Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
21/5/94 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 21/5/94 — Sábado
Está mais na nossa via confiar na Providência, do que simplesmente nos resignarmos * Naquilo que a Providência faz transluzir para a gente, nós não devemos apenas esperar, mas devemos confiar * A realização dos transluzimentos são demoradas e, portanto, fazem sofrer, mas habitualmente no momento de se confirmar vem acompanhado de consolações * É preciso continuar a esperar que as dificuldades se resolvam, em atenção à promessa recebida * Na medida em que somos fiéis ao SDP, se estende até nós a mão da Providência que o orienta * O sentir-se nas vias do Fundador é o que faz os desponsórios do indivíduo com sua própria vocação * Houve um determinado momento em que todos nós recebemos um convite da serpente, para renunciar-mos ao Thau e aos flashes e imergirmos na “Bagarre” azul * Com esta reunião nós ficamos postos diante de uma profunda explicação histórica da crise da inocência primeva da nossa vocação, de como é que ela se deu e no que ela consistiu * Uma confiança exemplar: Nossa Senhora na Anunciação
Do lado de cá tem um abat-jour, esse abat-jour está aceso?
(Sr. Guerreiro: Está senhor.)
Então vamos deixar. Ele está com a lâmpada um pouco fraca.
(Cel. Poli: O senhor tem alguma matéria para tratar?)
Não, especificamente não.
(Sr. G. Larraín: Perguntas nós temos.)
Então apresente.
(Cel. Poli: Ficamos de fazer uma pergunta a várias mãos, ou a várias bocas, mas a matéria seria a seguinte. […] Agora existe a necessidade mais do que nunca da confiança pela…)
Pela confiança.
(Cel. Poli: Mas imposta também pela necessidade dos fatos.)
Oh sim, os fatos exigem, clamam por isso.
(Cel. Poli: Então parece que é uma via de união com o senhor, que é uma via na confiança.)
Sim.
(Cel. Poli: E que deve ser uma via muito alta na união com o senhor essa via da confiança.)
Sim.
(Cel. Poli: Parece também que a Senhora Dona Lucilia viveu muito nessa via da confiança.)
Sim, é certo.
(Cel. Poli: E a muita união dela com o senhor e do senhor com ela foi condicionada por esse desígnio da Providência de provações na linha da confiança muito grandes.)
É fora de dúvida.
(Cel. Poli: Propriamente essa seria a matéria que nós queríamos perguntar ao senhor.)
* Está mais na nossa via confiar na Providência, do que simplesmente nos resignarmos
Bom, antes de tudo — eu não quero dar por encerrado as perguntas sobre isto, mas quero dizer uma coisinha que é capaz da gente esquecer de dizer.
Eu sempre notei um matiz de diferença entre mamãe e eu no que diz respeito a essa matéria da confiança. Ela rezava muito e pedia muito as coisas. Mas havia uma nota de resignação dentro desse pedir. Quer dizer, caso a Providência não quisesse conceder, ela de boa mente aceitava que a Providência não desse. Mas ela queria muito, ela pedia, etc., e pedia na esperança — aí a palavra confiança se confunde com a palavra esperança — de que seria atendida. Mas de fato ela… [dela] mais se pode dizer que esperava do que confiava propriamente.
Na nossa via há uma coisa diferente. Nós mais devemos confiar do que nos resignar. É muito delicada a coisa.
(Sr. G. Larraín: Se o senhor pudesse explicar um pouquinho, eu não…)
Pois não. Vamos dizer, por exemplo o seguinte:
(…)
Quer dizer, o Getúlio fez um decreto lei pelo qual os aluguéis todos estavam absolutamente congelados. E era crime de cadeia, com vários anos de prisão o elevar de um tostão um aluguel porque não podia.
Tornou-se conhecido o caso de uma senhora residente em Piracicaba e que tinha uma casa não me lembro onde, se era em Piracicaba ou se era aqui, casas que ela alugava. E o caso, em linhas gerais, eram várias casas e ela mesma passava os recibos de aluguel das casas aos inquilinos todos os meses. Ela num mês, em uma das casas, ela ao fazer o recibo, enganou-se e colocou, o que naquele tempo chamava-se dez mil réis, uma quantia irrisória, ela se enganou no fazer o cálculo, então para uma das casas ela cobrou, digamos dez mil réis a mais.
Processo criminal com pena de cadeia se perdesse o processo.
Afinal depois de muito demora — que era o castigo, vocês conhecem casos parecidos —, aconteceu que ela ficou liberada. Mas foi um período da pobre mulher ficar quase louca. Uma mulher, você pode imaginar.
Isto prova a vocês a rigidez da aplicação de um decreto intrinsecamente rígido e aplicado de um modo estúpido, e para não dizer mais, de um modo persecutório.
* Devido à lei do inquilinato, o Senhor Doutor Plinio teve que se mudar de casa várias vezes
Aí vocês têm um pouco uma idéia de como é a coisa.
Bom, então houve um congelamento absoluto dos aluguéis. E havendo congelamento absoluto dos aluguéis, as construções de casa pararam imediatamente. Quer dizer, deixou-se de construir casa residencial. Continuaram a construir casas para escritórios, para essas finalidades, em que o controle dos aluguéis não era tão rígido, a lei era flexível, tinha adaptações, etc. Mas para residências que era o ponto “x,” era brutal a lei.
Acontecia com isso que em vários lugares os proprietários começaram a pedir — eram proprietários que eram donos de muitas casas e não eram donos da casa que moravam, isso acontecia muitas vezes. Eles tinham casas para alugar e moravam como inquilinos numa outra casa por razões econômicas também que é muito longo para narrar.
Como pela lei do inquilinato o dono de uma casa tinha o direito de requerer o uso da casa para ele se ele quisesse, então ele podia requerer o uso daquela casa. E vários proprietários de casa em que morávamos, sucessivamente requereram a casa que nos alugavam para morar…
(Sr. G. Larraín: Isso faz parte da história do senhor, essas mudanças assim. Está muito bem explicado.)
Então, acontecia que em nenhum caso tivemos que mudar de casa porque não podíamos pagar o aluguel, mas era porque o proprietário queria nos fazer sair daquela casa porque pela lei, ele fazendo-nos sair daquela casa e morando na casa que nos fez sair durante um ano, quando terminasse esse ano, a casa estava liberada da lei do inquilinato.
