Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
5/2/94 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 5/2/94 — Sábado
O Sr. Dr. Plinio vê uma foto do quadro de Goya que ele comentou na reunião anterior: “O terror” * No quadro, Goya insinua que o terror é um demônio, mas sem usar nenhum dos atributos habituais do demônio * “Se eu tivesse o talento que eu não tenho, eu quereria aumentar o quadro do Goya e a partir daqui pintar a Contra-Revolução” * A doutrina da Revolução e da Contra-Revolução angélicas * Carlos Magno é o Anjo bom que reduziu toda a canalha ao estado que se sabe * A forma de virtude que é o segredo de Maria * Nós temos um modo de sentir quando o filão de Elias trabalha em nós: é quando nós sentimos certa forma de entusiasmo, que nos põe como que fora de nós, ainda que seja por instante * Carlos Magno irradia o poder eliático o tempo inteiro e não há coisa que ele faça que não resplandece isso * Tudo aquilo que tocou em Carlos Magno fica com uma sacralidade que as pessoas tocam com a ponta dos dedos: isso é uma coisa eliática
(Sr. Guerreiro: Ampliado lucraria mais.)
Ampliado?
(Sr. Guerreiro: Devia ser mais ampliado e colorido.)
Mas ele é colorido.
(Sr. Gonzalo: […inaudível].)
É isso mesmo. É isso mesmo.
* O Sr. Dr. Plinio vê uma foto do quadro de Goya que ele comentou na reunião anterior: “O terror”
(Sr. Gonzalo: O que é impressionante é quando o senhor o descreve.)
Agora, isso aí o que é que é isso?
(Sr. Gonzalo: Isso é toda a fuga embaixo. Os animais, as carroças, os homens que vão todos fugindo. Porque isto é um evolar-se de uma coisa que…)
(Sr. Guerreiro: Uma espécie de demiurgo que sintetiza que […inaudível] sobre esse pânico.)
É isso.
(Sr. Gonzalo: Que é um pânico maior do que a soma dos pânicos que as pessoas de baixo seriam capazes.)
É isso.
(Sr. Gonzalo: […] Na guerra os enclaves bons e ruins entram em jogo.)
Mas o quadro é muito bem feito, não é?
(Cel. Poli: Esse quadro o senhor teria em qualquer lugar? No quarto, no escritório, ou teria que ter um lugar?)
Não, numa sala estaria bem. Agora, seria uma judiação um quarto desse valor guardar num quarto de dormir.
(Cel. Poli: Mas quanto ao efeito dele?)
Aí ele tem um efeito enorme em qualquer lugar.
(Cel. Poli: Mas o efeito seria [para quando se está] no quarto, no escritório, numa sala de conversa…)
(Sr. Gonzalo: O Sr. diz o quadro original?)
Sim é claro. Agora, o quadro do Goya não é muito maior que isso.
(Sr. Gonzalo: Sim, mas colorido deve ter muito…)
Ah, não tem comparação. Não tem comparação.
(Sr. Guerreiro: O original não é muito maior que esse?)
Não é muito maior que esse não.
Olha aqui, aquele quadrinho que está ali, é mais ou menos o tamanho disso. É um pouco mais alto do que aquele quadrinho, mas pouca coisa, não é muito…
* O que impressiona é a pouca importância com que o quadro de Goya está pendurado numa parede qualquer do Prado
O que impressiona é a pouca importância com que ele está pendurado numa parede qualquer. É verdade que o Prado é um museu fabulosamente rico, e a Espanha tem sido rica em pintores de modo inimaginável. E depois eles têm recolhido também de fora, no tempo que a Espanha tinha uma espécie de domínio — habsburguiano — sobre toda a Europa, eles importaram muita coisa, encomendaram quadros, etc., e quando a Espanha foi perdendo, os museus continuaram cheios. De maneira que conservou essa coisa toda.
Agora, o quadro é estupendo!
* No quadro, Goya insinua que o terror é um demônio, mas sem usar nenhum dos atributos habituais do demônio
O que eu talvez não tenha dito — se eu disse me avisem para eu não desenvolver a idéia — é o seguinte: como ele insinua que o terror é um demônio, sem usar nenhum dos atributos habituais do demônio, nem chifre, nem nada disso. Mas apenas pelo aspecto dele, sinistro, se vê que ele é um demônio, não é? Quer dizer, ele é brutalmente corpulento. A musculatura dele está muito bem representada. Essa musculatura podia ser considerada num estudo sobre a musculatura, é uma coisa fantástica.
