Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 26/11/94 – Sábado – p. 18 de 18

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 26/11/94 — Sábado

Um endurecimento que é fruto de uma idéia errada a respeito do que é dedicar-se, querer e ser de alguém * A falta de convicções doutrinárias no engajamento das amizades gera uma desconfiança quando se encontra com o Fundador * Uma explicação para o sabuguismo em face do Fundador: há pessoas que não querem saber de esforço e só progridem na vida espiritual quando são impulsionadas pela graça sensível * A fidelidade atual do Fundador é a soma das fidelidades que ele teve desde sua tenra infância * Apesar do estado precário de nossas almas, se tivermos Fé no Fundador, haverá um momento em que seremos inundados de graças e o “Grand-Retour” nos transformará * A experiência mística que sustentou o Fundador durante muitos anos, no que se refere a reconstituir um padrão de casa em que a SDL pudesse viver e morrer na atmosfera dela * Ainda que a Providência tivesse pedido ao Fundador o sacrifício supremo de ter que mudar-se para o interior, ele aceitaria essa provação na paz de sua alma

Então, o que é que temos para hoje?

(Sr. G. Larraín: Estávamos comentando em cima que estávamos querendo ver se o senhor poderia continuar tratando da última CSN. […])

* Qual seria a reação geral no Grupo se as revelações do Beato Palau se referissem não ao Fundador, mas a qualquer outro dentro do Grupo?

Eu imagino, por exemplo, o seguinte: que as revelações do Pe. Palau em vez de falarem de mim — não falam de mim, mas, enfim, você entende o que eu estou dizendo — falassem de outro dentro do Grupo. Como daria um entusiasmo a esse outro!

(Sr. Poli: Quanto pior, mais entusiasmo.)

Quanto pior, mais entusiasmo. Então daria um entusiasmo comovido, empressé: “mas é claro, imagine, eu já devia ter percebido, é isso mesmo” e viva, toda a forma de submissão, tudo, tudo o que se possa querer se apresentaria. Agora, basta que fale a meu respeito que isso não produziu.

Eu analisei cuidadosamente as reações a esse respeito, eu graças a Deus não notei ninguém que deixasse transparecer dúvida sobre o fato de que as revelações do Pe. Palau se referem a mim.

(Dr. Edwaldo: Já seria pecado contra o Espírito Santo.)

É, a gente vê que as pessoas, mesmo as mais rebarbativas a esse respeito, concedem sem dúvida nenhuma que aquilo me concerne. Mas isto deveria trazer uma modificação de atitude afetiva, de sensação de proximidade, de confiança, de uma porção de coisas dessas.

Eu notei com cuidado; esta modificação de atitude eu não notei em absolutamente ninguém, mas absolutamente.

Quer dizer, o efeito que essas revelações tiveram foi de cimentar, de abrandar uma porção de pequenas ou meias dúvidas que havia a respeito do conjunto das teses que o Bem-aventurado Palau consolida, isto sim. E naturalmente isto faz um certo bem para a a alma. Um bem que sob certo ponto de vista é até precioso, mas daí às conseqüências lógicas que se poderiam inferir absolutamente não. Não, não e não, e está acabado.

Por quê isso?

* Um endurecimento que é fruto de uma idéia errada a respeito do que é dedicar-se, querer e ser de alguém

Eu acho que há várias coisas pelo meio que se precisam deslindar. A primeira coisa é a seguinte: uma espécie de endurecimento do homem, uma idéia errada a respeito do que é dedicar-se, querer e ser de alguém.

Existe uma idéia mais ou menos subconsciente a respeito de varonilidade, formada, em geral — ao menos no meu tempo era —, mais ou menos entre os treze e quatorze anos e os dezoito anos, em que o indivíduo toma a seguinte pergunta: “A minha afetividade como é? A quem deve ser? Eu, sendo afetivo, o que é que em mim muda e o que é que não muda? O que é que em mim se deforma e o que é que não se deforma?”. Com uma certa idéia de que o que você chama, com justiça, de um coração brando tira ao homem o gume da força da vontade, o gume da energia, o gume da coerência implacável. Tudo isso fica tirado ao homem uma vez que ele seja de um espírito bondoso, afetivo e brando, e que o homem não deve ser assim sob pena de se deixar enrolar pelos outros.

Então a conseqüência mais ou menos tirada daí é que o homem para ser homem não deve ser amigo de ninguém. Ele deve ser isolado, desconfiado de todo o mundo, e que o que ele tem como amigo é um certo agrado que tem na companhia de um outro, mas um agrado que não envolve obrigações, não envolve maior forma de fidelidade, não envolve nada, é uma simples delectação porque a companhia de um outro lhe é agradável.

Às vezes misturado com sentimentos de vantagem: o outro é mais importante, ou a família do outro é mais importante, ou é mais rica, qualquer coisa, e nós nos apresentarmos em público vinculados com ele de algum modo nos eleva. Então nós temos um certo prazer de convívio ligado com uma certa vantagem de prestígio.

Isto constitui a assim chamada amizade, que evidentemente não é senão um egoísmo que se utiliza de um outro para as suas próprias finalidades.

* A falta de convicções doutrinárias no engajamento das amizades gera uma desconfiança quando se encontra com o Fundador

Isso é geminado com outra idéia que é a seguinte: qual é o papel que a ideologia — quer dizer, as doutrinas e as convicções de caráter doutrinário — devem ter no espírito de um homem?

Não é certo que esse campo de cogitações proporcione ao homem verdades seguras. São cogitações, são elucubrações que passam pela cabeça, mas que não oferecem verdadeiramente segurança, aquilo vai. É como uma espécie assim de perfume, um gás perfumado que passa, a gente olfateia aquilo certo tempo, depois o vento leva o gás e aquilo acabou. Mas que o uso habitual e metódico do raciocínio para resolver problemas doutrinários e para conhecer, desvendar horizontes doutrinários, absolutamente não se acredita nisto.

De onde também um certo desinteresse pelas coisas doutrinárias. E quando se toma uma atitude face a doutrinas, a gente toma já meio na dúvida e sem se engajar até ao fundo.

