Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 24/4/94 – Sábado – p. 18 de 18

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 24/4/94 — Sábado

O que dá valor à SDL, toda “leistung” que tem dentro dela, é o sofrimento, a dor, a incompreensão e a ingratidão que cercaram a vida dela * A aceitação corajosa do infortúnio precisa começar a fazer parte de nossa vida porque, do contrário, de repente o infortúnio que nós expulsamos volta e volta em forma pior * As cartas da SDL são um verdadeiro monumento de coragem de agüentar a vida com os seus tédios e saber fruir as coisas boas que Deus manda na vida * Uma alegria inocente, uma satisfação que era a aceitação leal e forte dos infortúnios e dos regalos que Deus concede * A “Bagarre” está batendo às portas e nós estamos vendo que nós fazíamos dela um mito; o qual serviu muito para nós não sermos menos ainda do que somos, mas é muito pouca coisa * Agüentar o sofrimento é ser homem na perspectiva real da “Bagarre”, e agüentá-la como Nosso Senhor agüentou o padecimento no Horto da Oliveiras * A “Bagarre” está se delineando como uma perfeita incógnita, e a gente tem que ir se preparando para a incógnita pedindo forças e humildade, e sendo forte na humildade na hora da “Bagarre”

(Sr. Gonzalo: […] Ou Nossa Senhora dá uma resposta na linha de contado de alma a alma contra o demônio nessa clave, e que que é uma matriz para o Reino de Maria de relacionamento, de benquerença, sobretudo, que é uma coisa muito tocante. Porque o auditório todo chorava ontem a mais não poder, porque era uma coisa tocante.)

Tocante.

* Se os membros do Grupo se deixassem embeber pela atmosfera criada pelo Senhor Doutor Plinio e pela Senhora Dona Lucilia, muitos demônios fugiriam

(Sr. Gonzalo: […] Queríamos ver se o senhor não poderia tratar dela enquanto sendo a fina ponta da misericórdia de Nossa Senhora e tocando tão profundamente às almas. […] Acho que se os membros do Grupo se deixassem embeber por essa atmosfera que o senhor e ela criam, acho que muitos demônios…)

Fugiriam.

Eu creio bem que sim. Agora, tem um aspecto dela que a gente deve considerar muito porque é um aspecto de cuja consideração os homens fogem tanto quanto podem, e é preciso a gente ter sempre em vista.

Se ela tivesse sido uma pessoa humanamente feliz, ela poderia ter tido todos os méritos que teve, mas ela não seria senão a raiz quadrada do que ela foi. Por exemplo, o bem querer dela, por exemplo, se fosse correspondido por todas as pessoas de acordo com o que seria natural, seria proporcionado, também não seria a coisa do grande valor que teve, mas o mérito estava em grande parte no que havia de cruz nisso.

Como, por exemplo, na devoção ao Sagrado Coração de Jesus as palavra com que Ele se apresentou à Santa Margarida mais lembradas foram essas: “eis aqui Aquele coração que tanto amou os homens e por eles foi tão pouco amado”. Quer dizer, a desventura, o insucesso, a dor, seriam…

Se fosse o seguinte: “eis o Coração que tanto amou os homens, os quais tão perfeitamente Lhe corresponderam”, não seria o que foi.

* O que dá valor à Senhora Dona Lucilia, toda “leistung” que tem dentro dela, é o sofrimento, a dor, a incompreensão e a ingratidão que cercaram a vida dela

E para ela, o que dá valor a tudo que ela deu, a toda leistung que tem dentro dela, é o sofrimento, a dor, a incompreensão, a ingratidão, que cercaram a vida dela. Se não fosse isso ela não seria quem foi.

* Nós temos que compreender que ter a dor é um elemento integrante do Reino de Maria

E, portanto, nós temos que compreender que ter a dor é um elemento integrante do Reino de Maria; e nós não podemos pensar que o Reino de Maria é a festa da abolição dos escravos, 13 de maio, e que todo o mundo sai da História. Mas seria uma decepção tremenda que a Cruz de Cristo não estivesse presente. Eu acho isto fundamental.

Mas eu tenho impressão de que nada teria valor se não fosse esse dado. De maneira que eu tratei de várias coisas, etc., mas foi só depois vendo o nosso pessoal ver a vida dela, é que eu percebi que esse fator dor não sendo muito realçado, as pessoas escapam por debaixo do tapete. Por quê? Porque a dor é o que não querem saber, não lhes interessa a dor.

(Cel. Poli: E é a vida do senhor.)

Bom, e na minha vida farão todo possível para esquecer a dor. Se não for para esquecer a dor, eles não quererão a minha vida. E isso não está direito. Esse ponto não sei se é um ponto que vale a pena realçar devidamente, ou como é que é.

(Cel. Poli: Fundamentalmente.)

O que seria a vida de mamãe se não fosse a dor? Como seria pouca coisa mamãe se não fosse a dor. Nós podíamos entrar um pouco mais a fundo, se quiserem.

Tomando em conta o quê? O que é que se chama aí a dor? São tantas as formas de dor, tais as formas de dor, e a Providência escolhe dores tão variadas e tão adequadas para cada pessoa, tão “sublimificadoras” para cada pessoa, que a gente não sabe verdadeiramente por onde começar e por onde tocar a coisa. Era talvez mais prático a gente começar por tomar a idéia da felicidade na vida para depois tomar a idéia na dor, porque do contrário nem a coisa pega bem.

* Concepção revolucionária a respeito da vida

O que é que é a idéia que nós todos aprendemos em pequeno a respeito da vida?

É que o normal da vida é ser feliz, e que vale a pena viver muito ou porque a morte é uma coisa horrível, então para fugir da morte e para fugir daquilo que em geral precede a morte, e prepara a morte que é a doença: as prolongadas doenças, as deficiências físicas, as conseqüências morais das deficiências físicas, etc.

Ou então a gente não compreende bem o conjunto da vida como é. Porque a gente tem a seguinte idéia: que o normal da vida é ser feliz, e ser feliz é ter uma vida como os nossos pais e os nossos maiores teriam considerado que a vida seria boa.

A gente tem na família sempre uns que são os prediletos da felicidade, nem sempre são os prediletos de Deus, mas são os prediletos da felicidade. E então seria uma espécie de arquétipos que a pessoa toma não como padrões morais — o lado moral quase que não entra dentro dessas considerações sobre a dor e sobre as outras coisas —, mas é como arquétipo daqueles que têm a vida como a vida devia ser, e que tratam as coisas da vida de maneira a produzir a forma de felicidade que a gente acha que ela deve produzir, e que apetece à gente.

