Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
24/9/94 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 24/9/94 — Sábado
O gradual e mútuo conhecer-se entre pais e filhos; um fato ilustrativo * A temperança da SDL em todos os problemas que tinha que resolver * A análise que o discernimento dos espíritos proporcionava ao SDP a respeito da SDL * A harmonia entre os estados de espírito da SDL e os do SDP * Foi por amor à Santa Igreja que o SDP combateu em si a tendência a uma completa placidez que o levava a não querer interferir nos acontecimentos * Analisando a SDL, o SDP via o equilíbrio de alma que a verdadeira placidez traz consigo; o exemplo da presença dela nas festas de sociedade * A placidez mantida pela SDL mesmo nos momentos de angústia e tristeza; a estadia em Santos que antecedeu a morte do reizinho * Vendo a placidez da SDL mesmo nas horas de sofrimento, o SDP compreendia como é que se deve sofrer * Lendo a Bécassine, o SDP ia formando uma idéia mítica a respeito da Europa * A SDL entrevia algo das grandes preocupações do SDP; a morte de D. José e a direção do grupo do Pe. Mariaux
(Sr. Horácio B.: … contra os holandeses, isso é certo. Depois o senhor descende daquele que salvou a cidade de São Salvador da Bahia, contra os índios.)
* A presença, entre ascendentes do SDP, de paulistas que empreenderam a cruzada contra os hereges holandeses em Pernambuco e calvinistas no Rio de Janeiro
Corrêa de Sá e Benevides?
(Sr. Horácio B.: Não, se chama Estevão Ribeiro Baião Parente, que foi o chefe da expedição paulista que foi salvar a cidade de Salvador que foi sitiada…)
Ah, este sim, eu descendo desse?
(Sr. Horácio B.: Descende desse. E morreu em combate lutando contra os índios, mas salvou a cidade.)
Que cidade que ele salvou?
(Sr. Horácio B.: Salvador. Estava cercada pelos índios e estava por cair, então pediram reforço aos paulistas foram lá e salvaram a cidade.)
Mas dos índios ou dos holandeses?
(Sr. Horácio B.: Dos índios.)
Mas esses índios eram aliados dos holandeses, ou qualquer coisa?
(Sr. Horácio B.: Aí eu não saberia dizer. Em 1640 mais ou menos. E depois o senhor descende de paulistas que foram ao Rio de Janeiro a lutar contra calvinistas franceses com Estácio de Sá e com o Pe. Anchieta. Assim que o senhor é descendente […inaudível]. O feeling profético do senhor é certo mesmo!)
Graças a Nossa Senhora. Fico muito contente em saber disso.
(Sr. Horácio B.: Vou continuar a pesquisa para ver se encontro paulistas em Pernambuco.)
Otimo! Otimo! Nossa Senhora o ajude, meu filho.
E você, meu Paulo Roberto, como vai meu filho?
Meu Guerreiro que Nossa Senhora lhe ajude.
Meu querido Mário! Nossa Senhora o ajude.
(…)
… do Caramuru, se não me engano, que era chefe índio. E a confusão eu acho que tem alguma relação — mas isso seria preciso verificar — com o domínio espanhol no Brasil. Porque os chefes de Incas e Astecas, etc., os grandes chefes eram equiparados a príncipes da Espanha. E o que seria imperador do império Incaico tinha o direito de chamar o rei da Espanha de “meu irmão”. E o rei da Espanha o chamava também de “meu irmão”. E o tal Duque de Veraguas de que eu falei hoje na reunião, era descendente exatamente deste chefe e com descendestes do Colombo, etc., saiu essa família que ainda existe hoje.
De maneira é possível que no domínio espanhol tivessem pensado em dar aos índios brasileiros o tratamento que certos índios da Espanha meridional recebiam. Não é impossível, é uma hipótese.
(Cel. Poli: O Felipe Camarão tinha o título de “dom”.)
Sim, foi dado o título a ele de “dom”.
(Cel. Poli: E capitão geral de todos os índios do Brasil.)
Ah é?
(Cel. Poli: Ele era um colosso. Ele matou protestante a valer. Era uma fera!)
Coisa boa, hein!
Agora, eu não sei quem me disse hoje, saindo de lá, alguém me disse […inaudível]. Como era essa história? Eu agora estou fazendo uma certa confusão, não me lembro bem, é melhor deixar.
Mas e a matéria de hoje, qual é que é?
(Sr. Gonzalo: [Dá um resumo dos MNFs da semana]
O senhor deixou muito claro como o senhor olhando para ela, via que esse não era um mundo de fantasia, porque nela isso se realizava extraordinariamente. Então esse papel de auxílio, de apoio, de sustentáculo, para essa obra-prima que é a correspondência…)
De documento. A palavra “documento” aqui é essencial.
(Sr. Gonzalo: […] Então o pedido seria se o senhor poderia ter a bondade de ainda tratar mais dela nessa linha. […])
* O gradual e mútuo conhecer-se entre pais e filhos; um fato ilustrativo
Nesse assunto é preciso tomar em consideração o seguinte:
Isso eu me lembro muito de estados de espíritos meus e dela. Eu, por assim dizer… porque é uma coisa curiosa: pais e filhos vão se conhecendo como pessoas que não se conhecem e que vão se conhecendo no decurso do tempo até o filho formar a sua própria personalidade, e aí está inteiramente conhecido pelos pais. Mas o filho é até certo ponto, para os pais, uma surpresa.
Ela, aliás, uma vez me disse isso aí de um modo pitoresco e um pouco surpreendente até.
Eu contei um episódio do tempo de criança em que quando nos preparávamos para o chá de Natal na casa Mappin, Rosée e eu. Rosée entrou na saleta — seria como aquilo ali, uma sala de visita menor — que havia na casa de vovó e ficamos os dois esperando mamãe e a Fräulein acabarem de se vestir. E Rosée entrou para estar em minha companhia conversando enquanto mamãe e a Fräulein não acabassem de se vestir.
O propósito dela era o que fazia irmão e irmãzinha quando estão juntos: brincando, falando, etc.
