Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 20/5/95 – sábado – p. 14 de 14

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 20/5/95 — sábado

A razão do isolamento de NPF: Eu quero um ideal, quero um estado de perfeição moral, quero um modo de ser tal que se identifica comigo, que é esse estado de perfeição moral * Uma nação santa é aquela em que a grande maioria, mas a muito grande maioria, vive normalmente em estado de graça * σ Brasil que tens coisas tão “pulchras”! Entretanto, tão ignoradas e por ti desprezadas, se soubesses o que és chamado a ser, tu te encherias de gáudio * O isolamento nascido da conseqüência de estar diante de um país que caminha em sentido bem contrário àquele designado pela Providência * Vendo tudo o que se esperava do movimento católico se arrastar, nosso Pai e Fundador sente-se isolado e sofre com o próprio isolamento de Deus * Nesses casos, o católico ou está inteiramente só, ou ele trai a Deus; a nobre missão é sofrer o isolamento que Nosso Senhor sofreu no Calvário * Eu digo com afeto, mas eu quase não compreendo como isso pode não ser, a pessoa não ter idéia de que está traindo * Nosso Senhor no isolamento d’Ele tem que ser posto num crucifixo muito alto para dar a entender que foi posto à margem de tudo e à margem de todos * O que há é que Nosso Senhor muitas e muitas vezes nos pergunta: “Meu filho, eu sou a desgraça, eu sou a infelicidade; você quer fazer parte da minha corte?” * O Livro da Nobreza também está no caminho do esquecimento; já não querem muito, porque é recente e queima

* O Senhor Doutor Plinio comenta dois terços, um feito de vagem e outro de pau-brasil

(Sr. G. Larraín: … é muito bonito. Não é para colocar em Versailles, mas me parece que a coisa enquanto semente é a coisa mais bonita que eu vi. O modo da vagem se virar e tudo tem uma…)

(Sr. P. Henrique: Tem ornato, não é?)

É, exatamente.

(Sr. Guerreiro: E a vagem tem um aspecto sedoso, não é?)

Tem, exatamente.

Depois o modo do carocinho vermelho estar encapsulado dentro é muito engraçadinho.

(Sr. P. Roberto: E a vida que o vermelho tem não existe assim.)

É.

Aliás, esse vermelho é mais bonito aí dentro do que fora…

(Sr. G. Larraín: Fica mais bonito aí que no terço.)

Porque essa cápsula é bege e do lado de dentro com o vermelho fica muito…

(Sr. Guerreiro: Isso dá para um centro de mesa, não é?)

Ah, dava.

Se houvesse uma pessoa sobretudo que tivesse gosto e depois com um pouco de arame embaixo estruturasse, podia ficar uma coisa curiosíssima.

(Sr. G. Larraín: Fica muito brasileiro.)

Muito.

Agora, querem ver o pau-brasil, a amostra legítima? Onde é que está?

(Sr. Amadeu: Está lá dentro. Dá impressão que isso aqui é mais novo e mais bonito. Está seco já.)

(Sr. Guerreiro: Mas está interessante.)

Eu acho muito.

(Sr. Amadeu: É do Pe. Olavo lá de Miracema.)

O Pe. Olavo comprou isso em Porto Seguro ou qualquer coisa assim lá da Bahia, passando por lá.

(Sr. Paulo Henrique: Hummmm!)

Começa a se explicar, não é?

(Sr. G. Larraín: Uma coisa que ficou lindíssima — estávamos comentando como ficou bonita — é a cortina daí. A cor da cortina.)

Ficou muito bonita, não é?

(Sr. G. Larraín: Muito bonito, mas fabuloso!)

Gostei muito.

Eu preciso mandar vir almofadas.

(Sr. G. Larraín: O senhor vai mudar estas daqui também?)

Como?

(Sr. G. Larraín: Porque a cor é aquele.)

É aquele, é.

(Sr. G. Larraín: Ficou de um dourado…)

Ficou muito bonito.

Assim a gente vai ajudando a casa a não cair.

(Sr. G. Larraín: Não, não é só não cair, mas é interessante porque isso tem que ser francês, não é?)

É. São certas coisas que não têm conversa.

(Sr. Poli: A madeira é muito bonita também, não é?)

Aí é a cruzinha que está na sua mão, não é? Parece que está muito mal envernizada, encerada, ou qualquer coisa. Cor de pau comum. Outra coisa também: a cruz é completamente sem beleza.

(Sr. Poli: Não, a cruz é “de lo último”. Mas é uma madeira firme.)

O que é?

(Sr. Poli: É uma madeira firme, pesada.)

Bom, isso é outra questão, mas há muitas madeiras firmes e pesadas.

