Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 19/3/94 – p. 9 de 9

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 19/3/94

No terreno da benquerença existem dois planos diferentes: um plano natural e humano, e um plano metafísico e sobrenatural * Se duas pessoas chegam a se conhecer e se estimar pelo metafísico e sobrenatural que representam, dá-se o convívio perfeito * Desenvolvendo sua capacidade de ver o mundo natural e de analisá-lo para ver no que é que ele dá numa esfera hipotética é que o SDP adquiriu a tendência de fazer ambientes, costumes * Uma descrição “empírica” da vida de corte, a propósito do “affaires des aiguilletes” * O espírito humano trabalha as impressões que tem do mundo natural para imaginar todas as coisas num grau de virtude que é corolário delas * A SDL sabia fazer reviver em seu espírito as coisas que ficam entre o sobrenatural e o irreal, com uma enorme aptidão e com uma participação da alma dela. * O “lumen” da SDL vinha de um conjunto que era uma concepção da vida, mas era uma concepção da vida e era um modo de ser da pessoa humana * A substância da própria concepção RCR só encontra toda a sua elevação no terreno metafísico e sobrenatural

(…)

Querendo até posso repetir, se quiserem. Vocês desejam isso, ou está tomado a nota e não é preciso?

(Sr. Guerreiro: Se o senhor pudesse fazer um pequeno resumo para ficar no gravador seria bom.)

Pois não.

* No terreno da benquerença existem dois planos diferentes: um plano natural e humano, e um plano metafísico e sobrenatural

Então eu digo o seguinte: que no terreno da benquerença existem dois planos diferentes. Um plano natural, humano, mas todo ele baseado na moral, na doutrina católica, etc., e que é o conhecer uma determinada pessoa, e conhecendo-a perceber por um discernimento, que não é necessariamente sobrenatural, dos espíritos como é que essa pessoa seria se ela fosse direita, se ela correspondesse de fato à graça. Então querê-la bem pelo que ela seria e pelo que há nela do que ela seria, ou que existe nela.

Isso faria com que a pessoa se sentisse benquista na sua autenticidade. Não é um terceiro que aquele lá quer bem em mim, mas ele me quer bem a mim mesmo, a mim, porque eu me defino como aquele que se fosse como deve ser, seria de tal maneira assim, e que tem uma parcela do que eu deveria ser. Esse será meu amigo.

É claro que se ele é inteiramente o que ele deveria ser, e se eu também sou inteiramente o que deveria ser, daria uma amizade histórica. Mas a não ser essa amizade histórica isso daria uma amizade muito real, muito verdadeira, muito lógica, comme il faut.

Agora, outra coisa é o seguinte. Eu ver não propriamente aquilo que eu deveria ser, etc., mas é mais do que isso. Existe em mim, como existe em todo homem, embora em planos diferentes, existe um ente com os olhos abertos para a metafísica e para o sobrenatural, e que, à vista do que lhe é dado ver de metafísico e de sobrenatural, essa pessoa tem uma acréscimo de qualidade que não são apenas essas primeiras que nós vimos, mas são qualidades mais eminentes, mais extraordinárias porque vêem algo do mundo natural que só vê quem é afeito, quem desenvolve a sua capacidade de ver o mundo natural e de analisá-lo para ver no que é que ele dá numa esfera hipotética de uma espécie de mundo empíreo que de fato não existe.

Depois existe na pessoa algo que é da graça, que é filho da graça e que é toda essa visão hipotética do mundo real, mas vista no seu lado sobrenatural.

* A Terra reflete o Céu, e as coisas bonitas que há na Terra, de boas e santas, existem no Céu de um modo super elevado; o exemplo de Veneza

Quer dizer, a Terra reflete o Céu, e as coisas bonitas que há na Terra, boas e santas, existem no Céu de um modo super elevado. Em primeiro lugar no Céu empíreo. Em segundo lugar no Céu dos Anjos, para dizermos assim.

De maneira que a respeito de uma mesma coisa, por exemplo, uma vista de Veneza, eu posso ter a vista de Veneza vista por esse meu primeiro lado humano, natural, reto e religioso, etc. Mas o religioso também de uma religiosidade que está nesse plano.