Então vamos dizer, uns gostam da grande vida. Então a vida muito rica, muito farta, e muito prestigiosa, muito admirada, portanto, em que nada traz preocupações. Se se tem uma grande fortuna, ela é estável e fácil de gerir. Se se tem uma grande inteligência, ela é fácil de fazer luzir e fácil de utilizar para as várias finalidades com que uma grande inteligência pode ser utilizada. Se se tem qualquer coisa assim, a gente sonha com aquilo grande e fácil.

Então, grande, fácil, sem doenças e sem preocupações, é a vida. A gente vai viajar, a gente se dá com as relações que quer, evita as relações que não quer, diverte-se no que a gente deseja, evita o que não deseja, e satisfaz os caprichos. Isso que é a felicidade.

* Um “modus vivendi” que não proporciona à pessoa a forma de beleza e de mérito da vida da Senhora Dona Lucilia

Uma pessoa assim nesse gênero, uma pessoa que desenvolve normalmente em si um egoísmo prodigioso, porque se tem tudo quanto quer, etc., antes de tudo é muito pouco sedenta de amizade. Ela não tem amigos, ela não quer amigos — pode querer ter relações sociais, é outra questão — e não é amiga de ninguém, porque como ela tem tudo, tudo a cerca, o que é que vai fazer o amigo dentro disso? Depois os amigos vêm com fluência, com facilidade junto às pessoas que são assim. De maneira que elas nem precisam se preocupar em ter amigos, em conservar amigos, nem nada. Isso é um fenômeno fácil e espontâneo como a imantação, por exemplo. O sujeito atrai os que quer, repele os que não quer e a vida toca para frente.

Um lugar que dá uma idéia disso é o hotel Ritz em Paris. Os quartos comodíssimos, espaçosos, com móveis grandes demais, de maneira que atravanca um pouco, com umas janelas que são telhados de prédios vizinhos muito próximas da janela da gente, de maneira que fica uma idéia que um ladrão pode pular daquele teto para dentro do quarto da gente, e sabendo que é um quarto do hotel Ritz, vem logo a idéia da grande fortuna, de poder, portanto, roubar alguma coisa e pular pelo teto e sair. Mas a gente vê isso, são pequenas sombras. A gente vai fecha a veneziana com cuidado, deixa aberto o vidro porque a gente ainda que com risco de ser roubado a gente quer ter ar livre à vontade, então deixa aberto o vidro, mas fechada a veneziana. Põe na cabeceira um revólver que ficará perpetuamente inútil porque aquele sujeito é dos felizes a quem nem ninguém rouba. Pelo contrário, o ladrão na hora de fugir pode deixar cair no chão as jóias que ele roubou de outro.

Mas é assim! É terrível.

E como eu digo, móveis excelentes, criadagem atenta a mais não poder — desde que logo na entrada a gente dê uma gorjeta grossa, e que eles compreendam que o resto é nesse estilo — criadagem atenciosa a mais não poder, tapetes grossos assim nos corredores, dentro do quarto da gente. O banheiro tem torneiras que exagerando fabulosamente poderia ficar bem em Versailles. E daí todo o resto.

Isto não faz a pessoa que tenha a forma de beleza e de mérito da vida de mamãe. Agora, também se mamãe tivesse tudo isso, ela não seria quem foi.

* É preciso compreender bem o seguinte: amarrada bem nas costas da gente, e a gente amarrada nela pelos liames da vontade, a gente deve querer ter a Cruz de Cristo

Quer dizer, é preciso compreender bem o seguinte: amarrada bem nas costas da gente, e a gente amarrada nela pelos liames da vontade, a gente deve querer ter a Cruz de Cristo e compreender que isto vem assim e que não é um azar ter acontecido isso, mas que isto é o que deve ser, o normal é isto, e daqui por diante vamos considerar o que acontecer de infortúnios como coisa normal. Se não for isso não se é nada.

Eu não sei se pareço muito radical no que estou dizendo…

(Sr. P. Roberto: Mas é necessário.)

Eu acho que é indispensável. Indispensável.

Então quando vem um infortúnio por cima da gente, a gente toma aquilo como aconteceu o que era natural que acontecesse. E até é um presente de Deus, e eu vou aceitar e está acabado. E não é uma coisa de se não saber o que dizer. É o primeiro passo.

* Analisando a Duquesa de Nemours: ela frui sua felicidade de situação mais ou menos como a corola de uma flor poderia estar fruindo o perfume de si mesma

Para comentar assim ao sabor do imprevisto as coisas, vocês podem tomar aquela Duquesa de Nemours que é bisavó — é preciso acender a luz se quiserem ver bem — ou trisavó de D. Pedro Henrique. Era casada com um filho — o Duque de Nemours — de Luis Felipe. Vocês olham lá, é uma alemãzona daquelas nutridas, saúde de vender, carona contentona, vestida com uma seda muito bonita. Eu comprei aquele quadro por causa da seda. Porque tem um reflexo de seda que é extraordinário. É uma coisa colossal.

Eu acho aquilo uma… Eu sei que é uma gravura muito boa, e ainda outro dia quem estava elogiando a gravura é o Mario Navarro, é uma gravura de primeira ordem. Mas eu queria não era isso, é que analisassem a mulher. É uma mulher completamente sem sofrimento. Aconteceu-lhe tudo quanto ela queria, e ela está satisfeita fruindo aquela felicidade de situação mais ou menos como uma corola de uma flor poderia estar fruindo o perfume de si mesma. No meio das suas pétalas, de suas belezas, ela cheirar-se a si própria inebriada. Assim essa Duquesa de Nemours está.

Poderia dizer: mas era uma princesa deposta, o sogro dela é um rei exilado.

É verdade, mas o pai dela é um príncipe de um dos pequenos principados alemães, muito rico, protestante a mais não poder, mas oferecendo vantagens de toda ordem. E sobretudo o que tem, é que o Luis Felipe é riquíssimo. Ele é tão, tão rico que com o dinheiro que ele levou nos bolsos, da França, quando foi exilado, foi preciso fundar um Banco, porque não havia meio de tocar essa fortuna que estava fora da França e ele não queria deixar nas mãos dos republicanos, estava fora da França, portanto. Mas grandes castelos na Inglaterra, com parques, com não sei mais o quê, grande nome, grande situação, um homem muito feliz. Agora, essa pessoa não valia nada… uma pessoa que levasse uma vida assim, uma pessoa como essa, não valia nada.

