Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 6/5/95 – Sábado – p. 18 de 18

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 6/5/95 — Sábado

Olhando para a História a debilidade que suas construções e estruturas históricas nos apresentam * São Fernando sabia que diante de Deus tudo é fraco e que diante de Deus, se alguém O desafia, cedo ou tarde Deus vence e achata * Nos conselhos de Carlos V a Filipe II a impressão de um chefe eleitoral de nossa época que manda o filho mudar de atitude para não perder as eleições * Esta fraqueza pela ordem humana das coisas é fraqueza de tudo o que está de cima * Uma exposição profética de NPF a respeito da situação de poder e fraqueza da Revolução, ontem e hoje * A evolução das idéias em NPF, onde ele começou a perceber os vais-e-vens da Revolução * Acreditar que um movimento revolucionário no fundo favorece a monarquia é inútil porque isso nunca favorecerá * A Contra-Revolução e a Revolução em última análise atuam num plano muito profundo, e esse plano só é combatível por medidas que prejudiquem seriamente o plano revolucionário * Quer dizer, houve um ponto onde Deus resolveu que cessa o sofrimento de Jó * Quando nós tivermos que oferecer a Deus a Revolução morta e liquidada, nós teremos que ser tais que nos manifestemos purificados de todos os restos de “Bagarre” azul que ainda existam * A questão é que eu sendo fundador, o meu contributo tem que ser colossal. O que eu dei é muito colossal, mas o que eu tenho que dar ainda é mais

* Olhando para a História a debilidade que suas construções e estruturas históricas nos apresentam

Na realidade, se você tomar em consideração o que dizia o nosso Gonzalo e o que você acrescenta, a gente é levado a levantar um problema novo que é o seguinte:

Na realidade, as construções e as estruturas históricas que a História nos narra não serão habitualmente mais débeis do que parece à primeira vista?

(Sr. G. Larraín: As construções da Revolução ou todas?)

Da Revolução e da Contra-Revolução.

Porque quando a gente analisa certas coisas, a gente vê que instituições, famílias, escolas de arte, escolas de cultura, de pensamento e tudo o mais que a gente considera ao longo da História têm aspectos de vez em quando tais no meio do esplendor que manifestam, que a gente se pergunta bem exatamente aquilo o que é, como é, quais são em última análise os fatores naturais de continuidade que apresentam as coisas e de descontinuidade, as debilidades e as forças.

Eu não sei se formulo bem o problema.

(Sr. G. Larraín: Magnífico.)

Dá um problema até muito bonito, mas muito delicado.

(Sr. Guerreiro: Desculpe eu só fazer um pequeno comentário. Sobre essa problemática eu li há uns anos atrás um dístico que estava na casa de um sábio de Pompéia chamado Julius Polibius que estava escrito assim: “Nada pode durar eternamente”. Como que profetizava um pouco a derrocada daquilo tudo.)

Pois é.

(Sr. Guerreiro: De maneira que a gente vê que esse homem percebeu esse problema que o senhor está levantando. E ele revelar essa questão assim produz no espírito uma degustação especial.)

Mas é, é verdade, tem toda a razão.

* Em carta para Filipe II, Carlos V deixa claro a preocupação de estabilidade

Você veja, por exemplo, o seguinte:

Eu li uma correspondência — quer dizer, duas ou três cartas não foi toda a correspondência — entre Filipe II e Carlos V num momento crucial da vida de um e de outro, que era o momento em que o Carlos V já estava resolvido a renunciar e já tinha comunicado a Filipe II. Estava ele, Carlos V, nos estados flamengos que eles tinham, e Filipe II tinha saído da Espanha, tinha entrado na Itália e, pelo norte da Itália, tinha penetrado na Áustria, Suíça, aquelas regiões, para ir se encontrar nos estados flamengos do pai dele.

O pai manda para o filho uma carta e o filho escreveu em trânsito. O filho andava devagar para visitar muitas cidades, muitos lugares, se tornar conhecido, adquirir amizades e depois acabar encontrando o pai. De maneira que as cartas que o filho escrevia ao pai chegavam muito antes do que o filho chegar, porque eram cartas mandadas por correio rápido pessoal, o rei da Espanha tinha correios próprios que levavam, e todo o resto ia devagar atrás.

Então Carlos V escreve mais ou menos o seguinte para o filho: “Meu filho, eu fico muito contente tendo em consideração que em breve vou deixar esses estados e essas preocupações em suas mãos. Poucas vezes um soberano tem transmitido a seu filho o poder com menos preocupação do que eu transmito”.

Veja que se tratava aí, pelo imponderável do fraseado, preocupação de estabilidade. No auge do absolutismo monárquico você percebe um imperador que, não à maneira de Luís XIV, mas com mais força do que Luís XIV, representava o absolutismo de estado.

Este homem fala da tranqüilidade com que ele deixa o poder para o filho, envolvendo de algum modo a idéia da segurança do estado.



Quer dizer que neste auge você percebe uma fenda. É o medo que o pai tem que uma bobagem feita pelo filho possa dar num desastre.

* À hora da morte, a benção-maldição de São Fernando para seu filho Afonso X, o Sábio; mais uma vez o receio de um mau governo

Você toma São Fernando. São Fernando teve um filho que foi um fassur, que era Afonso X, o Sábio. Esse Afonso X, o Sábio, era um fassur renascentista e execrável pessoa.

O rei ao morrer chamou o filho e disse:

Meu filho, você fique sabendo que é preciso governar segundo Deus etc.

Conselhos excelentes que a gente percebia que ele sabia que o filho tomaria como palavras retóricas e que não iria fazer o que ele queria. Depois, então, ele disse:

Nessa hipótese eu vou lhe dar uma bênção, mas ao mesmo tempo vou-lhe lançar uma maldição. Porque se você governar com o espírito que eu estou mandando, eu peço a Deus que te proteja, cumule de bênçãos. Se for num espírito oposto ao que eu estou mandando — você está vendo o medo dele confirmado pela conduta do filho —, eu peço que todas as maldições do Céu desçam sobre você e faça de você um desgraçado, um infeliz, um miserável, etc.

Depois encerrou a conversa e o outro ouviu.

