Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 7/5/94 – Sábado – p. 13 de 13

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 7/5/94 — Sábado

Por causa dos pecados da época dos quais nós somos partícipes, nós todos temos uma certa rejeição em relação ao núcleo do SDP * Um temperamento muito cordial, onde o lado enérgico é a calma na luta, e o lado cordial é a calma no afeto * Existe uma completa doação minha à nossa missão no nosso relacionamento com os outros, de maneira que esse relacionamento faça ao bem todo bem que queremos, e ao mal todo o mal que queremos * Um enorme desapego que se manobra a si mesmo com vistas a um único amor * Para fazer justiça face ao SDP a nossa atitude normal teria que ser a de um entusiasmo comovido, mas o que há é a mais brutal, estúpida e malévola rejeição * A explicação do ódio em relação ao SDP é porque o sujeito ficou tão córneo para com todas as maravilhas da vocação que ele quer ser córneo por ódio e está acabado * Nós temos receio de que aumentando união de almas com o SDP, desapareça em nós o que há de homem de negócios * O querer ter um êxito custe o que custar tem criado oposições ao SDP, mas do outro mundo * Uma vez que se entrou na “asa delta”, é preciso manter um certo estado de espírito por onde se saiba voar

(…)

Pode gravar.

Mas eu digo uma coisa que será ou não será tema para a reunião conforme a graça que soprar, a apetência que der, etc.

* As três reuniões apertantes que o Senhor Doutor Plinio fez, foram reuniões muito bafejadas por uma graça peculiar e diferente do que é habitualmente a graça das reuniões

Mas eu acho que essas três reuniões que fizemos sobre essas matérias são reuniões muito bafejadas por uma graça peculiar e diferente do que é habitualmente a graça das reuniões. E o resultado é que de fato foram três reuniões muito sui generis e com uma certa repercussão no auditório.

Agora, eu tive a impressão — mas isso não repitam a ninguém fora do grupo. Pode gravar, mas não quero que repitam… se isto tem que ser passado fora do grupo, é melhor…

(Sr. Gonzalo: Fora do Grupo?)

Não, tem que ser passado fora daqui, deste grupo, é melhor então cortar.

(…)

o que é uma determinada graça. Mas depois essa graça passa e é substituída por outra, etc., até que venha a grande graça do grande dia. É o que parece.

* Uma graça que tem como velha base fixa, meio carcomida, mas assim mesmo de uma grande estabilidade, as velhas graças de outrora que não foram inteiramente correspondidas

Essa graça assim, esse sistema assim tem como soubassement, como embasamento fundamental, ela tem uma outra coisa que é o seguinte: essa graça tem como base uma velha base fixa, velha, meio carcomida, mas assim mesmo de uma grande estabilidade que são as velhas graças de outrora que não foram correspondidas e não foram inteiramente rejeitadas também e que dão uma espécie de base de asfalto por cima da qual se constrói outras coisas.

Esse é o sistema de graças que a Providência teve a misericórdia de permitir que continuassem vigendo entre nós, e que é preciso tomar em consideração para tratar do assunto que eu vou tratar agora.

* A Providência quis fechar a torneira que Ela generosamente abriu para um certo número de dias

Eu tive a impressão de que houve assim uma graça especial para essas reuniões, mas tive a impressão que hoje, na segunda parte da reunião, essa graça começou a recolher-se. De maneira tal que o entusiasmo era francamente menor no fim da reunião do que no começo.

Não sei se concordam comigo?

(Sr. Gonzalo: Totalmente. Visível.)

Visível. Mas que não se prendia… ao menos não se prendia necessariamente, eu não ousaria afirmar que se prende à uma falta de generosidade, mas é uma deliberação da Providência de neste ponto caminhar até aí e deixar parado para alguma outra coisa.

(Sr. Gonzalo: Não foi um fechamento de certos…)

Pode ter sido, eu não nego. Mas não notei. Pode ter sido, mas não notei. Eu acho que a Providência quis fechar a torneira que Ela generosamente abriu para um certo número de dias.

Por que isso?

Porque alguma coisa fica disso, como fica de outras graças mais ou menos transitórias que tem passado assim enquanto nós não nos emendamos.

