Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
27/5/95 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 27/5/95 — Sábado
“Ele [Sr. Horácio] se interessava muito mais pela a história de minha família que eu mesmo” * Uma das características do Sr. Horácio, antes de tudo, era a de uma pessoa muito virtuosa * Ele era interessante porque se percebia que dizia coisas interessantes dentro de si mesmo * Se não houver uma mudança radical em nós, Ela pode tirar outro * [Esse aviso] não se esqueçam, não procurem “zupar”, procurem incrustar isto nas suas memórias com objetividade e viveza, do contrário, será pior * É isto que o acontecimento é de molde a tornar presente, tocar essas profundezas de alma * Uma Previsão clara do Fundador no dia da morte do Sr. Horácio: a reunião [MNF] transcorrera tão bem, que provavelmente viria uma coisa do demônio * Alguma coisa do dedo de Deus que toca para despertar do sono da infidelidade * O Fundador comenta a foto da SDL, ainda muito menina, que estava nas mãos do Sr. Horácio: O gesto dela revela uma maturidade de espírito, sem deixar de ter um quê de menina * Agora, é inútil dizer, menina assim não há mais. Pode desistir que… * Uma menina habituada a um ambiente muito calmo * Há entre vocês um defeito comum a todos, que é uma carência de profundidade de alma * Um aviso bem solene: não corrigindo esse defeito, viriam os fatos * Quem sabe se essa graça do Horácio foi obtida por ela como ajuda para nós? Eu acho que é isso. * Nossa Senhora do Perdão e da Esperança
(Sr. Guerreiro: Ele fez um discurso e no discurso introduziu aqueles comentários que o senhor fez no Santo do Dia sobre o Sr. Horácio, das qualidades dele, etc.)
Não me lembro não.
(Sr. Guerreiro: Eu estava vendo, eu sou o oposto daquilo desgraçadamente, por minha culpa. Com cinqüenta anos e estou neste estado. O senhor é muito paciente em me receber aqui e tudo isso.)
Mas recebo com muito afeto, não é, meu filho?
(Sr. Guerreiro: Pois é, mas sem mérito nenhum. O certo seria estar lá do lado de fora, lá na rua, aguardando o senhor aqui. De modo que os bons vão e o senhor vai ficando com… Mas também se eu for agora é um tal desastre, se Nossa Senhora me chamasse agora acho que de tal modo não tenho nada para apresentar. Só tenho que apresentar os aspectos negativos.)
Mas se Ela lhe espera com tanto afeto, é porque Ela ainda sabe qual é o momento em que lhe pegará, ouviu, meu filho?
(Sr. Guerreiro: Eu gostaria que fosse depois do Reino de Maria.)
Não, talvez já durante a Bagarre.
(Sr. Guerreiro: Talvez.)
Ninguém pode saber, não é?
(Sr. Guerreiro: Pois não, senhor, está certo.)
Surgite.
Vamos rezar as três Ave-marias do costume.
Ave Maria…
(…)
* “Ele [Sr. Horácio] se interessava muito mais pela a história de minha família que eu mesmo”
(Sr. Guerreiro: São quatro anos praticamente.)
Mas eu não calculei bem.
(Sr. Guerreiro: Ele faria em julho quarenta e seis, o Sr. Horácio, e eu, que sou o mais moço, faria em setembro cinqüenta. Então são quatro anos.)
Eu então quando dei a entrada dele aqui não perguntei as idades, mas calculei mal, julgava que ele fosse mais moço.
(Sr. G. Larraín: É que no Grupo, do ponto de vista da TFP, ele era de um grupo por idade menor de fato. As pessoas com que ele se juntava e tal, normalmente eram menores.)
(Sr. Guerreiro: Ele era de uma outra geração.)
(Sr. P. Roberto: Dentro do Grupo era mesmo.)
(Sr. G. Larraín: Nós, com o Sr. Guerreiro, estamos mais colados às pessoas mais velhas, e ele estava sempre com gente mais… Isso se mede muito ainda dentro do Grupo.)
É, é.
A coisa mais concludente aí é de estar metido com aqueles gauchinhos, que são bem mais moços que ele.
(Sr. Guerreiro: É, mas aí por uma outra razão.)
Ele tinha ido fazer conferência lá, não é?
(Sr. Guerreiro: Para fazer apostolado. Toda a pesquisa que ele tinha sobre a família do senhor, etc. Por isso é que ele tinha muita relação com os gaúchos porque os gaúchos gostavam muito de todas as palestras dele.)
(Dr. Edwaldo: Ele ia muito para tirar o visto.)
Como é?
(Dr. Edwaldo: Ia tirar o visto na fronteira e ele sempre aproveitava para fazer apostolado.)
(Sr. Guerreiro: Passava por Porto Alegre e fazia apostolado com eles.)
(Dr. Edwaldo: Agora foi por Foz do Iguaçu.)
Eu ignorava inteiramente que ele passasse sequer por Porto Alegre.
(Dr. Edwaldo: Passava sim.)
Isso não tinha idéia.
Nesse vai-e-vem do Grupo o que não é indispensável a gente deixa correr sem prestar atenção. Está bem e está acabado, não penso mais no caso.
(Dr. Edwaldo: Agora ele foi para Foz para passar em Ponta Grossa.)
Exatamente. Parece que ele fez conferência lá, não é?
(Sr. Guerreiro: Fez, fez.)
(Sr. P. Henrique: Os rapazes o lavaram até à fronteira para ter o agrado da companhia dele dos jornais-falados. Estavam voltando com ele já quando se deu o acidente.)
E ele tinha obtido documento da polícia?
(Sr. P. Henrique: Tinha, tinha obtido sim, senhor.)
Agora, com quem ficou tudo isso? Com o coronel, com certeza.
(Sr. G. Larraín: Coronel!)
(Sr. Poli: “Praesto sum”!)
[O Coronel ouviu a reunião na sala contígua, por estar resfriado]
(Sr. G. Larraín: Ficou com o senhor?)
(Sr. Poli: O material todo está sendo guardado pelo Sr. Guy, à espera de uma determinação do Sr. Dr. Plinio.)
À espera do quê?
(Sr. G. Larraín: De uma determinação do senhor.)
Isso eu entendi.
(Sr. G. Larraín: Está sendo guardado à espera de uma determinação do senhor.)
Mas, enfim, eu tinha impressão que ele era muito mais moço e que destoaria aqui muito mais do que destoou. No começo, assim para se misturar com todos, ele levou algum tempo. Não sei se vocês sentiram isso, mas eu tive a impressão que levou algum tempo. Não por estranheza, mas por uma coisa assim… Também quando se aderiu bem, colou a ponto que nós estamos vendo, não é?
(Sr. G. Larraín: Sim, senhor.)
A perda dele…
(Sr. P. Roberto: Ficou uma coisa só conosco mesmo.)
Uma coisa só, completamente.
No jantar dos complicados ele tomava parte?
(Sr. P. Roberto: Sim, totalmente.)
Mas conversava?
(Sr. P. Roberto: Muito, muito.)
