmente quereriam sair, e sair a la louca, que não teria propósito. Eu queria que eles saíssem de propósito, de um jeito direito, etc.

Vendo isto tudo junto, eu fui espichando os relacionamentos deles com nossos adversários. Os adversários convidavam para uma sessão de filme em que eles deveriam responder a perguntas, eles mandavam pedir para ser daqui a dez dias, para ser daqui a oito dias, assim. Era eu que mandava pedir para adiar a idéia da saída, mas também para ver se aparecia no meio disso algum amigo que fosse de nosso lado, com quem pudéssemos contar.

Amigo não apareceu nenhum, mas chapadamente nenhum. Com exceção feita de um juiz aposentado, mas que parecia conhecer bem o Direito, que era um tio da Mariana Morazzani. Pessoalmente muito amigo do Pedro — que estava inteiramente de nosso lado — e a quem o Pedro tinha toda a facilidade, como sobrinho da casa, de ir a toda a hora lá, de fazer as perguntas que quisesse e o tio dava as respostas.

De maneira que com exceção deste homem…

(Sr. Poli: A Da. Arizmendi, não é?)

A Sra. Arizmendi, que Deus a tenha na sua guarda, e o diretor do jornal “El Universal”, que cobrava ao Morazzani os olhos da cara, mas ao menos publicava o que nós queríamos. Era uma coisa muito importante.

* A situação tomou seu auge quando João Paulo II noticiou a sua ida à Venezuela e veio logo um descobrimento de uma pretensa conjuração da TFP para assassinar João Paulo II

Eu fui vendo essa situação que se avolumava, de um ódio cada vez maior, de um perigo cada vez maior. E o perigo tomou seu auge quando João Paulo II noticiou a sua ida à Venezuela, e veio logo um descobrimento de uma pretensa conjuração da TFP para assassinar João Paulo II durante a viagem à Venezuela.

Primeiro, a máfia é horrorosa, não pode haver uma máfia mais horrorosa. Em segundo lugar, o perigo era de fazerem uma tentativa e passarem para nossa conta. Naturalmente a polícia viria logo dizer que era.

Apareceu um miserável… eu não sei se você se lembra do nome dele, Fernando.

(Sr. F. Antúnez: Não lembro mais.)

Albamar, uma coisa assim.

(Sr. F. Antúnez: Um cachorro. Não me lembro o nome.)

Enfim, apareceu esse tipo dizendo que estava — deixou escapar para a polícia — preparando um atentado contra João Paulo II, dando a entender que era preparado a soldo da TFP.

Eu pensei com meus botões: “Essa tentativa sai, e indiscutivelmente, se estivermos na Venezuela nesse tempo. Então nós não podemos estar na Venezuela e temos que fugir”.

(Sr. F. Antúnez: Torrealba.)

Como é?

(Sr. F. Antúnez: Torrealba.)

Torrealba!

Mas houve um episódio pelo meio, que eu não me lembro qual é. A polícia pegou papéis do Torrealba por onde ficava vendo que isso não era autêntico, que era não sei que arranjo, e a TFP saiu do negócio.

* “É mais do que nunca a hora de fugir, porque aqui está em cena a vida de todas as TFPs”; histórico da saída dos venezuelanos para a Colômbia

Eu pensei logo: “Até é mais do que nunca a hora de fugir, porque aqui está em cena a vida de todas as TFPs”. Pe. Cron pôde atirar contra João Paulo II, passou dois anos na cadeia, depois foi indultado. No que nos diz respeito a nós até ao fim do mundo nós seríamos a entidade católica que atentou contra a vida do Papa.

(Sr. F. Antúnez: E não aconteceu nada com Mons. Lefebvre nem com a Fraternidade.)

Nada. Com Mons. Lefebvre ninguém falou nem nada, a coisa mais mansa do mundo. Conosco teria sido nem sei o quê.

(Dr. Edwaldo: Até hoje falam do tiro ao alvo na foto.)

Falam do quê?

(Dr. Edwaldo: Do tiro ao alvo na foto do João Paulo II.)

É, aquela porcaria.

A questão posta, a retirada estava resolvida. Então era só combinar a execução da retirada; mas era muito mais fácil. Escolher a hora da retirada e retirar, criar entre eles um ambiente por onde eles não fizessem criancices nem bobagem, mas saísse tudo direito, a coisa estava resolvida.

Mas como entrar na Colômbia?

