Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
19/11/94 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 19/11/94 — Sábado
“Confie em mim em outras ocasiões, na minha intercessão em outras ocasiões” * Nenhuma vez, sem exceção, eu deixei de acolher a todos com o coração brando de minha parte; abrindo-me, fazendo notar um afeto e um carinho pessoal constantemente * Da parte do SDP, todo afeto e atenção; do outro lado, uma barreira de acrílico e frieza * “O demônio estabelece um teor de relacionamento pelo qual eu fico impedido de ir à frente e vocês ficam libertados para recuarem tanto quanto quiserem” * Imaginem-se morrendo e comparecendo diante de Deus que diz: o mensageiro da minha misericórdia, da minha bondade, da minha doçura, veja como vocês trataram * Essa dureza em relação ao SDP é um enclave do demônio * O que determina essa frieza e recusa em relação ao SDP é a delícia que cada um experimenta em relação àquilo que deixou * A condição para que a graça nos dê tudo é a de darmos tudo; e a gente não quer dar tudo * Quando se estabelece uma relação entre o lado católico e o não católico, o lado católico é mais sensível e mais mole que o não católico; a parte pior domina sempre a parte melhor
(…)
(Sr. Guerreiro: Sem pedir ela me resolveu o caso, de momento. A menos que haja outras coleções não perceptíveis de momento.)
Ahahahahah!
(Sr. Guerreiro: Porque bem mereço senhor.)
Meu filho, isso é uma graça como você não imagina, ouviu? Fiquei triste, mas alegre, ouviu?
(Sr. Guerreiro: Eu fiquei contente, mas não inteiramente… ficou um ponto de preocupação, porque a gente precisa acertar algumas coisas.)
Os tempos estão chegando, hein!
(Sr. Guerreiro: Mas com toda franqueza eu não pedia a ela isso. Eu pedi a ela que me resolvesse outras coisas, num quadrozinho que tem lá no E. Elias, naquela sala tão pequena, que é a sala do senhor, infelizmente, eu estava rezando para ela para ela me resolver outras questões, senhor, e pedia muito, pedia muito, etc., e não pedi a questão da pedra, não pedi mesmo. Eu achava que ia demorar mais. E ontem noite resolvi o problema, senhor. Pareceu-me que nitidamente foi uma intervenção dela muito delicada e muito bondosa.)
* “Confie em mim em outras ocasiões, na minha intercessão em outras ocasiões”
A la ela.
(Sr. Guerreiro: “Olha não se preocupe tanto com aquilo lá, que eu vou resolver, como prova de que vou resolver, aquilo que você não pediu eu resolve agora”. Me pareceu, senhor, eu não sei se a leitura do ocorrido não está boa.)
É inteiramente plausível. Inteiramente, não haveria a mínima objeção a fazer.
A questão é a seguinte: que a ser isto assim, quer dizer, a ser assim, isto quer dizer o seguinte: “confie em mim em outras ocasiões, na minha intercessão em outras ocasiões, porque eu tenho uma bondade e sou atendida em medida que é altamente atraente para você”. É o que quer dizer.
(Sr. Guerreiro: Que Nossa Senhora lhe pague imensamente por ter uma tão grande e uma tão bondosa mãe.)
Para mim isso já é um pagamento, nem sei de que tamanho.
(Sr. Guerreiro: Foi realmente uma cortesia dela muito…)
Está muito bom, eu fico muito contente. E, portanto, em outras ocasiões, e para outros fins, peça a ela de novo.
Meu Horácio, como vai você?
(Sr. Gonzalo: Eu estava com um pequeno problema, uma coisa… não sei se depois da reunião… dez minutinhos, porque é uma coisa meio urgente, e tem uma certa importância. Não sei se o senhor pode me atender um minutinho depois da reunião.)
Desde que você me lembre…
Meu Horácio, como vai, você, meu filho?
(…)
Ave Maria…
Benedictio…
* Descrição da fisionomia do Beato Palau: fronte larga fazendo entender um espírito com muito descortino
Olha aqui, enquanto estamos todos pertos aqui, queria lhes mostrar uma fotografia excelente do Bem-aventurado Palau.
Que fisionomia! Que coisa extraordinária!
(Sr. Paulo Henrique: Ele teria quantos anos mais ou menos nessa fotografia?)
Discutimos sobre isso, eu imagino uns 40 anos, mas há quem dá mais.
(Sr. Guerreiro: O senhor podia descrever um pouco o que o compraz tanto na fisionomia dele?)
Eu preciso ter diante dos olhos para…
Quer dizer o seguinte: eu interpreto essa fisionomia assim. A fronte larga fazendo entender um espírito com muito descortino, aberto para muitas coisas, assim indefinidamente aberto para uma enormidade de horizontes, etc.
Agora, os olhos muito profundos. Ele naturalmente é um tipo europeu meridional, é la das ilhas Baleares, aquela zona, parece que é de Barcelona… enfim, aquela Espanha Mediterrânea, e, portanto, vocês estão vendo cabelos pretos, sobrancelhas pretas, olhos pretos.
* O olhar, sublime; pisado pelo sofrimento mas que opôs a tudo uma resistência mansa mas invencível
Agora, o olhar é simplesmente sublime, porque é um olhar pisado pelo sofrimento, pela dor, mas que opôs a tudo isso uma resistência por assim dizer mansa, mas pacífica e invencível. Quer dizer, pisaram-no de todos os modos para obter dele que ele fosse diferente do que é. Não sei se foi dentro da Ordem, se foi no mundo em geral, se foi no ambiente carlista do qual ele participou intensamente. Mas ele tem a cara de um homem pisado. Ele foi pisado.
