Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
1/4/95 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 1/4/95 — Sábado
Uma metáfora que exprime muito bem todo o transe no qual se encontra a Santa Igreja * A situação atual ainda não tem nada de mata-mata, mas em qualquer país do mundo está a dois passos do mata-mata * Quais são os efeitos internos na TFP de todo o panorama apresentado? * Quando chegar a evidência do mata-mata e junto o convite decisivo da Providência, uma das reações do carreiroso poderá ser a de culpar ao Fundador pela situação na qual se encontra * Nós devemos rezar pedindo a Nossa Senhora que Ela destrua, por alguma graça de “D. Vital”, aquilo que é inapelável dentro dos nossos corações * Sucedem-se os raios que prenunciam a tempestade, mas cada novo raio nos encontra tal qual estávamos antes do primeiro; não queremos sentir que cada vez mais o passo do adversário está próximo * Cada um de nós temos uma contradição interna pela qual vemos que o Fundador tem que ser como é, mas agimos contrariamente ao que esperamos dele * Durante sua vida, o Fundador teve numerosas tentações de desistir da adesão à totalidade das verdades a fim de fazer cessar seus sofrimentos, mas nunca cedeu um só milímetro a essas tentações * Como curar este estado de espírito nefando? Tendo sempre claro diante dos olhos a situação infame da contradição em que nos encontramos quando não somos fiéis à vocação * O passo está indicado, o Fundador está identificado, o caminho está esclarecido
… Bagarre está começando e que ela está começando de um modo explicável, mas de um modo diferente do que nós pensávamos. O que quer dizer umas tantas coisas.
* Analisando um acidente ocorrido com um membro do Grupo sob o ponto de vista da ação preternatural
Aí essa história do Fernando Gonzalo entraria também como elemento, mas não sei se vocês querem tomar esse assunto com essa amplitude, ou preferiam tomar o caso concreto do Fernando Gonzalo e, a partir desse caso, analisar a questão.
(Sr. G. Larraín: Eu acho que é melhor primeiro tratar o fundo de quadro, se o senhor acha que é o caso de tratar.)
Sim, é o caso de tratar perfeitamente.
Eu acho o seguinte: o caso do Fernando Gonzalo não é um caso tão evidentemente do demônio quanto pode parecer à primeira vista, porque há certos, por exemplo, mal-estares, impressões, pelos quais a pessoa pode sentir-se ou imaginar-se empurrado sem que tenha sido propriamente empurrado. Depende um pouco da fantasia e de todo o psicofísico da pessoa. De maneira que já por aí eu acho que a coisa não é tão…
Em segundo lugar acho que se foi o demônio que fez isto, ele fez uma coisa, portanto, menos clara, que abre menos exceção ao agir dele anterior do que nós podemos imaginar e, portanto, menos digno de análise.
(Sr. G. Larraín: Não entendi. Perdão, senhor.)
Se ele fez isto, ele poderia ter feito com mais clareza. Se ele não fez com tanta clareza, ele não quis dar-nos a nós a base para fazermos uma conjectura tão carregada como se podia imaginar à primeira vista.
Está claro?
(Sr. G. Larraín: Sim, senhor. Muito obrigado.)
* Que a Bagarre está começando não se pode pôr em dúvida; uma prova inequívoca: analisando o lance de JPII contra a limitação da natalidade, eutanásia, homossexualidade e congêneres
De fato, que a Bagarre está começando não se pode pôr em dúvida. Eu me estendi hoje muito pouco na reunião sobre a questão da encíclica, mas eu julgo a encíclica uma coisa, como ela está posta, gravíssima. Porque o João Paulo II fez uma ruptura entre ele e o pessoal da limitação da natalidade, da eutanásia e, implicitamente, da homossexualidade…
(Sr. Poli: Aborto também.)
Na limitação da natalidade eu entenderia tudo que limita a natalidade. O aborto em certa maneira entra dentro da chave da limitação da natalidade.
Uma ruptura tão completa que nós ficamos nessa alternativa: ele excomunga, depois ele se dirige aos padres e obriga os padres a falarem, com uma ênfase e um categórico tal que não tem volta para trás que não seja dos atos mais escandalosos da vida da Igreja.
* Somado e subtraído o mundo caminha para um crash econômico e um crash teológico enorme, no desfazimento do Estado comunista, do Estado capitalista e da Igreja Católica
Então se pergunta qual é o desfecho disto. Isto pode ter dois desfechos: O primeiro é ele urgir a execução do que mandou e haver, portanto, uma espécie de ruptura com ele de um número colossal de pessoas.
Por quê razão? Depende da estimativa que a gente faça da situação concreta.
Se há pessoas que julgam que a maior parte dos católicos deixará de limitar a natalidade para conservar a boa paz com ele, então o documento não é tão grave, porque então não há uma ruptura dentro da Igreja ou há uma ruptura pouco importante. Ele, pelo contrário, dá provas de uma brilhante força, porque ele entesta com um defeito radicado enormemente no mundo contemporâneo, um defeito que a Revolução e a mídia fizeram todo o possível para impor e que de fato entrou. Essas pessoas que têm um orçamento e um futuro de vida baseado na limitação da natalidade, essas pessoas precisamente têm que recuar, têm que fazer um orçamento mais modesto para terem mais filhos, para levar uma vida mais apertada, e isso no momento em que o mundo está na iminência de um crash financeiro muito grande.
De maneira que, por exemplo, vamos dizer, nos Estados Unidos com a riqueza que pelo menos até por enquanto existe lá muitas famílias poderão passar a não limitar a natalidade e viverem mais ou menos com o orçamento atual. Mas na Europa não é isso, na América do Sul também não é isso.
A América do Sul e a América do Norte, enfim, as três Américas em suma, representam uma parte enorme do quinhão católico. Se esta gente romper com ele e fizer, vamos dizer, outra igreja ou outra coisa assim… e é o que aquela notícia insinua quando ele fala “tomando o mesmo caminho de Lutero”, “qual é o papel dos alemães nesse negócio”, etc.
Tudo somado e subtraído acaba sendo que nós estaríamos caminhando para um crash econômico, de um lado. De outro lado, um crash teológico enorme e o desfazimento também, junto com a civilização, do Estado comunista, do Estado capitalista e da Igreja Católica, que era mais uma grande instituição, se você quiser é até certo ponto um super-Estado e esse Estado também ruiria. Nós estaríamos caminhando para a anarquia ainda muito mais rapidamente e num passo só.
