Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 28/5/94 – Sábado – p. 4 de 4

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 28/5/94 — Sábado

Numa carta dirigida ao Sr. Dr. Plinio, um senhor português usa uma expressão muito bonita * A imoralidade que tem em certos países, ou certos hemisférios, é uma imoralidade que é imoral, é censurável, mas é não suarenta, nem criola, nem feia * A atmosfera renana me ficou muito na memória, e era a atmosfera que eu imaginava adequada para a realização última do Reino de Maria, que eu entendia assim prateado, magnífico! * De vez em quando tem-se a impressão de Anjos habitam certas alturas e fica-se olhando aquilo enormemente * Uma história muito do gênero de narração alemã

(…)

no sentido nosso. Porque a fazenda é dele, mas como ele queria ser amável, ele dava a entender que a fazenda era dele e minha. Então, “a nossa fazenda”.

(Sr. N. Fragelli: Dr. Paulo Brito ainda fala assim.)

Fala, é? Eu não percebi não, é?

(Cel. Poli: Mas o coitado só tem o “nossa”.)

(Sr. N. Fragelli: [Talvez] o hábito tenha se petrificado na Universidade, talvez.)

Talvez, é capaz.

(Sr. N. Fragelli: Tenha ficado como uma elegância didática.)

Nossa fazenda”… eu não gostei, mas usavam. Porque isso é a prova de que usavam.

* Numa carta dirigida ao Sr. Dr. Plinio, um senhor português usa uma expressão muito bonita

Mas, uma vez eu recebi uma carta de um sr. português…

(Sr. Gonzalo: Coronel…)

(…)

sobre qualquer coisa e pôs embaixo: “Minhas homenagens — agora que vem a coisa interessante — à sua mãe e minha senhora”.

(Sr. Gonzalo: Bonito! Fabuloso”)

É bonito. Mas eu acho que é de Portugal, porque aqui no Brasil eu nunca vi empregar isso. Acho que vocês nunca viram empregar.

(Sr. Paulo Henrique: Não, não, mas é muito bonito.)

Em vez de dizer “senhora sua mãe”, é “sua mãe e minha senhora”.

(Sr. Gonzalo: No Chile se diz [missia?], que seria “minha senhora”.)

Ah.

(Sr. Gonzalo: Se a gente pergunta: “Como está [missia?] Maria?” É “minha senhora Maria. É uma abreviação, mas é muito mais bonito o caso português.)

Ah não, eu acho muito mais bonito. E mais bonito também do que a fórmula brasileira “senhora sua mãe”. Que é muito corrente. Quase banal, não é?

Mas então, meu caros, quais são os temas de hoje?

(Sr. Gonzalo: Queria ver se seria possível continuar com a última reunião que foi extraordinária e nos marcou enormemente. [Dá um resumo da reunião anterior] Ouvir essa voz interior, e confiar nessa voz interior, é o que a Providência pede do senhor…)

E pedirá de todos nós.



(Sr. Gonzalo: O senhor abordou a coisa por aí, e deu o exemplo do apartamento aqui do primeiro andar. [Continua o resumo] Queríamos pedir se o senhor poderia fazer a caridade de desenvolver ainda mais isso e eventualmente com outros exemplos que o senhor tenha sido objeto dessa voz interior. […] Não sei se já com isso o senhor…)

Sim.

Quer dizer o seguinte: naturalmente eu conto com vocês — o João não está aqui, não vai ouvir essa fita, não há razão para gravar…

(…)

* A imoralidade que tem em certos países, ou certos hemisférios, é uma imoralidade que é imoral, é censurável, mas é não suarenta, nem criola, nem feia

(Sr. Nelson Fragelli: O ar é casto, não é?)

O ar é casto. É uma coisa impressionante. Até num ou outro daqueles castelos das margens ou das ilhas do Reno tem coisas imorais. Mas é uma coisa engraçada, não é a imoralidade que tem em certos países, ou certos hemisférios, mas é uma imoralidade que é imoral, é censurável, mas é não suarenta, nem criola, nem feia, é toda ela… se perde nesta… não é mesmo.

(Sr. N. Fragelli: É sim, inteiramente.)

* A atmosfera renana me ficou muito na memória, e era a atmosfera que eu imaginava adequada para a realização última do Reino de Maria, que eu entendia assim prateado, magnífico!

Agora, o Percival é um herói de — o Andreas sabe a história; um pouquinho a Fräulein Mathilde me contou mas não me ficou na memória.

Mas a atmosfera renana me ficou muito na memória, e essa atmosfera era a atmosfera que eu imaginava adequada para a realização última das coisas que eu entendia que deviam ser feitas. Quer dizer, o Reino de Maria eu o entendia assim prateado, magnífico!

* De vez em quando tem-se a impressão de Anjos habitam certas alturas e fica-se olhando aquilo enormemente

E depois uma coisa muito curiosa. Em qualquer lugar onde você vai, você tem umas noções de altura no panorama. No Reno não, existem umas alturas trans-altas que vêm daquelas montanhas que se sucedem umas às outras, de uma altura que você tem a impressão que você fica transportado com aquelas coisas para uma atmosfera mais alta onde não vivem os homens, onde vivem, segundo intérpretes da doutrina católica, vivem Anjos e não homens. E por isso explica que certos pagãos julgassem ali viverem deuses. Porque é a ação dos Anjos sobre certas alturas.