Mas ela entrou com um chapéu que me pareceu um chapéu muito extravagante e com o qual eu impliquei de um modo colossal. E eu meti uma bofetada nela, mas uma bofetada colossal. E ela, naturalmente pôs-se a chorar. E mamãe vinha chegando nesse momento, pronta para sair comigo. E perguntou a Rosée o que é que tinha. Rosée disse que eu tinha dado um tapa nela, uma bofetada nela.
Mamãe voltou-se para mim e disse:
— Mas por que você fez isso?
— Eu não sei.
— Mas como é que você não sabe? Você faz assim uma coisa com sua irmã.
— Eu não sei por que é que eu fiz.
Que eu não sabia explicar, mas no fundo, o chapéu dela me dava uma impressão que eu não sabia dizer, de mau espírito. Um chapelão enorme, uma coisa esquisita. Ao menos me deu essa impressão, podia não ser. Mas eu não sabia dizer isso, então dizia que não sabia nada.
* A preocupação da Senhora Dona Lucilia em relação à uma atitude que o Senhor Doutor Plinio, por feeling contra-revolucionário, tomara em sua infância, mas que ele não sabia explicar
Mas mamãe me contou, mas muito pouco tempo antes de morrer, ela me contou que pela primeira vez na vida, que ela foi para a casa Mappin com Rosée e me deixou em casa — isso eu sabia — de castigo. Mas que para ela o lanche na casa Mappin foi um tormento, porque ela e a Fräulein tinham que distrair Rosée. Então conversavam coisas com que Rosée se interessasse, etc., e a coisa ia andando. Mas ela pensando noutra coisa. Aqui entra a questão dos pais irem conhecendo o filho como uma novidade.
Que ela pensava — a expressão textual ou quase textual dela foi a seguinte: “mas então entrou, na família, um louco?”
Você está vendo a idéia de que o filho é um personagem novo que entrou na família, e que vai ser uma componente, desastrada ou salutar, para esse conjunto fundamental, na concepção dela, e depois de acordo com a concepção católica, para a vida dela como mãe, uma conjunto fundamental que é a família. Então: “entrou um louco na família?”.
A tal ponto que ela chegando em casa, num momento que ela estava só com a Fräulein, ela recomendou a Fräulein que prestasse atenção nas minhas menores reações, porque havendo qualquer coisa de não equilibrado, ela me conduziria a um médico. Então qualquer coisinha que eu fizesse que parecesse não equilibrado, ela levaria a um médico. Ela não pronunciou a palavra psiquiatra. É que eu acho que não havia psiquiatra naquele tempo. Havia médicos de nervos, uma coisa assim devia haver. Enfim, ela me levaria ao médico. Era a concepção que ela tinha.
Mas aí foi a primeira vez em que eu me senti como um indivíduo que está entrando pela janela dentro de uma casa que não é a dele, e que vai passar a pertencer àquela casa e alterar a vida da casa. Cada criança que nasce é isso.
Essa idéia… eu me lembrei depois em sentido contrário, eu em menino prestando atenção nos meus pais que eu não conhecia também, e formando idéias e formando idéias muitas vezes bem dissonantes a respeito de um e de outro. Dela sempre laudatórias ao máximo. Dele muito variável.
* A temperança da Senhora Dona Lucilia em todos os problemas que tinha que resolver
Nessa composição, eu me lembro muito bem — aliás, eu preciso terminar a história.
Cerca de uma semana depois ela chamou a Fräulein e disse:
— Fräulein, a senhora não me disse se notou qualquer coisa no Plinio.
E que a Fräulein disse:
— Dona Lucilia, não tem nada! Eu não disse nada porque está de uma normalidade a mais perfeita e absoluta que se possa imaginar. Ele é como ele é, como ele é sempre.
E que ela teve um alívio.
Aí você vê também a temperança dela. Em vez de estar todo o dia chamando a Fräulein duas ou três vezes por dia. Porque a Fräulein estava em casa, era só chamar para perguntar: “há qualquer coisa de novo com o Plinio?” Ela deixou à Fräulein uma certa liberdade, não apertou também, para a Fräulein não fantasiar alguma coisa e apresentar. Ela deixou correr a coisa, esperou uma semana mais ou menos e ela chamou.
* A análise que o discernimento dos espíritos proporcionava ao Senhor Doutor Plinio a respeito da Senhora Dona Lucilia
Mas eu me lembro então de mim fazendo observações a respeito dela em que já entra o discernimento dos espíritos. E, portanto, conhecendo a ela como, por favor e a misericórdia de Nossa Senhora, me é dado conhecer outras pessoas. Quer dizer, muito mais profundamente do que uma criança de minha idade conhece a sua mãe. E o admirativo sem reservas e sôfrego em relação a ela, era por causa de eu ver a alma dela com toda clareza e compreender a excelência dessa alma. E nessa excelência… então eu queria dizer sobre isso alguma coisa. Quer dizer, o que eu disse até agora é uma espécie de introdução para se ter a idéia da realidade da coisa. Não ter o risco de pensar que é uma construção, etc.
Eu notava nela dois estados de espírito: um é o estado de espírito estático, calmo, e de algum modo contemplativo. Mas não era um contemplativo como se pode imaginar. Ela era uma pessoa… mãe de família, que está em casa, a vida da família está correndo normal, ela vai equilibrando lentamente a sua saúde a ponto de morrer com a idade com que morreu. Enfim, tudo vai indo. E ela tranqüila e deixando as impressões de fora, quer dizer, as impressões que lhe dava a vida da família atuar sobre ela normalmente, livremente sem maior prestar atenção e nem maior censura. Mas contente. Contente não no sentido de jubilosa, mas satisfeita. Posta na sua normalidade e sentindo-se bem fisicamente e sobretudo moralmente nessa normalidade. Isso era uma coisa.
Agora, outra coisa era ela colocada diante dos acontecimentos, das situações, etc. Eu falo disso daqui a pouco.