(Sr. Guerreiro: Muito rejeitado?)
Muito rejeitado. Mas a cara é de quem não se deixou nem abalar, nem comover e nem mover. Ele continuou inteiramente como era numa posição de vanguarda. Não era um homem que tivesse fugido um pouco e parado durante a fuga, mas é um homem que nunca fugiu, que estava na batalha. É a impressão que ele me dá.
* Pureza cristalina, ilibada; a cabeça ligeiramente inclinada faz entender que o peso dos anos e da vida fizeram sofrer
Depois, uma pureza cristalina, ilibada, e aqui, vejam o corte da boca, em geral as bocas têm esses sinais assim, e acompanham assim… e isso aqui desenha um pouco o temperamento da pessoa. A dele é um traço: “sim ou não” está acabado.
(Sr. Guerreiro: Santa Terezinha também é assim.)
Santa Terezinha é assim também.
O queixo é o complemento do resto e não tem… a cabeça ligeiramente inclinada faz também entender que o peso dos anos e o peso da vida fizeram sofrer, e que ele está dolorido.
Não sei se interpretam assim.
(Sr. P. Roberto: O olhar dele também não está […inaudível].)
* O olhos são teológicos e a fronte filosófica
Ah, é vasto como é isto aí, largos horizontes. Só que aqui você sente mais o olhar para o sobrenatural, e aqui você sente mais o olhar… vamos dizer assim: os olhos são teológicos, a fronte filosófica.
(Sr. Horácio B.: O senhor teria dito que tem algo de brasileiro, ele?)
Eu acho que… vamos dizer, se eu o encontrasse na rua e me dissessem: “esse é um brasileiro”, eu aceitaria. Não sei vocês brasileiros aí.
(Sr. P. Roberto: Eu não sou tão brasileiro assim mas eu acho também.)
Ahahahah!
Mas não acha Paulo Henrique?
(Sr. Paulo Henrique: Acho sim senhor. Podia passar por brasileiro.)
Passar facilmente.
(Sr. Gonzalo: Sobretudo se a cogitativa dele andou sempre em função de um brasileiro, é muito explicável.)
Não, não.
Agora, o que tem é o seguinte: o cabelo penteado sem nenhuma preocupação e cortado muito rente — eu acho que é da ordem religiosa, seria dos hábitos, das praxes ou do regulamento da ordem religiosa — é a impressão que dá. Enfim, como eu gostei enormemente de ver…
(Sr. Guerreiro: Eu poderia fazer uma pergunta ao senhor sobre ele?)
Pois não.
(Sr. Guerreiro: Na mera natureza dele dá para se discernir alguma coisa por onde a Providência teve um especial comprazimento com ele, e deu a ele as graças que deu, portanto, se é assim, algo na família dele foi se destilando com o tempo tendo em vista um destino da Providência com relação a esta graça que depois Ela deu a ele, ou o senhor acha que houve um sobressalto na natureza, e portanto uma graça da Providência totalmente gratuita para ele? Ou havia como que um bom pretexto, quer dizer, os pães e os peixes que Nosso Senhor pediu, havia nele para fazer o milagre?)
Quer dizer, sua pergunta é: se no acervo de riquezas morais que havia nele, alguma coisa era hereditário e enormemente incrementado pela graça, ou se não havia nada de hereditário, é isso?
(Sr. Guerreiro: É isso, senhor.)
Eu acho provável que houvesse alguma coisa de ponto de partida hereditário, mas não sei dizer se isso é dessas tais graças que vêm subindo as gerações até florescer em um ou alguns santos, há casos desses, ou se ele foi tirado de uma cesta com um só pão e um só peixe e a multiplicação se fez nessa base.
(Sr. Guerreiro: Não se pode ver isso nele?)
Não dá para ver isto.
(Sr. Paulo Henrique: O lado místico dele está estampado à primeira vista ou…)
* O olhar é muito místico, muito doce mas varonil; fortaleza cristã é isso
Não. Eu acho o seguinte: que o olhar é muito místico, mas muito místico. Mas que o conjunto da natureza vai muito bem com esse lado místico. Há qualquer coisa da natureza dele que se afeiçoa ao lado místico, forma um todo com ele.
(Sr. P. Roberto: Também não tem uma doçura no olhar?)
Tem muita doçura no olhar, mas é exatamente um dos lados por onde ele me parece brasileiro. Muito doce, mas varonil a vida inteira. A vida inteira! “É isto e é isto!”
Quer dizer a virtude da fortaleza, não é? Se vocês quiserem, podem ver isto assim, põe embaixo: “Fortaleza cristã”. É isso.
(Dr. Edwaldo: Dá impressão de quem contempla um panorama colossal.)
E contempla mesmo. Aqui está uma fotografia do Vedrá, o morro no alto do qual ele recebia as revelações.
Quer dizer, ele escalava… pelo que dá aquela descrição dele, tem-se a impressão de que é uma fenda que há aqui no alto do morro, devia ter uma abertura que conduzia para dentro do morro.
(Sr. Paulo Henrique: De fato dá para ver uma fenda aqui sim.)
