Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 2/7/94 – Sábado – p. 14 de 14

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 2/7/94 — Sábado

Coisas muito bonitas da Providência e que o homem moderno não sabe olhar: é o homem enquanto completando a natureza * Os ruídos sugestivos e inocentes da infância do Senhor Doutor Plinio * As coisas agradáveis da vida são assim: elas se aproximam, se distanciam, fazem ziguezagues, mas deixam sempre um sinal de que elas chegarão * A regularidade e a vitória sobre si, de todos os homens que têm substância * Procurando nas coisas concretas, regras universais que elevavam a natureza * O gosto e o interesse que o Senhor Doutor Plinio achava em observar na última plebe a possibilidade de ser ser feliz enquanto plebeu * Por disposição de Deus, cada classe social tem algo de próprio que Deus deu e que o sujeito tem que saber aproveitar * A idéia de que há uma certa gente que nasce fraca, que nasce errada, que nasce triste e que nasce para o infortúnio * Teorias que começavam apenas a nascer na cabeça do Senhor Doutor Plinio, ainda menino: O que é que é a decadência? Qual é a causa dos insucessos sistemáticos?

(Sr. Guerreiro: [Dá um rápido resumo de uma reunião antiga com introdução]

E quando o senhor falou do mundo da Ásia e dessa tendência para o maravilhoso… eu trouxe aqui uma pequena lembrança dessa reunião para o senhor, e pedia que o senhor aceitasse.

* Uma pequena lembrança para o Senhor Doutor Plinio

Há uns anos atrás eu encontrei uns elefantezinhos pequenininhos assim, chineses, a moça lá tinha seis, então eu comprei uma manadazinha de elefantes…)

Ahahahahah!

(Sr. Guerreiro: Exatamente por causa desse lado. É a arte tradicional chinesa. Mas é uma coisa muito simples, senhor. Mas muito cheio desse maravilhoso.)

Muito.

(Sr. Guerreiro: Então eu trouxe para o senhor como lembrança dessa magnífica reunião que o senhor fez para nós, eu trouxe dois deles porque fiquei com receio de uma manada de elefantes… do senhor ficar um pouco atrapalhado com tantos elefantes assim. [risos] Já tem uns dinossauros que atrapalham a vida do senhor…

Então eu trouxe isso como recordação desta magnífica reunião que o senhor tão paternalmente nos proporcionou. É uma coisa muito simples, mas peço ao senhor que…)

Estou curioso de ver.

(Sr. Guerreiro: Não é um presente, porque o presente que precisamos dar para o senhor é um presente que é no fundo a nossa própria alma que Nossa Senhora quer. Mas depois haveria outros presentes que nós precisaríamos dar para o senhor que de momento não há condições para isso.)

Ahahahahah!

(Sr. Guerreiro: Então como recordação dessa magnífica reunião, eu ofereço ao senhor. É um pouco “sui generis” isso.)

Vocês já viram ou não?

(Sr. Guerreiro: Não senhor, eu não mostrei. Não sei se o senhor vai achar engraçadinho isso ou não.)

É muito engraçadinho mesmo. Ahahahah!

(Sr. Guerreiro: São seis, todos distintos, diferentes uns dos outros. Pelas cores, a posição das orelhas, às vezes da tromba, etc.)

Que engraçadinho.

(Sr. Guerreiro: É todo ele de metal, é uma espécie de cobre… não sei se chega a ser bronze. Me falaram que isso chama-se “croisoné”…)

(Sr. M. Navarro: Exatamente, eu ia dizer, é [“croisoné”?].)

[“Croisoné”?]?

(Sr. M. Navarro: É a técnica do esmalte no metal.)

Ah sim.

(Sr. Guerreiro: Então são várias camadas de esmaltes de várias cores, etc., com umas escamazinhas que eles têm.)

Ahahahah!

(Sr. Guerreiro: Essa idéia dos chineses transformarem um monstrengo daqueles num “biscuit”, eu achei a coisa curiosíssima.)

Muito mesmo.

(Sr. Guerreiro: E fiquei assim meio tocado pelo assunto. E olhei longamente, fiz uma farpa com esses seis elefantes… [risos] É o modo mais interessante de colocar os elefantes. Por um bom tempo o assunto foi um pretexto para a gente penetrar em toda essa temática.)

Põe em pé aí.

(Sr. Guerreiro: É tão benfeitinho, que eu digo: “isso é coisa de oriental mesmo…”)

Mas, meu filho, eu não vou deixar aí, você sabe por quê…

(Sr. Guerreiro: Não, não, nem se preocupe, senhor.)

As empregadas…

(Sr. Guerreiro: Encontrei esses seis, mas depois não encontrei mais.)

Mas isso é numa loja aqui?

(Sr. Guerreiro: Num Shopping Center lá em Itaquera, o senhor imagina…)

Que coisa curiosa!