Com isso uma certa desconfiança quando a gente encontra alguém que nos impressiona e que pode-nos levar a aderir a ele: “Este tipo aqui é um homem que engambela os outros, é uma espécie de domador de serpentes por meio da flauta, toca a flauta e as serpentes se apazigua, ele toca o raciocínio e os outros mais ou menos cedem. Mas eu que não encontro firmeza na minha própria razão, não vou aceitar a firmeza que há na alma dele e vou me desinteressar dessas coisas mais ou menos. Tomo certo interesse, são coisas bonitas, eu gosto de presenciar, mas são coisas que a minha vida não vai nisso nem vai para isso, a minha vida vai para as minhas vantagens, para meus gozos e para isso eu vivo”. Naturalmente todas essas coisas produzem um afastamento.

* O vazio que há nas amizades puramente afetivas

Em sentido oposto entra a sensibilidade. Ela nasce mais ou menos como um capricho.

Vocês já devem ter visto em encostas de montanha, sobretudo montanhas pedregosas, tem aquelas pedras, tem a montanha, de repente entre duas pedras, do modo que a gente não sabe explicar como, irrompeu uma árvore. A árvore — como a montanha está em declive — se desenvolveu de modo todo torcido, todo revirado, e fica assim como se fosse um braço para fora do monte, assim fica aquela árvore.

Assim também é a amizade puramente afetiva, que nasce — o sujeito não sabe porquê — de dentro da pedraria irregular da sua montanha interior. De repente um é muito bom amigo, então não tem razão para isso, não tem nada, mas é uma espécie de wishful thinking. Quer dizer, como ele gostaria de ter um amigo que seria parecido com o que ele imagina daquele, ele então fica amigo daquele. Daí pode nascer uma amizade que é uma pura delectação de outra maneira, mas uma delectação, que também passa de repente com uma coisinha qualquer.

Um dito de pouco caso que este amigo querúbico tenha dito, ou seráfico tenha dito, sobretudo, notando que ele sob certo aspecto se considera superior a nós, o partido levou a breca: “Não é meu amigo, porque se ele fosse meu amigo reconheceria que eu tenho tais, tais e tais qualidades. Como não reconhece, não é meu amigo”.

É uma coisa que no fundo não merece seriamente o nome de amizade. Lembra um pouquinho aquela cançoneta: “La donna è mòbile qua piuma al vento, mùda de pensièro”. Isto vai assim.

(Sr. G. Larraín: Tem algo de feminino em tudo isso.)

Basta, por exemplo, a gente ser muito amigo de A ou de B e B vai morar noutra cidade que em menos de seis meses a gente esqueceu de B, é uma coisa assim desse gênero.

A pessoa que negou a amizade razoável fica entregue a caprichos assim. Mais ou menos entregue porque por mais que seja pedregosa a personalidade do indivíduo tem momentos ou tem situações em que ele anseia por alguma forma de amizade.

Naturalmente eu deixo a amizade feminina de lado porque é um outro campo tão complexo que não vale a pena tratar, mas a amizade corrente é desse gênero. E eu tenho visto, nesse sentido, coisas do outro mundo, um gênero de amizades que se rompem e de coisas dessas do outro mundo. E bruscamente, sem motivo, e daí para fora.

* Uma explicação para o sabuguismo em face do Fundador: há pessoas que não querem saber de esforço e só progridem na vida espiritual quando são impulsionadas pela graça sensível

Todo esse conjunto de fatores explica, em boa parte, o sabuguismo diante das RR. Quando a RR está mais favorecida pela graça, aquela graça bate na alma da pessoa e a pessoa tem o deleite sensível da graça. Então vem esse deleite, a graça é muito agradável, não há melhor companhia do que a graça sensível.

Um sujeito que venha me dizer que ele tem tido na vida prazeres comparáveis aos da graça sensível eu não acredito nele. Ele está mentindo ou ele não sabe o que é a graça sensível, porque não há — eu volto a dizer — prazer comprável ao prazer da graça sensível.

Somando, subtraindo e mexendo como quiser, quando vem a graça sensível o sujeito, pela delectação, começa a achar que a reunião é formidável, então bate palmas, etc. Quando não vem a graça sensível, a reunião pode estar potável, pode estar lógica, pode estar bem feita, pode ser bem intencionada, pode conduzir a conseqüências que a gente vê que são seríssimas, pouco importa, a reunião está ensabugada.

* A síntese da história de um membro medíocre da TFP

Ainda hoje eu tive ocasião de ver.

Houve alguma graça sensível a propósito da questão da sociedade hierárquica, alguma graça sensível. Passado isto entramos em outros temas. Imediatamente a graça sensível cessou de se fazer sentir.

(Sr. G. Larraín: E nisso a atenção e tudo baixa.)

Tudo baixa, porque ele não tem mais aquele agrado. E, naturalmente, não depende de mim, depende da graça. Às vezes a Providência quer nos provar, quer me provar a mim e quer provar a vocês, e as provações produzem resultados muito variados.

É indiscutível, por exemplo, que a reunião de hoje foi acompanhada com muito menos élan do que outras reuniões.

(Sr. G. Larraín: Na segunda parte, não é?)

Exatamente.

(Sr. G. Larraín: E gravíssima, toda a questão de João Paulo II é uma coisa do outro mundo.)

Gravíssima.

(Sr. G. Larraín: De uma gravidade feroz, os comentários que o senhor fez foram muito sérios, e de fato a gente fica como o senhor disse. Depois muita gente não se lembra o que o senhor tratou na reunião.)

Nada.

O que é que me importa a mim, que estou interessado em saber o que é que vou fazer do meu domingo amanhã, o que me importa a mim saber o que é que vai acontecer no Monte Sinai? Se ao menos fosse aqui no Jaraguá, podia me tocar um pouquinho, mas no Monte Sinai?! Aquela turcalhada que mora por ali, aquilo que se arranjem como quiserem, eu não me incomodo.

Eles não dizem isto assim, mas é o estado de espírito.

Lá longe não repercute até aqui. Não repercutindo até aqui, pouco me importa.

Mas e a Igreja Católica?