(Dr. Edwaldo: E é uma coisa da altura do Pão-de-açúcar, mais ou menos.)
Você acha tanto assim?
(Dr. Edwaldo: É o que o Sr. F. Gonzalo disse. Tem 400 metros.)
Como são diversas as coisas: o Paulo Roberto perguntou estranhando: “o Pão-de-açúcar só tem 400 metros?” E eu ao mesmo tempo tive uma reação em sentido oposto: “puxa, tem 400 metros o Pão-de-açúcar?”
(Dr. Edwaldo: O Corcovado tem 700 metros.)
Setecentos, é? É tal a diferença? Nunca pensei.
* Descrição da gruta do Vedrá; o lugar é impressionantíssimo
Agora, o que eu acho que é extraordinário aqui é a linha dessa elevação. Agora, notem uma coisa curiosa, é quase um chapéu napoleônico, ele que com certeza deve ter sido um adversário…
(Sr. Gonzalo: Ele disse que era um demônio.)
Era de Napoleão III aquilo.
(Sr. Gonzalo: Mas de Napoleão I ele disse que era um demônio.)
É, e era mesmo. Pela descrição, ele morava numa dessas ilhotas aqui. Aqui tem um… não sei se percebem, mas há um espécie de estreito aqui, é realmente uma ilha em todos sentidos da palavra, não parece tomar contato com a terra com nada, é uma ilha. Agora, ele vinha de uma ilha vizinha, talvez essa ponta de cá, qualquer coisa, todo o dia num barquinho e chegava até o Vedrá. Escalava o Vedrá e entrava dentro onde havia uma espécie de corredor que descia e embaixo tinha uma sala.
(Sr. Guerreiro: Deve ter sido um antigo vulcão isso.)
Meu filho, eu tenho impressão que é todo de pedra. Impressão.
Aqui tem um pouco de vegetação. Por exemplo, o Pão-de-açúcar, que eu me lembre não tem vegetação nenhuma, porque é só pedra.
(Sr. P. Roberto: É pedra pura.)
É pedra pura. Embaixo há de ter um pouquinho. Mas é a terra que se acumulou, etc.
Agora, aqui se explica melhor o que diz aqueles apontamentos do F. Gonzalo, quer dizer, não era um corredor escavado, era uma fenda e embaixo da fenda havia uma abertura maior que seria a tal sala, o tal living room austero ao último ponto.
(Sr. P. Roberto: O living room profético.)
O living room profético.
(Sr. Horácio B.: A gruta de Cornélio dele.)
É, a gruta de Cornélio.
Mas enfim, aqui não sei se notam que tem uma serrania que forma um…
(Sr. Gonzalo: É o mar com o reflexo do sol.)
Vocês acham que não é uma serrania isso aí?
(Sr. Paulo Henrique: Não, parece que é o próprio mar.)
É o próprio mar.
Mas, por exemplo, isso aqui não é uma montanha?
(Dr. Edwaldo: Aí sim. Mas é um lugar impressionante.)
O lugar é impressionantíssimo. É propriamente o décor adequado é esse.
(Sr. Guerreiro: Imaginar um lugar superior a esse é difícil.)
* Deus criou certos lugares para que ali venha se passar certas cenas ou haja um certo homem; o Brasil tem em abundância lugares que se prestam para cenas históricas que nunca houve
Eu acho que é típico, é perfeito. Vamos dizer, quando Deus criou isto, Ele tinha na mente d’Ele o Vedrá e o Beato Palau. O fato concreto é o seguinte: que isto justifica um pouco a impressão que certos lugares me dão, mas que com certeza dão a vocês também. Quando a gente viaja, certos lugares dão impressão de que Deus criou aquilo para que ali venha se passar uma certa cena, ou haja um certo homem, ou uma instituição, qualquer coisa. E a gente tem a impressão vendo essa ilha, e pensando nele, a gente tem a impressão de que na realidade isto foi designado por Deus desde todo sempre para isto.
Mas que dá um certo apoio ao princípio de que a gente pode fazer conjeturas sobre um determinado território em função da fisionomia do território. O que dá uma coisa para se pensar muito sobre a grandeza do Brasil no Reino de Maria. Porque o país tem mesmo, mas tem em abundância, lugares que se prestam para cenas históricas que nunca houve, e que se diria até que alguns desses lugares choram pela tristeza de não terem sido utilizados para episódios históricos como era o desígnio da Providência.
(Dr. Edwaldo: Tem o cenário e falta os personagens.)
Exatamente.
Então, você imagine que o Beato Palau não tivesse cumprido a vocação. Poderia ou não poderia flutuar aqui uma tristeza indefinida do plano de Deus não realizado?
(Sr. P. Roberto: Na Índia deve ter alguma tristeza.)
Deve ter… Mas é tal e qual.
Eu tenho a impressão de que assim se poderia fazer toda uma, não digo propriamente uma doutrina, mas um conjunto de impressões ordenadas em função de panoramas.
(Dr. Edwaldo: No lugar onde houve o episódio da Sarça ardente com Moisés, o lugar era tido pelos pastores como um lugar sagrado antes do acontecimento.)
Veja que coisa interessante.
(Dr. Edwaldo: Eles percebiam que algo ia acontecer ali.)
É uma visão como que profética que Deus dava a eles. E com certeza para a salvação deles também.