(Sr. G. Larraín: Mas trouxeram há tempo — o Sr. Fernando Larraín trouxe — umas amostras de pau-brasil grande para ver se colocava naquela varanda de Amparo. Não sei se o senhor se lembra.)

De onde?

(Sr. G. Larraín: Se o senhor acharia que tivesse propósito colocar na varanda de Amparo.)

Ah.

(Sr. G. Larraín: E o senhor disse que era bonito demais para colocar lá.)

Não me lembro não.

(Sr. G. Larraín: Creio que foi a explicação que pelo menos transmitiram que o senhor teria dado, que ficava muito defasado do resto da casa. Ficava uma coisa de demasiada categoria em relação ao resto. É muito bonita, é uma madeira magnífica.)

Não me lembro não.

(Sr. G. Larraín: Eram deste tamanho assim, mais ou menos. Estava muito melhor envernizada, porque essa não está bem envernizada.)

Nada, isso aí é…

(Sr. Poli: O senhor achou a madeira um pouco vermelha demais ou não?)

Não, não é propriamente isso, é quase o contrário: um pouco marrom demais, cor de assoalho.

(Dr. Edwaldo: Mas tem pedaços bem vermelhos.)

Não notei isso não.

(Dr. Edwaldo: Não, não nesta aqui.)

Ah, bom.

Essa então não foi muito bem escolhida.

(Sr. P. Roberto: Não está ressaltando a cor mesmo.)

O que essa contém que é um pouco digna de atenção é que é de Porto Seguro, onde se celebrou a primeira Missa.

Bom, vamos aos nossos temas, senhores?

O Amadeu levou para dentro aquela coisa?

(Sr. P. Henrique: Não, está aqui ainda.)

Está bem.

(Sr. Amadeu: O senhor vai dizer alguma coisa ou não?) [Risos]

Hahahaha!

Então, qual é o problema, meu filho?

(…)

(Sr. P. Roberto: O que nós queríamos mais perguntar era essa essência do sofrimento do senhor, que é uma coisa que temos que participar disso. Por isso queríamos, se o senhor pudesse descrever um pouco mais, que tenha a bondade de descrever isso para nós.)

* A razão do isolamento de NPF: Eu quero um ideal, quero um estado de perfeição moral, quero um modo de ser tal que se identifica comigo, que é esse estado de perfeição moral

Eu estou um pouco pensativo porque estou pensando na resposta.

Quando se fala a respeito de isolamento e de outras coisas do gênero, diz-se uma coisa evidentemente verdadeira, mas é incompleta, não se compreende bem, a não ser à luz de uma coisa que eu vou tratar agora. Essa é muito difícil de ser bem compreendida por nossos defeitos, mas que é isso, que é o que o isolamento tem de mais doloroso.

Quando uma pessoa se sente nas condições em que eu me sentia desde pequeno com essa questão do isolamento, esse isolamento era muito menos o seguinte: “Não me querem como eu quero os outros”, mas muito menos, do que isso. [Era:] “Eu quero um ideal, eu quero um estado de perfeição moral, eu quero um modo de ser que é o modo de ser tal que se identifica comigo, que é esse estado de perfeição moral. Vendo esse estado de perfeição moral eu me ligo a isto como se fosse um outro eu”.

Isso precisa ser explicado para ser bem entendido.

Você tome uma pessoa que, vamos dizer, vivesse num… Eu vou fantasiar uma coisa inteiramente diferente do que nós temos debaixo dos olhos.

Vocês viram — acho que se lembram talvez ainda — uma descrição de uma cerimônia de Corpus Christi no tempo do Francisco José em Viena, que foi publicada por uma revistinha francesa, mas que nós comentamos muito aqui, etc.

Você imagine uma pessoa que fizesse parte daquele mundo e que compreendesse o que aquele mundo tem de moralmente elevado. O que não quer dizer o seguinte: que os arquiduques vivessem em estado de graça. É claro que isto supunha que os arquiduques vivessem em estado de graça, mas não é só isso. Que todos os arquiduques de Viena vivessem em estado de graça como poderiam viver todos os sacristãos não dá a coisa no seu fundo. Os sacristãos podem ser boa gente, até devem ser boa gente, praticar as virtudes, de maneira tal que seria a mesma coisa um sujeito ser sacristão em Viena d’Áustria e ser sacristão na matriz de São Francisco de Assis de Oklahoma, estado da América do Norte. São coisas diferentes, não é?

* Uma nação santa é aquela em que a grande maioria, mas a muito grande maioria, vive normalmente em estado de graça

Você imagine um indivíduo que fosse arquiduque, mas que compreendesse perfeitamente o que é a santidade própria a um arquiduque, que é diferente da santidade de sacristão.

