Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 3/12/94 – Sábado – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 3/12/94 — Sábado

Apesar de todo o tônus aristocrático, os antepassados do SDP não era propriamente contra-revolucionários pois, definindo um tipo humano, não exigiam que os outros lhes fossem afins * Ao contrário do que que acontecia com seus antepassados, a vocação coloca o Fundador numa atitude de velada increpação daquilo que as pessoas têm de errado * A personalidade de Da. Gabriela tinha uma espécie de perfume de “Ancien Régime”, com toda a espécie de superioridades postas em sorriso, despretensão e não comparativas * Sem querer bancar a francesa, Da. Gabriela tinha uma afrancesamento nativo que ajudou muito ao Fundador interpretar a França * O papel de Da. Gabriela na sociedade: todos os preconceitos que a Revolução espalha contra a nobreza se desfazem como espuma no contato com uma pessoa como ela era * Analisando Da. Gabriela, o Fundador lucrou na compreensão da majestade do Sagrado Coração de Jesus

(Sr. Guerreiro: Nós estávamos comentando a última reunião que tivemos com o senhor aqui. Nesta reunião em certo momento se entrou numa temática que está ligada com aquilo que o Beato Palau comenta, de que os aspectos pessoais desse Moisés da Graça são de enorme importância para toda a Humanidade.

Houve um momento da reunião de sábado passado em que se levantava uma questão que era as graças que estão aqui no primeiro andar, que são graças que Nossa Senhora teve uma misericórdia muito grande e o senhor nos teve a misericórdia de nos proporcionar. Há uma presença, há umas luzes, há umas graças aqui neste primeiro andar que nos falam muito da família e no fundo da estirpe do senhor, na qual então em certo momento a Providência se aproxima e dá a esta família o dom do profetismo.

* Analisando Da. Gabriela, o Fundador compreendeu muita coisa da nobreza

Não vou relatar toda a conversa, mas aí o senhor ao comentar isto, ou que nós havíamos pedido que o senhor comentasse, o senhor foi e disse que se não tivesse Da. Gabriela como avó e não a tivesse conhecido, o senhor não teria entendido a França e não teria sido capaz de escrever o livro da nobreza.)

Isso é verdade.

(Sr. Guerreiro: Então nós estávamos exatamente neste episódio da vida do senhor, estávamos meditando um pouco nesse episódio. E gostaríamos de pedir ao senhor se o senhor não poderia explicitar muito mais isto.

O senhor também na semana passada fez uma alusão a um avô do senhor, do qual o senhor mesmo já disse que ele tem uma série de senões, parece que tinha esta condição, mas no qual o senhor falou que haviam graças e bênçãos. Pelo modo como o senhor falava, essas graças e bênçãos tinham relação com essas graças e bênçãos ligadas à situação própria da família do senhor.

O senhor então não podia explicar como é que o senhor vê essas bênçãos e essas graças? Como é que é esse gênero de bênçãos e de graças, isso é um ponto. Mas se o senhor pudesse começar com a questão: se o senhor não tivesse tido Da. Gabriela como avó, o senhor não teria entendido a França e sobretudo o senhor não teria escrito o livro da nobreza.)

Não teria escrito porque não teria entendido algumas coisas da nobreza.

(Sr. G. Larraín: Nós estávamos conversando a questão do Beato Palau e tudo o que o senhor falou no MNF também sobre o Profeta Elias vir a increpar ao Grupo, etc. A gente se pergunta se uma das grandes falhas, entre muitas outras que a TFP tem, não está em não ter enfocado esse ângulo do senhor, não ter visto. […] O pedido era também nesse contexto, esse pedido do Sr. Guerreiro.)

Eu acho que o que você disse está muito bem apanhado.

Quer dizer, esse traço deles que eu descreverei daqui a pouco é um traço que fazia com que eles fossem em geral benquistos.

(Sr. G. Larraín: Eles quem são?)

Esses meus antepassados.

