Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 27/8/94 – Sábado – p. 20 de 20

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 27/8/94 — Sábado

Dir-se-ia que existe uma certa emissão de eletricidade eletro-biológica que encontra no outro uma espécie de receptividade * O exemplo mais frisante da comunicatividade e receptividade eletro-biológica no reino animal seria a cobra * Há homens que são átonos e que atonizam aqueles com quem eles tratam * Os puros espíritos se comunicam, se conhecem e se vêem sem ter olhos. Como é esse ver do espírito sem ter olhos? * Para que o espírito de uma pessoa tenha modelado um chapéu, é preciso que algo saia de um agente e descarregue sua ação num paciente. Como é que se faz essa transmissão? * A calma eu instintivamente cultivo como um tesouro * O vício mais profundo do nervoso é que ele tomou o vício de se ouvir a si próprio em vez de ouvir a Deus * Quem era um vitral da própria alma era mamãe * O ponto de partida do nervosismo * Somente com base numa definição da felicidade e da falsa felicidade é que se compreende bem a desgraça do inferno * Uma pancada única na Revolução que poderia ser o gongo inicial do Reino de Maria

(Sr. Gonzalo: […] Nós estávamos comentando coisas que são extremas. Por exemplo, “uno” vê… Coronel, dá para…)

(…)

(Sr. Gonzalo: […] Essas coisas marcam muito. Agora, o que é isso, como o senhor vê isso irradiando a pessoa do senhor para objetos? E o que seria se nós fôssemos fiéis à graça. Porque aí num homem o espírito do senhor se expandiria imensamente.)

Sim.

(Sr. Gonzalo: Se um chapéu pode refletir o senhor, o que um filho poderia refletir.)

Não, não tem comparação.

(Sr. Gonzalo: Não sei se estaria clara a questão.)

Clara, muito clara.

(Sr. P. Roberto: Só uma coisinha que… não sei se poderia…)

(…)

É que a pergunta que o Gonzalo fez, eu várias vezes me fiz, não a respeito de mim mesmo, mas a respeito de outras pessoas. Porque eu conheci pessoas de uma geração muito mais antiga que vocês não conheceram, e que tinham, portanto, muito mais personalidade do que tinha a minha geração. Então era uma coisa muito marcada. E eu me perguntava…

* Antigamente quase todo homem usava bengala, que era uma bisneta espúria da espada do “gentilhomme”

Eram pessoas que não tinham nenhum nexo especial com a causa católica. Mas eu me perguntava, uma coisa por exemplo: bengala. Antigamente quase todo homem usava bengala, era um complemento. Era uma bisneta espúria da espada do gentilhomme. Pouco antes da Revolução cessou o uso da espada. Mas enquanto usaram a espada, a espada era um complemento natural do homem. A bengala é sua sucessora espúria. Mais espúrio ainda é o guarda-chuva. O guarda-chuva era uma espécie de bengala ainda de nível mais baixo. Havia guarda-chuvas muito esguios, muito finos, mas antes de saberem fabricar esses tecidos, havia guarda-chuvas medonhos, mas que eram os únicos que havia. Tecidos grossos. E eles não sabiam fabricar o tecido impermeável, então para de algum modo impedir que a água varasse através do tecido, faziam tecidos grossíssimos. Mas faziam então guarda-chuvas muito pesados e muito feios. Eram assim abdominais, superburgueses.

* O guarda-chuva, um símbolo perfeito para Luis Philippe, “le roi-parapluie”

Luís Phillipe usava esses guarda-chuva em todas as ocasiões. Mesmo quando o tempo estava bonito, e ele rei dos franceses, ele andava de guarda-chuva.

(Cel. Poli: Ele carregando seu próprio guarda-chuva?)

Ele carregando seu próprio guarda-chuva.

Então era chamado le roi-parapluie. O rei-guarda-chuva. Era um símbolo perfeito para ele.

* A cartola era uma coisa que tinha muita personalidade

Mas uma coisa que tinha muito personalidade, vocês eu creio que têm dificuldade de fazerem uma idéia, é cartola.

Dir-se-ia que aquele cilindro não era capaz de ter muita personalidade. Porque aquilo é uma secção de cilindro. Era um cilindro pequeno. Aliás, os franceses diziam: le cylindre, ou então, numa linguagem mais caseira les huit-réflexe, porque eles achavam que a cartola fina deveria ser preta e de uma seda lustrosa, que dava 8 reflexos em cima. Então chamavam…

Eu procurei contar em cartolas os oitos reflexos, e nunca consegui. Mas esses são cálculos para os quais eu não sou competente. De maneira que dou como válida a apreciação dos franceses. São oito reflexos.

Mas afinal, numa cartola, você pegando dois ou três homens, a única coisa da cartola que tem um pouco de inflexão é aquela parte da aba que toca aqui e que a pessoa aperta assim para suspender a cartola e fazer um cumprimento.

Eu estou fazendo com a mão esquerda, mas de fato devia se fazer com a mão direita. Depois colocava na cabeça de novo e continuava.

* A cartola acabava tomando um certo jeito da pessoa

Aquilo tomava um certo jeito da pessoa…

(Sr. Gonzalo: A cartola de Churchill.)

A cartola de Churchill, por exemplo.

Era peculiar! Não se sabe — eu pelo menos não sei dizer — como é que essa cartola se impregnava da personalidade deste ou daquele. E eram pessoas sem nexo com a religião, mas de muita personalidade. É o caso do Churchill.

Há aí uma coisa a respeito da qual eu pensei muito, dei muitas voltas no assunto e estou na estaca zero.

* Dr. Paulo e o chapéu que ele usava faziam uma só coisa

Por exemplo, o que é que fez com que o Paulo encontrasse aquele chapéu único, porque o Paulo e o chapéu faziam uma só coisa. Eu não sei se vocês se lembram, mas é uma coisa que…

(Sr. Gonzalo: Era uma unidade absoluta.)

Mas como é que o Paulo encontrou esse chapéu?

(Sr. Gonzalo: O senhor acha que ele encontrou ou que ele o modelou? De tanto usar alguma coisa aconteceu no chapéu.)

Quando ele apareceu pela primeira vez com o chapéu lá nos Buissonnets, demos uma risada geral, porque já o chapéu vinha…

(Sr. Gonzalo: Vinha com a mensagem.)

É exatamente, aquela mensagem.

E eu não sei explicar esse fato. Eu sei que é sem graça a resposta que eu dou, mas eu não posso inventar uma resposta engraçada. Eu tenho que ser veraz na nossas conversas.

