Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
28/1/95 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 28/1/95 — Sábado
A Reunião de Recortes deixou completamente claro um ponto que os membros do Grupo nunca negaram, mas também nunca tiveram vontade de afirmar: realmente é o culto do demônio que está chegando * Analisando nossa tendência de, mesmo diante da evidência, encontrarmos um pretexto para mantermos nossas ilusões com o mundo * Vítimas culposas desse estado de espírito, se o demônio se apresenta com a máscara adequada, os próprios membros do grupo o aceitam * Analisando o processo: a consonância com os gemidos do demônio, fruto da compaixão de si mesmo * A tática utilizada pelo demônio para adaptar o homem a toda espécie de horror que o tornem mais apegado ao sofrimento que à alegria e ao prazer * Para exorcizar este estado de espírito é preciso ver as coisas de frente, objetivamente, e ter cuidado com os gemidos internos, pois na pena de si mesmo é que está o gemido do demônio * Dois frutos da reunião de hoje: a idéia de que o mundo atual não produz senão pus e o combate aos gemidos internos
Na reunião de hoje foram ditas as coisas que foram ditas, mas há uma coisa que eu não disse. Não dava tempo, não entraria naquele fluxo de acontecimentos, mas que é muito importante.
* A Reunião de Recortes deixou completamente claro um ponto que os membros do Grupo nunca negaram, mas também nunca tiveram vontade de afirmar: realmente é o culto do demônio que está chegando
Pela reunião de hoje fica completamente claro que realmente é o culto do demônio que está chegando. Esse é um ponto, como o da autoridade e outros, em relação ao qual os meus filhos não negam, mas não têm vontade de afirmar, não têm vontade de dizer que não, que é, e fica naquela história. Mas hoje ficou evidente, de uma evidência completa, em primeiro lugar que o mundo de hoje está produzindo o reino do demônio, e em segundo lugar que não há nele outro fator senão o por onde ele fabrica o reino do demônio.
Quer dizer, não existe no mundo de hoje coisa nenhuma que não trabalhe para a produção do reino do demônio. O que não trabalha para a produção do reino do demônio são resquícios de coisas do passado que no mundo de hoje ainda vegetam e que tomam vida quando tomam contato com a TFP. Mas, de fato, o mundo de hoje enquanto de hoje só é o produtor deste pus, dessa substância asquerosa que se chama o reino do demônio.
Como, então, justificar que nós tenhamos uma meia adesão a esse mundo?
(Sr. G. Larraín: Uma meia possessão pelo menos.)
Ainda hoje eu estava observando o fato e pensando que eu deveria aproveitar alguma boa ocasião que se apresentasse. Aqui se apresentou, então eu solto a coisa já.
* Analisando nossa tendência de, mesmo diante da evidência, encontrarmos um pretexto para mantermos nossas ilusões com o mundo
Eu queria explicitar, porque ela ajuda muito no combate a essa tendência nossa de vendo a evidência ─ porque a coisa hoje chegou até à evidência ─ nós encontrarmos um pretexto, não é uma razão, mas algo à maneira de uma razão, pela qual nós nos portamos em relação ao mundo de hoje como nós o víamos no início da vocação. Nem é no início da vocação, é depois que nós começamos a decair na vocação é que nós começamos a ver.
Quer dizer, é um mundo que tem coisas ruins, à la longe, à la trés longue acabará produzindo o reino do demônio, mas ainda tem elementos, vamos dizer, por assim dizer, vitaminas em quantidade suficiente para produzir coisas também boas, que produz ao mesmo tempo que as coisas ruins. Portanto, o pensar que esse mundo é todo ele mau… olhe que Nosso Senhor disse isto: “Mundus totus positus est in malignum ─ O mundo está completamente posto nas coisas más”. Maligno aí é o demônio; está completamente posto no demônio.
Isto nós não queríamos aceitar assim. Tem seus lados bons, depois vai produzir muito devagar o reino do demônio por causa das coisas boas por causa das coisas boas que ainda existem nele.
O sinal da revivescência deste estado de espírito é o seguinte:
A reunião foi excepcional, absolutamente excepcional, mas olhando bem no fundo as almas estavam pasmas, debaixo de certo ponto-de-vista encantadas com aquela dramaturgia. Depois, de outro lado, estavam contentes, com uma espécie de alegria de menino que conseguiu jogar no chão e pisar o colega e que, então, está triunfante de um modo um pouco pueril, de um modo um pouco infantil.
