Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
11/3/95 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 11/3/95 — Sábado
“Nova et vetera” a respeito da Luz Primordial e vício capital * Um fato de todos os dias na vida do Fundador e que demonstra o seu profundo amor à hierarquia * A espinha dorsal do pensamento do Fundador é um amor graduado a tudo quanto é bonum, verum e pulchrum, o qual constitui o elemento fundamental por onde ele se une à Santa Igreja * Em contato com o Fundador, sente-se a presença do senso de hierarquia da alma dele, e isso ou atrai ou repele
(Sr. Guerreiro: São vinte para as três.)
* “Nova et vetera” a respeito da Luz Primordial e vício capital
Bom, sempre dá para a gente falar alguma coisinha.
A questão, meu filho, é a seguinte — nós já temos tratado disso: assim como a alma tem a sua luz primordial, ela tem também o seu encanto por alguma coisa que é o contrário da luz primordial, que é a atração primordial, se quiser, oposta e que dá caminho para o mal. A questão é que não é colocar em simples termos de pecado ou não pecado, mas é uma coisa que vai além.
Por exemplo, a pessoa pode ter uma tendência muito viva do lado bom da alma para tal coisa muito boa. Depois ela tem, portanto, em oposição, uma tendência muito grande para a coisa oposta muito má.
Qual é a coisa oposta muito má e qual é o lado bom e que deve ser favorecido? Esse é o problema.
O problema é a pessoa obter de Nossa Senhora suficiente coragem para apontar e denunciar bem o lado ruim para o qual é tendente. Mas que é com sinal menos na frente no mesmo nível do lado bom da pessoa, é uma coisa muito profunda. Não é um apegote qualquer ou um coisa qualquer assim, mas uma coisa muito profunda. É uma coisa até, vamos dizer, metafísica.
Nessas condições, todo o mundo tem um apego e tem uma tendência que é preciso reprimir. Essa tendência se consolidando nessa medida, o lado bom vai deperecendo. Pelo contrário, se o lado bom vai se fortificando, esse lado ruim vai deperecendo.
Qual é no fundo essa coisa? É o problema.
* Citando exemplos para facilitar a compreensão da doutrina
Você toma, por exemplo, uma pessoa que tem um gosto muito marcado pelas coisas do Ancien Régime. Aquilo é uma coisa muito profunda porque é o conjunto das coisas do Ancien Régime, um certo ponto preponderante das coisas do Ancien Régime que pegam muito a pessoa. Se a pessoa tem isto, todo o seu lado bom prospera.
O que é que a pessoa tem que é oposto ao Ancien Régime e que leva para o mal? É o contrário, é o gosto da vulgaridade, da banalidade, do Hollywood, que a pessoa tendo vai para o lado oposto. São verdadeiros programas metafísicos que decorrem daí e que é muito difícil a gente ter a coragem de ver por inteiro e de concordar ou discordar por inteiro.
É possível que eu por sono não esteja suficientemente claro.
(Sr. G. Larraín: Está muito claro.)
Vamos dizer, por exemplo, eu estou colocando diante dos olhos uma cena daquela peça a respeito do Frei Leão do Coração Agonizante de Jesus. Por exemplo, um certo momento em que o marquês está falando com o Frei Leão e mais adiante estão dois ou três lacaios com aquela cabeleira empoada, com aquela coisa toda de costas para o marquês e para o Frei Leão. Esses lacaios estão colocados lá para desempenhar seu papel, quando chegar o momento da horda imunda querer entrar eles, então, se opõem.
Naquele choque que há entre a horda que entra e os lacaios que fazem oposição, aquilo poderia estar realizado com ainda mais finura e haveria aí um êxito inteiro da oposição.
Eu me lembro perfeitamente que os lacaios estão mais ou menos de costas para o público durante a primeira parte dessa cena e de costas, portanto, para o marquês e para o Frei Leão. Mas vistos de costas com a cabeleira empoada e com aquele traje Ancien Régime eles são de uma distinção, não é tanto eles em concreto, mas o padrão que eles evocam é de uma distinção, de uma finura, de uma elevação aristocrática acima das coisas banais, que tende para o maravilhoso.
Aquilo ou se ama ou não se ama. E se se ama aquilo, tem que se odiar aquela turbamulta. Mas se a gente gosta do banal, do cafajeste, do cômodo, tem-se que odiar os lacaios.
Assim nós temos umas antíteses de fundo dentro da alma que são terríveis. E é diante de antíteses dessas que nós não queremos travar a batalha e tomar uma posição unilateral e direita.