(Sr. Gonzalo: Mas coisas com a Senhora Dona Lucilia, que é mais fácil para o senhor dizer. O xale da Senhora Dona Lucilia, que deve ser de seda ou de lã, não sei…)

Só sei que é uma coisa inglesa.

(Sr. Gonzalo: O xale é tal mas por ter sido usado por ela, que as pedras [que ficam em cima do xale no São Bento], ficam meio vidro. Agora por que isso? O senhor não poderia dizer um pouco como ela marcava as coisas?)

Eu realmente, meu filho, prestei atenção em tudo isso e não sei dizer. É curioso mas eu não sei dizer.

(Sr. Gonzalo: E de coisas revolucionárias tão pouco?)

Também não, também não sei dizer.

(Sr. Guerreiro: Mas nem uma hipótese o senhor formulou sobre esse fenômeno? Porque a gente vê que esse fenômeno é até muito importante; isto é um fator que existe e que concorre muito possantemente para a modelagem nossa para a aquisição do espírito do senhor.)

É verdade. Eu concordo.

(Sr. Guerreiro: Isto não está mais ligado à alma da pessoa? Não é algo da alma que é a essência da pessoa que quando a pessoa tem de modo muito abundante, de modo muito rico, muito definido, muito marcante, a pessoa acaba irradiando isto de si para as outras pessoas, para as coisas que têm contato imediato com ela. E no caso do senhor até o automóvel adquiriu um tônus, uma distinção, um bom gosto, um tom cerimonioso, que a gente tem a impressão que se o senhor for adquirir esses carros modernos, eles vão ser menos receptivos a essas qualidades que o senhor tem de alma do que este automóvel. E fica-se com certo receio de que esses autos mais modernos, por serem mais modernos, não fiquem impregnados com esse vínculo de alma que o senhor imprimiu neste automóvel e que dá muita distinção e muita categoria, embora o automóvel já seja meio…)

Velho.

(Sr. Guerreiro: Mas, senhor, é curioso, não o é. É cronologicamente…)

(Cel. Poli: Os outros iguais a ele são, ele não.)

(Sr. Guerreiro: O do senhor não. O do senhor está com tônus, está com uma categoria, está com uma presença do senhor impressionante. Mas que isso chegue até a uma máquina!)

É incrível, mas é o seguinte. Meu filho, é a única hipótese, mas é uma hipótese doutrinariamente meio perigosa, que seria a seguinte:

* Dir-se-ia que existe uma certa emissão de eletricidade eletro-biológica que encontra no outro uma espécie de receptividade

Tudo o que é vivo emite umas certas vibrações, essas vibrações eu a chamaria, por hipótese, não vibrações elétricas, mas eletro-biológicas. Quer dizer, de um tipo de eletricidade que é irradiada pelo ser vivo e que não é irradiada por um ser inanimado. E quand-même, ainda aí precisa ter um certo cuidado. Mas então dir-se-ia que existe em nós uma certa emissão dessa eletricidade eletro-biológica que encontra no outro uma espécie de receptividade, uma sensibilidade que ao receber esta vibração afina ou não. São como duas mãos que se encontram, podem bater dedo a dedo e não conseguir esta harmonia. E outros que, pelo contrário, logo no primeiro momento estabelecem essa harmonia. Então você chegaria à conclusão de que esta eletricidade tem alguma coisa de genérica, quer dizer própria a todos os homens, e que é diferente da comunicação eletro-biológica animal. Embora o campo eletro-biológico animal seja também ele todo muito rico, mas todo num padrão inferior ao humano.

* O exemplo mais frisante da comunicatividade e receptividade eletro-biológica no reino animal seria a cobra

O exemplo mais frisante, a meu ver dessa comunicatividade e receptividade eletro-biológica no reino animal seria a cobra.

(Sr. Gonzalo: O senhor poderia explicar um pouquinho?)

Sim. Porque tem qualquer coisa na cobra em que os movimentos delas são expressivos pelo corpo inteiro. Pode-se até dizer que a cabecinha da cobra não é muito mais expressiva do que o resto do corpo. Mas aqueles movimentos delas quando ela bate a parte final do corpo no chão, porque está indignada ou qualquer coisa. Depois, a boquinha com aquela lingüinha… fifififii! E uma certa capacidade de enlear que a gente tem a impressão que ela está à procura de um corpo humano para se enrascar nele e imobilizar o homem e meter uma dentada. Porque é a impressão que ela dá.

Quer dizer, ela é antipática e a gente olhando desde logo toma uma posição de resguardo.

(Sr. P. Roberto: Se passasse, por exemplo, dentro de uma sala, mesmo que a gente não soubesse notaria alguma coisa.)

Notaria alguma coisa. Se por exemplo houvesse uma cobra aqui, nós conversaríamos a noite inteira de uma conversa forçada, com uma segunda preocupação e nós não sabíamos no quê, e que só teria alívio a partir do momento em que a gente descobrisse a cobra e jogasse pela janela. E propriamente o verdadeiro seria jogar pela janela. Ela assim mesmo se estratelaria lá embaixo algum tempo e depois saía normal como se não houvesse acontecido nada. Isso ainda que ela caísse do sexto andar. São jeitos dela.

Ela é meio hipnótica, ela hipnotiza rãs, passarinhos, etc., e essa hipnose seria uma emissão desta eletricidade pela qual ela põe em movimento [a] eletricidade do homem ou de um outro ser animal, e estabelece um relacionamento que ela conhece e o homem não conhece. De maneira que o homem sente, mas a menos que ele observe muito desconfiadamente e nas minúcias, ele não pega o negócio do jogo dela.

* O modo como os empregados do Butantã mexiam com as cobras

Eu me lembro aqui no Butantã. Vocês sabem o que é o Butantã, não é? No Butantã — não sei se ainda há hoje — mas havia muitas cobras por causa do instituto do Butantã que faz coisas com remédios de cobras e essas coisas assim. E era uma coisa incrível. As cobras eram guardadas numa espécie assim de ilhas artificiais. Quer dizer, uma água qualquer que tinha lá, de um rio ou de uma torneira, não sei o quê. Mas você imagina um quadrilátero assim, do tamanho dessa sala, e imagine que nesse quadrilátero a parte ocupada pelo tapete representasse uma ilha, e o resto fosse água. Uma bordadura de água. De maneira que as espécies de cobra que não nadam — porque há algumas que nadam — mas a espécie de cobra que não nada não se meteria n’água por instinto, porque ela teria o conhecimento de que se metendo n’água afundava. E ficava assim, o povo que ia ver as cobras, muito ao abrigo da cobra.