Mas essa tranqüilidade dela, era uma tranqüilidade de alma por assim dizer — a expressão parece… mas é a única que eu encontro adequada — saborosa. Que a gente olhando para ela, era uma tal proporção entre ela e o que a rodeava, e a boa ordem e a boa paz do que ela tinha em torno de si, um tal bem-estar interno feito de tranqüilidade de consciência, de satisfação temperante com que ela tem, de não ardências pelo que não tem. Desejo normal de outras coisas. Mas um desejo que se ela não pudesse ter, também não ia morrer por isso. Creio que em castelhano se diz [ni mucho menos?], mas pelo contrário: também não tem, então com tranqüilidade, isso está bem também. Vamos viver satisfeitos, dando graças a Deus, etc.
Havia nisso uma… A definição de São Tomás da paz se verifica aí muito marcadamente: “é a tranqüilidade da ordem”. Quer dizer, uma ordem com tranqüilidade e que podia durar muitos dias ou mais ou menos de acordo com as circunstâncias.
* A harmonia entre os estados de espírito da Senhora Dona Lucilia e os do Senhor Doutor Plinio
Mas quando eu a notava assim, eu tinha o gosto de estar com ela porque eu começava a compreender este estado de espírito e fazer esse estado de espírito viver em mim, por uma espécie de harmonia como por exemplo, com os cristais. Os cristais vocês sabem que eles têm nota, e se a gente toca o cristal de um nota, e há um outro cristal da mesma nota na mesma mesa, o outro cristal toca também.
Assim se dava na alma dela com a minha. Ela tinha essa paz assim, e essa paz refletia em mim por essa harmonia, essa afinidade, e eu passava a ver e a sentir as coisas como eu percebia que ela via e sentia, compreendendo como isto era ajustado, como era objetivo. As coisas são assim como ela via, como era razoável tomar aquela posição perante as coisas, etc. E a boa paz, a afabilidade, a boa acolhida para as coisas que tinha, e o bom olhar para as que não tinha. Sem aflições, nem invejas, nem sustos, mas tudo no normal. E corresponde ao estado de espírito em que talvez vocês me tenham notado , assim, de tranqüilidade, de contentamento plácido — a palavra “plácido” entra muito em linha de conta aí —, tranqüilo, sem torcidas nem contorcidas, e dando graças a Nossa Senhora pelo que é.
Eu não sei se eu consigo descrever isso bem ou não?
E nisto eu me sentia muito diferente das crianças diante das quais eu me movia. Todas elas muito vivas, mas em nenhuma delas eu conheci essa placidez.
* O Senhor Doutor Plinio tinha tanto apreço à placidez, que teve que reprimir-se a fim de não se deixar levar à uma indiferença em relação a tudo que o cercava
Até, vamos dizer o seguinte, eu compreendo que eu deveria ser, a esse título, um menino meio sem graça, porque as crianças são vivas, espevitadas, dizem coisas irrefletidas, e têm uma espécie de exuberância de vitalidade.
[Eu não tinha?] falta de vitalidade nem um pouco, mas é uma vitalidade à maneira dela. Assim como a água de um rio corre sobre um terreno inteiramente plano, assim também corria eu, mas também ela, na vida normal.
E eu compreendendo muito a felicidade terrena, mas que no fundo era mais do que terrena, como eu direi daqui a pouquinho. Mas a mim me parecia inteiramente terrena, a felicidade da vida normal vista assim. E chegando muitas vezes à concepção de que felicidade era isso, e que as coisas que na conversa com um se apresentavam como felicidade, era quase o caso de a gente as evitar, porque elas traziam uma movimentação que minha alma começava a achar desagradável. Quer dizer, eu tive que chegar a reprimir isto porque eu seria levado a uma espécie de excesso disso. É afastar-me dos fatos, afastar-me das complicações; afastar-me de querer interferir nos acontecimentos para levar essa vida plácida assim.
Se eu continuo claro… está bem assim? Se não estou claro, me perguntem o que quiserem.
(Sr. Gonzalo: A placidez o senhor sempre a conservou.)
Graças a Nossa Senhora.
(Sr. Gonzalo: E o fato de ter intervindo na coisa, não lhe tira a placidez.)
Não.
(Sr. Gonzalo: O senhor nunca deixou de ser assim.)
Nunca. Pela graça de Nossa Senhora eu estimei enormemente esse estado de espírito como a pista de vôo para a alma. Nunca como uma hospedagem de inércia.
* Foi por amor à Santa Igreja que o Senhor Doutor Plinio combateu em si a tendência a uma completa placidez que o levava a não querer interferir nos acontecimentos
Agora, a pista de vôo era exatamente o problema: se eu — eu talvez me adiante um pouco nisso, mas para dar a bem a idéia — não tivesse amado a Igreja como amei, e como graças a Nossa Senhora eu amo, eu não teria abandonado essa placidez: “eles que se arranjem!” E é uma coisa compreensível!
(Sr. Gonzalo: Não teria abandonado?)
A placidez inteira.
(Sr. Gonzalo: E teria ficado só.)
É, só. Mas eles que se arranjem.
Vamos dizer, Rosée pôs um chapéu maluco. Não é razão para eu dar um tapa nela. Ela que saia com o chapéu dela e eu vou cuidar de minha vida.
Os meus primos me contam como se dá a reprodução da espécie humana, eu não vou ficar nem indignado, nem não indignado. Eu não estou na época do casamento, isso não me diz respeito a mim no momento, para mim é um fait divers. Eu vou cuidar disto quando — eu não tinha idéia da coisa — se apresentar a puberdade. Antes disso eles que se arranjem. E eu teria enormemente me engolfado nisso se não fosse o fato de que com a Igreja Católica não tomar essa posição.
(Sr. Gonzalo: Isso aconteceu com os inimigos da Igreja, etc.)
É, contra os inimigos. A luta Revolução e Contra-Revolução.
Então aí sim, todos os recursos que a placidez acumulava ficavam estocados para alguma ocasião. Não intencionalmente, mas porque é assim.
Um menino com boa saúde, condições de vida materiais plenamente normais, sem nada de maravilhoso, mas não carente de absolutamente nada: “arranjam-se como souberem, como quiserem e como puderem. Eu não estou precisando de ninguém para nada, não se meta no meu jardim que eu não me meto no seu”. Está acabado.
(Sr. Paulo Henrique: Aí o senhor faz a distinção do senhor com a vocação e o Plinio hipotético, sem a vocação.)