(Sr. Gonzalo: E no Brasil o senhor acha os lugares destinados a isso, mais o litoral ou interior? Porque é tudo grandioso.)
* O Brasil é tão vasto que há tipos de lugares diferentes que se repetem
Você me perguntou no Brasil, e eu estava com os olhos postos aqui e me veio imediatamente a idéia: isto no Brasil.
Mas aí eu percebi o seguinte: por mais que tudo que eu disse seja verdade, esse panorama não é brasileiro.
(Sr. Gonzalo: É muito espanhol.)
Muito espanhol. Mas é a Espanha, está direito.
(Sr. Gonzalo: Mas quando o senhor falou do Brasil, de onde sai mais impressões, é do conjunto, ou do litoral, ou do interior?)
O Brasil é tão vasto que a pergunta pode pôr-se como você está formulando. Eu submeto à opinião dos demais brasileiros aqui o que eu vou dizer, mas é tão vasto o Brasil que não é só tal lugar ou tal, mas é o seguinte: há tipos de lugares diferentes que se repetem, daqui, de lá e de acolá, analogias. E que então se deveria perguntar que tipos de lugares significam o quê no Brasil. Aqui está bem a pergunta.
* Carlos VII: espírito acanhado, sem valor; a meu ver é o tipo da nulidade
Agora, aqui é o oposto. Lembra-se como ele invectiva o rei carlista, não é?
(Sr. Gonzalo: Era esse Carlos VII?)
Não é tenebroso?
(Sr. P. Roberto: Parece um caudilho da América do Sul.)
Uma coisa…
Notem o seguinte, que eu acho que ele não tinha essa roupa, hein, que ele mandou o pintor fazer.
(Sr. Gonzalo: O “sangue” não se nota muito aqui.)
Mas tem o seguinte…
(…)
… a força de ser nulo, ele é completamente nulo. É um homem que é sujeito a pânicos, a ódios, ele tem acessos de raiva, depois os acessos de raiva passam e ele fica com medo, então foge de repente, é inconstante, ele olha para um lado, olha para o outro, não sabe que rumos tomar e no total se deixa levar pelas águas. A gente vê o tipo de provação a que Nossa Senhora quis sujeitar o profeta dela.
(Sr. Gonzalo: E por isso ele aconselhava que não era para apoiar.)
Não era para apoiar. Ele desaconselhou fortemente.
(…)
(Sr. Horácio B.: No meio de tudo, tem o queixo de Habsburg.)
Não, o queixo é de Habsburg. Mas isso é mais ou menos certo, que ele deve ter sangue de Habsburg, é fora de dúvida. De um lado ou doutro…
(Sr. Guerreiro: Mas o que estava subjacente no espírito do senhor, quando o senhor comentou ainda agora o que é a História, o senhor estava perplexo…)
Mas é mesmo, porque as coisas humanas são assim, elas vão, elas vêm… lembra aquele provérbio francês: tout passe, tout casse, tout lasse et tout se remplace.
(Sr. P. Roberto: Deus pairando acima de tudo.)
Pairando acima de tudo.
Mas é uma fisionomia esta que justifica que o meu Horácio esteja com os olhos tão fixos nisso, porque é um pantanal ao mesmo tempo imenso e minúsculo, porque é um espírito acanhado, sem valor. A meu ver é o tipo da nulidade.
Bom, vamos conversar um pouquinho.
Eu julguei que deveria mostrar-lhes isso…
(…)
Agora, eu queria pedir a um de vocês, o seguinte: quando vier o Leônidas para levar-me, vocês me lembrarem de levar isso também, porque eu não quero deixar isso pairando aqui nessa sala. Que essas coisas têm uma facilidade de dispersar-se que é uma coisa fantástica. O sujeito ver uma coisa dessas, e sem nenhum intuito de roubo ele leva para mandar tirar uma fotografia, e depois não tira a fotografia e depois perde. E depois de ter perdido: onde é que está isso? E não vai reconhecer que foi ele que perdeu. Então, a coisa tem a caminhada que o objeto roubado tem.
* O ambiente todo do Vedrá completa as palavras do Beato Palau; ajuda a perceber o tom de voz dele
Agora, o que é interessante para terminar essa parte da conversa é preciso tomar em consideração o seguinte: que isto a gente tem que ter na mente quando ler as coisas dele. Porque no conjunto isto forma um todo. Quando ele diz por exemplo, em certo momento, uma coisa assim: “que a lua está muito bonita…” idéia dele é que o ambiente está muito imponente, a gente se lembrar disto, imaginá-lo sozinho e olhando para essas coisas, e, de repente, é o Espírito Santo que começa a falar nele. É uma coisa colossal.
(Sr. P. Roberto: Completa muito as palavras.)
Completa as palavras. Ajuda a perceber o tom de voz dele.
(Sr. Guerreiro: Esse Oceano é o Atlântico ou é o Mediterrâneo?)
É o Mediterrâneo. Essas são as ilhas Baleares. Quer dizer, as Baleares são Majorca, Minorca e Ibiza. E isto é um rochedo que não é nenhuma dessas coisas, aquilo é um arquipélago, faz parte do arquipélago, e tem até um nome. Porque muitos desses rochedos são anônimos.