Então era uma caçada contra os inquilinos. E os inquilinos viviam fugindo de um lado para outro e os proprietários atrás perseguindo. E eu, inquilino, defendendo os proprietários, mas altamente prejudicado nessa atitude, porque eu como inquilino era interessado no contrário.
* Um fato místico pelo qual o Senhor Doutor Plinio entrevia a futura aquisição do Primeiro Andar
Daí tivemos que mudar de várias casas. E numa dessas casas, todas elas muito menos a meu gosto do que esse apartamento aqui, nessas várias casas algumas se adaptavam mais e outras menos a meu gosto. Mas nenhuma se tinha uma inteira conformidade com meu gosto.
E numa dessas casas especialmente me desagradava a casa em gênero norte-americano bangalô, muito baixinha, a gente podia acender o lustre com a mão, você pode fazer idéia…
(Sr. G. Larraín: Onde era essa, senhor?)
Na rua Itacolomi aqui. Quase esquina daquele larguinho atrás do cemitério.
Então nessa casa eu me dava muito mal porque a casa era todo modernozinha e baixota e com umas janelas muito esquisitas, etc. E eu tive um pressentimento, que eu não sei como explicar, que me dizia o seguinte:
“Você tenha paciência, você vai agüentar durante algum tempo essa casa, depois ainda vai ter uma outra casa que você vai ter que agüentar. Mas depois você chega à sua casa definitiva que não é a casa ideal, mas é uma casa satisfatória na qual você se sente inteiramente à vontade”.
É bem isso aqui.
Agora, eu percebi que era uma dessas intuições, mas como eu tinha muito medo de falsa mística, eu não dava importâncias a essas intuições, mas dizia de mim para comigo: “eu não vou dar importância de medo de falsa mística, mas isto é um fato místico. Eu estou sendo avisado pela Providência disto aqui”.
Eu estou claro?
(Claríssimo!)
* Naquilo que a Providência faz transluzir para a gente, nós não devemos apenas esperar, mas devemos confiar
Essa situação indica bem o papel da confiança, porque aparece uma coisa assim que é uma espécie de transluzimento que nos diz alguma coisa, e nesse transluzimento a gente vê que a Providência quer que a gente entenda alguma coisa. E que nisto que a gente transluziu, no que transluziu para a gente, nisto nós não devemos apenas esperar, mas devemos confiar.
É diferente, portanto, da posição da pessoa que reza, tem a promessa genérica de Nosso Senhor [de] que quem pede será atendido, mas não tem um transluzimento, não tem um toque qualquer da graça que faça entender ao indivíduo que, etc.
E é preciso saber tratar com esses transluzimentos porque do contrário as coisas não andam. Mas, é preciso… vocês mesmos…
Eu me sinto propenso, não sei se é o que vocês poderiam querer, porque talvez queiram outra coisa, mas enfim, vamos ao caso.
Talvez gostassem de eu indicar como é que a gente discerne um transluzimento verdadeiro de um transluzimento que pode não ser verdadeiro. E o que fazer com o transluzimento verdadeiro, com um transluzimento ambíguo que não é necessariamente um transluzimento falso, a Providência nos deixa ver que provavelmente é assim, Ela quer nos dar uma ajuda menos categórica do que seria uma afirmação, e o transluzimento categórico, que já nem é bem o transluzimento, é quase uma revelação.
Eu confesso que na reunião que eu fiz no auditório Nossa Senhora Auxiliadora em que eu tratei da confiança, eu estive nos bordos de entrar nesse tema, mas não quis porque eu vendo aquela massa enorme de gente, eu explicar isto para muito rapazinho novo que está lá, muito eremita servidor que não tem o discernimento, começa imaginar coisas. Eu acho que nenhum de vocês acharia prudente que eu entrasse por aí. Enquanto numa reunião mais escolhida e mais ponderada, etc., etc., se pode tratar disso.
(Cel. Poli: Sobretudo se o senhor der exemplos da vida do senhor para ir ilustrando.)
É só o que eu tenho.
(Cel. Poli: E da Senhora Dona Lucilia também.)
Era muito raro.
Então esses transluzimentos como é que se definem?
(Sr. Guerreiro: Perdão senhor, o senhor ia tratar dos três tipos de…)
* O transluzimento genérico se define quando surge dentro de nós um estado de espírito que vem acompanhado de um sentir interior de alguma coisa que é especial
É, eu já disse quais são, e agora, depois de dizer quais são, eu dou uma definição genérica para os três e depois entra uma nota específica sobre cada um deles. E eu estava começando a dar a coisa genérica.
O característico desse transluzimento genérico é o seguinte: ele aparece, ele se define quando surge dentro de nós um estado de espírito que vem acompanhado de um sentir interior de alguma coisa que é especial.
Como é o estado de espírito e como é a tal coisa especial?
Vamos dizer no caso concreto da vinda para cá.
O estado de espírito. De repente é como se alguém batesse… Uma música está sendo tocada no piano, mas de repente um pé que não é o do pianista, acalca no pedal que aumenta o som. Então, por ação de um terceiro que não é o pianista, dentro da partitura que está sendo executada não há uma violação da partitura, mas há uma diferença de intensidade de som que faz com que a pessoa perceba que condições auditivas especiais e efêmeras estão criadas. E que dentro dessa condição efêmera, auditiva, vai aparecer, vai ser dada uma comunicação pelo simples fato de alguma coisa que a gente está pensando, ter uma ênfase especial. Essa ênfase que seria como a do pedal, faz sentir: “aqui tem alguma coisa”.
(Sr. G. Larraín: O senhor não está dizendo se é uma coisa boa ou não boa.)
Não, eu estou descrevendo o fenômeno.
Quando pode não ser boa é fácil distinguir, mas eu entrarei nessa distinção daqui a pouquinho.
Mas eu quero saber bem, diretamente de cada um…
(Sr. G. Larraín: Está muito claro.)
Você, meu Paulo Henrique?
(Sr. Paulo Henrique: Muito claro.)
E você Paulo Roberto?
(Sr. P. Roberto: Muito claro, senhor.)