É, hipotético de como eu seria sem a vocação.
Agora, não é puramente hipotético, é uma coisa que se realizou, mas sobre a qual começou a florescer desde logo a vocação.
(Sr. Gonzalo: […inaudível])
Eu tomo a palavra vocação no sentido vocare latino: chamado. O chamado era para a luta.
(Sr. Paulo Henrique: […] Nesse sentido a Senhora Dona Lucilia foi para o senhor…)
Ah foi!
(Sr. Paulo Henrique: A causa, a modelo, porque ela modelou o senhor.)
Foi.
(Sr. Paulo Henrique: Todo esse esforço que o senhor vem fazendo demonstra esse embricamento.)
Profundo.
(Sr. Paulo Henrique: Dela enquanto mãe guiando os passos do senhor.)
Tal e qual. Tal e qual, precisamente tal e qual.
(Sr. Paulo Henrique: Isso é muito bonito, porque sem ela também…)
Ah não. Quer dizer, é evidente que a Providência se serviu dela para isso, quis que fosse assim.
Agora, eu passei a ver nela também uma conjunção dentro dessa placidez de coisas que o mundo em torno de mim não concebia como possíveis dentro da placidez. Quer dizer, o sentido da dignidade própria e da necessidade de simbolizar essa dignidade, e de ter um trato com os outros, em que essa dignidade fosse sempre atendida e considerada como devia ser, não perturbava a placidez em nada.
Então, por exemplo, quando ela era mais moça, que ela freqüentava um tanto a sociedade e eu a via preparar-se para coisas de sociedade, eu notava a diferença que eu via entra ela e mocinhas ou senhoras de minha família, mas que eu percebia que nas outras famílias com que elas se davam era a mesma coisa.
Quer dizer, vai se aproximando…
* Ilustrando o paulatino avanço do americanismo no mundo das modas
A vida era muito mais pomposa naquele tempo. E por exemplo um baile, vocês não fazem idéia, a pompa que entrava num baile, diferente das dançarocas que eu mesmo presenciei quando fiquei mais velho, mas que ainda freqüentava a sociedade. Tudo foi se americanizando, decaindo. Eu ainda peguei o modelo francês e europeu largamente em uso e vi fenecer. Mas eu estou falando do tempo em que o modelo francês estava largamente em uso.
Era uma coisa curiosa, mas as senhoras faziam assim: elas todas assinavam revistas francesas, mamãe também. Havia várias revistas só para senhoras em que o tema preponderante era a moda.
Então, por exemplo, eu me lembro de uma fotografia que me chocou muito. Num automóvel italiano que era um muito bom automóvel daquele tempo, chamado lancia. Você está vendo que lancia dá idéia de uma coisa élancée, um automóvel muito cumprido.
Então tinha sentadas, duas senhoras, e umas três em pé. E via-se que o automóvel estava num lugar qualquer, parado porque alguém estava mexendo no automóvel para consertar qualquer coisa.
Então seria um automóvel que na orla de um bois qualquer, Bois de Boulogne, ou qualquer outra coisa assim. Na orla desse bois teve algum desarranjo, e elas pararam e mandaram chamar o mecânico. Não aparecia o chofer. Mandaram chamar o mecânico, talvez pelo chofer.
Então algumas para andar um pouquinho desceram do automóvel e estavam em pé. Duas ficaram sentadas no automóvel, no banco do fundo.
Eram cinco. Dessas cinco, quatro eram nobres com bons títulos de nobreza, e altos, etc. Uma era princesa. Mas preponderando aqueles estadinhos alemães. Mas eram princesas. E Miss qualquer coisa que era uma norte-americana tal e qual, sentada nos meio das princesas, e na [fleur des poids??] sentada essa espécie de sapa. Na minha consideração sempre hierarquizante, isto era um… [dava] vontade de expulsar a mulher aos brados, como eu gostaria de expulsar os vanguardeiros dos arruaceiros que penetraram em Versailles para obrigar o rei e a família real a irem para Paris. Uma indignação: “essa mulher cachorra!”, etc.
E ao lado dela uma princesa. Numa conversa… você pode imaginar, não preciso descrever para ninguém.
E as senhoras, essas todas, fotografando de maneira que deixavam ver bem, analisar bem, por outra senhora — nós homens não entendemos disso, não veríamos nada — como é que estavam vestidas, a toilette como é que está concebida. A combinação do chapéu com os sapatos e com a bolsa. E outros malabarismos assim da elegância feminina que os homens não entendem, mas que elas entendiam na perfeição. E com base nisso, elas compunham os próprios vestidos e faziam o desenho e compravam a fazenda com a cor que elas queriam para que tudo se ajustasse bem. Sendo que o comércio era livre com a Europa, não havia ainda essas alfândegas, essas coisas, e portanto, as casas aqui tinham dos melhores tecidos europeus. E elas compravam isso e faziam os vestidos que entendiam.
* Analisando a Senhora Dona Lucilia, o Senhor Doutor Plinio via o equilíbrio de alma que a verdadeira placidez traz consigo; o exemplo da presença dela nas festas de sociedade
Então para um baile se convidava pelo menos com um mês de antecedência. E elas então começavam a imaginar um vestido para aquele baile. E umas conversavam com as outras, davam idéias: “não está bem; por que é que você não faz como a fulana que fez tal coisa assim”. Umas conversas que eu não podia suportar. Mas que tinham isso de característico que introduzia entre elas uma animação muito grande. Vocês podem imaginar, não preciso estar entrando em detalhes. Que essa imaginação não rara vezes se transformava em agitação.
Concebida a coisa, havia uma só grande casa de costura em São Paulo, chamada La Saison. Tenho impressão que La Saison era muito especializada… Mas era uma bonita casa, muito bem arranjada por dentro, etc. E o gosto francês, nome francês, etc.
E a dona Chiquinha era a diretora da Saison, mas ela não era brasileira, era estrangeira. Com certeza ela chamava Francisca, Françoise, e aqui apelidaram de Chiquinha: a dona Chiquinha. E a dona Chiquinha ia nas casas. E tinha também auxiliares que iam às casas. Às vezes as senhoras iam à casa de dona Chiquinha.