* Banhar-se na praia do Zé Menino era banhar a alma no sentimento de justiça, de força, de bom-senso e de equilíbrio
Eu não resisto a rápida tentação de dizer a vocês sobre um panorama brasileiro uma impressão que eu tenho. Mas no lado terreno está tão deformado que eu não sei se vocês chegam a ter a mesma impressão que eu. Mas a praia de Santos — não a de Guarujá, a praia do Zé Menino — é, por exemplo, uma praia que no conjunto das praias brasileiras não é tão bonita, vocês pegam a praia Grande por exemplo, é muito mais bonita. Lembra-se qual é a praia Grande, meu filho?
(Sr. Gonzalo: Não senhor, eu tenho ido muito pouco a Santos.)
Fica do lado direito de quem olha para o mar, na praia do Zé Menino, depois da praia do Zé Menino a primeira praia que aparece é a praia Grande. É enorme! Depois muito larga, é muito mais bonita.
Mas a praia do Zé Menino, quando antigamente não havia apartamentos, havia apenas prédios de residência de dois pavimentos no máximo, e que portanto não dominavam o horizonte, era apenas uma bordadura inexpressiva do horizonte, e depois quem olhava para o mar tinha que necessariamente dar as costas para as construções. As construções não pesavam no horizonte. Então, tem um aspecto que a mim toda a vida deliciou na praia do Zé Menino que eu naturalmente não vi ninguém interpretar desta maneira a praia. Mas é a própria impressão da justiça, do siso e da grandeza tranqüila, assim faustosa. Hoje tudo isso deve estar alterado, deve ter…
Há uma ilha lá chamada Urubuquiçaba, ou coisa do gênero, que é um rochedo dessas pedras marítimas, um tanto rosadas e bem bonito. Esse rochedo, houve um vereador que propôs de estourar à dinamite com o rochedo, porque atrapalhava um pouco a vista e que atraia mais turistas se destruísse o rochedo. O rochedo é muito bonito. Mas… não percamos tempo em comentar.
Isto ninguém notava, e era uma das minhas delícias tomar banho de mar lá, porque eu tinha a impressão de banhar a minha alma no sentimento de justiça, de força, de bom-senso, de equilíbrio… me fazia um bem enorme isto.
Agora, os banhistas que iam lá iam para… não percamos tempo.
(Sr. P. Roberto: Tem algo da alma portuguesa.)
Algo. E aliás, do lado esquerdo, você olhando para o Oceano, do lado esquerdo tem o resto de uma fortificação portuguesa. Na extrema ponta uma guarita, naturalmente vazia e um pedaço de muralha. A gente vê que o resto foi zupado e espandongado, mas que isto ainda resta e lembra muito os tempos de Portugal, etc.
(Sr. P. Roberto: Será que o José Bonifácio percebeu alguma coisa disso?)
Não sei também. Os três Andradas…
(…)
… descendentes de reis da Inglaterra. Ele descendia de não sei que rei — remotamente, naturalmente, mas descendia.
Não está gravando, não é?
(…)
(Sr. Gonzalo: Temos pergunta para o senhor.)
Qual é a pergunta?
(Sr. Gonzalo: A pergunta não vale a pena gravar.)
(…)
* Nenhuma vez, sem exceção, eu deixei de acolher a todos com o coração brando de minha parte; abrindo-me, fazendo notar um afeto e um carinho pessoal constantemente
Quer dizer, eu noto muito o que o Gonzalo chama coração brando, e depois um contraste entre essa brandura de coração e a dureza que fica do lado oposto. Na terminologia dele a brandura de coração significa uma certa boa disposição prévia que parece um preconceito irracional mas não é. É eminentemente razoável. E eu posso até expor isto e explicar um pouco o que é que isso tem de razoável.
(Sr. Guerreiro: São 70 anos de profetismo.)
É fora de dúvida.
Mas afinal, acontece o seguinte, que além desses 75 anos de profetismo, há uma outra coisa que se deve dizer… Me perdoem de dizer porque parece uma coisa extravagante, mas não é, é o seguinte: eu posso afirmar isto porque isto é assim. Setenta e cinco anos ou menos, porque eu não conheço nenhum de vocês há 80 anos, porque eu teria cinco anos nesse caso. Mas são muitas dezenas de anos. Eu tenho impressão que o meu conhecimento mais recente aqui é você, não é meu filho? Há quantos anos você me conhece?
(Sr. Horácio B.: Trinta anos, senhor.)
Trinta anos. Mas trinta anos de conhecimento e depois com a convivência que nos dá a nossa vocação, e depois conhecendo de perto, porque vocês me vêem em mil situações, em mil dificuldades, em mil facilitações e soluções, me vêem nas situações mais diversas, dá para conhecer de todo o jeito. Conhecer os defeitos, como também conhecer as qualidades, etc.
São trinta anos em que em nenhuma vez, sem exceção, eu deixei de acolher a todos vocês com o coração brando de minha parte. Quer dizer abrindo-me, fazendo notar um afeto, um carinho pessoal, um desejo de propor relações e um convívio com base na suavidade, na brandura, na boa disposição, etc., constante.
* Da parte do SDP, todo afeto e atenção; do outro lado, uma barreira de acrílico e frieza
Agora, com constante atitude como se entre nós houvesse uma espécie de vedação, uma chapa de vidro, ou daquele material de que é feita a minha cabine, qual é aquele material?
(Sr. P. Roberto: Um acrílico.)
Um acrílico.