Que importância deu ou não deu ao que o pai disse? A gente não sabe.

Provavelmente tinha na cabeça dele justapostas duas tendências diversas.

Uma era a tendência do homem ainda perto da Renascença, do fogo do pão que está saído do forno e ainda está quente do forno medieval, que, portanto, dá importância ao que diz ao pai. Ainda mais na hora da morte, uma hora em que se tem a idéia — a meu ver tão fundada — de que Deus está com uma presença mais quente e mais próxima junto àqueles a quem vai transmitir o poder, e que tem a majestade dos atos jurídicos quando são muito graves. Vamos dizer, por exemplo, a renúncia de um rei, a transferência do reinado a um outro, um casamento, um divórcio, essas coisas quando são muito graves se revestem dessa solenidade.

* São Fernando sabia que diante de Deus tudo é fraco e que diante de Deus, se alguém O desafia, cedo ou tarde Deus vence e achata

Isso deveria estar nos lados bons meio medievalizantes ainda que devia haver em certos aspectos da mentalidade de Afonso, o Sábio. Mas, de outro lado, deveria ter toda a faceirice renascentista, a idéia de se tornar um rei aplaudido por toda a Europa por tomar a liderança da Renascença num reino que tinha muito mais importância naquele tempo do que teve depois. Portanto, um sentido revolucionário muito diferente da marca contra-revolucionária que São Fernando comunicou ao ato.

Você vê aí que São Fernando sabia que diante de Deus tudo é fraco e que diante de Deus se alguém desafia a Deus, cedo ou tarde Deus vence e achata. Diante de Deus, portanto, eu volto a dizer, nada é forte, Deus intervém nos caminhos da História e retifica a História segundo certas circunstâncias.

Você entende bem as cautelas que isso exige.

Mas também que Deus disfarça a sua ação na História, de maneira que não é freqüente Deus afastar a cortina e aparecer claramente para os homens verem. Quando faz, faz, mas não é freqüente.

Portanto, por mais que Deus mostre a sua vontade de intervir, é certo que Ele observará esse princípio de intervir de tal maneira que não pareça claramente que é Ele que interveio. Portanto, Ele semeia no futuro dos reis sementes de fraqueza, de debilidade, de incerteza, atrás dos quais Deus possa ocultar o seu poder com facilidade e derrubar, sem que isto parece um milagre, um rei dos mais fortes.

Por causa disto, quem olha as aparências fica com uma impressão de que no fundo tudo é débil, mas é porque Deus quis que tudo fosse débil para Ele esconder a sua força atrás dessa debilidade. É uma intenção.

* Nos conselhos de Carlos V a Filipe II a impressão de um chefe eleitoral de nossa época que manda o filho mudar de atitude para não perder as eleições

Depois, noutra carta, o rei escreve a Filipe II o seguinte: “Meu filho, eu recebo cartas das autoridades locais dos nossos estados que me falam a respeito de sua passagem por aquele país”.

Vocês estão vendo outro sinal de debilidade, passa o filho do rei, rei ele próprio, e daí a pouco o gerente do rei no lugar escreve carta mandando falar a respeito do jornal-falado.

A gente dirá: “Não, o rei já sabe que o governador vai mandar elogios e tudo será elogio”. Não, porque pela carta de Carlos V a gente vê que eles mandam elogios e mandam críticas, e que o rei chama na cabeça do filho por causa das críticas. Vejam que o rei, que era Carlos V, estava para abandonar tudo, mas ia chamar na cabeça.

A gente tem impressão que é o jornal-falado de um chefe eleitoral de nossa época que manda o filho mudar de atitude para poder ganhar as eleições. Isto naquela época.

Eu lamento não ter guardado essas cartas, mas a gente não tem tempo, não tem lugar para guardar, não tem montagem para classificar…

(Sr. P. Henrique: Estão muito bem guardadas na memória do senhor.)

É, mas seria muito melhor se eu tivesse o documento e infelizmente não tenho.

Mas Carlos V manda dizer: “Meu filho, os governadores todos elogiam muito a você, dizem que você tem uma majestade que dá uma natural vontade a todo o mundo de te obedecer, e que intimidas os povos de maneira tal que não lhes vem à cabeça a idéia de se revoltarem. Como eu gosto disto, mas como isto é incompleto. Saiba, meu filho, que os estados que eu herdei são muito maiores dos que o que eu vou deixar a você”.

Era verdade, porque ele deixava o império para o irmão.

(Sr. G. Larraín: A Espanha e as colônias.)

A Espanha, as colônias e os tais Países Baixos que eles apreciavam muitíssimo. Parece que eram muito ricos.

* Revela como de fato este grande rei sentia que nada é forte e que muitas coisas bambaleam mais do que a gente imagina

Então ele diz: “Saiba que tendo eu muito mais do que você receberá de mim, eu tive sempre a preocupação”.

Nunca se diria que o Carlos V com aquela cabeça dele, aquela carona, aquele queixo bénitier como dizem os franceses, que é característico dos Habsburgs, tenha isso na cabeça que eu vou dizer: “Eu sempre procurei dar aos povos a impressão de que sou um rei alegre, que em contato comigo eles tenham a idéia de que estou cheio de esperanças e cheio de planos em que eu mesmo sinto a alegria do êxito na perspectiva do futuro, de maneira que servi-los seria para mim como uma promessa da vitória deles. Eles então ficam encantados comigo, e quando eu deixo o lugar, o lugar está cheio de esperança e de vontade de se associar a mim porque é um bom negócio”.

(Sr. G. Larraín: Otimismo, não é?)

Otimismo. Mas ele semeava o otimismo como o meio…

(Sr. G. Larraín: É uma fraqueza.)

É fraqueza. Revela como de fato este grande rei sentia que nada é forte e que muitas coisas bambaleam mais do que a gente imagina.

(Sr. P. Henrique: Porque a noção que nós acabamos tendo da nossa formação política com “P” minúsculo acaba sendo essa. Quer dizer, o sujeito é um demagogo, vai prometendo coisas, prometendo, mas no fundo se não fizer não fez, não deu, ele arranja uma desculpa. No fundo era a política dele.)