Mas quando chegava o dia de ir para a festa, que elas saíam aparelhadas para a festa, olhavam-se umas as outras e depois ia tudo para a festa. Aí era a expectativa ardente, etc.
Eu olhava para mamãe, ela estava preparada com absolutamente tanto cuidado quanto as outras. Com a particularidade de que os planos dela comportavam muitas minúcias. Ela era de um espírito muito minucioso. Mas minucioso atento, não era minúcia por mania de coisinha. Era muito equilibrado.
Bom, todas saíam. A menos rica era ela, mas era a que estava mais segura de si. Você pega aquela fotografia que estava hoje no salão, você vê a segurança completa. Absoluta, como se estivesse no quarto de dormir dela. Sabendo o que é que estava feito e, no fundo, com aquela tranqüilidade e aquela placidez que não a abandonava em todas as circunstâncias normais.
* A incompatibilidade do Senhor Doutor Plinio com as febricitações do “American way of life”
Eu notava a diferença. Com o discernimento dos espíritos que tinha, notava a diferença. Mas me enervava toda aquela febricitação de preparativos. Eu ficava enervadíssimo, de um lado.
Mas de outro lado, com ela eu ficava encantado. E você compreende o reflexo disso sobre mim.
Bom, eu não fazia comentários dessa natureza. Em primeiro lugar me faltava vocabulário. Porque isso exige vocabulário, do contrário não sai. A gente não consegue o adjetivo exato para o que quer, bem direito, a não ser quando tem o vocabulário inteiramente à disposição. E criança não tem, eu ao menos não tinha. E daí o silêncio que vinha também porque os filhos das outras não tolerariam as minhas observações. Eu teria que justificar as minhas observações com coisas que eram críticas. E eles não entenderiam a crítica.
Mas mais ainda, porque para eles aquele estado, se eles tivessem que viver aquele estado, aquele estado era tédio, era cacete, era o que a vida tem de recusável. É preciso estar agitado sempre no campo feminino como o businessman estava agitado sempre no campo dos negócios: falando com dois outro três telefones ao mesmo tempo, atendendo um cliente e ao mesmo tempo acabando de almoçar três sanduíches que ele tinha mandado vir, e com o pé colocado em cima da escrivaninha, etc. O que vocês conhecem. Depois saindo na rua e acabando de pôr o paletó na rua, essas coisas todas que vocês conhecem que era a versão masculina da vida trepidante americana, que certamente não era do sul norte-americano. Mas era do faixa Nova York do Atlântico ao Pacífico que fazia essa coisa que contrastava com o que era ela, que era a antiga placidez paulista transmudada para outras circunstâncias, mas sem batalhas, com toda naturalidade se afirmando assim, e se deployant dessa maneira.
E isso passava de mim para os meninos e meninas com quem eu tinha contato, passava sobre a seguinte maneira… [vira a fita]
* A profundidade com que o Senhor Doutor Plinio analisava as pessoas fazia com que as demais crianças gostassem de ouvi-lo
Eu era plácido, como acabo de dizer, mas muito mais falante do que o comum das crianças do meu tempo, porque eu era muito analista e crítico. E fazia, às vezes, críticas diplomáticas, sem entrar em choque com ninguém, críticas a respeito de pessoas, por exemplo, visitas que iam em casa, coisas assim que não chocava ninguém. As críticas eram veementes.
(Sr. Paulo Henrique: O senhor já tinha então um bom vocabulário.)
Começava a nascer um vocabulário muito à vontade. E as outras crianças gostavam muito de ouvir. Então começavam me provocar:
— Plinio, como é a dona fulana? Como é o senhor não sei o quê? Como é o outro?
E eu, a la bobinho:
— Ah, papai é daquele jeito…
E escalpelava. Em geral comentários muito críticos.
(Sr. Gonzalo: Muito verdadeiros.)
Ah, verdadeiros! Verdadeiros!
Mas a questão é que eles não sabiam fazer e eu sabia. Então chamava muito a atenção.
As vezes eu fazia a crítica para um ou para outro que estava ali, sobre ele, de um modo macio. Mas a crítica é uma crítica. Então os outros caíam na gargalhada: “oh, você!” etc. E fazia em torno de mim uma arrelia de que eles gostavam. Mas eu não estava na arrelia, eu estava pondo ao alcance deles os produtos da minha placidez.
(Sr. P. Roberto: E ela achava o que disso que o senhor fazia?)
Mamãe?
(Sr. P. Roberto: É.)
Ah, não gostava: “era preciso ter caridade — ela não dizia que eram falsas —, mas que era preciso ter caridade, onde é que se viu? Essas críticas iam filtrar necessariamente, e ia me fazer inimizades inúteis — e ela tinha toda razão —, e que eu ia ficar um homem sobrecarregado de inimizades só pela vontade de falar mal. Língua muito afiada, não se deve ser assim”. Em última análise: “papai não era assim” — o papai dela, e quando o papai não era assim, não se devia ser assim”.
Eu, isso: o papai dela, e tudo isso para mim, quantité [neglijablissime?].
* A placidez mantida pela Senhora Dona Lucilia mesmo nos momentos de angústia e tristeza; a estadia em Santos que antecedeu a morte do reizinho
E tudo isso acontecia que depois eu a via nos momentos de agitação, nos momentos de angústia, de tristeza, etc., ou de melancolia.
Por exemplo, uma vez ela foi passar um mês inteiro — aliás, isso acontecia com uma certa facilidade — em Santos com a minha avó. Mas não sei por que razão, elas em vez de irem ao hotel Parque Balneário, elas alugaram uma casa de um contraparente que estava viajando, e alugou para elas uma casa razoável. E elas ficaram lá.
Acontece que Santos e Guarujá eram o ponto de atração das famílias no inverno porque é mais quente, etc. Mas as famílias desciam, e desciam para veranear e para a vida social. E, portanto, mal paravam na casa de vovó, saudavam, cumprimentavam, às vezes deixavam objetos ali, etc., e iam para a vida social. E mamãe ficava sozinha com vovó. E eu em São Paulo preparando exames e coisa e tal, e não podia descer até Santos.