(Sr. Guerreiro: Para ser franco…)

Que passei […inaudível]. Muito engraçadinho.

* O elefante é um monstro! Mas é um monstro que tem qualquer coisa que se faz respeitar

Meu filho, a coisa é muito engraçadinha, mas a sua alma se entretendo com isso e você brincando com essa coisa de maneira a forma farpas, etc., me ainda é muito mais sugestivo do que o objeto, ahahaha! E eu guardo como uma lembrança muito engraçadinha, mas também como uma lembrança de sua pessoa e de sua psicologia. E aí com muito afeto.

(Sr. Guerreiro: Muito obrigado, senhor. Porque realmente, o que se passou na cabeça de um chinês para decorar desse modo um monstrengo?)

É, o elefante é um monstro! Mas é um monstro que tem qualquer coisa que se faz respeitar. É um pouco como camelo. Também é um monstro!, mas há qualquer coisa que se faz respeitar.

(Cel. Poli: Eu ouvi dizer que o senhor comentou que o elefante tem algo de inocentão também.)

É, mas você sabe, São Francisco de Sales comenta: o elefante só tem uma “elefoa” na vida inteira. E não tem imundícies passageiras antes do que se poderia chamar “casamento”. E fora da “elefoa” não tem nenhuma. Então São Francisco de Salles elogia a castidade do elefante. A gente vendo o elefante pensaria em tudo menos isso, não é?

Mas você veja a coisa como é, como são as belezas das coisas, e como Deus faz as coisas, é fora de dúvida que em parte a respeitabilidade do camelo vem do beduíno que está em cima. Ele seria um monstro se não fosse o fato de que o beduíno tem algo que completa o camelo.

(Sr. Guerreiro: Dá toda razão de ser do camelo, é o beduíno.)

O beduíno.

E montado pelo beduíno, o camelo fica com qualquer coisa de épico, de heróico e não é uma besta amarela, feia e sem graça, e meio tonto.

(Sr. P. Roberto: Tendo como fundo de quadro o deserto.)

Perfeitamente. Perfeitamente.

O que completa o elefante é aquela espécie de casinha com o marajá sentado ali, com todas as peculiaridades do marajá, inclusive os sapatos com aquele bico torto.

(Sr. Gonzalo: Tem que ser um marajá, não pode ser a rainha da Inglaterra.)

* Coisas muito bonitas da Providência e que o homem moderno não sabe olhar: é o homem enquanto completando a natureza

Ah não, não vai. Tem que ser um marajá mesmo. E isso é das coisas muito bonitas da Providência e que essa gente não sabe olhar: é o homem enquanto completando a natureza. Esses verdes, esses imbecis pensam que a natureza completa o homem. Em algo é verdadeiro. Mas sobretudo o homem completa a natureza.

(Sr. Gonzalo: O lobo do mar.)

O lobo do mar, exatamente.

Quer dizer, o mar seria muito menos pitoresco se não lembrasse à gente o lobo do mar. É uma coisa que não tem discussão. E eu fico muito agradecido.

(Sr. Guerreiro: É que realmente nessa reunião o senhor foi tão rico em explicitações que chegou a ser uma reunião comovente.

Foi sábado passado?

(Sr. Gonzalo: Não, há três sábados exatamente.)

O sábado passado não tivemos reunião?

(Sr. Gonzalo: Os italianos nos interromperam uma e depois… há 4 sábados foi essa reunião.)

Há quatro sábados?

(Sr. Gonzalo: Um sábado os italianos interromperam e depois o senhor continuou tratando do assunto em duas outras reuniões muitíssimos boas também.)

Sim.

(Sr. Gonzalo: O senhor ia mostrando muito a alma do senhor na linha das arquetipias.)

(Sr. Guerreiro: A propósito do assunto do reluzimento, senhor.)

(Sr. Gonzalo: […] Toda a dificuldade que era para o senhor manter-se sempre com a fidelidades às arquetipias mas tendo que contrariar todo ambiente. A última se pode chamar “o martírio do senhor”.)

Era um martírio, era um martírio de alma, mas era um martírio.

(Sr. Gonzalo: [Dá o resumo da última reunião])

Que horas são, hein?

(Sr. Guerreiro: São dez para as três.)

(Sr. Gonzalo: Então fatinhos se o senhor tivesse, por exemplo, na linha da serra, dessa serra que o senhor ouvia…)

(Sr. Guerreiro: O senhor dizia que isto é uma modalidade de pensamento ao qual nossas FMRs sempre nos proibiram de ter, de desenvolver. […])

* Os ruídos sugestivos e inocentes da infância do Senhor Doutor Plinio

É, infelizmente eu vou ser muito rápido porque nós estamos no fim de nossa hora, mas alguma coisinha, de qualquer maneira eu direi.