Se entre nós houvesse uma barreira de acrílico, de maneira que de minha parte vai o afeto, a atenção… sempre com uma pequena nota de respeito para cada um, a preocupação de não desagradar, de me adaptar, etc. Recebido de outro lado como se houvesse um acrílico. Quer dizer, se qualquer outra pessoa lhes fizesse o décimo que eu faço de gentileza, vocês se desvaneceriam. Agora, como é feito por mim, isso é tomado com frieza.
(Sr. Guerreiro: Também as censuras, porque nas censuras vai uma bondade muito grande.)
Enorme!
(Sr. Guerreiro: Se o senhor não censurasse os erros que nós temos, o senhor não seria um bom pai.)
* Não há ninguém que tenha sido censurado pelo SDP e tenha dito: “Doutor Plinio deveria ter sido mais cordato, mais afável comigo”
“O pai que poupa a vara ao seu filho, odeia seu filho”.
(Sr. Guerreiro: Se o senhor tivesse poupado as censuras que nós merecemos o senhor não seria bom pai.)
E depois, meu filho, você imagina um modo mais atencioso e mais afetuoso de censurar do que esse?
Alguma vez que eu tenha censurado a qualquer de vocês, o censurado saiu da conversa com a idéia seguinte: “Doutor Plinio deveria ter sido mais cordato, mais afável comigo?”
Eu acho que não, porque não é possível, não sabe. A menos que entrássemos pelo caminho da extravagância, não iria.
(Cel. Poli: Aí mereceria outra censura.)
É, exatamente.
* A essa afabilidade sistemática se opõe uma recusa sistemática
Agora, a isso se opõe, a essa afabilidade sistemática, essa recusa sistemática: “o senhor me tratou assim, eu tolero, mas a mim bem pouco me incomoda. Não me faz bem, nem me faz mal, porque sua disposição de espírito ao meu respeito, eu sou neutro sempre que eu não julgue encontrar pé para uma crítica, porque aí eu serei inexorável”.
Essa é a posição prévia. De maneira que se o senhor, por exemplo, tiver uma dessas faltas de atenção que podem acontecer, por exemplo, por inadvertência levar um certo tempo antes de mandar que se sente na minha presença. Pode acontecer, eu estou preocupado com uma coisa… acontece com qualquer um. Mas aí não: “está vendo, ele me deixou ficar em pé não sei quanto tempo porque estava falando com fulaninho, ele não sabe quem é que ele deixou ficar em pé? Sou eu! É a mim que ele deixou ficar em pé! Onde é que se viu uma coisa dessas?”
E lá vai por aí.
* “O demônio estabelece um teor de relacionamento pelo qual eu fico impedido de ir à frente e vocês ficam libertados para recuarem tanto quanto quiserem”
Agora, qualquer gentileza, amabilidade, afago até que eu faça, pouco se incomodam. Não adianta fazer nada. A tal ponto que eu várias vezes me fiz a pergunta seguinte: “não vale a pena apagar a luz?” Mudar de modo de tratar e a luminosidade discreta, mas contínua, infatigável, real, suprimir. E tratar sem pito nem descompostura, mas no duro. Aí dava encrenca. Aí dava encrenca.
(Cel. Poli: E seria de justiça.)
Isso é, exatamente. Seria justo que eu fizesse isso.
Mas no fundo, o demônio — porque eu não acho que isso se possa ver dissociadamente do demônio — consegue por essa forma estabelecer um teor de relacionamento pelo qual eu fico impedido de ir à frente, e vocês ficam libertados para recuarem tanto quanto quiserem.
Agora, qual é a razão disto?
* Imaginem-se morrendo e comparecendo diante de Deus que diz: o mensageiro da minha misericórdia, da minha bondade, da minha doçura, veja como vocês trataram
Quer dizer, vocês se imaginem morrendo e comparecendo diante de Deus, e Deus faz ver como um filme todos esses contatos, e pergunta: “por que foi isto? Quer dizer, eu mandei este homem para junto de você, e mandei para que ele fizesse isto, e isso aí era uma manifestação das minhas disposições para com vocês; agora, o mensageiro da minha misericórdia, da minha bondade, da minha doçura, veja como vocês trataram.
“Agora, imaginem que pusesse na sua presença uma pessoa que lhes trouxesse algum interesse econômico, ou alguma projeção de qualquer natureza”.
Ah, mudava:
— Faz favor, tenha bondade, eeehhh, etc.
— Agora explique isso.
Que explicação nós daríamos? Eu estou sendo claro ou não?
Isto indica um trabalho com o arrière fond do demônio que vai muito na linha do que você falava há pouco do auditório, uma certa ala do auditório. Quer dizer, esses estados de alma assim são comunicáveis não sei porque osmose psicológica… * [vira a fita] * … de outra que tem o estado de espírito bom, é claro que o estado de espírito ruim filtra muito mais facilmente do que o bom, isso é uma coisa evidente. E nós temos assim um apodrecimento das pessoas boas em contato com as outras.
Aliás, o fatinho “Palau-Calau” exprime isso perfeitamente. Porque diante de toda grandeza do assunto Palau, diante de toda amplitude, beleza, etc., etc., tomar uma coisinha dessas… Como eu soube de umas duas ou três pessoas que faziam disso uma espécie de cavalo de batalha: “não tem propósito!, é preciso aprender a pronunciar os nomes das pessoas como esses nomes são”. Sem tomar em consideração a minha idade, a fadiga constante por ocupações e trabalho de toda ordem, a direção simultânea de 26 TFPs e quantas outras coisas…
(Sr. Guerreiro: As nossas infidelidades monstruosas.)