* No fundo da consciência permanece um pensamento: “apesar de toda malícia, há no mundo de hoje um dinamismo que é próprio e que não se deixa apressar e na vida cotidiana nada se alterará”
Mas no fundo da cabeça havia a coisa seguinte: “Tudo isso que Dr. Plinio está dizendo é verdade, mas há no mundo de hoje, ao par dessa malícia toda, uma espécie de dinamismo que é próprio e que não se deixará apressar, nem se deixará arrastar por esses fatos internos que acontecem. Pelo contrário, ele seguirá no mesmo ritmo mais ou menos vagaroso e na vida cotidiana nada se alterará”.
Naturalmente isso não tem nenhum apoio em razão, mas fica essa coisa na cabeça. A pessoa sai dessa reunião comentando “que coisa horrível”, enfim, tudo, mas a idéia de que o que domina o mundo de hoje é esse ritmo que é quase um fato deterministicamente posto em movimento, que não deixará o próprio ritmo em nenhum caso e que, portanto, o fato de se tornar mais evidente que é o reino do demônio não tornará mais próximo o reino do demônio, virá a seu tempo, mas nós temos um bom tempinho para tocar a vida, isto é o feitiço do demônio que permanece no nosso subconsciente.
(Sr. G. Larraín: É uma infestação grossa.)
É, é infestação do demônio.
Não sei se eu me terei expresso…
(Sr. Guerreiro: Isto, no fundo, é um veio da sociedade que vai-se entregando a isto, mas é um veio apenas, não é?)
É.
(Sr. Guerreiro: A maioria da sociedade vai rejeitar uma coisa tão abstrusa quanto isso, tão hedionda.)
Nem é propriamente vai rejeitar; irá rejeitando. Concede-se que no fim a sociedade acabará não rejeitando também, mas não é para nossos dias. É para dias tão futuríveis que não se sabe quando virão. O por onde as coisas de fato correrão, corre na direção da reunião de hoje, mas não com a velocidade que estava dado a entender na reunião.
(Dr. Edwaldo: O próprio fracasso deles serve de argumento nessa linha.)
Serve de argumento nessa linha. Foi o que eu pensei, eu pensei com os meus botões.
Olhe que eu mesmo sugeri que se cantasse o Magnificat porque tinha boas razões para isso, mas, no fundo, eu não sei se para nós não teria sido mais interessante, vamos dizer, que um daqueles demônios aparecesse ali.
(Sr. G. Larraín: Quando o senhor cantou o Magnificat eu pensei a mesma coisa: “Agora vai ficar uma espécie de happy end e não vai acontecer nada”. O senhor deu a volta, mandou o Santíssimo, deu uma maldição, o negócio se resolveu e ficamos na mesma. Eu sei que é mau, não é verdade, mas é o que passava pela cabeça.)
Depois se impõe ao espírito, meu filho, como se eu fosse o fruto de uma experiência imediata e sensível da realidade contemporânea e contra a qual, portanto, o governo não vale. É como seu eu quisesse persuadir a vocês de que não estão sentados, mas estão de pé. Eu poderia inventar argumentos não sei de que ordem para isso, mas vocês pensariam baixinho: “É verdade, mas de fato eu estou sentado”.
(Sr. Poli: De outro lado, eu pergunto, se o demônio aparecesse ali, para quem está nesse estado de espírito de repente acabaria ficando amigo dele, não é?)
* Vítimas culposas desse estado de espírito, se o demônio se apresenta com a máscara adequada, os próprios membros do grupo o aceitam
Eu creio o seguinte: se ele se apresentasse sem máscara, não; mas se ele usasse a máscara adequada, sim.
Você sabe por onde é que a coisa ia? Era a pena.
Coitado, ele sofre, é de fato uma coisa que não tem eira nem beira nem medida. Afinal de contas eu não vou culpar a Deus, eu sei que Deus tem sempre razão, depois Deus também é bom e, portanto, eu gosto de Deus também ─ você está vendo esse “também” e quem é o outro “também”, não é? Mas eu vou ter em relação ao demônio no fundo uma certa eqüidade e até, no fundo, uma certa pena.
Eu sinto um certo…
(Sr. Poli: Não, está excelente.)
(…)
… eu previno porque a coisa vem por aí.
Eu vou contar daqui a pouco um fato que é característico.
* Analisando o processo: a consonância com os gemidos do demônio, fruto da compaixão de si mesmo
Se o demônio quisesse fisgar a um de vocês ─ a um de vocês e à multidão incontável das pessoas, sobretudo na “Holanda” ─ não faria nada nisso. Estando um de vocês sozinhos nesses intervalos da vida que são quando o indivíduo prepara a roupa que vai vestir no dia seguinte, então tira do armário, põe num cabide especial, depois tira as abotoaduras, tira essa coisa aqui de dentro do colarinho, e faz essas coisas assim, de repente do quarto ao lado faz se sentir um “ai”, mas um “ai” profundo, posto numa dor extrema, física, numa détresse, numa espécie de desespero que o sujeito não sabe como sair de dentro: “Aaaaiiii! Aaaaiiii!” e acabou.