(Sr. Guerreiro: Depois todo o assunto da família do senhor, de São Paulo antigo, os parentes do senhor, a história da família do senhor.)
Ele se interessava muito mais pela a história de minha família do que eu mesmo.
(Sr. Guerreiro: Não tem nenhum brasileiro que tenha se interessado tanto quanto ele.)
Nada.
(Sr. P. Henrique: A história do Brasil ele conhecia muito e gostava.)
Gostava, não é?
(Sr. P. Henrique: Gostava, tinha muito apreço.)
(Sr. Guerreiro: Não sei se o coronel comentou com o senhor, mas ele ainda recentemente conosco aqui num jantar do coronel, ou numa conversa de quinta-feira, comentou toda a pesquisa dele. Ia por um assunto muito interessante, que era o senhor, a família do senhor, São Paulo antigo, as famílias de São Paulo, as graças como eram, e acabou dando em Anchieta.)
Anchieta?
(Sr. Guerreiro: É.)
Eu tinha a idéia que ele me disse que eu era parente de Anchieta.
(Sr. P. Henrique: Por dois lados, parece.)
Como por dois lados?
(Sr. P. Roberto: O Pe. Anchieta fez milagres que se não os tivesse feito o senhor não teria nascido.)
Ah isso, é?
(Sr. P. Roberto: Um ascendente do senhor estava para embarcar e o Pe. Anchieta disse para não embarcar naquele, mas para embarcar em outro. Ele obedeceu e o que ele ia embarcar afundou. Esse era um ascendente do senhor.)
Que interessante.
(Sr. P. Roberto: Assim ele foi fazendo várias relações. Depois era uma pessoa muito agradável e contava isso com muita vivacidade. Por isso é que estava totalmente integrado entre nós.)
Ah, completamente. No fim da morte dele integrado a ponto de estar dentro do miolo do grupo.
(Sr. Guerreiro: Ah, claro.)
Absolutamente.
(Sr. P. Henrique: Nós sentíamos e estamos sentindo isso, porque de fato está vaga a cadeira dele ali. Enfim, sentimos esse vazio e vamos continuar sentindo por muito tempo.)
(Sr. Guerreiro: Um pouco a história do mistério do bem e da gênese do Brasil propriamente dito, a gente vê que ele tinha entrado nisto, enquanto uma realização da graça.)
Sim.
(Sr. Guerreiro: E tocando em Anchieta que é a matriz disto. São Paulo, relação com São Paulo, etc.)
Sim, é o fundador de São Paulo.
(Sr. Guerreiro: Depois mesmo no Nordeste, eu me lembro que ele esteve com uns familiares do senhor. Ele esteve numa reunião uma ocasião parece que com cinqüenta Corrêa de Oliveiras.)
Isso.
(Sr. Guerreiro: Tudo coisa que ele tomou iniciativa de mexer e acabou arranjando isto. Depois me lembro que ele comentou edificado a família do senhor. Ele ficou encantado com o procedimento do conjunto dos Corrêa de Oliveiras. Uma reunião com cinqüenta e uma parte eram homens. Desculpe o comentário, mas ele dizia: “Durante todo o tempo não ouvi nenhuma palavra que não fosse uma palavra correta e adequada”. Coisa que hoje — o senhor sabe perfeitamente — as pessoas de elite e as mulheres de boa condição passam por cima disso.)
Ah, claro.
(Sr. Guerreiro: Ele comentou que foi o tempo todo, nunca ouviu uma palavra que fosse uma palavra inadequada. Cinqüenta Corrêa de Oliveiras, não é pouca coisa.)
Tem o seguinte: a impressão que eu tenho é que lá por aquele Nordeste todo o mundo é muito levado a palavra porca.
(Sr. Guerreiro: Ainda mais no Nordeste, pois é!)
Falam, vão falando, etc.
(Sr. Guerreiro: Palavras inconvenientes disse que não saiu nada.)
Anedota porca e essas coisas é à vontade.
(Sr. Guerreiro: Ou expressões inconvenientes. Pois bem, disse que não ouviu nada. É uma coisa interessante.)
* Uma das características do Sr. Horácio, antes de tudo, era a de uma pessoa muito virtuosa
Vocês estão dizendo, eu estou me lembrando e evidentemente está me dando saudades. Mas eu estava refletindo que nós todos, mais ou menos conscientemente ou não, estamos tratando do caso dele como quem espera que apareça durante a conversa uma coisa que diga uma característica dele que ele tinha, que a gente não sabe dizer qual é e que pairava acima disso.
Ele tinha um… eu não sei dizer o que é que era, mas era uma coisa que marcava a virtude dele — porque ele antes de tudo era uma pessoa muito virtuosa — e marcava todo o resto.
Por exemplo, o seguinte:
Com o intuito de pôr em relevo qualidades que ele tinha, eu fui falando assim e disse que ele era muito discreto. Depois pensei — não disse alto, mas pensei: “Bem, mas é meio natural com a origem inglesa dele que ele seja assim discreto”.
(Sr. G. Larraín: Tanto mais que é escocesa a origem.)
É escocesa, é?
(Sr. G. Larraín: Sim.)
* Ele era interessante porque se percebia que dizia coisas interessantes dentro de si mesmo
Ele é de fato discreto, mas não basta. É uma outra coisa qualquer por onde sem propriamente falar muito — ele não era muito tagarela, ele falava bastante, mas não era um tagarela —, sem ser um tagarela ele comentava internamente muito aquilo que ele ouvia. A gente notava que as coisas que ele internamente comentava eram coisas interessantes. Ele era interessante porque se percebia que dizia coisas interessantes dentro de si mesmo. E tinha um interior muito interessante, o que o tornava interessante, mesmo quando ele estava quieto.
Não sei se concordam.
(Sr. P. Henrique: Ele fez uma apostila chamada “O ninho do passarinho”. Uma apostila grossa reunindo várias reuniões que o senhor fez contando a formação moral, formação espiritual, intelectual, mesmo de ação do senhor, ao longo desses três anos que ele participou da reunião e que foi de muito proveito. Cada um de nós tem um exemplar. Feito com muito zelo, muito acerto da parte dele. Nós até estávamos nos reunindo às quartas-feiras para estudar com ele, rememorarmos aquelas reuniões.)
Ah estavam se reunindo para estudar com ele a apostila dele, é?
(Sr. P. Henrique: Isso. Que ele compilou.)
O negócio do MNF, não é?
(Sr. G. Larraín: Não, são daqui.)
(Sr. Guerreiro: Conversas de Sábado à Noite.)
Da noite?
(Sr. G. Larraín: Conversas de Sábado à Noite.)
Mas no MNF nós tratamos muito do ninho do passarinho, não foi?
(Sr. G. Larraín: Também, mas aqui foi onde nasceu. O ninho nasceu aqui.)
O ninho nasceu aqui?
(Sr. G. Larraín: Foi.)
Ah, tinha idéia que tinha sido na reunião…
(Sr. Guerreiro: A metáfora o senhor usou pela primeira vez eu acho que aqui.)
Foi aqui, é?
(Sr. Guerreiro: Parece que foi lá em Amparo.)