* Um fato de todos os dias na vida do Fundador e que demonstra o seu profundo amor à hierarquia
Durante o jantar o Andreas estava dizendo que teve uma espécie, vamos dizer, de pressão cardíaca, uma coisa assim, quando presenciou uma cena entre D. Luiz e eu aqui na sala de jantar. Eu me lembro perfeitamente da cena.
D. Luiz tem essa gentileza de nunca querer passar diante de mim pelas portas e eu de cada vez mando parar a cadeira e pedir para ele passar. Ele dizendo que não quer, eu então agradeço e passo na frente, mas não permito que se empurre a cadeira em detrimento desse princípio.
D. Luiz amavelmente me dizia que eu podia dispensar isto, porque já está visto que a ordem das precedências que ele acha que deve estabelecer é essa e que eu poderia me dispensar desse pequeno cerimonial de cada vez. Eu disse a ele que a objeção dele era muito amável, mas que o fundo da coisa era este: que ele é mais do que eu — e muito mais do que eu — e que, portanto, exigindo a que eu passasse antes dele, ele me beneficiava no sentido de que era uma honraria que ele me concedia. Como acontece que o beneficiado tende a esquecer muito depressa do benefício e o benfeitor, pelo contrário, se lembra do benefício per omnia saecula saeculorum, se de cada vez o beneficiado não agradece, aquilo vai murchando. Era fácil eu me esquecer de tudo quanto ele concede mandando que eu passe diante dele.
Por que eu amo que as coisas sejam assim e amo que quem é mais tenha precedência sobre o que é menos, eu faço sem o menor sacrifício, pelo contrário, com alegria, essa espécie de pequeno holocausto de cada vez, para adestrar a minha alma a querer e amar de cada vez toda a estrutura hierárquica das coisas. Portanto, é de uma preocupação de vida espiritual e não de mera etiqueta que eu insistia de cada vez.
O Andreas me disse que vendo uma pessoa reconhecer tão claramente a sua inferioridade diante de outra, que isso significava uma integração com o princípio da hierarquia que até dava arrepio. Ele achava que muita gente pensaria assim e muita gente agiria como eu estou agindo, mas não diria ao outro: “Você é superior a mim e, portanto, você tem o direito sobre mim, por ser quem é, de passar na minha frente. Eu sou tão franco, que posso esquecer disso e, esquecendo, embotar o princípio da hierarquia dentro de minha alma. Portanto, para dar à sua grandeza tudo quanto ela merece, a minha pequenez exige que eu de cada vez faça essa pequena homenagem”.
Isso é uma coisa que é quase chocante ver uma pessoa dizer para outra, mas que ele admirava, que ele gostava e ficava contente. Era levar o princípio da hierarquia a uma plenitude tal, que arrepiava. Isso dizia um conde, e um conde da Casa d’Áustria.
* A espinha dorsal do pensamento do Fundador é um amor graduado a tudo quanto é bonum, verum e pulchrum, o qual constitui o elemento fundamental por onde ele se une à Santa Igreja
Aqui há uma coisa que vocês devem sentir com certeza que está no que se poderia chamar a espinha dorsal do meu pensamento e que traz consigo um amor graduado a tudo quanto é verum, bonum e pulchrum, verdadeiro, bom e pulcro. Este amor graduado constitui o elemento fundamental por onde eu me uno à Santa Igreja Católica. É porque eu conheci a Santa Igreja Católica como o foco dessa atitude de alma e como aconselhando essa atitude de alma de todas as maneiras e a todo o propósito que eu amei de tal maneira a Igreja. Mas é porque eu amei este princípio, originariamente.
Isto dá à alma muita ordem e dá também, naturalmente, muito desapego. Porque com esta ordem vem o gosto de amar todas as coisas sem ser pela relação que elas têm comigo, mas pela relação que elas têm em si com Deus. É a prática do amor de Deus.
Por exemplo, tomando em consideração aqueles lacaios. Se eu fosse fazer a seguinte reflexão: “Que beleza eu ter um solar onde os lacaios se vistam daquela maneira, de maneira que quando eu passe diante deles, eles fazem uma reverência e dizem monsenhor”… Se isto se faz assim e é por amor a mim que eu gosto disso, eu estou perdendo o meu latim. Mas deve ser por amor à hierarquia que está subjacente nisso que eu acho que isso deve ser.
Agora, a grande maioria das pessoas começa por ter preguiça de ter normalmente presente dentro da alma essa hierarquia. É uma preguiça: precisa estar prestando atenção, tornando mais vertical a atitude da alma em todas as ocasiões em que isso entra em jogo, etc. Por esta forma é que a alma se realiza a si própria e aquilo para que ela foi chamada.