Agora, vinha então de vez em quando uma espécie de funcionário secundário do Butantã com umas botas altas, e ele dava um pulo por cima dessa bordadura de água, que para o homem é mínima — e passava para a parte onde estavam as cobras. Ele tinha um bastão cumprido que se não me engano tinha uma ponta de metal.

(Cel. Poli: Tinha um laço.)

Mas laço de tecido?

(Cel. Poli: Uma cordinha que enfia na cabeça da cobra e puxa aqui.)

É mais razoável. Talvez seja isso e eu tenha conservado uma recordação errada. Porque eu fui lá apenas em muito moço ainda, depois nunca mais voltei.

E ele entrava no meio daquelas cobras todas, e as pessoas batiam palmas, etc. E ele tinha ordem de não responder para não fazer papel de homem de circo. Ele com muita fleuma mexia com a cobra e depois ele punha a cobra — eu não sei como é que ele fazia que a cobra se enrascava naquele bastão dele. Mas enrascava de um tal modo que ela ficava sempre com a cabeça para lá e a cauda dela voltada para o homem. Porque se pusesse a cabeça para cá, ela mordia. E o homem se não me engano tinha umas luvas de couro também. Não posso garantir muito.

Mas ele então arranjava um jeito — mas [era] uma arte que ele tinha, especializado; com certeza fazem adestramentos, etc. — em que a cobra posta na ponta do bastão… Em geral o bastão era bem longo e ela ficava naquela ponta e não via caminho diante dela. E o hábito dela de andar com aquele sistema de anéis, ela se encolhe e joga a cabeça para frente, e vai depois a cauda em anéis. Ela ficava naquela ponta e fifififiii!… assim. E o povo ficava impressionado, meio medroso e meio achando graça.

Assim ele fazia demonstrações mais ou menos desse tipo sobre várias cobras e depois ia embora.

Mas que se compreende que o instituto como o butantã tenha uns empregados assim para o povo ver, etc. É uma coisa banal, elementar.

* O contraste entre a reação do povo ao ver os empregados do Butantã mexerem com as cobras e a atonia dos empregados em relação aos bichos

O que me chamava a atenção era a sensibilidade do povo para essas cobras… Olha que eles não eram cretinos, eles estavam vendo que aquele valo de água separava suficientemente da tal ilha. Mas as cobras se moviam e eles ficavam elétricos. E esses homens pareciam completamente átonos para a cobra. E tenho impressão…

(Sr. Gonzalo: Os que estavam dentro?)

Os que estavam dentro. Mas absolutamente, eles mexiam com aquelas cobras como se fosse cordas.

E também átonos para o povo. O povo batia palma, etc., etc., para eles se não batessem dava na mesma. Eram funcionários pagos, que de tempos em tempos tinham que ir lá fazer essa demonstração, no fim do dia, eles se retiravam e deixavam as cobras, deixavam tudo, tinham outros para cuidarem disso. Eles iam comer, dormir e cuidar da vida deles.

* Há homens que são átonos e que atonizam aqueles com quem eles tratam

Mas essa atonia deles fazia-me sentir, não naquele tempo, mas guardando depois recordações, fazia-me sentir que há homens que são desta atonia em relação também a outros homens. E que há homens assim que são átonos.

Mas o que é mais curioso é o seguinte, é que eles atonizam àqueles com quem eles tratam. Pode ser o mais Paulo Barros que seja, um homem assim é de uma neutralidade que deixa o tipo Paulo Barros sem saber como se mover. E que não se compara com fleuma. Porque dir-se-ia: “são fleumáticos”. Não é isso. É como um homem, por exemplo, que não tem olhos. Ele vira aquelas pálpebras vazias dele, para um lado e para outro e não tem reações. Mas não tem reações não é porque ele é fleumático, mas porque ele não vê. Também esses tipos assim eles não vêem a coisa da cobra. Perigo teórico da cobra morder, etc., eles sabem, como sabem de que o cachorro pode dar uma dentada. Mas não é aquela carga da cobra.

* Há indivíduos que são como que daltônicos para as cobras, e há indivíduos que têm uma receptividade normal

Quer dizer existem uns indivíduos… assim como há daltônicos que não vêem o vermelho ou o verde, não sei bem, ou confundem as cores, assim também há indivíduos que são daltônicos para as cobras. E assim, então nós teríamos indivíduos daltônicos e teríamos indivíduos de uma receptividade normal.

(Sr. Gonzalo: O senhor dizia átonos e receptivos.)

Átonos e receptivos.

(Sr. P. Roberto: Não há homens-serpentes também, senhor.)



* Às vezes a reatividade de certos homens se parece com a de certos animais

Existe homens-serpentes, e é uma coisa engraçada, mas às vezes a reatividade de certos homens se parece com a de certos animais. Às vezes certos homens têm uma reatividade parecida com a do leão. Tem-se a impressão de que Ricardo Coração de Leão tinha alguma coisa disso.

Outras vezes há homens que diante do perigo, quer o perigo físico de uma agressão, de serem mortos, quer o perigo, por exemplo, num negócio em que eles podem perder o que têm, qualquer coisa, tomam uma atitude de fuga aterrorizada, atabalhoada, etc., e sem a capacidade de fazer um plano, próprio da galinha. Existem homens assim. Como há homens que tem a calma do pato, e que passam a vida andando como os patos: satisfeitos, burros, se mostrando um pouco, mas sem aguardar reações.

E há homens galo. O chanteclair do Rostand é baseado em boa parte nisso. O galo que de manhã tem ilusão que faz levantar o sol. É uma coisa… mas todo aquele físico do galo insinua esta ilusão.

Por exemplo uma coisa de que os franceses gostam é falar do coq gaulois.

(Sr. Gonzalo: São eles.)

São eles.

* São Tomás de Aquino era chamado “o boi”, por causa da calmona dele e aquele olhar grande, tranqüilo, que olhava as coisas

Agora, aparecem várias formas de sensibilidade. Por exemplo, São Tomás de Aquino — São Tomás! — era chamado “o boi” por causa daquela calmona dele e aquele olhar grande, tranqüilo que olhava as coisas… só que ele olhava e via, outros olham e não vêem. É uma coisa diferente. Mas compreende-se… São Tomás pintado pelo Fra Angélico é um boi! É o grande e incomparável Tomás! Ademais, santo. Mas tem essa coisa assim que…

Então poder-se-ia perguntar — mas você veja que é uma hipótese — se essa eletricidade não tem o dom de se fazer sentir no chapéu de uma pessoa, ou na bengala de uma pessoa. Ou por exemplo, numa cadeira que é privativa dela, e onde ela durante anos é a única a sentar-se.