O que é propriamente a santidade de um arquiduque, e o que é que eu imagino como um arquiduque?

Tomasse um homem que compreendesse bem o papel da Áustria como foco de sacralização do mundo, foco de sacralização da Europa Central, depois, procedendo por círculos cada vez mais concêntricos, foco de sacralização do mundo germânico, depois das nações do Danúbio, depois da Áustria, depois da Hungria, e imaginar o que é uma nação santa.

Uma nação santa é aquela, então, em que a grande maioria, mas a muito grande maioria, vive normalmente em estado de graça. Mas sendo uma nação que é santa, mais do que um indivíduo que o é, o próprio “ser nação” é capaz de uma amplitude de santidade e de uma grandeza de santidade, que é maior do que normalmente a de um indivíduo.

* Cada povo considerado em si, se soubesse entender-se a si próprio e realizar-se a si próprio nesta linha, daria um ente de uma beleza difícil de compreender

Você toma um prédio que me diz muito a esse respeito, um prédio, aliás, violentamente atacado no século passado, o prédio do Westminster, do Parlamento inglês, que eu acho muito bonito e que foi muito atacado por católicos, e ele era católico o homem.

Então tome o prédio do Parlamento. Aquele prédio é assim: eu não acho que aquele prédio seja muito britânico; ele é muito internacional medieval, e a esse título é britânico também. Mas que a Inglaterra use aquela coroa que é aquele prédio, que está para a Inglaterra como a coroa está para a fronte de um rei, isto tem uma beleza especial que é a Inglaterra enquanto santa. E tem uma realidade de alma especial que é muito difícil da gente compreender, mas que a gente compreende em algo quando a gente vê as mil descrições que o Antigo Testamento dá da nação eleita se ela tivesse correspondido à vocação.

A gente vê que teria dado àquilo uma coisa coletiva, um ente coletivo como é uma nação, mas teria dado com uma beleza, com uma coisa que fazia pressentir a Nosso Senhor Jesus Cristo.

A gente poderia dizer que a nação estava para Nosso Senhor Jesus Cristo como naquela plantazinha a semente vermelha seria Nosso Senhor Jesus Cristo e aquela cápsula em volta seria a nação. A nação mais Cristo dava uma beleza de alma — que deveria ter vindo e que veio em Nosso Senhor, mas [que] a nação tratou como nós sabemos — que é incomparável.

Cada povo considerado em si se soubesse entender-se a si próprio e se ele soubesse, entendendo-se a si próprio, realizar-se a si próprio nesta linha, daria um ente de uma beleza difícil de compreender.

* O Brasil que tens coisas tão “pulchras”! Entretanto tão ignoradas e por ti desprezadas, se soubesses o que és chamado a ser, tu te encherias de gáudio

Um pouco eu achei interessante este comentário que estou fazendo aqui mais ou menos ter percorrido como um sussurro as pessoas que estavam aqui. Passou pela cabeça de todos o seguinte: “O Brasil que tens coisas tão “pulchras” quanto essa que está aqui! As tens em [tão grande] número e entretanto tão ignoradas e por ti tão desprezadas, que tu não sabes o que tu és. Se tu soubesses o que és, se tu soubesses o que és chamado a ser, tu te encherias de gáudio, de honra, de devaneio, e tu serias outra coisa no conjunto das outras nações tuas irmãs”.

(Sr. Poli: Que espetacular, é uma coisa emocionante!)

Eu penso assim e vejo as coisas assim, sinto as coisas assim.

Por causa disso, a pessoa ver numa nação inteira…

(…)

é mais ou menos o que sente uma pessoa se é obrigada todos os dias a colaborar com o lixo em que querem meter seu país, aplaudindo e alegrando-se em ver que a alma desse país que é feita para uma certa orientação, que nessa alma, vamos dizer, Hollywood manda diariamente tantas toneladas de podridão e que essa árvore é, de um modo amaldiçoado, maldita quotidianamente com vermes que enchem as belezas.

Pior: vermes que acabam morando dentro da própria cabeça das pessoas e que quando [estas] assoam o nariz saem vermes em quantidade. Por quê? Por causa da podridão — daquilo que se chama em francês vermine —, da vermine que habita as cabeças em quantidade e que dão no que se lê na seção política dos jornais, hoje. Está acabado, para não ir mais adiante.

