Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
22/10/94 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 22/10/94 — Sábado
É muito difícil excogitar, como sinal prenunciativo da vinda do demônio, algo que seja mais adequado * A intenção do demônio seria de levar todos os homens a construírem uma contra-civilização que seria a civilização dele * Ingerir esta matéria é um consórcio da honestidade com o crime de um valor simbólico pavoroso * Quando o ódio, a repugnância, a oposição decresce um milímetro, está aberto o caminho para o sujeito comer isso * Toda pessoa que tenha aberto de algum modo sua alma para ingerir o que expele, morrerá muito adiantada neste caminho * Esse primeiro passo do homem rumo a ingerir o que expele representa, em marcha ascendente, o grão de areia de uma infestação diabólica * Na “Bagarre” azul havia uma alegria geral que era como que um cântico sem música; esse cântico era o cântico do demônio * À continuação desse cântico, os homens passaram a entoar os gemidos do infortúnio; o grande ponto em que se nota a inocência da SDL é que ela não tinha parte com esse cântico do demônio * Há uma terra de ninguém dentro das cabeças das pessoas que é possível mover de um modo espantoso
(…)
… todo o mundo que está aí andando pela rua aí, o que pensa é isso.
(Sr. Guerreiro: Eu estou com outra aqui engatilhada para em certo momento…)
Disseram-me isso, mas não fica do lado de cá, não é?
(Sr. Guerreiro: São dois rins, senhor. Então tem toda uma outra promessa já.)
Está bom. Mas é isso mesmo, meu filho… agora, não tome à toa um resfriado, fica um pouco mais […inaudível].
(Sr. Guerreiro: O resfriado do senhor é benéfico para mim.)
Não, não diga isso não.
(Sr. Guerreiro: Para que o senhor se recupere prontamente.)
Amém, meu filho.
Meu Paulo Roberto, eu já falei com você?
(Sr. P. Roberto: Já falou, senhor.)
E você, meu filho?
Meu caro Edwaldo, distância, não é?
(Dr. Edwaldo: Nunca! Distância nunca, senhor!)
Viva, meu Coronel!
Vamos sentar.
Ah, temos que rezar três Ave Marias…
Ave Maria…
Qual é a matéria de hoje, como são as coisas?
(Sr. Guerreiro: A matéria é super importante.)
Não me lembro mais bem o que é que era.
(Sr. Gonzalo: [Resumo da reunião anterior]
Não sei se isso é suficiente ou não.)
* É muito difícil excogitar, como sinal prenunciativo da vinda do demônio, algo que seja mais adequado
Isso em certo sentido é largamente suficiente. Em outro sentido a matéria é tão vasta que se poderia evidentemente fazer outras perguntas também, etc. A matéria é mais ou menos inesgotável.
Agora, eu gostaria de precisar uma coisa que você repetiu aqui com muita fidelidade, mas que é preciso sublinhar, a respeito da reunião passada. Eu disse que as circunstâncias proporcionavam, ou permitiam dizer que provavelmente o reino do demônio tinha chegado.
O “provavelmente” é um advérbio indispensável para dar às coisas a medida exata que lhes compete. Quer dizer, é uma coisa que — a palavra “provavelmente” é um advérbio conhecidíssimo, de uso absolutamente corrente — uma coisa provável, é uma que tem mais possibilidade de realizar-se do que de não se realizar. É o sentido mais corrente, mais elementar da palavra provável em todos os idiomas de que eu conheça alguma coisinha.
É interessante no alemão que é uma língua que toma muito ao pé da letra as coisas, como o alemão exprime o provável, é o wahrscheinlich. Scheinlich é parecido. wahr com verdade. “Parece verdadeiro”. Wahrscheinlich. É igual ao que é em português o provável. E aliás, em todas as línguas latinas.
(Sr. Gonzalo: Não é o mesmo que verossimilhança?)
Ao pé da letra o wahrscheinlich é verossímil. É parecido com a verdade. Mas uma coisa que é parecida com a verdade, se entende no sentido de que é mais provavelmente a verdadeira. E por causa disso eu quis empregar esse advérbio e ser bem positivo.
Agora, qual é o alcance da coisa?
Tomando o princípio de que isto é provável, isto quer dizer que é certo que de todos os fins, de todas as modalidades que nós possamos excogitar para a vinda do demônio como sinal prenunciativo ou já primeiro sinal da vinda do demônio, é muito difícil a gente imaginar uma coisa mais adequada do que essa.
(Sr. Guerreiro: Isso que seria interessante o senhor explicar porque nesses movimentos de rock and roll, esses conjuntos contemporâneos, a presença do fator demoníaco, explícito, é uma coisa que é assente hoje. A figura do demônio, toda apresentação, a encenação toda, as letras, etc., os personagens, todo arranjo pessoal dos cantores, etc., são nessa linha. Então seria interessante o senhor explicar por que é que o senhor atribui a este fato um caráter mais simbólico do que isto…)
* Um símbolo é tanto mais simbólico quanto maior é a violência com que ele atinge os sentidos humanos
Em primeiro lugar eu não mencionei o rock porque não o conheço, e não sabia… eu genericamente sabia que era uma coisa demoníaca, mas demoníaca, pensava eu, num sentido muito mais metafórico da palavra. De maneira que não mencionei o rock. De um lado.
Agora, de outro lado, há uma razão pela qual isto é mais demoníaco, é que quando um determinado símbolo atinge os sentidos humanos, ele é tanto mais simbólico quanto maior é a violência com que ele atinge os sentidos humanos.
Vamos dizer por exemplo, o seguinte: eu recebi uma carta muito bonita de um dos rapazes do — eu creio que foi o Luc Berrou — Grupo de Paris, que andou com o Nelson Fragelli rodando pela Bretanha para colocar o Livro com um êxito, aliás, brilhante. Um deles escreveu-me uma carta que talvez os dois tenham assinado, já não me lembro bem, contando também coisas pitorescas e interessantes, dos lugares que eles foram percorrendo.