(Sr. P. Henrique: Ou seja, a encíclica veio de encomenda, então, para completar o quadro, enfim, se pode dizer que para coroar um caos.)
* Uma metáfora que exprime muito bem todo o transe no qual se encontra a Santa Igreja
Coroar o caos. Uma encíclica de um certo ponto-de-vista muito anticaos, porque é contra o aborto, contra tá-tá, mas que produzirá uma precipitação, produzirá um número muito maior ainda de pessoas que rompem com a Igreja.
(Sr. P. Henrique: Isso profetizado pelo senhor também. Já ouvi do senhor essa profecia que agora está se realizando “n” vezes, que aconteceria isso. Eles deixariam, deixariam, e depois quando estivesse longe aí exigiriam uma coisa que seria impossível.)
Impossível, não vai mais.
(Sr. P. Henrique: Agora de fato parece que aconteceu.)
Parece que aconteceu, que ele acaba de fazer isto.
Isto é de uma gravidade enorme e vem logo depois do caso Hume, que, seja como for e tomada na sua acepção mais normal, o caso Hume ainda é gravíssimo. Depois o caso da Igreja de São Francisco gravíssimo também. Depois o modo pelo qual o “Wanderer” e certos órgãos norte-americanos vêem tomando a crise na Igreja e falando de um modo estardalhaçante e indiscreto é um outro elemento de avaliação dessa situação.
Tudo isso tomado junto acaba dando numa eminência de um crash. Essa eminência desse crash — aqui já vai um pouco mais longe e, portanto, também, os cálculos de probabilidade são menores — pode dar facilmente em uma morte de João Paulo II. Então, um conclave discutível, com todos os resultados de um conclave discutível. Quer dizer, nós estaríamos na boca de um estraçalhamento.
Vem-me ao espírito uma pequena metáfora que exprime bem isso.
Vocês já perceberam quando a gente abre uma fruta-do-conde que está no estado de maturidade comum, não supermadura. Quando a gente abre a fruta-do-conde supermadura ela se racha toda. Mas quando ela não está supermadura, está no estado comum, ela se divide em dois pedaços e cada um dos pedaços leva um certo número daqueles gomos internos da fruta-do-conde.
A Igreja ou está supermadura e se rachará em várias coisas, ou ela está madura e se rachará apenas em dois fragmentos. Mas depois os fragmentos por si se racharão também em outras coisas e nós temos o zero.
* Explicando como a mentalidade hollywoodiana via a escravidão das colônias africanas aos países europeus a propósito da despedida das freiras da Argélia
Aquela notícia que veio do “Figaro” a respeito lá dos muçulmanos, aquela coisa, de si é uma notícia puxadíssima. É preciso dizer — eu disse, mas muito por alto para não aumentar a reunião, mas eu disse — que “Le Monde” dá de um modo menos taxativo do que dá “Le Figaro”. De fato, mesmo como dá o “Le Monde”, é uma coisa bem grave.
Aquela despedida das freiras da Argélia é uma coisa lancinante.
(Sr. G. Larraín: É fruto de longas traições, não é?)
Longa traição. Mons. Lavigerie tem os dedos já molhados nessa água.
(Sr. G. Larraín: E de Gaulle então!…)
Bom, de Gaulle concedeu.
Aliás, é preciso dizer: cada vez mais você colocando diante de seu espírito a pessoa de Roosevelt e naturalmente Roosevelt, você tem claramente a idéia de que ele raciocinando de acordo com a mentalidade hollywoodiana, da qual ele era um representante supercredenciado, se deveria pensar a respeito da questão da seguinte maneira:
Os liberais norte-americanos conservavam a respeito da questão da liberdade dos povos negros a mesma noção artificial e sem realidade que tinham os liberais europeus e sul-americanos a respeito da escravidão negra. Eles tinham a idéia que a alternativa era: ou ser um escravo completo, ou ser um homem livre do Ocidente. Naturalmente, a condição do homem livre do Ocidente é muito preferível ao de escravo completo, e o natural seria impedir que os negros ficassem escravos aqui, porque se impedisse isso, eles na África seriam mais ou menos tão livres quanto era um branco no Ocidente. Esse é o grande engano.
Eu me lembro que nós tratamos disso uma noite dessas, não sei se se lembram.
(Sr. G. Larraín: Sim. Depois o senhor tratou muito no “Legionário” isso também.)
Também.
Aqueles régulos da África tinham muito mais direito de vida e de morte sobre os escravos do que um senhor de escravos.
(Sr. G. Larraín: O senhor tratou isso longamente.)
Longamente e nunca ninguém disse não.
(Sr. G. Larraín: É aquele sistema, não é?)
É.
Afinal, para a mentalidade do Roosevelt seria uma grande coisa libertar todo o continente negro do colonialismo, porque libertando do colonialismo os últimos vestígios de escravidão da África desapareceriam. Então, como compensação — a bem dizer ideológica — pela colaboração norte-americana para vencer o comunismo, entrava este fator: todas as nações colonialistas terminada a guerra iam dando liberdade aos respectivos povos.
(Sr. G. Larraín: Foi claramente isso.)
Depois foi isso que se fez.
(Sr. G. Larraín: Foi profetizado pelo senhor e se fez assim.)
Esse Mandela e essa coisa toda ainda é uma realização última desse programa.
* O “renvoi” dos brancos para a Europa é uma conseqüência necessária do fim do colonialismo e é o começo da anarquia na África
A gente vai ver como é que isto está, como é que se faz, a gente nota que o renvoi dos brancos para a Europa é uma conseqüência necessária dessa libertação e é o começo da anarquia na África.
Porque, no que é que podia dar a África com o telefone, com o telégrafo, com essas coisas da civilização moderna e o homem preto da África mil vezes mais selvagem do que o homem preto do Brasil ou da América do Norte, no que é que pode dar a África senão um caos?
(Dr. Edwaldo: E os pretos perceberam isso muitas vezes, porque em vários lugares não queriam que os brancos saíssem.)
Pois é. Mas isso também não valeu em nada e não mexeu com o espírito do Roosevelt em nada. De maneira que era assim e está acabado.
O que se estaria fazendo lá na África agora é acabar ainda com um resto de civilização branca no continente negro e daqui a pouco começar o caos. É o que pode haver.