No fundo, Paulo Henrique, é política eleitoral.

Agora, você nunca imaginaria — eu não imaginava — que Carlos V ia fazer política eleitoral.

Então dizia o Carlos V: “Você intimida, você impressiona, você causa admiração, você não causa alegria, você não causa esperança de vitória. Com isso, todas as incertezas do seu caminho você revela aos seus súditos, e com isso eles não querem te acompanhar”.

* Esta fraqueza pela ordem humana das coisas é fraqueza de tudo o que está de cima

(Sr. Guerreiro: Está inteligentemente bem-visto o problema, não é?)

Ora, se está.

(Sr. Guerreiro: Porque não é só o problema da cabeça dele, é o problema da cabeça dos outros que ele tinha que governar.)

Pois é.

(Sr. Guerreiro: E era a Renascença.)

Era a Renascença.

Mas você está vendo que os tais governadores locais também não poupavam dizer ao Carlos V o que estavam achando do filho. Porque o quadro do Filipe II está muito bem montado.

(Sr. G. Larraín: Mas o conselho não tem algo de fassur também?)

Ah tem, eu acho que tem.

(Sr. G. Larraín: Se Filipe II tivesse correspondido inteiramente à graça, com aquela austeridade ele levava a coisa pela via certa.)

Eu acho que sim.

(Sr. G. Larraín: Em contrapartida ele estava meio tentando a uma posição muito naturalista, que Filipe II não tinha vocação para isso. Era vocação, se correspondesse, para levar a coisa firme, no duro, e obrigar a fazer os outros.)

Não tem dúvida, mas o que eu quero dizer não é que o conselho de Carlos V fosse bom. É mostrar como o Carlos V sentia que havia fraquezas.

Se essa fraqueza pode ou deve retificada ou compensada pela força ou pelo sorriso, até que ponto empregar uma coisa e até que ponto empregar outra, é outra questão. A fraqueza está bem mostrada, está bem posta em evidência.

Esta fraqueza pela ordem humana das coisas é fraqueza de tudo o que está de cima.

(Sr. P. Henrique: Aquela frase que acho que é da coroação do Papa: “Sic transit gloria mundi”.)

Exatamente.

(Sr. P. Henrique: É bem isso, não é? Indica que essa glória é passageira.)

É. E em outras ocasiões o próprio funcionário que agitava o algodão ou a estopa incendiada diante do Papa dizia isso: “Tu est pulvis, cinis et nihil — Tu és pó, cinza e nada”.

Quer dizer: “Entenda bem que as coisas são precárias, e não se meta arbitrariamente e a doidivanas — como antigamente se dizia — a fazer as coisas que você queima os dedos”. É o que está dito no fundo.

* Para obter êxito os revolucionários também devem considerar essa fraqueza e guiar a revolução neste espírito. Aplicando à história da Igreja explica seus sucessos e fracassos

Isto os chefes revolucionários têm que sentir também. E ou eles guiam a Revolução neste espírito, portanto, se deixando governar pela onda revolucionária e não apenas governando-a ou dirigindo-a… É uma coisa que a seu modo se aplica a eles também.

Portanto, é da obrigação deles — se eles querem ter êxito — apresentar saldos e com esses saldos conquistar a confiança no êxito que é o fundamento da força do monarca. Do monarca ou do tirano que em nome da Revolução governa uma grande família de almas, uma numerosíssima família de almas.

Isto a pessoa precisa ter enormemente em consideração.

A gente levaria muito longe as coisas se fosse fazer uma aplicação disso à vida da Igreja, mas a gente tomando em consideração o que a Igreja fez ao longo dos séculos para impressionar bem as multidões e os grandes êxitos que ela obteve com isso, ao lado das fraquezas quando ela não seguiu isto, tudo isso ainda provaria mais aquilo que nós estamos dizendo.

Você, por exemplo, que passou um bom tempo em Roma. Percebe-se em vários lugares, por monumentos deixados, ditos que estão nesses monumentos, avisos dos Papas nesses dois sentidos: Primeiro, “nosso adversário é mais fraco do que parece. Ele foi derrotado por nós espetacularmente e sê-lo-á também se nós formos fiéis”.

O negócio da coluna de Trajano e não sei mais o quê é para dizer que Trajano e tudo o mais foi liquidado pela Igreja.

(Sr. P. Henrique: E derrubaram a estátua dele e colocaram a estátua de São Pedro.)

São Pedro em cima.

Você imagine o que é que Trajano acharia se soubesse que a estátua daquele pescador da Galiléia ia ficar em cima de onde estava a estátua dele.

(Sr. P. Henrique: Isso estava em frente à nossa sede antigamente.)

É assim, é?

(Sr. P. Henrique: A uns cinqüenta a cem metros, mais ou menos.)

Fica numa praça, não é?

(Sr. P. Henrique: Digamos assim, no mercado de Trajano. Existe assim os mercados e depois a parte baixa, porque a Roma antiga parece que era bem mais baixa do que a Roma atual. Lá estava essa coluna, então da janela de nossa sede podíamos ver essa estátua de São Pedro.)

E muitas vezes terá feito bem a vocês.

(Sr. P. Henrique: Ah sim, sem dúvida. Passando ao lado e imaginando…)

Jaculatórias quando passa em frente.

* Uma exposição profética de NPF a respeito da situação de poder e fraqueza da Revolução, ontem e hoje

Tudo isto indica que existe uma política de manifestação de poder ou de manifestação de fraqueza que está na raiz da política verdadeira. Sem isso a pessoa pode pensar que faz uma política muito inteligente, mas não faz, sai besteira.

Isto posto, a Revolução hoje como se sentirá? Aqui está a questão. Ela tem que sentir-se forçosamente no seguinte ponto:

Ela foi — e foi até muito alto — e ela alcançou o domínio do mundo neste sentido da palavra:

Ela dominou tudo quanto havia de dominável no mundo e ela levou para o caminho da Revolução tudo quanto no mundo havia de caminhável, de levável. Mas isto era uma parte das coisas do mundo e outra parte ela não levava. Os séculos iam escoando e as coisas ficavam paradas. No total ela progredia muito, mas ela decepcionava mais do que progredia. E os que conhecem de dentro a organização dela e a fraqueza dela sabem bem a importância a não dar a ela, e se quiserem podem traí-la e podem abatê-la.