Foi em Amparo?
(Sr. Guerreiro: Uma reunião que o senhor disse que a Contra-Revolução era um parênteses na vida do senhor.)
Sim. Isso é verdade.
(Sr. G. Larraín: Não sei se o senhor permitiria uma coisa nessa linha. […] O senhor tinha profetizado para nós aqui no sábado passado que tomássemos muito cuidado porque alguns de nós — um ou mais — poderíamos morrer ou ser seqüestrados. Tudo isso forma uma quadro muito carregado de incógnita, de interrogações, mas que está ligada a essa pergunta fundamental. Não sei se o senhor teria algo a dizer ou preferia tratar noutra ocasião disso.)
* Se não houver uma mudança radical em nós, Ela pode tirar outro
Eu absolutamente não pensei que estivesse no caminho da Providência que ele morresse agora, absolutamente não pensei.
Quando me disseram… foi D. Bertrand que chegou à porta do meu quarto aqui, coisa que ele nunca faz, mas o ocorrido justificava inteiramente o fato. Eu estava dormindo sesta, ele me bateu na porta e me disse que o Horácio tinha morrido.
(Sr. G. Larraín: Foi o Sr. Clarindo.)
Clarindo talvez.
Ele teve um pequeno ménagement qualquer e soltou o negócio.
(…)
Se não houver uma mudança radical de nós, Ela pode tirar outro. Vejam bem.
(Sr. G. Larraín: O senhor pode continuar ainda, porque aí é melhor chegar até ao fim. Uma mudança radical porque a coisa é seríssima. Nós sentimos a coisa muito perto.)
É.
(Sr. G. Larraín: Não pode ser mais perto!)
Não pode ser mais perto.
(Sr. P. Roberto: Depois o senhor disse isso na reunião passada.)
Eu disse isso?
(Sr. P. Roberto: Disse que podia acontecer um seqüestro conosco, podia acontecer que morrêssemos, porque o senhor esperava do Grupo que fosse tal coisa e não era. Comentou de certos grupos e coisas assim, do nosso também, disse isso e aconteceu.)
* [Esse aviso] não se esqueçam, não procurem “zupar”, procurem incrustar isto nas suas memórias com objetividade e viveza, do contrário, será pior
O seguimento do que eu estou dizendo é o seguinte:
Esse aviso, se aviso é, e eu estou achando que é, se esse aviso é aviso, ele é dado com a preocupação de informar algo. Essa informação dada assim, como, por exemplo, com o torcimento das traves de madeira, tem o seguinte: “Tomem nota de não procurar laranjamente dar uma interpretação benigna do que aconteceu, porque o ocorrido com as traves de madeira significa que é uma coisa que é uma torção inesperada e violenta da Providência nos fatos que o pegou. Não pense, portanto, que foi uma coisa por acaso”.
Você sabe bem até que ponto nós somos levados a interpretações dessas. Então por acaso, que então deu um bom resultado, mas que a gente… a la Gomão. Não “gomonizem” o negócio porque não é para ser “gomonizado”. É uma coisa dura e terrível, mas vocês se habituem a isso.
(Sr. G. Larraín: “Se habituem a isso” é a quê, ao fato?)
Eu disse “se habituem”?
(Sr. G. Larraín: Sim. O senhor disse: “É uma coisa dura e vocês se habituem a isso”.)
Quer dizer o seguinte: não se esqueçam, não procurem “zupar”, procurem incrustar isto nas suas memórias com objetividade e viveza, porque do contrário será pior.
(Sr. G. Larraín: Está muito claro, senhor.)
É o que me parece.
(Sr. P. Henrique: Não sei se é uma impressão pessoal do ocorrido, mas pelo menos me falou muito na alma sobretudo ontem na hora do enterro. A partir do momento em que foi feita aquela reverência do caixão e se rezou três ave-marias por ele diante do túmulo da Sra. Da. Lucilia, da qual ele era devotíssimo.)
Dizem-me que foi uma cena muito bonita.
(Sr. P. Henrique: Muito comovente. E a partir dali algo me fez derreter geleiras que estava dentro da alma, por onde eu senti uma graça na linha da Oração da Restauração. O primeiro pranto que eu tive ao conhecer o senhor, eu me lembro que chorei muito. Esse pranto me acompanhou pelo espaço de uma hora, uma hora e meia mais ou menos, quase não me continha. Era exatamente de ver a vocação distante, ao mesmo tempo vendo que o Sr. Horácio caminhava muito bem nessa direção e que nós estávamos lá atrás, que eu estava muito atrás, mas que aquilo tudo iria se acertar. É uma coisa que ia demandar sacrifício, ia demandar isso que o senhor estava dizendo aqui, viveza, vivacidade, mas me fez isso. Eu digo, é uma coisa que se passou comigo ontem na hora do enterro em relação ao senhor, quem deveríamos ser e quem era ali naquele momento. Isso me tocou de um modo particular e me fez realmente verter muitas lágrimas, quase a prantos, de não me conter. Eu relacionei isso com os bons prantos que tive quando conheci o senhor. Um depoimento desses é muito pessoal, eu confesso, mas foi o que me…)
Mas há alguma coisa na sua narração que eu não entendi.
Você ontem à noite pranteou de novo?
(Sr. P. Henrique: Não, não, durante o enterro dele sobretudo.)
Durante o enterro dele?
(Sr. P. Henrique: Durante o enterro dele, é. A partir daquele momento da passagem em frente ao túmulo da Sra. Da. Lucilia.)
Diante da sepultura de mamãe?
(Sr. P. Henrique: É. Até ao final. Quando cheguei em casa fui lavar o rosto. Mas isso relacionado com esse pranto primeiro que eu tive quando vi a vocação fulgurante diante de mim. Eu sei que é uma coisa muito pessoal, mas como o senhor está procurando alguma interpretação…)
* É isto que o acontecimento é de molde a tornar presente, tocar essas profundezas de alma
Não, eu acho que não é tão pessoal assim, que ela vem muito a propósito.
São sentimentos dessa natureza e profundidades de alma dessa natureza que, de um modo ou de outro, o acontecimento pôs em movimento. Quer dizer, em cada um, segundo um certo modo, mas todos foram tocados em profundidades de alma que habitualmente nossa sensibilidade…, não me levem a mal a palavra, mas a nossa “chucrice”, a nossa pouca-vergonha, leva a procurar empurrar para o fundo de nós e não pensar, não lembrar, etc.
É isto que o acontecimento é de molde a tornar presente, tocar essas profundezas de alma.
(Sr. P. Henrique: Senti-me tocado sim.)
Exatamente, foi no que você se sentiu tocado.
O que quer dizer que o desígnio da Providência é de tocar assim as almas, e você vai examinando o efeito que isso produziu, foi mais ou menos como um meteoro que passou tocando assim as almas.
(Sr. G. Larraín: Isso é mais ou menos em todo o Grupo ou não?)
Todo o Grupo, todo o Grupo.