* Nós devemos ser observadores muito escrupulosos dos fatos, e quando uma coisa se dá, reconhecê-la como é, descrevê-la e muitas vezes ficar na interrogação

Agora, mais do que isso eu não saberia dizer. Mas eu acho que nós, nessas coisas, devemos ser observadores muito escrupulosos dos fatos, e quando uma coisa se dá, reconhecê-la como é, descrevê-la e muitas vezes ficar na interrogação: no que é que isso dá, o que é que foi, o que é que não é, etc., etc. Pode ser que a la longue a gente chegue à conclusão que tenha havido fechamento. Pode ser. Poder ser também que à distância tenha havido bruxedos e coisas tais que a Providência permite que se exerça e conduzem a esse efeito. Aí compete-nos a nós ir analisando os fatos para ver que conclusão a gente tira, à espera, eu volto a dizer, do grande dia, etc.

Eu gostaria de fazer notar a vocês uma coisa que coincide com isso. Eu não quero dizer que é a mesma coisa, mas é a tal observação inexorável da realidade deve nos conduzir a isso que é a seguinte: também é verdade que uma certa tensão nacional e tensão internacional que existiam aqui, muito indicativa da possibilidade da Bagarre, passaram, pelo menos na aparência, por uma certa distensão…

(Cel. Poli: Mais aparência do que realidade.)

Não corramos. Parece mais aparência do que realidade. Vamos ver. Nós temos que ser muito cuidadosos nesse ponto. E o cuidado leva então a essa atitude de expectativa.

Por que razão é que eu não digo isso no auditório?

É porque o nervos das pessoas nem sempre agüentam isso, essas mudanças e essas coisas todas. Isso é misterioso e nós temos que tomar como é.

* “Basta pelo menos um olhar que já é muito”

O Amadeu me contou esse fato, ele até ficou emocionado. Que ele foi chegando à sede — ele ou alguém que viu e que contou para ele — do Praesto Sum, e vinham a pé dois enjolrinhas andando com muita pressa, sem correr propriamente, mas andando com muita pressa, e ao mesmo tempo na medida em que o fôlego permitia, conversando. E o tema da conversa acabava sendo este, que eles tinham tido um atraso por qualquer razão e que tinham o perigo de não pegar a reunião, e que eles queriam pegar pelo menos o fim da reunião. Então o corre-corre.

Mas então eles alternavam uma espécie de slogan para se animarem reciprocamente, e o slogan era esse: “basta pelo menos um olhar que já é muito”.

(Sr. P. Roberto: Senhor, eu acho que eles pegaram a parte melhor da reunião.)

Ahahahahaahah! Ahahahah!

(Sr. Gonzalo: Nós estávamos comentando em cima. Se o senhor pudesse tratar um pouquinho desse assunto depois.)

(Sr. P. Roberto: Sobre as três reuniões, o que é que a nosso ver faltaria para completar.)

Pois daqui a pouco eu ouço com muito gosto.

Mas o que eu quero dizer é o seguinte: há um certo fervor nisso, mas não é um fervor tão grande como parece à primeira vista. É uma espécie de revelação da graça, uma coisa muito sensível e que produz um efeito desse. Mas à medida que eles forem maturando vai se vendo que essa graça inicial não é bem como a gente imaginava. E que nem eles estão tão alto, nem também vão cair tão baixo. É um movimento muito singular da Providência e da graça quando a gente analisa essas coisas.

(Sr. Gonzalo: Mas se os enjolrinhas viessem lamentando: “é pena que perdemos o esquema”, teria menos significado do que a sensibilidade para o olhar.)

Teria.

(Sr. Gonzalo: Porque há algo de pessoal, de nexo de alma, que por aí pode começar outras coisas.)

É verdade.

(Sr. Gonzalo: E o caminho contrário é muito mais difícil.)

* A graça é que dá a entender por onde ela quer andar, e a nós nos compete humildemente ir fazendo o que ela indica

Isso é verdade, não tem dúvida.

Mas eu queria saber antes de vocês me falarem a respeito das três reuniões, eu queria saber o que é que lhes parece deste modo de ver a atual realidade.

(Sr. Paulo Henrique: Na conversa passada o senhor já levantou conosco um pouco isso. Achava que poderia fazer mais uma ou duas, três reuniões e teria que fazer uma certa interrupção com medo de haver um desgaste.)

Isso.