Isso é o negócio.

(Sr. Guerreiro: Onde o senhor percebe essa situação para justificar os seus comentários?)

A sua pergunta — eu pergunto para responder de maneira adequada — é onde eu percebo na atual circunstância que se objetiva essas regras. É bem isso?

(Sr. Guerreiro: Onde o senhor percebe que os elementos dela, olhando ela por dentro, percebem a sua fraqueza, se quisessem poderiam traí-la e derrotá-la.)

Eu não disse propriamente se quisessem poderiam traí-la e derrotá-la, disse uma coisa um pouco diferente. Não estou querendo, mas se quisessem poderiam traí-la e derrotá-la.



Tudo depende de razões internas de dentro do casulo revolucionário, onde se decide internamente a vida da Revolução. É nesta câmara que as coisas se resolvem para ela.

(Sr. Guerreiro: Está muito claro.)

* A necessidade da Rev. lançar falsas direitas pelo decadência do comunismo e o recuo da opinião pública

Acontece que a Revolução vê o seguinte:

Tendo ela na mão todos os elementos que se pode ter nas mãos para vencer — vamos dizer, por exemplo, até o fim da Guerra 14-18 ela teve nas mãos todos os meios pelos quais se pode vencer —, de repente surgem de dentro do que há de mais interno, de mais espontâneo, de mais profundo nas camadas da alma popular, rejeições, “zupagens”, bulições no sentido contrário, que fazem com que a Revolução sinta todo o seu andamento vacilante.

Daí a pergunta: “De onde veio isso? Como é que nasceu em mim, que ontem ainda me comprazia em olhar os músculos dos meus braços, vê-los e senti-los tão fortes, o que é que houve em mim que de repente eu me vejo fraca? Qual é essa força?”.

Vamos dizer, por exemplo, Guerra 14/18. A queda das três grandes monarquias da Europa, Rússia, Alemanha e Áustria, parece que republicanizaram o mundo. Não muito tempo depois a Espanha se declarou república e movimentos republicanos começaram a se multiplicar em toda a parte do mundo. Isso tudo com decadências econômicas e sociais da nobreza mais ou menos por toda a parte, e a vitória da mentalidade “ralliemantista” dentro da Igreja. Cada dia que passava a mentalidade “ralliemantista” ganhava terreno na Igreja.

É uma situação brilhantíssima. Entretanto, não deixa de ser verdade o seguinte: com isso ou com o movimento comunista alastrando-se no mundo inteiro, em certo momento a Revolução se vê na obrigação de lançar falsas-direitas, lançar fascismo, nazismo, bancar que as esquerdas estavam sendo abandonadas pelo povo e que eram obrigadas a sair correndo, pegar homens como Hitler e como Mussolini e fazerem a comédia da fraqueza da Revolução, para fingir uma falsa Contra-Revolução, para depois recomeçar o jogo.

Quer dizer que em algo ela agiu como se tivesse conhecimento de sua fraqueza. Ora, se ela foi obrigada a fazer isto, porque representava para ela um recuo, é porque havia algo realmente de recuo.

* A evolução das idéias em NPF, onde ele começou a perceber os vais-e-vens da Revolução

(Sr. G. Larraín: Havia um menino que se enflashava com Francisco José em São Paulo. O senhor está falando do casulo da Revolução, mas tem outros muito mais importantes.)

(Sr. P. Henrique: Porque, de fato, parece que até essa data a Revolução vinha muito “à l’aise”.)

Muito, muito à vontade.

(Sr. P. Henrique: A partir daí a coisa começou a encontrar obstáculo.)

Como quem passeia numa avenida.

Seja como for, você está vendo, portanto, as fraquezas da Revolução e como ela é obrigada segundo cálculos, que para a gente penetrar tem que entrar na cabeça deles, dentro do casulo deles, para explicar porque é que aquilo tomou aquele jeito. Antes disso não sai explicação para nada.

A gente fazendo este exercício, que é uma espécie de acrobacia, fazendo essa acrobacia a gente pega a coisa como é.

(Sr. Guerreiro: Isso é propriamente alta axiologia contra-revolucionária.)

É, é isso.

(Sr. P. Henrique: O senhor disse que aprendeu com eles.)

Sim.

(Sr. P. Henrique: Em alguma medida, não é, senhor? Porque, de fato, pelo carisma, pelo profetismo, o senhor estava com a matriz toda para fazer isso, ainda que não visse neles.)

Eu me lembro bem da evolução das minhas idéias. Eu julgava que a Revolução como era apresentada pelos jornais era sincera. Nesse sentido: que os movimentos vais-e-vens eram como os jornais apresentavam. Portanto, não tinha os elementos de crítica necessários para perceber essa história, a não ser quando veio o fascismo. Foi exatamente o fascismo que me deu o meio de perceber isso.

Dois fatos que me deram muita desconfiança nesse sentido foi:

Eu notava que a Itália com aquele fascismo todo não ficava nem um pouco mais monarquista, e que o Vittòrio Emmanuèle pairava sobre as águas como um Moisés deitado apenas numa folha e mais nada.

(Sr. P. Henrique: Claro.)

Pois é.

(Sr. G. Larraín: Só que a diferença… Nossa Senhora!)

Ah bom!… É completamente ridículo.

Uma outra coisa é a seguinte:

O D. Pedro de Alcântara, pai do Pedro Gastão, foi visitar vovó. Eu entrei na sala para cumprimentar, como costumava fazer quando ia lá, e ficava assistindo a prosa. Eu tinha impressão que minha presença não atrapalhava nem um pouco o que ele queria dizer nem o que vovó queria dizer. Eles conversavam na base de quem aceita a realidade e objetividade de tudo quanto os jornais contam.

Vovó perguntou a ele:

Mas D. Pedro — D. Pedro estava vindo da Europa — que está vindo lá dos acontecimentos poderia nos dizer talvez o que pensar do fascismo.