Meu Guerreiro
(Sr. Guerreiro: Muito claro.)
E você, meu querido Horácio?
(Sr. Horácio B.: Muito claro.)
E você, meu coronel?
(Cel. Poli: Está claro, senhor.)
* O transluzimento genérico aumenta as condições perceptivas, entretanto não enerva, não cria agitação, mas aquieta e resolve um problema que, só por si, a pessoa não podia resolver
Então aparece assim uma mudança de condições auditivas e nos aparece como uma coisa que a gente tem uma perspectiva, por exemplo: “sua casa vai ser assim”, aquilo aparece meio como se visse a casa, e meio como se eu visse alguém dizer. E é uma coisa que aumentando as condições perceptivas, entretanto não enerva, não cria agitação, pelo contrário, aquieta e resolve um problema que só por si a pessoa não podia resolver.
(Sr. G. Larraín: Extraordinário. Fabuloso, fabuloso!)
Então no caso concreto que eu dei da percepção de uma casa que, como é que isso se verifica nesse caso concreto.
É exatamente isso: quando eu estava naquela casinhola eu me sentia muito mal à vontade e quase comprimido como um pássaro grande posto numa gaiola em que ele mal cabe. Trabalhando assim no meu escritoriozinho dessa casa, de repente, eu tenho uma coisa que é uma como a respiração na alma e uma coisa me faz conhecer que uma casa de tamanho proporcionado a mim, e condições proporcionadas a mim me virá.
De que maneira? É quase como uma visão sem ser uma visão. Aparece uma coisa assim que deixa entrever um pouco o negócio. E com uma espécie de bem-estar da alma percebendo que o cárcere onde está vai ser rompido, e que ela vai ter condições normais de vida em outras circunstâncias, e que aquilo vai terminar.
Então isto produz uma espécie de distensão, e essa distensão pelas circunstâncias em que se passou o ato distensivo, a gente fica como que apalpando que aquilo vai ser. A partir desse momento a gente tem que ter a confiança de que aquilo vai ser.
(Cel. Poli: Então isso é a voz da graça?)
É a voz da graça.
Por isso também aquelas palavras iniciais do Livro da Confiança me disseram tanto: “Voz de Cristo, voz misteriosa da graça vós dizeis ao fundo de nossas almas palavras de doçura e de paz”, porque era bem isso.
* A realização dos transluzimentos genéricos são demoradas e, portanto, fazem sofrer, mas habitualmente no momento de se confirmar vem acompanhado de consolações
E depois outra coisa:
“Espere, porque vai durar mais do que você pensa. Não procure violentar essa comunicação espremendo-a como uma fruta para forçá-la a dizer o que não está dentro dela. Fique esperando, aguardando com calma porque aí se poderá… em geral é demorado, e em geral essa demora nos faz sofrer, mas habitualmente ela se confirma e no momento de confirmar vem acompanhada de consolações”.
E nessas circunstâncias digitus Dei hic est. A gente vê o dedo de Deus aí. Ele pousou sobre aquilo e no momento em que Ele quis dar, em que nós tivemos que passar por essa prova, Ele prometeu, mas não prometeu de um modo irretorquivelmente claro, não é uma formal promessa, mas é uma coisa meio parecida com o aceno de uma promessa. Ele prometeu mas não indicou data, não indicou condições, apenas virá isto. Ele quer que a gente durante esse tempo não fique irritado pela demora, aceite a demora com humildade, dizendo: “Ele faz assim e é bom que faça porque tudo quanto Ele faz é bom, de maneira que eu não estou compreendendo que vantagens isso tem, mas é Ele que faz, logo é bom. E fico esperando o que isso pode trazer consigo”.
* É preciso continuar a esperar que as dificuldades se resolvam, em atenção à promessa recebida
Em determinado momento a coisa aparece. Quando aparece: “Que beleza! Está ótimo!” Vai ver, aparecem dificuldades. E aí em cada dificuldade a coisa se repete. É preciso você continuar a esperar que aquela dificuldade se resolva em atenção à promessa recebida. As dificuldades se resolvem e afinal você tem o que queria.
(Sr. G. Larraín: É muito bonito. É muito delicado o trato com a Providência.)
Muito delicado. Porque exige uma certa maÔtrise de soi, um certo domínio de si mesmo que não é comum.
(Sr. G. Larraín: Humildade também.)
Humildade e tudo mais.
* À medida que o Senhor Doutor Plinio olhava os cômodos do Primeiro Andar, na visita que fez antes do contrato de locação, ele ia colocando psicologicamente os móveis onde devia ser
Eu me lembro, por exemplo que quando apareceu o anúncio dessa casa, era um anúncio grande, num jornal — no “O Estado de São Paulo” se não me engano — na secção de aluguéis, mas o anúncio grande tinha qualquer coisa de demodée na parte gráfica do anúncio que fazia entender indiretamente que o apartamento era meio demodée e por isso um apartamento mais barato do que ele normalmente seria pelas suas condições materiais. E dava a descrição do apartamento. Quando falou do apartamento e que eu vi que era demodée, eu pensei: “logo diante da porta de entrada deve ter um lugar para colocar o meu sofá grande”.
(Sr. G. Larraín: Que coisa!)
Quando eu vim aqui ver a casa. Abriram para eu entrar para ver, a coisa banal…
(Cel. Poli: Estava desocupada ou tinha moradores?)
Tinha um resto de móveis do inquilino anterior que era amigo da dona e estavam fazendo tudo a quatro mãos assim. Eles estavam para levar uns móveis ainda. Mas o contrato de locação já estava extinto e a lei de inquilinato já estava amenizada também. Enfim, as condições tinham mudado.
Eu entrei e dei com esse hall e o primeiro olhar foi: “o sofasão é para cá”.
(Cel. Poli: O senhor não tinha ainda fechado o negócio, veio ver só?)
Não, eu vim ver só.
(Cel. Poli: E já foi vendo a adequação das coisas.)
É, exatamente.
Mais ainda, à medida que eu fui olhando a casa, eu ia colocando psicologicamente os móveis onde devia ser, que era um elemento fundamental para eu saber bem se a casa me convinha era eu não ter que comprar mobília, ter que me arranjar com os móveis que tinha, porque eu não tinha dinheiro para comprar mobília. Então esse problema móveis-casa para mim era capital.