Entre os ruídos da minha infância, ruídos sugestivos da minha inocência, havia dois, de que eu estou me lembrando especialmente agora, que é o seguinte: a medicina daquele tempo tinha qualquer coisa do nutricionismo de hoje, dava muita importância ao que a gente come, bebe, etc., como fator para manter a saúde. E entre as coisas tidas como dogmáticas naquele tempo — é preciso notar que era um tempo em que as bebidas estrangeiras eram relativamente baratas aqui, porque [aqui] não tinha fábricas de vinho e outras coisas que hoje têm. Então vinho estrangeiro não tinha imposto de alfândega. Resultado, ficava muito barato, e, portanto, não representava um luxo a pessoa ter essas bebidas assim, era uma coisa corrente.

Então havia na rua Sebastião Pereira, quase esquina da Alameda Glete, um senhor que era monarquista e pai do futuro ministro Marcondes Filho, do Getúlio. Esse homem era muito monarquista e tinha até uma coleção de três gravuras: D. João VI, D. Pedro I, e D. Pedro II, que o Marcondes filho que era casado com uma prima minha, quando ele… eu acho, não sei, eu era muito mocinho nesse tempo, eu acho que ele resolveu apostatar definitivamente da monarquia e aderir a república a ponto de chegar a ser um dos ministros mais célebres do Getúlio, mais característico do getulismo…

(Sr. Guerreiro: Isso o filho dele?)

O filho do homem de que eu vou falar.

Mas uns quadrinhos que têm aqui que foram até para tirar um bolor que estava se formando, estão num especialista que faz isso. Marcondes Filho herdou isso do pai. E um dia que mamãe foi visitar a prima dela, ele disse: “Lucilia, leva isso aqui ao Plinio de minha parte”.

E então eu mandei fazer esses quadrinhos que estão aqui, essas moldurinhas.

(Sr. M. Navarro: Não estavam emoldurados?)

Estavam emoldurados em uma só moldura, mas que eu não gostei, então mandei fazer essas molduras que estão aí.

* O deleite em tomar leite de cabra com Vinho do Porto ou Conhaque

Então esse senhor era um senhor que possuía uma casa na rua Sebastião Pereira onde ele morava. Mas no fundo tinha horta, tinha não sei mais o quê, etc., e tinha uma criação de cabras. E toda as manhãs as cabras saíam de manhã cedo com uns guizinhos, etc., e creio eu que com uma espécie de jugo de madeira em que cada cabra punha na cabeça e amarravam ali embaixo, qualquer coisa. E elas vinham com uns sininhos tocando.

E havia casas que faziam assinatura de leite de cabra para criança, tido com o sendo ultra saudável, e que se deveria tomar com conhaque, ou se não me engano com vinho do porto, não me lembro bem. Era uma coisa portuguesa ou uma coisa francesa, não me lembro bem, conforme a criança gostasse. Mas aquele vinho era levado para as crianças e elas eram acordadas para tomar. Depois ainda podia dormir mais um pouco.

E então eu me lembro da criada entrar, a Belmira, exatamente, e numa bandeja — ela ia ao meu quarto e ao quarto de Rosée — e eu via a Belmira entrar, e então com aquele leite, o leite de cabra todos conhecem, é tendente à espumante. E eu gostava. E punham dentro o vinho que eu graduava um pouco, conforme eu queria. Eu não era muito entusiasta do vinho, mas a mistura me entusiasmava muito.

(Sr. Guerreiro: Era vinho do Porto?)

Era conhaque e creio que era vinho do Porto. Conhaque francês, não é? Vinho do Porto… havia uma coisa portuguesa que se bebia, mas gostosa também, para a criança poder alternar.

E vinha então isso assim e eu tomava aquilo.

Mas eu antes das cabras chegarem em casa, eu creio que as cabras passavam por outras casas — seria normal — onde tinha também a mesma assinatura. E então as cabras paravam, o sujeito que as conduzia ordenhava provavelmente as cabras e a bebida ia diretamente da cabra para o copo, e a criança devia beber aquilo espumante. E aquilo então seria saudabilíssimo! E todos os dias nós tomávamos e eu gostava muito.

Mas eu ouvia de longe, e eu meio dormindo ainda, o ruído dos sininhos das cabrinhas batendo numa porção de distâncias diferentes, que era provavelmente o programa que o homem executava distribuindo esse leite. E os sininhos às vezes chegava mais perto, depois chegava chegava mais longe, devia ser um caminho com ziguezagues: volta para a casa de fulana a tal hora, essas coisas assim…

(Sr. P. Roberto: Que diferença de São Paulo de hoje?)

Oh, meu Deus do Céu!

(Sr. Guerreiro: De qualquer cidade.)

É, esse negócio de leite de cabra acho que acabou.