A Igreja Católica é como uma cortiça posta no mar. Podem vir as ondas, pode a cortiça ser levada até embaixo do mar, desde que o mar serene um pouquinho a cortiça vem à tona. Assim também é a Igreja, a Igreja pode ser arrastada, pode ser enxovalhada, mas ela ressurgirá. Nem ressurgirá, voltará à tona simplesmente, porque ela não morre. Portanto, que gravidade tem? Se ela é imortal, que ela vá ao fundo e que saia, eu quero saber eu se vou ao fundo ou não. E não é ir ao fundo nos meus interesses espirituais, é nos meus interesses e nos meus objetivos terrenos.

Compreende-se que uma pessoa que tenha a alma feita assim quando se apresentar a Deus não seja bem vista por Deus. O que é que eu posso fazer?

Dado Deus como é, depois Ele é absoluto, perfeito, Ele vê tudo o que Ele fez por nós. Ele vê a nossa repercussão radicalmente egoística, nós somos objetos de uma rejeição.

No momento em que se dá essa rejeição d’Ele, dá-se de nossa parte um movimento de ódio e de cólera já acumulado pelos pecados anteriores, então nós vamos para o Inferno, é o precito. Está a história de um indivíduo, a síntese da história de um indivíduo comum ou de um membro medíocre da TFP.

É como eu vejo a coisa.

(Sr. Poli: É gravíssimo, mas é isso mesmo.)

É isso mesmo.

Você diz gravíssimo; eu vou falar a linguagem do egoísmo: “Sim, gravíssimo sim, mas daqui até eu morrer isto se remedeia. Tudo acaba dando certo inclusive isso. O Inferno é por demais sinistro para que eu vá lá. Consultando-me a mim mesmo eu não tenho a sensação de que meu ser vai para o Inferno e essa sensação me vale como uma espécie de promessa de salvação. Por isso eu posso pintar o caneco como for porque eu acabo não indo para o Inferno, pronto”.

(Dr. Edwaldo: É a fé protestante, porque a fé protestante é exatamente isso, acredita que será se salvará, será salvo.)

É isso, tal e qual. E o Lutero disse: “Se você pecar e tiver remorsos, o pecado é o seu remorso. Para esmagar seu remorso peque de novo e peque até com mais força, porque isto te salvará”.

(Sr. G. Larraín: A gente vê, evidentemente pelo que o senhor está mostrando, que a inteligência está errada, a vontade está errada e que a sensibilidade está errada. Porque não tem princípio, nós não nos movemos pelo princípio, a vontade não segue o pouco de princípio que haveria e a sensibilidade é um capricho de mulher, digamos. Então está tudo errado propriamente, e é mesmo assim.)

* Por mais errado que um indivíduo seja, se ele tem Fé, dependendo da correspondência dele a esse fenômeno místico, a graça ainda pode soerguê-lo

Exceto um ponto, que é o clou de toda a coisa: é a Fé.

Quando um indivíduo ainda tem Fé, acaba sendo que nesse ponto ele não está errado, e que a partir de uma intensificação da Fé concedida pela graça pode haver muito desdobramento, muito soerguimento das pessoas.

(Sr. G. Larraín: Mas como se pode ter Fé com esse quadro que o senhor apresenta? Há Fé no fundo desse quadro? Qual é a Fé que tem uma pessoa no estado que o senhor nos está descrevendo? […])

A Fé tem qualquer coisa de místico. Ela é, como diz a Igreja, rationabile obsequium, quer dizer, é uma adesão racional, razoável, mas ela não é só isso.

Quando um indivíduo tem Fé, ele tem de fato razões razoáveis para crer, mas ele tem também uma espécie de experiência interior na qual ele sente que Igreja Católica é verdadeira. O que é um fenômeno místico.

Esse fenômeno místico pode ter mais intensidade do que todo o resto, isso depende da correspondência que a pessoa dê a esse fenômeno místico. Isto é a âncora de salvação para inúmeras pessoas, é que elas conservam uma certa adesão a esse fenômeno místico.

(Sr. G. Larraín: O senhor poderia dar um exemplo mais claro com o Grupo, para não ficar uma coisa assim meio?… Então não se confunde com a graça sensível?)

* Os resquícios dos primeiros princípios dão ao indivíduo um discernimento daquilo que há de santo na Igreja Católica

Não, não se confunde, é uma coisa especial. É uma percepção que o indivíduo tem à maneira de discernimento dos espíritos do que há de santo na Igreja Católica.

(Sr. Poli: Perdão, senhor?)

À maneira do discernimento dos espíritos você pode, por exemplo, olhar para uma pessoa… Vamos dizer, por exemplo, aquela foto do Pe. Palau exatamente. [Você pode] olhar para ele e dizer: “Ele é um santo”.

Você não se engana, nem precisa de muitas razões para admitir que ele é um santo, porque você tem, à maneira do discernimento dos espíritos, um conhecimento quase experimental de que ele é um santo. É que você discerne a graça da Fé dentro dele e as luzes que a graça da Fé põe nele.

(Sr. H. Black: É fenomenal, senhor.)

É, eu acho que isso é muito importante.

Aliás, o João tem um livro do Pe. Garrigou-Lagrange que trata dessa questão. Ele andou lendo uns trechos para eu ouvir, mas é magnífico, é magnífico como ele expõe isso!

Ele é dominicano e os jesuítas sustentavam uma tese diferente, na qual eu creio que quase todos nós fomos formados, que é a seguinte:

Há razões para crer. Você estuda essas razões e percebe que são verdadeiras, são concludentes, mas como a razão que opera a la científico: tem isto, tem aquilo, tem aquilo outro, então chega à conclusão de que aquilo é verdadeiro.

O Pe. Garrigou Lagrange mostra que isto existe, mas que além disto existe este discernimento místico na Igreja Católica. A gente olha para ela porque ela tem uma fisionomia e essa fisionomia se nos apresenta como evidentemente santa. O que não se pode dizer assim da igreja progressista evidentemente.

(Sr. Poli: De nada, não é?)

Nada, é o contrário, ela procura destruir esse fenômeno místico quanto ela pode, para acabar com a Fé. Mas isto é uma outra coisa, não vale a pena perder tempo com isso.