* O isolamento nascido da conseqüência de estar diante de um país que caminha em sentido bem contrário àquele designado pela Providência

Eu não sei se vocês compreendem que tomado diante de um país qualquer, amando nesse país — ainda que não seja o seu — o plano de alma e de prosperidade que a Providência tem para com aquele país, depois ficando desolado de ver que daquela “alma” foi feita aquela nojeira, que daquelas possibilidades materiais foi feita aquela miséria, ter que viver como inteiramente idêntico, como inteiramente conatural, como se fosse um irmão da irmandade, ter que conviver com aquele e tomar os ares, tomar os jeitos, tomar as brincadeiras, as galhofas, as porqueiras, tomar isto como se fosse próprio, brincar na praça pública da cidadezinha desta maneira e ser inteiramente assim, aí vem o isolamento.

Por quê isolamento?

Dirão: “Deixe eles serem como são, você será como é”.

Isso é o raciocínio de um ateu, o ateu pensa isso. Mas nós que sabemos que Deus existe e sabemos a rejeição que há contra Deus quando uma nação se constitui dessa maneira, nós compreendemos que um profeta do Antigo Testamento olhando para essa situação sofre, sofre intensamente por ver aquela rejeição de Deus.

Não sei se eu continuo claro.

(Sr. G. Larraín: Claríssimo, senhor, extraordinário.)

Aquele Absoluto, aquela coisa eterna que se refrata ali e que é Deus, jogado de lado. Não tem nada, todo o mundo de acordo com aquilo e achando isso muito interessante. Você é único que chora as águas sujas e as margens poluídas de tal ou tal rio que seria o rio da cidade.

Eu tomo uma coisa que diz bem o que eu quero.

(…)

* Vendo tudo o que se esperava do movimento católico se arrastar, nosso Pai e Fundador sente-se isolado e sofre com o próprio isolamento de Deus

Bom, eu dou um outro exemplo que é muito mais mordente do que esse, ou mais mordaz do que esse.

Eu me lembro no começo do movimento católico, na fase em que já havia uma população católica, razoavelmente católica, que formava uma massa não disciplinada em associações, depois o período em que essa massa passou a ser disciplinada em associações, e associações que acabaram por ser colossais. Imaginem essa massa no seu primeiro estágio. Eu já cheguei a descrevê-la aqui quando eu ainda alcancei no seu primeiro estágio.

Eram aquelas procissões com sacerdotes velhos, não cansados, mas envelhecidos, que é uma coisa diferente, alguns levando o Santíssimo Sacramento debaixo do pálio, ou com outras insígnias e outros paramentos, fazendo uma presença de honra embaixo do pálio. Depois um povo que era o público de calçada vendo passar aquela procissão. Depois algum tanto de público de procissão que seguia a procissão ou que antecedia a procissão, que era um pouco mais movediça, um pouco mais…

Imaginem um católico que está vendo que Deus está querendo que aquilo se transforme num movimento católico vivaz, num movimento católico conquistador, que está querendo que esse movimento tome as cidades, tome os estados, sobretudo vença nas almas, e que aquilo se transforme em alguma coisa que corresponda àquelas sementes que eu mostrei há pouco aqui, que seriam o símbolo de uma outra coisa diferente.

Esse vai assistir à procissão e vê aquela coisa passar. Então: [O Senhor Doutor Plinio canta da forma mole que se cantava:] “Ben-dii-tô, louvado sê-ja”. Agora vem a apoteose do desafinamento: “O Santissíí-mo Sacramento, o Santissíí-mo Sacramento” e daí por diante: “Digam todos os Anjos para sempre, amém” a gente tem impressão que restos de sobremesa não mastigados correm ao longo da boca da gente que canta isto.

Eu que sei o que a Providência queria daquilo, que o ente coletivo chamado Movimento Católico, semente de um Brasil chamado Brasil católico que está ali, vejo tudo o que Deus queria dar e que começa a germinar lá, eu vejo aquilo se arrastar: “Os Aaanjos, todos-os-Anjosss”. Pára um pouco porque todo o mundo cansou, depois suspiro coletivo. A única coisa que tem de coletivo vivo ali é o suspiro e o cansaço: “Os Aaanjos, todos-os-Anjosss, digam para sempre, pááára sempre, amém”. Todas as notas do desafinamento eram cantadas sucessivamente ali.

Mas compreende que aquilo é um estado de alma que não quer desgrudar daquela gente, que grudou e que se sente eufórico daquela moleza, daquela sujeira, daquela babugem.

(Sr. G. Larraín: É um asco aquilo.)

Mas é evidente, não é?

Um católico de nossa têmpera vendo isto se sente isolado. Mas não é um isolado romântico de um homem Robinson Crusoé ou sei lá, qualquer coisa assim. É que ele sente que Deus está ali isolado, ele sente que enquanto Deus estiver ali isolado nada do que está lá vale qualquer coisa.