* Apesar de todo o tônus aristocrático, os antepassados do SDP não era propriamente contra-revolucionários pois, definindo um tipo humano, não exigiam que os outros lhes fossem afins

Individualmente em geral eram benquistos e não levantavam contra si essa poeira da Revolução. Eles até se faziam bem-querer muito, em geral tinham muitos admiradores e admiradores que os queriam bem.

Que idéia eles tinham desses traços que eles tinham assim?

O meu bisavô eu não conheci, eu só conheço dele gravuras. Eu posso, aliás, mostrar logo mais uma gravura a meu ver muito ilustrativa.

A minha avó certamente percebia que ela tinha muito superioridade. Ela tinha ligado a isso momentos de lampejo, de muita bondade, de bondade aristocrática que não tinha nada de vulgar nem nada de compactuando com a Revolução em nada, mas que não era propriamente contra-revolucionária. E pelo seguinte: o modo de ser deles definia muito um tipo, mas eles não exigiam nullo modo que os outros fossem semelhantes e afins com eles. Eles eram como eram, pouco se incomodavam que os outros fossem diferentes, e por causa disso os outros não se sentiam cobrados.

Então eles faziam na vida dos outros o papel que um bibelô pode fazer na nossa vida. Vamos dizer, por exemplo, esses negrinhos que estão aqui, esses bibelôs, eu os acho muito engraçadinhos, mas eles de mim não cobram nada. São bibelôs inertes, eu os acho muito engraçadinhos e está acabado.

Assim também eles eram um pouco bibelôs para outra gente, um bibelô que cerrava de cima, mas que não tinha essa preocupação de estar de cima dos outros. Eles eram eles, eram daquele jeito e gozavam de uma espécie de auto-satisfação, para o que eles se bastavam a si próprios e podiam tratar com os outros sem interferir na vida dos outros em nada. Nem eles desejavam, eles não tinham nenhum sentido apostólico, mas nenhum. Eles eram como são, os outros sendo diferentes ou até o contrário do que eles eram, pouco se lhes dava. Eles quereriam era ser bem tratados sendo como eram; se fossem bem tratados o resto não tinha importância.

* Ao contrário do que que acontecia com seus antepassados, a vocação coloca o Fundador numa atitude de velada increpação daquilo que as pessoas têm de errado

Ora, minha vocação exige exatamente o contrário e me coloca numa atitude de velada increpação — velada, hein! — do que eles têm de errado.

Você compreende que, portanto, a posição deles embora tendo uma certa continuidade com a minha, era uma posição muito cômoda. Isso tudo servia de adorno para eles e para serem benquistos.

Vocês imaginem, por exemplo, o seguinte: um baile no tempo da minha avó no tem em que ela era moça. Ela era uma verdadeira beleza. Ela entrava no baile, entrava amável e não entrava no espírito dela comparar-se com as outras pessoas. A gente percebia a alegria que ela tinha de ser ela, mas comparar-se com as outras pessoas não entrava no espírito dela. Contanto que ela vivesse na contemplação autocêntrica de si mesma, o resto não importava nada.

Resultado: ela entrava, ela adornava o baile, ela adornava a festa em relação a todo o mundo que estava lá. Então ela fazia o papel de uma flor que está num jarro: “Flor, bem-vinda seja, venha para o jarro”.

Isso todos eles sistematicamente eram assim. Eles tinham essa nota e por isso eram muito benquistos, mas um benquisto neutro. Não eram nem um pouco malquistos e a minha vocação pede o contrário.

* Exemplificando com a presença de Da. Gabriela no baile em casa do Conde Álvares Penteado

Um exemplo característico que mamãe contava naturalmente com muito comprazimento.

Esse Conde Álvares Penteado, pai do fundador da FAAP, que tinha uma casa aqui na esquina da rua… Sabe a casa da Da. Verediana onde é o clube São Paulo hoje?

(Sr. Poli: Higienópolis com Itambé.)