(Sr. Paulo Henrique: Então o senhor já tinha adiantado à essa disposição da Providência em fazer com que a coisa se interrompesse. Não sei se interpreto bem as palavras do senhor.)

Interpreta perfeitamente. E você veja a primeira parte da reunião de hoje, foi uma parte com muitos aplausos, etc., estava tudo muito bom, mas evidentemente eu estava tendo uma linguagem de aquecimento que não era tanto quanto a linguagem da reunião anterior. Era uma linguagem, se você quiser, de sobrevivência da graça antiga mais do que a coisa nova que estava entrando.

(Sr. P. Roberto: Logo de início.)

Logo de início.

E isso posto é no intervalo entre essa reunião e qualquer coisa que aconteça é que a graça vai dar a entender por onde ela quer andar, e a nós nos compete humildemente ir fazendo o que ela indica. Esse ponto me parece muito importante.

(Sr. Gonzalo: Há umas 4 reuniões aqui o senhor disse que nós nos tínhamos desviado do assunto das Conversa de Sábado à Noite.)

Isso é verdade.

(Sr. Gonzalo: E por uma graça muito grande de Nossa Senhora e da Senhora Dona Lucilia, Ela deu ocasião para que o senhor tratasse um assunto que estava propriamente no núcleo da Conversa de Sábado à Noite, que acaba sendo o relacionamento com o senhor e com ela, e um modo de ver o senhor, que foi o que alimentou durante muito tempo as reuniões e que davam sentido propriamente a união entre nós em função do senhor.)

(…)

Eu acho que está muito bem argumentado. Quer dizer, o exemplo serve muito para exprimir o pensamento. Mas agora eu preciso dar a resposta. E eu passo à resposta.

É o seguinte.

* Cada pessoa tem um núcleo por onde ela se exprime no que ela tem de mais fundo e que faz com que a gente estando de acordo com aquilo, ama-se e quer-se ser amigo

Existe em cada pessoa alguma coisa que é como que o núcleo da pessoa, aquilo por onde ela se identifica consigo mesma, ela se exprime no que ela tem de mais fundo, de mais ela mesma e que faz com que a gente estando de acordo com aquilo, ama-se e quer-se ser amigo. E não estando de acordo haverá boas disposições, haverá cordialidade, haverá gentileza, etc., mas não existe propriamente amizade.

Eu não sei se está claro a história.

Agora, o que é que existe de nós para comigo — para me exprimir dessa maneira — a esse respeito? É o problema, é o núcleo dessa questão.

Quer dizer o seguinte: como todo o mundo eu tenho alguma coisa que é o núcleo de minha personalidade. Esse núcleo aparece com muita facilidade porque é muito aparente, de maneira que é muito fácil a pessoa se deixar tocar, se deixar sensibilizar por esse núcleo de um modo positivo ou negativo. Quer dizer, gostando ou não gostando, querendo ou não querendo, portanto rejeitando. Mas é muito fácil.

* Por causa dos pecados da época dos quais nós somos partícipes, nós todos temos uma certa rejeição em relação ao núcleo do Senhor Doutor Plinio

Isto posto, por causa dos pecados da época dos quais nós somos partícipes, nós todos temos em relação a esse núcleo uma certa rejeição.

Agora, trata-se de fazer a descrição desse núcleo para ver se o fenômeno rejeição consegue ser controlado. Então nós entraríamos por aí agora.

Eu acho que se eu me visse com os olhos de um moderno, do lado de fora, quer dizer, não eu me vendo a mim mesmo de dentro de mim, ou me vendo como que num espelho, mas me vendo do lado de fora, como é que eu imagino que eu sou, visto do lado de fora?

Eu tenho impressão que eu devo ser visto de dois modos: um é o que eu sou e como eu sou, e o outro é como eu sou obrigado a acentuar que eu sou para compreenderem a minha missão. São duas coisas distintas.

Não sei se querem que exprima isso…

(Sr. Gonzalo: Seria bom se o senhor pudesse explicar, pelo menos para mim.)

Sim.