Aí foi preciso o Merizalde — que está aí ao lado e que trabalhou muito nisso — criar todo um regime de passagem da Venezuela para a Colômbia fora das linhas fronteiriças, passando de propriedade particular a propriedade particular sem estrada, e em certos momentos pulando de um lugar para outro de maneira a polícia não ver isso.

O Merizalde tinha conhecimentos na polícia fronteiriça propriamente dita e tinha outros conhecimentos com lá, inclusive com um fazendeiro que tinha fazenda a cavalo sobre a fronteira e que, portanto, podia passar facilmente amigos dele com pretexto sei lá do quê, de caçador, de qualquer coisa, para a fronteira.

Houve complicações com a polícia de toda a ordem, mas afinal de contas eles puderam passar.

Passaram para aí e parece que nesse transe eles chegaram a medir bem o problema, e estavam muito mais assustados e muito mais prudentes do que tinham estado na época anterior. Passaram a fronteira e, tanto quanto eu me lembro, eles entraram na fazenda do Julio Hurtado — que tinha um mundo de mosquitos, dizem que era um verdadeiro inferno de mosquitos — e o Julio Hurtado deu-lhes hospedagem por um bom tempo, até que as coisas policiais aplacassem.

* Da Colômbia, rumaram para a Alemanha e somente depois vieram para o Brasil onde foi possível eles respiram e se sentirem à vontade

Daí, eu não me lembro mais como, eles conseguiram passagem para a Europa. Com isto, foram todos para a Europa, exceto dois que a polícia americana reteve. Então foi mais uma questão, conseguir que esses dois fossem para Alemanha, onde havia muitas facilidades aduaneiras naquele tempo e onde se entrava a bem dizer à vontade. Da Alemanha eles puderam reunir-se aos outros, e depois de lá para cá o caminho estava mais livre, e eles acabaram entrando no Brasil.

Foi só quando eles acabaram entrando no Brasil que foi possível eles respirarem e se sentirem à vontade.

Tanto mais que havia alguma coisa no ambiente do Brasil daquela época que fazia com que ninguém, nem dentre nós, nem dentre eles, receasse qualquer complicação do Ministério do Exterior, ou da polícia, ou qualquer coisa do Brasil com eles. Era alguma coisa que tinha seu fundamento legal. Todos nós descansamos inteiramente.

Eu ainda me lembro deles naturalmente um pouco estranhados com todo o ambiente, mas sentindo ter chegado ao ponto final da jornada, etc.

Em cada um desses pontos era preciso escolher gente que eu tinha certeza que saberia dirigir o melhor possível a operação, e que poderia se entender bem com o Carlos, que dirigia do lado venezuelano, e depois com o do outro país. Graças a Nossa Senhora tudo isso correu de modo maravilhoso.

No meio de tudo isso nós achamos que valia a pena fazer uma volta e passar por Coromoto, para rezar a Nossa Senhora de Coromoto, que é lá mais ou menos o que é no Brasil Nossa Senhora Aparecida. Eles estiveram lá em Coromoto durante a fuga, rezaram em Coromoto e depois continuaram.

* Cada um desses lances exigia todo um conjunto de discernimento de espíritos, de compreensão da situação local coletiva, como estava a mentalidade deles e como é que estavam as tentações do demônio

Cada uma dessas coisas exigia, em ponto pequeno, todo um conjunto de discernimento de espíritos, de compreensão da pequena situação local coletiva como é que se punha, como é que não se punha, como estava a mentalidade deles, como é que estavam as tentações do demônio, como estava isso, aquilo e aquilo outro, de maneira a que eles pudessem passar para o outro lado.

(Sr. P. Roberto: As graças que viriam também para eles, não é?)

Como?

(Sr. P. Roberto: O discernimento das graças também que viriam.)

Também. Aliás, eles foram corretíssimo em toda essa viagem. Quer eles, quer o pessoal da Colômbia, quer os três brasileiros que estavam lá, que eram o Paulo Campos, o Fernando Telles e tinha mais um.

(Sr. F. Antúnez: Não me lembro.)

Ah, tinha o Mariano, mas esse não era brasileiro.

(Sr. F. Antúnez: Não.)

Foi o primeiro que veio, aliás, e que chegou à Colômbia aturdido. Na Colômbia ele viu que era argentino, que estava fora da encrenca venezuelana, enfim, sentiu um pouco mais de segurança.

Mesmo assim, quando eu o vi muitos dias depois ele ainda estava inseguro.

Eu me lembro a chegada aqui à noite, em dias sucessivos, do Fernando Telles e depois do Paulo Campos. O Paulo Campos ainda muito menino naquele tempo, o Fernando Telles já era moço feito.