Por exemplo, junto ao mar uma península com forma de cruz, na qual nos tempos ainda antigos, portanto, da Gália que ainda não era a França, você vê que é portanto, uma espécie de pré-história francesa, nem é a história francesa, neste tempo um São qualquer, desses Santos cujos nomes estão no calendário da Igreja mas a gente já perdeu a memória do que é. A Igreja tem tudo registrado, mas nós não temos. Um desses Santos construiu um mosteiro nesta península. Mas vieram circunstâncias e o mosteiro foi derrubado. Então, algum tempo depois um outro veio e construiu outro mosteiro, e esse mosteiro foi derrubado, se minha memória não me trai, por ocasião da Revolução Francesa. Naturalmente, deu também angu, etc., e está nesse pé.
Eu me lembro que eu formei o propósito de no Reino de Maria mandar construir um mosteiro de louvor a Ela nesta península, e com sentido reparador, etc., que seria um sentido muito bonito.
Mas tinha uma coisa que entra — isso eu apenas conto de passagem — muito belamente o que eu vou dizer.
Há um certo lugar ali, [que] se tornou lendária a presença de um homem que teria vivido lá pela Idade Média, creio que pela alta Idade Média, e que era conhecido como o louco da floresta. Esse homem era doido, e ele apenas sabia dizer “Ave Maria!”, e com todas as pessoas que ele encontrasse, etc., ele dizia “Ave Maria!” A pessoa perguntava alguma coisa, e ele respondia “Ave Maria, Ave Maria!”, e depois saía e continuava a vaguear por lá.
Afinal ele morreu. Quando ele morreu, enterraram. Depois por uma necessidade prática qualquer, foi preciso desenterrá-lo para pôr no lugar uma construção, qualquer coisa, e então abriram o caixão dele, e saía da boca dele, um lírio lindíssimo e em cada pétala do lírio escrita com letras de ouro Ave Maria.
A coisa é tão bonita que dispensa comentários.
Depois o que tem no fundo de ver o que há de sabedoria nesse louco que só diz Ave Maria, tem um sentido tão quintessenciado que eu nem encontro palavras adequadas para louvar a isto.
(Sr. Guerreiro: Bem-aventurança.)
Uma bem-aventurança.
Então eu digo que esta coisa, esse símbolo nos toca muito porque ele fala de algum modo, ele enuncia um princípio, mas ele enuncia por um fato sensível que toca a sensibilidade do homem, e nesse ponto tem uma força de impacto que algum símbolo mais estudado, talvez culturalizado tem muito menos. Se se for tomar toda aquela mitologia romana e grega, ou então mitologia de Wagner, para mim não é nada em comparação com isto, evidentemente.
* O espírito humano não pode excogitar uma coisa que dê mais noção do hediondo do que o homem, na “gastronomia nova”, se dispõe a ingerir
Agora, por que é que por exemplo isto fala muito mais do que ídolos que os mártires com tanta razão odiaram. É porque isto diz alguma coisa à inteligência, mas diz por meio dos sentidos, tendo uma força de impacto nos sentidos, que é enunciativa de quanto a inteligência aceitou, e de quanto a vontade amou. Aqui está a questão. De maneira que essa história do louco da floresta, é tudo. Porque a gente imagina a floresta, imagina o louco, imagina o louco errando de um lado para outro, sem saber como vai, etc., etc. Encontra um bandido, o bandido diz para o louco: “me dê tua capa!” O louco diz: “Ave Maria!” O bandido sai correndo. E daí para fora.
Isso é na linha do sublime. Mas o mesmo pode dizer-se na linha do hediondo. E na linha do hediondo o espírito humano não pode excogitar uma coisa que dê mais noção do hediondo do que o homem, na gastronomia nova, se dispõe a ingerir.
Não sei se eu…
(Sr. Guerreiro: Está prodigiosamente bem explicitado.)
Por exemplo, uma outra expressão muita enérgica, tão enérgica e tão repugnante que se não fosse de quem é, eu nem diria. Mas quando São Pedro usa aquela expressão “volta o cão ao próprio vômito”. Quando o homem levava uma vida de pecado, e depois ele renuncia esses pecados, ele limpa seu organismo do pecado que estava nele, da matéria indigesta que estava nele. Mas depois ele lambe aquilo e come aquilo de novo. Isso é uma coisa repugnantíssima e para exprimir a condição do pecador que volta ao pecado, São Pedro encontra esta frase incisiva, dilacerante: “volta o cão ao próprio vômito”.
(Sr. Gonzalo: A impressão que me dá quando o Chile elegeu Frei filho a presidente.)
Mas é isso.
(Sr. Gonzalo: É o voltar ao próprio vômito.)
Mas é isso, é isso. Quer dizer, a Providência libertou o Chile do Frei I, e o Chile relambe aquela sujeira pondo-se sob a direção de Frei II.
(Sr. Guerreiro: Se com o vômito se dá toda essa repugnância, quanto não mais será…)
Pois é.
(Sr. Guerreiro: E depois o caráter universal disso. Porque isso está ao acesso de todo homem saber que isto pode ser assim para com ele.)
É evidente! É evidente.
* Se estabelece um regime no qual o homem é levado ao último de sua abjeção; na iconografia esquecem-se de representar o demônio como um ser nojentíssimo
Agora, isto posto, acontece que se estabelece um regime, se estabelece uma perspectiva na qual o homem fica levado ao último de sua abjeção. O último da abjeção, é o próprio ao último ser em matéria de abjeções que é o demônio.
Entra aqui uma ponderação iconográfica que nos mostra as finuras da Revolução. Já temos falado várias vezes de finuras revolucionárias em matéria de iconografia boa, de Santos. Mas vamos falar agora das finuras revolucionárias em matéria de demônio.
As várias representações que a iconografia dá ao demônio, feitas por pessoas que são partidárias do demônio, ou feitas por outros que não são partidárias mas que querem, que têm a intenção de deprimir, como são por exemplo pintores católicos que querem representar o demônio no inferno como ente abjeto, etc., e encontrar-se com uma outra parte do quadro em que estão Deus com seus Anjos e com seus Santos, eles pintam o demônio como péssimo, como feíssimo, como desfiguradíssimo, esquecem-se de o representar como nojentíssimo.
Quer dizer, uma pintura que represente o demônio como um ser abjeto, mas ao pé da letra abjeto, nojento, que vamos dizer, por exemplo, é tão, tão desfigurado que ele tem uma boca colocado no cotovelo, e que quando ele ri, ele ri pelo cotovelo, e que a boca dele não é capaz de rir. E que tem, por exemplo, aqui um órgão que produz olhos a toda hora, que ele vai guardando numa bolsa imensa. De vez em quando ele de raiva arranca seus olhos, joga fora e põe dois olhos que ele tem guardados aqui e que são vivos, mas que o queimam horrivelmente, ele põe no lugar. Essas coisas assim representações monstruosas e que dê um arrepio que afasta diretamente o demônio, não há.