* Um exemplo de fenômeno místico próprio à Fé

O fato é que, por exemplo, eu creio que todos nós que estamos aqui em esta ou aquela ocasião, aquela outra ou aquela outra, indo inopinadamente a uma igreja, talvez pela simples razão de que passamos em frente e resolvemos fazer uma pequena visita ao Santíssimo, de repente, dentro da igreja nos sentimos envoltos por uma atmosfera. Essa atmosfera nos faz ver, nos dá impressão que todas as imagens, que todos os vitrais, que todos os objetos nos dão uma sensação de perfeição moral e de santidade quando a gente considera.

A gente começa a falar baixo, depois se ajoelha e pensa o seguinte: “Se pelo menos eu conseguisse que esse estado de espírito se fixasse em mim, eu teria coerência, eu teria vontade forte, eu teria tudo para fazer o que eu devo, eu seria um outro homem. Eu já sei que aqui sobre essa ação eu estou bom aqui, mas sei que saindo lá fora… o primeiro ônibus que passar, o primeiro barulho que se produzir na rua, aquele ritmo me leva embora todas as emoções que eu trouxe daqui e com isso as coisas se vão”.

Eu teria um pouco de curiosidade de perguntar aos senhores se a explicação que eu estou dando é clara.



(Sr. G. Larraín: Essa sensação se dava entrando na Igreja e tudo, mas onde se dá mais intensamente, mesmo no estado ruim em que se esteja, se dá quando se tem contato com o senhor. O senhor está descrevendo todo o lado péssimo de fato, mas se não houvesse algo disso nós não estaríamos aqui.)

Eu acho que não.

(Sr. G. Larraín: O senhor cria enormemente isso. […] A gente sente enormemente isso.)

(Sr. P. Henrique: Mas há um desequilíbrio dentro disso porque de fato nós deveríamos estar concretamente polarizados, imantados pelo senhor e a vida fosse pautada diante disso que nós vimos, compreendemos, aderimos com a razão, e a nossa sensibilidade então amoldada a isso. Mas, é como o senhor diz, saímos daqui, vamos ali para a rua, vem um vento e dissipa tudo.)

É, o primeiro vento.

(Sr. P. Henrique: Isso de fato constitui um certo mistério. […] Se existe esse mistério, se existe uma tentação especial do demônio na nossa vocação que impede essa união concreta com o senhor, haveria um jeito do senhor exorcizar isso na linha do que o Bem-aventurado Palau diz? Há esperança do senhor pelo menos que isso seria exorcizado?)

* A fidelidade atual do Fundador é a soma das fidelidades que ele teve desde sua tenra infância

Minha resposta parece que não responderá ao que você está perguntando, mas você verá que responde.

Eu me lembro perfeitamente de coisas dessas que se passavam comigo já na minha… vamos dizer que dos quatro, cinco anos em diante se passavam comigo. E me lembro [que] quando fatos desses — que eu absolutamente não sabia que pudessem ser místicos, nem eu conhecia o sentido da palavra místico — se produziam comigo eu ficava de momento tão encantado, o fato era tão — para usar a expressão castelhana —dicedor, dizia tanta coisa, que aquela degustação em mim durava muito mais tempo.

Porque, primeiro, eu não tinha dado adesão às coisas do mundo moderno, na minha inocência eu tinha dado adesão a mamãe, a tal ou tal coisa boa que eu via, eu dava adesão. Dar adesão quer dizer permanecia na minha alma. Eu ia formando um depósito de impressões assim, de sensações dessas que iam ficando na minha alma, que durante o dia voltavam e que combatiam aquilo que ia destruir em mim esse bem-estar, essa felicidade, essa santidade interior.

De onde nascia uma reação minha contra: aquilo é ruim.

(Sr. P. Henrique: A fortaleza do senhor com esses flashs, com essas graças místicas.)

Isso. Daí elas demoravam.

* Nosso estado de espírito dispersivo e superficial é fruto da não correspondência às graças místicas em nossa infância

Agora, eu não posso garantir que a reação de todos aqui na sala tenha sido essa. Quer dizer, vinha a graça mística, enquanto durasse sem esforço, está bom; a partir do momento que fosse preciso o mínimo esforço para manter em si aquela graça, não, porque o homem não faz esforço, o esforço é um sacrifício, é uma coisa horrível e não vale a pena viver com esforço, então não faço esforço.

(Sr. P. Henrique: O exemplo da reunião da tarde foi exatamente isso, eu sinto que se passou comigo. Na primeira parte houve a graça sensível, muito abrasiva, mas já na segunda, quando o senhor entrou na outra matéria, um corte.)

E o resto é a reunião acompanhada com o olhar vítreo. Não é que não prestem atenção, às vezes prestam, mas não há aquilo que toca no fundo da alma e que é essa graça mística.

(Dr. Edwaldo: O senhor uma vez aconselhava que nós deveríamos recolher isso como se recolhe dinheiro num banco e fazer um banco de sóis. O senhor usou essa expressão.)

É isso, eu me lembro da expressão.

(Dr. Edwaldo: Para poder sacar na hora que fosse necessário.)

É bem exatamente isso.

Mas você, meu Guerreiro me perguntou alguma coisa há pouco e eu cortei a sua palavra.

(Sr. Guerreiro: Eu no momento assim não estou me lembrando exatamente porque outros assuntos muito interessantes se sucederam. De momento assim eu não estou me lembrando. Se eu me lembrar perguntarei ao senhor.)

Está bem.

(Sr. Guerreiro: […] Como é que seria possível obtermos de Nossa Senhora que esse relógio d’Ela, este momento [do Grand-Retour] fosse antecipado, ou que pelo menos nós não atrasássemos mais isto?)

* O Fundador analisa os “Komplicados” no que se refere à virtude da Fé

Eu discirno que a atitude pessoal de cada um de vocês quanto à Fé não é tão carente quanto a todo o resto. No que diz respeito à Fé católica — e, de algum modo, no que diz respeito ao Bem-aventurado Palau e ao que o circunda — há, da parte de vocês, um como que discernimento dos espíritos onde vocês discernem qualquer coisa de muito bom que lhes deixa a alma, neste ponto, sensível e desejosa quand même de seguir um certo caminho. Acompanhado de uma determinada certeza que eu considero que é de si outra graça.