Da. Gabriela, eu vou lhe contar uma coisa que peço à senhora para não contar a ninguém — com um menino de doze ou treze anos ali ouvindo.

(Sr. Poli: D. Pedro Gastão ou D. Pedro Alcântara.)

O pai do Pedro Gastão.

* Eu comecei ali a perceber que era um jogo; eu naquele tempo não achava, ali comecei a achar

Eu peço para não contar a ninguém o que vou dizer. Eu entrei na Itália e assim que transpus a fronteira italiana apareceu um homem amável que sentou-se a meu lado e com jeito muito disfarçado me disse o seguinte: “Eu sou um agente da polícia italiana e tenho como obrigação procurar todos os príncipes que entram na Itália, apresentar minha caderneta de identidade, meu telefone, enfim, onde podem me procurar, porque em qualquer lugar que precisem de mim eu estou à disposição, porque o governo italiano pensa garantir contra os ataques eminentes do comunismo da Itália todo príncipe europeu que entre aqui”. Eu senti, Da. Gabriela, uma tranqüilidade, uma confiança, uma distensão, que mudou o caráter do meu passeio. Eu fui muito amável, conversamos um pouco, daí a pouco ele se retirou e com certeza foi procurar algum outro príncipe no trem. Eu não perguntei nada e ele também não me disse nada, mas eu sabia que a longa manus poderosa do Duce projetava a sua sombra sobre mim.

Vovó ficou muito tranqüilizada.

Bem, vovó — nem outra em consideração, uma senhora idosa — não tinha obrigação de saber disso, mas um príncipe deposto, mas que era um príncipe homem, com as atividades de um homem, com a experiência de um homem, podia pelo menos desconfiar que houvesse um jogo dentro disso. Nada.

Ou ele fazia parte do jogo, ou se ele acreditava, ele estava conquistado pelo jogo.

(Sr. G. Larraín: Salvo o senhor eu acho que ninguém desconfiou.)

Ninguém.

(Sr. G. Larraín: Era uma coisa que requeria um carisma de um tipo de desconfiança que ninguém teve na face da Terra.)

Ao menos é preciso dizer que tudo indica que Pio XI não teve.

(Sr. P. Henrique: Na formação das idéias do senhor, ali naquele caso aos doze anos o senhor já pôde prever.)

Ah sim.

(Sr. Guerreiro: O senhor percebia que era um jogo?)

Ah sim. Eu comecei ali a perceber que era um jogo. Eu naquele tempo não achava, ali comecei a achar.

* Acreditar que um movimento revolucionário no fundo favorece a monarquia é inútil porque isso nunca favorecerá

(Sr. P. Roberto: É um profetismo do pessoal do casulo que percebe que Deus tem algumas coisas para fazer e que pode estragar todo o jogo deles. Entra isso também, não é?)

Ah entra.



(Sr. P. Roberto: Mas o que entrou foi que alguém de fora do casulo começou a perceber também as fraquezas deles por causa da presença de Deus no jogo também, não é?)

Também, exatamente.

(Sr. P. Roberto: Foi muito bonito o senhor nesse primeiro momento começar a perceber isso que ninguém percebia.)

Levado pelo princípio seguinte:

A Revolução nunca faz uma coisa que favoreça a Contra-Revolução, e acreditar que um movimento revolucionário no fundo favorece a monarquia é inútil porque isso nunca favorecerá. Portanto, se a Revolução finge favorecer a monarquia, há nisso um jogo.

(Sr. G. Larraín: Espetacular.)

* A Contra-Revolução e a Revolução em última análise atuam num plano muito profundo, e esse plano só é combatível por medidas que prejudiquem seriamente o plano revolucionário

Mas vem de uma coisa profunda que é a idéia da alienabilidade e imutabilidade da Revolução ao Mefistófeles, a Satanás. Satanás a domina, de maneira que ela só faz o que ele quer, inteiramente o que ele quer e mais nada, e ela executa a obra do demônio como os Anjos do Céu executam a obra de Deus. E não ceder nesse princípio, não desviar.

Seria como [se fosse] esperto eu pensar tal coisa e não sei o quê. Não venha com essa história porque não adianta, não acontece.

(Sr. P. Roberto: O senhor mudou tudo, não é?)

Claro.

Então você pega, por exemplo, é um parênteses, o casamento desse D. Nuno Duarte agora em Portugal. Pelo Sepúlveda eu sei assim franjas do que está se passando lá e que os jornais não dão. O Sepúlveda estava me dizendo ontem à noite quando eu cheguei que, no conceito dele, se a monarquia estivesse no poder em Portugal não poderia realizar a coisa com mais pompa do que está sendo planejada até aqui. Pode ser que alguma coisa falhe no caminho, eles recebem contra-ordem, qualquer coisa assim, mas até ao momento está passando tudo como se fosse um casamento de reis, ele se estivesse no poder.

Por exemplo, todos os chefes de Casas reinantes — reinantes — vão ser convidados. Enfim, é esquisito, porque o D. Duarte não é reinante. Com que direito um não reinante convida todos os reinantes?

(…)

A Contra-Revolução e a Revolução em última análise atuam principalmente num plano tão profundo, que nesse plano não é combatível por medidas dessa natureza o processo revolucionário.

Quer dizer, nós fazemos com as nossas coisas um mal que, como o Gonzalo dizia no começo da reunião, prejudica seriamente o plano revolucionário. Mas não é um sério tão profundo em camadas tais da opinião pública e da realidade que valha a pena eles fazerem, num plano menos importante, investimentos e empenhos, porque o nosso plano é muito mais profundo.

Por que isso?

Porque uma coisa é tomar um homem comum ou uma senhora comum que é monarquista, por exemplo, e conseguir por meio de provas que o governo monárquico é o melhor, fazer dela ou para ela um investimento de empenho e de esforço tão grande como é, por exemplo, este casamento do Duque de Bragança ou como era o casamento do Isopor com a Isopora.

(Sr. G. Larraín: Ou o casamento da Infanta com esse nobre recentemente em Espanha, em Sevilha.)