Esse caos seria mais ou menos regenciado durante algum tempo pelos islamitas, depois vai e está acabado.
* Notícias aparentemente monarquizantes, mas que no fundo o que deixam transparecer é que o que virá será o caos
Esse artigo monarquista do jornal da Colômbia no fundo acaba dizendo o seguinte: “Como nós não quisemos ficar monárquicos, não quisemos continuar espanhóis, por esta razão nós estamos nos afundando no caos. O remédio que nós estamos vendo é uma volta para trás impensável”.
Porque ele diz formalmente que não se pode pensar em voltar para trás, que precisa ir para o futuro. Mas pelo que ele disse, só se resolveria o caso voltando para trás.
No fundo, o artigo parece um artigo muito monarquizante, ele revela um certo sentir monarquizante na Colômbia, porque tenho certeza que na Colômbia ninguém protestou, mas de qualquer forma ele o que deixa transparecer é que não virá a monarquia e que, portanto, vem o caos.
(Sr. G. Larraín: É exatamente o que o senhor diz, é isso mesmo. E se vier é uma coisa isoporizada.)
Isoporizada. E não vem, não vem.
(Sr. P. Henrique: O mesmo se poder-se-ia dizer do Chirac com a declaração dele?)
Também.
O Chirac diz que a questão válida única é a república ou monarquia. Está bom, mas, por outro lado, vê-se que a mídia não conduzirá para a república nem para a monarquia o debate, que ela fingirá ignorar a declaração do Chirac e que ela continuará a fazer esse falso debate. De maneira que isto é dito para dar a entender aos que pensam assim que não adianta, porque de fato a questão no fundo é essa, mas essa questão não se trata, não existe nada. É mais ou menos para fazer isso assim, para os que tenham pensamento suscetível de afinar conosco.
(Sr. G. Larraín: Há um lado muito perigoso que nós já sabemos. Se eles disseram isso, eles foram obrigados por alguma coisa relacionada com o Livro, por alguma graça ou só por puro jogo?)
Eu acho que fizeram isso por puro jogo, que o Livro terá concorrido pouco para isso. Mas eu acho que o que tem de auspicioso é que o fato deles publicarem sem protestos equivale a dizer que há mais receptividade para isso do que se pensaria.
(Sr. Poli: E é, para efeitos de atuação do senhor, um ponto importante, não é?)
Muito importante.
(Sr. Poli: De atuação é importante. Para fazer a análise do quadro é outro aspecto.)
É outro aspecto, é isso.
(Sr. P. Henrique: Sobretudo, é que as graças prenunciativas da Bagarre e do Reino de Maria estão contidas em toda essa obra do livro da nobreza. É isso que se trata no momento.)
Isso é fora de dúvida.
(Sr. P. Henrique: Esse é um depoimento que vem e diz: “Olhe aqui, tem razão”.)
Exatamente.
Quer dizer, é muito importante desse lado.
* A situação atual ainda não tem nada de mata-mata, mas em qualquer país do mundo está a dois passos do mata-mata
Agora, a pergunta é: pela situação em que estão as coisas, qual é a caminhada intermediária entre a Bagarre completa, que é o mata-mata, e a situação atual?
Não sei se lhes interessa entrar por aí.
A situação atual ainda não tem nada de mata-mata, ao menos não se percebe, mas está em qualquer lugar a dois passos do mata-mata.
Como são esses dois passos?
Você pega, por exemplo, na França aquele Visconde de Villiers e aquele sujeito do sul… Ora! que tem um partidinho político.
(Sr. F. Antúnez: Le Pen.)
Le Pen.
Eles se entredevoram e em certo momento sai um crime. Saindo um crime, começa ta-tata-tata. Até onde vai?
Aqui no Rio de Janeiro de repente um brizolista ou um petista não matam alguém?
Tudo isso é como um ambiente onde não está chovendo, não está caindo uma gota de chuva, mas um relâmpago determinou a tempestade. Nessa situação nós estamos.
Como é que nós vamos passar disto para o mata-mata? É por meio de uma guerra mundial, ou de uma série de revoltas mundiais que são colapsos e crises entre grupos sociais que se entrematam, e depois começam a guerra a bem dizer nascida de tudo e tudo fica tumor? Pode ser.
(Sr. Poli: O senhor podia pôr a alternativa? Eu não peguei.)
Se você admite que em todos os países modernos ou mais ou menos todos uma circunstância qualquer um pouco inesperada que seja pode determinar um mata-mata — essa é a questão—, se você admite isto, você tem que admitir que a guerra geral pode resultar de mata-matas simultâneos e paralelos em vários países.
* Quais são os efeitos internos na TFP de todo o panorama apresentado? Analisando a mentalidade do membro do Grupo carreiroso
Os efeitos disso internos na TFP? É um outro ponto muito importante.
Eu acho, pelas últimas reações, que continua a existir no Grupo a receptividade para as graças do Livro e até uma boa receptividade. E que também nessas reuniões pesadas, bagarrosas, que estão acontecendo, não há esse fechamento malévolo que haveria há anos atrás se nós entrássemos com essas conjecturas. Mas o que a gente não sabe é como o pessoal mais velho, cujas reações diante do próprio futuro individual são muito difíceis de conhecer, por onde é que eles vão.
Você toma um filho meu que é da época pré-enjolrática e que tenha aberto seu coração para a idéia de que com ele, no caso dele individual, haverá alguma coisa, mas que ele ainda vai fazer uma certa carreira, que o mundo não se compreende e a axiologia enlouqueceu se ele não fizer uma certa carreira, que é propriamente a tese deles.
A tese não é a seguinte — não vai haver esses fatos, mas é uma coisa próxima disso: “Comigo não vai acontecer e com alguns do nosso gênero não acontecerá. Como será eu não sei, mas em face dessa prefigura do fim do mundo, nós somos uma prefigura daqueles homens tão fiéis, tão bons, tão abnegados que não morrerão”.
(Sr. G. Larraín: É isso mesmo. É uma coisa trágica!)
Mas é o que está na cabeça.
(Sr. G. Larraín: Sim, senhor, infelizmente é isso.)
Depois: “Não importa Dr. Plinio querer tratar desta questão em grande escala doutrinária, porque essa escala doutrinária pura e simplesmente não me interessa. Eu tenho uma segurança de que para mim as portas do êxito estão pelo menos entreabertas, tão forte, que ela não se baseia em nenhuma raciocínio, ela se baseia numa apetência pré-gustativa que de antemão ama tanto ter isto, que eu não posso conceber que Deus não me dê”.