Mas é, como vocês estão vendo, uma coisa perigosa porque em primeiro lugar não há prova — ao menos eu não sei que haja, pose ser que haja, mas eu não conheço — prova de que o homem emita essa eletricidade mesmo.

(Sr. Gonzalo: Eletricidade nervosa sem dúvida não é? Por exemplo um caso característico do…)

(…)

biológica. É uma explicação que não tem, que eu sabia, base científica nenhuma. É um puro sentir meu.

(Sr. Gonzalo: E Anjo e demônio não explica?)

* Os puros espíritos se comunicam, se conhecem e se vêem sem ter olhos. Como é esse ver do espírito sem ter olhos?

Por exemplo o Anjo e o demônio. Eu tenho a impressão que a presença de um Anjo, necessariamente tem as virtualidades da graça, mas um Anjo tomado na sua mera natureza, eu sei que se ele quisesse se comunicar com o homem pode, mas não é por linguagem nem por nada que seja, vamos dizer, humano. São lá processos dele que a gente não sabe bem quais são.

Os Anjos entre si. Um puro espírito deve ter a possibilidade, e tem, a possibilidade de encontrar o outro e falar com outro. Como é que os puros espíritos se comunicam? Eles se conhecem e se vêem sem ter olhos. Como é esse ver do espírito sem ter olhos?

(Sr. Guerreiro: É muito bonito isso. E aí a gente percebe pelo que o senhor tem nos ensinado nesses anos todos, é que esse ver é um ver da inteligência, e que é aquela essência para a qual a aparência das coisas materiais indica uma essência que está por detrás daquilo que é a própria natureza daquela coisa. É portanto uma natureza filosófica que é a substância da coisa material. Por exemplo, toda essa visão que o senhor tem das arquetipias, dos vários graus de perfectibilidade que as coisas têm, a gente vê que a alma do senhor tem um conhecimento da essência daquelas coisas que estão ali de um modo simbólico apresentadas e que existem em outro lugar. E a gente vê que o Anjo, como é puro espírito, vê de um modo semelhante como o senhor vê. Porque a realidade última das coisas é esta essência imaterial, e no fundo o próprio Deus.)

Mas como é que essa essência imaterial se comunica?

(Sr. Guerreiro: Aí que a gente vê que…)

Aí entra a tal eletricidade.

(Sr. Guerreiro: O senhor usa a palavra eletricidade para usar um recurso de linguagem.)

É um recurso de linguagem.

(Sr. Guerreiro: É uma substância que esta vibração como que elétrica dá conhecimento ao homem de que ela existe. É isso que o senhor quer dizer?)

É isso, é isso, não é outra coisa.

(Sr. Guerreiro: Não é uma eletricidade física, ela guarda uma semelhança. Por exemplo, no caso do senhor, a gente vê que o chapéu do senhor, através de uma ação de presença contínua do senhor sobre ele, acabou adquirindo algo da alma do senhor. A eletricidade é como um meio para transmitir esta alma do senhor àquele objeto.)

* Para que o espírito de uma pessoa tenha modelado um chapéu, é preciso que algo saia de um agente e descarregue sua ação num paciente. Como é que se faz essa transmissão?

Mas isso tudo, meu filho, deixa a descoberto o problema: como é que se faz a transmissão. Porque para que o espírito de uma pessoa tenha modelado o chapéu, é preciso que haja uma transmissão, algo que sai de um agente e que se descarrega sua ação num paciente.

(Sr. Guerreiro: E que está ligado com a natureza mais essencial daquele agente.)

Não tem dúvida. Mas como é que transmite? Porque aqui está a questão.

(Sr. Guerreiro: No caso do senhor, a gente nota muito o seguinte: que há um conjunto de valores em que o senhor faz muito empenho de que nós conheçamos aqueles valores e amemos aqueles valores. E o meio que o senhor habitualmente tem de nos fazer amar esses valores é através do verbo, da explicitação, da palavra.)

Sim.

(Sr. Guerreiro: O senhor toma com relação a si próprio uma atitude átona de sua própria pessoa que por exemplo a gente vê aqui nesta reunião.)

Nesta agora?

(Sr. Guerreiro: Nessa reunião. E vê também em outros momentos de convívio com o senhor. Mas há outras situações da vida do senhor em que o senhor tira esta como que atitude átona, e o senhor permite que toda alma do senhor se empenhe na questão.)

Isso existe.

(Sr. Guerreiro: Mas para quem ver o senhor isso é muito assim. Então a gente tem a impressão que o senhor tem uma imensa capacidade de irradiar esta alma, mas que o senhor por enquanto ainda se mantém muito átono pelo menos para transmitir isso com muito mais intensidade do que em certos momentos o senhor deixa transparecer como o senhor realmente é. Então essa força da alma do senhor aparece muito mais em certos momentos, e em certos momentos o senhor mantém isso tudo num ponto morto. E que dá impressão que o senhor faz isso de um modo deliberado.)

[Semi-deliberado?].

(Sr. Guerreiro: Uma espécie de segunda natureza que o senhor quis pôr sobre si próprio.)

Sim.

(Sr. Guerreiro: E que está ligado àquilo que o senhor falava do abat-jour, na última reunião, que o sr. colocou sobre si próprio. Por que esse comentário então? É que a gente vê que se de vez em quando o abat-jour saísse, muito disso se poderia com muito mais…)

Mas você não fala, meu filho, em termos de uma deliberação inteira minha…

(Sr. Guerreiro: Eu não sei se é inteira, mas a gente vê que há uma deliberação.)

* Desde mocinho, as circunstâncias exigiam de mim um dispêndio de energias muito maior do que ao comum das pessoas

Você não conhece o fundo do fato, mas explicando o fundo do fato, ele se torna muito mais compreensível. É que eu noto que as circunstâncias, mas desde pelo menos mocinho, exigiam de mim um dispêndio de energias muito maior do que ao comum das pessoas: pensamento, reflexão, ação, força de impacto, recuos, etc., etc. E eu percebi claramente que isso me desgastava muito, e que, portanto, era uma coisa que se eu fosse levar dentro do nervosismo comum, eu fosse levar-me nessa linha, eu me desgastaria depressa, e ficaria alguma coisa de mim inexpresso.

* O maior dos abat-jours é o nervosismo. O neurótico se cerca de uma espécie de fumaça poluída que não dá a entender inteiramente o modo de ser dele nem nada

Porque eu acho que o maior dos abat-jours é o nervosismo. O neurótico se cerca de uma espécie de fumaça poluída que não dá a entender inteiramente o modo de ser dele nem nada. E percebi que eu tenho, ex natura propria momentos de calma, de tranqüilidade muito grande que representa uma espécie de…. nem um pouco de inércia, mas representa um descanso absoluto. E percebi que nas horas de descanso absoluto, fica sobrenadando uma espécie de capacidade de observação que aumenta nessas horas.