* Esse casamento não pode explicar desígnios tão profundíssimos na alteração do processo revolucionário como pareceria à primeira vista

É, exatamente, em Sevilha, etc. São coisas que influenciam, mas não é a verdadeira direção das coisas que estão nisso de acordo com a doutrina da TFP. Porque, de acordo com o livro “R-CR”, a Revolução nas tendências se dá de um modo estável e profundo quando uma ação revolucionária é tão continuada e tão insistente, quanto é funda a raiz que se quer abater.

Em geral, os lucros que nós fazemos nisso — os golpes, portanto, que o adversário nosso leva — não são tão profundos a ponto de virar uma tendência num povo. Melhora, prepara, dispõe para ações da graça mais notáveis, mas no fundo a coisa só tem alterações deste quilate e deste calibre quase que com ações milagrosas.

(Sr. P. Henrique: Se eu entendi bem, é tanto do lado do senhor para com eles, como deles para com o senhor também.)

Sim.

(Sr. P. Henrique: Há uns pontos que não atingem mesmo.)

Há. Mas a questão é que eu não disponho dos meios para agir sobre eles que eles dispõem para agir sobre nós.

(Sr. P. Henrique: Nesse ponto de vista sim, mas na transesfera…)

Aí não tem dúvida.

Bom, mas a questão é que seria preciso uma ação continuada e a ação continuada supõe fábulas de dinheiro.

(Sr. G. Larraín: E daí o senhor iria concluir o quê?) [Vira a fita]

Concluir o seguinte: que, portanto, esse casamento não pode explicar desígnios tão profundíssimos na alteração do processo revolucionário como pareceria à primeira vista. Como também o livro da nobreza de si não seria suficiente para ocasionar ações tão profundas.

Se nós tivéssemos uma revista no estilo do “Point de Vue”, mas tão freqüente quanto o “Point de Vue” e com a capacidade que o “Point de Vue” tem de mexer nas garras das tendências profundamente, eu já não digo. Mas não é o nosso caso.

* Eu creio que essas ações de profundidade são resolvidas no plano de Jó com o demônio e com Deus

(Sr. G. Larraín: Então por que é que fazem?)

Eu digo que fico na interrogação, porque não aparece claramente.

(Sr. G. Larraín: O senhor está pressentindo a graça aí, não é?)

Sim, evidentemente.

(Dr. Edwaldo: Mas o livro da nobreza não começou a mexer em algo que deu muito medo a eles?)

Dá, porque eles se defendem como podem, com receio, etc. Mas é diferente daquele tipo de ação profunda que estaria proporcionada com o que eles estão fazendo agora.

(Dr. Edwaldo: Quer dizer, o fato do que aconteceu e que o livro já mexeu não justifica o que eles estão fazendo?)

A meu ver não, não tem proporção.

(Dr. Edwaldo: Ainda que eles temam que daí pudesse desencadear um movimento?)

Ainda que eles temam. Eu tenho impressão que nós não temos meios para compensar, para agir em sentido oposto eficazmente.

Aqui é que entra a questão da graça, neste sentido: é que eu creio que essas ações de profundidade são resolvidas no plano de Jó com o demônio e com Deus.

Quer dizer, num plano tão metafisicamente profundo da realidade como ela aparece nos supremos tribunais de Deus e nos antros mais infames do Inferno, que a gente quase que perde o pé.

(Sr. P. Henrique: É, mas aí o embate se dá.)

* Quer dizer, houve um ponto onde Deus resolveu que cessa o sofrimento de Jó

Aí o embate se dá. E tenho certeza de que coisas que estão se desenvolvendo por causa do passo arriscado que a Revolução é obrigada a fazer…

Lembram-se do que eu falei a respeito do passo arriscado com a paz com a Lituânia, aquele tratado de Brest-Litowsk e tudo o mais, que eu dizia que a Revolução ia dar um pulo medonho e que ela deveria temer? Isto está se dando.

O desmantelamento do Partido Comunista, mais a manutenção de uma marmelada meio comunista, de maneira que o Partido Comunista existe e não existe, com isso tudo ela deu passos de um risco enorme. Mas o mal que lhes faz o livro da nobreza dificilmente chega a compensar isso.

(Sr. G. Larraín: Então tem que tocar noutro ponto.)

(Sr. P. Henrique: Mais alto.)

Mais alto.

Quer dizer, houve um ponto onde Deus resolveu que cessa de sofrer para Jó.

Agora, quando o demônio percebe que Deus resolveu agir em sentido contrário, aí…

(Sr. G. Larraín: Aí saem todo o tipo de casamentos e tudo o mais.)

Aí a coisa é outra.

* Agora, quem sabe se chegou a hora — e eu tenho muitas propensões a achar isto — em que Deus afinal vai lançar a coisa

Bom, mas o demônio mal informado, conjecturando errado já não é o mesmo político que criou o fato, que joga para a frente, que percebe Deus o que está fazendo, etc.

Eu queria lembrá-los de um aspecto dessa questão que é muito bonito. É que São Tomás de Aquino diz expressamente que os anjos na locutio angelorum, no que eles falam entre si está muito o seguinte:

Eles contemplam o que Deus está fazendo, e há muitas coisas que Deus faz e não conta a eles o que está fazendo, mas deixa que eles percebam alguma coisa ou às vezes nem isso. Eles então observam Deus enlevadamente, trocam as observações entre eles para formarem os planos do que Deus está fazendo e do que, portanto, eles devem pedir a Deus.

(Sr. P. Henrique: O senhor há anos em RR, quando dava ainda o processo da Revolução, sempre levantava hipóteses. E creio que se baseava em São Tomás dizendo que os Anjos também trabalhavam com hipóteses.)

Isso, exatamente. Exatamente, é a mesma coisa.

Agora, quem sabe se chegou a hora — e eu tenho muitas propensões a achar isto — em que Deus afinal vai lançar a coisa?

Eu até tenho a impressão do seguinte — é pura impressão e hipótese de hipótese hipoteticíssima, mas como eu vejo que vocês têm interesse em aprofundar-se por aí, eu de bom grado trato:

Eu tenho impressão que há um certo cálice que nós temos que beber por inteiro e que nós já bebemos três quartos do cálice.

(Sr. Poli: Só três quartos?!)

Só três quartos, meu filho. A coisa é dura!