O que é que valia verdadeiramente?

* A vida de Carlos X num castelo italiano que lhe foi cedido pelo imperador da Áustria

É o Carlos X, o deposto, que saiu também com muito dinheiro, mas um dinheiro que ele não sabia gastar, ele não era um homem de boa companhia, nem era um homem alegre, ele vivia nos esplendores enviuvados de uma fortuna, sem amigos, sem… ele é sem graça, não se procurava por ele. E morando na Inglaterra. Depois o imperador da Áustria pôs à disposição dele um castelo lindo, o Goritz, da Itália, que é um castelo lindo, e que ele pôs à disposição do outro. Mas ele vivia sozinho com o neto que seria o herdeiro dele, e de outro lado um Duque de Lévis-Mirepoix que nunca o abandonou e que alguns diziam que era uma espécie de espia de alguma camarilha de legitimistas ou de “Luisfilipar” que estava posto para controlá-lo.

Passavam-se os dias, as noites, etc., acabava o jantar, sozinho ele, o Lévis-Mirepoix não tinha direito de jantar na mesa dele porque não era de sangue real, então vinha jantado assistir o jantar dele. Em pé, o tempo inteiro conversando com ele. Acabado o jantar, os dois velhotes passavam para o salão enorme, muito luxuoso, e lá conversavam o tempo que Carlos X quisesse.

Carlos X com o decurso do tempo caía no sono. Quando ele tivesse acabado de dormir, ele se levantava:

Bon, Lévis, allons nous coucher. Bon soir. Tan-tan-tan, ouve-se os passos dele no corredor, entrava no quarto, se trancava, solidão absoluta até o dia seguinte.

Bem, nisso existe a cruz. Nisso existe.

* Nós não entramos no Grupo com a deliberação de carregar a cruz, mas sim com a deliberação de, se a cruz se nos apresentasse, fazermos todo o possível para nos livrar dela

A cruz conosco. Se nós tivéssemos querido carregá-la, mas a questão é que nós não entramos no Grupo com a deliberação de carregar a cruz, nós entramos no Grupo com a deliberação de se a cruz se nos apresentasse, nós não brigarmos com ela, mas fazermos todo o possível para nos livrar dela. E achando que se o encontro com ela fosse demorado, seria uma coisa muito desagradável e muito contra as regras do bom jogo de Deus conosco.

Bom, a cruz demora e a gente começa a se queixar, a pedir a Deus que faça passar a cruz para voltar para a vidinha, que esta sim, a gente quer loucamente. Se não for a vidinha é a vidona. Então vai para a vidinha, mete-se na vidinha, ou fica-se no infortúnio, na desgraça: “falta-me isto, falta-me aquilo, falta-me aquilo outro, etc.” e começa o infortúnio. Por qualquer lado começa, ele nos agarra.

Em vez de a gente tomar de frente: “caiu na minha vida este infortúnio, esse infortúnio se eu puder tirar, tiro. Mas não vou fazer a luta da minha vida a luta contra esse infortúnio. Ele não vai ser o celerado que entrou dentro de minha casa. Ele é uma coisa que Deus permitiu que entrasse, ou que Deus mandou e que eu estou vendo claramente que foi Deus quem mandou, e eu agüento a coisa com boa vontade e com ânimo, com decisão. Isto é verdadeiramente o indivíduo que luta contra o infortúnio.

Agora seria muito exagero dizer que cada um de nós tem essa idéia bem clara e que quer isto assim. Seria muito exagero.

(Sr. Gonzalo: Formados totalmente no contrário.)

Ah, formados no contrário. Isso a bem dizer, furiosamente o contrário. Furiosamente.

* Um caso de luta, mas tão espantosa, contra o infortúnio, que nem se sabe o que dizer

Eu conheço casos de lutas contra o infortúnio e coisas dessas, mas tão espantosas, que a gente nem sabe o que dizer.

Eu conheço um caso de um marido da Belle Époque, é uma das coisas mais horríveis que eu conheça, mas é isso. Era um casal jovem, que se casou rico de ambos os lados. Ela muito viva, muito atraente, muito social, ele isso tudo e mais um faiseur d’argent muito qualificado, que fazia dinheiro e ficou rico, além do que ele já tinha da parte do pai dele e ganhou do sogro, ele ficou rico, e que vivia como sirigaita na infidelidade conjugal completa.

A mulher não se fazia disso uma tragédia, contanto que ela tivesse dinheiro e do lado dela pudesse freqüentar a sociedade largamente, como freqüentava, o resto tocava mais ou menos.

Um belo momento ela percebeu que ela tinha concebido uma criança. Ela falou com o marido, o marido ficou muito aborrecido, e disse para ela que ele tinha uma vergonha de que a mulher dele fosse vista recebendo uma criança, que é uma vergonha uma mulher ter uma criança, que se equipara a um bicho uma mulher que está tendo uma criança e que ele quereria que aquela criança morresse. Por mais que a outra fosse leviana, ouvir uma coisa dessa para a criança que está nascendo em si, pode ser um choque.

Em certo momento, uns dias depois, vem a empregada avisar:

Sr. fulano de tal deu ordem que quando fosse tanto, batesse na porta do banheiro e avisasse que tinha chegado a hora de sair do banho — ele costumava demorar-se muito no banho — e eu bati já várias vezes, e ele não sai do banho. Não sei se ele está dormindo ou se ele não quer me atender, não sei o que é que é, eu vim avisar a senhora.

A esposa estava deitada, pôs um pegnoir, foi depressa ao banheiro e toca a bater na porta. Nada. Então provavelmente morreu. Manda vir um desses carpinteiros ou coisa assim que arromba a porta. Mas foi duro de arrombar. Quando entra, encontra-o nu dentro do banho e dando risada.

O, mas você então está bem assim?

Sua burra, você acreditou em mim? Eu fiz isto para ver se você tinha um susto e nascia essa criança.

(Sr. Guerreiro: Um susto para provocar o aborto da criança.)

Isso.

Você pensa que a mulher fez alguma tragédia com isso? Deu risada, vestiu-se de seu lado e saiu. Está acabado. É o conceito de felicidade de muita gente.