* Um temperamento muito cordial, onde o lado enérgico é a calma na luta, e o lado cordial é a calma no afeto

Quer dizer, o seguinte, por exemplo, eu sei que eu tenho um temperamento muito cordial e propenso a querer [bem] às pessoas. Mas isto é uma coisa. Outra coisa é uma certa amabilidade que é o reflexo externo disso, mas que a qual amabilidade eu tenho que dar um certo feitio para tratar como eu devo tratar as pessoas. E que, portanto, esse meu aspecto externo nunca é o contrário do meu aspecto interno, mas é o meu aspecto interno meio trabalhado, meio esculpido para produzir sobre os outros um efeito apostólico que acho que devo produzir.

Está bem isso ou não?

Essa pluralidade de aspectos se põem assim: eu tenho uma cordialidade muito grande, e as pessoas percebem que eu tenho muita facilidade em querer bem, em bem fazer, etc., que é uma coisa que facilmente acontece, mas percebem também que eu uso certas fórmulas e certos modos de ser anexos a isso e que são necessários para evitar que a maldade contemporânea abuse disso.

E duas coisas: por exemplo, eu sei também que por temperamento esse modo de ser cordial, etc., etc., é muito afim com o lado enérgico e que está numa mesma linha do lado enérgico. O lado enérgico é a calma na luta, e o lado cordial é a calma no afeto. No fundo, os senhores têm uma mesma calma fundamental que se manifesta com alguma coisa de acentuado no que diz respeito à luta e, ora como uma coisa acentuado no que diz respeito ao afeto.

* Existe uma completa doação minha à nossa missão no nosso relacionamento com os outros, de maneira que esse relacionamento faça ao bem todo bem que queremos, e ao mal todo o mal que queremos

E então por exemplo para com um filho que esteja particularmente provado ou tentado, etc., eu posso acentuar com toda sinceridade algum aspecto de meu modo de ser que vai socorrer a ele.

Agora, de outro lado, eu sei também que sendo preciso manter uma linha e desenvolver um ataque ou qualquer coisa, isto se desenvolve com a mesma calma, com o mesmo despliegue — vêem os nossos castelhanos se eu estou empregando bem a palavra —, o mesmo déploiement se faz sentir a força. E então vai e vai até o fim e vai mesmo.

E que no fim de tudo isto existe uma completa doação minha à nossa missão no nosso relacionamento com os outros, de maneira que esse relacionamento faça ao bem todo bem que queremos, e ao mal todo o mal que queremos também. Isso seria o modo de ser.

* Um enorme desapego que se manobra a si mesmo com vistas a um único amor

No fundo disso existe ao lado dessa manifestação de cordialidade, etc., uma — me perdoem de dizer, mas isso tem que ser dito, ou é dito como é ou não vale a pena dizer nada — tem um enorme desapego; um enorme desapego que se manobra a si mesmo com vistas a um único amor que é de fazer amar a minha personalidade, e através de minha personalidade a Nosso Senhor Jesus Cristo do qual eu sou um discípulo, a Nossa Senhora da qual eu sou discípulo e filho, amar de um certo modo, de um certo jeito, e para um determinado efeito. E não se encontra outra coisa. Pode-se procurar em mim outros aspectos, outras coisas, não se encontra.

Portanto, vamos dizer, vaidade. A pessoa se envaidecer. Eu estou percebendo, eu tenho toda consciência de que eu estou fazendo uma descrição psicológica primorosa, tenho certeza plena de que essa descrição psicológica nos dias de hoje, vocês contam com os dedos da mão as pessoas que fazem, porque não são capazes de fazer. Não se conhecem, mas não é só não se conhecem, não conhecem nada em ninguém com esses termos e com esses modos… assim não conhecem nada em ninguém. Não adianta perder tempo em insistir nesse pensamento.

* Para fazer justiça face ao Senhor Doutor Plinio a nossa atitude normal teria que ser a de um entusiasmo comovido, mas o que há é a mais brutal, estúpida e malévola rejeição

E sei que é, portanto, uma coisa a qual se quiserem fazer justiça a atitude normal é de um entusiasmo comovido. Mas eu não tenho a menor dificuldade em ver que isto é respondido do modo que vocês sabem, e que, portanto, é rejeitado, e rejeitado do modo mais brutal, mais estúpido, mais malévolo, com uma vontade de me amarrar na coluna da flagelação e me açoitar a mais não poder.

(Sr. P. Roberto: Satânico.)

Satânico. E que se pudessem fariam isso comigo, e que em toda medida do que podem fazem. Isto é assim.