(Sr. Poli: Eu digo pelo senhor.)

O que é que podemos fazer? Eu acho que até é um colosso termos bebido três quartos.

A Providência misericordiosamente resolveu abreviar o que resta. Mas depois, numa dessas complexidades que a Suprema Inteligência tem, resolveu que antes de o rio chinês desembocar no oceano haja uma, duas ou três voltas para trás que nos deixem pasmos de sustos. De repente, pronto, está acabado.

* Quando nós tivermos que oferecer a Deus a Revolução morta e liquidada, nós teremos que ser tais que nos manifestemos purificados de todos os restos de “Bagarre” azul que ainda existam

(Sr. G. Larraín: Isso é que é ver as coisas. Aí não adianta nada, ou seja, aí é o senhor e está acabado. O senhor se lembra que dizia que a Segunda Guerra Mundial não era a Bagarre por uma questão puramente pessoal.)

Puramente pessoal.

(Sr. G. Larraín: O senhor disse que não era porque uma das características era porque não tinha sofrido e o senhor achava que tinha que sofrer. Razões poderia haver quinhentas para achar, mas o problema é que ou a gente crê ou não crê.)

Você tem razão.

Por que razão eu penso que na hora de desembocar, duas ou três vezes o rio de chinês tem que nos dar o pânico de que não esteja nada feito e que não houve rio chinês?

É porque me parece uma coisa no que diz respeito a vocês e outra no que diz respeito a mim.

No que diz respeito a vocês resta um fundo de vida gozada. Quer dizer, vocês não estão tão calejados pelo sofrimento que possam dizer que são só dor. Quando nós tivermos que oferecer a Deus a Revolução morta e liquidada, nós teremos tido que ser tais que nos manifestemos purificados de todos os restos de Bagarre azul que ainda existem em membros da TFP.

Eu notei que…

(Sr. G. Larraín: Não, não, está claríssimo. O senhor disse que foi e que voltou, não é?)

Sim.

(Sr. G. Larraín: A coisa ia desembocar e depois voltou.)

Não, eu disse que prevejo que vai ser assim, não que foi.

(Sr. G. Larraín: Ah, que haverá mais voltas?)

Isso.

O que é que é, meu Paulo Henrique.

(Sr. P. Henrique: O senhor disse que houve um silêncio de nossa parte.)

Eu acho que todo o mundo ficou meio espantado.

(Sr. P. Henrique: Nós devíamos nos pôr de joelhos e colocando cinzas na cabeça, porque de fato é a nossa posição.)

Isso é assim, isso é assim.

Por exemplo, amanhã nós ou quase todos nós vamos gozar o dia de domingo. Olhem que é o dia de domingo mais penitencial, mais sem os gozos da Revolução que possa haver, mas nós vamos lamber com o espírito os apartamentos altos, os automóveis ricos, os restaurants cheios, esse ambiente de gozar a vida que ainda existe um pouco nos domingos das grandes cidades.

* A questão é que eu sendo fundador, o meu contributo tem que ser colossal. O que eu dei é muito colossal, mas o que eu tenho que dar ainda é mais

Enquanto todo esse gáudio que significa uma espécie de sedimentação de camadas — de espírito revolucionário no fundo — depositadas em nossa alma não for limpado, eu não acredito que nós estejamos preparados para oferecer a Deus esta vítima de péssimo odor, mas que Ele deseja, que é a Revolução. De um lado.

De outro lado, no que me diz respeito eu tenho impressão de que devo apresentar a Deus um espírito ainda mais sovado, ainda mais mortificado. Não é dizer que eu tenha sofrido tudo quanto eu deveria sofrer, mas é uma coisa um pouco diferente. É que, dada a minha vocação, eu devo poder sofrer mais do que estaria nos limites da minha natureza e não aconteceu ainda que eu sofresse tudo isso.

Isso também é alguma coisa que é meu contributo para isto. Quando isto estiver completo nós podemos dizer que a Bagarre está esmagada.

(Sr. G. Larraín: É uma coisa extraordinária, mas como operar isso no nosso caso? Porque é tremendo isso. A gente sente isso inteiramente como o senhor disse.)

(Sr. P. Roberto: Porque também é tão desproporcional o que o senhor já deu em relação ao que nós devemos dar.)

É fora de dúvida que é desproporcionado. Mas a questão é que eu sendo fundador, o meu contributo tem que ser colossal. O que eu dei é muito colossal, mas o que eu tenho que dar ainda é mais.

(Sr. Guerreiro: O senhor falou que já três quartos foram dados.)

É isso, é a impressão que eu tenho.

(Sr. G. Larraín: Seria em que linha? Não no caso do senhor, porque aí é um caso muito sagrado que a nós não nos compete entrar. […] O que o senhor teria para nos dizer para desfazer-se disso?)

(…)

* No trato com o contra-revolucionário o revolucionário sente qual é o contra-revolucionário que é um “vir dolorum”, contra o qual a Revolução fez tantos males

vir dolorum que se aplica a Nosso Senhor Jesus Cristo durante a Paixão, que é o Varão que está tão cheio de dores, que é o Varão das dores, e um resíduo, um resto de não sei o quê ainda continua. Não existe mais no vir dolorum, mas em quem não é vir dolorum existe.

No trato com o contra-revolucionário o revolucionário sente qual é o contra-revolucionário que é um vir dolorum, contra o qual a Revolução fez tantos males, que se pode aplicar quase a este homem as palavras de Nosso Senhor: “Do alto da cabeça até à planta dos pés nada há nEle que esteja são”.

É uma coisa que arrepia, hein! Mas quando o indivíduo chegou a este estado, o revolucionário sente nele o vir dolorum e sopra contra ele uma forma de horror da parte dos revolucionários que faz com que se tenha medo dele quase como de um leproso.

Sofrer este medo, sofrer essa rejeição, sentir-se pesadão, sentir-se sem graça, sentir-se de uma presença pouco apetecível, tudo isso junto produz o que nós podemos calcular.

(Sr. P. Roberto: Isso é o que estaria faltando para nós?)

Isso.