* As coisas agradáveis da vida são assim: elas se aproximam, se distanciam, fazem ziguezagues, mas deixam sempre um sinal de que elas chegarão

Para mim, eu ouvia de longe aqueles ruídos e no meio sono em que eu estava eu reconhecia naturalmente que era leite de cabra, o meu leite de cabra que vinha chegando.

E eu gostava de ouvir aquele aproximar-se e distanciar-se do leite de cabra, como quem diz: “a gostosura está vindo, não ela está indo, mas ela acaba voltando, e acaba voltando aqui”.

No meio disso tinha uma regra: que as coisas agradáveis da vida são assim, elas se aproximam, se distanciam, fazem ziguezagues, mas deixam sempre um sinal de que elas chegarão. E que isto era uma regra da vida meio — você compreende que eu não era capaz de formular o que vou dizer agora, mas é o que estava na história — uma regra metafísica que se executava na ida e vinda do leite de cabra como da ida e vinda dos negócios, ida e vinda das amizades, ida e vinda das estações de água, ou das estações balneárias, do que a gente queria ou não queria, seguia essa irregularidade simpática e amável, e eu ficava então dormindo e meio procurando interpretar a marcha do leite de cabra.

E quando o leite de cabra chegava, eu tomava com redobrado interesse, julgando que era uma gostosura da vida que me chegava.

(Sr. Gonzalo: Uma coisa axiológica.)

É, exatamente.

E dormia satisfeito com isso, não sem enxugar a boca porque eu bebia com goles ávidos próprios à minha truculência, e ficava… a criada dizia:

Seu Plinio, o guardanapo também veio!

Eu entendia que era para enxugar a boca. E dizia: “essa mulher!” Enxugava e dizia: “está lá”. Ela ia embora satisfeita e eu mais satisfeito, e afundava na roupa de cama por mais uma meia hora, uma coisa assim.

Mas eu não sei se eu torno a idéia…

E havia também, entre outros barulhos da rua, mais um barulho de que tenho idéia não sei a que propósito, eu falei a vocês há muito tempo atrás, portanto, também se se lembram me digam para eu não estar contando tediosamente para vocês coisas que já ouviram: o negócio do barulho de um aleijado?

(Sr. Gonzalo: Não.)

* A sensação de um batalhador que venceu a garoa, venceu a noite, venceu a solidão e que vai se deitar

Na Alameda Glete à pouca distância de minha casa tinha uma estação da LigthLigth era a companhia da luz e de bondes daquele tempo, era uma empresa privada canadense, com sede em Toronto e que abastecia São Paulo…

(Sr. Gonzalo: O senhor diz isso, tem um certo sininho…)

Mas o que eu ia falando mesmo?

(Sr. Gonzalo: Da Ligth.)

À certa hora, um certo número grande de bondes se recolhia numa estação de bonde que tinha lá e que ainda hoje existe, mas a empresa se estatizou e deu àquilo um outro destino, etc.

Mas em certo momento eu acordava um pouco com aquela fila de bondes fazendo barulho que iam se recolher. E me vinha assim vagamente o sono — mas isso era sono muito mais apertado, muito mais distante do acordar do que o sono do leite de cabra —, eu tinha idéia de motorneiros atravessando a noite, dirigindo bondes vazios inutilmente, porque ninguém tomava esses bondes, ficavam girando.

Então era noite ainda, eu me imaginava como é que estariam esses homens dirigindo o bonde, mas na parte de frente do bonde uma coisa sem janela, sem nada, era a ventania fria, a neblina seca e prateada de São Paulo daquele tempo reluzindo no meio de lâmpadas a gás, ou um pouco mais tarde já, lâmpadas elétricas, mas que dentro da neblina pareciam sóis de prata assim, porque a neblina…

Eu imaginava um mulato e um pretinho da companhia de bondes que eu conhecia especialmente porque eles estavam sempre servindo nos mesmos bondes, e eu imaginava a eles se recolhendo exaustos àquela hora para ir dormir na casa deles, e como seria eles chegando em casa, jogando-se na cama e mal podendo se movimentar de cansaço e daqui uns 15 ou 20 minutos começando a gozar a cama suja deles, achando que era uma beleza.

E isso me encaminhava para outro princípio geral que era o seguinte:

Esses motorneiros, condutores, etc., tinham uma vitalidade e uma disposição para tocar o bonde e para essas coisas, mas do outro mundo. Eu imaginava na neblina um homem desses exausto, mas chamejante, vivo, e com a vitalidade dele servindo de cobertor interno. Ele vencia o frio de tão vivo que ele era e não por causa da coberta que ele tinha. E com a bigodeira — porque quase todos usavam bigodes — úmida de neblina, mas sentindo uma espécie de vitória sobre a neblina que ele atravessava heroicamente.