O sujeito diz: “É curioso, eu ouvi um AEai AF por aí. É um AEai AF até simpático, é uma pessoa boa que está sofrendo de um modo… Eu sinto muita harmonia com este sofrimento, é parecido com os sofrimentos que eu tenho, parece quase o meu AEai AF a respeito de minha própria dor. Mas eu não vejo de onde é”. Vai para o quarto do vizinho, não tem nada e diz: “Eu não sei o que é que é isso aí. Mas também me deixa eu pensar outra coisa”.
No dia seguinte, quando o sujeito está repetindo a mesma coisa, está trocando as abotoaduras: “Aaaaiiii! Aaaaiiii!”. No terceiro dia parece ouvir palavras pastosamente articuladas dentro do gemido: “Só, isolado, aaaiii! aaaiii!”. Num outro dia o demônio diz para o sujeito: “Eu tenho pena de você. Não sou só eu que sofro, eu entendo bem tudo quanto você sofre. Ai!”.
Eu pergunto: não está engajado num processo que pode levar ao Inferno?
Se eu soubesse que um de vocês está sujeito a um processo assim ficaria apavorado.
A impressão que eu tenho do efeito do que estou dizendo aqui na sala, o efeito na sala, é um efeito assim: “É verdade demais para ser verdade, isso é demais. É assim, mas as coisas não se explicitam até lá, não vão até lá. Há qualquer coisa em que a explicitação está passando. É muito verdadeira, mas está passando da conta. O convívio comum não se faz com explicitações dessas, e eu estou sendo uma porta que está sendo arrombada. Ai!”.
Eu tenho medo de uma coisa assim.
(…)
Esse acesso à dor, essa abertura para a dor, é uma abertura para a dor e para a compaixão no fundo de si próprio. O demônio dá idéia que a tal voz que está gemendo é uma pessoa que não somos nós, mas quando a gente vai ver como o gemido se passa, é um indivíduo que tem uma repercussão como se fosse nós.
* A tática utilizada pelo demônio para adaptar o homem a toda espécie de horror que o tornem mais apegado ao sofrimento que à alegria e ao prazer
Nós éramos sensíveis a isso no tempo da Bagarre azul? Eu creio que não.
(Sr. G. Larraín: No tempo da Bagarre azul não éramos sensíveis a esse gemido?)
Gemidos. Éramos sensíveis a outras consonâncias.
(Sr. G. Larraín: O gemido mandávamos plantar batatas.)
Vá plantar batata. Eu estou contente e você vem com gemido? Sai de casa e vá gemer na rua.
O que ele, aliás, sabe perfeitamente. Mas ele modela isto porque houve algo que se modificou no nosso estado de espírito.
(Sr. G. Larraín: Para mal.)
Para mal.
Qual foi a modificação que ocorreu?
A modificação que ocorreu foi a seguinte: como ele preparava e prepara o reino dele, ele tem que preparar a adaptabilidade do homem para toda a espécie de horror e para toda a sorte de sentimentos que vá tornando um indivíduo menos apegado ao prazer e à alegria do que o sofrimento. Isso é uma transformação que se foi dando nos que estão aqui creio que sem se darem conta do caso.
A coisa caminha do seguinte modo: é que um indivíduo no tempo da Bagarre azul era alheio a sentimentos de compaixão, ou se os tinha, tinha raramente, em relação a pessoas muito privilegiadas, mas de um modo geral era alheio ao sentimento de compaixão, como também procurava escapar de dentro dos seus próprios sofrimentos pela alegria, pelo prazer, e não pela contemplação langorosa de sua própria dor. Em certo momento isso mudou e começou a aparecer um amortecimento da alegria, um amortecimento do prazer, um amortecimento da diversão, e a substituição disto por outro gênero de coisas.
* O caminho percorrido: do prazer-alegria ao prazer-relax, e daí às situações contraditórias e apreensivas fazendo desaparecer o afeto e os ciúmes e dando ocasiões à exalação da dor
Você vê [que] o exemplo característico disso é o seguinte:
Tomando em consideração os anos em que vocês todos tiveram os primeiros anos de convívio conosco, vocês nesses primeiros anos notavam que em São Paulo sábado e domingo era um dia de prazer na cidade.