(Sr. G. Larraín: É extraordinariamente verdadeiro. É um disparate delineado com a mais absoluta clarividência.)
Com o mais absolutismo cinismo de quem aceita.
(Sr. G. Larraín: Sim, e da parte do senhor com uma clarividência fabulosa.)
É isso.
Eu ainda outro dia estava vendo umas pessoas — porque lá daquela cabine se vê muita coisa naturalmente, não é? — se moverem, pessoas que a gente estima. A gente vai ver o que é aquilo, no fundo eles não recuaram um milímetro da idéia de que eles vão fazer carreira e vão longe no caminho.
(Sr. P. Roberto: Na anarquia eles não acreditam?)
Como é?
(Sr. P. Roberto: Não se acredita que o mundo está indo para esse mata-mata?)
O mundo sim, pode ser. Não é questão de acreditar, admitem a possibilidade. Com eles não.
(Sr. Poli: Não é bem o fenômeno daquele que o câncer é a doença que dá nos outros? É a mesma coisa?)
É a mesma coisa.
Vamos dizer, o Fábio, por exemplo. Há anos que o Fábio às vezes se queixava — queixava diante de algumas pessoas e não fazia mistério — que tinha uma sensação esquisita dentro do corpo de que ele carregava alguma coisa de estranho dentro do corpo. Isso a gente ouve assim, e como ele tinha uma aparência muito saudável — ao menos aos meus olhos era a impressão que ele dava — a gente deixava aquilo passar. É como um de nós que diz de repente: “Essa noite eu acordei com palpitações”. Na minha idade isso preocupa, na idade de vocês se diz: “Bem, comeu alguma coisa indigesta, qualquer coisa, não tem importância. Vamos tocar para a frente”.
Esses tipos são assim: acham — têm a psicologia do Fábio — que a eles e a um certo tipo de felizardos do gênero deles, uns eleitos, não acontece isto e que, portanto, nunca terão.
(Sr. G. Larraín: É muito sério e muito verdadeiro.)
Na própria evidência.
* Quando chegar a evidência do mata-mata e junto o convite decisivo da Providência, uma das reações do carreiroso poderá ser a de culpar ao Fundador pela situação na qual se encontra
Estes vendo que para eles furou o balão e que o mata-mata começou de tal jeito que eles podem morrer de uma hora para outra, eles [percebem que] têm que dar um passo que até aqui recusaram. Deus aparece a eles a bem dizer e diz: “Chegou, meu filho, a sua vez. Pela primeira vez diga sim e Eu te dou tudo. Se você disser uma vez não, você perde tudo”.
Isso posto, dá um choque, e um choque cujo tamanho é difícil medir. Mas uma das reações possíveis desse choque é a seguinte:
— A culpa é do Dr. Plinio.
— Porquê Dr. Plinio?
— Porque Dr. Plinio é Dr. Plinio. A culpa é dele.
— Mas como a culpa é [dele]? Ele toda a vida não procurou guiar você do outro lado?
— É, mas ele não soube pegar minha psicologia como era.
Não é verdade, não há jeito de pegar essa psicologia, que ele descole deste ídolo, desse deus que ele tinha dentro de si mesmo. Não é verdade. Ele sabe, aliás, que é isso.
Aí eu não sei também quais são as reações.
Eu dou um exemplo. Com esse exemplo eu não quero atingir ninguém, eu falo em tese.
É uma coisa evidente que dentro da TFP todo o mundo aceita como verdadeiro o conjunto de idéias aceitas oficial e notoriamente pela TFP. Eu não acredito que haja um que não acredite, ele acredita. A questão é saber as restrições que ele faz ao credo dele em vista da excepcionalidade da pessoa dele. É uma coisa diferente.
* A reação do carreiroso em face do Beato Palau: se o admite, tem que abandonar a idéia de sua excepcionalidade; se não admite, tem que perseguir o Beato Palau
Para esses assim apareceu o caso do Pe. Palau. Aparece o caso do Pe. Palau, aparece o negócio do Moisés da Lei e da Graça, aparece uma série de outras coisas que ou eles admitem e eles têm que compreender que a lei da excepcionalidade não existe para eles, ou eles não admitem, mas têm que atacar o Pe. Palau.
Não sei se está claro por quê é ou por quê não é.
(Sr. G. Larraín: Sim, está claríssimo. Digamos, de duas, uma, não tem saída. Se é para admitir, admite; se não admite, tem que cair em cima do Pe. Palau. Se não admite é por problema pessoal.)
Não tem por onde escapar.
Resultado: a gente via que havia muito aplauso com o negócio do Moisés da Lei e da Graça e aquilo tudo, mas a gente sentia ranger as rodas de certos automóveis.
Não sei se concordam comigo ou não.
Você imagine que se fizesse… para uma pessoa dessas que faria restrições ao Pe. Palau, a gente fizesse uma demonstração. Uma demonstração amistosa, razoável: “Olhe aqui, tem isto, tem aquilo, tem aquilo outro”. Qual seria a reação deles? A reação…
Por quê? Porque se isto for assim a minha excepcionalidade não…
(Sr. G. Larraín: Isso está extraordinariamente bem claro, está muito bem explicado. É um caroço que não tem jeito mesmo. […].)
É uma coisa singular.
(Sr. G. Larraín: Com isso se impede justamente que as coisas andem, que se possa tratar mais do assunto e como que tende a murchar.)
Tende a tomar caminhos inexplicáveis, não sei o quê.
* Na esperança de uma graça da Providência — da qual não há sinais — que vencesse este estado de espírito, o Fundador nunca exigiu categoricamente uma mudança de posição
Porque se eu quisesse agir à vontade, eu diria o seguinte: “A partir desse momento fica aberta uma caixa em cada êremo e em cada Sede da TFP. Uma caixa fechada cuja chave estará, digamos, por exemplo, só comigo em cada êremo e todo o mundo que quiser pode jogar aí dentro suas observações. Pode jogar essas observações em grau de anonimato, escrito à máquina, escrito em letra de forma, mas à mão, escrita à mão comum mas sem nome, ou como quiser. Ou, pelo contrário, dizer: AEOlhe aqui, Dr. Plinio, eu sou o Fulano. Vai dar surpresa ao senhor que logo eu vá externar essas dificuldade, mas eu há vinte anos que conheço o senhor e tenho essa dificuldade e nunca externei. Agora vai ela». Pum! solta uma coisa dessas e depois, então, nós vamos tratar da questão.”