(Sr. Guerreiro: Essa intenção da Providência como foi retirado deste círculo que está ao lado do senhor, que se reúne aqui aos sábados por bondade do senhor, se ela quis retirar daqui é porque quis concernir primeiramente…)
(Sr. G. Larraín: Ah, sem dúvida, sem dúvida.)
É, isso.
(Sr. P. Roberto: Eu não sei se é uma coisa que não tem significado. Quando eu estava atarraxando aquelas arruelas que se põe no caixão, uma delas quebrou, que foi essa daqui. Eu até guardei no bolso e depois tive a impressão que ele dizia: “P.T., isto é para você”.)
Você teve essa impressão?
(Sr. P. Roberto: Não, não, eu tive impressão de que ele me dizia isso.)
Pois é.
(Sr. P. Roberto: Aí eu guardei.)
Faço idéia.
Você vê, meu filho, que é outro fato feito para mover as profundezas de alma.
Eu não sei a que horas nós nos encontramos naquele dia, mas em certo momento você me saudou naquele dia, você me disse que tinha muitas saudades dele.
(Sr. P. Roberto: Muitíssimas.)
Mas disse quase chorando. Num estado de espírito que eu nunca vi a você, eu o vi quase chorando. Em sentido oposto ao seu temperamento, que era habitualmente de fleugma e de indiferença ao que acontece com os outros.
Sua atitude seria normalmente essa: “Eu vou tomar isto tão ao trágico, por quê? Qualquer um está morrendo numa esquina de rua a qualquer hora, por que é que não pode ser o Horácio? O que é que há nele de mais pintado, para a gente ter impressão que o mundo se move quando ele morre? É uma superficialidade minha, deixa eu tocar isso para a frente e não pensar”.
Não é verdade que você teria reações que podiam correr para isso?
(Sr. P. Roberto: Inteiramente. Infelizmente era assim mesmo.)
Pois bem, mas ali, sobretudo com essa história de partir a arruela, o que aparecia é o desejo de comover a sua alma até ao fim.
Como aqui, meu filho, as palavras que você me disse no começo da reunião não foram sobre ele, mas tinham relação com a morte dele.
(Sr. Guerreiro: Foram a propósito da figura moral dele, dos valores dele, que veio o convite para fazer o contraste.)
É isso, exatamente.
Mas você também estava movido nas suas profundidades.
Com o meu caro Gonzalo nem se fala. Desde que você soube da coisa até esse momento aqui, forma para você um só acontecimento.
(Sr. G. Larraín: Sim, senhor.)
Porque, de fato, daquele momento para cá você não tem pensado seriamente sobre mais nada. Sobre o que você tem pensado seriamente é remoer para encontrar uma explicação, uma perspectiva para tirar disso, etc.
(Sr. G. Larraín: É tal e qual. É incrível, não tinha dito para o senhor isso, mas é totalmente assim. […] O MNF foi extraordinário esse dia, o senhor até disse que foi um dos MNFs melhores que fez na história. Portanto, eu não estava inquieto, estava muito tranqüilo durante o MNF.)
Você estava até contente.
(Sr. G. Larraín: Muito contente e fui ao túmulo pedir à Sra. Dona Lucilia para continuar o MNF quinta nessa clave. Foi muito curioso, porque depois de sair do túmulo comecei a me sentir mal, não mal de saúde, de fígado, mas sentindo uma ação preternatural.)
Preter?
(Sr. G. Larraín: Preter, no meio de São Paulo, uma coisa que não encaixava, na Av. Angélica meio tudo infestado. Depois fomos tratar de comer num lugar uma coisa e estava cheio de fassurada. Não era problema de sexto Mandamento, mas sobretudo uma ação muito forte do demônio. Eu disse várias vezes ao Sr. Felipe: “Há uma coisa muito errada que está acontecendo”. Eu me sentia mal, meio como que ia cair no chão, uma coisa muito esquisita. Não tinha nenhuma razão para vir a Alagoas, até meu plano era outro, fazer uma reunião em São Bento com uma pessoa da Índia, e quando cheguei aqui pumba! recebi a notícia. Mas tudo muito mexido. Foi uma espécie de alternância de graças e de mexidas internas muito fortes.)
Isso.
(Sr. G. Larraín: Inclusive não dormi nenhuma das noites direito.)
Como é?
(Sr. G. Larraín: Não tenho dormido às noite direito. O corte de uma coisa que não devia acontecer axiologicamente e que aconteceu, isso me tem meio assim cortado a mim. Uma coisa muito, muito estranha. Depois com o senhor, ou seja, que coisas vêm para a frente em função disso.)
Como veio para a frente?
(Sr. G. Larraín: Que coisas virão.)
Que daqui em diante virá.
(Sr. G. Larraín: Muito assim também que coisas em relação ao senhor e com os planos da Providência. Em nenhum momento, graças a Deus, nenhuma dúvida de que vai acontecer isso com o senhor, mas uns chacoalhares muito fortes. No meio disso vêm assim uns apelos de Nossa Senhora de Genazzano, daquela graça que eu contei ao senhor muitas vezes. Já tinha tido antes muito intensamente na capelinha.)
* Uma Previsão clara do Fundador no dia da morte do Sr. Horácio: a reunião [MNF] transcorrera tão bem, que provavelmente viria uma coisa do demônio
Você rezou na capelinha, é claro, não é?
(Sr. G. Larraín: Rezei sim, senhor, muito. Sobretudo o dia depois da reunião que o senhor fez aqui conosco advertindo-nos sobre a morte, aí na capelinha de Nossa Senhora de Genazzano foi muito intensa a manifestação de afeto d’Ela, mas impressionantemente grande. Na linha do que outras vezes eu tenho contado para o senhor, da manifestação propriamente da graça de Genazzano. É muito axiológica a graça de Genazzano no dia de domingo, que foi depois da reunião aqui, e depois acontece tal outra coisa que é antiaxiológica. Daí um enredo.)
Também houve uma coisa, ouviu? Um dia ou dois antes já tínhamos feito uma reunião que tinha corrido excepcionalmente bem, na mesma linha desta reunião que se deu na véspera.
Eu, quando terminou a reunião, disse a vocês que estava pensando numa coisa. A reunião tinha corrido tão bem, que provavelmente viria uma coisa do demônio, fazendo acontecer algo que perturbasse o curso das reuniões.
(Sr. G. Larraín: Essa reunião foi o MNF de quarta-feira de manhã, e o senhor disse isso depois do MNF. Então eu disse para o senhor: “Nós iremos ao túmulo agora para pedir que não haja obstáculos e que Sra. Dona Lucilia impeça os obstáculos que o senhor está prevendo”.)
É isso.
(Sr. G. Larraín: E pumba! chegamos aqui, estavam todos, e relacionaram a mesma coisa. O senhor já estava prevendo que ia haver uma coisa esquisita. Não sei, o senhor talvez queira dizer algo para mim. Como o senhor disse para os outros, eu peço que o senhor também me diga.)
* Alguma coisa do dedo de Deus que toca para despertar do sono da infidelidade
Mas você vê, meu filho, que numa certa linha geral vai na linha do que todos estão dizendo. É alguma coisa do dedo de Deus que toca em todos numa certa profundidade da alma, que é uma certa profundidade congênere da profundidade que toca a do outro.