Higienópolis com Itambé era a casa do Álvares Penteado e Higienópolis com Verediana era a casa de uma das filhas do Álvares Penteado casada com o Antônio Prado Júnior. Eram duas casas, portanto, mãe e filha vis-à-vis.

O Conde Álvares Penteado parece que foi para a inauguração da casa dele e deu um baile que para a São Paulinho daquele tempo foi um super-baile. Mamãe dizia que o que São Paulo tinha de melhor estava inteiro lá, eles convidaram muito seletivamente um grande número de pessoas.

Tinham algumas pessoas como, por exemplo, eu já tenho falado, a Da. Narcisa de Souza Queiroz, íntima amiga de vovó, mas que era tão bonita ou mais do que vovó. Estavam todas lá.

A coisa era assim, se eu não me engano, eu não garanto os pormenores, mas parece que era assim:

O baile começava e eles dançavam um tanto tempo, não sei bem quanto. Em certo momento interrompiam o baile porque o maÔtre do hotel de casaca vinha diante da dona da casa avisar que a ceia estava servida. Então a dona da casa se levantava, o dono da casa também, e o dono da casa ia convidar uma senhora para formarem um longo cortejo: senhor-senhora, senhor-senhora. Aí um convidado que se julgava assim mais ilustre ia convidar a dona da casa, então vinha o dono e uma convidada, depois vinha a dona e um convidado, depois iam formando, segundo as relações, o cortejo.

Constituído o cortejo, o dono da casa entrava na sala de jantar, todas as pessoas se sentavam de acordo com o par, se distribuíam por mesinhas também e a ceia começava. Com a orquestra naturalmente tocando o tempo inteiro. Suponho que devia ter umas duas orquestras ou três, porque eles gastavam de mão cheia.

Mas havia uma espécie de suspense não comentado, ninguém comentava: quem seria a senhora convidada pelo dono da casa? Porque esta era a verdadeira rainha da festa. A rainha da festa não era a dona da casa, era a senhora que ele convidasse.

Havia muitas senhoras mais ricas do que vovó. Vovó tinha jóias regulares, mas não eram nada jóias extraordinárias. Todo o mundo fingia estar conversando, já todo o mundo em pé e fingia não estar prestando atenção no que se passava, mas discretamente os olhares todos se voltavam para o Conde Penteado para saber quem ele ia escolher.

Ele com toda a naturalidade curvou-se diante de vovó e ofereceu o braço. Vovó também com uma naturalidade completa pôs o braço dentro do dele, disse uma amabilidade qualquer para ele, ele respondeu e começaram a sentar-se. Mas aquilo discretamente foi um burburinho geral.

* Da. Gabriela tinha perfeito conhecimento de sua beleza física e da beleza de seus gestos, mas jamais lhe passava pela cabeça de fazer uma comparação

Está bom, estado de espírito de vovó?

Ela sabia que era linda, isso ela tinha uma consciência completa. Ela sabia não só que era bonita, mas é uma coisa que ela tinha e eu não vi muitas senhoras terem: ela tinha gestos lindos. Ela tinha mãos lindas e as gesticulações eram espontaneamente belíssimas. Mas é uma coisa que estava na massa do sangue.

Ela tinha, por exemplo, um primo — portanto, era meu primo também — cego de nascença. Os gestos que ele fazia, de homem racé, eram extraordinários.

Como é que isto varou as trevas da cegueira dele e como é que ele tomou?

Vamos dizer, uma pessoa dirigir a palavra a ele. A maior parte dos cegos são assim: ele te dirige a palavra e você olha para ele; ele desde que esteja ouvindo bem não olha para você nem ele sabe para onde é que tem que olhar. Esse danado desse cego falavam com ele e ele fixava os olhos vítreos no interlocutor, respondia com uma naturalidade espantosa e um ar de superioridade.

Não sei como era, como é que ele fazia. Ninguém se atrevia a perguntar a ele uma coisa dessas, mas era como ele era.