Eu acho que não resolve porque o sujeito não quer.
Quer dizer, o Beato Palau pôs-nos no centro de um buraco em torno do qual eu girei vinte anos sem querer entrar, eu. Porque eu poderia ter exigido, por exemplo, atos mais declaratórios, poderia ter tratado isso em termos mais urgentes muito antes de aparecer o Pe. Palau e não o fiz, sempre com a esperança de que viesse uma graça e se resolvesse isto. Ou que, aparecendo a Bagarre, a Bagarre aparecesse com graças por assim dizer iluminatórias tais que representavam um convite para as pessoas à última hora tomarem ainda o bonde.
Eu não estou vendo nenhum sinal disso, desse convite, eu estou vendo contrário, por enquanto. É possível que haja alguma coisa, mas por enquanto é isso.
Possivelmente eu escandalize algum em dizer isso, mas é preciso dizer, é preciso dizer.
Vejam, por exemplo, aquela parte, por assim dizer, introdutória do Pe. Palau quando ele fala de um homem que vai ser perseguido, que acontece aquilo, aquilo e aquilo outro. Aquilo é ler, aquilo é a história da TFP.
(Sr. G. Larraín: Mas não pode ser mais claro. Depois isso se viu inclusive no começo do Grupo. Nós entramos no Grupo por causa disso.)
Foi isso.
(Sr. G. Larraín: Sem Pe. Palau, sem nada, toda a entrada na TFP, a adesão ao senhor foi por causa disso, não foi por causa de nenhuma outra razão. Inclusive nem por causa de previsões cumpridas, nem por causa de outras coisas, não, é pela pessoa do senhor só e do flash sobrenatural.)
Foi.
(Sr. G. Larraín: Ou seja, é uma coisa que nós tivemos e que depois jogamos fora. Há muita gente que diz o seguinte, até atacando as coisas do Sr. Fernando Gonzalo: “Ele não trouxe nada de novo”. Mas se não trouxe nada de novo, então é preciso agir em conseqüência.)
Se ele não trouxe nada de novo, a sua atuação tem que trazer algo de novo.
* Nós devemos rezar pedindo a Nossa Senhora que Ela destrua, por alguma graça de “D. Vital”, aquilo que é inapelável dentro dos nossos corações
Quem sabe se — porque nós não podemos saber — Nossa Senhora com a suma bondade que Ela tem, de repente, aparece e faz uma que nos deixa tão ilustrados no sentido bom da palavra, quer dizer, tão esclarecidos, e tão animados, que nós entramos outros para dentro da liça? É possível.
(Dr. Edwaldo: Já seria o Grand-Retour, não é?)
Seria o Grand-Retour. A se aceitar o Beato Palau por inteiro, a conclusão dele é o grande Grand-Retour.
Entra na questão do Pe. Palau uma outra questão muito menor, mas de importância, uma questão importante de interesse que eu já abordei no auditório Nossa Senhora Auxiliadora. É a questão de D. Vital.
Como explicar que se tenha dado em grande estilo a reabertura do processo de canonização com o arcebispo presente, com mitra, com báculo, agora, hoje em dia? É uma coisa incompreensível, mas é “palausiano”.
Por que é que eu digo isso? Porque me parece que se deve pensar em recomendar a D. Vital esta causa. Quer dizer, especialmente a causa dos que, dentro do Grupo, resistem com o coração inapelável, que não aceita apelação. Que Nossa Senhora destrua, por alguma graça de D. Vital, aquilo que é inapelável dentro dos corações.
Eu vejo que os meus filhos aqui ficam muito quietos.
(Sr. Poli: Está uma reunião espetacular de seriedade, de bondade do senhor, de conseqüência, de análise, uma coisa extraordinária.)
Eu acho que a reunião é de uma importância suma.
* Sucedem-se os raios que prenunciam a tempestade, mas cada novo raio nos encontra tal qual estávamos antes do primeiro; não queremos sentir que cada vez mais o passo do adversário está próximo
Depois o que me chama atenção é o seguinte: os raios que prenunciam a tempestade, se sucedem. Quando o céu está carregado, começam os relâmpagos e raios, à medida que os raios se sucedem, quem ouve isto fica mais receoso de que a tempestade caia de um momento para outro. Não é o nosso caso.
A gente pega esses casos, vamos dizer, Mons. Hume, Mons. Gaillot essas coisas todas, isto que eu estava falando há pouco de João Paulo II, pega isso e cada uma dessas coisas é uma tempestade em céu sereno. Mas as pessoas não querem dizer: “Agora mas o Hume, que coisa complicada isso. É mesmo”.
Não, cada novo raio o encontra como estava depois do primeiro. Não somam raios, não somam perigos, não querem sentir que cada vez mais o passo do adversário está próximo. Estão absolutamente na mesma.
(Sr. P. Henrique: Na metáfora dos raios há pouco o senhor disse que não são raios em céu sereno.)
Eu disse, eu troquei. Eu disse que era em céu sereno, devia dizer em céu não sereno, céu ameaçador. [Vira a fita]
(Sr. G. Larraín: Quem é o objeto dessas dores e dessas abominações na face da Terra? É só um homem que é objeto dessas injúrias. Quem é a pessoa que deu todas as normas para que se guiassem todos os povos, a Igreja e tudo? Também é uma só pessoa. Então é em relação a essa pessoa que está o problema, não é a freira “X” que está num convento da Argélia fugindo ou não fugindo que está sofrendo a Paixão de Nosso Senhor. Há aí uma coisa que, por exemplo, o Sr. João trata extraordinariamente que leva todas as pessoas a esse ponto, que para nós é tudíssimo. Não sei se está claro o problema.)
Está claro.
* Se o Fundador fosse diferente do que é, haveria menos birra em relação a ele?
Eu estou pensando em fazer uma espécie de teste com vocês, mas se os cansar eu deixo para outra noite.
Se eu fosse diferente em tal ponto, como é que se moveriam em face dessa diferença as almas? Se eu fosse diferente em tal ponto, em tal ponto, em tal ponto? Para mostrar quais são os pontos que contundem e afastam gente nossa da posição de adesão, por que é que se embirra comigo. A resposta, então, seria esta: é em tal ponto, tal ponto e tal ponto.