Eu me lembro que in nihilissimo tempore eu vi aqui em São Paulo, numa loja, uma coisa assim, um demônio representado na entrada. É um demônio tipo florentino, com uma daquelas toucazinhas de veludo, com uma pena que saía daqui, ele vestido mais ou menos como um fidalgo, todo preto, mas preto completamente, mas com todos traços finos de um branco, e de um florentino, e esse demônio rindo e oferecendo para o transeunte uma taça com um líquido qualquer — lá, naturalmente não tinha líquido na taça, mas a taça simulava conter um líquido qualquer. Era um demônio de uma sutileza, de uma finura, de uma inteligência, que quase causava admiração.
(Sr. Gonzalo: Fica atraente.)
Atraente. Isso aí é evidentemente uma propaganda a seu modo do demônio.
(Dr. Edwaldo: Aquele demônio que o Duque de [Buron?] descreve e que ele viu no salão do Duque de Orleans.)
Quem escreve?
(Dr. Edwaldo: Duque de [Buron?]. É o Lauzane que depois ficou Duque de Buron.)
Não me lembro não.
(Dr. Edwaldo: No salão do Duque de Orleans, na presença do Duque de Orleans, do Felipe Egalité. É um demônio nu, o corpo humano nu, assexuado e com uma cicatriz medonha que começava na fronte e rodeava o corpo inteiro e ia terminar num dos calcanhares. E com a boca aberta que ele não articulava, mas falava por essa boca perpetuamente aberta.)
Que horror!
(Dr. Edwaldo: Mas não articulava.)
Horrível! Pois é, um demônio assim, no tempo em que eu vi isso numa loja ninguém compraria. Mas um demônio como eu descrevi, tinha comprador. É evidente.
* A intenção do demônio seria de levar todos os homens a construírem uma contra-civilização que seria a civilização dele
Então, eu acho que nós devemos calcular que a intenção do demônio seria de levar todos os homens a construírem uma civilização, que evidentemente seria uma contra-civilização, dele. Essa contra-civilização teria as artes, mas todas as artes dominadas por ele a serviço do hediondo mais radical possível. E o hediondo radical, atinge toda a sua radicalidade quando ele exprime a náusea repugnante. Aí é a incompatibilidade completa do homem. E tornar o homem e familiar com o que é repugnantemente nauseante, e viver nisto, e comer isto, conviver com isto. Vocês imaginem simplesmente o seguinte:
Um de nós vai à casa de um amigo que está acabando de tomar o lanche. O amigo se levanta e vem em nosso encontro. Mas ele por cortesia, como está com um pouco de comida nos lábios, enxuga os lábios antes de nos apertar a mão.
É uma coisa comum. Nós não vamos dizer que ficamos nauseados por que um pedacinho de presunto do sanduíche ficou nos lábios dele, isso é um preciosismo ridículo. Mas se soubermos o que ele tem, o que ele estava comendo, e o que ele enxugou nos lábios…
(Sr. Paulo Henrique: Muda completamente.)
Muda.
(Sr. Gonzalo: É espantoso.)
* Consumada essa contra-civilização o demônio pode voltar-se para Deus e dizer: “olhai para o que resultou de tudo que fizestes!”
É espantoso! É para lá que ele quer ir. Porque quando ele tiver levado a Humanidade a fazer isto, ele pode voltar-se para Deus numa imensa gargalhada: “Isto aqui é o oitavo dia. No sétimo, Vós descansastes. Em todos os dias consecutivos trabalhei eu, aqui sofrendo, apanhando, neste inferno em que vossa onipotência me jogou. Mas do fundo da minha desgraça, eu fiz a vossa. Olhai para o que resultou de tudo que fizestes! Ahahahah!”
E nisto, entra um padre com um pão com trigo e trigo puro, consagra, e mete numa taça com excrementos e bebe nas gargalhadas: “Aqui está o vosso sacrifício cruento, poético, lindo, no alto da cruz, olha o que é que eu fiz dele”.
Daí naturalmente a cólera de Deus levada à uma plenitude inimaginável desatar-se produzindo o fim do mundo. Quer dizer, a coisa tem o seu sentido.
(Sr. Guerreiro: A gente vê como a Ação Católica, Cursilhos de Cristandade, pentecostalismo…)
Tudo vai para aí.
(Sr. Guerreiro: Eles estão no fundo já como que preanunciando isto.)
Isso.
(Sr. Guerreiro: E isso deles utilizarem isso para alimento do homem, a gente vê que é uma espécie de extremo oposto do alimento que Nosso Senhor deixou para o homem…)
É.
(Sr. Guerreiro: E que é uma necessidade fundamental do homem do alimento, para se santificar.)
Pois é. E depois a gente vê a narração da Santa Ceia no Evangelho: Hic est enim calix sanguinis mei novae et aeterni Testamenti: mysterium fidei, qui pro multis effundetur in remissionem peccatorum. É de uma sublimidade! Só falar das santas e veneráveis mãos d’Ele…
(Dr. Edwaldo: Que eles amputaram da liturgia, hoje não dizem mais.)
Ah, não dizem mais isso?
(Dr. Edwaldo: Cortaram há muito.)
Ah é? Mas tinha que ser, não é? Por que cortar? O que é que justifica?
(Dr. Edwaldo: Eles sabem porquê.)
Ah, eles sabem.
(Dr. Edwaldo: Não sei se o senhor está lembrado que há um certo tempo atrás o senhor comentou de um vinho que estão fabricando com essa matéria.)
Tenho idéia, agora que você está falando.
(Sr. Guerreiro: No Japão.)
Mas isso entre orientais e pagãos, etc., etc., causa horror, mas não é o horror que causa a nós descendentes de cruzados, de nações que fizeram as cruzadas, e que expulsamos os mouros, e que isso, que aquilo, e que aquilo outro, é uma coisa…
(Sr. Gonzalo: É sinistro.)
Sinistro!
(Sr. Gonzalo: Isso seria o homem fechando sobre si mesmo, ou seja, a pessoa que se alimenta daquilo que produz. Há algo aí de muito…)
* Ingerir esta matéria é um consórcio da honestidade com o crime de um valor simbólico pavoroso
De como que igualitário.