Coube tudo, mas foi uma vez só, não experimentei nada, todos os móveis que estão aqui eu já os tinha, e couberam como na primeira vez.
(Sr. P. Roberto: É muito impressionante, porque todos esses quadros, as mobílias não são pequenas, não é?)
Pois é.
(Sr. G. Larraín: E depois um bom gosto, porque logo no primeiro golpe de vista o senhor viu tudo.)
A única coisa que eu comprei depois foi aquela gravura que eu comprei na Europa. Mas é um pormenor dentro do conjunto, não vem ao caso.
Mas não sei se percebem que o tempo inteiro eu tive que confiar.
(Sr. Guerreiro: E quanto tempo durou esse período?)
Meu filho, eu não saberia dizer também porque tenho má memória, mas eu acredito que possa ter durado uns três meses entre a primeira visita e a escritura de compra.
(Sr. Guerreiro: Mas entre aquele movimento…)
Ah sei, isso eu saberia mais vagamente ainda. Eu vou lançar mas no ar, com toda a dúvida: uns dois anos.
(Sr. G. Larraín: Depois daí o senhor passou para outra casa.)
Passei para a Vieira de Carvalho e depois é que passei para cá.
(Sr. G. Larraín: É mais tempo, provavelmente.)
Pelo contrato de locação da Vieira de Carvalho se pode saber quanto tempo levou de uma coisa para outra.
* Dado à vocação profética, o transluzimento é o tratamento normal da graça para com o Senhor Doutor Plinio
(Sr. Paulo Henrique: Esse é o tratamento normal da graça ou é tendo em vista a via profética do senhor?)
Eu acho que não é o tratamento normal da graça com o comum das pessoas. Que dado o caráter profético de nossa vocação, a coisa é feita assim. Mas que vocês, na medida em que aderirem em espírito a toda a nossa vocação, também vão sendo tratados assim.
(Sr. P. Roberto: E também à medida que nós vamos aproximando do Reino de Maria mesmo entre as pessoas de fora esse fenômeno também não vai se tornando um pouco mais freqüente?)
Vai.
(Sr. P. Roberto: Porque parece que é uma coisa para o Reino de Maria, isso.)
É uma coisa que é para a migração do reino do demônio para o Reino de Maria.
(Sr. P. Roberto: É próprio da migração.)
Exatamente. Um pouco parecido com a viagem do povo eleito pelo deserto.
(Sr. G. Larraín: Falando muito mais ao senhor do que aos filhos do senhor. […] A gente vê que a obediência deve funcionar muito com base nisso, é saber que o senhor é movido por isso. Há coisas que o senhor diz para uma pessoa, que o senhor tem esperança na pessoa, mas nem a pessoa tem seus toques nem tem essa esperança em relação a si mesmo, acha que está tudo perdido. Mas isso se dá por algo que o senhor tem em relação a essa pessoa, a grupo de pessoas, a um país…)
É isso.
(Sr. G. Larraín: Então a pessoa não vê, mas tem que confiar no que o senhor está dizendo sem ser tocado por esse toque diretamente.)
Tal e qual.
(Sr. G. Larraín: […] O Grupo está cheio disso, o senhor espera, espera, e as pessoas dizem: “não, não adianta”. De repente, pumba!, se encontra o “apartamento”.)
É isso, se encontra o “apartamento”.
* Na medida em que somos fiéis ao Senhor Doutor Plinio, se estende até nós a mão da Providência que o orienta
Agora, eu não sei se vocês percebem nessa primeira exposição que eu estou fazendo, que lhes dá uma certa tranqüilidade compreender que a mão da Providência que me orienta, se estenda até vocês, e de algum modo envolve a vida de vocês na medida em que forem fiéis ao que eu estou dizendo.
Vocês se sentem menos isolados, menos jogados ao acaso, do que pareceria. Porque uma das coisas que… Me desculpem entrar na vida espiritual individual de todos, mas isso se dá com todos, cada um a seu modo. Tem uma espécie de sensação de solidão, de que lhes faltaria para estarem bem em ordem com sua axiologia, sentir que tem um caminho individual, individualizado, para o qual a Providência o chama e a obediência, instrumento da Providência, o chama também. De maneira que não ficam meio jogados ao léu.
(Sr. Paulo Henrique: Um caminho individual mas inteiramente subordinado ao caminho principal.)
Inteiramente.
(Sr. Paulo Henrique: Porque o senhor dizendo isso me faz muita luz também desde que começamos a ter contatos com o senhor, com a obra do senhor, nós percebemos que de fato a nossa vida se arranjava por aí, fora daí não ia dar certo.)
É isso.
(Sr. Paulo Henrique: Naquele tempo a formação que se dava para uma pessoa nova que se aproximava da TFP era a RCR, e como havia o processo, aquilo se encaixava bem, era axiológico a gente ouvir aquelas explicações e depois ver que os fatos corriam por ali.)
Isso.
(Sr. Paulo Henrique: E algumas coisas na vida da gente também…)
Aí é que está.
(Sr. Paulo Henrique: Iam se encaixando.)
Mas aí é que está. Algumas coisas da vida individual devem encaixar-se também.
* O sentir-se nas vias do Fundador é o que faz os desponsórios do indivíduo com sua própria vocação
E isto é o que dá, vamos dizer, que faz os desponsórios por assim dizer, do indivíduo com sua própria vocação.
(Sr. Paulo Henrique: E isso dá muita alegria.)
Muita! Muito.
Agora, dá também mais segurança. Tanto mais que isto que eu estou dizendo aqui, e que para vocês poderia ter o valor e a realidade de um pressentimento que não foi analisado à luz da fé nem à luz da razão, que pelo contrário, isto, esses movimentos destes, indicam um caminho que tem estrutura, que tem via e para o qual a pessoa pode voltar-se com confiança porque acaba dando certo. Porque a Providência fala através desses movimentos e acaba dando certo.
(Sr. G. Larraín: Extraordinário, fabuloso. E isso é muitíssimo freqüente na vida do senhor?)
Muito. Não, muitíssimo freqüente não, eu pensei que você fosse perguntar outra coisa. Dá-se com uma certa freqüência.