* Nesses casos, o católico ou está inteiramente só, ou ele trai a Deus; a nobre missão é sofrer o isolamento que Nosso Senhor sofreu no Calvário

(Sr. G. Larraín: E ultrajado, não é?)

Ultrajado.

(Sr. G. Larraín: É isolado, mas ultrajado insolentemente.)

Ultrajado.

Nessa perspectiva, ele ou está inteiramente só também, ou ele trai a Deus.

A nobre missão dele é sofrer o que Deus Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu no alto do Calvário ao saber que Ele ia ser isolado dessa maneira, rejeitado e repudiado dessa maneira. Ele conheceu o que a nação “X” poderia vir a saber, mas Ele conhecendo isto ficou vendo — Ele é o Profeta — o que de fato seria e o horror que haveria. Ele sofreu por isto, e eu sofro o que Ele sofre, ou não valho nada. Esse é o ponto.

A gente vê isso, e depois vê a indiferença “agoniante” que isso traz consigo…

(…)

Eu me sinto isolado, ou seja, eu sinto que Deus está isolado. Nesse isolamento [em] que Deus está, eu não posso me permitir a mim mesmo um sentimento de irmão em relação aos que isolam Deus dessa maneira porque seria uma mentira, eu estaria abandonando a Nosso Senhor. Ele está andando com o crucifixo, meu papel é de carregar a Cruz como o Cireneu, ou de me revoltar e de investir contra os homens que vão açoitando Nosso Senhor enquanto Ele carrega a Cruz. Mas o que eu não posso fazer é tomar essa atitude simbolizada por esse objetozinho de que eu estou falando.

* É preciso que de um modo ou de outro percebam que eu mostro, e que eu dou a entender que sou diferente

(Dr. Edwaldo: Dormir no Horto.)

Dormir no Horto e daí para fora. Isso eu não posso fazer.

Agora, se querem saber, o fundo da coisa é exatamente isso: aquilo que reflete esse estado de espírito, eu não posso dar àquilo o meu consentimento. Mas mais ainda: eu não posso fingir que dou o meu consentimento. Mas ainda mais: eu não poso fingir que não estou percebendo. É preciso que de um modo ou de outro percebam que eu mostro, e que eu dou a entender que sou diferente. Agora então vamos! Começa a batalha.

(Sr. G. Larraín: Mas não fazer notar de tal maneira, que cause uma ruptura também, não é?)

Também.

(Sr. G. Larraín: Porque isso ainda é mais duro ainda.)

É.

(Sr. G. Larraín: Porque se o senhor se mostrasse, totalmente, rompia.)

Ah, rompia!

(Sr. G. Larraín: Ainda por cima tem que ter uma nota de acolchoamento. Pergunto…)

Não, é verdade, porque tenho que dar a entender que eu tenho uma existência diferente e fazer com que eles não me matem, não me devorem, não me assassinem de calúnias, para que eu tenha…

(…)

* Eu sei que sou feito de um modo que aquilo que eu tenho por evidente, eu tenho por evidente para todo o mundo e não apenas para mim

(Sr. P. Roberto: … porque uma coisa assim, o senhor falar de sofrimento, de Nosso Senhor, nessa perspectiva, eu ainda não tinha ouvido. Se ouvi foi com dureza…)

(Sr. P. Henrique: Também não lembro de ter ouvido, senhor.)

(Sr. Gonzalo: O Sr. não sente que é assim. Acho que deve estar havendo alguma confusão. Desde o começo a gente vê que o senhor não é assim. Em relação ao mundo, à Revolução, é isso. Agora dizer que não, que não se vê o Sr. assim…)

(Sr. P. Roberto: O que tem de novo é que a pessoa vê em relação a si, que cumpriu o dever e tal, mas não nessa perspectiva do plano de Deus que o senhor disse agora de uma maneira tão viva. Isso é que para mim foi muito novo. Pode ser que o senhor tenha dito e eu tenha dormido, sei lá o quê.)

Meu filho, eu me penitencio disso, mas eu sei que sou feito de um modo que aquilo que eu tenho por evidente, eu tenho por evidente para todo o mundo e não apenas para mim.

(Sr. P. Henrique: A cegueira está em nós.)

(Sr. P. Roberto: A culpa está em nós. Eu digo só que a graça agora foi que a gente tenha sido tocado por isso.)

Pode ser isto, mas quando o Gonzalo falou há pouco, em vez de falar de um povo ou de outro, falou da Revolução, em relação à Revolução a posição é essa.

Agora, qual é o povo que não está imerso na Revolução?

(Sr. G. Larraín: E que o senhor é o contrário da Revolução, todo o mundo viu, senão não seria membro da SV, não seria nada.)