(Sr. Gonzalo: Um ciclo fechado, propriamente. Seria isso?)
Seria isso.
(Sr. Gonzalo: Há odores piores, mas é algo feito pela própria pessoa…)
E depois outra coisa, que é o fruto da rejeição orgânica.
O igualitário ao meu ver está nisso: o que foi rejeitado, aquilo que foi recusado, e que é veneno para o corpo se o corpo não expelir, a tal ponto que gera doenças, então o veneno daquilo que o homem comeu, ele separou algo que para ele é alimento, e graças ao que ele viveu. E separou outra coisa que para ele é veneno, e se ele ingerir pode produzir uma intoxicação cujo tamanho não é calculável. Pode ser que mate. O ser alimento, para um ente de caráter inferior como é o trigo, é uma honra. O vinho e o pão, são seres honrados porque servem para alimentar um ser de ordem superior.
Agora, o ser rejeitado pelo organismo é uma vergonha. Porque ele foi repelido como incompatível, como despiciendo. Há um desprezo que se liga a ele, que é ligado a essa abjeção, é uma matéria como que criminosa. Ingerir esta matéria é um consórcio da honestidade com o crime de um valor simbólico pavoroso.
(Sr. Gonzalo: E nesse sentido essa matéria é muito semelhante ao próprio demônio. O rejeitado, o inaceitado, etc., e voltar, é uma forma dele voltar.)
Notem bem, que segundo São Tomás e toda doutrina católica, ele não quer voltar para o Céu, mas não exclui que ele não queira de algum modo pôr em ordem a situação dele. O pôr em ordem é isto. Quer dizer, não é propriamente de pôr em ordem o universo, mas é pôr Deus na desordem.
(Dr. Edwaldo: Exprime uma revolta colossal.)
Colossal. Que não quer aceitar, não é?
(Sr. Guerreiro: No fundo é a matéria mais incompatível com a essência da natureza humana.)
Isso, isso.
(Sr. Guerreiro: E que ele quer resgatar.)
Tal e qual.
(Sr. Guerreiro: E depois é o que produz náusea, não é?)
E depois outra coisa, como tudo é criatura de Deus, este material e o vômito do cachorro, são indiretamente criaturas de Deus. Agora, essas criaturas Deus deu para que o homem tenha horror ao mal. Elas simbolizam de algum modo o mal. Agora, o indivíduo pegar disto e fazer uma comunhão disto…
(Sr. P. Roberto: Uma coisa interessante que eu vi nesse trabalho que o senhor pediu para eu fazer, é que diz a Sagradas Escrituras que Salomão manchou a veste branca com este material dele, e se desonrou. Ele tinha a veste da inocência e que sobre essa veste ele lançou esse material. Então assim é que ele simboliza a apostasia de Salomão e das pessoas que na sua velhice mancharam a sua inocência com isso. Vem muito a calhar com o que o senhor está dizendo, porque o símbolo da inocência é a veste branca, e depois jogar sobre a veste branca este material, é o símbolo mais forte que…)
Que a Escritura encontrou…
(Sr. P. Roberto: Para dizer isto.)
Exatamente.
Agora, ingerir isto! Quer dizer, não é lançar sobre um tecido, mas é comer! Você calcule hein!
Quer dizer, o homem meter dentro de seu corpo batizado este material!…
(Dr. Edwaldo: O corpo que é templo do Divino Espírito Santo.)
É templo do Divino Espírito Santo. Neste templo pôr uma coisa dessa, é uma coisa que não tem eira nem beira.
(Sr. Gonzalo: E a graça oposta a isso? […] Que manifestações o senhor vê nessa linha da ação da graça por meio da TFP e que esteja ligado a isso que é tão bonito, que o Beato Palau fala do Moisés da Graça…)
Moisés da Lei da graça. A expressão, propriamente é essa.
(Sr. Gonzalo: Quer dizer, do Novo Testamente então?)
Novo Testamento. Moisés do Novo Testamento.
(Sr. Gonzalo: Mas só essa frase tem um pulchrum!… Como se desdobra isso?)
* Quando o ódio, a repugnância, a oposição decresce um milímetro, está aberto o caminho para o sujeito comer isso
Meu filho, da maneira seguinte: vocês todos vão ficar horrorizados com o que eu vou dizer, mas vão concordar comigo de chão, assim diretamente.
Houve tempo em que, eu não me lembro a propósito do quê, eu usava a metáfora do Pão-de-açúcar que se pôs em movimento. E eu sustentava que o mais difícil para pôr em movimento o Pão-de-açúcar, era fazê-lo percorrer o primeiro milímetro, que se alguém conseguisse fazê-lo caminhar um milímetro, daí para frente a coisa já não era tão terrível. Mas tirá-lo daquilo em que ele está firmado, em que toda atração da lei da gravidade sobre ele o fixa ali, e movê-lo um milímetro, isto é uma coisa colossal.
Fazer um homem caminhar ao extremo repugnante de comer isto, é uma coisa que é uma caminhada tão enorme, que o homem por sua natureza, está fixado na rejeição disso como o Pão-de-açúcar está fixado no solo.
Mas o primeiro pecado e o pecado mais terrível neste caminho, é quando foi consentido em mover o primeiro milímetro.
(Cel. Poli: E esse primeiro milímetro foi agora?)
Como é esse primeiro milímetro?
Vocês analisando bem até o fundo, chegam à seguinte conclusão: é quando o ódio à coisa decresce. Não é apetência da coisa, que aparece, essa apetência aparece muito mais tarde. É a repugnância, a oposição àquilo, quando decresce um milímetro, está aberto o caminho para o sujeito comer isso.
(Sr. Paulo Henrique: É óbvio que chega até o paroxismo.)
É óbvio. É óbvio.
(Sr. Paulo Henrique: Nós não vemos isto com essa clareza que o senhor diz, mas uma vez dito…)
Foi o que eu disse há pouco, você iam concluir assim… de liso! Não tinha a menor dúvida. Por quê? Porque é óbvio.
Então vocês compreendem bem o processo de diminuição de oposição e de ódio a toda espécie de mal, a toda espécie de feio, como vem de longe, e que este processo começado aí, conduz depois a todo resto… [vira a fita] … infelizmente não.