Quer dizer, tomado em consideração o estado de espírito e o feitio mental e psicológico de cada um, esse dedo de Deus toca numa posição congênere com a que toca a dos outros, e é um despertar de um sono que atinge a mesma zona habitualmente. Esse sono é parecido com o sono da infidelidade de todos nós. Na mesma zona e o mesmo sono.
(Sr. P. Henrique: Não sei se o senhor sabia, mas ele me confidenciou isso há cerca de um ano e meio.)
O Horácio?
(Sr. P. Henrique: É. Não sei se final de sessenta e sete ou sessenta e oito, ele era muito novinho, uma das primeiras vezes que veio a São Paulo, ainda sob o bafejo das graças da SV, ele havia um dia pedido a SV. O senhor disse: “Quem lhe contou isso?” e parece que cortou a coisa por aí. Mais tarde, creio que por volta de setenta e seis, ele pediu para se fazer e. do senhor e o senhor teria aceito. Ele tinha lido algo sobre São Filipe Neri que tinha feito muito bem a ele. Parece que São Filipe Neri teve duas costelas quebradas porque o coração dilatava-se tanto de amor a Deus, que parece que rompeu até as costelas. Parece que o havia tocado muito no sentido de servir à Igreja, de servir à causa. Então o senhor deu para ele o nome de Filipe Neri “in articulo mortis”. Isso ele me confidenciou, eu creio que teria dito também para o coronel, e acho que somos dois testemunhos disso que se passou entre ele e o senhor. Curiosamente ele foi enterrado no dia de São Filipe Neri.)
É curioso, não é?
(Sr. P. Henrique: Morreu no dia de Nossa Senhora Auxiliadora e a Missa de sétimo dia será no dia de Nossa Senhora das Vitórias.)
Ah, bonito.
(Sr. P. Henrique: No dia trinta e um.)
Trinta e um de maio?
* O Fundador comenta a foto da SDL, ainda muito menina, que estava nas mãos do Sr. Horácio: O gesto dela revela uma maturidade de espírito, sem deixar de ter um quê de menina
(Sr. P. Henrique: É. Ele tinha nas mãos na hora do desastre — isso foi o agente funerário que trouxe e entregou para a pessoa que recebeu o cadáver — uma foto da Sra. Dona Lucilia menina que ele gostava muito. Ele descobriu essa foto. Depois posso mostrar para o senhor essa foto da Sra. Dona Lucilia.)
Quer me acender a luz?
(Sr. P. Henrique: Está plastificada e atrás ela menina, creio que com uns…)
Treze, quatorze anos, é a idade que eu dou a ela.
(Sr. P. Henrique: Não, acho que menos, não é?)
Vocês acham menos?
(Sr. G. Larraín: Na foto com dezesseis anos ela é outra pessoa.)
(Sr. P. Henrique: Talvez uns sete, oito, não?)
(Sr. Guerreiro: É, mas a maturidade é de uma pessoa de doze a treze anos.)
Aí é que está, por isso é que eu digo. É excepcionalmente madura.
O próprio gesto dela revela uma maturidade de espírito, sem deixar de ter um quê de menina.
(Sr. Guerreiro: Sim. Depois muito encantadora.)
Sim.
(Sr. P. Roberto: Eu estava pensando no início dez anos.)
(Sr. P. Henrique: Dez anos? Talvez dez, onze.)
Mas vocês dão só uns dez anos para ela?
(Sr. P. Roberto: Eu de início pensava.)
(Sr. Guerreiro: Eu pensava que tivesse uns treze.)
Esse afeto dela é um bom odor que desprende, mas largamente, já nessa idade, não é?
(Sr. Guerreiro: Também desconfiança, não é?)
Reserva. Reserva.
(Sr. Guerreiro: Curiosamente ela aí revela, quando menina, um certo “degagé”, uma certa vivacidade de espírito, mas muito serena. Ou não?)
Muito, muito serena, mas serena que já sentiu que aí vem coisa.
(Sr. Guerreiro: Cautela.)
Cautela, prevenção, mas ao mesmo tempo um bom recebimento e uma posição diante da vida de quem espera também que venha muita coisa boa.
(Sr. Guerreiro: Encantadora, essa foto é extraordinária. E estava na mão dele na hora do acidente.)
* Atrás da foto da SDL várias intenções
(Sr. P. Henrique: A pessoa que foi cuidar do corpo e que retirou… Atrás havia várias intenções que certamente ele manuseava todos os dias. Aqui uma das primeiras intenções é pelo senhor, depois várias outras intenções. Havia três Ave-marias para Nossa Senhora das Vitórias, depois três Ave-marias para Nossa Senhora da Boa Morte. Quem sabe se até ele estivesse rezando. Está datada de oitenta e oito essa foto.)
Deixa ver um pouco, meu filho.
Isso nas costas está escrito à máquina, está impresso ou como é?
(Sr. P. Henrique: São as intenções. Uma é três Ave-marias por tal pessoa, um Memorare pelo senhor…)
Leia-me inteirinho.
(Sr. P. Henrique: Quer dizer, nós procuramos dar uma interpretação porque algumas estão em iniciais. Três Ave-marias pelo Sr. Tadeu. Pensamos que seja o Sr. Tadeu Cruz que uma época conviveu com ele no Chile, então tenha pedido que rezasse por ele.)
Quem era esse Tadeu Cruz mesmo?
(Sr. P. Roberto: Que era do Êremo São Paulo Apóstolo antigamente.)
(Sr. P. Henrique: Do Rio de Janeiro.)
Ah, o que morreu. Lembro-me sim muito bem dele.
(Sr. P. Henrique: Um Memorare pelo senhor.)
Mas como é que diz, pelo Plinio ou pelo Dr. Plinio?
(Sr. P. Henrique: DP.)
É Dominus Plinius.
(Sr. P. Henrique: É, não tem por onde. LM — pode ser Luis Montes, esse nome nós não identificamos bem — e outros. Três Ave-marias pelo Caio, Javier, Fernando Gyoia, Carlos Viano, Jorge Storni, Alfonso Becar Varella e Alejandro Ezcurra. Depois está um Memorare por FL. Fernando Larraín certamente, não sei. Amadeu, não sei quem é.)
Você não sabe quem é o Amadeu?
(Sr. P. Henrique: Não, pode ser o nosso Amadeu como pode ter sido um outro que morreu também que chamava Amadeu. Talvez o Sr. Amadeu. Três Ave-marias a Nossa Senhora das Vitórias, um Memorare a Nossa Senhora do Carmo, três Ave-marias a Nossa Senhora da Boa Morte, um Memorare a Foederis Arca, três Ave-marias Mater Purissima, um Memorare de Nossa Senhora do Coromoto e Nossa Senhora do Bom Sucesso, três Ave-marias Virgo Fidelis, uma Salva Rainha por Nossa Senhora de Penha, da qual a Sra. Dona Lucilia era muito devota, oração a Santo Elias, uma Ave-Maria pelo afegães.)