Portanto, quando ele chegava e entregava o bonde, ia para casa para dormir, eu julgava que ele tinha uma certa sensação de um batalhador que venceu a garoa, venceu a noite, venceu a solidão e que ia se deitar. E me ficava isso… [vira a fita] …menos nas coisas externas que as pessoas imaginam do que nas coisas internas que a saúde, que o ânimo, que o ambiente que o sujeito vive, dá para o sujeito.

Não sei se eu estou exprimindo com clareza.

* Uma espécie de liberdade e de movimentação que tinha mais gozo da vida sob certo aspecto do que as maneiras civilizadas

E então a idéia de que a vida nas classes mais humildes, vivida com jeito apresentava uma deliciosa compensação que não tinha na nossa classe, que na nossa classe as coisas amoleciam um tanto. No total, o leite de cabra era mais gostoso do que ser condutor, mas eu não via nos meus…

(…)

(Sr. Guerreiro: Que aspecto era esse?)

Era no ser popular, e não ter sido muito educado nem muito lixado, uma espécie de liberdade e de movimentação que tinha mais gozo da vida sob certo aspecto do que as maneiras civilizadas.

Não sei se eu me exprimo…

É até perigoso o pensamento, porque podia levar para conseqüências meio barbarizantes.

(Sr. M. Navarro: Um pouco como o pecado imenso.)

É, exatamente, um pouco o pecado imenso. É como que.

Eu já falei a vocês “n” vezes daquele meu primo que morreu, ou foi morto, e que era indissociável companheiro meu, etc. Esse primo e eu tomávamos continuamente bonde porque não tínhamos automóveis. Eu porque não tinha dinheiro, e porque se tivesse dinheiro nunca aprenderia a guiar. E o meu primo sabia guiar, eu creio até, mas o pai dele não tinha dinheiro para ele. Ele era o mais moço e a gente vê que o pai quando tinha — ele era rico, era um homem que estava bem, mas gostava muito de viver comprando coisas preciosas, e ornando a casa dele, etc., e então para o filho mais moço restavam os ossos.

* “É qualquer coisa nós sermos tão companheiros, que até os motorneiros conhecem”

Mas o fato é que andávamos muito de bonde. E naquele tempo os moços de boa família, etc., as famílias, andavam muito de bonde, o automóvel era quase objeto de luxo. Mas enfim, andávamos muito de bonde e havia um mulatinho que nos conhecia muito por causa disso. Até brigava conosco porque nós ficávamos sentados — eram uns bancos cumpridos assim uns depois dos outros e o cobrador vinha do lado de fora, em pé no estribo segurando-se nuns varais, ele fazia a cobrança das passagens.

E eu costumava cruzar a perna, e quando ele passava perto de mim, ele ou caía ou se esfregava na sola do meu sapato. E eu julgava que era um direito meu, pela minha superioridade, obrigar o sujeito a aceitar essa situação. E o negrinho, alguma coisa do meu estado de espírito ele pegava e ele dizia: “é preciso ter cuidado com o condutor!” E eu brunn!, o pé mais para frente. E ele ficava meio revoltado. Mas depois, “a la” brasileira, gostava muito de nós.

Um dia eu tive uma briga com o Reizinho, mas daquelas brigas — porque nós brigávamos de vez em quando — de morte, irreconciliável até o último dia da vida; daí a dez minutos estávamos reconciliados. Tomamos o bonde para casa, mas o Reizinho tomou lá na frente, sentou-se e eu fui para o lugar atrás de todos os lugares. O motorneiro passou pelo Reizinho e disse:

Seu amigo está lá no fundo.

O Reizinho disse:

Eu não lhe perguntei.

Mas então fique sabendo que está.

Foi lá para o fundo e disse:

Seu amigo está lá na frente.

E eu dei uma resposta qualquer mais ou menos afável.

O Reizinho ouviu a resposta afável, de longe ele ouviu, voltou para trás e me fez um sinal, por que é que eu não ia sentar ao lado dele? O negrinho tinha nos reconciliado. [risos]

Mas isto era muito a Sãopaulinho.

Eu me lembro o comentário do Reizinho, ele disse:

É qualquer coisa nós sermos tão companheiros, que até os motorneiros conhecem…

* A regularidade e a vitória sobre si, de todos os homens que têm substância

E tinha esse aleijado. Também é o terceiro caso. Eu vejo bem que esses casinhos podem ser desinteressantes.

Mais ou menos depois dos bondes terem se recolhido fazia-se na Alameda Glete um silêncio. O quarto de papai e mamãe dava para a Alameda Glete e o meu quarto dava para o quarto de papai e mamãe. Então fazia-se silêncio. De repente, eu ouvia de longe um barulho: pun-pun, pun-pun, pun-pun!, e eu percebia que era algum aleijado que vinha com perna de pau — não usavam ainda essas pernas mecânicas, etc., não havia naquele tempo, que punha essa pena de pau e que vinha, de longe, mancando, mas com tanta decisão, com tanta regularidade, e relativamente com tanta pressa, que me parecia um compasso: “pun-pun, pun-pun!”