(Sr. Paulo Henrique: É o penhor da redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra, caso contrário não existiria mais mundo.)
* Toda pessoa que tenha aberto de algum modo sua alma para ingerir o que expele, morrerá muito adiantada neste caminho
Se você for pegar as pessoas que encontra na rua, assim, e eu lhe disser: “vamos ficar aqui nessa janela, e passa gente — que o movimento nessa rua, hoje, durante o dia, é grande, todos vocês já viram isso — e eu digo para um de vocês o seguinte: quando passar uma pessoa e que vocês disserem este tem para com tal abjeção toda forma de repugnância que a boa ordem exige, me avise que eu quero fotografar esse”.
A primeira coisa que vocês vão me dizer é o seguinte: “não vale a pena, porque podem passar dez mil ou cem mil pessoas aí na frente, que não aparecerá um nessas condições, e eu não quero perder o meu tempo e o seu tempo procurando o que eu sei que não vou encontrar. É melhor passarmos para o salão e conversamos sobre coisas razoáveis do que fazer essa desrazão de procurar uma pessoa assim no meio…
Não seria, por exemplo, a sua reação?
Na realidade, você encontrar varões ou mulheres cujo coração seja inteiramente limpo de um ceitil de não ódio a esse mal, é de uma raridade absolutamente extrema.
Entretanto, todo o mundo que abriu de algum modo a sua alma para isso, morrerá muito adiantado neste caminho.
(Sr. Guerreiro: Como assim, senhor, podia repetir um pouco?)
Uma pessoa que tenha aberto para o não ódio, tenha diminuído em algo o seu ódio a esse mal, morrerá, se ele viver uma vida com a duração normal de um homem, ele morrerá muito mais próximo da ingestão do que ele expeliu, do que ele estava próximo no momento em que ele deu o primeiro passo.
Está claro, meu filho?
Então a imagem que vocês têm do mundo, é um caminhar de quantidades não sei quantas, no mundo que todas elas, em massa, e excluindo de si com ódio quem não for assim, vão andando para esse ponto.
(Sr. Gonzalo: Esse é o começo da Revolução então.)
Claro.
(Sr. P. Roberto: Com isso o senhor estava respondendo o que o Sr. Gonzalo disse sobre o Moisés da lei da graça?)
* Esta pequena diminuição de oposição, às vezes, foi uma coisa concebida num segundo de relaxamento e que a pessoa aderiu
Não. O que eu acho é o seguinte: que se se deve tomar Moisés como o arquétipo do homem perfeito, eu acho que ele teve duas infidelidades que foram grandes, e foi punido, coitado! Mas foi um grande santo e um grande homem. Se devêssemos tomar uma pessoa assim, essa pessoa estaria longe do mal, seria um Moisés que estaria longe do mal sem ter tido a menor complacência. Mas se ele deu um passozinho nesta direção, ele vai continuar andando, exceto o caso de uma conversão.
Você quer ver até onde a coisa vai?
Você imagine um homem que caiu, está acabado. Ele vai e se converte. Converte e abandona o estado de pecado mortal, etc. Mas não rompeu inteiramente com aquele primeiro passo pequeno que ele deu, de maneira que ao ele morrer, ele tem ainda um grão de apego a esta montanha de sordidez. Qual é o purgatório que um homem desse deve ter? Se é que é para falar só em termos de purgatório.
(Sr. P. Roberto: Ele ficou com a raiz daquilo.)
Aí é que está.
Agora, quais são os homens que se convertem e que levam a sua conversão a este ponto?
(Sr. Gonzalo: Aí entra toda a questão da inocência.)
É uma coisa terrível.
(Sr. P. Roberto: E se não houver isso não tem Reino de Maria.)
Não tem Reino de Maria.
(Cel. Poli: O senhor está remontando tudo ao pecado imenso, não é senhor? O pecado imenso do processo revolucionário e o pecado imenso de cada homem.)
É, mas o caso do Gastão de Foix, metafórico, é um caso deste processo já muito mais adiantado, quando se converte em ações palpáveis e grandes, etc. E esta pequena diminuição de oposição, às vezes, foi uma coisa concebida num segundo de relaxamento e que a pessoa aderiu.
(Sr. Gonzalo: Isso o senhor é tendente a achar que foi antes do pecado do príncipe, não é?)
É, é.
(Sr. Gonzalo: O senhor acharia que foi um pecado dentro da Igreja, não é?)
E depois nunca foi o Carlos Magno que ele deveria ter sido.
(Sr. Gonzalo: Quando o senhor fala de pecado imenso, foi já quando estava adiantada a coisa.)
É, muita adiantada.
(Sr. Gonzalo: Havia um pecado primeiro, que ouvi dizer uma vez, que esse primeiro pecado imenso teria sido cometido na ordem espiritual por alguém muito chamado talvez dentro de uma cela.)
É possível, eu não rejeito a hipótese.
(Sr. Gonzalo: E que depois deu no que o príncipe quis se jogar no verde, etc.)
(Sr. P. Roberto: O senhor dizia que precedeu ao pecado original, uma diminuição de amor de Adão e Eva, no Paraíso.)
Isso.
(Sr. P. Roberto: Que seria propriamente isso que o senhor está…)
* A diminuição de amor traz necessariamente uma diminuição de ódio; “nós todos vamos ser julgados sobre essa nossa conversa”
A diminuição de amor, traz necessariamente uma diminuição de ódio. Não tem por onde escapar.
Quer dizer, tudo isto que nós estamos falando, não tem escapatória.
(Dr. Edwaldo: Desamor é igual falta de ódio.)
Agora, os senhores querem ver uma coisa tremenda? Pensem no seguinte: que essa nossa conversa, nós todos vamos ser julgados sobre ela.
(Cel. Poli: Para a glória do senhor e para responsabilidade nossa.)
Nós todos vamos ser. Vamos dizer, por exemplo, o seguinte: que um de vocês ouça e não tenha oposição e vai para casa contente, porque disse: “não, eu concordei com tudo que Doutor Plinio disse”. Mas ao cabo de dez anos depois, não fez uma ação de apostolado nesse sentido. Quer dizer, de fato a coisa não pegou.
Agora, se ele morre durante esses dez anos, ele tem que prestar conta. Como é essa conta? É extremamente complexo, não é?