Por exemplo, a péssima Av. São João se iluminava toda, havia uma porção de restaurantezinhos e de bares dentro dos quais se tocava música, cantava, fassurada, havia mulheres pretensamente bem vestidas que batiam a pé pela rua de um lado para outro com fassures, mas todos contentes. O interior vinha em massa para São Paulo para se divertir. Os sábados e domingos era um dia de afluxo para São Paulo, e segunda-feira era o dia de reversão para o interior ─ a sístole e a diástole se faziam nessa direção. Então você via ali o gosto do prazer, o gosto da alegria.
Agora você vai ver como é que isto foi mudando.
Em determinado momento houve campo para que esse prazer-alegria fosse substituído pelo prazer-relax.
O prazer-relax foi levado por uma espécie de gostosa entrega de pontos e sentir a evaporação dos próprios cansaços, a evaporação dos próprios aborrecimentos numa chácara do interior com uma piscina ou duas, com um aeroportozinho para descer o próprio avião ou o próprio helicóptero, com uma gaiola com bichos bonitos, araras e outras coisas do gênero, uns três ou quatro cavalos para poder passear pela redondeza e ir visitar amigos, e um jardinzinho muito bem cortado, muito bem arranjado, com essas cadeiras espreguiçadoras que são quase camas de madeira baixinhas, o indivíduo pode o tempo inteiro estar brincando com grama, brincando com o que encontra no chão, e largado completamente. Uma grande exalação de sofrimento e de dor sai do corpo humano e é substituído pelo estado de tranqüilidade sem euforia, de prazer simples que não faz vibração nenhuma e dentro do qual o indivíduo tem apenas o gosto de sentir-se a si próprio.
Daí vai para uma situação em que as coisas fora vão piorando cada vez mais, a situação da indústria desse homem também piorou, ele vende menos, ele tem menos dinheiro na circulação de seu negócio, de outro lado também acontece que ele abriu uma outra pequena indústria e essa promete torná-lo eventualmente rico, e com isso uma situação toda contraditória e de apreensões. Nas apreensões uma coisa que desaparece: o afeto e os ciúmes. Desaparecem completamente, fica apenas uma coisa assim, e em determinado momento essa coisa assim dá origem a uma exalação de dor.
(Dr. Edwaldo: Determinado momento o senhor disse?…)
Dá ocasião a uma exalação de dor.
(Sr. G. Larraín: A apreensão é o caminho próprio para a dor.)
É fora de dúvida. Ainda mais se o sujeito tem negócios que vão bem, mas começa o susto dos sustos.
* Situações que criaram condições propícias ao gemido
É uma coisa curiosa, eu dizendo aqui, vocês vão ter uma primeira tendência a negar, mas eu vi bem e isto é assim.
Do meio para o fim da Bagarre azul o câncer que era uma doença raríssima ─ existia, mas era uma doença raríssima ─ começou a ficar mais numeroso, e sobretudo com o perigo das metástases mais conhecido e mais analisado. Os médicos exigindo exames cada vez mais rigorosos, cada um dos quais é a mesma coisa que um gatuno ou um assassino que vai passar por julgamento para saber se será morto ou não. Assim também o cliente espera saber se tem câncer ou não como um assassino espera a sentença, porque é assim. E o câncer se tornando mais numeroso vai criando depois doenças esquisitas que aparecem, barbeiragens de médicos.
(Sr. G. Larraín: Qualquer coisa está acontecendo a toda a hora.)
A qualquer hora acontece qualquer coisa.
Isso tudo é uma situação que vai criando condições propícias ao gemido.
(Sr. Poli: O gemido sintonizado com o demônio.)
É o demônio que geme. Ele sabe qual é o gemido que nos deixa sensibilizados: “Oh! mas como eu estou bem interpretado”. Ele dá esse gemido para depois ir empurrando nosso sofrimento naquela direção.
(Sr. G. Larraín: Perdão, só para ter claro. A pessoa pode ficar aflita, por exemplo, por uma situação dessas, nesse sentido que o senhor está mostrando. Apreensivo, suponhamos, por causa de negócios ou saúde fica apreensivo.)
Bios e Mamon no fundo.
(Sr. G. Larraín: Claro. Agora, há uma coisa externa que solta o gemido que é consonante com esse estado de espírito de alguém ou não?)
Não, é o demônio que solta o gemido.
(Sr. G. Larraín: Internamente na pessoa?)
Pode ser internamente e pode ser externamente.
(Sr. P. Roberto: Ele criou toda essa situação para a pessoa ficar sensível ao gemido?)
Bem pode ser que sim. Porque para o demônio é facílimo criar tudo isso.