E eu naquele sono assim, gostosamente entre travesseiros cheirando uma erva brasileira chamada marcela — não sei se vocês conhecem? —, é uma erva muito perfumada, muito boa. Hoje não se encontra mais a comprar. Mas era uma erva muito boa. Lembra-me muito a minha primeira infância.

Os travesseiros de marcela, e roupa de cama tudo bem conveniente, eu ouvia aquilo, dentro da madrugada também, dentro da incerteza e passando perto de mim aquele barulho que vinha de longe, que sem nenhum desfalecimento, em nenhum momento, ele não parava para respirar, para tomar fôlego, tanto quanto me parecia ele não andava devagar para atravessar a rua nem nada, era: “pun-pun, pun-pun!” Era tanta decisão em andar, em bater a perna e tanta regularidade que isso me parecia uma espécie de compasso universal, nesse sentido de que era um compasso que exprimia com energia a vontade de um homem infortunado — infortunado por causa da amputação —, mas além do mais pobre, para trabalhar àquela hora da noite e fazer serviço a pé naquelas condições deveria ser uma coisa difícil. Mas que ele vencia tão galhardamente e que a gente via que ele tinha tanto bem-estar em fazer isto, que eu dizia:

Isto é um homem que consegue uma regularidade e um compasso que é uma coisa extraordinária. Eu o imagino que ele deve ser um homem relativamente mocetão e que respira a largos haustos o saudável e o úmido dessa madrugada. E passa perto das casas dos que dormem e não tem vontade de ser dos deles, ele quer se ele, e quer vencer com aquela galhardia um obstáculo da vida dele. E lá vai ele: “pun-pun, pun-pun!” representando a regularidade e a vitória sobre si, de todos os homens que têm substância.

* Procurando nas coisas concretas, regras universais que elevavam a natureza

Agora, aí vem o lado oposto. Ele passava, pelo trajeto que ele fazia, ele seguia pela Alameda Glete afora até não sei onde. E na esquina seguinte ou no próximo quarteirão, tinha uma padaria chamada “Luso-brasileira”, mas esses lusos eram judeus, eram os irmãos Rabelo. Tinham, mas de tudo que a gente pode imaginar. Basta dizer que foie-gras e as conservas francesas mais finas, as bebidas melhores, o que há de melhor, ele tinha para as famílias boas do bairro. Mas tinha também pinga, tinha essas coisas…

Por exemplo, o mostruário de cigarros…

Era uma espécie assim de supermercado arcaico, eu não sei o que ele não vendia. E assim mesmo ele vendeu várias vezes, provavelmente.

Mas ele tinha por exemplo, um mostruário de cigarros. Naquele tempo se fumava muito mais do que hoje, quase todo homem fumava. Tinha desde umas marcas de cigarro ordinária, para o povinho do bairro, que se chamava “Nina Pancha”. A Nina Pancha estava representada por umas cordas penduradas não sei onde e ela vestida de atriz de circo, toda enfeitada, com uma meia lua na cabeça, etc., e aquele balanço fazendo assim. Ela era a Nina Pancha. E a marca do cigarro era “Nina Pancha”. Até os cigarros melhores e mais finos. E entre os mais finos um chamado “Pour la noblesse”

(Sr. Gonzalo: Os dois são muito onomatopaicos.)

Muito, muito. E “Nina Pancha” era ordinário, para…

(…)

mas cigarros muito fracos e com uma fumaça muito bonita. Era o cigarro dos que não faziam questão de fumar. E eu era freqüentador desse tipo de cigarro. Envolto num papel de estanho de prata, com um timbre assim de um escudo heráldico — eu nunca entendi de heráldica, mas era… Eu lamento não ter uma caixa de “Pour la Noblesse”, e uma de “Nina Pancha” para mostrar para vocês.

Mas eu fazia a imaginação, eu sendo muito bom garfo eu fazia imaginação do aleijado — isto era impossível — parando lá na loja dos irmãos Rabelo, e perguntando se tinha pão bem fresco. Eles tinham um pão fresco deliciosíssimo. Então o homem ia pegar lá dentro para o meu aleijado, ele mandava passar litros ou quilos de manteiga, e mandava abrir uma lata de caviar Romanov — o meu homem acho que nunca tinha ouvido falar de caviar na vida e morreu sem ouvir falar de caviar. Mas eu era louco por esse caviar. Então então passava uma gorda besuntada desse caviar, [e] limão em cima. O líquido do caviar no contato com o limão ficava um pouco esbranquiçado. O caviar era entre um verde tão escuro que era quase preto. E eu imaginava o homem comendo aquilo como eu comia. E depois retomava a marcha revitalizado.

Isso tudo eu não sei se eu torno claro como isto é um misto de “paradização” ao seu modo. Procurando nas coisas concretas que eu via, regras universais que elevavam a natureza do assunto muito mais alto.