No estado de espírito dela ela não ia tomar a seguinte atitude: “Da. Narcisa o que é que estará pensando? Ela fez um vestido muito mais rico do que o meu, ela tem outras jóias que eu não tenho, ela é filha de um dos três Andradas e eu não sou, e o Conde Penteado achou mais interessante convidar-me a mim. A próxima vez que eu estiver com ela eu vou dar uma alfinetada nela”. Isso absolutamente não, ela tomava a mesma naturalidade do que se o marido dela tivesse oferecido o braço para entrar, absolutamente.

(Sr. G. Larraín: Faz parte da categoria isso.)

É, exatamente.

Depois, a conversa ela dirigia com amenidade, mas inteligente, sorrindo, etc. Ela prestava atenção sem desconfiança, mas alguma coisa que saísse que fosse uma alusão pouco favorável a algum parente, por exemplo, ela pum! sabia dar a resposta na hora. Mas com naturalidade também. Saía um gesto muito amável, pum! dardejar uma coisa.

Ela não ficava sem fôlego depois e assim ah-ah, não. Um jeito assim amável que dominava pelo encanto.

No meio de tudo isto e com essa naturalidade toda havia uma consciência de quem ela era, do que ela era, que punha filhos, netos, todo o mundo em atitude de continência.

* A personalidade de Da. Gabriela tinha uma espécie de perfume de “Ancien Régime”, com toda a espécie de superioridades postas em sorriso, despretensão e não comparativas

Como é que ela fazia isto? Eu também não sei, mas era com uma naturalidade extraordinária que ela fazia isso.

Isto era o jeito que ela tinha, que representava uma forma que eu creio que era uma espécie de perfume de pré-Revolução Francesa, de Ancien Régime que ainda tinha sobrevivido nela e que dava esse estilo próprio da cultura francesa de toda a espécie de superioridades postas em sorriso, despretensão e não comparativas.

(Sr. Guerreiro: Isso é uma virtude.)

É, eu acho que é virtude.

(Sr. Guerreiro: Isso tudo é a aliança da beleza com a virtude de um modo insigne.)

E depois, meu filho, tinha a vantagem que sem ter nenhum intuito apostólico…

(Sr. P. Henrique: Exatamente, porque aí havia o apostolado de presença. Esse apostolado fluía ainda que ela não…)

Não tivesse intenção ela apostolizava. Era uma coisa extraordinária.

Era um dom dela e que naturalmente o pai dela tinha em tom homem. Eu tenho que explicar um pouquinho como é o tom homem e um homem do tempo.

(Sr. Poli: O pai de Da. Gabriela.)

É, o pai de vovó.

* Um exemplo de como Da. Gabriela tomava com naturalidade os elogios que recebia: o exame de francês de seu filho mais velho na Faculdade de Direito

O filho mais velho de vovó já tinha isto em grau menor, mas ainda tinha, depois extinguiu-se. Era, a meu ver, caracteristicamente um gênero de Ancien Régime, mas um gênero Ancien Régime em gênero francês. De maneira que ela falava francês muito bem e foi professora de francês do filho dela para exame de vestibulares da Faculdade de Direito. Porque em Pirassununga você pode imaginar que não tinha professor de francês nem nada que se lhe parecia e ela tinha que ensinar francês. Mas ela tomava a coisa a mais natural do mundo.

Quando o meu tio, o filho dela, fez exame de vestibular, ele fez o exame de francês entre outras matérias do vestibular. Tudo naquele tempo pedia mais da pessoa, o exame de francês era feito falando francês, o professor de francês fazia as perguntas em francês e queria a resposta em francês. O meu tio com toda a naturalidade sentou-se, o professor fez uma pergunta em francês, ele respondeu em francês e conversaram em francês.

Quando terminou, o professor disse:

Diga-me uma coisa, o senhor estudou francês com que professora?

Não, eu não tive professora de francês, a professora foi minha mãe — mas ele achava natural.

Quem é sua mãe?

Foi ver um pouco o nome, viu que conhecia a família e ele disse:

Feliz o filho que aprende francês com uma tal professora, e feliz a professora que tem como aluno um tal filho.