Não sei se está claro ou não.
(Sr. G. Larraín: Sim, está claro.)
Não sei se queriam fazer uma experiência desse gênero ou preferiam deixar para outra noite.
(Sr. G. Larraín: Não, pode fazer a hora que o senhor quiser.)
Meu Paulo Henrique?
(Sr. P. Henrique: Levantar uma objeção?)
Levante.
(Sr. P. Henrique: Não, não, eu pergunto.)
Eu responderia.
(Sr. G. Larraín: Não entendeu a pergunta.)
(Sr. P. Henrique: Não entendi bem.)
Vamos dizer o seguinte: se eu me apresentasse habitualmente de um otimismo infatigável. Não é propriamente a confiança na Providência, mas é de um indivíduo que está na delectação da seguinte convicção: “Tudo no mundo dá certo. Pode dar errado no momento, dá errado por um engano das coisas, mas acaba se acertando. De maneira que a gente deve viver alegremente e otimistamente nas piores coisas porque tudo dá certo”. Por causa disso, diante de Mons. Hume, Mons. Gaillot e tudo o mais é dar risada e dizer: “Isso conserta, isso se acerta”.
Há muita gente que é assim.
(Sr. P. Henrique: Sim, senhor.)
Se eu fosse assim, a minha pergunta é a seguinte: vocês sentiriam que uma parte dessa tendência à recusa amoleceria?
(Sr. G. Larraín: Em cada um de nós?)
Em cada um de vocês.
* Cada um de nós temos uma contradição interna pela qual vemos que o Fundador tem que ser como é, mas agimos contrariamente ao que esperamos dele
(Sr. P. Henrique: Eu creio que sim. Primeiro, porque eu tenho impressão de que nós entramos para a TFP por causa do senhor e por causa do Thau que nos dizia que nós deveríamos seguir esse caminho tal e qual se nos apresentou. Caso o senhor mudasse, nós imediatamente descolaríamos do senhor.
Eu não posso afirmar isso, mas não sou muito otimista. Mas eu acho que se o senhor se apresentasse com um pouquinho de otimismo, não sei, talvez os senhor perdesse os melhores Thaus ali no auditório, ficassem os piores.)
Ficaria a borra.
(Sr. P. Henrique: Ficaria a borra, é a impressão que eu tenho. De fato eu estou certo e estou convicto que eu tenho o meu tesouro “diabolus diabolorum” fechado a sete chaves, não querendo que o senhor toque. […] Se o senhor fosse em uma reunião, duas, três, quatro, cinco, otimista, tenho impressão que de fato iríamos embora, não ficaríamos: “Não é essa TFP que eu sigo”. Apesar de apresentar essa contradição dentro da alma.)
Eu acho que está muito bem respondido, mas agora é preciso ir ao fundo do negócio.
Se na sua alma tudo fosse como você está dizendo, você descobriria esta contradição e a enxotaria.
(Sr. P. Henrique: Claro, para para ser coerente eu teria que enxotá-la.)
Teria que enxotá-la. Se não enxota é porque, a não sabendas suas, em algo seu você adere a isso.
(Sr. P. Henrique: A não sabendas e sabendas. Porque a gente mais ou menos sabe onde está esse tesouro.)
É isso.
(Sr. P. Henrique: Se examinasse um pouquinho eu creio que cada um sabe onde está o seu.)
É bem exatamente isso.
Por este lado cada um que gosta da vida séria e de todas as coisas sérias que nós fazemos, de fato, no fundo, tem um certo deleite pela brincadeirolismo, pela graça, pelo chiste, e por um modo de ser que é o contrário daquilo que pela vocação a pessoa aceita.
(Sr. P. Henrique: É isso mesmo, tal e qual.)
Não é bem isso, meu filho?
(Sr. P. Henrique: É isso mesmo.)
Então por esse processo da interrogação nós descobrimos — e já não é uma descoberta minha, você põe a descoberto — esse fato: que esse diabolus diabolorum existe escondido atrás de uma contradição. Portanto, nós não devemos dizer o seguinte: “Eu não vou procurar minha falta naquela direção porque eu sou o contrário disto, eu sou homem da seriedade”. Não é verdade. Pode e deve haver em você um lado por onde a não seriedade, a brincadeira, a agitação, o caos, tem seu atrativo.
Quer dizer, é um processo de pesca difícil este, mas a coisa é essa, portanto. Fica lançado o princípio até agora não dado: “O contrário do meu Thau é meu diabolus diabolorum que fica escondido atrás de meu Thau. Eu tenho um pretexto para não olhar para ele porque está escondido atrás do Thau, eu não o vejo”.
(Sr. G. Larraín: Não o vê?)
Não quer ver, não quer ver.
(Sr. P. Henrique: O Thau era a luz para ir até ao fundo, para exorcizar esse “diabolus diabolorum”.)
Exatamente.
(Sr. P. Henrique: Como o senhor exorcizou.)
* “Há uma certa idéia da minha severidade e minha irrecorribilidade na severidade que leva muita gente a se sentir afastada de mim”
Há uma outra coisa, apesar da amabilidade que eu procuro pôr em tudo quanto eu faço. Está dito pelo meu modo de ser que, verificadas certas faltas ou certas incorreções, certas punições são irrecorríveis, e que não há amizade, não há nada que me faça não punir uma certa coisa que mereça certa punição.
Pode ser até, que, por razões estratégicas e com dor para mim, eu não puna, mas se pudesse eu puniria, puniria logo e puniria com força, certo de que eu assim exorcizaria esta alma do defeito que tem.
De maneira que há uma certa idéia de irrecorribilidade na minha severidade — então, a minha severidade e minha irrecorribilidade na severidade — que leva muito gente a se sentir afastada de mim.
No fundo com a seguinte idéia: “Ele pode ser muito amável, pode até se ter mostrado meu amigo, mas se tal coisa assim ele pegar, ele não vai ter compaixão comigo. Não vai ter misericórdia nem compaixão. O pior é que eu acho que ele não deve ter, e que se ele me visse ter uma compaixão bonacheirona comigo, eu o deixava. Eu de fato não quero, não gosto que ele seja assim. De maneira que a razão pela qual eu gosto dele é a irmã gêmea da razão pela qual eu não gosto dele”.
Isso pega ou não?
(Sr. G. Larraín: Perfeitamente, totalmente.)