Depois eu vejo Veneza num terreno mais alto que é Veneza como ela seria no Paraíso ou como ela é no Céu empíreo.

Quer dizer, o que é que Veneza é no Céu empíreo? O que eu quero dizer com isso?

No Céu empíreo há belezas que são análogas, que são semelhantes a Veneza. Essas belezas, no Céu empíreo tem uma forma de beleza que em Veneza não tem. Aqui já era uma consideração mais alta, portanto.

E depois, em terceiro lugar, seria uma consideração de como é no Céu dos Céus, toda essa beleza, toda essa excelência, toda essa realidade e como é que a pessoa de quem eu sou amigo vê tudo isso com os olhos dela na perspectiva dela, mas vê como eu vejo. São vários degraus de ver.

Essa idéia está clara ou não?

Agora vamos ver como se vê não Veneza, mas como se pode ver uma criatura humana.

* Se duas pessoas chegam a se conhecer e se estimar pelo metafísico e sobrenatural que representam, dá-se o convívio perfeito

Existe isto. Existe uma criatura humana que eu posso ver com suas qualidades naturais, etc., etc., como Veneza do andar inicial. Depois, na mesma criatura humana, eu posso ver esta pessoa como se estivesse imbuída, toda banhada por dentro do que nós chamaríamos uma Veneza dois, ou empírea. Depois de uma Veneza três ou celeste. E se se chegam duas pessoas a se conhecer e se estimar nesta linha, dá o convívio perfeito.

Cada uma dessas Venezas, ou cada uma dessas pessoas é capaz de querer a outra com toda força de um outro, ou outro patamar. E, portanto, dá amizades veementíssimas, puríssimas, elevadíssimas, ou dá amizades sérias, corretas, direitas, mas de um conteúdo muito menor. Tudo isso depende das circunstâncias.

(…)

(Sr. Gonzalo: Essa seria a Veneza dois então?)

Veneza dois.

* Um ambiente ao mesmo tempo de interior e de mato e de corte que se entrelaçavam e que davam o tônus do Brasil Império

Era o Brasil império. Você precisa lembrar que sobre isso pairava a figura de um imperador, de uma imperatriz, de uma corte vivendo no [Rio de Janeiro], e de uns barões, condes e viscondes nomeados pelo imperador no próprio lugar. Quer dizer, um ambiente ao mesmo tempo de interior e de mato e de corte que se entrelaçavam e que davam o tônus do Brasil daquele tempo.

Mas já onde você põe a figura de um imperador que era Habsburg por parte de mãe e Bourbon, Bragança por parte de pai, e de uma imperatriz que era Bourbon-Sicilias de seu nascimento e Habsburg também, você imaginar os eflúvios disto que se prolongavam até Pirassununga, e na casa de meu avô se notar a cadeira em que sentou o imperador e que brincou com os cabelos de mamãe enquanto falava e que mamãe tinha vontade de chorar porque ela tinha feito um penteado lindo, vovó tinha feito na cabeça dela, e o imperador estragava procurando acariciá-la, e meu avô conversando com o imperador mas vendo o jeito de mamãe, porque mamãe não podia manifestar desagrado, ela tinha que fazer cara de alegre para o imperador o tempo inteiro. Então olhando para o pai para ver se ela estava fazendo a cara alegre, e o pai dando sinal que sim. Às vezes a coisa clochait un peut, olhar do Dr. Ribeiro…

* Desenvolvendo sua capacidade de ver o mundo natural e de analisá-lo para ver no que é que ele dá numa esfera hipotética é que o SDP adquiriu a tendência de fazer ambientes, costumes

Tudo isto junto cria um certo ambiente que eu via como se eu estivesse em Pirassununga. E uma tal ou qual tendência a fazer ambientes costumes que mais tarde apareceu em mim, esta tendência, evidentemente, é o fruto disto que eu estou te contando.

Mas aí já estava uma coisa superior. Era um mundo — não é propriamente imaginário, porque se fosse reduzir isso à uma imaginação, pulverizava. Não é um mundo imaginário, é um mundo — vocês vão dizer que é um jogo de palavras — é um mundo que também não é imaginado, mas é composto com a matéria-prima fornecida pelas narrações dela que vinham carregadas da capacidade de perceber essas coisas.