Eram aqueles ditos de antigamente que meu tio chegando em casa escreveu uma carta para a mãe contando para a mãe. A mãe ficou muito contente, mas ela seria incapaz de contar isso para uma amiga. Hoje em dia é melhor nem falar, porque na primeira roda de amigas que sair isso, isto saía.

(Sr. P. Roberto: Só o escrever uma carta também, não é?)

Pois é, também.

Isso tudo era uma espécie assim de um mundo em que havia ainda, como eu volto a dizer, perfumes de pré-Revolução Francesa.

Isto vocês podem imaginar se eu prestei atenção, que conseqüências eu tirava para mim, etc.

* Aspectos frios e egoísticos pelos quais o Fundador não apreciava Da. Gabriela

Eu não gostava dela, ela tinha outros aspectos muito frios, muito egoísticos, uma espécie de monomania por esse filho mais velho e de deixar os outros filhos. Os deveres dela ela cumpria todos, ou quase todos, mas deixava… ela deixava claro que o filho dela era aquele, os outros eram sobrinhos.

(Sr. G. Larraín: Da. Lucilia não vai.)

Não, não vai. Mamãe não percebia isto e isso eu nunca disse a ela, porque não era necessário para a salvação dela nem para a santificação, não vale a pena criar uma fossa. Eu às vezes até elogiava vovó.

* Sem querer bancar a francesa, Da. Gabriela tinha uma afrancesamento nativo que ajudou muito ao Fundador interpretar a França

Isto me ajudou muito a interpretar a França. Não é o saber falar francês, é o afrancesamento dela, que era um afrancesamento nativo, não havia nela a intenção de bancar a francesa.

Vocês olhem aquele quadro e quem olha aquele quadro não diz que ela é uma francesa. Ela é tipicamente brasileira e paulista, olhos pretos ou castanhos muito escuros e o todo dela era uma brasileira. Mas ninguém exclui o fato de que apesar disso ela é afrancesada.

Se algum de vocês quiser levantar para olhar…

(Sr. Guerreiro: Temos bem presente.)

(Sr. G. Larraín: É claríssimo. Até por exclusão fica óbvio, que não é espanhola é óbvio e que não é alemã é óbvio.)

Sobretudo é óbvio que não é alemã. Não é uma grande dama alemã.

(Sr. G. Larraín: Está totalmente claro que é afrancesada.)

É, a França está lá.

(Sr. Guerreiro: Eu creio que nunca entrei aqui no primeiro andar sem em certo momento olhar para ela.)

Faz muito bem.

(Sr. Guerreiro: De repente posso estar enganado, mas eu sempre gosto de olhar um pouco ela.)

Pois é, é evidente.

(Sr. Guerreiro: Não só ela, mas principalmente ela.)

(Sr. P. Henrique: Chama enormemente atenção. É impossível entrar aqui nesse salão, sobretudo no outro, e não se deter no quadro.)

É, ela chama muito atenção.

Você pega, por exemplo, aquela Duquesa de Nemours. É uma gravura linda, você vê que é uma princesa, mas de nenhum modo tem o estilão de vovó.

(Sr. Guerreiro: E a personalidade.)

É a personalidade e uma porção de coisas.

Eu volto a dizer, a gravura a meu ver é linda, ela se apresenta bem, mas não é a categoria de vovó.

(Sr. Guerreiro: O figurino dela é excepcional, só que a relação entre o ser dela e o figurino não é tão visível assim.)

É, isso.

* Um quadro que representa bem a “carcan et auréole” invisível do espírito aristocrático de Da. Gabriela

Você preste atenção, por exemplo, no seguinte: ela não está decotada, as senhoras do tempo dela usavam como continuação do tecido do vestido uma coisa que subia até aqui que tinha uns araminhos presos não sei como e que mantinham o pescoço alto. Ela está com o pescoço alto por causa disso.