* O gosto e o interesse que o Senhor Doutor Plinio achava em observar na última plebe a possibilidade de ser ser feliz enquanto plebeu

Por exemplo, sininhos do cabreiro era a coisa mais banal que pode haver. Mas olhando deste lá se ergue o tema. Também pensando no meu aleijado, era assim. E assim eram várias outras situações: o motorneiro, etc., mas notem bem, hein, tirados da última plebe. Mas é o gosto e o interesse que eu achava na última plebe e a possibilidade de ser ser feliz enquanto plebeu.

No bolo da vida qual era a fatia que servia para eles? De onde exatamente a incompreensão daquela gente da Revolução Francesa se sentir tão indignada. Eles não têm pão? Pouco importa…

A Fräulein Mathilde tinha muitas máfias contra Maria Antonieta, você pode imaginar alemã do tempo do kaiser as máfias que ela tinha contra “de Antoniete”. E ela contava que o povo entrou na galeria dos espelhos — nunca houve nada disso, é fantasia de alemão — e que Maria Antonieta perguntou para eles:

Mais, quoi? Qui voulez-vous?

Nous voulons du pain! Nous voulons de pain!

Mas vocês não têm pão?

Não.

Alors, achetez de brioches.

(Sr. M. Navarro: Isso é tido como dogma histórico nos Estados Unidos.)

Ah é assim?

(Sr. M. Navarro: Os historiadores modernos todos mais sérios desmentem, inclusive os de esquerda dizem que isso é absolutamente falso.)

Nunca houve nada de parecido com isso. Mas para Fräulein Mathilde era… você está vendo de onde é que ela tirou isso. É espalhado…

(Sr. Gonzalo: Mas que o senhor gostou da resposta gostou.)

Gostei. Eu pensei: “eu no lugar dela — não disse para a Fräulein — era exatamente o que eu respondia”.

E diria mais: “guardas, lança em punho e ponha essa gente fora. Depois feche as portas para não entrarem e não me atrapalharem”. E depois dizer: “agora, messieurs vamos continuar, e madame também, a nossa conversa agradável”. […inaudível] e toca a vida.

* Por disposição de Deus, cada classe social tem algo de próprio que Deus deu e que o sujeito tem que saber aproveitar

Então desde como é a vida gozada por Maria Antonieta até a vida do aleijado — são dois extremos —, do vendedor de leite de cabra, do que você possa querer no gênero, é uma distância enorme. Mas o compreender qual é o sabor da vida em cada situação, e que por disposição de Deus cada situação tem algo de próprio que Deus deu e que o sujeito tem que saber aproveitar.

Para terminar, uma coisa horrível, que era a família…

(…)

que a gente via que não trabalhava, ele era um pouco professor de música, mas para dois ou três alunos, quando ele queria, etc. A madame dele era francesa e ele era austríaco. Casaram-se e tiveram uma ninhada de filhos. E a madame era trabalhadora, enérgica, ativa, e tudo quanto o marido fazia que redundava em despesa, ela à força de economia, em fazer pequenos trabalhos, aceitar de consertar meias para as famílias vizinhas com um sistema que havia naquele tempo que era um ovo de pau que eles metiam dentro da meia não sei bem para que e costuravam em volta daquele ovo de pau. Não sei se vocês chegaram a conhecer o ovo de pau. Chegaram a conhecer?

(Sim.)

Na Colômbia houve ovo de pau, meu Merizalde?

(Sr. D. Merizalde: Sim, senhor.)

Houve é?

(Sr. D. Merizalde: Ainda há.)

Ainda há, é?

(Sr. M. Navarro: Eu ando atrás de um porque é super prático.) [risos]

Aquilo é prático?

(Sr. Gonzalo: Com lâmpada resolve o caso.)

Não resolve porque a gente quebra a lâmpada.

(Sr. Gonzalo: Mas com jeito dá.)

(Sr. Guerreiro: Isso é uma temática “ocultista”, ahahah!)

Ahahahahah!

* A idéia de que há uma certa gente que nasce fraca, que nasce errada, que nasce triste e que nasce para o infortúnio

Ela fez o filho formar-se e ficar médico. E deu um médico muito ordinarinho, desses assim que assassinam seus pacientes num consultoriozinho de esquina de bairro chamado Saboó…

(Sr. Gonzalo: “Mata sano” como dizem os espanhóis.)

Mata sano”! Ahahahah! Uma esplêndida expressão. Esplêndida expressão: “mata sano”.