(Sr. G. Larraín: Por exemplo, mais concretamente uma pessoa com a situação mexicana, vamos dizer assim, problema econômico. A pessoa que vive disso começa a ficar aflita, atrapalhada. Aí o que é que seria o gemido, seria a situação criada no México, suponhamos, ou dentro?)
Ele, ele: “Como eu sofro”.
* Para exorcizar este estado de espírito é preciso ver as coisas de frente, objetivamente, e ter cuidado com os gemidos internos, pois na pena de si mesmo é que está o gemido do demônio
(Sr. P. Henrique: O senhor acabou de dar uma teoria a respeito disso. Isso evidentemente tem aplicação direta aqui sobretudo para nós do Grupo, não é?)
Sim.
(Sr. P. Henrique: O senhor começou a dizer inclusive para isso, mas é a aplicação universal desse princípio. Agora, como exorcizar? É uma pergunta assim clássica, mas…)
É sabendo que isto é assim, que isto é uma patacoada e cuidado com os gemidos internos.
(Sr. G. Larraín: E quando se apresente a situação aflitiva concretamente? […] Como se diferencia um estado assim de preocupação razoável por questões que se vão pondo no caminho da pessoa, ou responsabilidades que o senhor dê, por exemplo, que podem ser em determinado momento grandes e situações difíceis, a aflição ruim, o gemido do demônio?)
Era preciso distinguir duas coisas.
Uma coisa é a situação como eu acabei de descrevê-la e como você acabou de descrevê-la. Essa situação pode me pôr num estado de aflição, se quiser até num estado de tristeza, na consideração das dificuldades que me cercam.
Isto é uma coisa. Outra coisa é quando eu me volto para mim mesmo, vejo quanto eu estou sofrendo e a esse respeito começo a ter pena de mim. Na pena de mim é que está o gemido do demônio.
Porque se for, por exemplo, tomar a coisa, vem por cima de mim tal coisa, eu revido e vamos lutar, suporta-se. Mas uma pessoa ficar com pena: “Pobre Plinio, veja só”, é o começo da decadência.
Parece que você, meu Guerreiro, ia dizendo alguma coisa, não é?
(Sr. Guerreiro: Não, senhor, estou acompanhando muito bem, não ia dizer nada.)
(Sr. P. Henrique: É uma coisa incrível, porque é uma teoria que o senhor dá importantíssima que envolve o problema de almas e de R-CR, mas a gente vê que há uma certa macaqueação por parte dos filhos das trevas. Por coisas técnicas que eu andei estudando, há uma série de princípios que eles dão para administrar empresas e para ganhar dinheiro. A primeira delas seria não criticar, não condenar e não queixar-se.)
Isso.
(Sr. P. Henrique: Esse queixar-se é ter pena de si.)
É isso.
(Sr. P. Henrique: É o pressuposto para eles: “Se quiser ganhar dinheiro você tem que enfrentar o negócio”. Nunca vai ter pena de si, olhar para os outros. Acabou vindo isso na minha cabeça porque é uma coisa que eles põem assim. Inclusive não apresenta a coisa como do demônio, até faz o jogo do demônio nesse caso, mas o senhor tratando me veio essa associação de idéias. Eu vejo que também a hora está adiantada.)
Mas diga, meu filho.
(Sr. P. Henrique: Então como sair dessa situação?)
Pois é, exatamente é nunca deter-me com compaixão na minha própria dor, nunca permitir que olhando para a minha ferida eu diga: “Pobre Plinio”. Não tem pobre Plinio, tem Plinio filho da Igreja militante posto para lutar, que luto e que sou soldado dentro da guerra.
No momento em que o soldado durante a batalha diz: “Pobre de mim, o próximo tiro pode ser para mim”, ele como soldado está liquidado.
Meus filhos, que horas são, hein? Eu estou quase me esboroando de sono.
(Sr. G. Larraín: É incrível como está extraordinário.)
* Dois frutos da reunião de hoje: a idéia de que o mundo atual não produz senão pus e o combate aos gemidos internos
Mas eu acho que este para nós aqui desse grupo é o melhor fruto da reunião de hoje. São duas coisas: isto, depois a idéia de que o mundo de hoje não produz senão esse pus, e, portanto, toda forma de esperança que esse mundo de hoje vá… acabe sendo que no ritmo do mundo de hoje ─ ritmo que o mundo de hoje não largará ─ acabará sendo que essas coisas é como se nunca se realizassem. Portanto, vamos continuar a viver.
(Sr. G. Larraín: E nessa pena de si há uma falta de varonilidade muito grande.)
É uma vergonha. Simplesmente uma vergonha.
Bem, meus filhos, vamos rezar?
Há momentos…
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