E eu me lembro de várias circunstâncias em que pessoas me disseram, ou fizeram coisas, que dariam ocasião a um outro qualquer a um acesso de furor, de dizer: “mas o que é que você pensa? O que é que você acha? Meu rapaz vem cá, você está pensando o que de si mesmo? Venha cá, venha se comparar comigo”.

Você sabe bem que essa história “venha cá, venha se comparar comigo” daria em ódio e em tudo que vocês sabem. Mas era uma reação que muita gente teria. Mas muita gente teria, e que eu não tenho a menor dificuldade em não ter. Eu poderia contar coisas desse gênero nem sei de que tamanho.

(Cel. Poli: Nós estamos vendo a toda hora.)

É, eu acho que estão vendo a toda hora.

Isto tudo representa, como eu estava dizendo, um desapego enorme, e um só dar-me à Causa. Agora, essa Causa é o tal enquanto tal. De maneira que ainda que o tal enquanto tal faça o que o tal enquanto tal fez…

(…)

Propriamente a solução que é dada a essas reuniões — esse é o caminho — a explicação do ódio é essa, mas vocês estão vendo que eu não posso… é inteiramente impossível.

(Sr. P. Roberto: Porque tem gente dominada por esse…)

Completamente.

* A explicação do ódio em relação ao Senhor Doutor Plinio é porque o sujeito ficou tão córneo para com todas as maravilhas da vocação que ele quer ser córneo por ódio e está acabado

Então, propriamente o ódio é este, a explicação do ódio é essa, a explicação da mentira, da mediocridade é porque o sujeito ficou tão córneo para com todas essas maravilhas que ele quer ser córneo por ódio e está acabado. Não tem conversa. E pronto.

(Sr. Gonzalo: Tem gente que quer exercitar esse ódio na presença do senhor.)

Sim, quer exercitar.

E que é assim, não tem outra coisa para fazer.

(Sr. Gonzalo: Esclarece e dá a saída para o problema.)

Agora, conosco, o que é que há conosco que estamos aqui nessa sala? Três, quatro filhos, sete filhos que estão nessa sala aqui comigo. Acontece que neles existe um certo lado de Claude Lorrain por onde ficariam mais do que decepcionados de que em mim não houvesse nada do Claude Lorrain, e isto porque neles há alguma coisa do Claude Lorrain que não morreu e que se rejubila de encontrar uma espécie de plenitude de si mesmo num outro. Têm uma alegria especial com isso.

Então este é um dado da questão.

* Nós temos receio de que aumentando união de almas com o Senhor Doutor Plinio, desapareça em nós o que há de homem de negócios

Agora, outro dado da questão é que nós que somos assim deveríamos com toda desenvoltura aumentar isso. Mas nós temos receio de aumentando isso, fazer desaparecer em nós o que há de homem de negócios de Los Angeles, de Nova York, do que queiram.

(Cel. Poli: “Hollywood”.)

Hollywood é mais o cinema. Mas Nova York, o businesman de Nova York. Então que sobe ao vigésimo oitavo andar de um prédio, depois desce até o quinto andar de porão do mesmo prédio para, por uma rua subterrânea, em automóvel, de uns automóveis que nunca vêem a luz do dia, vivem só no subterrâneo, de automóvel atravessar por debaixo do rio Hudson e aparecer em tal coisa, em tal outra coisa, e tomar uma deliberação. Isso então é formidável, porque isto é eficiente, é colossal, etc.

Córneo!

(Sr. Paulo Henrique: É uma monstruosidade, mas enfim…)

O que é que você disse, meu Paulo Henrique?

(Sr. Paulo Henrique: É uma monstruosidade esse estado de espírito, mas existe em nós.)

* O querer ter um êxito custe o que custar tem criado oposições ao Senhor Doutor Plinio, mas do outro mundo

Existe e instalou-se, hein. Porque é preciso não perder isso de vista. Depois, de outro lado, é o êxito. Querer ter um êxito custe o que custar. Ter um êxito custe o que custar, desde cinematografista até comandante de esquadra ou qualquer outra coisa do gênero. Ter êxito. Então do píncaro do êxito contemplar as suas próprias forças e dizer: “que colosso!”.