(Cel. Poli: Esse ponto inicial que é por onde a pessoa rompe com a inocência, tem algo de misterioso, não é?)
Tem, e depois tem o seguinte: até que ponto isto é consciente?
Eu dou a resposta seguinte: eu vou admitir que — admitir argumentanti gratia, sem me pronunciar sobre o mérito do assunto — uma pessoa possa dar um passo nesse sentido sem ter consciência. Eu acho que a coisa… eu não vejo clara. Mas vamos admitir. Haverá um momento em que o sujeito teve consciência.
(Sr. Guerreiro: Se não é no primeiro degrau, é no segundo degrau da descida, ele vai ver que está errado.)
Está errado.
(Sr. Guerreiro: Isto tem vários patamares.)
Mas a questão é a seguinte: Deus não pode permitir que o indivíduo se envolva nisso sem ser esclarecido pela graça d’Ele.
(Dr. Edwaldo: Uma vez o senhor disse que o exame perfeito de consciência, supõe o exame do subconsciente.)
Sim.
(Dr. Edwaldo: Aí a pessoa já não fez o exame de consciência como devia.)
Pois é claro. É claro. Deixou passar.
Em certo momento a culpa entrou.
(Dr. Edwaldo: Não basta a pessoa se perguntar o que é que eu fiz, mas tem que perguntar por que é que eu fiz.)
Isso.
(Dr. Edwaldo: E no porquê, está o subconsciente.)
Está claro, está claro.
(Sr. Guerreiro: […] O senhor não podia falar um pouco que o Beato Palau comenta, que tudo isto não terá solução enquanto não vier o Moisés da Lei da graça. E o senhor ao explicitar isso tudo, é uma graça nova, um convite de implacabilidade consigo mesmo que o senhor deseja que nós tenhamos.)
É claro.
(Sr. Guerreiro: E isso no plano da explicitação doutrinária e moral o senhor nos deixa muito mais evidente…)
Sim.
(Sr. Guerreiro: […] Fica-se com a impressão que se o senhor não pedir isso continuamente, nós ficamos muito deficientes com o senhor nesse ponto. […] Então como é que o senhor, que se chegar a isso além do que o senhor comentou conosco essa noite. Não sei se o senhor compreende.)
* Esse primeiro passo do homem rumo a ingerir o que expele representa, em marcha ascendente, o grão de areia de uma infestação diabólica
Perfeito, perfeitamente.
A questão põe-se da seguinte maneira.
É moralmente certo que no Reino de Maria esta coisa não pode… enfim, tem que estar reduzida ao último, ínfimo grau de freqüência e de intensidade possível dentro da ordem da Providência. E que, portanto, isso supõe que haja gente que se converta, porque se é tão numerosa a quantidade de pessoas que estão afetadas por isso, então não haveria mais gênero humano para compor o Reino de Maria, se não houvesse uma possibilidade da pessoa sair de dentro disso.
Então deve-se pensar na possibilidade de duas coisas simultâneas, se você quiser, três coisas simultâneas: graças extraordinárias que abram excepcionalmente os olhos das pessoas para isto; em segundo lugar, ações angélicas especiais que levem os homens a agir nesse sentido.
(Sr. Guerreiro: O senhor acha que inclusive com uma presença física, com aspectos físicos…)
Eventualmente, eventualmente.
E em terceiro lugar, exorcismos. Porque o que eu acho é que se este primeiro pecado, esse primeiro passo é tão horrível, ele não se terá dado sem uma certa participação do demônio. É evidente. E que, portanto, ele representa o comecinho, o grão de areia de uma infestação diabólica. Infestação essa que vai crescendo de acordo com os passos, os degraus, etc., do que nós chamamos a justo título o processo revolucionário. Mas o conúbio do demônio com esse processo, a meu ver é uma coisa evidente. E a desinfestação diabólica expulsando muitos demônios, também a coisa vai longe.
Vocês têm uma idéia de como isso pode fazer-se, voltando para seus tempos de criança. É impossível que se vocês procurarem lembrar-se dos meninos com que conviveram no tempo de criança, vocês não se lembrem de alguns que lhes davam a impressão de demoníacos. Esses, excetuado algum engano de apreciação pessoal que pode entrar, etc., excetuado isto, na maior parte dos casos terá sido mesmo um menino infestado pelo demônio. Mas que depois vai lá até o fim e está acabado.
(Sr. Guerreiro: Meninos e gente que […inaudível] o demônio.)
É. E depois essa gente fica adulta e vai “sprayando” demônio pela vida a fora. Ninguém tem idéia de até onde isto vai.
(Sr. Gonzalo: É só o senhor mesmo que sabe.)
* Na “Bagarre” azul havia uma alegria geral que era como que um cântico sem música; esse cântico era o cântico do demônio
Porque o que se “spraya” de demônio com isso, não tem número. A quantidade de demônios é colossal, depois eles têm uma espécie de presença que equivale mais ou menos a ubiqüidade, de maneira que o que eles fazem, a possibilidade de ação, etc., é colossal também. A gente pode compreender essa marcha ascendente como vai. E pode compreender certas coisas que vocês pegaram e que agora à distância vocês estão mais habilitados a julgar do que há muito tempo atrás. Vocês se reportem ao tempo da Bagarre Azul, que corresponde mais ou menos para dar um ponto, dar um denominador comum, é o tempo da Rua Pará. Eu não sei se vocês concordam comigo que havia uma alegria geral, uma esperança genérica de todos em tudo e a respeito de tudo, que era como que um cântico sem música. E com isso uma alegria geral que equivalia a um hino, a uma coisa assim coletiva, que todo o mundo entoava não sonoramente. Vocês todos concordam em que ouviram esse hino?
(Sr. Gonzalo: Não só ouvimos, mas…)
(Sr. Paulo Henrique: Fomos protagonistas desse…)
Desse cântico.
(Dr. Edwaldo: Ouvimos e cantamos.)
Aí é que está. Quantos de nós cantaram isto, entraram nesse cântico. Esse cântico era o cântico do demônio. Era o canto de triunfo do demônio sobre Deus que ele estava esmagando.
(Sr. Guerreiro: Quando o senhor olhava para isto, o senhor notava mais a presença do demônio e a concordância das pessoas ou mais a concordância das pessoas com o cântico do demônio, como é que era isso?)
Eu não entendi a pergunta, meu filho.