Uma Ave-Maria pelos?…
(Sr. P. Henrique: Os afegães.)
O povo.
(Sr. P. Henrique: Uma Ave-Maria pelos judeus. Aqui alguém disse que ele rezava pelos judeus que foram alunos do senhor.)
Ah, isso é muito capaz.
(Sr. P. Henrique: Depois uma Ave-Maria pelo Êremo Nossa Senhora do Pilar, para quem ele sempre pedia uma bênção. Uma nova Virgo Fortissima, uma Oração da Cruz, e ao Coração Sapiencial e Imaculado de Maria. Aí terminavam as orações dele.)
Isso estava na mão dele, é?
(Sr. P. Henrique: Estava na mão dele, com o terço rompido.)
Mas estava plastificado ou você mandou…
(Sr. P. Henrique: Plastificado, estava plastificado. Do jeito que está, foi entregue ontem. A pessoa que trouxe o cadáver entregou à pessoa que recebeu. Inclusive, não sei, se o senhor quiser ficar com ela… o Sr. Hélio Viana é que recebeu.)
[Vira a fita]
* Vocês podem ver ali uma pessoa que vive a vida de família com toda a tranqüilidade e confiança na família
Tem uma inocência…
(Sr. P. Henrique: Dá muita candura. A gente diminui a idade talvez por causa disso.)
O que é que tem?
(Sr. P. Henrique: A gente diminui a idade por causa dessa inocência.)
Acho que sobretudo essas pernas trançadas são tão de menina, que acho que foi o que me levou a diminuir a idade. Isso é de menininha.
(Sr. Guerreiro: E dá uma leveza a todo o corpo.)
É, dava. E ela não teve a preocupação de ser leve aí, era o natural dela.
Aliás, vocês podem ver ali uma pessoa que vive a vida de família com toda a tranqüilidade e confiança na família.
(Sr. Guerreiro: É impressionante isso aí.)
O que tem aí para ela é sobretudo a mãe dela, mas sobretudíssimo o pai: “Papai arranjará e, portanto, pode…” E ela teve um filho que depois disse: “Mamãe arranjará”.
(Sr. P. Henrique: E nós temos um pai que podemos dizer: “Papai arranjará”. E a ela também: “Mamãe arranjará”.)
Oxalá.
(Sr. P. Henrique: Não, não, isso é certo.
Meu filho, eu não tenho o direito de privá-lo disso.
(Sr. P. Henrique: Não é minha.)
De quem é?
(Sr. P. Henrique: É do Sr. Horácio. O que trouxe o corpo entregou para a pessoa que recebeu. Essa pessoa pediu que mostrasse para o senhor e que ficasse nas mãos do senhor.)
Quem é a pessoa?
(Sr. P. Henrique: O Sr. Hélio Viana.)
(Sr. G. Larraín: O coronel designou duas pessoas para juntar todas as coisas dele, porque evidentemente tem papéis e documentos. Uma dessas pessoas é o Sr. Hélio, mas está juntando os papéis, não é que é do Sr. Hélio.)
Tudo. Um artigo de jornal que ele tivesse guardado…
(Sr. G. Larraín: Tudo o que está guardado, todas as notas que ele tomava aqui. Então isso faz parte do acervo do Sr. Horácio que ele deixa para o destino que o senhor queira. Portanto, é do senhor.)
(Sr. P. Roberto: Tanto mais essa que estava na mão dele.)
(Sr. P. Henrique: Essa, o crucifixo e umas quatro ou cinco contas do terço que arrebentou e que ele entregou também. Isso foi deixado nas mãos do Sr. Horácio, mas talvez alguém tenha colocado o terço a troco das contas e não se sabe que destino teve.)
* Agora, é inútil dizer, menina assim não há mais. Pode desistir que…
Ela tem uma espécie de correntezinha com uma medalha, não é? Não sei se notaram. Menina naquele tempo usava muito coisas assim.
(Sr. Guerreiro: Mas o senhor está com uma vista excelente. Nós estamos precisando de usar óculos e não vimos, e o senhor viu.)
Ela tem uma medalha, mas tem uma espécie de golazinha, no mais alto da gola dela tem uma golazinha reforçada de tule, de qualquer pano assim. A estrutura do vestido é assim: tem uma coisa que não sei se chama brise-bise ou não, é assim uma coisa que o pano forma umas dobrinhas e nessa altura forma uma espécie de golazinha. Depois a gente percebe que há, logo abaixo dessa golazinha, um pedaço de pano transparente que é como que uma continuação do tecido de cima. Esse pano transparente deixa ver por baixo uma camiseta que começa e depois continua pelo corpo afora.
(Sr. Guerreiro: É uma roupa interna.)
É uma roupa interna. Mas a parte de fora forma uma só peça com saia e tudo, mais ou menos até o joelho. Ao menos é como eu julgo ver a coisa.
(Sr. Guerreiro: Enquanto menina é uma criança encantadora, não é?)
Um encanto, um encanto.
Depois vocês vêem também que o cabelo está muito bem arranjadinho.
(Sr. P. Henrique: Com uma coisa que prende assim, uma espécie de um diadema com que se prende o cabelo.)
Eu não sei se é diadema ou se não é uma fitazinha.
(Sr. P. Henrique: Pode ser.)
Outra coisa é a seguinte: a manga tem uma espécie de pequeno excesso de tecido.
(Sr. P. Henrique: Uma renda inclusive.)
É isso, chega até aqui embaixo. Aqui embaixo alarga e forma uma coisinha assim.
Aqui tem uma faixa. Depois a gente nota que o vestido dela é ligeiramente frisado, ligeiramente brisé, dizia-se em francês do tempo.
(Sr. P. Roberto: E parece um tecido muito bom, não é?)
Sim, mas ao mesmo tempo muito fininho, como para meninota é. Tudo isso é para meninota, não é?
(Sr. P. Roberto: O olhar dela de frente que coisa…)
(Sr. Guerreiro: E um discernimento penetrante, não é?)
Penetrante.
Agora, é inútil dizer, menina assim não há mais. Pode desistir que…
(Sr. G. Larraín: Não houve também nunca, só ela mesmo.)
Você está fora de foco, não é, meu Edwaldo?
(Dr. Edwaldo: Não estou vendo bem.)
Está vendo bem?
(Dr. Edwaldo: Não, não estou enxergando bem por causa dos problemas da vista.)
Se você quiser olhar mais de perto… mas eu não sei se adianta. Quem sabe se você vê amanhã, não é?
(Dr. Edwaldo: Mesmo de perto eu não vejo bem.)
É.
(Dr. Edwaldo: Eu conheço, essa foto eu conheço.)
É engraçado o seguinte: eu não tenho idéia de que conhecia, uma idéia clara de que conhecia essa foto eu não tenho, é uma coisa obscura.
(Sr. P. Roberto: Ele não descobriu há muito tempo essa foto também.)
(Sr. P. Henrique: Deve ter sido da época que ele a descobriu. Oitenta e oito que ele a descobriu certamente.)
Oitenta e oito.
(Sr. P. Henrique: Tem a data atrás, acho que é oitenta e oito.)