(Sr. Poli: Isso que o senhor acabou de dizer é um hino, um cântico ao que o senhor sempre fez, sempre foi, é. Nessa linha, para nós é supernovidade e ao mesmo tempo é a mesma coisa que nós sempre ouvimos.)

É, aqui a coisa está bem dita. Nessa perspectiva eu reconheço que é uma supernovidade. É o que o Paulo Roberto dizia há pouco e o Paulo Henrique também. Mas além disso é uma coisa que vocês sempre ouviram.

(Sr. P. Henrique: E o senhor é uma manifestação viva disso.)

Contínua.

* Eu digo com afeto, mas eu quase não compreendo como isso pode não ser, a pessoa não ter idéia de que está traindo

(Sr. P. Henrique: Desde o momento que nós tivemos a graça insigne de conhecê-lo, vimos: “Esse é diferente de todos. Sabe o que quer e toca em frente”. A nossa infidelidade nos fez colocar escamas nos olhos.)

(Sr. P. Roberto: Mas, senhor, ver, por exemplo, que nós somos traidores…)

Sim, são.

(Sr. P. Roberto: … e não somos assim, isso foi uma coisa que ficou muito viva pelo menos para mim agora.)

Meu filho, eu digo com afeto, mas eu quase não compreendo como isso pode não ser, a pessoa não ter idéia que está traindo.

(Sr. Poli: É isso mesmo.)

Eu quase não compreendo. É porque a pessoa não refletiu dois dedos a respeito da situação.

(Sr. Poli: Isso somos nós. Pelo menos para mim, é mesmo.)

Quer dizer, há uma coisa em que a relação minha com um filho é de chamar, de procurar atrair, mas nunca é essa: “Vem cá porque você é meu filho e eu estou inteiramente satisfeito com você”.

(Sr. G. Larraín: Eu discordo, não do senhor evidentemente, com o que está sendo dito. Porque nós quando estamos entre nós — pode ser por cumplicidade — dizemos como é a situação entre nós, que são um grupo de bandidos, de pessoas que estão numa situação péssima em relação ao senhor. Agora, dizer que não vemos isso também não me parece verdadeiro.)

(Sr. Guerreiro: Ou a gente vê e depois a gente não quer tirar as conclusões.)

(Sr. G. Larraín: […] Há aí uma coisa que está mal posta, porque nós vamos ser julgados. Então não temos culpa?! Se não vimos quem é o senhor, se não vimos o nosso estado em relação ao senhor, então não se tem culpa. E o senhor justamente nos está acusando aqui.)

Não, eu acho que por causa disso é evidente e é muito bom que você diga, mas eu acho que a coisa verdadeira é reconhecer essa posição culpadamente bilíngüe, em que de um lado a pessoa diz que não tem culpa porque não tem a maior culpa, e depois, de outro lado, ela diz que tem culpa porque percebe que sua culpa é a culpa maior.

(Sr. G. Larraín: E sobretudo também no tirar as conseqüências disso, que é o que o Sr. Guerreiro disso. Aí tragédia coletiva completa.)

* Nós em tudo isso pecamos por nossa culpa, nossa culpa, nossa máxima culpa

Eu vi uma vez uma coisa no tempo que eu estudei para escrever o “Em defesa”, um desses tipos que fazia movimento revolucionário religioso dizer o seguinte: “Como pode ser verdade que uma pessoa ao mesmo tempo diz que pecou por sua culpa, sua culpa, sua máxima culpa, em relação a todas as ações más que praticou? Não pode ser, porque essas ações más… vamos dizer, foram até um certo limite, está muito bem, mas não foram todas igualmente culposas. Portanto, em relação a muitas não houve a máxima culpa”.

Evidentemente é um joguinho de palavras para encobrir o seguinte ponto que é preciso tomar em consideração:

É que há tantas variedades de culpa e tantas variedades de mal, que a pessoa nas várias variedades pode ter chegado à máxima em várias, considerada cada variedade, e neste sentido ter pecado por sua culpa, sua culpa e sua máxima culpa. Mas vai mais longe: é que certos modelos de culpa comportam com facilidade um certo grau, e outros com facilidade um grau muito maior. De maneira que essa expressão é dita para designar essa infinitude de situações e a queixa do progressista não tinha nenhuma razão de ser.

Assim também conosco. Nós em tudo isso pecamos por nossa culpa, nossa culpa, nossa máxima culpa.

(Dr. Edwaldo: Por pensamentos, palavras e obras.)

Por pensamentos, palavras e obras.

(Sr. P. Henrique: E omissões também.)

E omissões, é claro, é claro!

* Nosso Senhor no isolamento d’Ele tem que ser posto num crucifixo muito alto para dar a entender que foi posto à margem de tudo e à margem de todos

Mas pode-se dizer minha culpa, minha culpa, entendendo assim essa multitudinária modalidade de culpas, não é?