(Sr. Guerreiro: Aumenta.)

Aumenta, porque eu, por assim dizer, tiro todas as fumaças em que habitualmente as pessoas se envolvem, e fico diretamente com a coisa na minha presença. E que fico olhando, mirando, e na miragem vou tirando as minhas conseqüências. E daí, porque também eu acho esse estado muito agradável, muito refrigerante, muito bom, por uma série de circunstâncias conjuntas, eu instintivamente procuro esse estado.

(Sr. Gonzalo: E no fundo aparece mais como o senhor é, nesse estado.)

Sim, eu acredito que sim. Mas eu não tenho a intenção — feliz ou infelizmente o outro tem muito pouca parte nisso. Não é em função de outro, mas é de uns reservatórios de energias e umas delectabilidades que ajudam a viver, que uma coisa dessa se desenvolve.

O que é que há, meu Horácio?

(Sr. Horácio B.: É uma maravilha. Sobretudo para nós que somos nervosos, sentir o senhor falar da calma que o senhor tem é um descanso de espírito.)

* A calma eu instintivamente cultivo como um tesouro

Essa calma eu instintivamente cultivo como um tesouro, e [o que] me ajuda muito a conservar essa calma é a confiança, exatamente. Porque a virtude da confiança tem uma certa posição em que bate nela o sol da graça, e portanto, um bem-estar distensivo, completamente descontraído, onde a visão então do que não sou eu, do fora de mim, se torna muito mais clara.

Eu tenho certeza que uma série de gestos e modos de ser meus, que vocês pelo convívio conhecem, se explicam em função disso… [vira a fita]

Essa calma assim eu tenho impressão — isso eu não sei — que ela não irradia nada.

(Sr. P. Henrique: Ela inspira confiança.)

Inspira confiança?

(Sr. P. Henrique: Está baseada na confiança. Portanto, olhando para o senhor e vendo-o calmo, a gente se sente acalmado, se sente confiante.)

Você tem razão, eu sei isso.

Agora, é o contrário do demônio, hein!

(Sr. P. Henrique: Pois é.)

A tentação do demônio vem é para perturbar essa calma.

* Um silêncio que é uma síntese entre o silêncio e a locução

(Sr. P. Roberto: O senhor pediu que eu fizesse aquele trabalho sobre a felicidade e eu encontrei uma coisa interessante. Diz que diante de Deus os bem-aventurados, às vezes, a única forma de louvar a Deus é ficar em silêncio, porque Deus é tão grande que eles não têm mais outra coisa que fazer. Eu só vi a ementa, portanto, eu não saberia desenvolver isso, mas eu achei muito bonita e evocativa essa idéia.)

Muito. É um silêncio que é uma síntese entre o silêncio e a locução, ouviu? De maneira tal que eu tenho impressão de que… vamos ver se isso está no a Lapide, se estiver contra o a Lapide eu renuncio. Vamos ver a coisa como eu suponho, mas naturalmente sujeito ao ensinamento da Igreja.

O que eu tenho impressão é o seguinte:

* Nós deveríamos imaginar todos os anjos cantando, mas cantando a expressão interna, sumamente harmoniosa de cada um

Essa idéia de dizer que os anjos fazem um cântico perpétuo é uma coisa verdadeira, mas que no uso da metáfora legítima deprecia um tanto a realidade que a metáfora quer representar. Porque quando se fala de canto a gente tem idéia logo de uma pessoa que canta à vista de uma partitura, e na partitura a pessoa executa a canção de um outro, do compositor, não é a sua própria canção.

Nós deveríamos imaginar todos os anjos cantando, mas cantando a expressão interna, sumamente harmoniosa de cada um. Mas com um ponto que para mim é capital: qual é o tema? O tema é Deus.



Como Deus é infinito, por mais que as miríades de séculos se sucedam, Deus é sempre novo, tem sempre alguma coisa de novo para as suas criaturas e terá eternamente. E existe entre os anjos uma locução, porque nem todos vêem em Deus a mesma coisa. Então um comunica para outro, outro para outro, etc.

Isto está no laus perene do corpo angélico a Deus visto no seu conjunto. É uma espécie de vitral sonoro.

(Sr. Guerreiro: Ou uma orquestra absolutamente inimaginável.)

Inimaginável, mas na qual por uma singular plenitude de felicidade o indivíduo não é apenas ouvinte, é cantante ele também. Ele sente que o que ele canta é ouvido e ponderado por todos, e que a voz dele influi no canto geral. De maneira que todo o mundo que está cantando sabe que se não cantasse aquela melodia seria diversa e seria mais pobre. De maneira que perpetuamente cada um de nós está enriquecendo o canto perene para Deus.

Eu não sei se vocês concordam comigo que isto torna o Céu muito mais atraente do que a gente pode pensar à primeira vista. Quer dizer, aquela metáfora do canto, entendido o canto assim — um canto que é assim o homem não pode cantá-lo nessa vida, não há recursos, não há nada para isso —, em que o indivíduo faz a sua contemplação sobrenatural e de temática metafísica sobre Deus eternamente, e Deus vai respondendo a isto mostrando novos esplendores, novos esplendores, sem fim.

(Sr. P. Roberto: Ele também veria em si isso.)

Ele veria em si, mas veria refletido nos que estão cantando para Ele.

(Sr. P. Roberto: Porque todos seriam transparentes uns para os outros.)

Exatamente, todos transparentes uns para os outros.

(Sr. P. Henrique: Cada um tem a seu modo, mas eu tenho a impressão de que há um denominador comum em relação ao senhor. Porque o senhor na linha de contemplando, de admirando, procurando o absoluto, sempre tem algo a dizer de novo de explicitação. É uma coisa que já vem de longos anos. Nós percebemos e nos damos conta de que na eternidade o senhor será o explicitador da eternidade para nós, de todos os absolutos de Deus. […])

* Os anjos constituem uma hierarquia e uma cascata sonora de pensamento profundíssimo e de visão

E acho, meu filho, que os anjos de um certo coro têm isto mais para o anjo que preside o coro, e que depois se repete para Deus. De maneira que os anjos constituem uma hierarquia e uma cascata sonora de pensamento profundíssimo e de visão. Não com cansaço, eles não se cansam nunca, porque Deus eternamente os vivifica. Eles cantam, e cantam, e cantam, numa felicidade perfeita porque eles vêm Deus e eles comentam o que eles estão vendo.

Fica diferente da idéia que o comum dos fiéis tem de coro angélico.