É uma reminiscência daquelas armaduras, daqueles colarinhos e daquelas golas à maneira espanhola, carcan et auréole dizia o Rostand.

Você sabe o que é carcan, não é?

Carcan é uma coisa que usam os bois e vacas.

(Sr. Poli: Canga.)

Canga. Mas agora veja o Rostand como trata a coisa: canga e auréola ao mesmo tempo. Aqui está a destilação da doçura francesa.

Ela tem uma canga invisível e uma auréola invisível. Não é a auréola da santidade, é auréola da nobreza.

* O pasmo de um grande orador de São Paulo ao ver um quadro de Da. Gabriela

Eu me lembro que uma ocasião foi me visitar um padre, do qual os brasileiros devem ter ouvido falar, mas vocês que não são de São Paulo não sei se ouviram falar: Mons. Castro Neri. Era um grande orador, um homem muito inteligente.

Ele foi-me visitar numa outra casa, mas que tinha basicamente essa estrutura com um arco assim e o quadro de vovó estava ali. Não era janela, era outra coisa. Ele foi me visitar e eu o recebi numa sala que correspondia a isto e não o que correspondia lá.

Ele sentou, olhou e disse:

Que quadro é este?

Eu disse despretensiosamente:

É o quadro de minha avó.

Mas esse quadro… — e ficou estatelado.

Ele era um homem muito inteligente, era tido como dos mais inteligentes de São Paulo. Assim outros.

Esse episódio, por exemplo, na próxima conversa com as amigas, vovó era perfeitamente pessoa de esquecer de contar. Se perguntassem ela não desviava o assunto, tratava com naturalidade. Quando o assunto morresse por si, ela não faria a menor insistência para manter o assunto.

* Um exemplo da grande reputação de Da. Gabriela na sociedade paulista

A arte dela conversar era tal, que havia um senhor aqui que era um advogado. Eu acho que ele não era paulista, mas de onde ele era não sei. Eu até conhecia muito bem esse senhor e ele por exceção gostava muito de mim.

Esse homem o filho de minha avó, o mais velho, levou-o uma vez em casa de minha avó porque ele pediu. Tendo ouvido falar dos dotes de minha avó, ele queria conhecer. Como ele não era um homem de sociedade, era um pouco mais assim, meu tio ficou flattée e apesar disso levou o homem para falar com vovó. Ele ficou encantado.

Vovó sabia que o homem tinha conhecido a ela por reputação e que queria conhecê-la. Recebeu com uma naturalidade, com uma coisa. A coisa correu com isto que era afrancesado.

Por onde, por exemplo, quando eu li as primeiras revistas do “Annale” e que comecei a me meter naquele mundo francês, era um francês via Pirassununga, mas que ela trazia consigo.

Isso era o papel dela nessas coisas.

Se vocês quiserem ver o filho dela eu posso pedir para mandarem trazer uma gravura aqui.

(Sr. Poli: O senhor quer que pegue?)

Você quer pegar no corredor?

(Sr. Horácio: O pai dela.)

É o pai dela.

(Sr. Guerreiro: Eu tenho uma pergunta.)

Qual é a pergunta?

(Sr. Guerreiro: Tudo Deus criou com um sentido de ilustrar a Ele mesmo, a Ele próprio.)

A própria glória.

(Sr. Guerreiro: Dentro da vida social de uma nação a gente vê que está nos planos d’Ele a destilação de uma elite. Conhecendo ela por gravura, por um quadro, uma pintura, depois esses aspectos que o senhor está narrando da vida dela, a gente vê que ela constitui uma grande figura na vida de São Paulo.)

Sim.

(Sr. Guerreiro: Quando desaparecem pessoas assim a gente fica com a impressão de que a civilização desaparece.)

É.