* Análise do estado em que ficaram os dois brasileiros que estavam na Venezuela

Eu me lembro do Fernando Teles. Ele é uma pessoa desenvolvida, aprumada, que sabe mexer-se, vocês estão vendo que está dirigindo lá o grupo da Alemanha. Mas ele chegou amassado, esmigalhado, homem! numa situação tal, que eu fiquei com receio de chegando aqui ao Brasil ele fosse atacado por uma doença qualquer, qualquer coisa hepática, qualquer coisa assim. Felizmente isso não aconteceu.

Depois no outro dia chegou o Paulo Campos, tipo muito mais brasileiro do que o Fernando Teles. A apresentação física: miudinho — ele era bem miudinho naquele tempo — e parecia um grão de feijão sobre o qual alguém tinha pisado, estava mas nem sei como.

Chegando aqui eu os recebi no meu escritório e ambos foram dizendo a mesma coisa: que eles estavam muito abalados, mas que eles davam graças a Deus de ter participado desse perigo e desse risco, que durante a vida deles toda eles estavam dispostos a correr os mesmos perigos e os mesmos riscos.

Dias depois eu fui ao São Bento. Eles ainda estavam traumatizados. É claro que já não tão profundamente, mas ainda estavam traumatizados. Foi preciso passar vários dias para que a gente olhasse para eles e não tivesse a impressão de trauma que eles davam.

Você vê, meu filho, o lado operacional aqui misturar-se com o lado religioso, a necessidade de correr todos os riscos para ir a Coromoto, a necessidade política de mexer com polícia, orientar isto, aquilo e aquilo outro, até libertar tudo. É um mundo de coisas que entra nisso.

Pois bem, não chegou ao fim.

* Eu só respirei quando pelos rádios disseram e informaram que o avião de João Paulo II tinha pousado no Vaticano

João Paulo II fez constar nos jornais que tinha resolvido ir passar, depois, senão me engano para os seguintes países: Colômbia, Equador e Peru. Quer dizer, três países onde podia haver atentado contra ele — atentado simulado, mas vocês sabem o que é isso — e ser responsabilidade da TFP.

Então eu mandei que as TFPs desses países nas vésperas da chegada de João Paulo II fossem à polícia e pedissem passaporte para o país vizinho. Por exemplo, do Equador para o Peru, ou da Colômbia para o Equador. De posse desse passaporte publica o comunicado: que para evitar a aparência de verossimilhança de boatos infames sobre a integridade da vida de João Paulo II, a TFP do Equador declarava pela imprensa do Equador que todos os seus sócios, a saber, Fulano, Sicrano e Beltrano, tinham partido para o Peru, a sede estava fechada e permaneceriam no Peru enquanto no Equador João Paulo II estivesse. Depois ele foi para o Peru, nós demos outra volta.

Vocês sabem que eu só respirei quando pelos rádios disseram e informaram que o avião de João Paulo II tinha pousado na Santa Sé, no Vaticano? Disse: “Bom, acabou o perigo”.

Eu não sei se essa longa narração…

(Sr. Poli: Agora, tem outro discernimento que se soma a isso, que é o senhor avaliar que essa suposta conspiração de querer matar João Paulo II estava engendrada para fazer isso e sair uma encrenca grossíssima contra a TFP. Porque podiam também dizer outros absurdos, que o senhor diria: “Isso aí não tem importância”. Mas essa o senhor deu crédito, tomou uma série de providências, e se não tivesse tomado teria acontecido.)

Aí é que está, saía porcaria.

(Sr. Poli: Então é o que o senhor dizia no início, o discernimento das situações também, não é?)

Exatamente, discernimento das situações.

(Sr. Poli: Porque o senhor dá importância a isto e não dá importância a outra coisa?)

Muito facilmente eu explico quanto a esse caso.

Era o que restava eles fazerem. Eles tendo feito tudo quanto podiam, eu não devia admitir que circulando esse boato não tivesse sido posto em circulação por eles; e, posto em circulação por eles, que eles não tentassem fazer. Está acabado.

Meus caros, não me levem a mal, mas eu estou com um pouco de receio da hora.

Que horas são?

(Sr. F. Antúnez: Três e quinze, senhor.)

Quanto, meu filho?

(Sr. F. Antúnez: Três e quinze.)

Eu lamento muito, mas o que é que eu posso fazer?

(Sr. Poli: Mas nós agradecemos muitíssimo.)

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