(Sr. G. Larraín: Por isso mesmo verdadeira.)

Dá impressão de muito verdadeira.

(Sr. P. Henrique: Porque nos nossos melhores momentos nós não nos cansamos de estar com o senhor, de ouvir o senhor. Mas, enfim, há momentos em que há aridezes, e isso, sim, torna cansativo. […] Por infidelidade nossa isso pode acontecer. […])

* O vício mais profundo do nervoso é que ele tomou o vício de se ouvir a si próprio em vez de ouvir a Deus

Eu não tenho certeza do que eu vou dizer agora, mas eu tenho a impressão que o vício mais profundo — não me levem a mal se eu atingir alguém aqui — do nervoso é que ele tomou o vício de se ouvir a si próprio em vez de ouvir a Deus. O nervoso gosta de apalpar seu próprio nervosismo e de vibrar em função de si mesmo numa atitude que tem algo de auto-admirativo, algo. É um auto-admirativo muito singular, mas que tem isto.

É horrível o que eu vou dizer, mas que tem — é preciso medir bem o que eu vou dizer — não é, senão por algum lado, uma coisa deformante como é a masturbação.

Quer dizer, quando a gente vê um sujeito nervoso… Eu conheci umas duas ou três pessoas que falando a respeito de si mesmas às vezes derrapavam e começavam cenas em que eles eram os autores. Vamos dizer que a narração fosse assim: “Eu então entrei na sala e disse”, etc. Ao cabo de algum tempo o sujeito começava a falar de si como “ele”: “Ele entrou na sala e responderam para ele”.

Estão vendo que é um deslocamento vicioso, em que ele se coloca como terceiro e fica se admirando e gozando o nervosismo da situação a fundo. É o contrário do Céu. O indivíduo por assim dizer se diviniza.

Quer divinizar, não é? Faz o papel do pato que quer imitar a águia, mas é assim que faz.

Aí é o que torna o nervosismo mais rejeitável e que nos ajuda a lutar mais contra ele. Porque quando um indivíduo percebe que ele caiu nessa esparrela, ele tem um recurso mais poderoso, porque na hora do nervosismo ele percebe que está querendo se adorar a si próprio.

(Sr. Guerreiro: É um nervosismo que nasce da apreensão.)

Pois é. O medo, por exemplo.

(Sr. Guerreiro: O medo ou de uma situação de infortúnio.)

Pois é, ele fica com medo, mas se olha a si mesmo enquanto sentindo medo e enquanto reagindo como se fosse uma cena que ele estivesse assistindo. Uma cena de um drama, de uma tragédia. E ele gosta de vibrar com um terceiro em função disto.

Não sei se eu me exprimi bem, meu filho.

(Sr. Guerreiro: Mesmo quando a pessoa fica com medo dessa impressão?)

É mais ou menos como uma pessoa que olha uma cena de teatro, fica tocada por aquilo e sofre a ponto de chorar. Esse não quer sair do teatro por nada, ele quer viver aquele drama dos artistas.

(Sr. P. Roberto: Essa é a força que a Revolução também exerce sobre as pessoas, não é?)

Muito, enormemente.

(Sr. Guerreiro: Voltando um pouco ao que o senhor contava à instantes atrás, esta placidez que o senhor com freqüência procura…)

Eu não a procuro, ela está dentro de mim. Sou eu que entro nela.

(Sr. Guerreiro: A gente vê que o senhor habitualmente está nela, o senhor está sempre nela.)

Sim, habitualmente eu estou sempre nela.

(Sr. Guerreiro: Com o tempo a gente vai sentindo que isto vai-se definindo cada vez mais no senhor.)

Oxalá.

* Uma posição de alma que é deleitável para o próprio corpo

(Sr. Guerreiro: A gente fica com a impressão de que o senhor colocou o corpo num tal serviço da própria alma, que ele nesse momento fica como que totalmente silencioso e a grande atividade que o senhor tem é a atividade intelectual e reflexiva.)

É isso sim.

(Sr. Guerreiro: O corpo não traz mais nenhum incômodo nem limitação…)

Não amola.

(Sr. Guerreiro: Não amola mais e não traz nenhuma limitação para a reflexão do senhor.)

É isso.

(Sr. Guerreiro: É assim?)

Tal e qual. Só o que tem é o seguinte: é que esta posição é deleitável. Deleitável para o próprio corpo.

(Sr. G. Larraín: Até fisicamente.)

Até fisicamente. Ela é deleitável para o próprio corpo.

(Sr. Guerreiro: E a gente tem impressão que assim o próprio corpo adquire uma força, uma saúde, uma resistência e uma durabilidade impressionante.)

Sim, tem que ser. Porque, você compreende, é um funcionamento que é um exercício, mas um exercício muito compassado, muito ligeiro, que treina e que impede os inconvenientes da imobilidade. Quanto ao mais é como se o tempo não existisse.

(Sr. Guerreiro: A alma do senhor cresceu, o corpo se adelgaçou e ficou uma espécie de pergaminho em volta da alma completamente obediente, plácido, saudável e escravo absoluto da alma.)

(Sr. G. Larraín: É o contrário do nervosismo, porque o nervosismo liquida o corpo também.)

Liquida, ah! liquida. Eu tenho impressão que se eu me deixasse invadir pelo nervosismo, eu há muito tempo teria levado a breca.

* Quem era um vitral da própria alma era mamãe

(Sr. P. Roberto: Poder-se-ia dizer também que o corpo ficaria uma espécie de vitral da alma, não é?)

É isso, uma espécie de vitral da alma, está muito bem achado. Aliás, vitral da alma era mamãe.

(Sr. P. Roberto: O brilho que ela exercia era o vitral.)

O vitral. E tranqüila.

Aqui vocês vêem, por exemplo, ela está inclusive com um fundo de sofrimento, mas ela está nessa posição.

(Sr. Guerreiro: Esse estado que o senhor hoje explicitou para nós a gente vê que o estado do corpo incorruptível em certos santos guarda profunda relação com esta harmonia do corpo e da alma que eles tiveram em vida, não é?)

Eu acho que sim, que tem relação.

(Sr. Guerreiro: Uma imobilidade e uma vida que é a vida adequada que o corpo deve ter para que a alma toda se desdobre.)

Isso. Depois aí o corpo e a alma são amigos, não são inimigos que disputam o terreno dentro da personalidade. [justitia et pax osculate sunt?].

(Sr. G. Larraín: A prova que irradia é que nesta reunião nós ficamos muito tranqüilos.)

Mas não é assim deliciosa a tranqüilidade?