Mas “que colosso” às vezes é simplesmente no seguinte: o sujeito conseguiu montar o maior salão de engraxate da cidade. Então é um tipo formidável, ele montou o salão de engraxate. O que é que você quer de maior do que isso?

Bem, esses êxitos, essas situações, criam condições do arco-da-velha, e oposições a mim do outro mundo. Porque para todos esses eu sou um atrapalhador porque eu crio por debaixo do rio Hudson e da estrada que existe por debaixo do rio Hudson, eu crio, iluminado a la Claude Lorrain, eu crio um palácio.

Então como é que é? Como é que fica essa coisa? E daí para fora. A coisa vai daí para fora.

(Sr. Gonzalo: Muito sério e muito sagrado.)

Tremendamente sagrado.

(Sr. Gonzalo: Muito, muito sagrado.)

Tremendamente sagrado.

* Para adquirir a união de almas com o Senhor Doutor Plinio, nós devemos combater a mentalidade do homem de negócios que há em nós

Agora, o que é que nós deveríamos fazer?

É combater: “Eu renuncio ao homem de negócios, eu renuncio a tal outra coisa e tal outra e vou ser modestamente aquilo que me é indispensável para não ser um trapo, para ser um homem que vive, mas quanto ao mais eu vou viver no Claude Lorrain e não permito que me seja atrapalhada a contemplação daqueles muros leprosos nem daqueles navios inexistentes”.

É uma batalha. E está acabado.

(Sr. Gonzalo: A gente vê que o Thau é isso.)

A vente vê que o Thau é isso.

(Sr. Gonzalo: […inaudível] Thau é a tendência para esse maravilhoso que o senhor representa.)

Isso.

(Sr. Gonzalo: A [carência?] do Thau também são para o [porão?].)

É para o [porão?].

Agora, aí vem o ódio, vem… vem todas as coisas que a gente pode imaginar.

(Dr. Edwaldo: É a oposição entre o Céu e a possessão.)

Como é, meu filho?

(Dr. Edwaldo: É uma oposição entre o Céu, de um lado, e a possessão, de outro.)

É, no fundo é.

O que é que há meu Paulo Henrique.

Diga, meu filho.

* Onde faltam as asas é necessário construir pontes para o homem poder passar a pé e ter certeza que não cai no abismo, mas o melhor é ter asa do que ter as pontes

(Sr. Guerreiro: A propósito das duas imagens que o senhor usava agora à noite dos muros de Claude Lorrain e dos navios inexistentes e toda aquela arte de compor um mundo que no fundo Deus deseja para a formação das almas, e de outro lado a lógica, a gente vê que dentro dessa problemática a lógica faz papel de umas muletas… onde faltam as asas é necessário construir pontes para o homem poder passar a pé e ter certeza que não cai no abismo. Mas o melhor é ter asa do que ter as pontes.)

Ora! Nem tem dúvida!

(Sr. Guerreiro: A ponte é necessária para o homem não ficar com a sensação de que está pisando no…)

No vácuo. Mas é isso.

(Sr. Guerreiro: Mas o melhor é ter as asas realmente.)

É tão evidente, não é?

(Sr. Guerreiro: E aí é que entra aqueles problemas que o senhor comentava na semana passada que nós brasileiros achamos que na Europa certas coisa podem ser realizadas, mas que no Brasil essas coisas não cabem. Esta medida […inaudível] por onde se quer colocar tudo sob esse crivo e é como querem analisar ao senhor e a TFP. Não desejando e não achando possível que possa se romper certos limites.)

É exatamente isto.

(Sr. Guerreiro: De modo que sempre que o senhor puder romper os limites conosco… que a Senhora Dona Lucilia nos dê as asas e as graças para acompanharmos o senhor. […] A gente vê que o grande [continente?] do senhor são esses mundos dos impossíveis.)

É isso. É tal e qual isso.

(Sr. Guerreiro: De modo que o senhor nos fale cada vez mais desse mundo, porque nos ajuda a sairmos da mediocridade.)

* O flash da vocação e as asas do jaburu

E sair da mediocridade batendo as asas.

Eu não sei se vocês conhecem — já falamos sobre isso em determinado momento — um pássaro que me dizem que é muito feio, mas que tem um formato de asas lindo, um pássaro brasileiro chamado jaburu. Vocês conhecem jaburu?