(Sr. G. Larraín: E a diferença entre o discernimento dos espíritos e isso? Há algo disso também.)
É meio parecido com isso.
(Sr. G. Larraín: Mas não é igual?)
Não o tema é diferente.
* Diferença entre discernimento dos espíritos e transluzimento
Pelo discernimento dos espíritos você vê a alma de um e diz para ele: “Você é assim”. Outra coisa é dizer: “Eu vou ter uma casa de tal jeito na época “x”.”
(Sr. G. Larraín: […] Mas o senhor pode dizer: “você é assim”. Mas às vezes o senhor diz: “mas sendo assim, eu tenho tais e tais esperanças apesar da situação estar como está”.)
Ah sim. Mas aí já é um segundo desdobramento, já não é o primeiro fato. É do primeiro fato, da primeira previsão, deduzir uma segunda previsão meio apoiada por um segundo discernimento.
(Sr. G. Larraín: Que não é o anterior.)
Que não é o anterior. É como o galho em relação à árvore. Quer dizer, o galho não é a árvore, mas é um desdobramento da árvore.
(Sr. Paulo Henrique: O senhor fez a distinção, uma coisa é o discernimento dos espíritos e outra é esse [trans]reluzimento. O senhor não daria o mesmo nome para um fenômeno e outro.)
Não, porque o objeto da comunicação, do [trans]reluzimento é outro.
(Sr. Paulo Henrique: Mas acaba sendo uma maneira da Providência fazer ver as coisas.)
Ah sim.
(Sr. Paulo Henrique: Uma é no conjunto de almas e outra em objetos.)
Exatamente.
Mas de fato são comunicações que exigem uma correspondência da graça meio diferente, porque para eu prever por um pressentimento que “x” vai corresponder à graça, eu tenho que prever um movimento interno em “x” que ele, entretanto, é livre de pôr e não pôr. Enquanto o negócio da casa, etc., etc., é diferente.
(Sr. Paulo Henrique: Sem o auxílio muito especial da graça, humanamente falando é impossível.)
Impossível.
(Sr. Paulo Henrique: Mas está nas vias do profetismo.)
Está, está. O profetismo é o gênero, isso são espécies dentro do gênero.
(Sr. Paulo Henrique: E assim há outros campos de visões […inaudível].)
* O caso de membro do Grupo para o qual um dos fatores da adesão dele ao Grupo foi ter percebido que o Senhor Doutor Plinio o esperava
Por exemplo, uma coisa que me chamou atenção quando apareceu aqui, de repente, o pai do Andreas mais o Andreas. Eu sabia que havia uma família Meran que era uma muito boa família austríaca, mas eu nem sabia que eles eram um ramo dos Habsburgs, nem nada disso. Sabia que havia uma grande família Meran na Áustria e acabou-se. Como poderia haver e houve uma grande família Rouen na França e depois acabou-se.
Quando eu vi o Andreas aparecer… Eu quis logo saber qual era o Meran ali. Me indicaram o Andreas. Ele e os franceses que vinham com ele, eu qualifiquei de petits barbares: “C’etait des petits barbares”. Mas naquela ocasião falando com eles eu disse: vous étes des petits barbares. [vira a fita]
… e o Andreas me pareceu mais bárbaro do que os franceses. Mãos muito rústicas, de pessoa que trabalhava na terra, e outras circunstâncias. Depois começamos a conversar e eu percebi em algumas conversas que ele tinha verdadeiramente o sangue dos Merans e que era uma pessoa fina, educada, etc., que aquela primeira impressão de barbare não era falsa, mas era uma espécie de terra que há nas mãos do lavrador nobre, que lavando as mãos vai embora a terra e a nobreza fica.
E me lembro de estar conversando com ele numa daquelas minhas duas salas, na Sede do Reino de Maria, não me lembro em qual das duas, que naquele tempo eu usava às vezes, a sala que era sala — quem era que me ajudava ali? Era o Castilho ou não? Tinha um ajudante ali. Eu olhando para ele eu tive a seguinte reflexão: “este é um que eu esperava”.
Ele, muito anos depois, conversando comigo, disse-me que um fator da adesão dele ao Grupo foi ter percebido que eu o esperava.
Você não acha interessante?
(Cel. Poli: É um flash.)
(Sr. Paulo Henrique: Mas ele comentou também de que ele encontrou o esperado dele também? Encontrou o que ele esperava?)
Também.
(Sr. Paulo Henrique: Porque acho que produz aí um arco voltaico.)
(…)
* Houve um determinado momento em que todos nós recebemos um convite da serpente, para renunciar-mos ao Thau e aos flashes e imergirmos na “Bagarre” azul
(Cel. Poli: … “houve um determinado momento…”)
… em que vocês todos receberam da serpente o seguinte convite:
“Olhe para o mundo da Bagarre Azul, esse mundo é por vários lados menos ruim do que já foi no avant-guerre, no fim da Belle Époque, e até mais inocentão do que foi no fim da Belle Époque. E compreenda que este mundo assim, tem ele também — não é como a serpente formulava, mas acabava dando nisso — seu como que profetismo, e sua como que promessa. Mas para ser beneficiado por essa promessa é preciso ter renunciado a tudo quanto você já viu: flashes, Thau, etc. Diga adeus e faça um negócio que dê dinheiro. Um, basta um! Eu lhe dou todo o resto”.
“Você vai fazer o negócio, eu lhe tiro a alma”.
(Sr. G. Larraín: E há um profetismo negro, o negócio muitas vezes dá certo…)
A CAL.
(Sr. G. Larraín: Coisas que são azares para o senhor não são para que entra por essa via.)
Isso, exatamente.
(Sr. P. Roberto: Poder-se-ia se dizer que na “Bagarre” azul tudo que foi feito pelo demônio, foi feito para contrarrestar essa graça que estava começando aí?)
Foi.
(Sr. P. Roberto: Uma coisa feita de propósito pelo demônio para isso?)
Para isso.
(Sr. P. Roberto: Muito impressionante, muito verdadeiro, não é?)
* A alma que passou a ter como ideal morrer como dono de uma fábrica de automóveis precisa passar por uma conversão para voltar à antiga sensibilidade aos fenômenos místicos
E aí começaram — os que haveriam de se afastar — a afastar-se. Não é afastar-se do Grupo, pelo contrário, no Grupo com uma espécie de solidez de deixar a gente pasmo, como é que não saíam do Grupo.