Eu vou-lhes dizer uma outra coisa que vocês concordarão comigo: a verdadeira castidade bem guardada é assim. Agora, Romeu e Julieta não tinham nada disso.

(Sr. G. Larraín: Uma tensão contínua.)

Uma tensão contínua e os dois infelizes. Depois não se ajustam um com o outro, um canta, o outro canta também, não acerta aquele negócio. Homem! tudo o que conhecem.

* O cinema e a televisão se voltam para quebrar o estado de calma e a tranqüilidade das pessoas

Todo o drama, todo o cinema e toda a televisão se voltam para quebrar isso, criando no espectador uma participação artificial que ele cria com um personagem principal do drama. E ele vive a vida do personagem principal do drama.

Você pega essas peças para mocinho e mocinha — hoje não sei se ainda há — de cowboy que monta a cavalo, ela na garupa, ela está aflitíssima mas ao mesmo tempo está abraçada nele, saem na disparada, pulam por cima de um vale, etc. Em certo momento ela desaparece, o homem pára, vai procurar em tal lugar e tem um tigre ali, então ele mata o tigre com cinco tiros e sai correndo. De repente esbarra em algo: é ela. Oh!

O sujeito sai liquidado.

Uma coisa que me chamava atenção quando eu era menino e ia a cinema era exatamente já esse contraste. Porque aquela coisa e eu!…

(Sr. G. Larraín: Isso é uma graça extraordinária, isso só o senhor mesmo porque todo o mundo torceu. Pelo menos o que eu torci com cowboys é uma coisa aflitiva.)

Ah eu não. É com eles, eles que se arranjem.

(Sr. Guerreiro: Nós temos pelo menos momentos em que a gente sente que é um animal mesmo. Não tem jeito, somos uns trogloditas que precisamos ser convertidos. Nesse ponto nós somos o oposto do senhor. […] Essas conversas assim nos ajudam a sair deste estado primário, primata, porque isso é o paleolítico inferior digamos assim.)

Hahahaha! Eu acho que a comparação é esplêndida.

(…)

Por exemplo, fizesse iluminuras com o que eu disse ou poesias. Mas quanto atrairia para o Céu, para compreender o Céu, quem desse uma idéia adequada de felicidade, mostrando que a felicidade perfeita é essa. Para a natureza do homem não se compreende uma felicidade perfeita a não ser assim, e que, portanto, o caminhar da vida é para essa felicidade perfeita que se possuirá eternamente. Essas felicidadesinhas que a gente consegue aqui são felicidades efêmeras, são prefiguras, são coisas passageiras que nos servem na medida em que dê para imaginar aquilo.

* A atração de um Céu em que cada um deveria saber imaginar a sua própria participação como um elemento, muito secundário, do quadro geral

Vocês não acham que aí se compreende como é que Nosso Senhor disse: “Medita nos teus novíssimos e não pecarás eternamente”? Não é apenas o terror do inferno, sempre indispensável e precioso, mas é esta atração de um Céu em que cada um deveria saber imaginar a sua própria participação como um elemento — aliás, muito secundário — do quadro geral.

(Sr. G. Larraín: Isso precisa sublinhar.)

Sublinhar, ah sim. Bem sublinhado.

Porque aí acabava uma coisa que as nossas duas mães, a Santa Igreja e a mãe terrena que tivemos, com exceção feita de… não sabem dar essa idéia para os filhos.

Por exemplo, eu garanto — para falar com linguagem positiva — que algo do que eu disse a respeito dos anjos aqui e desse coro, que algo disso é verdadeiro. Pode haver retificações que ainda embelezem muito mais o que eu disse, é só conhecer o que uma meia dúzia de autores disseram ao longo dos séculos.

* O ponto de partida do nervosismo

Então, a partir disto, você compreender o que é a felicidade, que a única coisa que lhe convém, dada a sua natureza, é esta felicidade e que o resto é uma conversa, vai ao oposto ao que nos ensinam as famílias de todos nós, inclusive — com exceção de mamãe — a minha família inteira, é que há um estado nesta vida em que se consegue a felicidade inteira, que é intimamente ligado à posse do dinheiro, mas que não é só a posse do dinheiro. A posse do dinheiro é uma condição indispensável, por causa disso capital, mas que há condições de vida em que o sujeito alcançou alguma coisa de parecido com isso nessa Terra. Então começa o indivíduo a deitar na conquista destas coisas um afã que só é proporcionado com esta felicidade.

Aqui você tem o ponto de partida do nervosismo.

Você imagine por exemplo um sujeito… Eu vi essa cena.

(…)

* Exemplo de um estado de espírito de torcida

Ele prestou um concurso para professor na Faculdade de Direito no Largo de São Francisco. Fez uma tese a esse respeito, que é uma tesezinha como ele: douta e xucra, e foi prestar o concurso.

Eu fui assistir o concurso porque era uma manifestação de amizade, de apreço que a gente dava. Eu fui assistir o concurso e ele de casaca — porque o concurso naquele tempo se fazia de casaca — com todo o corpo docente da faculdade com aquelas becas sentados sobre um estrado ao longo de uma sala grande, que é a Sala João Mendes da Faculdade de Direito, e o povo ocupando os lugares dos alunos. Houve um intervalo e ele então foi tomar um cafezinho, de casaca mesmo, num boteco na esquina.

O pai dele estava junto a uma porta, eu passei e cumprimentei o pai:

Então, o nosso X vai indo muito bem — eu com muitas dúvidas de que ele seria aprovado.

O pai disse:

O senhor imagina o que é a felicidade de um pai vendo um espetáculo destes?

Ele dizia isto e estava torcendo pelo filho, mas desesperadamente. Com alegria porque ele queria se convencer que o filho ia ser aprovado. Dentro de umas horas chega o resultado: ele foi reprovado.

Durante todo o tempo em que ele estava torcendo para o filho ser aprovado ele sabia que a reprovação do filho era possível. Essa tensão, aprovação, reprovação, etc.

Se o filho fosse aprovado ele se julgaria durante algum tempo no céu. Ao cabo de algum tempo aquilo fartava, tem tanto pai de professor por aí, que aquilo passava a ser biscoito lambido e acabou-se.

O que é que é esta felicidade em comparação dessa que eu falei?

Em certas crises que vocês tenham tido na vida não teria sido útil esse pensamento?

(Sr. G. Larraín: Sem dúvida. Nós sempre tivemos o senhor e sempre nos disse isso, de um modo ou de outro o senhor a nós nos disse isso. De tal maneira que se nós não fomos fiéis, foi por culpa nossa, não foi porque o senhor não tenha dito.)

Sim, é verdade, mas dizendo irá melhor.

