Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
4/3/95 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 4/3/95 — Sábado
Um paradoxo na vida interna do Grupo: demos nossa vida à Igreja, mas ela pode estar no estado de agonia em que está que a repercussão produzida entre nós não é proporcionada aos fatos * A visão estrábica por onde as questõesinhas pessoais são tomadas como muitíssimo mais importantes que toda a Paixão da Santa Igreja; um exemplo * A raiz deste vício: após o primeiro encanto com a Santa Igreja, chegado o momento em que é pedido à pessoa o total desinteresse pessoal, ela se nega * Por uma piedade deformada, na hora da morte a pessoa nem se põe o problema se durante a vida ela teve ou não um total desinteresse pessoal e viveu só para o serviço da Santa Igreja
(Sr. G. Larraín: […] Como andar rumo a que as coisas sejam assim, que o relacionamento com o senhor seja como deve ser, cheio de afeto, de um lado, evidentemente, mas de imensíssimo respeito, de imensíssimo temor filial, de obediência e de incondicionalidade completa, medindo a distância sideral?)
(Sr. Poli: A distância incomensurável, não é?)
Eu digo alguma coisinha daqui a pouco.
Assim de frente você está pondo o problema muito bem. Mas como o problema tem sido posto de frente muitas vezes e não se penetra dentro dele, por mais que se diga se fica meio no ar, eu tomo a coisa por um outro lado e creio que nós podemos ver alguma coisa dentro disso.
* Um paradoxo na vida interna do Grupo: demos nossa vida à Igreja, mas ela pode estar no estado de agonia em que está que a repercussão produzida entre nós não é proporcionada aos fatos
Você toma a reunião de hoje. Aqui é uma observação rápida que repete uma porção de observações anteriores.
Eu tenho impressão que de um modo geral as pessoas que estavam lá reconheceram a gravidade da situação da Igreja, de maneira tal que viram que a Igreja estava numa situação… Vamos dizer, se a saúde de um indivíduo pudesse estar nessa posição, dir-se-ia que está agonizante, que qualquer outra coisa assim.
Você vê o paradoxo. As pessoas que estavam lá naquele quadrilátero em que estávamos pelo menos teoricamente dedicaram a sua vida à Igreja e pelo menos teoricamente levam de fato a vida para a Igreja. Quer dizer, mais ou menos teoricamente eles não têm outras diversões, não têm outras vantagens, não têm outra coisa senão de viver dentro da TFP, com todos os sacrifícios e as limitações que uma coisa dessas impõe para quem é ruim. Um indivíduo bom vive nisso com certa paz, com muita paz até, mas um indivíduo ruim tem nisso tem uma série de limitações inteiramente evidente.
Essas limitações e tudo isto mais ou menos é aceito. Mas é aceito de maneira tal, que aquilo em favor de quem a gente quer aceitar essas limitações, que vem a ser a Igreja, pode estar no estado de agonia em que está, a repercussão que produz entre nós não é proporcionada aos fatos.
* A visão estrábica por onde as questõesinhas pessoais são tomadas como muitíssimo mais importantes que toda a Paixão da Santa Igreja; um exemplo
Por exemplo, as questõesinhas pessoais, a importância que se lhe dá dentro da TFP ou que não se lhe dá e essas coisas todas têm uma importância sufocante que interessa mas cem vezes ao caso Gaillot. O caso dos tarados lá de São Francisco é um caso que teoricamente se reconhece que é importantíssimo, mas se se souber que na TFP alguém falou mal de uno, isto tem uma sacudidela mil vezes maior. O que indica que há uma certa visão das coisas que a gente tem, mas que é uma visão voluntariamente estrábica. De maneira que a gente vê, mas não quer ver até ao fim, e não vê porque não quer ver, seja pelo que for não quer ver.
Ainda anteontem, enfim, na penúltima reunião que tivemos, não me lembro bem, deve ter sido sexta-feira… Ontem tivemos uma reunião, não foi? Ontem à noite?
(Sr. G. Larraín: Sim, senhor, ontem o Santo do Dia.)
No Santo do Dia passou diante de mim lá na cabine uma pessoa — ela fez a passagem completa digamos da minha esquerda para a minha direita — tão enfunada, tão preocupada em saber, naquele momento em que ela era vista por grande número de pessoas, porque tinha que percorrer uma parte grande do público, o que achavam, o que é que não achavam, que importância estavam dando e que importância não estavam dando, que era uma coisa do outro mundo. É uma pessoa inteligente. Depois a pessoa meteu-se lá no lugar onde tinha que se meter e ficou quieta.
Terminada a reunião eu recebi uma reclamação da pessoa, mandada por terceiros, no sentido de que não estavam tendo para com ela e com valor pessoal dela a consideração que era devida e que chegaria um momento em que ela não agüentaria isto.