* Se Deus não nos mandasse infortúnios, quereríamos organizar nossa vocação com a concepção de felicidade que o mundo tem

Agora, nós. Nós acabamos formando uma idéia de como seria se Deus não nos mandasse infortúnios dentro da nossa vocação, como é que nós veríamos a nossa vocação?

Não sei se a pergunta está clara?

(Sr. Gonzalo: Se não mandasse infortúnios?)

Se Deus não mandasse infortúnios, como é que nós organizaríamos a nossa vocação? Íamos organizar com a felicidade dentro de nossa vocação.

(Sr. Guerreiro: É isso mesmo.)

Não tem conversa.

Então vendo que a fidelidade à nossa vocação exige certas renúncias, nós não violaríamos essas renúncias, mas entenderíamos que restariam nacos muito bons dentro mesmo da vocação, se a Providência não mandasse nos provar. Então saúde perfeita, despreocupação econômica a mais completa possível —Bios e mamon, não é? E depois todo o resto.

E achávamos que ainda fazíamos muito favor a Deus mantendo-nos fiéis à vocação que Ele nos mandou. E naturalmente, pensando que viria o Reino de Maria e que no Reino de Maria ainda seríamos um colosso porque tivemos essa fidelidade durante o reino do demônio. E, portanto, a vida estava arranjada.

* A aceitação corajosa do infortúnio precisa começar a fazer parte de nossa vida porque, do contrário, de repente o infortúnio que nós expulsamos volta e volta em forma pior

Nós devemos pensar no contrário: Deus nos manda infortúnios. Não tem dúvida, Ele não deixa a pessoa ficar sem infortúnio. E esse infortúnio a pessoa deve na medida do possível, do razoável, naturalmente a pessoa deve evitar, deve afastar, etc., etc., mas já compreendendo que em boa parte não conseguirá. E que se a gente afastar isso, pode vir pior. E que, portanto aceite a coisa como ela é, e trate de tomar o sacrifício que a gente carrega nas costas e corajosamente gerenciá-lo. E sem lamúrias nem coisas do gênero. Dando graças por a coisa ainda não ser pior.

Eu não sei até que ponto nós temos a preocupação firme de levar a vida assim, ou até que ponto isso não entra em nossas considerações.

(Sr. Paulo Henrique: Infelizmente não entra, até pelo contrário.)

Pois é, meu filho, mas precisa começar a entrar. Precisa começar a entrar porque do contrário de repente o infortúnio que nós expulsamos volta e volta em forma pior. E não tem conversa.

(Sr. Gonzalo: O senhor está tratando por algo, disso, o senhor não trata nada que seja à toa.)

Portanto, o que é que acontece?

* É inegável que a vida religiosa tem seus tédios, mas a gente tem que agüentar esse tédio

É que, por exemplo, dentro da TFP há necessariamente desentendimentos. Há necessariamente caminhos por onde um não compreende o outro, não se entende bem com o outro, existem coisas a que um acha que tem direito, então é desses direitos de fera, tem o direito de ser considerado naquela via e é um direito de fera, não quer ser prejudicado naquilo em absolutamente nada, e por outras vezes percebe que um outro tem tal coisa ou tal outra mais do que nós e nós já nos julgamos por aí prejudicados. E daí irritados. Sem falar do tédio da vida. Porque a vida religiosa tem seus tédios, é uma coisa inegável. E a gente tem que agüentar esse tédio. Por quê? Porque tudo tem tédio. A vida de família tem tédio, e tem tédios colossais. Todas as formas de vida têm tédio, e a gente tem obrigação de agüentar o tédio.

* As cartas da Senhora Dona Lucilia são um verdadeiro monumento de coragem de agüentar a vida com os seus tédios e saber fruir as coisas boas que Deus manda na vida

Bom, nesta coragem de agüentar a vida com os seus tédios e saber fruir as coisas boas que Deus manda na vida, vocês encontram nas cartas de mamãe um verdadeiro monumento.

Quer dizer, vocês pegam por exemplo, as cartas. Ela está fazendo uma estação em Prata. Vocês percebem que ela…

Prata é um lugarejo — naquele tempo, hoje eu não sei como será, mas naquele tempo era um lugarejo — de nas ruas, você andando de um lado para outro, encontrar cabras pastando, encontrar ovelhas, encontrar carro-de-boi, tudo isso à vontade. Casebres de imigrantes que moram lá e que têm pequenos comércios e pequenas coisas para vender lá ou para comprar. Homem!, é o último.

Beleza tem algumas coisas. Tinha lá em Prata uma árvore muito bonita de um tipo que alguns de vocês que são brasileiros devem conhecer, mas eu não acredito que tenha nos países dos outros, uma árvore colossal chamada: “orelha-de-negro”. Ouviram isso?

(Sr. Gonzalo: Eu nunca ouvi.)

Você chegou a ver meu Paulo Roberto?

É uma árvore colossal, com uma galharia enorme…

(Cel. Poli: Uma folha miudinha?)

Eu não me lembro com são as folhas. Eu me lembro que ela dá umas favas chatas, pretas e meia enrugadas e parecem uma orelha. E então o povo deu a isso o apelido de orelha-de-negro. Você abre a coisa por aqui, você imagine que isso fosse um estojo e que aqui houvesse um botão para apertar e abrisse longitudinalmente. Então dentro tem umas sementes brancas de um branco muito feio, muito… que não faz outra coisa senão levar a potencialidade de outras árvores do mesmo tamanho, para plantar no mesmo terreno e plantar outras orelhas-de-negro. Há coisas mais poéticas no mundo do que isso.

Enfim, é uma bonita árvore. Mas você compreende, uma árvores… você olha uma árvore uma vez, duas vezes, cinco vezes, e está olhada a árvore. No lugarzinho feio, está olhada a árvore.

* Uma alegria inocente, uma satisfação que era a aceitação leal e forte dos infortúnios e dos regalos que Deus concede

Mamãe ia a esse lugarzinho feio para curar-se do fígado, ou melhorar do fígado de que ela sofreu mais ou menos até vovó morrer — foi uma coincidência, quando vovó morreu ela melhorou muito de saúde. Mas o fato concreto é que ela ia a esse lugar para melhorar de saúde.