Vamos dizer que essa primeira graça nós chamássemos a graça da Fé, graça mística. Vem agora uma coisa que nós talvez pudéssemos chamar de graça do mesmo gênero, mística, mas da esperança.

Essa adesão de vocês à Igreja e a tudo o mais leva a uma certeza, uma certeza que tem qualquer coisa de amoroso, pelo que vocês sentem dentro de si uma promessa de que, apesar de tudo, haverá uma coisa que os poderá salvar, desde que vocês não se revoltem e não rompam.

(Sr. Guerreiro: Esse daí é o ponto. O senhor sendo quem é dizendo isto, é para nós retermos isto para todo o sempre.)

Eu acho que sim, meu filho.

(Sr. G. Larraín: E depois está vivo isso, não é?)

Está vivo.

(Sr. G. Larraín: […] Se o senhor continuasse nesse ponto seria extraordinário.)

Pois não, meu filho, com todo o gosto.

* O processo de decadência de um membro do Grupo

A revolta produz o seguinte — [vou] filmar essa decadência em câmara lenta:

O sujeito, em certo momento, por sentir que as coisas não vão, ele pode não resistir a uma dentada do demônio e dizer o seguinte: “Bem, então esse caminho não é para mim, eu vou tomar outro caminho. Portanto, também — aqui está o pior do negócio — tudo quanto a Fé me diz talvez seja verdade, mas eu desligo o telefone para ela, porque não tenho o que fazer disto, e vou levar uma outra vida”.

A partir desse momento tenebrae factae sunt e todas as coisas da pessoa passam a não dizer nada. Todas as coisas que via na TFP e que ela gostava, passam a não dizer nada. Por mais que pudessem causar admiração, nada, há um recuo. Aí, se Nossa Senhora não tiver uma pena extraordinária, a pessoa apostata.

(Sr. P. Henrique: O senhor sempre nos acenou para o Grand-Retour.)

* Apesar do estado precário de nossas almas, se tivermos Fé no Fundador, haverá um momento em que seremos inundados de graças e o “Grand-Retour” nos transformará

É o momento em que estando as almas de vocês no estado precário em que estão, se essa posição de Fé continuar, haverá um momento em que vocês serão inundados de graças e o Grand-Retour os transformará.

(Sr. P. Henrique: Como se passou com os Apóstolos.)

Com os Apóstolos.

(Sr. G. Larraín: O senhor está respondendo ao Sr. Guerreiro, não é?)

Sim.

(Sr. G. Larraín: Que porque é que o senhor espera então?)

Espero que Nossa Senhora mantendo em vocês essa Fé como mantém e vocês não rejeitando essa Fé, há nisto a certeza de Ela completará esta obra que, com uma tenacidade materna e sacrossanta, bem entendido, Ela põe em nós e conserva.

Quer dizer, isso é uma promessa dentro de vocês: “Algo virá, algo me obterá o perdão, algo fará com que eu seja outro”.

Lembra-me aquele versículo de um dos salmos penitenciais: “Asperges me hyssopo, et mundabor; lavabis me, et super nivem dealbabor”. Veja a linguagem: “Vós me aspergireis com o hissopo, e eu ficarei limpo”.

Mundabor é isto, o imundo e o mundo no latim. Imundo é o não mundo, é o sujo, o limpo é mundo. Então asperges me hyssopo, et mundabor, serei mudado.

Note um pouco a voz passiva: “Eu serei mudado. Por quem? Por Vós que me aspergis o hissopo. Vós me lavareis — não sou eu que me lavei, Vós me levareis — e eu ficarei mais alvo do que a neve”.

Isto é a operação para a qual vocês ficam à espera e vocês acreditam no que eu falo do Grand-Retour em última análise porque vocês sentem em si essa Fé que permanece. Porque se não sentissem estava tudo acabado.

(Sr. P. Henrique: Ficamos aguardando que esse hissopo nas mãos do senhor possa ser movido e nós sejamos aspergidos o quanto antes para que essa completa união se dê.)

Isso, meu filho.

(Sr. P. Henrique: Isso para nós é uma dilaceração, é um “non sense”, nós ficamos aguardando isso.)

Mas aguardando na paz mais ou menos como as almas do Purgatório aguardam o momento de serem liberadas.

Há santinhos que representam as almas do Purgatório metidas no fogo. Então elas todas estão dentro do fogo, mas estão com a cara plácida. Por mais que o fogo atormente, elas estão com a cara plácida porque é a certeza de que virá, no momento oportuno, a liberação oportuna. Então, agüentam o fogo nessa certeza, assim como vocês também esta paz interna, esta Fé que vocês sentem de modo místico.

Como um homem pode ter uma visão, pode ter uma revelação, ele tem internamente essa sensação da santidade da Igreja Católica.

Eu estou claro no que eu estou dizendo?

(Sr. G. Larraín: Sublime.)

* O Fundador comenta um versículo dos Salmos que se aplica à esperança que devemos ter no “Grand-Retour”

Essa sensação já é uma ação de Deus em nós, para a qual simplesmente nós não criamos obstáculo com nossa vontade.

(Dr. Edwaldo: Na continuação o salmo diz: “Criai em mim um coração puro, e renovai nas minhas entranhas um espírito reto”.)

Isso, logo depois. E como vem a propósito.

Você quer repetir?

(Dr. Edwaldo: “Criai em mim um coração puro, e renovai nas minhas entranhas um espírito reto”.)

Criai em mim um coração puro”, quer dizer, não sou eu que vou me afanar para pôr em mim um coração puro. Eu espero que Vós, Senhor, que sois quem sois, crieis em mim esse coração puro. A inocência que eu tinha morreu, Senhor, criai em mim uma inocência nova.

Como é o verbo das entranhas?

(Dr. Edwaldo: “E renovai nas minhas entranhas um espírito reto”.)