Meu Edwaldo, o que é que você acha disso?
(Dr. Edwaldo: Inteiramente.)
E você, meu Horácio?
(Sr. H. Black: É assim mesmo. Nosso Thau pede que o senhor não modifique em nada como o senhor é. Nós é que temos que nos modificar para adaptarmos ao senhor.)
* “Eu não posso considerar a hipótese de que me modificaria: ou eu morro como sou, ou vou para o Inferno”
É, mas eu não posso considerar a hipótese de que me modificaria.
(Sr. H. Black: Absolutamente.)
Ah não, absolutamente não. Ou eu morro como sou, ou vou para o Inferno.
Se há uma coisa que eu não posso fazer é modificar nada nisso. Tem um efeito que pode parecer louco, mas é assim: seria grave como uma mudança no Credo.
(Sr. G. Larraín: Aliás, nós sabemos que isso é totalmente assim, ou seja, que o senhor não vai mudar nunca. Essa é a tal história do Sr. Paulo Henrique, que saber isso é sumamente atraente, é o que atrai justamente. Mas por algum lado se fica com medo.)
Não só medo, mas não gostam. Não é só medo, é uma antipatia.
(Dr. Edwaldo: Outro dia vi um comentário a respeito do Moisés da Lei Antiga e me pareceu uma coisa muito interessante. O povo judeu via em Moisés a Lei, via a Deus em última análise, via os Mandamentos, mas eles não seguiam com amor. Eles já tinham muita dificuldade com ele, e num certo sentido já estavam meio afastados. Foi por isso que quando ele subiu ao monte para receber os Mandamentos que eles aí se viram livres de Moisés e adoraram o bezerro de ouro.)
Coisa horrível, não é?
(Dr. Edwaldo: Mas a coisa deles se jogava em função de Moisés.)
Em função de Moisés, mas com isso de curioso: que Moisés vivendo no meio deles, eles repeliriam com indignação a suspeita de que eles pudessem adorar um bezerro de ouro. Mas foi só Moisés voltar as costas que foi o que eles fizeram.
(Sr. P. Henrique: Guardando as devidas proporções com o Moisés da Antiga Lei com o Moisés da Nova Lei e da Graça, a nossa situação nesse obstáculo interno de não querer ou se não de aproveitar a primeira oportunidade do senhor se afastar um pouquinho para nós fazermos das nossas, que nós fazemos mesmo, há um princípio que diz que o homem ama a verdade, mas não ama a verdade toda.)
Não ama todas as verdades. Ele gosta das verdades uma a uma; todas juntas não.
(Sr. P. Henrique: Na vida do senhor desde menino, talvez ali no Colégio São Luiz, o senhor num momento “X” deparou-se com uma verdade em particular e com todas as verdades. Num momento o senhor teve que dar adesão a todas e ser coerente com todas como o senhor está sendo até hoje e diz que tem que ser para toda a eternidade. O senhor venceu isso e deve ter encontrado alguma resistência interna para vencer, porque é da própria natureza humana. […])
* Durante sua vida, o Fundador teve numerosas tentações de desistir da adesão à totalidade das verdades a fim de fazer cessar seus sofrimentos, mas nunca cedeu um só milímetro a essas tentações
Meu filho, eu tive numerosas tentações de desistir da verdade inteira, mas numerosas, que se apresentavam quando vinha a evidência da situação de infelicidade declarada e quase suma em que eu me encontrava, e que eu já descrevi a vocês pormenorizadamente.
Vinha a idéia, você compreende: “Eu estou infeliz assim por tal causa. Logo, se eu remover a causa, o efeito passa também. Ou seja, se eu me puser nesta roda aqui — a roda era aberta, era só chegar e sentar — em dez minutos tenho toda essa infelicidade resolvida, tenho uma vida muito agradável e muito cômoda”.
Eu não podia tomar a sério essa hipótese, quer dizer, eu não podia deixá-la sentar na mesa das negociações comigo. Nossa Senhora me ajudou e eu nunca aceitei essas negociações.
Se eu dissesse: “Bom, quem sabe se”. “Quem sabe se” é como um homem que permitiu que uma mulher perdida entrasse na casa dele para convidá-lo, dizendo que não, que não tem anda, e ele diz: “Quem sabe se essa prostituta tem razão?”. No momento que eu disse isto, eu me prostituí.
Então Nossa Senhora me ajudou a eu absolutamente nunca tentar. Sendo que em ocasiões de dor muito profunda a idéia se punha, não digo obsessivamente, mas como quê obsessivamente. A coisa profunda era não e, graças a isso, você vê a integridade que Nossa Senhora me concedeu.
Eu não tenho certeza que todos nós que estamos aqui negamos sempre um lugar na mesa das negociações para essas hipóteses.
(Sr. P. Henrique: […] Se o senhor tivesse cedido também, essa integridade do senhor teria sido desfeita. Acho que poderia chegar nos galarins da glória do mundo, mas não teria a satisfação interna como o senhor a teve sempre e a tem.)
Não, mas eu era muito aberto à ilusão de que teria.
(Sr. P. Henrique: Então nós vivemos dessa ilusão, portanto?)
Não sei se vocês têm essa ilusão. Eu teria. A tentação era essa.
Quer dizer, eu me vejo, vejo como eu sou, vejo que eu teria tudo e que em torno de mim eu só encontraria gostosura.
Você talvez não tenha idéia, nem é o caso de entrar nesses pormenores, de como me seria fácil ter tudo.
(Sr. P. Henrique: Alguma idéia faço.)
Aqui, pegar aqui nessa quina desse aquecedor. Pronto, peguei.
(Sr. G. Larraín: Posto todo o quadro que o senhor acaba de colocar na reunião, da gravidade da situação de todos nós mais velhos do Grupo, evidentemente que se põe a pergunta eterna, mas que não se deve deixar de pôr, porque também desesperar não se pode.)
Não.
(Sr. G. Larraín: Mas, o que é que o senhor nos recomenda? […])
* Como curar este estado de espírito nefando? Tendo sempre claro diante dos olhos a situação infame da contradição em que nos encontramos quando não somos fiéis à vocação
Meu filho, o primeiro passo — e não vale a pena pensar no segundo — é ter a lealdade de se saber e de se sentir num estado de vergonhosa contradição, [como] quem olha para a contradição e sente a vergonha da contradição. Não só porque toda a contradição é vergonhosa, mas porque esta que brinca com o Thau, que brinca com interesses supremos da Igreja que foram postos em nossas mãos, só por ninharias, por bagaços, essa [contradição] é supremamente infame.