(Sr. G. Larraín: Ficamos muito gratos porque realmente faz um bem extraordinário.)

* Somente com base numa definição da felicidade e da falsa felicidade é que se compreende bem a desgraça do inferno

Eu pensava que um trabalho que definisse assim a felicidade, depois a falsa felicidade, e com base nisso fizesse uma descrição da desgraça do Inferno. Porque só a partir disto é que a gente compreende bem a desgraça do Inferno. Tem tudo o que já se sabe, mas tem algo que a gente não advinha.

(Sr. G. Larraín: A neurose não existe, não é?)

Aí é que está.

(Sr. G. Larraín: Pelo menos classicamente não é de neurótico.)

Pois é, e é ultraneurótico.

* Uma pancada única na Revolução que poderia ser o gongo inicial do Reino de Maria

Eu quis representar isso outro dia na reunião por uma imagem. Um sujeito que estavelmente e continuamente estivesse passando através dele um raio, desses raios atmosféricos. Você imagine uma pessoa viva, com carne — no Inferno acabarão tendo a carne — e sentindo aquelas descargas nervosas de um raio como descargas novas que se sucedem continuamente sem cessação de um instante, e que o sujeito sabe que está sujeito a essa descarga por toda a eternidade.

Umas figuras assim não fariam muito bem para afastar o sujeito do pecado? Então se em determinado momento a TFP se pusesse a proclamar isto, ela não estaria dando na Revolução uma pancada única no gênero?

(Sr. G. Larraín: Em certo sentido é a pancada.)

É a pancada. E essa pancada não seria um gongo inicial do Reino de Maria? Quer dizer, nós não estamos vendo aqui os primeiros sons do Reino de Maria?

Inclusive o que nos falávamos dessa estabilidade calma e aprazível que a castidade traz e que a luxúria não traz, se fosse possível convencer disso as pessoas, que o paraíso está na castidade, como tornaria a castidade mais convidativa, mais habitável. Porque as coisas apresentadas como são, a castidade é uma insensibilidade sem graça em função de um raio de delícias.

O combate é difícil, mas se a coisa é apresentada como deve ser, a alegria fresca, juvenil, criativa, móvel, ao mesmo tempo descansada, lúcida da castidade não era um convite para a pessoa observar a castidade?

(Sr. G. Larraín: Refrigério, luz e paz.)

Refrigério, luz e paz.

Agora, isso também os pregadores não…

(Sr. G. Larraín: Começa que a castidade nos pregadores…)

É, é.

(Sr. P. Roberto: Tem que ser com as palavras e as figuras do senhor porque senão…)

(Sr. Guerreiro: Senão os corações não se tocam.)

* Essa reunião não é o começo de uma conversa que pode guiar para uma atuação da TFP durante a Bagarre, e que acompanhe o conjunto das atuações para o Reino de Maria?

Enfim, aqui vem uma pergunta. E a pergunta é: será que aqui não é o começo de uma conversa que pode guiar para uma atuação da TFP durante a Bagarre, que seja a atuação vitoriosa e vigorosa que acompanhe o conjunto das atuações para o Reino de Maria?

(Sr. P. Roberto: Que explique também, não é?)

Que explique.

(Sr. G. Larraín: Mas com esse fundo de calma, senão tudo isto fica um negócio “cowboiesco”. O mais importante é entender a Bagarre e a luta na Bagarre com um fundo de calma muito grande.)

Muito grande.

(Sr. G. Larraín: Da parte dos bons e dos filhos do senhor tem que ser com uma calma extraordinária.)

É claro. E pensando na paz do Céu, paz celeste, que é assim.

(Sr. G. Larraín: Está uma coisa celeste mesmo a reunião.)

E me parece que abre alguma coisa.

Agora, não me parece conveniente que vocês digam isso porque começa a haver gente que começa a ensinar e comunicar isso sem talento e sem bom espírito. Daí vêm conseqüências da mais lamentáveis.

(Sr. P. Roberto: Está cheio de figurinhas do Céu aí também, não é?)

É, coisas que eu não sei o que dizer.

Meus caros, que horas são? Quatro horas?!

(Sr. G. Larraín: Quinze para as quatro.)

Nossa Senhora! Vamos andando.

(Sr. G. Larraín: Estava tão extraordinária a reunião que não dava para dizer nem a hora.)

(Sr. Poli: Mas certas coisas têm que passar da hora, não é?)

Certas coisas têm que passar da hora.

Querem me chamar o rapaz?

(Sr. G. Larraín: Muitíssimo obrigado, está muito benfazejo. Pelo que me cabe peço muito perdão por tanta torcida, tanto nervosismo.)

Não adianta para nada.

Bem, vamos então rezar.

Há momentos minha Mãe…

* Cumprimentos finais

(Sr. G. Larraín: Amém. Muitíssimo obrigado.)

Meu querido Gonzalo, bom repouso.

(Sr. G. Larraín: O senhor reze para que em Amparo eu aproveite para…

Bom repouso.

(Sr. G. Larraín: Não, para trabalhar e sobretudo para descansar nessa linha.)

Sim, repouso nesse sentido.

(Sr. P. Henrique: Também preciso desse repouso. Bastante. Uma bênção para todos que eu tenho costumo de pedir aqui e para um trabalho especial amanhã.)

Está muito bem.

(Sr. G. Larraín: Uma bênção para todos os de Amparo e para os da comissão especialmente.)

Com muito gosto.

Meu querido coronel, que Nossa Senhora lhe ajude.



Você também, meu caro Paulo Roberto.

(Sr. P. Roberto: Eu fiz aquilo que o senhor pediu.)

Onde é que está?

(Sr. P. Roberto: Está aqui, mas está com minha letra, de maneira que está meio…)

Não tem nada, eu mando copiar.

(Sr. P. Roberto: Eu dou para o coronel.)

Poli, me manda copiar isso.

Meu Horácio!

(Sr. H. Black: Eu tenho que pedir especialmente perdão ao senhor por tanto nervosismo. Mas quero dizer que cada vez que estou com o senhor fico com uma calma e uma tranqüilidade, coisa que me indica que tenho que estar cada vez mais com o senhor, mais contatos…)

Hahahaha! Isso.

(Sr. H. Black: Peço uma bênção para todos os seus filhos da Argentina, de Uruguai e Paraguai e por todos os que pediram.)

Com muito gosto. Que Nossa Senhora lhe ajude.

(Sr. H. Black: Amém.)

Meu querido Guerreiro!

(Sr. Guerreiro: Uma bênção para o Sr. Rodrigo e para o Sr. Nelson Fragelli também, que pediu uma recomendação.)

Pois não.

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