Renovai nas minhas entranhas o espírito reto”, é a inocência. Mas nas minhas entranhas, quer dizer, no mais interno da alma agi sobre mim e dai-me, renovando, um espírito reto.

Esses quatro versinhos são tão simples e estão em qualquer livro de salmos. Quem sabe se, por exemplo, vocês podiam tomar a deliberação de rezar isto antes e depois de todas as reuniões que façam dos complicados.

(Sr. Guerreiro: Está magnífico, está muito bom.)

Eu acho que seria uma coisa tão oportuna, tão justa, tão santa, como eu nem sei dizer.

Naturalmente vocês devem dirigir esse pedido por meio de Nossa Senhora. Se não rezarem por meio d’Ela, Deus não se move. Ela é a medianeira necessária, por vontade Deus, de todas as graças.

(Sr. Guerreiro: Nós temos medianeiras para Ela excelentes.)

Isso, mas não podemos deixar de pronunciar o nome d’Ela.

Há um momento em que nossa alma, nosso coração diz: “Maria!”. É uma coisa insubstituível, nem nada, Maria. Nós dizendo Maria ecoa no coração de Jesus como se tivéssemos dito Jesus. Isso é absolutamente indispensável.

* A paternalidade do Fundador em relação a nós é porque ele vê em nós uma promessa de Nossa Senhora

Aqui vocês têm um caminho que se abre para vocês cheio de bondade, cheio de misericórdia, cheio de paciência, disposto a perdoar, disposto a esquecer, disposto a tolerar mais uma vez. Por quê? Porque vocês têm essa graça que Nossa Senhora lhes deu, de esta Fé por assim dizer experimental manter-se em vocês.

(Sr. P. Henrique: Muito tocante também todo esse apriorismo do senhor em nos dar essa clemência e nos apontar para essa confiança inteira que devemos ter. Isso de fato nos polariza de algum lado.)

Pois é.

Você veja o seguinte, aí as coisas se põem muito claras: a razão pela qual vocês — com uma exatidão pela qual não sei como agradecer a Nossa Senhora — comparecem às reuniões de sábado, vem…

(Sr. P. Roberto: Isso é a nossa tábua de salvação.)

Como é, meu filho?

(Sr. P. Roberto: Se deixássemos disso a porta estava aberta para sair.)

Ah estava.

(Sr. Poli: Já estávamos fora.)

Se Nossa Senhora não tivesse feito entender — é preciso dizer bem, entra aí aos pés de Nossa Senhora também muito da intercessão de mamãe — e não tivesse criado essa instituição sui generis que é a reunião de sábado à noite, eu recearia por vocês. E acho que vocês também receariam.

(Sr. P. Roberto: Porque, por exemplo, o senhor pronunciar Maria para nós vem com uma tal graça que é uma coisa que sustenta, é o caminho mesmo. Se a gente não estivesse aqui, nós não ouviríamos isso do senhor, e não ouvindo não receberíamos essa graça, não teríamos nenhum meio de alimentarmos isso que Nossa Senhora mesmo pôs em nossa alma.)

* Sem os socorros místicos, não há meios de perseverarmos; o exemplo da constituição do grupo da Conversa de Sábado a Noite

Você quer ver como isso é?

Quando eu disse Maria, eu disse com uma certa ênfase pela importância do tema, porque todos queremos muito o tema que é Maria, mas eu percebi que minha voz tomou uma inflexão que ia um pouco além de uma inflexão comum, senti que a vocês todos era oferecido algo com um timbre melhor do que do costume e que lhes fez um certo bem.

Isso é místico. E sem esse socorro místico eu acho que não vale a pena nem conversar.

(Sr. P. Henrique: É um dardo que é lançado, que alcança o seu alvo e fica. Pelo menos deixa uma marca.)

Isso, e essa marca é indelével.

Se vocês prestarem atenção, vocês vêem bem na origem do Grupo porque é que a cada um de vocês eu fui convidando gradualmente para essa reunião. Foi levado pela idéia que se vocês continuassem a freqüentar o Grupo como freqüentavam, mas sem nenhum apoio a mais do que aquele que tinham correntemente no Grupo, apostatariam.

(Sr. P. Henrique: Isso é bom a gente ter muito presente.)

(Sr. P. Roberto: É uma fraqueza, mas acho que é também uma predileção, não é?)

É, meu filho, é verdade.

(Sr. P. Roberto: Porque é assim mesmo.)

É assim mesmo.

Quando eu convidei você eu me lembro perfeitamente que foi num automóvel — não sei se você se lembra — lá em Jazna Gora, depois ou antes de uma RR, acho que era depois. Eu lhe falei que lhe notava muito isolado dentro da TFP e que eu queria que você se aproximasse de um grupo assim, etc.

Você se lembra talvez disso.

(Sr. P. Roberto: Sim, senhor, lembro perfeitamente.)

Se você se der ao trabalho de refazer essa conversa, você verá que ela toda foi movida por esta série de idéias que eu estou desenvolvendo aqui.

Com o Horácio eu disse alguma coisa no momento devido, e para uns e outros eu fui dizendo.

(Sr. Guerreiro: Já que o senhor está tratando desse assunto, o senhor há pouco comentava que isso graças a Nossa Senhora, mas aos pés d’Ela graças também à Sra. Da. Lucilia.)

Sim.

(Sr. Guerreiro: O que é curioso é que esta reunião já houve tentativas de ser feita em outros lugares e nunca ela recebeu tantas graças quanto ela recebe aqui no primeiro andar, na casa do senhor, que é a casa dela. O senhor não podia falar com um certo desembaraço porque é que o senhor acha que isto aconteceu assim? […] Isto é uma coisa que no caso do senhor, posta a Revolução atualmente, a gente vê que é uma coisa que não pode ser desvinculada do profetismo.)

Não pode, eu concordo inteiramente com você, em gênero, número e caso, com circunstâncias várias.