Aí é que está.
Qualquer um dos que “calauisam” ou “palauisam” o assunto, qualquer um deles que tivesse um avô nas minhas circunstâncias ou na minha idade e que tivesse uns deslises desses, sorriria, acharia simpático: “compreende-se, etc.”, e trataria com respeito.
(Sr. Gonzalo: […] Calau e Palau dá no mesmo.)
* O natural seria que houvesse uma onda em sentido contrário no próprio auditório de maneira que os adeptos da ofensiva “Calau” sentissem o contragolpe
O exemplo característico da bagatela é Palau-Calau.
Mas veja o seguinte: o natural seria que houvesse uma onda em sentido contrário no próprio auditório, de maneira que os adeptos da ofensiva “Calau”, que estes os adeptos sentissem o contragolpe de gente que de um modo expressivo deixasse entender que não compreenderia… Não, também não.
(Sr. Gonzalo: Há uma coisa que não sei se é suficiente, mas que cada vez que o senhor diz “Calau”, todos os enjolras gritam: “fenomenal!”, etc., imediatamente.)
É, mas isso é articulado. É muito bom que seja articulado, mas como manifestação de um estado de espírito individual…
Bom, isso é para vermos o seguinte: que se em relação a mim esse estado de espírito é assim, indica exatamente uma dureza, no fundo, em relação a Nosso Senhor e Nossa Senhora. No fundo é, não adianta querer tapear, e […inaudível], porque é isto.
(Cel. Poli: A não ser que se imagine um Nosso Senhor e uma Nossa Senhora como não são.)
Como não são.
* Essa dureza em relação ao SDP é um enclave do demônio
Isto dito entre nós com esta franqueza, seria uma razão a mais para que esse estado de espírito desaparecesse, mas de fato se nós não rezarmos para que desapareça, não desaparecerá. Porque é uma coisa em ponto minúsculo — eu não acho que isso seja uma possessão — parecida com uma possessão. É um enclave do demônio.
(Sr. P. Roberto: […] Esse estado de espírito é o estado de espírito de dureza.)
De dureza.
(Sr. P. Roberto: Então o senhor dizia que se devia estudar isso. O que no fundo é exorcizar isso em nós.)
É, o que eu acho é o seguinte: que isso é objeto de uma ação do demônio, mas nem toda ação do demônio é uma possessão. De maneira que eu digo que não é uma possessão, mas não acho que seja uma coisa alheia à uma ação habitual do demônio, acho pelo contrário que é o fruto, em boa parte pelo menos, de uma ação habitual do demônio para a qual nós manifestamos uma abertura verdadeiramente lastimável, mas é isto.
* Esse enclave do demônio se dá pela admiração infundada e tonta pelo mundo e pelos que são deste mundo
Agora, estudar bem como o demônio faz isto, no nosso caso concreto, eu acho que vem do seguinte: o demônio aviva habitualmente em nós a admiração infundada e tonta e a simpatia transbordante pelo mundo e pelos que são deste mundo. O “degas”, o titio, etc., a pessoa tem uma quase que um chipófago, psy-chipófago com essa gente assim. E sente que eu convido para outra coisa, convido até para se dissociar dessa gente, para tratá-los com correção, com distinção, com respeito, mas não participarmos do espírito deles. E isto as pessoas não querem porque não querem renunciar este estado de espírito. E por quê? Por egoísmo, porque a pessoa acha esse estado de espírito da sua ilha nativa, da ilha doméstica nativa, uma delícia, e portanto, não quer renunciar. Está acabado. Não tem conversa.
(Sr. Guerreiro: É o caramujo.)
É o casco do caramujo. A expressão é muito boa.
* Como o SDP sentia esse enclave atuar em si; encontro com os primos para o jantar de 5ª feira
Eu, aliás, em outros tempos, senti isto muito em mim, e tive que vencer. De maneira que eu descrevo dificuldades que eu tive que enfrentar…
(…)
Eu me lembro aqueles meus primos aos quais eu me refiro tão freqüentemente, a companhia deles, da casa deles, dos pais deles, e de tudo mais, era para mim tudo quanto havia de mais aprazível, de maneira que eu tinha conhecidos, amigos, etc., mais importantes, mais inteligentes, mais instruídos, mas nada me entretinha nem me distraía tanto do que estar com eles, ir na casa deles ou tê-los na minha casa.
Eu me lembro, quando eu era ainda pequeno, de um fato que era assim: eles moravam a uma pequena distância, uns três ou quatro quarteirões de minha casa, e quando chegava 5ª feira que era dia de eles irem em casa, passarem toda tarde e a noite e jantarem em casa e ainda ficarem depois, as três crianças que havia em minha casa, que eram minha irmã, minha prima e eu, a partir de certa hora ficávamos elétricos com a idéia de que eles estariam chegando, e íamos várias vezes à uma janela, que havia para ver se estariam chegando mesmo. E naturalmente eles chegariam a hora que queriam, Às vezes antes outras vezes depois da hora, dependia do que a governanta alemã deles resolvesse segundo as conveniências dela, exclusivamente.