Mas, mas, tomar distância, fazer decalagem. E essa decalagem perigosa, tristíssima levou a que todos esses fenômenos meio místicos de que eu falei fossem esfriando, fossem obscurecendo e perdendo o charme.
Não perdiam em si, mas a alma que passou a ter como ideal morrer como dono de uma fábrica de automóveis — porque é um ideal de Bagarre Azul característico. A alma que chegou a ter esse ideal, ela precisa passar por uma conversão para voltar à antiga sensibilidade a esses fenômenos.
(Sr. Paulo Henrique: Ela perdeu a inocência primeva da vocação.)
Exatamente.
(Sr. Paulo Henrique: Ela toldou aquilo…)
Ela toldou assim… hein! mandando um pontapé, por exemplo, para com nosso amor às tradições.
(Sr. G. Larraín: Isso os filhos das trevas percebem.)
Ah sim.
(Sr. G. Larraín: O senhor analisou uma vez aquela [confeitaria] Brunella que estava em frente a Sede do Reino de Maria, uma porcaria onde vendiam doces, etc. E o senhor disse que tudo aquilo foi montado por eles com o intuito de ver se quebravam esse mundo de imponderáveis da Sede do Reino de Maria. E como os imponderáveis da sede venceram, eles se retiraram.)
Foi.
(Sr. G. Larraín: Eles se mexem em função desse mundo.)
Isso.
(Sr. G. Larraín: E em geral os membros do Grupo cegos, prático-prático… e a realidade não é movida por aí.)
Não é movida por aí, é um erro.
Por exemplo, nessa ordem de idéias, eles estão fazendo da praça Vilaboim ali embaixo, um pequeno Jardim América.
(Sr. G. Larraín: Aquilo é medonho.)
É medonho.
(Sr. P. Roberto: A gente sente passando por ali que é um foco disso.)
Isso.
(Sr. G. Larraín: E têm como meta mexer aqui no ambiente que o senhor se move ou não?)
Têm.
(Sr. G. Larraín: O objetivo é?…)
Pegar isso.
(Sr. G. Larraín: E está aumentando muito. Desde uns quatro ou cinco meses atrás está tomando um visgo tremendo.)
Ali tem… todo o atrativo péssimo da Bagarre Azul está presente lá: extravagâncias, atrações. Depois, eu não tenho uma informação direta, mas garanto que existem lojas, algumas, que vendem por exemplo, doces extraordinários…
(Sr. Guerreiro: Tem mesmo. Tem uma loja de doces importados ali e bebidas também.)
Bebidas também. Depois tem uma outra loja qualquer onde há um aparelho de som que faz ouvir um tipo de música especial, e ali vendem artigos para senhora, e lá vai daí para fora.
(Sr. G. Larraín: Dr. Paulinho me contou que no Brasil existem quatro máquinas de café de onde sai o melhor café que existe, que é uma máquina antiga que os italianos trouxeram. E uma está ali.)
Está vendo?
(Sr. G. Larraín: Está ali num restaurante. E de fato parece que é muito bom café. […] Isso não nega o que o senhor está dizendo…)
Não, é uma confirmação.
* Com esta reunião nós ficamos postos diante de uma profunda explicação histórica da crise da inocência primeva da nossa vocação, de como é que ela se deu e no que ela consistiu
Nós perdemos um pouquinho o fio da exposição. No que é que estávamos? Ah, eu falava do seguinte:
Vocês ficaram agora postos diante de uma explicação histórica, mais profunda do que outras que já tiveram, da crise da inocência primeva da nossa vocação como é que foi que se deu, no que ela consistiu e como foi que ela se deu. E como é que a Bagarre Azul deitou as ventosas de pata de polvo em cima de cada um e chupou, para depois aquilo ficar pendurada na pata do polvo e eles moverem para onde quiserem.
Agora, voltando ao caso, é uma coisa evidente que para essa situação, quem foi fiel, acaba sendo que está muito mais preparado para entrar neste comércio divino quando arrebentar a Bagarre do que quem antes não foi fiel. E vai ter que passar por aquilo que nós poderíamos chamar uma espécie de tratamento oculístico para a vista ficar limpa e poder fazer o jogo.
(Sr. Guerreiro: O que o senhor estava tratando inicialmente era mais estas confianças que por uma ação mística da graça Deus pode colocar em nossas almas. Agora, outras são as graças, os temas que o senhor levanta habitualmente ligados às arquetipias dos temas, das situações, isso também nos traz imensamente esta alegria e este desejo de viver nessa atmosfera. Mas são coisas distintas…)
São distintas. São definidamente distintas.
(Sr. Guerreiro: Em certo momento o senhor tratou desse outro aspecto formando, portanto, um conjunto só.)
É isso.
Bom, vamos ver um pouquinho a hora, que eu receio que vocês, a partir de certo momento, não consigam acompanhar pelo fatigante da matéria.
(Sr. G. Larraín: Como o senhor começou mais cedo, e os dias são muito cansativos para o senhor.)
Não, não é cansativo não, eu até estou descansando. Que horas são?
(Sr. P. Roberto: É cedo ainda, são duas horas.)
Ah não, ainda é cedo.
(Sr. P. Roberto: Graças a Deus.)
Graças a Deus.
(Sr. G. Larraín: Isso sugere algumas perguntas, mas não sei se o senhor queria seguir o fio pelos contatos ambíguos dessa comunicação. […])
Não, eu gostaria de primeiro acabar de falar quando a voz é clara para depois tratar de quando a voz é ambígua, para seguir um método, me parece preferível.
Então, eu estava falando de quando a voz é clara — agora eu estou me lembrando — e estava falando da confiança, e acho que não devemos abandonar o tema confiança antes desse tema estar mais explorado um pouco.