Ela fazia rigorosamente a dieta e também a história: ir tantas vezes por dia à fonte, tomar tantos copos de água, aquelas coisas todas. Ela fazia tudo direito. Ela tinha uma capacidade de fruir umas ninharias que havia naquilo: então o céu que está bonito. Ir passar uma meia hora lendo Becassine para nós em baixo da árvore “orelha-de-negro”, dar um giro a pé até uma igrejinha ou um crucifixo que tinha perto e rezar um pouco. Voltar para casa um pouco cansada porque andou demais e deitar-se na cama e literalmente alegrar-se porque como era gostoso a gente estender-se um pouco e descansar-se depois de ter cansado.

Depois a vida do campo — porque se estava ali em pleno campo — como era poética, florezinhas que ela colhia na ida e na vinda da fonte, ela colhia florezinhas, fazia um buquezinho, colocava num vaso no quarto dela. Mas tudo isto com uma alegria inocente, uma satisfação que era a aceitação leal e forte do seguinte:

Eu sou doente e bem doente. Essa doença me exige sacrifícios e me exige caceteações, e eu vou me meter aqui para procurar os lados que não são caceteação e levar uma vida satisfeita com o que Deus me dá”.

(Sr. Gonzalo: É a perfeição completa.)

* O papel da Fräulein Mathilde na formação do Senhor Doutor Plinio na aceitação dos infortúnios e no regalar-se com as coisas agradáveis

É preciso dizer que uma pessoa que me ensinava muito isso também era a Fräulein Mathilde com o jeito alemão dela. Por exemplo, vamos dizer, ali tinha manteiga feita de leite de cabra, porque muitas vezes não tinha leite de vaca, então faziam manteiga com leite de cabra. Serviam leite de cabra. Fräulein Mathilde, para Rosée e para mim e para Ilka muitas vezes:

Kinders — kinders é crianças —, vocês hoje vão ficar contentes.

Ah, o que é que é?

Tem manteiga de leite de cabra hoje, é uma coisa saborosíssima. Vocês vão comer.

A gente passava aquilo no pão e achava delicioso. E era gostoso. Eu até hoje tenho saudades da manteiga de leite de cabra da Prata.

Às quatro horas mais ou menos, plan, plan, plan!, era o trem que vinha chegando. Então se tratava de ir à estação para pegar o correio. Tinha um vagão correio que ia distribuindo as correspondências. Pegava o vagão correio para ver se tinha uma carta. Muitas vezes tinha. Então voltar para casa satisfeito e entregar as cartas às pessoas da família para quem havia correspondências. Depois então trocas: “fulano manda tal recado para você. Fulano manda um beijo, tereteté, etc.”

Depois então: “olhe, você já respondeu a carta de sicrano? Precisa responder”.

Todo esse miúdo joguinho de uma passagem pequenininha produzida por doença, exigindo uma despesa que uma pessoa com poucos recursos financeiros faz, mas faz contando os tostões, tudo isso agüentado com firmeza, com decisão, fazia a vida que vocês viram ontem, e o estado de alma que vocês vieram ontem.

* A Senhora Dona Lucilia não tinha ao Senhor Doutor Plinio para ter carreira; mas sim para ter um filho honesto, direito, de acordo com a Lei de Deus

Por exemplo, um filho. Um filho para quem tomava a sério os deveres de mãe como ela, e que queria, vocês percebem que ela queria absolutamente que eu fosse um homem sério e direito. O querer dela era total nesse ponto.

E que ela, portanto, aproveitava nas cartas delas as menores ocasiõezinhas para dizer alguma coisa. Depois para dizer de um modo que não fosse cacete, que fosse aprazível, gentil, afável, conforme o caso até ela gracejava um pouco… [vira a fita]

alpinista que vai pondo o pé na pedra que consegue para seguir até o alto dos Alpes. Assim ela com cada um dos filhos dela.

Mas também o desejo de fazer para si uma alegria do que andava bem. A gente vê que ela gostava… eu me lembro de uma dessas cartas, em mais de uma carta ela disse: “Você não faz idéia as suas boas notas a alegria que me trazem”. Mas eu vi que trazia alegria mesmo. E quanta mãe o filho tem boa nota e ela… nem nada. Ela não, fazia uma alegria disso. A nota era ruim, ela sofria de fato.

Quer dizer, ter alegria e ter sofrimentos por razões razoáveis e não por fantasias, caprichos e coisas desse gênero.

(Sr. F. Antúnez: E depois também não é pela carreira do senhor.)

Não. Ela gostaria que eu fizesse uma boa carreira, mas é só isso. Ela não me tinha para ter a carreira. Ela me tinha para ter um filho honesto, direito, de acordo com a Lei de Deus. Isso é que ela queria.

Bom, isso traz sofrimentos. Mas esses sofrimentos trata-se de a gente enfrentar.

(Sr. Gonzalo: Que dá beleza à vida.)

Dá beleza à vida.

(Sr. Gonzalo: A beleza que o senhor mostra na vida dela e do senhor, no fundo a pátina dessa vida de “pulchrum” acaba sendo isso.)

Eu entendi que ela levava a vida como devia ser levada, e procurei em alguma medida fazer o mesmo.

(Sr. Paulo Henrique: Nesse amor à cruz a gente vê a contrapartida, que é o tratamento afetuoso, bondoso, etc., todo ele voltado para o perdão do qual o senhor falou na semana passada, e que caracterizou a vida dela…)

Em alto grau.

(Sr. Paulo Henrique: E que caracteriza a vida do senhor também em altíssimo grau sobretudo no trato com os membros do Grupo. […] Esse amor à cruz conduz a esse grau de virtude. Não sei se é bem isso. E talvez fosse para nós o Segredo de Maria. […] Se o senhor pudesse mostrar um pouco isso para nós, tirar as nossas escamas dos olhos e fazer com que nós vejamos isso.)

* Analisando os sofrimentos do Senhor Doutor Plinio nós veremos o verdadeiro modo de conduzir a cruz

A pergunta está perfeitamente legítima, e bem feita. Agora, a questão é a seguinte. Para fazer como você disse, o verdadeiro seria nas ocasiões que houver entre nós de apontar uma coisa concreta que está me fazendo sofrer, eu dizer a vocês no que é que é sofrimento, no que é que podem ser tirados alguns aspectos, alguma coisa que dê verdadeiramente uma compensação, qual é a atitude da pessoa diante das compensações, etc., isto dá verdadeiramente o modo de conduzir a cruz. E conduzir, portanto, ao Segredo de Maria.