Quer dizer, o fim do recado era que ela provavelmente apostataria, mandaria toda esta causa às urtigas, Gaillot ou não Gaillot e tudo isso às urtigas, “porque não estavam dando a ele aquela consideração profunda e fabulosa” que ele sabia que “tinha direito”.
Isso com estas ou aquelas formulações é um estado de espírito. E esse estado de espírito depois também com esse, com aquele temperamento, mas acaba sendo isto.
Essa situação é uma situação que exprime mais ou menos, no fundo, um defeito geral. O defeito geral é uma indolência com pouco caso para com o que não é estritamente pessoal e para com a sua própria pessoa, que é de bradar aos Céus e clamar a Deus por vingança. Porque disso não se escapa.
* A raiz deste vício: após o primeiro encanto com a Santa Igreja, chegado o momento em que é pedido à pessoa o total desinteresse pessoal, ela se nega
Por quê é que isto é assim?
Porque a pessoa entrou para a Igreja Católica, em geral entrou pelo batizado, mas houve um determinado momento em que a pessoa teve um conhecimento mais lúcido do que é a Igreja Católica e aderiu, ficou católica. Em certo momento viu toda a formosura, a veracidade da Igreja Católica, a pessoa viu tudo, gostou. Mas quando em certo momento se lhe pediu esse desinteresse pessoal a pessoa negou.
Ela disse: “Eu fico na Igreja, é verdade, mas eu fico com a condição de não me ser tirada nem me ser negada tal coisa assim que vale mais do que tudo na vida. E pode, a esse propósito, Dr. Plinio dizer o que quiser, pode até acabrunhar-me com argumentos irrespondíveis, que eu não vou tomar conhecimento dos argumentos dele, porque não me interessam. Os argumentos dele podem ser verdadeiros, mas a evidência que eu tenho pessoal é de que estou sendo objeto de uma injustiça e eu não suporto injustiças em relação a mim. Isto é um elemento primeiro de minha existência que Dr. Plinio vai dizer que eu dou mais valor a isso do que à Fé. Então é, está acabado, mas eu me ponho nessa posição e disso não abro mão”.
Isto já foi dito de um modo ou de outro, mas o que tem de ângulo talvez novo — não tenho certeza que seja novo — é ver que esta posição, exatamente essa, essas pessoas tomam em relação à Igreja Católica. A Igreja Católica pode ter na sua liturgia as belezas que forem, a gente assinala para uma pessoa assim: “É, é”. Mas esse “é” no fundo quer dizer: “E eu com isso? É bonito, ela que se arranje. Eu tenho comigo o problema tal que é meu problema pessoal. Aí é que a coisa encrespa, e fora desse raiozinho muito limitado em torno de mim eu não tenho interesse por mais nada. O meu interesse é esse”.
* Por uma piedade deformada, na hora da morte a pessoa nem se põe o problema se durante a vida ela teve ou não um total desinteresse pessoal e viveu só para o serviço da Santa Igreja
Naturalmente se a morte vem pegar essa pessoa inesperadamente — que pode acontecer a qualquer momento — ela tem que prestar contas a Deus ali.
Como é que ela vai aparecer diante de Deus? Que contas vai dar? Que satisfação vai dar?
Sabe o que é mais terrível? A pessoa morre dentro desse erro, ela vai fazer um exame de consciência a la Emery. Esse exame de consciência vai ser falseado, alguns defeitos que ela tem, ela não vai reconhecer. Alguns atos que ela praticou, ela reconhecerá, ela se confessa desses atos e morre encantada com a piedade com que está morrendo. Vai comparecer diante de Deus: é isto.
Nem na hora da morte teve uma palavra para lembrar-se da carência tremenda com que comparece diante de Deus no que diz respeito a Deus.
(Sr. P. Henrique: É uma miséria humana essa vaidade. É uma coisa vã que o senhor já explicou, mas a pessoa achar que está morrendo piedosamente. É uma coisa insensata o quanto pode. Sobretudo conhecendo o nosso passado, mas vai acontecer.)
Vai acontecer. Na hora da morte tudo isso que eu estou dizendo não vai pesar, vai pesar o que está no catálogo dos exames de consciência dos antigos devocionários para a pessoa ler e para ver se está naquele caso ou não. Isso é o que presta e não ter outra coisa.
(Sr. P. Henrique: Porque uma vez posta a vocação, uma vez posto esse liame entre nós e o senhor, a história nossa passou a girar em torno do senhor. Aquilo existe de fato como fundo de quadro, mas esse relacionamento mudou de clave. Teria que ter mudado de clave de uma maneira inteiramente outra.)
Completamente outra.
(Sr. P. Henrique: Infelizmente ficamos agarrados àquilo…)
Por amor a si próprio.
(Sr. P. Henrique: Rastejando como um réptil e sem querer voar em direção aos horizontes que o senhor nos aponta.)
Eu indico, por exemplo, uma coisa:
(…)
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