As filhas magras, com uns pescoços compridos, uns cabelinhos cacheados sem… acho que eram naturalmente cacheados, não vejo que tivesse alguma ancestralidade nesse cabelo cacheado, acho que era naturalmente assim ondulado. Mas coitadas, assim moças pobres que não tinham possibilidade de casar-se por serem feias e por trazerem uma coisa que não se suporta para a noiva, é uma cara de infortúnio. O sujeito pode querer casar com a mulher mais feia do mundo, mas uma mulher com cara de infortúnio que já olha triste para você como quem diz: “olha, não dá certo, está compreendendo?” É difícil casar uma mulher assim. Ela tinha três.

(Sr. Guerreiro: O homem era um colecionador de originalidades assim…)

É isso mesmo. Mas a mulher tinha um broche — para você ter idéia do nível deles, ela era francesa, com os trapos que ela tinha, ela se arranjava sempre de maneira a estar meio ornada, sem, ao meu juízo, com nada de bonito. Você pode imaginar pelos broche das grandes ocasiões.

Era um broche de vidrilho, ao pé da letra, com uns vidros lapidados como se fossem pedras preciosas, e a parte detrás do vidro — o vidro era em cone — e a parte detrás de cada “pedra preciosa”, digamos assim, entre um milhão de aspas de cada lado, tinha no fundo um pedacinho de pano grená, de maneira que aquilo oscilava de vermelho e enchia de uma luz vermelha cada caquinho de vidro. E eu dei tempo para descobrir que aquilo não era rubi.

A Fräulein Mathilde conversava com ela, mas um tempão enorme, em pé, e eu ficava procurando decifrar o mistérios das jóias dela. Eram todos dessa qualidade.

* Teorias que começavam apenas a nascer na cabeça do Senhor Doutor Plinio, ainda menino: O que é que é a decadência? Qual é a causa dos insucessos sistemáticos?

Mas aí habitava o contrário, era a decadência do que é Von. Essa decadência hereditária, os filhos nasciam de quatro, está compreendendo?

(Sr. Gonzalo: Isso é uma tragédia.)

Uma tragédia.

E ela uma espécie de heroína que ninguém percebia que estava fazendo coisas heróicas, mas, pelo contrário, jogavam peso em cima dela, porque era ela que agüentava. Era o camelo da família, que agüentava todos os pesos possíveis.

E quando chegava o aniversário das mocinhas ela fazia um bolo, um bolo só, que era o regalo, e todos iam comer — a nós não convidavam, naturalmente — mas comerem, eu já estava vendo como era: sem apetite, sem ilusões, e comer, mastigar para a mãe ficar achando que eles gostaram. Mas o infortúnio deles é que nem o bolo saía bem feito sendo feito em casa deles. Ainda que a mãe tivesse dinheiro para pôr ingredientes bons, não saía nada de bem.

Então, para mim o contrário de toda esta gente que eu vi. Então, para acabar com a axiologia, a idéia de que há uma certa gente que nasce fraca, que nasce errada, que nasce triste e que nasce para o infortúnio, e que dentro das trevas da pobreza havia gente que nascia para a felicidade; e dentro da abastança pequeno-burguesa havia gente que nascia para o insucesso e para o fracasso.

Então as teorias que começavam apenas a nascer na minha cabeça de menino: qual é a causa dos insucessos sistemáticos? O que é que é a decadência? Por que é que decai? Por que é que não decai?

(Sr. P. Roberto: Parece uma […inaudível] porque fica toda a vida assim mesmo.)

* Um infortúnio tremendo, mas que não caiu a tal princípio de moleza e de desespero, e tal maldição talvez, da família Von

Fica toda a vida. E não adianta…

(…)

Eu procurei mostrar a ele o contrário, ele não quis.

Há anos atrás, porque eu perdi o homem de vista completamente — há anos atrás houve uma coisa qualquer que eu precisei perguntar para ele alguma coisa, e telefonei para ele, e ele veio ao telefone muito amável:

Doutor Plinio, como vai você?, etc.

Bem, e fulano, e você como está, coisa e tal.

Eu disse:

Olha, eu queria tal coisa…

Era uma informação, não me lembro o que era.

Quando terminou a conversa, para ser amável eu disse:

E você como vai, vai bem?

Doutor Plinio, eu tenho sete filhos, todos nasceram surdo-mudos.

(Sr. Gonzalo: Da vontade de dizer-lhe por causa da…)

Não, mas eu acho que foi. Eu acho que foi.

Ele disse:

Mas o senhor sabe que em casa, quando estão todos reunidos em torno da mesma mesa…

O que eu acho que é sempre porque eles não têm companhia, porque esse pessoal não tem paciência de conversar porque tem pena, isso não existe. Eu acho que eles estão sempre juntos e conversam com sinais, porque não pode ser outra coisa.

Ele disse:

Reina alegria.

Você vê. Numa casa com sete surdos-mudos, é um infortúnio do outro mundo, não sabe o que dizer. E o pai sempre pobre, hein! Mas não caiu a tal princípio de moleza e de desespero, e tal maldição talvez, da família Von.

Bom, com isso, meu filhos, eu já os retive demais.

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