Cada um de nós tem um lado por onde repele essa posição e tem um lado por onde gosta dessa posição. Ali está o jogo do bem e do mal, da verdade e do erro, do pulcro e do não pulcro, e toda a questão da Revolução e da Contra-Revolução está ligada a isso.
Precisamente isto é que eu tenho impressão de que a Revolução odeia que seja assim e que os tais demônios em bolhas de sabão detestam. Eles chegam num ambiente e espalham pela vulgaridade, pelo gosto da comodidade, pelo gosto da despreocupação, de não ter uma arrière pensée a respeito de nada, mas de viver das impressões de superfície, dos deleites superficiais, fazer da superfície o próprio fundo da alma, e fazer do fundo a superfície da alma — voltar completamente as posições — é disso tudo que vem a destonia comigo.
(Sr. P. Roberto: O que é que no senhor exorciza essas bolhas de sabão que o senhor estava dizendo?)
Eu acho que sim, eu tenho impressão…
(Sr. P. Roberto: É isso tudo que o senhor está dizendo?)
É isso.
* Em contato com o Fundador, sente-se a presença do senso de hierarquia da alma dele, e isso ou atrai ou repele
Eu tenho impressão de que quando a alma está bem disposta, acercando-se de mim nota de um modo ou de outro, mas nota logo, esse princípio atuando. Ainda que o princípio durante o nosso contato não me tenha ocorrido de um modo explícito, a pessoa nota a presença disso. E o notar a presença disso ou atrai ou repele.
Daí, por exemplo, uma espécie de birra pelo gosto que eu tenho pelas coisas do Ancien Régime. É porque elas estão todas muito impregnadas desse espírito, deste princípio.
O Ancien Régime pode ter até coisas já inferiores à Idade Média, e tem mesmo, mas algumas dessas coisas o Ancien Régime levou a um grau de explicitação e a um grau de brilho que é a plenitude da coisa. Isso ele levou mesmo, não adianta vir com coisas.
Basta algum de vocês procurar lembrar-se do minueto do Boccherini. Eu acho aquele minueto uma coisa formidável, se bem que me pareça que muitas pessoas interpretam aquilo meio revolucionariamente. Mas aquele minueto tocado como eu imagino que ele era tocado, era uma coisa fabulosa.
As pessoas não gostam daquilo porque está encharcado do que eu estou dizendo.
Aqui está a grande vantagem, enfim, como está o gosto do contrário muitas vezes metido em nossas almas. Por exemplo, um otimismo, as coisas se avizinham por vários lados com um otimismo superficial, ligeiro, com que a pessoa acha que tudo vai se passar.
Então, vamos dizer, a pessoa está doente. A pessoa já acha que está boa porque o médico disse tal coisa e a pessoa acha que sim, etc. Vai para a cama inaugurar seu período de repouso por ordem médica — quer dizer, levar uma vida de doente — otimista, achando que aquilo não tem nada, que vai dar certo. Começa deitado na cama, ainda dia, lendo uma coisa magnífica, depois tomando um chá e conversando com os amigos para passar uma tarde assim.
A pessoa gosta muito disso, acha muito agradável, mas se durante isto tem que fazer algumas cerimônias deste gênero com alguns dos amigos presentes estraga tudo e diz: “Não, mas eu não gosto dessa coisa de estar pensando em reverências”.
Você não gosta, está bom. Primeiro lugar, você tem razão de não gostar? Isso corresponde à ordem real das coisas? Em segundo lugar, você não gosta e você não seria outro se gostasse? Não basta o fato brutal e estúpido de gostar ou não gostar, é preciso ter alma nessas coisas.
(Sr. G. Larraín: E depois a idéia de que essas coisas são feitas por jogo. Porque há muito também essa idéia, de que a cerimônia é feita por uma espécie de amabilidade, mas onde o fundo da alma não está engajado. A gente vê que no caso do senhor é assim, está totalmente engajado.)
Como assunto capital da vida.
(Sr. P. Henrique: E por vocação. Porque o senhor disse que hauriu isso da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.)
É isso.
(Sr. P. Henrique: Como vocação é uma vocação ímpar que até hoje não tinha havido. Cada santo tem uma vocação especial, mas essa do senhor é um pináculo de toda essa ordem dessa visão universal das coisas.)
É, eu acho que sim.
Meus caros, eu estou afundando no sono.
(Sr. M. Navarro: Estão perguntando se o senhor não quer que leve já um dos aquecedores para o escritório porque está sem nenhum lá.)
É, pode levar e eu vou ter que suspender porque estou afundando no sono.
Eu peço desculpas de ter começado a reunião tão tarde, mas aquilo são os episódios de post-reunião que são terríveis.
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