(Sr. P. Roberto: Existente, não é?)

Existente. Existente. O imperador era existente. A imperatriz era existente.

(Sr. P. Roberto: A tardinha era existente.)

Era existente. O pobre tuberculoso era existente. A cara de oração que vovô fez quando jogou a moeda no chapéu do pobre mendigo é uma cara de oração, sem rezarem. Quer dizer, era uma prece assim de mútuo entendimento.

Depois à noite a Providência que tinha entrado na casa, e a confiança de vovó na Providência, mas na pessoa de vovô. Quer dizer, que era o homem que a Providência tinha mandado junto a ela para ser o barqueiro da vida dela, o timoneiro da vida dela. Então, confiança ilimitada. Você está vendo que tudo isso são coisas já de uma natureza mais elevada.

* O caso do testamento de uma mulher de má vida: “Eu só confio em homem que nunca pôs os pés em minha casa”

Aquele negócio que eu contei aqui também de uma fassura de Pirassununga que era a fassura mais bonita de Pirassununga e que diziam que era lindíssima. Ela apresentava como tendo sido lindíssima. Ela, naturalmente nunca viu, mas contavam para ela que era lindíssima. E que na hora da morte — ela ganhou muito dinheiro, fassura sem vergonha — mas adoeceu de repente, muito, e viu que ia morrer. Então mandou pedir que viesse para fazer o testamento dela, vovô.

Disseram:

Mas por que o Ribeiro aqui? Você tem tantos conhecidos.

Eu quero o homem que nunca pôs os pés em minha casa porque só nele é que eu tenho confiança.

Você vê…

Vovô recebe o mensageiro: “Fulana está morrendo, tatatá”.

Ele disse: eu não vou lá sem licença de “Sinhara”.

Foi, falou com vovó e disse: depende de você, se você não quiser eu não vou.

Vovó disse: “Coitada, vá lá”.

Não me consta que vovó tenha falado em chamar padre, nem que vovô tenha falado disso.

Mas isto já é um nível mais alto.

Depois vinha o mundo da literatura francesa. Mamãe lia muito inglês e francês. Eu só me inteirei, porque sou um homem vulgar e de mal gosto, eu só me inteirei da literatura francesa… [risos]

Não é, meu Horácio?

(Sr. Gonzalo: Aqui se vê toda a bondade do senhor.)

(Sr. P. Roberto: O senhor está dizendo para o mister Black e outro Campbell.)

Isto, exatamente.

E então começava as narrações — aí já meninote, quase mocinho — de d’Artagnan, os três mosqueteiros, do affaires des aiguillettes com o duque de Buckinghan e Ana d’Áustria, e daí para fora. Mas aí ela sabia dar uma movimentação ao romance francês, às personagens, aos mosqueteiros, e depois como é que era Ana d’Áustria e não sei mais o quê, que já era uma coisa que é feita para ser assim. É a grande corte que é uma espécie de Veneza três para ajudar as pessoas a compreenderem os ambientes mais altos e as coisas mais esplêndidas, etc.

Então, por exemplo o negócio das aiguillettes que eu acho que coisa conhecem, não é?

(Sr. P. Roberto: Não, senhor.)

* O “affaires des aiguillettes” com o duque de Buckinghan e Ana d’Áustria

E duas palavras. Richelieu era um inimigo mortal das Casa d’Áustria e a Ana d’Áustria era austríaca. E a Inglaterra tinha um certo interesse em apoiar a Casa d’Áustria nesse período — imaginou Dumas. Como é que foi a realidade histórica, se foi exatamente assim, eu não sei.

Então ele fez o seguinte: a Inglaterra quis fazer uma aliança dela com Ana d’Áustria, internamente, contra o Richelieu, para derrubar o Richelieu e deixar de haver essa inimizade com a Casa d’Áustria e fazer toda uma outra política. E o Richelieu percebeu perfeitamente que isso era assim.