* Sofrimento de NPF: a toda a hora e a todo o propósito é um aborrecimento, um entrave, é uma má notícia, é uma coisa qualquer, é uma indisposição…

Causa-lhes uma espécie de horror sentar-se a meu lado no banco do vir dolorum.

(Sr. P. Henrique: Infelizmente é bem isso, senhor.)

É bem isso.

Não adianta virem com potoca porque não dá, absolutamente não dá.

(Sr. G. Larraín: E aí é para cada um uma via. Dentro desse genérico há modos individuais de Nossa Senhora pedir os desapegos e os arranque.)

É isso. E é isso que é preciso fazer.

(Sr. G. Larraín: Está muito, muito extraordinário. Aliás, outro dia em São Bento foi muito impressionante nesse sentido.)

Não é?

(Sr. G. Larraín: […] Eu fico muito grato, porque estou lá e estou podendo ver o dia-a-dia. É muito, muito sério.)

Não, e depois a toda a hora e a todo o propósito é um aborrecimento, um entrave, é uma má notícia, é uma coisa qualquer, é uma indisposição. Até pequenas indisposições eu tive lá, não é?

Você conhece o negócio do pesadelo, não é?

(Sr. G. Larraín: Sim, senhor.)

O que foi aquilo.

(Sr. Guerreiro: Não, senhor. Não conhecemos não.)

É uma coisa em duas palavras.

Quando entrei como congregado mariano eu tive muita amizade com um rapazinho menino cinco anos mais moço que eu, mas de uma grande inteligência, uma grande precocidade…

(Sr. Poli: Pode gravar, senhor?)

Não convém gravar.

(…)

* Na realidade, nós devemos ter não o sentimento de procurar por onde nós não somos obrigados a dar tudo, mas é, pelo contrário, um desejo de dar apesar de nós notarmos que é o último fôlego

todas as coisas que eu tenho que fazer, ainda que sem importância, com um empenho com que se faz as coisas que a gente muitíssimo deseja. Não haver nenhuma coisa um pouco desejada, um pouco bem feita.

Lembro-me daquele bem-aventurado que fundou os Maristas: “Maldito aquele que faz com negligência o serviço do senhor”.

Quer dizer, não pode ser. É uma coisa que me foi pedida de todos os jeitos e que eu tenho que fazer com muito empenho. Ainda que seja uma coisa pequena.

(Sr. G. Larraín: Com a convicção de que ajuda na união, mas que não é o ponto fundamental.)

É fundamental que se saiba que isto é indispensável sem dizer fundamental. Esse é que é o negócio.

(Sr. P. Henrique: A nossa confiança seria na linha de que Nossa Senhora faria com que o superávit do fundador compensasse o nosso saldo negativo?)

Um pouco. É preciso, de fato, ter pago algo que é individual.

(Sr. G. Larraín: Uma gota de água tem que entrar mesmo.)

É, a gota de água tem que entrar.

(Sr. P. Henrique: Não tem dúvida, mas acho que sempre vamos ter um saldo devedor que vai ser completado pelos méritos e pelo superávit do senhor.)

Antes de tudo pelos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelos méritos insondáveis de Nossa Senhora, depois também pode entrar algum fundador, alguma coisa.

Na realidade, nós devemos ter não o sentimento de procurar por onde nós não somos obrigados a dar tudo, mas é, pelo contrário, um desejo de dar apesar de nós notarmos que é o último fôlego.

Aqui está a questão.

(Sr. P. Henrique: Dar tudo mesmo.)

Dar como filho, dar tudo.

* Desespero não se deve ter, porque quem está disposto a sofrer tudo, quando está sofrendo tudo mesmo não se desespera

Quer dizer, nós deveríamos morrer na aflição de nossos espíritos sabendo que houve alguma coisa para dar e que nós dissemos: “Ele lá que pague”.

(Sr. P. Roberto: A infâmia que o senhor dizia.)

Pois é.

Não pode ser. Não pode ser.

(Sr. G. Larraín: É rezar, rezar e rezar para ter graça para isso.)

É preciso ter graça.

(Sr. G. Larraín: Sem graça para isso não solta aquela coisa.)

É, mas tem isso: que quando soltar é como uma alma que sai do Purgatório e entra no Céu.

Depois tem outra coisa. É seguinte: há um efeito de presença de impulso daquele que a gente sente que está dando tudo. Quando alguém não dá essa impressão fica uma espécie de fofo, de fruta, de laranja ou de lima passada. A gente aperta, sai uma espécie de ar de dentro meio filoso, depois aquilo faz uffff! se enche de um outro ar e o processo de podridão continua.

(Sr. P. Henrique: Mesmo nos exemplos históricos que o senhor deu antecipando essa parte principal que o senhor acabou de nos transmitir, um santo como São Fernando de Castela certamente deu tudo.)

Deu tudo.

(Sr. P. Henrique: E esse tinha a confiança dos seus súditos.)

Sim.

(Sr. P. Henrique: Confiança irrestrita e via nele essa plenitude de entrega, de sacrifício e de doação. Isto é que nós devemos procurar ver no senhor e nos aplicar para ser outros o senhor mesmo, seguir as pegadas do senhor.)

Meu filho, por isso ser um Jó.

(Sr. P. Henrique: Isso nos custa. É um sacrifício individual que cada um de nós vai ter que dar, mas confiantes de que Nossa Senhora vai nos dar. […] Portanto também a gente cairia num desespero.)

E exatamente o desespero não se deve ter, porque quem está disposto a sofrer tudo, quando está sofrendo tudo mesmo não se desespera, porque sabe que aquele sofrimento é uma parte do tudo, mas que chegará o momento em que Jó vai ser libertado.

(Dr. Edwaldo: Esse ser Jó tem que ser sempre na presença do senhor.)

Sim, certamente.

(Dr. Edwaldo: Porque senão sai errado.)

Ah, isso eu acho que é certo. É certo.

Bem, meus caros, os retive enormemente. Vamos andando.

Uma coisa que seria interessante é algum de vocês ler o livro de Jó.

(Sr. G. Larraín: Mas nós temos o livro vivo aqui que é mais…)

É, mas o outro é inspirado pelo Espírito Santo.

Vamos rezar.

Ave Maria…

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