Por outro lado, mamãe… eu estava naquele período de tentações de que eu tenho falado a vocês. E em parte não queria descer para Santos para poder continuar sozinho nas elucubrações. E achava que a casa vazia se prestava muito a isso. De maneira que eu não queria descer. E não telefonava a ela para ela não poder me chamar. E ela julgava, sentia isso com uma espécie de frieza de minha parte, porque habitualmente eu não fazia isto. Eu escreveria para ela, ou telefonaria, ou iria lá, mas manteria com ela um contato normal.
Eu me lembro então que ela me telefonou.
Aí ela estava numa melancolia profunda. E eu quando a vi nessa melancolia, eu tomei um trem e fui imediatamente para Santos. E ali conversei com ela, etc. Mas não apareci na sociedade porque eu estava às voltas com aqueles problemas que eu queria resolver. Passei a noite dormindo na casa que elas tinham alugado, mas à noite minha avó foi se deitar mais cedo, e eu passei conversando longamente com ela a sós. Depois fui dormir, e de manhã cedo embarquei para São Paulo.
E aí eu vi bem, ela sozinha e entregue apenas à companhia de duas senhoras já com idades relativamente avançada ela, muito avançada a minha avó, a tristeza de uma velhice isolada e desamparada, e como ela ficava… enfim, todas as tristezas da vida subiam à tona e dentro da serenidade, me parecia não mais a serenidade com bem-estar, mas a serenidade melancólica, refletida, a respeito de cada coisa que era um fator de dissabor ou de tristeza, tudo analisado completamente, e ponderado completamente. E uma espécie… a palavra martírio seria exagerada, mas uma coisa que ia nesta linha, que se dirigia a essa linha.
(Sr. Gonzalo: Isso sem conversar sobre o assunto, era o que o senhor via, ou…)
Não, às vezes ela dizia, às vezes ela deixava transparecer. Depende muito do tema, etc.
Eu me lembro ainda que de manhã, quando eu tomei o automóvel para ir para a estação tomar o trem, eu passei diante de um colégio que havia na mesma avenida, um colégio de irmãs da Congregação São José, que tinha de fora do prédio, como ornamento da fachada do prédio, uma imagem em tamanho natural de São José com o Menino Jesus. E eu ainda olhei, estava às voltas com aquelas tentações, olhei para aquilo e pensei:
“Essas meninotas todas que estão aí, estão em paz, não tem problema religioso. Mas também não se incomodam com a religião. Agora, eu me volto para a religião completamente, acabo de romper com o mundo por causa da religião, e me sobrevém isto aqui. Que coisa horrorosa!” Eu me lembro bem disso. E vim para São Paulo.
Foi nessa noite, quer dizer, na noite deste dia em que eu parti para Santos, é que veio o telefonema anunciando-me que o Reizinho estava com um tiro no abdômen, etc., e que as coisas depois se desenrolaram de outra maneira.
* Vendo a placidez da Senhora Dona Lucilia mesmo nas horas de sofrimento, o Senhor Doutor Plinio compreendia como é que se deve sofrer
Mas em outras ocasiões eu a vi também assim muito sofrida. Mas de um modo ou doutro, mesmo no sofrimento a mesma placidez. A mesma serenidade, de maneira que eu acabava compreendendo como é que se sofre.
Quer dizer, como o sofrimento agitado, torcido, aumenta a dor, não adianta de nada, não ajuda para resolver coisa nenhuma, é uma besteira. E, pelo contrário, o sofrimento ponderado, equilibrado, etc., diminui a dor, mas sobretudo faz a coisa correr pelos eixos por onde deve correr.
Agora, tudo isso são coisas que o conhecimento da alma dela tornado mais substancioso pelo discernimento dos espíritos, me fazia ver com a clareza com que eu vejo qualquer objeto aqui dentro dessa sala. E explica bem o profundo efeito disso sobre mim.
Não sei também se é o que vocês queriam ouvir…
(Cel. Poli: Muito mais do que nós queríamos, senhor.
E isso foi até o fim.
* O último passeio do Senhor Doutor Plinio com a Senhora Dona Lucilia
Eu me lembro, a última vez que eu saí com ela, eu não tinha calculado bem que ela estivesse tão acabadazinha quanto estava. E eu fiz um pouco de esforço para ela se mover um pouquinho, etc., e irmos passear um pouco na calçada, que às vezes quando o dia estava bonito, etc., eu tinha esse hábito de sair um pouquinho com ela a pé, e de braços. Ela se apoiava no meu braço. E saíamos e chegávamos, por exemplo, na esquina da Itacolomi, ou descíamos mais um pouco, etc., e eu conversando. E ela parando para ver as flores dos jardins e analisando, etc., etc., e depois prosseguíamos. Às vezes, se havia uma flor caída no chão, ela manifestava o desejo de apanhar, eu apanhava imediatamente para ela e seguíamos. Mas nesse dia, foi o último dia que ela saiu, eu percebi, quando cheguei embaixo, que ela estava fazendo um esforço enorme para atravessar o hall, e que a locomoção dela tinha decaído muito. Mas eu não quis dizer para ela: “olha, a senhora está piorou muito no seu andar, é melhor subirmos”. Então eu andei um pouquinho e aí disse a ela:
— Meu bem, eu vou fazer o seguinte, como está muito agradável aqui, eu vou arranjar uma cadeira para a senhora, me espere um pouco aqui, eu vou arranjar uma cadeira para a senhora, trago aqui e a senhora fica sentada um pouquinho, vendo passar o trânsito, e quando a senhora tiver vontade — quer dizer quando a respiração der para isso, porque era a questão — nós subimos.
E o alojamento do Gugelmin e do Arnolfo era a casa do zelador naquele tempo. Então era facílimo pegar uma cadeira. Dei a ela e ela sentou-se. Eu vi que aquilo foi de um alívio para ela, muito grande. E que ela ficou sentadinha lá algum tempo. Depois ela subiu.
Eu, em tempos normais, nunca poria mamãe sentada numa cadeira na rua; nunca! nunca! nunca! Mas dada aquela situação não tinha remédio.