(Sr. G. Larraín: Está muito bom.)

Voltando à questão do isolamento: Nosso Senhor, por exemplo, do alto da Cruz esteve nesse isolamento.

Eu até não gosto de determinados crucifixos impressos — não sei se viram isso — [em] que Nosso Senhor está numa Cruz tão rasa, que está quase com a altura dos homens que estão fora da Cruz. Está metido nos vendedores de pipoca, nos vendedores de objetos de piedade do culto do Antigo Testamento, em mil coisas que andam por ali, em ladrões que daqui a pouco vão ser crucificados, mas que estão roubando, etc. Ele pelo meio e quase conversando dentro da dor d’Ele com aquela gente.

Não é verdade. Nosso Senhor no isolamento d’Ele tem que ser posto num crucifixo muito alto para dar a entender que foi posto à margem de tudo e à margem de todos, numa altura em que a rejeição feita a Ele ainda é maior, e que ali Ele gemeu, sofreu, etc., até ao momento de abrir o Céu para o bom ladrão e morrer.

(Sr. G. Larraín: Tem que ser assim mesmo.)

Isso é que me parece.



* Houve no desinteresse do Grupo pela Oração da Restauração e pelas Vias-Sacras do Senhor Doutor Plinio, a mesma atitude de ensebamento do movimento católico

Mas querem ver um pouco como são essas coisas? Duas coisas.

É algo de geralmente admitido no Grupo que a “Oração da Restauração” é uma muito boa oração e que convém rezá-la em certas circunstâncias. Os senhores todos sabem que essa oração foi redigida, quase que rabiscada, em cima de uma daquelas mesas de mármore ordinário do Jordano. Quando me pediram eu compus ali e dei. Ali naquela roda do Jornado ela foi lida e considerada muito boa.

Eu providenciei que eles recebessem um texto: “Ah, muito bom”, e não se falou mais dessa oração, acabou-se. Redigi algumas Vias-Sacras, foram lidas, foram achadas muito boas também. Foram para o mesmo bolso onde já estava guardada a “Oração da Restauração” e alguns papéis ensebados, desses que a gente muda de um paletó para outro e nem tem tempo de ver o que é.

Em certo momento soprou um vento mais forte da graça e o João começou a fazer insistência para valorizar esses pensamentos, para valorizar essas Vias-Sacras, e isso no Grupo até hoje ainda tem uma certa vida.

Mas de repente alguém na Colombia resolve valorizar isto lá, e isto teve uma circulação muito grande na Colombia. [Vira a fita]

Até órgãos de publicidade que não têm nada que ver conosco publicaram essa coisa.

Dentro do Grupo soube-se disso, mas se eu distribuísse o exemplar dessa Via-Sacra para todo o mundo lá: “Ah, muito obrigado”.

(Sr. P. Roberto: É o ensebamento, do que o senhor estava dizendo, da procissão.)

É a mesma coisa: “Louvem a Deus para sempre, amém”. A mesma coisa.

Uma atitude de uma pessoa que fosse inteiramente contra isso teria que ter a atitude que eu procurei tomar ao longo de minha vida, em toda a linha, de todo o modo e de todo o jeito. É o que a gente tem que fazer.

(Sr. G. Larraín: […] O senhor tratou um pouco disso no MNF de sexta. […] Se a gente fosse um padre, por exemplo, e tivesse ouvido o que o senhor disse sobre a estrutura podia sentir um resto de boa fé e acordar um pouco. O problema é que a gente vê que a estrutura não acorda e a ordem temporal tampouco acorda. Portanto, é mais provável que dentro tampouco acordemos, porque a coisa é pior.)

Concordo totalmente.

(Sr. G. Larraín: Pode-se cortar um pouquinho?)

(…)

* O que há é que Nosso Senhor muitas e muitas vezes nos pergunta: “Meu filho, eu sou a desgraça, eu sou a infelicidade; você quer fazer parte da minha corte?”

Enfim, Carlos X foi destronado, ele foi até Cherbourg ou algum porto da França para tomar um navio que deveria levá-lo até a Inglaterra. Mas foi com toda a calma, dir-se-ia que estava combinado com Luís Filipe que o destronava.

Quando chegou junto ao navio alguns monarquistas legitimistas que estavam junto ao navio e que tinham feito uma longa viagem para acompanhá-lo se aproximaram dele para apresentarem as despedidas. Então saíram as despedidas.

O Chateaubriand disse que, como se podia imaginar, era muito pequeno esse número de courtisans du malheur, cortesãos da infelicidade, da desgraça.