(Sr. Gonzalo: Isso que o senhor está dizendo está muito bem endereçado. Nós precisamos muito disso.)

Ah, eu entendi você dizer que não é bem…

(Sr. Gonzalo: Não, muito bem endereçada, muito dirigida.)

(Sr. Paulo Henrique: Como nós não queremos ver o lado da cruz, então nós não vemos o outro lado. […])

Olha aqui, você veja o seguinte: a reunião de hoje à noite. Não essa, a Reunião de Recortes. Na Reunião de Recortes a reunião acabou produzindo um efeito não pequeno. Mas um efeito não pequeno de momento, quer dizer, se não houver felicidade de aparecerem outras notícias daquela em quantidade, essa reunião só não adianta, o efeito dela passa. E passa o quê? Se nós quisermos ser muito profundos, essa reunião passa dentro de dois dias. Não sei se concordam com essa…

Agora, se nós somos assim, e resistimos até hoje implacavelmente a todos esforços que eu tenho feito para que nós deixemos de ser assim, é legítimo que aos noventa e tantos anos eu pergunte se vale a pena continuar. É uma pergunta que de si teria toda razão, e acho que muitos perguntar-se-iam e concluíam pela negativa. Não vale a pena.

* A “Bagarre” está batendo às portas e nós estamos vendo que nós fazíamos dela um mito; o qual serviu muito para nós não sermos menos ainda do que somos, mas é muito pouca coisa

Porque ficou visto na reunião de hoje que a Bagarre está mais ou menos às portas. E é curioso isto: que nós tínhamos a idéia otimista a respeito de nós mesmos que nós não éramos grande coisa, mas que quando chegasse à Bagarre e ela batesse às portas, nós teríamos uma valorização. Nós compreenderíamos afinal de contas como são as coisas e estaríamos homens à altura da situação. A situação presente não fazia de nós grande coisa, mas a situação futura, quando ela se apresentasse no seu aspecto dramático, com a possibilidade de nós agirmos dentro dela e representarmos o papel de homões que, de repente, as circunstâncias nos mobilizam e nós somos heróis, e chegamos até um grau de perfeição estupenda, etc, etc., se nós agimos assim, então a Bagarre nos salva.

Ora, a Bagarre está batendo na porta e nós estamos vendo que nós fazíamos da Bagarre um mito.

Como, meu filho?

(Sr. Guerreiro: É isso mesmo.)

O que tem que a Bagarre serviu é que a esperança de que ela viesse, serviu muito para nós não sermos menos ainda do que somos. Mas é muito pouca coisa.

(Sr. Gonzalo: O senhor disse: “a Bagarre estão batendo nas portas”, mas já estamos nela.)

Já estamos nela.

(Sr. Gonzalo: Já estamos metidos até o pescoço. O senhor está metido na situação em que está, isso é “Bagarre”.)

É Bagarre inteira, total.

(Sr. Gonzalo: O senhor está na situação em que está, e mais puxado não pode ser.)

Não pode ser.

(Sr. Gonzalo: Há um desvio de vista: “Bagarre vai ser quando eu possa disparar um tiro”. Isso é coisa “de lo ultimo”.)

Mas de lo ultimo. E que pensa que impor aos outros um sofrimento me resgata a mim mesmo. É muito fácil a história.

Não sei que autor protestante falando de Luis XIV que mandou fazer umas famosas dragonadas contra os protestantes para expulsar da França, ele dizia que ele com isso queria resgatar a vida imoral que tinha tido. Então alguém disse o seguinte: “qu’il fasait de la penitence sur les dos d’autrui”. É evidente! É evidente.

Quer dizer, ele fazia bem em fazer pelo menos isso, mas era muito pouco. Muito pouco.

* Agüentar o sofrimento é ser homem na perspectiva real da “Bagarre”, e agüentá-la como Nosso Senhor agüentou o padecimento no Horto da Oliveiras

Agora, também conosco nós fazemos uma Bagarre em que nós imaginamos, na nossa candura, nas velhacarias de nossa candura, nós imaginamos o outro sofrendo muito, os hereges sofrendo… comendo — como se dizia antigamente aqui no Brasil, não sei se nos países de vocês se diz isso — comendo o pão que o diabo amassou. Mas nós não, nós fizemos o pão duro para o herege comer, e morrer envenenado. Agora nós não, nós o que é que fizemos? Um bonito papel, e chegamos para o lado de lá da Bagarre com uns arranhõezinhos. É a idéia de Bagarre que nós tínhamos, hein.

E outra coisa, se eu procurasse dar uma idéia mais severa de Bagarre, fugiam.

(Sr. Gonzalo: É que está acontecendo. […])

É, mas é isso.

Agora, isso são coisas terríveis! São coisas terríveis.

Mas agora, o agüentar o sofrimento é agüentar essa perspectiva e ser homem nessa perspectiva. E agüentar a perspectiva como Nosso Senhor agüentou o padecimento no Horto da Oliveiras. Está aí, chegou o caso: “Agora, está aqui, está o Horto das Oliveiras, você agora vai começar a pensar no que vai lhe acontecer e vai endurecer a sua alma e engrandecer a sua alma na perspectiva do que vai haver. Agora entre, ande!”

(Sr. Gonzalo: […] O senhor pedia muita humildade de reconhecer esse estado de falência e de quebra completa em que nós estamos, e que esse reconhecimento é um elemento fundamental para reconhecer a bondade que o senhor tem tido e terá conosco, e daí levar-nos para frente. Mas que a via do fazer de um modo muito rijo, uma coisa, pelas próprias forças, que a nós nos daria uma megalice. Não sei bem como encaixar uma coisa com a outra.)

O risco existe, mas esse risco se resolve quando a gente toma as duas decisões. A primeira decisão é o seguinte: nunca pensar nas qualidade da gente, porque pensando nessas qualidades a gente fica mega. Então nunca pôr-se para se admirar a si próprio. Ainda que nós tenhamos carregado nas costas a Santa Casa de Loreto e atravessado com ela nas costas o oceano Atlântico a pé enxuto para depositar numa ilha do mar do Caribe para os inimigos não pegarem, ainda que seja isto não ficarmos megas.

Agora, como é que a gente não fica mega?

É não pensando na grandeza do que fez. Porque se a gente pensa na grandeza do que fez a megalice entra logo.