(…)

* A experiência mística que sustentou o Fundador durante muitos anos, no que se refere a reconstituir um padrão de casa em que a SDL pudesse viver e morrer na atmosfera dela

Uma coisinha que eu definiria assim:

Quando meus pais se casaram, meu pai alugou uma casa, mas uma casa plutôt pequena, de um casal que está começando a vida. Ele alugou uma casa a muito pouca distância da casa dos sogros dele para efeitos de que mamãe tivesse facilidade de contato com os pais dela, com o ambiente dela, etc. Eu nasci nessa casa, mas eu praticamente não conheci, porque quando tinha um ano e pouco eles se mudaram para casa de minha avó. Meu avô morreu e não havia quem ficasse residindo com minha avó numa casa muito grande, mas ela queria muito porque tinha passado ali grande parte da vida, e o marido, etc.

Então ela fez a mamãe essa proposta: mamãe e o papai iam morar em casa, levavam os respectivos móveis para mobiliar os quartos deles, e até economicamente a coisa foi estudada. Quer dizer, ele teriam uma empregada própria cujo ordenado seria pago por meu pai, teriam uma fräulein [com] ordenado pago por meu pai, e quanto ao mais, casa, cama, comida, luz elétrica, impostos, tudo pago pela minha avó, que estava em condições de fazer isso largamente.

Eu habituei-me e morei na casa da minha avó, como casa foi o que eu conheci. Mas habituei-me enormemente à casa.

(Sr. G. Larraín: A gente vê que casa era essa para o senhor.)

Casa era aquela.

* A transição do Palacete Ribeiro dos Santos para uma casa na Rua Marquês de Itu; a total incompatibilidade do Fundador com a mesma

Quando minha avó morreu, ela teve prejuízos, não vale a pena perder tempo com isso, foi necessário vender a casa. Primeiro alugar porque não encontramos comprador, e depois, mais tarde, vender a casa.

Eu estava naquele tempo como deputado indo e vindo, indo e vindo. Eu, na situação que estava, não podia intervir para a escolha da casa nova. A quantia que eu podia tirar do meu ordenado para pagar esse aluguel era uma quantia pequena, que dava para alugar uma casa bem modesta, na Rua Marquês de Itu, que é essa onde esteve instalado o Borelli depois.

Vocês puderam ver, é uma casa lamentável.

(Sr. G. Larraín: Não dá nem para comparar.)

É, não dá nem para comparar.

Quando eu vim do Rio, eu sabia de mamãe pelo telefone que ela já estava instalada nessa casa da Rua Marquês de Itu que eu não conhecia. Quando eu cheguei e vi a casa foi um break down. Todas as marcas da qualidade mais ordinária e da falta de gosto mais radical se reuniam ali. Mas não tínhamos dinheiro, estávamos tão sem dinheiro que até não tínhamos cozinheira, comíamos de pensão. Não preciso dizer outra coisa.

Ainda pior: eu naquele meus acessos de nevralgia horrorosos, passando a noite andando de um lado para outro, horrível. Era tudo uma débâcle.

Uma parte dos móveis vindos da casa de vovó estavam colocados pas de mal de qualquer de lado, quando um dia aparecem Rosée e a mãe do Adolpho em casa. Eu não via jeito de morar nessa casa.

(Sr. G. Larraín: E não pode.)

Mas não tinha dinheiro!

(Sr. G. Larraín: Pois é, mas, digamos, não pode nesse sentido: é “superantiaxiológico”.)

Isso, “superantiaxiológico”.

* Uma pequena melhora: a casa da Rua Itacolomi

Vieram expor o seguinte: que na Rua Itacolomi, aqui em cima, quase em frente à Rua Pará, tinha aparecido uma casa pequena, boazinha, muito bem acabada, muito fina em todos os seus pormenores, por um preço apenas cinqüenta mil-réis por mês mais cara do que a casa em que eu estava. Para elas duas ficaria comodíssimo se mamãe se mudasse para lá, porque ficava a meio quarteirão da casa de Adolphinho e a dois quarteirões da casa de Rosée. Não é nada.

Eu fui ver a casa e notei que em comparação com a outra casa era uma maravilha.

Mas eu disse:

Eu preciso pensar, porque esses cinqüenta mil-réis me fazem falta.

Então a mãe do Adolpho disse:

Olha, se for só por isso eu dou esses cinqüenta mil-réis por mês se você precisar. Se você não poder pagar, eu dou até que você possa pagar.

Está bom, então vou aceitar — porque aquilo era uma coisa que não era possível.

Mudei-me para essa casa e era verdade, era uma casa muito bem arranjadinha. A gente via que era uma pessoa com pouco dinheiro que tinha mandado construir aquela casa, uma pessoa de muito trato e que tinha feito os pormenores todos os mais bem cuidados e os mais agradáveis possíveis.

Era, no caminho axiológico, um passo para a frente.

Eu me instalei na casa e vi que a casa era modernosa. Ela tinha umas janelas modernosas, ela tinha várias outras coisas modernosas assim que me reviravam o estômago. E, sobretudo, me desagradava o fato de que eu era obrigado a viver dentro de uma casinha.

Eu não fui feito para viver em casinha, [mas] numa casa de um tamanho regular. Não precisava ter o tamanho da casa de vovó, mas de um tamanho regular.

Era uma casa tão baixa, que… vocês estão vendo aquela gravura ali?

(Sr. G. Larraín: Sim.)

O teto da casa vinha mais ou menos do começo da gravura até ao chão. Você podia quase que acender os abat-jours com a mão.

Depois esses lustres não tinham, porque esses lustres eram da casa de vovó, e lá nem cabiam.

Aos poucos eu fui combinando com Rosée e fui mandando fazer móveis, consertando essa escrivaninha que estava estragada. Com pequenas despesas pegando os restos do naufrágio, recompondo, e assim melhorando a minha situação. Quando um dia recebo um recado do dono [dizendo] que precisava da casa e que, portanto, mandava-me pedir para retirar.

Eu abrevio as coisas a pé.

* A última etapa: o apartamento na Rua Vieira de Carvalho

Quando o José Gustavo de Souza Queiroz me ofereceu um apartamento que a família dele tinha na Rua Vieira de Carvalho, que era um apartamento pequeno, basta dizer a você que eram dois quartos de dormir, uma sala de jantar e um salão, mais nada. Mas representava em relação a esta casa pequena uma certa melhora, e o preço o José Gustavo me disse que se eu não pudesse pagar não pagasse nada. Minha relação com o José Gustavo era tão íntima, que eu aceitei sem mais.