Eu não sei se vocês têm essa mesma impressão de que de vez em quando Anjos habitam certas alturas. E que a gente fica olhando aquilo enormemente.

Então, a idéia desses ideais, etc. fica pairando, e condensado, etc., na figura de Nosso Senhor Jesus Cristo. E o Percival é uma figura dessas.

* Uma história muito do gênero de narração alemã

É uma história — o Andreas me contou, eu estou me lembrando um pouquinho — muito do gênero narração alemã. O Percival era um moço e tinha deixado a casa do pai e ia percorrer o mundo para fazer a carreira dele. Mas era chamado para isso por determinados apelos interiores. E então o que é que ele entendia que era a missão dele? É o que todo o gentil-homem bem educado, que cortasse as unhas, todo gentil-homem assim deveria necessariamente ter. Quer dizer, a idéia de que o precioso cálice da missa tinha sido roubado e que era preciso resgatá-lo, e o Graal era esse cálice.

Então o Percival largou da casa paterna e foi percorrer o Reno — que evidentemente para eles é o centro do mundo — para ver onde é que encontrava o Santo Graal, porque quando ele encontrasse, o mundo estaria como que resgatado.

Então, ele foi antes de tudo a um castelo muito bonito, com tudo muito bem arranjado, muito bem servido, mas no castelo habitava um ancião.

Essa idéia de um ancião habitando sozinho um castelo…

(Sr. N. Fragelli: Povoa o castelo.)

Povoa o castelo.

Ele era detentor do segredo do graal, o velho.

E então apresentou-se diante dele o Percivall como cavaleiro jovem. Eu imagino — o Andreas não entrou nesse pormenor que eu vou dar agora — mas eu o imagino de lança, de escudo, de perneiras, e com capacete na cabeça, de metal prateado reluzente, e que entrava e se punha diante do velho. O velho, sentado numa espécie de trono, olhava para ele com uma cara de mistério e como quem diz: “Como ousas, ó vilão, ó moço que viveu pouco, enfrentar os mistérios, e bater à porta deste ancião venerável e sagrado que teria tanta coisa a dizer se tu fosses digno”.

Uma coisa assim, eu imagino mais ou menos desse jeito.

Então o Percival pergunta para o velho…

O velho disse a ele: “Faça-me uma pergunta e depois conforme for…” Ficava dado a entender que o velho dava a ele o segredo do Santo Graal.

Então o Percival apertado pela situação, com aquele velho, com o futuro dele dependendo do velho, o velho diz, “Faça-me uma pergunta” e não especifica nada, pode perguntar desde um certo besouro a que espécie zootécnica pertence até as melhores fábricas de vitral que havia no tempo. Pode perguntar qualquer coisa.

E o Percival julgou de bom [alvar?] fazer a seguinte pergunta ao velho: “Por que sofres?”

Não sei se vocês percebem que a coisa tem um certo atrativo.

(Sr. Guerreiro: Muito atrativo.)

O sangue alemão está falando, hein!

E o velho disse para ele: “[Haus?]”

Ele fracassou. Mas ele não desiste. Os que tiverem a coragem de dar uma volta ao mundo para saber o que era o Santo Graal e [inaudível] do Santo Graal, esses poderiam dar mais uma volta. E o rapaz faz mais uma volta por toda a vastidão da Terra e no dia certo se apresenta ao velho.

O velho olha para ele e diz: “É…”

Como é que ele diz? Eu não me lembro mais. Mas tem uma outra pergunta enigmática para ele. Ele então reinicia a terceira pergunta. Eu não me lembro bem mais qual é, mas a coisa vai por esse lado.

Afinal o Percival pega qual é o segredo e vai falar com o velho. E o velho diz alguma coisa e o Percival diz: “Santo Graal de Nosso Senhor Jesus Cristo”. E o velho fica vendo que está descoberto. Então fica amicíssimo dele, etc.

O que o Andreas me contou pára mais ou menos nisso.

* Como deveria ser uma hagiografia bem feita

Mas vocês estão vendo que isto tudo tem uma coisa que eleva os homens para uma determinada zona, para um determinado ponto que não é facilmente dizível, mas que tem isto, que fica-nos na alma a impressão de que uma hagiografia bem feita deveria saber ligar essas coisas da Igreja com esse tipo de influência.

Agora, a idéia — que eu estou externando — é que há um certo número de pessoas que a Providência chama para uma obra a serviço d’Ela e que…

(…)

(Cel. Poli: Eu estou desagravando um finzinho aqui que…)

(…)

todo o problema de sua vida resolvido.

Não sei se eu me exprimi bem.

Mas eu tinha a impressão de mim mesmo, de uma pessoa…

O que é que é meu filho?

(Sr. Guerreiro: Está gravando.)

É melhor não.

(…)

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