Depois ela então subiu devagarzinho, etc.
Mas eu fiquei vendo a evolução do espírito dela durante… isso para ela tinha muita importância, para uma pessoa normal não tinha.
O tempo inteiro medindo o que podia, não podia, a respiração, como é que era, parando um pouquinho para ver uma flor, mas na realidade aproveitando para não andar, para descansar um pouco, etc. Depois subia com o mesmo estilo. Depois chegar no quarto dela, deitar-se. Você está vendo que é uma caminhada minúscula exigindo logo depois que ela se deitasse. Era o fim que estava chegando. Não tem conversa. Ela devia ver também. Placidez! Placidez! Placidez!
Eu saí depois. Na hora do jantar eu voltei, ela estava refeita. Jantamos normalmente, não houve nada.
* Fatores que se acumulavam para as batalhas da Revolução e da Contra-Revolução
Agora, eu gostava enormemente de ver essas coisas, e de aprender, de sorvê-las em mim. Praticamente era isso.
Então essas coisas todas acentuadas pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus, pela atmosfera da igreja do Coração de Jesus, pelo que eu discernia do espírito da Santa Igreja Católica, tudo isso ia se acumulando para as batalhas da Revolução e da Contra-Revolução.
(Sr. Paulo Henrique: E ela era o reflexo da Santo Igreja, do Coração de Jesus, etc., o modelo mais próximo era ela.)
Ela era. Mais próximo e depois vivo, não é?
(Sr. Paulo Henrique: Enquanto mãe.)
É claro.
(Sr. Gonzalo: […] O senhor, pelo que eu entendi na reunião do MNF, acabava tendo seu ancoradouro muito grande nela.)
Sim, mas sobretudo quando era pequeno. Depois não.
(Sr. Gonzalo: Porque no tempo de pequeno acabou definindo a coisa.)
É.
(Sr. Gonzalo: […] Mas no tempo de pequeno era assim.)
Era isso.
(Sr. Gonzalo: Todo o mundo maravilhoso se ancorava aí.)
Isso.
(Sr. Gonzalo: Depois como foi? Já era com a Igreja…)
* Lendo a Bécassine, o Senhor Doutor Plinio ia formando uma idéia mítica a respeito da Europa
Não é bem isso não. Vamos dizer em concreto. Bécassine era uma revista para meninas, publicadas num semanário para meninas chamado La semaine de Suzette. Mas ela lia a Bécassine, ou eu pedia a ela para ler a Bécassine comigo. Porque ela fazia, involuntariamente, comentários dos desenhos e das ilustrações, e eu aprendia muito com ela a analisar o mundo francês, que era o mundo da Bécassine. Mas que era o mundo arquetípico do mundo, segundo a concepção dela, e concepção até hoje adotada por mim.
Hoje em dia, sabe que a coleção de Bécassine é considerada oficialmente na França, para efeitos Universitários, etc., livro universitário, não é?
E com certa facilidade de conhecimento que eu tinha, eu pegava muito daquilo, mas pegava como menino, que não tem o conhecimento completo, e ela fazia comentários que me ajudavam a ver a coisa inteira. E daí, como matéria-prima para desenvolver aquelas arquetipias primeiras, isso era de uma grande utilidade. E calculando um mundo europeu que já não era bem assim.
Quer dizer, a Semaine de Suzette estilizava o mundo francês que o post-guerra americanizante tinha deformado mais do que estava lá. Mas isso eu não tinha idéia.
(Sr. Gonzalo: Mme. de Grand’Air já não existia.)
É, Mme. de Grand’Air não existia. O M. de Grand’Air não existia. Existia M. Proeminens…
(Sr. Gonzalo: Oncle Clarentin…)
Desaparecido. Bécassine desaparecida. Tudo aquilo.
Mas eu julgava que não, que era aquilo.
Donde uma construção de uma Europa documentada, que eu julgava documentada, nem me punha na cabeça que não fosse assim. [E sendo?] auxiliada pelas coisas que a Fräulein Mathilde contava.
* O contributo da Fräulein Mathilde na formação da idéia mítica do Senhor Doutor Plinio a respeito da Europa
Porque a Fräulein Mathilde tinha trabalhado para casas — que ela contava, ao menos — que eram casas muito ricas, na Europa. Uma eram duas meninas inglesas não sei de que família. Uma chamava Gledes, que é um nome muito comum na Inglaterra. Mas a outra tinha um nome muito esquisito, parece que era nome irlandês, se eu não estou enganado. Nome pessoal, como uma moça pode chamar-se Maria, ela chamava Monona. E me parecia um nome horrível. Parecia mona; macaca.
Gledes e Monona. Ela contava coisas, riquezas de Gledes e Monona. E riqueza bonita, riqueza de avant-guerre. A fräulein Mathilde não conheceu, enquanto esteve conosco, a Europa de aprés-guerre, ela passou a guerra em casa.
E depois tinha uma família que era Dobigné ou Dobigni, eu não me lembro bem. Mas havia uma outra família que era Dobigné ou Dobigni, e esta família não queria ser confundida com a outra. Dobigné era a família de Mme. de Maintenon. Será que eram descendentes de gente dessa? Dobigni, eu uma vez vi no dicionário, parece que era família da Idade Média ainda, mas não tão ilustre. Mas essa gente com que ela esteve, era gente que tinha, por exemplo, no salão — eles moravam num apartamento, num Bois — e no salão deste apartamento havia um espelho tão bonito, que quando de manhã os criados abriam o apartamento para arejar e limpar, tinha gente já na calçada esperando a hora da abertura da janela para verem o espelho.
Você compreende, um menino tendente a… o conto disto pega fogo. E como isso tudo me levava a imaginar coisas, etc. Mas nunca me pilhei imaginando uma coisa que fosse puramente construída por mim. Era um desdobramento de uma realidade.
Agora, nessa coisa eu em certo momento percebi que havia entre ela e eu uma diferença acidental, mas irremediavelmente vincada.