Mas sem dúvida é preciso fazer a coisa grande. A gente não pode para ficar humilde, dar um [saca-trapo?].

(Sr. Gonzalo: Está muito clara a coisa.)

Não é, meu filho?

* A “Bagarre” está se delineando como uma perfeita incógnita, e a gente tem que ir se preparando para a incógnita pedindo forças e humildade, e sendo forte na humildade na hora da “Bagarre”

Agora, voltando ao caso. Então, diante da Bagarre a gente tem que tomar essa posição, depois prever como é que a coisa pode ser dentro da Bagarre, mas não prever coisas fantásticas, é prever como a coisa está parecendo vir. E desde logo com aspecto que é estupendamente ameaçador. É o seguinte: uma perfeita incógnita. A Bagarre está se delineando como uma perfeita incógnita. E a gente tem que ir se preparando para a incógnita, com humildade mas pedindo forças e pedindo humildade, e sendo forte na humildade na hora da Bagarre.

(Sr. Gonzalo: Muito sério e muito ao alcance da mão.)

Muito ao alcance da mão.

O Átila tem a paciência em certos domingos da semana de aparecer aqui em casa e durante o jantar não conversamos, mas ele lê trechos das viagens do Dumas, e ele leu um trecho de uma prisão na Rússia, onde se descia vários andares por debaixo do nível do rio Neva. Mas aí são escavados então.

E com celas sobrepostas e numeradas do lado de fora, mas não com o nome do prisioneiro que estava lá. O prisioneiro perpetuamente sozinho, não tinha nem sequer um outro facínora para fazer companhia a ele. E uma espécie de tubo que acompanhava as celas de ponta a ponta e entrava o ar lá de cima, de vários andares, passava o ar lá por baixo e saía pelo outro lado. De maneira que ar eles tinham, mas que ar!, que tinha descido até que profundidade de umidade, etc.

* Uma situação trágica descrita pelo Dumas

E ele, Dumas, conta — não se sabe até que ponto é romance feito por ele, mas veja a situação — que um certo homem muito bem apessoado era militar, mas pequeno oficial, estava comandando um destacamento de uma tropa numa grande parada e que viu passar a cavalo a tzarina com toda aquela pompa, etc., e percorrendo… que ela procurava com os olhos alguém.

E que passou diante dele e olhou para ele de um modo fixo e assim… e depois continuou. Ele ficou perturbado porque podia ser qualquer coisa. E realmente foi. Ele recebeu uma noite na caserna dele um bilhete que por ordem da tzarina — ou era tzar? — tinha ordem de se levantar imediatamente ir para falar com ele no palácio, quer ele tivesse acordado, quer dormindo, aparecer e falar com ele no palácio.

Ele ficou apavorado porque podia ser qualquer coisa. Mas vestiu-se, etc., e apareceu no palácio e todas as portas do palácio já estavam indicadas para serem abertas a ele. Ele aparecia levando esse bilhete do tzar e tudo se abria. Ele chegou rapidamente até o quarto de dormir do tzar.

O tzar estava numa grande agitação e assim, olhou para ele e disse para ele:

Quem é você?

Ele bateu continência e disse:

Eu sou fulano. Vossa majestade mandou me chamar.

Eu sabia. Você pensa que eu não sabia que mandei te chamar?

Vossa majestade faz muito bem tudo que faz — sempre em atitude de continência.

O tzar disse:

Você, fulano de tal, está bem persuadido de que você para mim não é nada, de que você é menos do que pó e que eu posso te reduzir a nada? Responda sim ou não?

Ele em atitude de continência:

Sim.

Mas você está bem persuadido que eu aqui nesse momento posso matá-lo e que você não tem recurso que te defenda?

Vossa majestade tem razão.

Está bom. Você vai agora à prisão número tanto, de tal coisa assim, na fortaleza tal, tal e tal, e lá vai ser indicado para você o que você tem que fazer. Depois de executada a ordem que você tem, você vem para cá e vai saber quais são as minhas outras ordens. Trate de não me dar trabalho nem aborrecimento nisso. Se der, ai de você, porque você para mim não é senão poeira. Se não der feliz de você, porque eu sou capaz de lhe dar um prêmio.

* Após anos de prisão no subsolo, um personagem é alvo da atenção do tzar

O homem foi. Foi então até aquela prisão e abriram a prisão. Encontraram um homem já envelhecido encanecido, imundo!, com pedaços de um capote para resguardar-se do frio — você pode imaginar o frio embaixo do Neva como é que era, etc —, um capote que já estava se desfazendo de umidade e de sujeira, mas que ainda era bom para ele se abrigar em certas noites em que o frio dentro do capote era menos frio do que o frio da neve, e que ele tinha então que se meter ali dentro.

Há não sei quantos anos ele não falava com ninguém, não sabia mais quem é que governava a Rússia, não sabia de nada porque havia proibição de falar com ele qualquer coisa, de contar a ele qualquer coisa, e de responder qualquer pergunta. E quando entrava a estação bonita, entrava um pouquinho de bom ar, um pouquinho de coisa. Quando não era a estação bonita, era o inverno, é o que você sabia.

Entravam esses dois homens lá, e esse todo encarangado, etc., mas humilde, e disposto a obedecer. Ele disse:

O que é?

Sua majestade o Tzar graciosamente acaba de dispor a respeito de sua pessoa.

O diretor da prisão voltou-se para esse tenentinho e disse:

Você vai levar, mas sob a minha fiscalização, esse homem tal que é fulano de tal assim — era um homem qualquer —, você vai levar esse homem até a flor do dia, e ele lá vai respirar a luz do dia. Lá essa carta que dispõe sobre ele vai ser aberta e você vai executar nele os desígnios de sua majestade.

(Sr. Gonzalo: Muito bem descrito.)

Muito!

* Uma circunstância que se tivermos que enfrentar durante a “Bagarre”, precisaremos pedir graças a Nossa Senhora para mantermos a confiança e tocarmos para frente

Subiram os três sem trocar uma palavra.

Chegaram em cima da flor do chão, encontraram uma espécie — eu não sei como seria, eu imagino que era um jipe, mas não era ainda o tempo do jipe — de viatura militar qualquer com cinco ou seis homens com o material que serviria para abrir um buraco.

Quando chegou em cima, o capitão disse para o tenentinho:

Abra a carta e leia do que se trata.