Então ele começou — se a minha memória não me trai — persuadir ao rei que ele precisava para o próximo aniversário de Ana d’Áustria — o rei era Luís XIII — dar para ela um jogo de coisas que chamava aiguillettes. Era umas agulhas assim de brilhantes, carregadas de brilhantes. Eram se não me engano treze aiguillettes, uma coisa assim.

A Ana d’Áustria utilizava como embaixador o duque de Buckinghan, favorito do rei. O qual duque de Buckinghan procurava então cair no agrado de Ana d’Áustria. Coisa que lhe foi facílima porque ela estava ultra disposta a isso. E começa então um reprovável namoro entre os dois.

E o Richelieu soube — pela espionagem que ele tinha no quarto da rainha — que na hora de se despedir-se da Ana d’Áustria para voltar para a [Inglaterra], Ana d’Áustria teve uma superficialidade e pegou uma dessas aiguillettes e deu de presente para Buckinghan. E Buckinghan foi para a Inglaterra.

* As artimanhas de Richelieu contra Ana d’Áustria, no “affaires des aiguillettes”

Quando o Richelieu soube disso, ele disse: “Sire — ao rei, não contou nada — é urgente que vossa majestade ofereça um baile à rainha para dar essas aiguillettes a ela durante o baile. Portanto, vale a pena dentro de poucos dias oferecer um grande baile à rainha. E Luís XIII concordou.

Então Richelieu disse: “Mas nesse caso convinha fazer as coisas logo. Avise logo a rainha que tem essa baile, etc., etc., para ela ficar obsequiada desde logo, que será uma coisa muito boa, etc.”

Acontece que Luís XIII não tinha ainda tido filhos de Ana d’Áustria, e que estavam meio brigados, e que uma reconciliação daria origem a um rei que seria Luís XIV. Mas o que Richelieu tinha em vista era uma coisa diferente. Era que na véspera do baile ele denunciaria a rainha ao rei, que a rainha tinha dado uma dessas aiguillettes e que ele pedisse à rainha para ir com as aiguillettes, mas que para o presente dele ser bem notado por todos, que ela não deixasse de ir com todas as aiguillettes.

Ela, na jogada, percebeu que a coisa era do Richelieu. Mas como fazer? As aiguillettes estavam em Londres.

* Uma descrição “empírica” da vida de corte, a propósito do “affaires des aiguilletes”

Então ela chama se não me engano M. de Tourville, o chefe dos mosqueteiros e disse: “Eu quero um homem de uma confiança absoluta, de vida e de morte, porque eu vou ficar dependendo dele, para ir desempenhar em “X” dias uma missão na Inglaterra e trazer de volta uma certa coisa. Nem o senhor pode saber o que é. Só esse homem pode saber. M. de Tourville, o sr. até que ponto está disposto a servir uma rainha atraiçoada por um péssimo ministro e abandonada de todos os que a servem?”

M. de Tourville garante que ele arranja.

— “Quem é?”

Diz ele:

— “É um pequeno fidalgo gascon, M. de Montesquiou. Ele vai lhe arranjar isso aí.”

Ela manda vir. Vem então o fidalgo todo vestido de mosqueteiro, etc. Entra no Louvre numa hora em que todo o mundo está dormindo, e chega até o quarto da rainha.

Você está compreendendo o Louvre, o Louvre dormindo, o mosqueteiro que entra e vai falar com a rainha fabulosamente bonita, e que chora diante dele por causa da situação em que está. Ele então promete que, etc., e tal e sai de lá e no próprio cavalo em que ele tinha tomado para ir até o Louvre, vai diretamente até Londres.

Então peripécias que eu nem me lembro quais são.

Chega ao Buckinghan Palace, explica a situação toda como é e tal, para o Buckinghan. E o Buckinghan diz:

É, mas a questão é que essa aiguillette eu não imaginei e dei para alguém.

Então, ele próprio Buckinghan diz:

Tem um ourives que é capaz de fazer isto perfeitamente dentro desse tempo, se eu obrigar o ourives.

E lá vai ele de pistola na mão à casa do ourives e diz: “Olha aqui, você tem tanto se fizer uma aiguillette assim, assim, assado, dentro de tantos dias, ou eu lhe mato”.