(…)
* A Senhora Dona Lucilia entrevia algo das grandes preocupações do Senhor Doutor Plinio; a morte de D. José e a direção do grupo do Pe. Mariaux
Quando D. José morreu, ele me tinha me dado um prazo de 15 dias para deixar a advocacia da Cúria. E aí ele cortava o que eu ganhava por mês da Cúria, que era uma parcela indispensável para a nossa manutenção. E eu então teria que pedir a minha transferência para professor no interior. Você compreende tudo isso o que significava.
(Sr. Gonzalo: Ela sabia isso?)
Não. Mas de um momento para outro teria que saber. E ela percebeu que a morte dele afastava de mim um peso doido. Porque isso eu disse. Disse para ela compreender minha ação de graças, etc. Creio que ela julgava que as orações dela tinham concorrido para que esse peso se afastasse. E tinha toda razão para isso.
(Sr. P. Roberto: A oração da mãe pelo filho.)
É a oração da mãe pelo filho é uma coisa seríssima. Depois, você pode imaginar o empenho, dela, etc.
Mas nem ela nem papai… Papai, como homem, portanto, muito mais lançado na vida, alguma coisa percebia. Mas ela eu vi que nem isso ela percebia claramente.
Por exemplo, quando o pessoal do Padre Mariaux passou para nosso grupo, durante um almoço papai fez esse comentário. Coisas irrelevantes da vida do Grupo eu contava para eles, para ela: tal fez isso, tal fez tal viagem, etc. Sempre fiz, porque eu tinha que contar coisas. E papai uma vez, durante um almoço, disse:
— Você vai dando bem a paga a esse cardeal, hein!
— Mas como papai?
— Não, o que tem no movimento católico de melhores famílias, está tudo com você. O resto está com o cardeal. Você no fundo vai derrotando o cardeal.
Eu não disse nada, mas eu via que era apenas uma parte da verdade.
(Cel. Poli: Mas uma parte interessante.)
Uma parte interessante sim, uma parte decisiva não.
(Cel. Poli: Mas o senhor acabou derrotando a ele.)
A crise da Igreja fez com que o navio se enchesse de água. Mas por exemplo, D. Arns; eu derrotei D. Arns? D. Arns se derrotou a si próprio.
(Cel. Poli: Mas o Recca foi parar em Aparecida e todo o mundo sabe que foi por causa da encrenca dele com o senhor a propósito da Reforma Agrária.)
* Fatores que se conjugaram para a remoção de um adversário, mas cujo papel principal foi o do Senhor Doutor Plinio
Em boa parte sim, mas não foi só isso também. Eu creio que contei a vocês o dito do Horácio Lafra a respeito disso, não é?
Sabem quem foi o Horácio Lafra, não é?
Um homem de negócio aqui em São Paulo, tudo quanto há de mais influente, creio que foi mais de uma vez ministro do Getúlio e daí para fora.
O Horácio Lafra conversando em casa de gente conhecida minha disse isto: “este cardeal é isto, aquilo, aquilo outro. Querem saber de uma coisa — ele sabia que relação a dona da casa tinha comigo, sabia perfeitamente, e conhecia minha posição face ao cardeal, etc. —, isso se põe assim, vocês querendo podem escrever: se dentro de “x” meses — ele deu lá um número que eu não me lembro qual é — esse cardeal não estiver fora de São Paulo, vocês podem dizer a todo o mundo que o Horácio Lafra não tem prestígio no Vaticano.”.
Dentro do prazo o cardeal estava em Aparecida.
(Sr. Gonzalo: Mas por alguma razão foi que o Horácio Lafra disse isso.)
Ah, isso não tem dúvida.
(Sr. Pedro Paulo: Na raiz de tudo, da desgraça dele, não estava o “Em Defesa…”?)
Isso. No fundo tem o “Em Defesa…” e tem a carta contra ele que eu escrevi a todo episcopado reunido pedindo o julgamento do “Em Defesa…”, que deixava a ele não sei com que cara.
(Sr. Gonzalo: Na raiz estava isso, mas o fato mais concreto que liquidou com D. Motta foi a questão da Reforma Agrária, mesmo não?)
Sim, pelo seguinte: isso pode ter movido o Vaticano. É que em última análise os fazendeiros eram mais reativos contra a Reforma Agrária naquele tempo do que hoje, e a fazendeirada vendo, com surpresa, que a Igreja tinha passado para a esquerda, capitaneados pelo cardeal, porque estava claro que era ele que estava capitaneando, isso produziu uma impopularidade dele verdadeiramente medonha.
(Cel. Poli: E sentindo […inaudível] em todo trabalho do senhor.)
Ah não, isso não tem dúvida.
Meus caros, que horas são?
(Sr. Gonzalo: São 3 horas. Está uma reunião muito aconchegante e…)
(Cel. Poli: Muito flashosa.)
(Sr. Paulo Henrique: Aquele padre espanhol tem toda razão de dizer que o senhor fez em 70 anos, mais do que São Francisco em 7 séculos. E depois nós temos muito que ouvir, porque […inaudível].)
(Sr. Gonzalo: Está havendo alguma graça nessa linha, senhor? Porque todas as repercussões do livro, o que houve ontem, etc., o senhor vê alguma coisa a mais?)
* Qual seria o próximo passo a dar com vistas a aproveitar as excelentes repercussões do Livro do Senhor Doutor Plinio sobre a Nobreza?
Quer dizer o seguinte, normalmente falando, eu deveria acabar de tomar conhecimento das repercussões, e um conhecimento pelo menos do que eu tive ontem, daquele grau de informações, para eu ver bem qual é o próximo passo. Se é de escrever um outro livro, mas um livro bem feito leva um ano para escrever. Não tenham ilusão, esse livro eu levei mais ou menos um ano para escrever. E um ano é muito tempo. Ou se trata de um manifesto, como é esse manifesto? Tudo isso é muito cheio de conformes, e, portanto, muito prematuro para a gente estar dizendo qualquer coisa.
(Sr. Gonzalo: Está muito claro. Nós vamos ficar como a Senhora Dona Lucilia, quietinhos. O senhor tem muita coisa para dizer, mas que não pode.)
Ahahahahahahah!
(Sr. Gonzalo: Com muito respeito e querendo que isso seja assim mesmo. Mas que a coisa está se movendo, está.)
Vamos ver.
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