Mas ele não tinha isso na mão quando morreu?
(Sr. P. Henrique: Tinha sim, senhor. A foto estava na mão dele sim, senhor.)
Engraçado que a foto…
(Sr. P. Henrique: Está plastificada.)
Talvez seja do plastificado, porque tem ligeiras quebras.
(Sr. P. Henrique: É, pelo uso.)
É pelo uso ou para impedir que caia?
(Sr. P. Henrique: Não, é pelo uso. Coloca um plástico de um lado e isso com o tempo desgasta ao guardar no bolso.)
* Uma menina habituada a um ambiente muito calmo
Uma coisa que eu não estou vendo bem… eu estou notando que na parte aqui de cima tem uma espécie de coletezinho, ou qualquer coisa, por debaixo do tecido geral.
(Sr. Guerreiro: Mas o senhor está com uma vista excelente. O senhor sem óculos vê isso tudo?)
Eu estou de óculos. Ah não estou… hahahaha! Que coisa engraçada, eu estava certo que estava de óculos.
(Sr. Guerreiro: Nós de óculos não estamos vendo o que o senhor sem óculos está vendo. O senhor não conhecia a fotografia. Se conhecesse podia…)
A memória podia ajudar.
(Sr. P. Henrique: Melhorou com os óculos?)
Um pouquinho.
Aqui ela tem na mão um livro, um caderno, alguma coisa.
(Sr. Guerreiro: Tem alguma coisa realmente.)
Não sei o que é, mas tem. Mas de uma cor muito branca também.
(Sr. Guerreiro: Será que não é uma pequena bolsa de criança?)
Também pode ser uma bolsinha de criança.
(Sr. Guerreiro: É, pode ser. Mas é extraordinária. O vestido também muito encantador, muito bonito.)
(Sr. P. Roberto: Tudo é tão puro, não é?)
Agora, uma menina habituada a um ambiente muito calmo, não é? Que devia ser Pirassununga.
(Sr. G. Larraín: Ela está aqui com os irmãos. A foto maior sai Dr. Gabriel e creio que outras das irmãs.)
Ah, isto é uma parte de uma foto maior?
(Sr. G. Larraín: Sim, é uma parte de uma foto sim.)
(Sr. P. Roberto: A Dona Yayá devia ter uns dois anos só nessa fotografia que está aqui, assim sentadinha aqui assim.)
(Sr. G. Larraín: E Dr. Gabriel está também.)
(Sr. P. Roberto: Ele está aqui em pé ao lado.)
Ele era mais velho do que ela um pouquinho, um ano ou dois, uma coisa assim.
(Sr. P. Roberto: Parecia ter uns doze anos assim só.)
(Sr. P. Henrique: Um dos objetos que virão às mãos do senhor é um pedaço da janela da casa da Dona Gabriela e onde a Sra. Dona Lucilia nasceu, de Pirassununga. Estava com o Sr. Horácio e vem para o senhor também.)
Mas como é que ele sabe?
(Sr. P. Henrique: Acho que deve ter fontes seguras, porque ele era muito cuidadoso para isso.)
(Sr. Guerreiro: Muito responsável.)
Muito, muito responsável.
(Sr. P. Henrique: São algumas recordações que o ocorrido…)
Esse tipo de sapato as crianças usavam ainda no meu tempo. Talvez vocês tenham usado. Eu usei.
(Sr. P. Roberto: Eu ainda tenho idéia de ter visto isso sim.)
(Sr. G. Larraín: Sapato de verniz, não é? Deve ser de verniz.)
Verniz, sim.
[O Sr. Dr. Plinio fica analisando a foto, em silêncio, durante 35 seg.]
Aqui no fundo a gente tem impressão que existe um móvel à maneira daquele. Um dunquerque com os abat-jours.
(Sr. P. Roberto: Tem sim, tem um móvel. Na fotografia grande aparece o móvel.)
Não há uns abat-jours aí redondos com umas bolas?
(Sr. P. Roberto: Não, não, aqui é a mãozinha da Dona Yayá que está aqui, aqui é o irmão, mas não dá para saber se tem um móvel atrás. Tem porque ela está sentada, a menininha.)
(Sr. P. Henrique: Recostada, não é?)
(Sr. P. Roberto: Não, não, essa pequenininha que está com a mão em cima dela. É a mão de Dona Yayá, segundo o Sr. Horácio me contou.)
Irmã de tia Yayá?
(Sr. P. Roberto: Não, não, é ela própria que está aqui. É a mãozinha dela que está aqui. E aqui é o Dr. Gabriel, o corpo dele que está aparecendo aqui, um pedaço. Aqui é a gola, aqui tem o pé preto, o vestido, e aqui é ela pequenininha, Dona Yayá, que está sentadinha aqui em cima de um móvel e que está com a mãozinha aqui assim.)
Bom, eu vou fazer o seguinte: eu vou ficar com essa fotografia para mim, mas eu vou usar uns dias e depois faço circular entre vocês. Mas eu não quero que vocês dêem para circular para outras pessoas, apenas para os membros do grupo.
(Sr. P. Roberto: Dessa comissão.)
Dessa comissão.
(Sr. P. Henrique: Mas depois volta para as mãos do senhor.)
(Sr. P. Roberto: E quanto tempo com cada um?)
Um pouquinho de acordo com as graças, com o vaievem, uma coisa com certa espontaneidade.
* Há entre vocês um defeito comum a todos, que é uma carência de profundidade de alma
(Sr. G. Larraín: De minha parte eu pediria ao senhor que quando o senhor tivesse nas mãos, o senhor rezasse em função do que o senhor estava dizendo antes aqui. É a questão de que ele foi levado por um descontentamento que Nossa Senhora está tendo para conosco. O senhor disse se nós não melhorarmos, não mudarmos de vida, vai levar a outros daqui. É muito bonito o que estamos comentando, mas o problema é o seguinte: “Vão ou não vão?”.)
Não, mas a mensagem é mais complexa.
A mensagem é a seguinte: “Há entre vocês um defeito comum a todos. Esse defeito toma no modo de ser de cada um de vocês qualidades próprias, características individuais próprias, mas é um defeito só.
Está gravando, não é, Coronel?
(Sr. Poli: Sim, senhor.)
Este defeito toca numa profundidade de alma análoga em todos, o que quer dizer que esse defeito é um defeito de carência de profundidade de alma”.
Porque no fundo da alma não pode caber uma não profundidade de alma indicada pelo dedo de Deus, só pode haver realmente o que eu acabo de dizer.
Agora: Eu, por misericórdia, os alerto a esse respeito. Alerto tomando em consideração que o significado desse defeito é simbolizado pelo ranger do material que constituiria o alto do teto, a trave que suportaria o teto.
Aliás, um pequeno pormenor curioso. O teto não era do meu quarto de dormir aqui onde eu estava, mas, não sei porquê, era o teto da sede de Amparo de Nossa Senhora do meu quarto de dormir. Eu me senti de repente dormindo na sede do meu quarto lá em Amparo e era esse…
(Sr. Guerreiro: Por isso explica a questão da madeira.)