Ele fica com muito medo, mas muito atiçado pelo desejo do lucro, e então faz as aiguilletes nesse tempo. E o Montesquiou pula no cavalo e vai num só trote de louco até Paris. A rainha está toda pronta, nos transes da morte esperando que d’Artagnan chegue.

O d’Artagnan chega, ela vê, compara as aiguillettes, está idêntica. Então o baile já está começando. Ela pendura aquilo e entra radiosa, bonita, na sala de baile. O cardeal está esperando num canto de salão conversando com Luís XIII. Quando ele vê a rainha chegar, o rei se apresenta diante da rainha e diz a ela quanto gosto tem de vê-la com aquelas jóias, etc., e diz assim:

Mas madame, é preciso — ele estava certo que ele ia assassinar a rainha nessa hora — que todos possam contar essas aiguillettes e verem que são exatamente as treze que eu lhe dei.

Ah, sire, pois não, vamos contar juntos.

Conta. Tudo direito. E está certo. A rainha muito contente, continuou a conversar com o rei, etc.

O rei vai para um canto e passa uma carraspana no Richelieu do outro mundo. O Richelieu percebe que a rainha tinha arranjado a coisa de outro jeito.

* O espírito humano trabalha as impressões que tem do mundo natural para imaginar todas as coisas num grau de virtude que é corolário delas

A torcida, mas muito mais do que a torcida, o ambiente, o Buckinghan, a rainha, o Richelieu, o Luís XIII, o Louvre, as portas da cidade de Paris que se abrem sobre seus velhos gonzos para deixar passar d’Artagnan dentro da cidade adormecida. O ploc-ploc dos cavalos que pulam dentro da cidade e que acordam os burgueses que saem com carapuça e vela para ver o que está se passando. Depois a chegada no Louvre, e a distensão da rainha e o xeque-mate no Richelieu, tudo isso se passa num ambiente que é um ambiente de corte, um ambiente de alto bom gosto, de alta distinção, não de alta moralidade, mas de alta distinção, e representando uma Veneza três.

(Sr. Gonzalo: Mas não seria a sobrenatural.)

Não é ainda. Mas é empíreo.

Daí entra um quarto elemento que é que o espírito humano depois de ler isto, sobretudo depois de ter vivido isso, se se tratasse de gente que vivia isso…

(Sr. Gonzalo: Mas ela, como é fica nela isso.)

Quem é ela?

(Sr. Gonzalo: Dona Lucilia.)

Você vai ver daqui a pouco.

O espírito humano trabalha isto para imaginar todas essas coisas num grau de virtude que é corolário dessas coisas todas. Porque todo esse luxo, todo esse esplendor tinha como corolário e pressuposto a virtude. Embora a virtude não estivesse presente, tinha isto. O luxo era naquele tempo a expressão da virtude. A expressão da alta categoria moral, etc., e não e expressão do que é hoje. Nem mais há luxo. Há uma sujeira.

Aqui o espírito humano começa a construir, mas já na ordem sobrenatural. Então é pensar em Branca de Castela, pensar em São Luís, pensar nos personagens virtuosos da corte, inclusive dos que viviam ali. Porque nesse ambiente era assíduo, por exemplo, São Vicente de Paula, M. Vincent, que era reconhecido por todo o mundo, era familiar do palácio. Então você tem um santo autêntico reconhecido e venerado por todos, diante do qual todos se descobrem quando ele passa. Feio, com um … [vira a fita]

secreta de nobres que trabalham pela moralidade. Você vê que aí entra uma coisa que fica entre o sobrenatural e o irreal, e que é o mais alto.

* A SDL sabia fazer reviver em seu espírito as coisas que ficam entre o sobrenatural e o irreal, com uma enorme aptidão e com uma participação da alma dela.

No espírito dela, ela sabia fazer reviver tudo isto com uma enorme aptidão e com uma participação da alma dela. Ela veria isto, ela queria isto com a alma com que um São Vicente de Paula quereria. E certamente se fosse um gentilhomme, faria parte da sociedade secreta chamada La cabale du Très Saint Sacrement. E toda a narração dela se impregnava promiscuamente dessas três coisas, ou quatro que eu estou distinguindo. E tudo isto com uma naturalidade muito grande e agradável.