(Sr. Guerreiro: O senhor nos mostrou aqui numa ocasião.)

É uma verdadeira beleza. E dizem que o Jaburu levantar vôo e ser pôr voando é lindo. Mas que ele tem uma coisa aqui que é feíssima. Seria mais ou menos como o tucano com aquele nariz hipertrofiado, mas de outro lado aquela nariganga é transparente e é uma caixa que guarda o sol e com o qual o tucano viaja.

Há qualquer coisa em nós por onde nós deveríamos ser admiradores do jaburu naquilo que na aparência as asas do jaburu tem de inútil, tem de exageradamente grandes, mas que levantam vôo e que lá vai, e que lá vai. Aquilo era propriamente o bonito.

* Uma procissão em que transparece uma nação jaburu, o que é que é o “déployer” das asas e o aparecimento da sublimidade

Eu creio que já li aqui para vocês numa noite, ou vocês leram para ouvirmos, uma revistinha francesa de 1912 dando duas notícias em anos consecutivos da festa de Corpus Christi em Viena, d’Áustria.

(Sr. Gonzalo: Não foi conosco não, foi no almoço ou num EVP.)

O EVP?

(Sr. Gonzalo: Ou num almoço o Sr. Andreas leu para o senhor.)

É, se vocês pudessem — eu acho que esse negócio está com o Andreas — se vocês pudessem pedir para o Andreas para lerem aqui e comentarmos, vocês veriam o que é uma nação jaburu, o que é que é o déployer das asas, o aparecimento da sublimidade, e por que é que Clemenceau quando a Áustria foi dissolvida e a monarquia dos Habsburgs foi jogada no chão, disse: “o fim da guerra mundial está obtido”.

(Sr. Gonzalo: E a razão pela qual o senhor tanto defendeu a Áustria.)

Foi. E defendo mais do que todos austríacos.

(Sr. Gonzalo: E também a razão pela qual o senhor defende e defendeu tanto a França também.)

Também.

(Sr. Gonzalo: Por esses “lumens” que eles são capazes de dar e que são só eles também.)

Pois é.

(Sr. Gonzalo: É por uma luz que irradiam.)

Exatamente.

* França: um jaburu que vendeu as asas

Para vocês verem a França. Eu recebi a notícia mandada pelo João L. Vidigal se não me engano, de que houve uma exposição de matérias produzidas pelas senhoras da nobreza de possibilidades econômicas médias para vender por preço muito barato para as senhoras nobres empobrecidas, ou para vender para outras pessoas e dar o dinheiro para as pessoas empobrecidas da nobreza. Uma coisa muito bonita.

Foi possível conseguir colocar o nosso livro à venda lá. Você sabe quantos exemplares vendeu?

(Cel. Poli: Um.)

Um! Vocês estão vendo que é um jaburu que vendeu as asas.

(Dr. Edwaldo: E talvez o comprador não fosse nobre.)

Provavelmente não era nobre. [vira a fita]

Agora, o problema é: isto posto, vocês individualmente o que é que devem fazer à vista disso?

(…)

* Nós deveríamos saber ver o que os contra-revolucionários têm de não papo-feio e prezar, admirar e querer bem no sentido próprio da palavra, ou seja: ver, gostar e conviver

Então o que é que nós fazemos e o que é que fazem os outros?

Nós, no contato com os contra-revolucionários deveríamos saber ver o que eles têm de não papo-feio e prezar, admirar, querer bem, mas querer bem no sentido próprio da palavra, quer dizer, ver, gostar e conviver.

E com isso criar, se quiserem, uma coleção de jaburus onde a gente sabe que está tendo um olhar seletivo em relação aos jaburus, que não está procurando olhar científico, que vale para outros efeitos.

Eu uma fez fui àquele nosso defunto êremo do Rio de Janeiro, onde tinha — era um êremo… Do Paulo Eugênio, lembra-se?

(Sr. P. Roberto: Sim.)

E ali eu vi uma coisa que pode ser que haja em São Paulo, e que eu muito ocupado não tenha visto, mas que ali havia em quantidade, muito, muitos homens fazendo uma espécie de planing com uma história para voar, como é que chama aquilo?

(Cel. Poli: Asa delta.)

Asa delta. Bem, então asa delta.