* A Providência quer de nós que Ela em certos relâmpagos nos faça ver o que Ela quer, e que de outro Ela não faz ver tudo, e dentro da preocupação nós temos que manter a certeza
Mas então aprofundando a coisa, acaba sendo o seguinte: é que a Providência quer de nós que Ela em certos relâmpagos nos faça ver o que Ela quer, e que de outro lado nós não vemos, Ela não faz ver tudo. Ela faz ver num certo lusco-fusco alguma coisa, mas essa coisa tem um sabor, tem uma forma de claridade que faz com que nós tenhamos elementos para ter certeza, mas não uma certeza despreocupada, mas uma certeza com certa preocupação. E o exercício de dentro dessa preocupação manter a certeza, e manter por um jogo lógico, porque tudo isso é lógico, tudo isso é razoável, não é uma certeza arbitrária. A certeza arbitrária não é uma verdadeira certeza.
Então que este ponto pode levar a pessoa a um grau de confiança assim definido: é uma certeza numa coisa que a gente querendo ver, vê o suficientemente claro para ter uma certeza lógica. Mas não querendo ver, ver o suficientemente obscuro para ser frouxo, não pegar aquilo e acabar emergindo na ambigüidade e na dúvida.
Não sei por que é que me olham meio pensativos?
(Sr. G. Larraín: E a preocupação aí em que consiste?)
* Uma confiança exemplar: Nossa Senhora na Anunciação
A preocupação é no seguinte. Vamos dizer por exemplo: Angelus Domini nunciavit Mariae, et concepit de Spiritui Sancto.
O Anjo apareceu para Ela e Ela não teve nenhuma dúvida de que Ela estava diante de uma aparição.
No entretanto, o Anjo que apareceu para Ela, apareceu com reluzimentos tais que a gente vê, pelo curso dos acontecimentos, que Ela tinha que ter certeza inteira que aquele era um Anjo e que era um Anjo de Deus.
Mas no primeiro contato, Ela teve uma certa preocupação. Tanto é que o Anjo disse: “Não temas”. Quer dizer, Ela temeu. E ele dissipou então a razão do temor e deu a explicação de como é que seria o plano todo de Deus. E depois pela resposta imediata d’Ela, dissipada uma certa preocupação, um certo temor. Preocupação e temor são palavras que aí se geminam a ponto de quase se identificarem. Depois desse temor e dessa preocupação, Ela então imediatamente dizer: “Eis a escrava do Senhor faça-se de mim segundo a vossa palavra”. E de tal maneira foi o que Ela respondeu que os teólogos todos são unânimes em dizer que aquele et Verbum caro factum est é feito para indicar que ato contínuo se deu a encarnação.
Mas vocês percebem como que o itinerário da confiança.
Ela está rezando, recolhida, num estado de alma muito bonito de muito elevado, muito nobre, muito santo, numa palavra, tão santo que por assim dizer Ela ouve no ar — isso agora é imaginação — asas batendo no ar e Ela não vê as asas e percebe que o ar está sendo batido por asas e percebe que há um ente ali, mas esse ente Ela não vê bem quem é nem como é. São as etapas da confiança. Em certo momento ele toma bastante claridade para falar com Ela, Ela fica vendo que ele existe ali, e ele se revela claramente como um Anjo. E Ela não duvida nem um pouco que ele seja um Anjo de Deus.
Depois ele dá para Ela a mensagem. Quando dá a mensagem vem a certeza plena e o ato de obediência.
(Sr. Paulo Henrique: Aí acaba a preocupação.)
Acaba a preocupação.
(Sr. Paulo Henrique: A fase primeira vem carregada com uma certa penumbra que…)
Que preocupa.
(Sr. Paulo Henrique: Até o momento em que o [transluzimento] se faz inteiramente claro.)
Exatamente.
* É próprio ao transluzimento, nos graus e modos em que se tem manifestado entre nós, a confiança está sujeita a uma preocupação em muitas circunstâncias, mas não se deve generalizar
(Sr. Paulo Henrique: A preocupação nesse caso é sadia.)
Sim, o Anjo não quis ser tão claro que excluísse essa preocupação.
(Sr. G. Larraín: A confiança está sempre sujeita a essa preocupação?)
Não, isso não. Não generalizemos.
Mas é o próprio desta via, nos graus e modos em que se tem manifestado até aqui entre nós, está própria a esta via sofrer esta preocupação em muitas circunstâncias. Daí ao generalizar é andar um pouco depressa.
* Aparentes contradições que fazem parte também do nosso caminho
Agora, uma coisa muito bonita aí é São José. Porque com São José pode-se dizer que o processo desta revelação foi diferente. Antes de tudo ele conheceu Nossa Senhora e viu a santidade, tudo de Nossa Senhora. E tudo leva a crer que ele não pensou em casar com Ela. Que antes de haver o tal milagre de florir o bastão, ele não pensou em casar com Ela. Mas quando o bastão floriu e que ele viu que isso significava que era ele que tinha que casar com Ela, a gente não percebe nele, na narração sobre o fato, a menor dúvida dele. Ele vai caminhando tranqüilamente com rumo para as núpcias sem dúvida nenhuma, reservando-se o fato de se manter casto. E sem pensar no Messias, porque ele fechava a porta para o Messias. E na realidade ele estava abrindo.
É muito bonito!
(Sr. P. Roberto: Cheio de aparentes contradições.)
Que fazem parte, meu filho, desse caminho.
(Sr. G. Larraín: Aí entra a preocupação.)
Preocupação.
(Sr. Guerreiro: E que as grande coisas o homem não pode colocar a ele realizando porque não sai. […])
Mas ele tranqüilo.
(Sr. Guerreiro: Mas isso […inaudível] com o senhor também é assim.)
Ah vira e mexe.
(Sr. Guerreiro: Haverá momentos em que o senhor está numa situação em que o senhor não terá para onde ir, e não vem um de nós inventar um caminho, achar que descobriu o caminho porque vai ser o caminho da desgraça. Temos que esperar.)
Isso.
(Sr. Guerreiro: Temos que esperar esse caminho aparecer para o senhor para depois então nós nos movermos.)
Ahahahaha!
* Era tão natural que Nossa Senhora falasse com S. José a respeito da Encarnação, que só uma proibição é que pode ter evitado que isso se desse
Agora, depois de ele conhecer a Nossa Senhora, apreciar, etc., com certeza eles combinaram de manter castidade. Eu dou isso como certo. Combinaram e então não vem o Messias e tudo está feito. Eles vão passar ao lado um do outro, se santificando um ao outro pelo exemplo, pelas palavras, mas o resto está feito. Quando o resto está feito, aparece o problema: primeiro em Nossa Senhora e depois nele. Nossa Senhora há de ter pensado: “Para esse Menino ser gerado em mim, José, meu esposo, tem que ver alguma coisa”.