De maneira que eu navegava por esses vários ares, mas sentindo as diferenças. Sem ser capaz como hoje de dar essa descrição como eu estou dando. Mas sentindo a fundo, notando a fundo. Você compreende o que é que era a ação dela. Porque de toda a família dela não tinha uma pessoa que fosse capaz de fazer essas descrições nem essas narrações, nem nada, não tinha ninguém. Do que não é difícil convencer os outros porque não tem em nenhum lugar.

* O “lumen” da SDL vinha de um conjunto que era uma concepção da vida, mas era uma concepção da vida e era um modo de ser da pessoa humana

(Sr. Gonzalo: E o “lumen” vinha de tudo isso?)

Vinha de tudo isso.

Ora era uma coisa, era outra, de um conjunto que era uma concepção da vida. Mas era uma concepção da vida e era um modo de ser da pessoa humana.

(Sr. P. Roberto: O sobrenatural para ela encontrava seu ambiente no tal enquanto tal.)

No tal enquanto tal.

(Sr. P. Roberto: Isso se identifica com o senhor também.)

O quê? Identifica comigo? Ah, completamente!

(Sr. P. Roberto: Foi nesse ambiente que o senhor propriamente…)

Ah sim, foi! Para mim, isso aí ou aquela pintura do quadro do Coração de Jesus falando com Santa Margarida Maria Alacoque são coisas…

(Sr. P. Roberto: Conaturais.)

Exatamente. Harmônicas.

(Sr. Gonzalo: Esse “lumen” que o senhor via desde menino, nela, era composto de todos esses elementos…)

Era uma irização, uma opalecência de tudo isso.

(Sr. Gonzalo: Tem muitos assuntos para outra reunião. É tarde para o senhor…)

Na medida que queira…

(Sr. Gonzalo: Se nós não entendemos mal logo no começo da reunião, o olhar essa luz que daí provém, seria propriamente a resposta para tudo que o senhor nos disse na Reunião de Recortes.)

É isso.

(Cel. Poli: Está [tudo certo?] isso?)

Está tudo.

(Sr. Gonzalo: Há um mundo para tratar ainda.)

Mas há um mundo. É todo o mundo da Contra-Revolução em oposição ao mundo da Revolução.

(Sr. Gonzalo: Nessa pista, na linguagem do “lumen” que o senhor pode falar pouco e em poucos lugares, ir mostrando a importância disso que é fundamental… o pedido é mais esse, não ficar na teoria que é fabulosa da RCR, mas como esse “lumen” se move, e como é extraordinário.)

* A substância da própria concepção RCR só encontra toda a sua elevação no terreno metafísico e sobrenatural

Hoje, falando da RCR ali, o que eu quis dizer é que a substância da própria concepção RCR só encontra toda a sua elevação nesse terreno.

(Sr. Gonzalo: Está magnífico.)

Agora, meu filho, eu sou obrigado…

(Sr. Gonzalo: Está tardíssimo.)

Porque amanhã tem herr Von Storch…

Que horas são no momento?

(Sr. Guerreiro: Mas não de manhã, não é senhor?)

Vamos ver. Vamos ver.

Bom, vamos então…

(Sr. Gonzalo: Está extraordinário. Que ela tenha muito mais misericórdia…)

Isso, e terá certamente.

Vamos então rezar, meu filho.

(Sr. Gonzalo: Sexta-feira, tínhamos combinado de ir ao túmulo de manhã, e queríamos que o senhor colocasse a intenção…)

Sexta-feira? Por que sexta-feira?

(Sr. Gonzalo: Não sei. Se o senhor quiser outro dia…)

Não.

(Sr. Gonzalo: Mas na intenção que nós tínhamos era que ela interviesse energicamente contra o “estrondo”, mas também que ela vê um modo de sanar as almas e poder estarmos muito unidos ao senhor.)

Está muito bem.

(Sr. Gonzalo: Não sei se o senhor tem outras intenções que possa dar ao coronel, se fosse possível.)

Ainda falamos disso, dessas intenções. Está bem, meu filho.

Há momentos minha Mãe…

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