Exatamente. É exatamente isso.
* Um aviso bem solene: não corrigindo esse defeito, viriam os fatos
Depois a idéia de que prestassem bem atenção, porque corrigido esse defeito para o qual vem um aviso bem solene, depois disso viriam os fatos.
(Sr. G. Larraín: Não, não corrigido…)
Não corrigindo viriam os fatos.
Eu preferia não dizer isto, mas eu tenho que dizer tudo.
(Sr. P. Roberto: Depois os fatos são tão “dicedores”, não é?)
Tremendamente dicedores.
(Sr. P. Henrique: O fato d’Ela ter chamado o Sr. Horácio, tanta devoção ele tinha para com a Sra. Dona Lucilia, depois — se pudéssemos dizer, acho que já é comentário do senhor — que ele era o menos nocente daqui, se era para exatamente nos dar esse aviso e interceder por nós para que sejamos aquilo…)
É isso sim.
Não, e depois ele serve muito para fazer entender isso, porque exatamente o lado por onde ele era tão exímio entre nós, era o relevo da profundidade da personalidade dele, da seriedade, de uma porção de coisas que quando vocês analisam estão em oposto aos nossos defeitos.
Portanto, à medida que a gente conversa, o caráter de aviso vai se tornando claro, não permite dúvida.
* Quem sabe se essa graça do Horácio foi obtida por ela como ajuda para nós? Eu acho que é isso.
(Sr. P. Roberto: Mas algo de: “Contem com minha ajuda”.)
Sim, contem com minha ajuda. Inclusive pelo fato de ter isso na mão e de vir a tocar de modo tão exímio nas nossas, isso quer dizer o seguinte: “Contem com a ajuda dela, não se esqueçam dela. Ela está disposta a ajudar”.
Quem sabe se essa graça do Horácio foi obtida por ela como ajuda para nós? Eu acho que é isso.
(Sr. P. Roberto: Depois para amolecer os nossos corações,ñ só ela mesmo.)
Só ela mesmo.
Então jaculatória final: “Santa Mãe, amolecei os nossos corações”.
[Exclamações]
[Durante 30 seg. todos ficam em silêncio, enquanto o Sr. Dr. Plinio recoloca a foto no plástico]
Cabe bem, não é?
(Sim, perfeitamente.)
Eu acho que cabe inteiramente.
Está entrando?
(Sr. Guerreiro: Sim, senhor. Eu não me prontifiquei a lhe auxiliar porque eu sei que o senhor gosta do senhor mesmo se movimentar.)
É, e é preciso.
Bem, que horas são?
(Sr. G. Larraín: São três e dez.)
(Sr. P. Henrique: Aqui é uma outra foto dele de costas no cemitério junto com o senhor, e por detrás está escrito: “São Paulo, Consolação, 19/1/92, dia em que o Sr. Dr. Plinio me convidou a participar da CSN. Esse convite se efetivou no dia 26/4/92”. Ou seja, dia de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano de noventa e dois. Portanto, havia três anos e um pouquinho que ele freqüentava.)
Ponha-me isso aqui na mão.
(Sr. P. Henrique: O senhor está de frente e ele está de costas. A gente apenas visualiza aqui o vulto dele, mas por detrás. A foto não está muito clara, mas aqui estaria a cabeça.)
Ah, estava.
(Sr. P. Henrique: Dá para se identificar. Pega daqui até aqui as costas largas dele.)
Não, e tem qualquer coisa da presença dele.
(Sr. P. Henrique: Tem, tem. O senhor está aqui, o coronel está aqui, e estão os paraguaios para quem ele pedia também bênção aqui aos sábados à noite.)
Ah, pedia, é?
(Sr. P. Henrique: Sim. Ele pedia para os uruguaios, paraguaios, Êremo Nossa Senhora do Pilar e os gaúchos.)
Engraçado, não pedia para a TFP argentina.
(Sr. P. Henrique: Êremo do Pilar sim.)
Sim, mas só o Pilar.
(Sr. P. Henrique: Só.)
(Sr. Guerreiro: Ele não era nacionalista.)
Não, nada.
Agora, o curioso é o seguinte: é que aqui se tem impressão de que estamos… Aqui a gente vê que é um automóvel, mas se tem a impressão de estar dentro de uma casa.
Vocês vêem, dá impressão de cortinas postas em janelas.
(Sr. Guerreiro: O senhor sabe o que se passa? O sol se põe aqui atrás, então a luz vem muito forte. De tal modo que se tirou uma fotografia que segundo as normas da fotografia não devia ser tirada, porque é tirada contra o sol. O sol produz essa claridade enorme que o senhor está vendo aqui, que apaga inclusive certas coisas e fica meio confuso. Isso dá impressão de que se está num ambiente meio fechado, porque não se vê quase a parte externa do jardim.)
Mas você veja isto aqui. Tem todo o aspecto de uma porta-janela que vem até embaixo e uma cortina que cobre o vidro.
(Sr. Guerreiro: Por causa da claridade que é muito grande.)
Eu compreendo.
(Sr. Guerreiro: A claridade é muito grande e apaga os relevos.)
É, eu compreendo.
E aqui vem outra porta-janela deste gênero. Fica curioso, porque…
(Sr. Guerreiro: O senhor sabe o que acontece? Aqui tem uma coluna e aqui tem outra de um pequeno abrigo que existe.)
Ah, aquele negócio.
(Sr. Guerreiro: E isso aqui acho que eram os tijolos que haviam, uns tijolos que deixaram muito tempo aqui. É um vulto meio marrom.)
(Sr. P. Henrique: E aí com a letra dele a data.)
Bom, eu vou pôr essa circulando entre vocês desde já. Fazemos a circulação em sentido inverso.
Bem, meus caros, vamos cuidando de nos recolher?
* Nossa Senhora do Perdão e da Esperança
(Sr. G. Larraín: Pois não, senhor. O coronel tem uma pergunta que é a seguinte questão: não fica claro se o senhor recebeu o Sr. Horácio “post mortem” ou não como e.)
Sim.
(Sr. G. Larraín: Fica com o nome de Plinio Filipe Neri?)
Não, porque eu não me lembro de ter dado esse nome a ele.
(Sr. G. Larraín: O coronel e o Sr. Paulo dizem que ele disse.)
Aí eu acredito na palavra dele.
(Sr. P. Henrique: Ele me confidenciou isso. Ele era muito discreto, mas ele deixou escapar isso um dia e eu retive. Falando com o coronel, o coronel também confirmou que tinha uma vaga idéia. Mas eu sou testemunha disso diante do senhor, diante da Sra. Dona Lucilia e dos presentes aqui.)
(Sr. G. Larraín: Então o senhor confirma esse nome para ele?)
Confirmo.
(Sr. P. Roberto: O senhor não podia dar uma invocação de Nossa Senhora para ele?)
(Sr. Guerreiro: O nome da SV que normalmente se dá.)
Nossa Senhora do Perdão e da Esperança.
(Magnífico, muito bom!)
Bem, vamos rezar então.
Há Momentos…
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