A expressão é muito feliz; se se aplicava historicamente àquela situação é uma outra questão.

O que há é que Nosso Senhor muitas e muitas vezes nos pergunta: “Meu filho, eu sou a desgraça, eu sou a infelicidade. Você quer fazer parte da minha corte?”.

A questão é a seguinte:

Eu estou conversando aqui com vocês, amanhã pode acontecer conosco o que aconteceu com o Christian Vargas, e quando nós começarmos na nossa agonia a rever a nossa vida, de repente vem essa pergunta: “Você foi um courtisan du malheur?”. Que resposta dar?

(Sr. G. Larraín: Aí é trágica a resposta.)

Quer dizer, eu entrei para a equipe dos courtisans du malheur e ali estive sempre à procura do bonheur para me inscrever na corte. Porque foi isso!

(Sr. G. Larraín: Foi. Está perfeitamente isso mesmo.)

Não é outra coisa.

* Eu era chamado a ser “courtisan du malheur”; o que é que eu fiz?

(Sr. G. Larraín: É uma coisa seríssima mesmo, mas seríssima. É um balanço, muito, muito, muito preto.)

E que precisa ser feito.

Bom, meus filhos, que horas são, hein?

(Sr. Poli: Começou muito mais cedo hoje. Ainda é cedo, mas começou muito mais cedo.)

Eu vou confessar que vim mais cedo também para poder me deitar um pouco mais cedo.

(Sr. Poli: O que o senhor disse para nós dá para a vida inteira.)

Eu acho que sim, é fora de dúvida.

(Sr. Poli: É para a vida ficar de joelhos meditando, pensando.)

Eu acho que sim, e no duro, não é? No duro.

(Sr. Poli: Depois uma das reuniões mais longas porque é para a vida inteira.)

Isso.

Depois fica aquilo, não é? Quer dizer, passa de repente a ocasião, passa a situação, e a pergunta: “Eu era chamado a ser courtisan du malheur. O que é que eu fiz?”.

(Sr. G. Larraín: Essa formulação está extraordinária. Agora, trata-se de ver como romper essas cumplicidades e ser “courtisan do malheur” mesmo. Porque, como o senhor está dizendo aqui, quem de nós não pode morrer a qualquer hora? E aí?)

E depois isso é misterioso, o que o Paulo Henrique dizia há pouco sobre a mão que pesa. Há aqui uma das mais…

(…)

na calma e na tranqüilidade noturna desse apartamento, tudo isso em última análise a gente somando e subtraindo acaba sendo que amanhã pode estar no chão. Porque ninguém sabe qual é o dia de amanhã.

(Sr. G. Larraín: O que é que pode estar no chão?)

(Sr. P. Henrique: O apartamento.)

Não, não é o apartamento físico, é essa ordem de coisas.

Vamos dizer, por exemplo, o bairro de Higienópolis, etc., pode estar no chão.

Nesta ocasião…

(…)

* O Livro da Nobreza também está no caminho do esquecimento; já não querem muito, porque é recente e queima

Por exemplo, mais do que eu fiz com os salmos penitenciais, dava para a pessoa se… É ou não é verdade que esses salmos penitenciais se tivessem sido compostos pelo Rei Assurbanipal da Caldéia daria a mesma coisa do que isso, para nós hoje?

Houve muitas graças, aquilo fez muito bem, e está esquecido como se nunca tivesse existido.

Como, aliás, também é preciso dizer: esse último Livro da Nobreza também já está no caminho do esquecimento, não é?

(Sr. G. Larraín: Está entrando no olvido.)

Chegando ao olvido.

Eu vou agora começar a tratar das repercussões, mas o que é curioso é que o que me pedem com muito empenho é a “RCR”, que estava dormindo não sei com quantas colunas de poeira em cima. Mas já não querem muito o Livro da Nobreza, porque é muito recente e queima.

São coisas simplesmente terríveis, ouviu?

(Sr. G. Larraín: Mas está muito bom. Eu agradeço muito por dizer isso tudo, porque acaba raspando… Tem muita coisa para ser raspada, mas algumas crostas pelo menos… faz bem isso.)

E depois, meu filho, tem o seguinte: eu fico sempre com uma esperança de que em uma hora “H” Nossa Senhora — fazendo-nos sofrer de chiar — ainda nos levante.

(Sr. P. Henrique: É a nossa esperança.)

Como é isso? Também não sei como é esse sofrimento.

De repente um de nós, por exemplo, é seqüestrado e vai sofrer o que sofreu o Gomão. Lembrem-se das narrações dele.

Mas é verdade também que o Gomão apostatou belle et bien.

(Sr. Poli: E o Cristian Vargas tomou…)

(…)

*_*_*_*_*