Foi aí, nesse apartamento, que começaram a entrar negócios no meu escritório, eu comecei a ganhar dinheiro. Metade do preço deste apartamento meu cunhado pagou, ele ficou co-proprietário, e outra metade paguei eu. Depois que meu cunhado morreu, minha irmã e minha sobrinha me fizeram uma escritura de compra e venda fictícia, mas de fato uma doação. Aí eu fique dono do apartamento inteiro.

Vocês vejam que penoso, mas a mais penosa possível.

Pouco-a-pouco eu pude ter a alegria de reconstituir tudo isso, melhorando em alguns pontos — porque alguns pontos realmente bem bonitos não estavam em casa de vovó, são coisas que eu comprei — e reconstituindo o ambiente para que mamãe vivesse e morresse na atmosfera dela.

Quando eu morava nessa casinha pequena na Rua Itacolomi havia uma espécie de experiência mística que me dizia: “Agüente, porque esses são os desígnios da Providência para você. Virá um dia em que você não terá a sua casa na Rua Barão de Limeira, mas você vai ter uma coisa que lhe porá inteiramente a flutuar no mesmo nível”.

Durante alguns anos eu vivi dessa experiência. Afinal a coisa foi e quando eu encontrei para vender esse apartamento eu me atirei ferozmente encima dele.

(Sr. P. Roberto: Por que é que a Providência pediu que o senhor passasse por tantas necessidades assim?)

* A “via crucis” terrível que a Providência pediu à Senhora Dona Lucilia e ao Fundador

Necessidades, meu filho, que não seriam nada se fossem necessidades para mim, mas seriam necessidades para mamãe, seria o desdouro para mamãe. Se isso acontecesse, eu era obrigado a ir para o interior e ser professor num grupo escolar do interior para não morrer de fome.

(Sr. P. Roberto: Por que é que a Providência pediu isso do senhor?)

Porque ela pediu tanta coisa para mamãe, é a via crucis.

(Sr. P. Roberto: Porque o senhor veio de uma família abastada, que depois foi perdendo…)

Pois é, e foi tudo de um modo injusto, de um modo perseguidor. Eu não vou lhe contar essas coisas todas porque são monótonas, mas uma coisa como vocês não imaginam. A tal ponto que eu fico muito interrogativo.

(Sr. Guerreiro: Passados os anos que passaram e estando o primeiro andar montado como está, a gente vê que o demônio não queria que isto fosse realizado.)

Não queria.

(Sr. Guerreiro: No fundo para tirar do senhor o brilho que ele quereria tirar evitando que isto tudo fosse reconstituído, não é?)

Isso.

(Sr. Guerreiro: A gente vê que o senhor não cedeu, teve Fé, confiança, no fundo por causa dos valores. Porque a gente vê que no caso do senhor o senhor não era de uma família abastada apenas, mas é que a riqueza estava a serviço para exprimir certos valores morais, espirituais e psicológicos que essa família tinha.)

Culturais até.

(Sr. Guerreiro: Como a família tem dinheiro, mas não tem esta forma de riqueza e esses valores, aí a perda da fortuna não é tão trágica.)

Isso, tal e qual.

(Sr. G. Larraín: […] Como cultivar essa graças místicas que estão ligadas fundamentalmente com a pessoa, mas com tudo o que diz respeito à força da aristocracia, dos livros e da alma do senhor nessa pista? Porque a gente vê que há um cultivo, não é? Há um perfume que o senhor nos dá todos os sábados que um certo cuidado é preciso ter, porque se sente uma dentada demônio de vez em quando na linha do que o senhor disse no começo. As coisas não falam e de repente toma um caminho errado.)

* Ainda que a Providência tivesse pedido ao Fundador o sacrifício supremo de ter que mudar-se para o interior, ele aceitaria essa provação na paz de sua alma

A questão, meu filho, é a seguinte:

Você vê que eu conservei o tempo inteiro a esperança de me manter como me mantive. Mantive emergindo dentro da água, ir até ao fundo do mar para depois, mais adiante, pôr a cabeça for de água.

Mas Nossa Senhora queria de mim uma coisa: que eu devia conservar a confiança inteira em que isto se manteria direito. Mas se não se mantivesse e sem culpa minha isso se esboroasse, se eu tivesse que ir trabalhar num grupo escolar do interior, eu dar as minhas aulas exatamente como as dava na Faculdade de Direito, com o mesmo empenho, com o mesmo brilho, para fazer bem aos meus alunos e para na cidadezinha do interior ter uma espécie de primado para que compreendessem que eu era alguém. E nunca, ainda que tivesse que morrer no interior, nunca, nunca, nunca, perguntar a Nossa Senhora por quê.

Ela é minha senhora, é minha mãe, Deus é meu Deus, e pode dispor de mim como quiser. Se acontecer o contrário de tudo quanto misticamente eu esperava, eu morrerei em paz nas mãos d’Ele. Se não houver isto, tudo fracassou.

Quer dizer, no fundo é preciso ter muito desapego.

(Sr. G. Larraín: Então a graça mística sustenta até um certo ponto e não sustenta até ao fim.)

Sustenta até ao fim.

(Sr. G. Larraín: Mas por quê o senhor disse que mesmo que a mística lhe dissesse que se aquilo não se realizasse, o senhor aceitaria em paz? Seria outra graça mística dizendo-lhe isso, ou não?)

As coisas não são tão assim, uma coisa era eco da outra. Essa graça de aceitar isto era um eco da graça da confiança.

(Sr. G. Larraín: Mas era algo místico também.)

Místico também.

(Sr. G. Larraín: Até morrer sei lá em que buraco o senhor aceitaria em paz por algo místico também?)

Também.

(Sr. G. Larraín: Está muito bom, está extraordinário.)

Mas era preciso isto, chegar até esse ponto.

Meus filhos, que horas são?

(Sr. G. Larraín: É uma coisa sublime o senhor ainda fazer uma reunião assim com estes estropiados.)

Não, está muito bem, muito bem.

Vamos rezar então?

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