Agora, deve ter vindo para Ela uma proibição de falar com ele. Porque era tão natural que Ela falasse com ele, que só uma proibição é que pode ter idéia que não tenha vindo. Porque Ela é esposa dele, ele tem o direito sobre Ela, ele vê esse direito dele transgredido e não tem direito à uma explicação? Ele tinha o direito a essa explicação.
(Sr. Guerreiro: E Ela como que tinha obrigação de dar essa explicação.)
Ela como que tinha obrigação de dar. Mas a Providência quis o mistério. E o mistério…
(Sr. G. Larraín: Aí é que é preocupação.)
* A perplexidade pela qual passou S. José por causa da Encarnação, e os transluzimentos que recebeu para esclarecê-lo
Mas é a preocupação por excelência. A preocupação da História é essa; a perplexidade. Porque ele não podia ter nenhuma dúvida, e todos nós estamos certos que ele não teve essa dúvida, mas é a partir do momento que não podia ter dúvida que começa o “x”. Como é que é isso? E por que é que é?
Vocês podem imaginar o que o demônio quis fazer para tentá-lo, etc. E o que Ela teve de vontade de falar com ele, mas que estava proibida e também não podia fazer. Deve ter sido uma coisa simplesmente tremenda.
Mas Deus queria d’Ela que Ela com toda calma caminhasse para esse absurdo: como é que ia nascer esse menino? E nessa ocasião o que Ela diria para São José? O que Ela diria para o público? Ela ia mentir dizendo que aquele Menino não era filho d’Ela?
(Sr. Paulo Henrique: Não havia jeito.)
Não havia jeito.
Bem, sai a saída maravilhosa. Mas ele de fora. Ele continuava a não saber. Daí vem o Anjo que o pega no momento em que ele pensava em fugir. Ele estava dormindo um pouco para se robustecer para a viagem e sair. E aparece o Anjo. Mas esse Anjo eu quereria imaginá-lo um velho meio gasto, meio rapado, etc., mas que começa a falar com ele e durante o falar se transforma e ele vai percebendo que de fato ele está falando com um Anjo de luz.
Então, primeiro passo é a perplexidade com Nossa Senhora. O segundo passo, aparece esse Anjo. Por que é que aparece a ele em sonho? Por que é que não aparece palpável?
(Cel. Poli: Como apareceu para Nossa Senhora.)
Como apareceu para Nossa Senhora. Não, havia de ser como um sonho. Mas o Anjo no sonho diz tudo para ele. Mas quer que ele arque com essas interrogações.
Por que é que isto não foi dito a ele por um Anjo diretamente? Por que é que não foi dito que é Nossa Senhora que falasse com ele?
Todas as perplexidades continuam em algum sentido. E ele tem que ir vendo essas perplexidade caírem gradualmente durante o convívio, a ponto de quando o Menino nasceu, ele não tinha mais perplexidade nenhuma. Mas aí você tem o exemplo da ambigüidade.
(Sr. G. Larraín: E como a via do senhor é muito essa.)
* Em matéria de transluzimento ambíguos, a vida do Senhor Doutor Plinio tem tanta coisa que nem se sabe o que dizer
Tem tanta coisa assim que a gente nem sabe o que dizer.
(Sr. G. Larraín: […] Quando o senhor narra isso, é de quem viveu isso continuamente.)
Continuamente. Tem coisas tremendas!
(Sr. Paulo Henrique: E senhor ama isso, o senhor exulta com isso.)
Exulto. Sofro! Mas exulto.
(Sr. Paulo Henrique: E onde o senhor hauri forças também para enfrentar os sofrimentos.)
Também e a enfrentar tranqüilamente.
(Sr. G. Larraín: Está muito tarde.)
Não, mas eu estou agüentando.
(Sr. Guerreiro: […] Há um momento em que a Providência, Ela mesma quer fazer tudo. […] E mostra sua soberania e seu império sobre tudo, mesmo sobre os mais santos, os mais elevados…)
É Ela… Ah, não tem dúvida.
(Sr. Guerreiro: E a condição para que Ela venha.)
Isso, exatamente.
* Tomando o conjunto da TFP, o fenômeno de transluzimento se dá de um modo coletivo
Agora, no conjunto — com isso eu termino — vocês verão que tomando o conjunto da TFP, continuamente esse fenômeno de transluzimento fica mais claro, fica menos claro, etc., continuamente, como um fenômeno coletivo. E esse fenômeno coletivo vai ficando mais claro, à medida que o conjunto enquanto conjunto vai correspondendo mais, e enquanto ele vai correspondendo menos vai ficando menos claro. Mas há um certo ponto além do qual Ela não consentiu que as coisas caiam. E aí, Ela, misericordiosamente, segura com a mão e diz para o demônio: “até lá não”. E o demônio saiu urrando: “não é justo!, onde é que se viu?” Aquelas porcarias asquerosas dele.
Mas este ponto é que me parece muito bonito e muito digno de atenção. Quer dizer, o conjunto que pede pela correspondência global de todos, todos se levantam juntos e caminham, ou todos ficam negligentes, etc., e não caminham. Mas esse fato tem muito de coletivo.
(Sr. G. Larraín: Pode haver pessoas melhores, mas que o conjunto é o conjunto, é mesmo.)
E tem um papel muito influente nisso.
(Sr. G. Larraín: […] Por mais díspares que sejam certas pessoas, certas circunstâncias, acaba…)
Acaba havendo um…
(Sr. G. Larraín: Que pesa para baixo ou para cima, mas não se descola.)
Não. É muito curioso. Não é? Isso se poderia ver no próximo sábado, se Deus quiser.
(Sr. P. Roberto: Está excelente.)
Agradeçamos a Nossa Senhora, não é?
(Cel. Poli: E a dona da casa.)
E a dona da casa.
Bom, vamos meus caros, que eu começo sentir que agora o sono está pesado, ouviu?
Há momentos…
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