Voando sobre o Rio de Janeiro. Então havia o macio e o fresco do ar, o vento que percorria o ar e que fazia com que o homem embarcado ali tivesse respirações cutâneas de felicidade e de bem-estar únicas, uma ilusão de segurança formidável, ele de fato imóvel, porque ele sabia que se movendo, para tocar um besouro que tivesse batido na ponta do pé dele, ele estava morto, mas ele queria ter a ilusão da estabilidade, então deitado sobre o ar e o vento levando, mas de tal maneira que ele percorria em minutos distâncias assombrosas. E a gente olhava mais de perto, quando eles desciam mais, era cada tabelião, com cada pelão de fora, com cada obesidade que era quase um insulto procurar voar. A gente diria que certas pessoas não têm o direito de voar.

Eu não sei se chegaram a ter a mesma impressão que eu desses asas deltas. Eu vejo que não, que estão…

(Sr. Gonzalo: Eu nunca vi de perto. Mas sem dúvida é como o senhor disse.)

É, é assim.

* Uma vez que se entrou na “asa delta”, é preciso manter um certo estado de espírito por onde se saiba voar

Está bem, mas no total, uma vez que o sujeito entrou na asa delta, se ele for começar a olhar para a ponta do próprio pé e pensar que ele tem que aparar as unhas quando chegar em casa, cai a asa delta. É preciso manter um certo estado de espírito por onde ele saiba voar. E esse estado de espírito nós temos que saber manter.

(Dr. Edwaldo: São Pedro sobre as ondas.)

São Pedro sobre as ondas. São Pedro sobre as ondas.

(Sr. Guerreiro: Esse estado de espírito que o senhor falou é impressionante, porque eu já li alguma coisa sobre o assunto e é assim mesmo. Se a pessoa não tiver esse estado de espírito, ela […inaudível].)

Não é? E cai.

(Sr. Guerreiro: As manobras ficam difíceis.)

É uma…

(Sr. Guerreiro: O senhor definiu bem a questão, é um estado de espírito.)

É um estado de espírito.

(Sr. Guerreiro: Para o qual a lógica é necessária, mas só com a lógica a pessoa não tem.)

Não, só com a lógica não tem.



(Sr. Guerreiro: É preciso ver isso em alguém para poder haurir esse estado de espírito.)

Isso. Mas eu acredito inclusive que tendo esse estado de espírito a pessoa fique mais leve, hein!

(Sr. P. Roberto: Até o tabelião pode adquirir um pouquinho dessa…)

Até o tabelião pode adquirir um pouco dessa leveza.

A gente vê, enfim, vê tanta coisa, vê tanta coisa quando se põe a falar a respeito disso, como eu nem sei.

(Sr. P. Roberto: Mas gostaríamos que o senhor continuasse falando…)

(Sr. Guerreiro: Em outras noites.)

Que horas são?

(Sr. Gonzalo: Três e dez.)

(Dr. Edwaldo: Esse estado de espírito não pode admitir dúvida, não é?)

Não.

(Dr. Edwaldo: Porque senão quebra tudo.)

Quebra tudo.

* Ou o estado de espírito próprio à vida interna da TFP se baseia em evidências, ou ele se pulveriza

E depois tem o seguinte, ou esse estado de espírito se baseia em evidências que não tem o ar de evidência, mas que são evidências, ou esse estado de espírito se pulveriza.

Bem, isso nos indica o seguinte: por onde o vôo do jaburu pode continuar. As graças que completariam essa reunião numa viagem que os outros não farão, provavelmente, essas graças como são?

Agora, eu pergunto, passar esta fita para eles no plenário que efeito faria?

Eu creio que é prematuro. Em primeiro lugar porque eles ficariam chocados de não terem estado aqui nessa ocasião. Porque dá para isso, não é?

Por que é que eu não fui lá? Por que é que não me chamaram? Está vendo, é assim, cada vez que tem uma coisa bonita para ver, etc., eu fico de fora.

E daí para fora. Tem coisa de todo tamanho e nem vale a pena nem perder tempo cuidando do caso. Mas é assim.

Então a gente deve fazer a pergunta seguinte: como passar da reunião de hoje à tarde, com o que ela tem de decadente para alguma coisa que é a asa delta quando sopra um vento inesperado e ele ruma para outro lado?

Eu acho que podemos descansar.

Então, meu caros.

(…)

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