(Sr. Guerreiro: Então o que é que ela no fundo simbolizava da excelência de Deus com todas essas qualidades que ela tinha? […])

* O papel de Da. Gabriela na sociedade: todos os preconceitos que a Revolução espalha contra a nobreza se desfazem como espuma no contato com uma pessoa como ela era

Todos os preconceitos que a Revolução espalha contra a nobreza se desfazem como espuma no contato com uma pessoa assim. Porque o que a Revolução diz da nobreza é que é prepotente, que é orgulhosa, que gosta de meter o calcanhar na cabeça dos outros, que é nula, que é gente que não tem valor, que não tem inteligência, que não tem força de vontade, que são umas bonequinhas. Isso da nobreza no seu aspecto feminino.

Ela representava ainda a nobreza com a grandeza que a Revolução caricaturizou, mas que ela apresentava a grandeza rodeada de uma série de qualidades que a Revolução não quis ver. Porque a Revolução não quis ver isto nas senhoras daquele tempo, mas elas tinham em grau inimaginável. É este lado por onde toda a forma de superioridade é uma forma de efetiva autoridade, deliciosamente misturada com mansidão. É fora de dúvida.

(Sr. Guerreiro: Depois uma espécie de luz, uma luminosidade que a gente tem a impressão que acompanhava a pessoa dela, tinha qualquer coisa um pouco de aurora. […] Ela tinha um certo raio de influência de todos esses aspectos, dessa luminosidade, dessa excelência, desse brilho, e todas as pessoas ficavam um pouco tocadas por isso.)

Isso é a matéria-prima de que se faz o aristocratismo.

(Sr. P. Roberto: Ela era a única aqui em São Paulo dessa época em que ela vivia, ou havia algum traço de união com a sociedade ainda existente?)

* Havia um forte traça de união entre o que Da. Gabriela representava e outras senhoras de seu tempo, mas ela era muito mais afrancesada

Havia um forte traço de união.

Eu conheci várias senhoras idosas muito bonitas, algumas não tão bonitas como ela, mas de uma beleza notável. A tal Da. Narcisa de Souza Queiroz era talvez mais bonita do que ela. Era muito bonita e talvez mais bonita do que ela.

Eu as vi inúmeras vezes juntas. Às vezes entrava na conversa delas, mas eu ficava fazendo internamente comparação, confronto, e hesitava, não sabia dizer. Porque a Da. Narcisa, para você olhar, era mais bonita do que minha avó, ela era muito notavelmente bonita, mas o charme de minha avó e essas suavidades… Da. Narcisa não era nada afrancesada e vovó era muito afrancesada.

De onde vovó tirou esse francesismo? Eu não sei. Tirou de onde o primo cego dela tirou.

(Sr. P. Roberto: Ela tirou do Padre Eterno.)

É uma coisa dessas. Eu mesmo não sei.

(Sr. Poli: Se ela não tivesse tido isto o senhor não seria a mesma coisa que é.)

* Analisando Da. Gabriela, o Fundador lucrou na compreensão da majestade do Sagrado Coração de Jesus

No que é que eu me avantajei?

Eu compreendi muito bem tudo quanto eu de mamãe recebi face à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, já falei, etc. Mas me estava na alma que o Sagrado Coração de Jesus tinha ao mesmo tempo alguma coisa da categoria de minha avó. Naturalmente em proporções infinitissimamente maiores, isso é uma coisa evidente. Ninguém podia ter comparação, nem longínqua, com Ele, de tal maneira Ele era. Mas havia alguma coisa que se define na ladainha do Coração de Jesus: “Coração de Jesus de majestade infinita, tende compaixão de nós”.

Realmente as boas imagens do Coração de Jesus fazem brilhar de uma luz misturada a grandeza soberana d’Ele e a bondade inexaurível e formam um todo.

(Sr. G. Larraín: Aí se entende muita coisa. Sobretudo o ponto que o Sr. Guerreiro perguntou, que é a capacidade de ferir à Revolução, vem muito daí. Evidentemente que é graça, não tem dúvida, mas aí esse ponto é que é o ponto que o senhor pode falar um pouco e que é nuclear.)

Absolutamente nuclear.

(Sr. G. Larraín: O resto não se entende.)

Não se entende, você tem razão.

(…)

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