(Sr. Guerreiro: Quando o senhor olhava para esse cenário, o senhor discernia mais uma ação do demônio aliciando as almas, e as almas concordando, ou uma abertura das almas maior para esta ação do demônio?)
É uma coisa recíproca. E que é assim…
(Sr. Guerreiro: Mas enquanto energia o senhor sentia que era algo de extra humano que envolvia os homens…)
Isso.
(Sr. Guerreiro: E que cultivava os homens a se abrirem para isto. O senhor sentia isto?)
* À continuação desse cântico, os homens passaram a entoar os gemidos do infortúnio; o grande ponto em que se nota a inocência da SDL é que ela não tinha parte com esse cântico do demônio
Sentia isto.
Exatamente, o grande ponto em que se nota muita inocência em mamãe, é que ela não tinha parte nesse mal. Vocês olham as fotografias dela, ela não tinha parte nesse mal.
(Cel. Poli: Portanto, não tinha parte na Revolução.)
Não tinha!
(Dr. Edwaldo: Ela talvez nem imaginasse que se pudesse ter.)
É, talvez, nunca cheguei a ver bem até que ponto ela via tudo isso. Mas o fato é que parte ela não tinha.
Mas afinal, seja como for, esse cântico o próprio demônio o foi transformando de um sorvete de primeira ordem com creme chantilly e cereja na ponta, ele foi transformando gradualmente em coisas piores, etc., para levar até esse ponto. E os homens passaram a entoar os gemidos do infortúnio como continuação do cântico do demônio. E é hoje!
Aquela frase da Escritura: “omnis creatura ingemiscit” — todas as criaturas gemem. Hoje, gemem todos. Não há que não gema hoje.
(Sr. Gonzalo: Mas gemem com o mesmo estado de espírito com que cantava.)
É a continuação do cântico. E que faz compreender como é que eles chegarão a alimentação abjeta.
(Sr. Guerreiro: O senhor está descrevendo aquele problema que o senhor há um tempo atrás levantava de que a passagem da terceira para a quarta Revolução, ela tinha que atravessar um como que deserto, porque as estruturas para moverem o homem da terceira para a quarta Revolução, ela não as tinha ainda suficientemente construídas, e que, portanto, a Revolução estava num processo delicado. O senhor considera que esta fase, posto o que o senhor está descrevendo, a Revolução está conseguindo superar esta fase ou não?)
Eu acho que já superou.
(Sr. Guerreiro: E assim sem alarde, sem…)
* Há uma terra de ninguém dentro das cabeças das pessoas que é possível mover de um modo espantoso
Eu vou dar a você uma resposta que corresponde ao ponto no qual eu pensava antes de começar a nossa reunião aqui, deitado no meu sofá, na penumbra. Eu estava pensando no seguinte. Não confunda, o tema que eu vou tratar é alheio a este, e nós devemos tomar cuidado de não nos deixar arrastar por este tema e esquecer deste anterior que é muito importante.
Mas fazendo assim um pequeno golfo no nosso itinerário, nós podemos tratar do caso.
Termina a Segunda Guerra Mundial.
A Rússia constrói a Cortina de Ferro. Ela separa dois mundos.
A razão dada por ela, provavelmente pelos seus representantes oficiais e oficiosos, e aceita por todo o Ocidente como uma coisa explicável, é que ela tinha medo de uma invasão militar do Ocidente. E que nesse caso ela precisava ter vigiando sobre a Cortina de Ferro, homens com armas embaladas continuamente voltadas para uma faixa pequena de terra de ninguém, de maneira que, pondo alguém o pé naquela terra, recebia uma rajada de uma espécie de fuzil-metralhadora que esses homens levavam consigo, eles andavam constantemente de um lado para outro fiscalizando, e que essa Cortina de Ferro era necessária também para que a atração exercida pelo Ocidente sobre o Oriente, pela superioridade de riqueza e de vida, não fosse tal que a população russa acabasse emigrando toda para o Ocidente. E a Rússia sofreria com isso a humilhação do pior dos plebiscitos, mas também teria consigo o inconveniente de ficar despovoada e perder a importância que tem como nação, que ficaria com uma espécie de fortaleza de Spandau onde ficou preso aquele Rudolph Hess, que no fim da vida dele não tinha mais prisioneiros, era só ele. E ele girava sozinho naqueles corredores de um lado para outro.
Então tudo isto posto, nós dizemos que essas razões foram dadas à população do Ocidente e que toda a população do Ocidente, todos nós, eu inclusive, achei que eram razões normais.
(Sr. Guerreiro: Razões explicativas.)
É, explicativas. Essas razões normais.
Agora, de repente, quando as notícias sobre o empobrecimento da população soviética tinham chegado ao seu mais alto auge, exatamente nesse momento em que o Cardeal Ratzinger falava de povos cujas populações estavam reduzidas a uma miséria que era uma vergonha do gênero humano, e coisas dessas, de repente, se levanta a Cortina de Ferro, e desaparecem as razões que a explicavam. Não se sabe como o Oriente deixou de temer uma agressão militar do Ocidente.
Em última análise, se essa agressão era temível, as razões pelas quais o Ocidente poderia fazê-la continuavam as mesmas. Por que é que eles deixaram de se defender contra isso de repente? Mas, o que tem de mais fantástico, é que o povo que deveria vir para o Ocidente não veio, não tem vontade. É uma coisa fantástica, mas é assim.
Está bem, e não há um homem nessa vastidão que pegue isto que eu estou dizendo, faça um artiguinho e publique. Isso é uma coisa diferente da questão da “Orla do século XXI”, aquela história.
Mas o que é que isso significa?
Que há um governo sobre um vazio dentro das cabeças, há uma terra de ninguém dentro das cabeças das pessoas que é possível mover de um modo espantoso.
(Sr. Guerreiro: E que é uma faixa muito mais larga do que podia se imaginar à primeira vista.)
Exatamente. Mas é uma faixa tal que se nós tivéssemos um jornal quotidiano com muitos leitores que lessem as coisas, etc., e nós publicássemos isto com ilustrações e com coisas para tornar isto bem claro, as pessoas compreenderiam no fundo, mas não se impressionariam e não se moveriam. Nem procurariam a solução do problema, e ao cabo de pouco tempo, tinham esquecido do problema.
Isso não é assim?