Mas eles naquela linha reta assomavam no horizonte, nós três despencávamos da escada que descia de casa para o jardim, e se a Fraulein Mathilde estava por perto e permitia, nós saíamos de nossa casa e íamos correndo de encontro a eles. E quando eles nos viam, começavam a correr também em direção a nós. De maneira que as duas tribos se encontravam vagamente a meio caminho. Mas num festejo mútuo, e num comprazimento, num derretimento mútuo que fazia ver bem, às sobras, que eles também sentiam a mesma coisa em casa. E faltar a um jantar de quinta-feira em minha casa, não tinha perigo que eles faltassem. Podia chover canivete com ponta para baixo, que eles iriam. Como também nós deixarmos de estar presente numa noite dessa, não tem perigo. E era a suma diversão.
Era evidentemente esta afinidade que o parentesco e muito encontro traz, mas havia alguma coisa a mais.
O que é que era essa coisa a mais? É difícil dizer.
* O que determina essa frieza e recusa em relação ao SDP é a delícia que cada um experimenta em relação àquilo que deixou
Mas com o tempo eu tive com eles a ruptura e o distanciamento que vocês sabem, e minha irmã não, minha irmã manteve com as moças de lá um contato íntimo. Mas que foi diminuindo com o tempo à medida que minha irmã foi freqüentando cada vez mais a sociedade, e elas, pelo menos uma delas, mais retraída de gênio, ficou na posição que estava. E com isso o convívio entre ela diminuiu sem diminuir a cordialidade, e diminuindo cada vez mais.
Muito tempo depois houve um jantar comemorativo de qualquer coisa lá deles, e eles convidaram a minha irmã e não convidaram a mim. E eu caia das nuvens se convidasse, porque as relações não estavam nesse pé. Ela esteve lá, ela jantou com eles e depois ela disse: olha, é um passado no qual a gente imerge que é completamente passado, eles vivem ainda no tempo do pai deles, quando eles falam de certa pessoa de nosso tempo, eles têm comentários assim: “fulano de tal…
— Quem é fulano?
— Fulano é primo ou pai ou tio de sicrano.
Outro diz:
— Papai se dava muito com eles.
Quando se diz que papai se dava muito com eles, era tido como grande homem.
O papai tinha morrido, o tal ele tinha morrido também, tudo tinha mudado, mas esses valores estava inteiramente de pé. Mas ela me disse:
“É uma coisa curiosa, mas eu jantei lá com eles, e achei uma delícia”.
Quer dizer, é a tal coisa que pega.
Agora, é esta coisa que cada um experimenta em relação àquilo que deixou. E é esta coisa que determina esse frio, essa recusa, etc. Porque a gente percebe que o que eu estou pedindo é isto. Aliás, eu não oculto, eu estou dizendo. Toda a nossa estruturação de nossa vida é essa.
* A condição para que a graça nos dê tudo é a de darmos tudo; e a gente não quer dar tudo
Mas é isto que a gente vê que a graça pede como condição para ela também dar tudo. E a gente não quer dar tudo. E eu do modo mais afetuoso, mais amável, enfim, com tudo que se chama a cortesia católica, ou a caridade católica, procuro pedir mas de maneira a tornar o pedido exorável, atendível, etc. Mas a resposta é não. “Não, porque eu não quero ver de frente qual é a razão, mas há uma razão. A razão é essa: tal coisa eu não quero dar”.
(Sr. Guerreiro: Que mistério é esse?)
Meu filho, eu acho…
(Sr. Guerreiro: Que está no “transfond” da alma da pessoa, e que por assim dizer ela se julga mais ela mesma ligada a isto do que se ela se desligar disto.)
É isto, mas entram simpatias que é difícil explicar.
(…)
* Quando se estabelece uma relação entre o lado católico e o não católico, o lado católico é mais sensível e mais mole que o não católico; a parte pior domina sempre a parte melhor
… uma relação dessas, pelo lado bom o católico é muito mais sensível a isto do que o outro.
(Sr. Gonzalo: Perdão, eu não entendi.)
Quando se estabelece uma relação, por exemplo, entre você e seu ambiente ou meu ambiente e eu, há um lado católico e outro lado não católico. O lado católico é mais sensível e mais mole do que o lado não católico. De maneira que há coisas que são do outro mundo. Por exemplo…
(…)
Esse sentimento assim de interdependência — vamos chamar isso assim — interdependência afetiva, esse sentimento é tal que a parte pior domina sempre a parte melhor. Então, a parte pior não se incomoda de romper, não se incomoda de provocar, não se incomoda de ser desatenciosa, etc., é porque gosta, se não gostar manda às favas. É um achar gostoso como seria achar gostoso comer um pão, um melão, um papaia, uma coisa qualquer. Come e come, quando se matou a vontade de comer, ainda que tenha o que tirar ali dentro, manda para copa, e vai para o lixo porque não quer mais. Assim fazem eles.
Nós não, somos os fiéis, nos multiplicamos, acreditamos, levamos pontapé e ainda ficamos com xodó.
Não sei se…
(Cel. Poli: A toda hora estamos vendo essa porcaria.)
A toda hora está vendo essa porcaria. Mas eles fazem assim, porque eles já sabem e sentem que nós vamos ceder.
(Sr. Gonzalo: Eles já sabem que o senhor não cede, e aí o nó com o senhor.)
O nó comigo.
(Sr. Gonzalo: É assim mesmo.)
E depois fazem sem-vergonhice de toda ordem. Eu me escuso em estar dando tantas reminiscências de caráter doméstico, mas…
(…)
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