Um vento medonho, e ele percebeu que ele estava andando em cima do rio Neva, e que embaixo a água corria, em cima era gelo. O homem leu, e o tenentinho disse:

Está bem, a vontade de sua majestade será executada.

Ele disse ao tenente:

Fulano, dê então ordem ao destacamento para cercarem este homem e enquanto eles estiverem executando o serviço que o imperador deu, ele deve ficar guardado para não fugir.

O homem quieto, impassível. O homem percebeu que estavam abrindo um buraco dando diretamente para o Neva. E quando acabou o buraco, o que executava as ordens gritou para o tenentinho:

Agora execute a vontade de sua majestade imperial.

O tenentinho disse:

Eu vou executar.

O homem disse:

Perdão um instante, não executem já, um instante.

Fez um “em nome do padre…” e umas orações que ninguém entendeu o que é que era, mas pequenas, rápidas, e de qualquer jeito.

Foi jogado dentro do rio todo gelado e veio a ordem de refazer a superfície do rio. E eles perceberam por debaixo as pernas e as mãos do homem que batiam na tampa de neve. Mas que morreu depois, as águas levaram, o homem morreu.

Bom, era preciso pedir graças a Nossa Senhora que ainda que uma coisa dessas acontecesse para nós, a gente manteria a confiança e tocaria para frente.

* Estados de espírito de um membro do Grupo durante a narração de um fato trágico

Mas você veja, por exemplo, durante a narração que eu fiz eu vi os vários movimentos de sua alma. O primeiro movimento de pânico. Isso é o fundo gelado da coisa, é o pânico. Depois uns certos movimentos de revolta indiferentista: “Me matem de uma vez, já que estão querendo, não venham com todo esse luxo. Me liquidem. Não estou disposto a dar a vocês o luxo de dar a impressão que estão fazendo uma coisa legal. Vocês estão fazendo um crime. Criminosos façam o crime, eu estou aqui. Sejam bandidos!”.

Ao mesmo tempo entretanto movimento de: “quem sabe se ainda há uma escapatória por algum lado”. Mas logo desaparecendo.

Na hora da oração: um momento de graça. E depois debaixo do gelo… aconteceu tudo. Também tudo está acabando. Vai, leva algum tempo para acabar.

Você está vendo os vários movimentos de alma.

Agora, depois o resto.

O homem volta…

(Sr. Gonzalo: O senhor disse que é preciso pedir graças a Nossa Senhora para que não aconteça…)

Ou se acontecer, aconteceu como com o Divino Filho d’Ela.

Agora, o que aconteceu com o tenentinho?

Ele, observando a coisa do tzar, voltou logo para o palácio e apresentou-se diante do tzar.

O tzar disse:

Mas você a essa hora aqui?

Eu executei as ordens de vossa majestade.

Diga então como é que foi executada.

Foi feito assim, assim, assim assado.

Você está certo que você para mim não é senão poeira e que eu posso fazer de você o que eu quiser?

Mais certo do que nunca. Pois não, majestade.

Está bem, eu vou dar para você uma vila — uma propriedade agrícola com casas, etc. — e, se não me engano, 500 escravos. Dados grátis. Você vai morar lá o resto de sua vida, e que eu nunca mais ouça falar de você. Se eu ouvir falar de você, você nasce para mim como um perigo. Porque você que deveria sepultar-se no mais profundo mutismo, não está guardando minhas ordens. E pode estar contando o que você viu. E se você, portanto, fizer o menor barulho que possa dar impressão de que você está vivo, eu te mato. Agora, aqui está o papel com a doação. Vá embora.

* Numa noite de inverno, caindo neve, um velho militar faz suas confidências

O homem foi e tinham se passado, parece que 30 anos, uma coisa assim, em que esse homem vivia nessa casa, confortavelmente, com armas — ele era muito bom caçador e caçava ursos e esse bichos lá. E a coisa tomou um rumo que ele não falava na vila dele, de que ele era o dono, depois tinha autoridade temporal sobre a vila, ele não falava com ninguém a não ser para fazer encomenda do que ele queria e voltar. E era tido como um caçador exímio, mas que não conversava nem a respeito da caça, porque ele tinha pavor que alguma coisa chegasse aos ouvidos do tzar, e ele estaria perdido.

Agora, durante o dia tinha recebido a notícia de que o tzar tinha morrido, então ele convidou para jantar um amigo dele — amigo! — um homem que ele via com freqüência, não falava nunca, mas que olhava para ele com certa simpatia. Ele convidou então para jantar. Era o primeiro convite para jantar que ele fazia desde do tempo que ele estava lá. E contou toda essa história para o convidado dele, porque a regra lá é que essas penas, ou essas ameaças assim, não valiam quando o tzar morria. E ele pela primeira vez estava contando sua própria história. Mas já envelhecido.

Pelo que o Dumas conta — aí você está vendo que é puro romance…

(Sr. Gonzalo: Mas está bem achado.)

Oh! Pelo que Dumas conta, o negócio é assim. Estava chovendo, caindo neve, etc., etc., e bateu alguém à porta antes de chegar o convidado para jantar, e disse que era um extraviado, etc., pedia licença para ser hospedado durante alguma noite para não morrer de frio.

O sujeito disse: “Pode ser, e o senhor vai ficar naquele quarto ali, eu vou mandar servir seu jantar lá”.

Porque ele não queria falar com o homem. Porque ele não podia saber se o homem não era mandado pelo tzar.

E então ele esqueceu de que ele tinha esse homem lá e contou toda a vida dele para o convidado. E como era um homem do lugar, e que ele sabia que nunca saía do lugar, era muito provável que não contasse. Quem seria aquele estranho diante do qual ele se omitiu e acabou contando o caso todo? Será que é o fim de 30 anos de segredo que ainda podia ser apanhado pelo tzar que vem e sofrer sabe lá o quê?

Ele foi falou com o homem, o homem tinha ouvido tudo. Estava deitado na cama, dizia ele que procurando dormir — está vendo, ele não conseguiu dormir, não é? E na manhã seguinte o homem partiu para o desconhecido. E o caso está contado.

* Se os países da América Latina caírem em convulsão, ninguém sabe o que sai

Agora, você veja o que são as coisas que podem acontecer na Bagarre.

O que é meu coronel, um resmungo que saiu aí?

(Cel. Poli: É uma aquiescência.)

Mas é assim. Ainda mais nesses nossos países da América Latina se caírem em convulsão ninguém sabe o que sai.

(…)

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