Vamos dizer, preto sobre o branco é isso.
Então a pessoa dizer: “Eu estou fazendo assim, mas eu quero que Nossa Senhora tenha misericórdia de saber que eu sei que é uma contradição infame e que eu vivo em estado de infame contradição”.
(Sr. G. Larraín: Está claríssimo, é isso mesmo. Então o senhor diz que é o primeiro passo, é ter a noção…)
Freqüentemente lembrada. Nos momentos em que eu não estou correspondendo, eu me lembrar: “Isto é uma contradição infame de minha parte, mas eu vou ficar nessa contradição”.
(Sr. G. Larraín: O senhor disse ter vergonha disso, o primeiro passo.)
É, mas pior do que a vergonha é sentir o incômodo da contradição.
Vamos dizer o seguinte: a vergonha pode doer, mas um argueiro nos olhos — que dói muito menos do que uma pancada na perna, de fato incomoda menos do que o argueiro nos olhos — não se suporta.
(Sr. G. Larraín: Então é pedir ou ter essa contradição diante dos olhos, é isso?)
Sim.
(Sr. G. Larraín: Isso é que o senhor chama o primeiro passo?)
* “Tibi soli ego peccavi, et peccatum meum contra me est semper” é o primeiro passo para outros passos da nossa total conversão
O primeiro passo é isso.
Há um salmo muito bonito que diz o seguinte: “Tibi soli ego peccavi, et peccatum meum contra me est semper”. Isso de ter o pecado meu em pé contra continuamente me acusando, contraditor infame da verdade conhecida, saber que se é isto e que se qualifica isto de infame é o primeiro passo para outros passos.
(Sr. G. Larraín: Muitíssimo obrigado, porque é tal e qual mesmo. É tal e qual e aí não adianta dizer que não, que é mais ou menos, nem comparar-se com outro.)
Não adianta nada.
Mas deixa eu fazer os ponteiros do relógio rodarem o círculo todo.
Você estava com a palavra, meu Horácio.
(Sr. H. Black: Não, senhor, já terminei.)
E você, meu Paulo Roberto?
(Sr. P. Roberto: Concordo inteiramente com o que Sr. Paulo Henrique disse, que a análise que o senhor fez é absolutamente verdadeira, e peço a Nossa Senhora que tenha força para seguir isso que o senhor está dizendo.)
Pois não, meu filho, que Ela lhe liberte disso, não é?
E você, meu Fernando?
(Sr. F. Antúnez: Muito bem, senhor, está realmente muito bem. O que eu consegui seguir…)
Não tem dúvida. Mas aqui há um esforço de coerência, porque você fez um esforço para assistir a reunião inteira.
E você, meu coronel?
(Sr. Poli: Como todas as coisas do senhor, são de uma precisão, de uma exatidão. A gente tem que agradecer, porque também é muito decorrente do amor que o senhor tem a Nossa Senhora, mas também é do amor que o senhor tem a cada um de nós em formular a coisa com essa precisão, com essa exatidão, descendo a palavras tão convincentes, que eu estou encantando com isso. Lastimo que seja assim, mas estou encantado com toda a explicação que o senhor fez.)
Eu acho que vocês deveriam tomar nota das palavras do salmo: “Tibi soli ego peccavi, et peccatum meum contra me est semper”. Há-de ser um pouco diferente na ordem.
A ordem é outra, não é?
(Sr. P. Henrique: Não, não, acho que é isso mesmo.)
* “Quando eu recitei esse salmo nas primeiras vezes isso me dava uma espécie de êxtase deliciosamente dolorido: AETibi soli ego peccavi»“
Quando eu recitei esse salmo nas primeiras vezes isso me dava uma espécie de êxtase deliciosamente dolorido: Tibi soli ego peccavi. No momento que eu pequei contra Ti, eu estava como uma pessoa que está só diante de Deus, ou seja, como se Deus tivesse só a mi diante de Si. Concentrada a sua atenção divina que traspassa tudo, que mede tudo, que toma uma posição inflexível e sacratíssima diante de tudo, eu estava ali e Vós, Senhor, me radiografastes. O meu pecado que nessa ocasião eu vi está continuamente diante de mim. Ah! que limpeza e que alívio”.
Então eu acho que nosso assunto na sua generalidade está visto.
Que horas são agora?
(Sr. G. Larraín: É tarde, senhor.)
Que horas são?
(Sr. G. Larraín: Infelizmente é tarde, são três e quinze mais ou menos. Ficamos com o coração meio partido de ter que despedir do senhor, mas não tem jeito mesmo. […] A gente vê, por exemplo, o senhor agora que está em São Bento. Está com uma bênção, tudo muda, apesar de já ser extraordinário. Então não vai dizer que não é, que tem esses defeitos que infelizmente se chocam contra o senhor. Não é, é a tal contradição, tem muito gosto de estar com o senhor. Agora, o que vai fazer, vai sair como um desesperado? Também não pode. Tem que ficar, creio que, não sei…)
Confuso, penitente e humilhado.
(Sr. G. Larraín: Mas também entra a confiança aí onde?)
Eu tenho a confiança por causa daquele em cujas vias devo pôr os meus pés.
(Sr. G. Larraín: A essas três palavras, confuso, penitente e humilhado, eu não posso agregar confiança? Eu devo ficar confuso, penitente e humilhado, mas confiante? Pergunto.)
É isto.
(Sr. G. Larraín: Isso é certo?)
Não, não, não, é certo. Do contrário dá no pecado de desespero e isso não é possível.
(Sr. P. Henrique: É, porque se há um remédio aqui é a esperança e a confiança de que isso vai consertar.)
Essa esperança está em todos os salmos.
* O passo está indicado, o Fundador está identificado, o caminho está esclarecido
(Sr. P. Roberto: Essa esperança é uma esperança na esperança do senhor, não é?)
Sim, é verdade.
(Sr. P. Roberto: Porque se não for isso também não…)
Não, eu sei que é mesmo, mas é. Alegrem-se porque o passo está indicado, o Fundador está identificado, o caminho está esclarecido.
(Sr. P. Roberto: É bom o senhor dizer que é.)
Não, mas é. É na força da expressão.
Meus caros, vamos andando?
Há Momentos…
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