(Sr. Gonzalo: Mas o senhor dizia, que apesar de tudo, o Ocidente é consumista e não quer o miserabilismo.)
Não, isso é verdade.
(Sr. Gonzalo: E que o problema que se colocava para passar para a quarta Revolução, não era tanto no mundo comunista, mas era que a “estrutura” não conseguiu ter a influência que eles esperavam por causa de muitas ações, etc., de maneira que no Ocidente tem uma certa força de produzir, de querer ter dinheiro, de querer viver razoavelmente, e essa falta de vontade que existe atrás da cortina de ferro, isso aqui ainda existe.)
Existe.
(Sr. Gonzalo: E que é um dos problemas da Revolução. […] Como fica isso?)
Fica assim mesmo. Quer dizer…
(Sr. Gonzalo: Mas deu esse passo então ou não deu? […] Porque se diria que no Ocidente não deu.)
Aqui, você agora tocou no ponto. Totalmente não deu aparentemente. Ela progrediu o bastante para que já seja irreversível. Porque você vê que é irreversível.
(Sr. Gonzalo: E a ação do senhor agora já é dentro de um terreno irreversível…)
Já.
(Sr. Gonzalo: Há muito tempo.)
É, há bastante tempo.
(Sr. Gonzalo: A campanha do livro da nobreza por exemplo, é para só pegar…)
Sete pães e sete peixes.
(Sr. Guerreiro: Quer dizer que “tout court” agora são sete pães e sete peixes?)
Meu filho, é.
(Sr. Guerreiro: Eu posso fazer uma pergunta para…)
Pode.
(Sr. Guerreiro: […] O senhor acha que eles fizeram a coisa por causa dessas razões, ou eles foram obrigados a apressar a derrubada daquilo lá porque um processo de esgotamento interno dentro da terceira Revolução não os permitia mais continuar para frente coma coisa? Isso até hoje não me ficou muito claro. […])
Tem o seguinte, meu filho. As razões são duas razões distintas, mas acabam tendo uma certa convergência.
Quer dizer, se ela estava se extinguindo, ela teria tido a tendência a fazer o que fez. Mas se ela não estava se extinguindo e o problema era outro, a solução seria a mesma.
(Sr. Guerreiro: Fica uma dúvida a ser esclarecida ainda.)
Qual é?
(Sr. Guerreiro: Se ela fez por que se esgotou, ou se ela fez porque estava no momento conveniente para ela.)
Eu tenho a impressão de que a imobilidade do povo soviético, fala contra a idéia do esgotamento. Porque se uma massa que pode mover-se e da qual se receava que por rejeição àquela situação, está querendo mover-se, a ponto de ser uma das razões para construir a Cortina de Ferro, e ela não se move, não se pode dizer que aquilo está morrendo nela.
(Dr. Edwaldo: E em algumas eleições votaram a favor dos comunistas.)
Dos que estavam mandando nela.
(Sr. Guerreiro: E que tudo isso e infestação preternatural é um capítulo da problemática.)
É isso.
Agora, que horas são?
(Sr. Gonzalo: Três e cinco, senhor.)
(Sr. Guerreiro: Se eles não tivessem desmanchado a Cortina de Ferro, não seria possível fazer a unificação da Europa nos termos em que estão fazendo.)
Isso é fora de dúvida. Isso é fora de dúvida. A menos que eles fizessem uma unificação do mundo livre para defender-se contra um mundo não livre… mas o fato é que isso não fizeram, era um pretexto que eles podiam aproveitar.
Isso é um parênteses para mostrar como eles conseguiram pôr um vazio nas mentes que é a vitória dela. O passo que ela deu. E nesse vazio entra o negócio.
(Sr. P. Roberto: O vazio é aqui também desse lado?)
A carência de raciocínio suficiente para pedir uma explicação sobre o caso da Cortina de Ferro que ficou toda escangalhada e mal explicada para o Ocidente.
(Sr. Paulo Henrique: E apesar do senhor ter levantado o problema com tintas muito carregadas, com um brado profético publicado nos Estados Unidos, etc.)
Nada! Nada!
Está claro, meu filho?
(Sr. Guerreiro: Esse vazio colossal é impressionante.)
(Sr. Gonzalo: Mas há uma coisa que também é certa, é que a campanha de silêncio feita contra o senhor, também é qualquer coisa de absolutamente prodigioso. Se se faz uma campanha desse tamanho, é porque a eficácia da pessoa contra quem se faz a campanha, tem que ser muito grande.)
* Todas as cortinas caíram, exceto a cortina de ódio em torno da TFP
E aí não tem vazio.
(Sr. Gonzalo: Mas se é assim é porque a potência do objeto do ódio é imensamente grande, e não só uma potência que não se transformou em ato, mas que os prejudicou e os prejudica imensamente.)
Isso eu acredito.
(Sr. Gonzalo: Há uns enclaves aí nos quais o senhor tem poder, e tem mexido neles. […] Então tem que ser muito grande a potência da graça e muito perigosa para eles.)
Ah, isso eu acho que é. A tal ponto que todas as cortinas caíram, exceto a cortina de ódio em torno de nós. Por que isto?
(Sr. Guerreiro: O senhor podia escrever um artigo fabuloso.)
Mas quem publicaria?
(Sr. Guerreiro: “Catolicismo”…)
(Cel. Poli: Quando tiver 500 mil exemplares.)
Porque é uma coisa curiosa, essa cortina de ódio não sofreu a menor diminuição com o tempo, pelo contrário, os pretextos para manter essa cortina se volatilizaram e apesar de tudo isto a cortina continua intacta.
(Sr. P. Roberto: Isso mostra que a vitória deles não é completa, porque se eles tiveram que manter essa cortina…)
Ah, isso é outra questão. Se a vitória fosse completa a cortina de ódio não seria necessário. Se eles têm alguém a quem eles mandam calar, este alguém é um terror para eles. Herodes com São João Batista. Herodes era o rei, São João Batista era um profeta, era, se você quiser, um grande profeta, mas não era o rei. Depois Herodes tomava o lado simpático, o povo sempre gosta do sujeito sem vergonha, que se embriagam, etc. São João Batista era o lado austeridade. Apesar disso tudo, e da simpatia que Herodes tinha, pessoal, por São João Batista, apesar de tudo…
(…)
[Nota do dat: a fita termina bruscamente e não veio segunda fita.]
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