Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 22/7/95 – Sábado – p. 3 de 3

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 22/7/95 — Sábado

Nós estamos numa rebordosa * As coisas vão tomando um caráter cada vez mais rocambolesco * O papel da Igreja na atual crise é muito maior do que foi no momento em que rebentou a crise de Seravejo e a I Guerra Mundial * Hoje a complicação maior é o ano 2000 com tudo quanto está, ou parece armado, para dar à proclamação do ano 2000 um caráter inconfundível e inteiramente surpresível para nós

(Sr. N. Fragelli: Tudo parece ter um belíssimo resultado em compensação, não, senhor?)

* Nós estamos numa rebordosa

Parece que sim. Mas nós estamos numa rebordosa, hein?

(Sr. N. Fragelli: É isso, sim.)

Mesmo sobre essa história do… — como se chama o rapazinho?

(Sr. N. Fragelli: O Sr. Santiago.)

Santiago, isso ainda vai dar em encrenca, hein!

(Dr. Edwaldo: Tem chão ainda.)

Como?

(Dr. Edwaldo: Tem chão ainda, pela frente.)

Tem chão, tem chão. E é chão malfazejo.

Então, meu caros?

Benedictio…

Nossa Senhora o ajude, meu Guerreiro.

(Sr. Guerreiro: Senhor, a bênção, senhor. Para mim e para o meu irmão também.)

Pois não. Está claro.

(Sr. Guerreiro: O senhor está bem disposto? Se recuperou bem da gripe?)

Graças a Deus, sim.

(Sr. Guerreiro: No meio dessa batalha tormentosa.)

Nossa Senhora! Você não queria saber o que é!

Meu Mário!

É, desde a manhã até à noite, a solis hortu usque ad ocasum é problemas, é questão… Só essa questão do Santiago, o que dá de trabalho é tremendo, ouviu? Mas a gente tem que ir agüentando.

Hoje, por exemplo, eu contava com um dia mais tranqüilo, porque o Santiago está posto lá no Êremo de Toledo, está no melhor ambiente que possa haver e despreocupado. Sábado e domingo é um dia em que a cachorrada se move menos, etc., etc., não? O que chegou hoje de despacho para resolver, para… É uma coisa incrível! Passei hoje o dia inteiro despachando papéis. Mas o dia inteiro!

Homem, é assim…

Coisas do “arco da velha”, etc., etc. É assim, a coisa é essa. O que a gente pode fazer?

(Sr. Guerreiro: Depois, senhor, são coisas que se o senhor não cuidar, ninguém acerta isso.)

Sim, é fora de dúvida.

(Sr. Guerreiro: Há um profetismo da ação aí que também é muito bonito. A gente não vê quase porque a necessidade do segredo operacional é positiva. Mas há também um profetismo da ação que quase nem se fala na TFP, por outras razões. A gente percebe: se o senhor não… E não adianta fidelidade muita nossa, não, porque é uma ordem de combate, de estilo de guerra…)

Estilo de guerra.

(Sr. Guerreiro: … em que é necessário uma plasticidade, uma precisão de cabeça, uma energia de espírito exorcística que se o senhor não colocar a alma do senhor nisso, não sai a coisa.)

* As coisas vão tomando um caráter cada vez mais rocambolesco

Não sai! Olhe que eu tenho um auxiliar de ouro que é o João Clá — e eu digo mesmo para o lado de ação, hein!, não é só de formação dos rapazes, mas de ação. Por exemplo, o que ele faz com a direção do Grupo da Espanha agora, enquanto está lá, por causa de refervescer essa história toda, é uma coisa incrível! Mas… é preciso cada vez mais gente de [inaudível]. É uma coisa horrorosa!

E depois outra coisa: as coisas vão tomando um caráter cada vez mais rocambolesco, ouviu?

(Sr. Guerreiro: Sim, senhor.)

E é uma coisa muito desagradável, porque exige muito a atenção.

(…)

(Sr. Guerreiro: … quadro todo dessa perseguição que está sendo movida contra o senhor, o senhor compreende que a pergunta fosse [ininteligível] decorrente da perda de controle deles, da situação. O senhor não desejaria dar continuidade a esses comentários, para que nós pudéssemos ver bem como se encaixam as duas perspectivas e formar delas um conjunto bem nítido.)

(Sr. Poli: Pode gravar, senhor?)

Pode.

* O papel da Igreja na atual crise é muito maior do que foi no momento em que rebentou a crise de Seravejo e a I Guerra Mundial

Há pontos de semelhança — que você realçou — o Mário já comentou com vocês, etc., mas há também pontos de dessemelhança muito grandes e muito importantes. Um dos pontos é o papel muito maior da Igreja na atual crise do que foi no momento em que rebentou a crise de Serajevo e a I Guerra Mundial. O alheamento em que se encontravam naquele tempo os próprios monarcas e chefes de estado, e o modo pelo qual eles hoje estão meio afastados não existem quase mais, e são chefes populares que vão dirigindo tudo.

O D. Pedro Henrique gostava de me contar que ele tinha informações seguras de que o Francisco José — quando arrebentou a guerra — estava no Miramar, que era aquele castelo do irmão dele, o Arquiduque Maximiliano, imperador do México — que morreu, e o Miramar ficou lá para a família imperial. E o Francisco José tinha hábito de descer de trem até lá e passar dias de repouso. Sobretudo nos últimos anos do império dele, em que ele estava muito cansado e que todo mundo deixava ele ir lá para tomar o repouso que quisesse. Mas que quando ficou resolvido pelo ministério austríaco de declarar a guerra, eles mandaram uma comissão de ministros e de homens importantes descerem até o Miramar onde estava o Francisco José e pedir que ele assinasse a declaração da guerra.

O Francisco José estava num tal estado de espírito tão amolecido já e tão gagá que ele assinou a declaração e depois disse, falando em francês — disse assim com alegria: “Nous allons donc nous battre avec ce sale cochon du [proussien?]. C’est très bien!” Não era nada disso, era o contrário. Ele não pegou nada, ele estava gagá. E assinou assim mesmo e a guerra saiu.

* Hoje a complicação maior é o ano 2000 com tudo quanto está, ou parece armado, para dar à proclamação do ano 2000 um caráter inconfundível e inteiramente surpresível para nós

Naquele tempo havia questões religiosas ligadas à questão lá da Bósnia-Herzegovina, mas eram questões religiosas locais. Grupos católicos do paisinho A em conflito com grupos da IO do mesmo paisinho, e depois de maometanos e não sei mais o quê, e que dentro de cada país entravam em luta e também os IO, os católicos ou os maometanos dos vários países formando grupos entre si para, por debaixo das fronteiras, chacoalhar a política dos Balcãs. Bom, mas a complicação era toda essa.

Hoje a complicação maior não é essa. A complicação maior é o ano 2000 com tudo quanto está, ou parece armado, para dar à proclamação do ano 2000 um caráter inconfundível e inteiramente surpresível para nós.

Bom…

(…)

[Acaba aqui a gravação.]

*_*_*_*_*