(Sr. P. Roberto: Ele teria aprendido isso em algum lugar?)
Não sei, eu ignoro tudo da vida dele.
(Sr. P. Roberto: Porque parece.)
(Sr. Guerreiro: Isso é um pouco musculatura quase de pintores renascentistas.)
Sim, mas os renascentistas procuraram faire beau, ele aqui procurou faire laid.
(Sr. P. Roberto: A idéia de que o terror seria um demônio será que ele não quereria expressar isso de propósito mesmo?)
Ah não, eu acho que foi.
(Sr. P. Roberto: Ele teria apreendido isso em alguma loja.)
Ah não, isso é na certa. Eu entendi se ele teria estudado para fazer o geral do quadro.
(Sr. Gonzalo: É um demônio não de chifre…)
E depois por exemplo, os braços do demônio… olha aqui esse braço, você está vendo que é uma musculatura possante mas mal desenhada, assim que o braço dele tende, por exemplo, desta posição para alongar-se para cá, já o faz feiamente e depois ele em vez de seguir de cá para cá, ele desce para cá, sob para lá, imperceptivelmente há os movimentos do mal dentro disso. É uma coisa muito bem estudada.
Você vê o tronco dele. O tronco é meio disforme em relação aos braços e a tudo, em relação à altura do próprio tronco ele é desforme. No todo dele é feio e infeliz.
(Sr. Guerreiro: Mal nascido.)
Mal nascido. E com tudo isso ele insinua a natureza demoníaca desse ser.
(Dr. Edwaldo: Revoltado.)
Revoltado. E depois o ser não… ele não exprime propriamente ódio desse ser em relação a estes, mas esse ser causa pânico, em parte ele está imanente nesta miuçalha. Isso aqui. E é como uma espécie de fumaça que se evola até aqui e forma esse ser. Mas de outro lado não é isso, ele está assim, porque em qualquer lugar que existe ele é assim. E pairando sobre essas coisas ele faz sentir o eflúvio de sua natureza maléfica e daí o fato de causar o pânico.
(Sr. Gonzalo: Ele é causa e efeito ao mesmo tempo.)
Causa e efeito.
(Sr. Guerreiro: De um pânico poderoso.)
Possante!
(Sr. Paulo Henrique: Porque na verdade ele ocupa dois terços do quadro e essa parte um terço.)
Isso.
Agora, o que se poderia fazer, se quiséssemos, era o seguinte: está na Espanha o Casté, e perguntar ao Casté, mandar uma fotografia disso ao Casté e perguntar se ele conhece uma gravurinha comum — não precisa ser uma coisa cara — mas muito visível, muito…
(Dr. Edwaldo: Eles vendem lá no museu todos os quadros. São baratas e muito bem feitas.)
Baratas e bem feitas, é?
Eu não sabia disso.
(Sr. Gonzalo: Eu posso mandar pedir se o sr. quiser.)
Você quer fazer o favor?
(Sr. Gonzalo: Não tem problema nenhum.)
(Sr. Guerreiro: Se for possível não um só exemplar, mas mais.)
É.
(Sr. Guerreiro: Depois dessa conversa que o senhor teve conosco sobre toda essa temática… são dessas ilustrações que nós devemos guardar e que fazem parte da nossa vida.)
* “Se eu tivesse o talento que eu não tenho, eu quereria aumentar o quadro do Goya e a partir daqui pintar a Contra-Revolução”
Eu quereria, se eu tivesse o talento que eu não tenho, é pintar, aumentar o quadro do Goya e a partir daqui pintar a Contra-Revolução.
(Sr. Paulo Henrique: E aí fazer um embate.)
Embate.
(Sr. Horácio B.: Como seria o personagem que figuraria em cima, a Contra-Revolução?)
Eu não mandava segurar por em cima, em mandava um eflúvio partir debaixo sob a forma não de flexas, que é um símbolo muito comum, mas de pequenos cilindros mas muito mais… cujo diâmetro estaria desproporcionado com a altura, uns cilindros capazes de entrar na carne dele para fazer mal, mas sem o fino da flexa, de maneira que arrebentasse, estourasse tudo pelo caminho, eu faria partir debaixo uma quantidade grande de cilindros desses, emanados de um exército que estivesse, por exemplo, todo armado a medieval e cujas couraças ao sol emitissem, pssit!, por cima dele.
(Sr. Horácio B.: E o hábito do Grupo não teria esse mesmo efeito.)
Poder-se-ia imaginar.
(Sr. Guerreiro: Mas [não vamos ficar?] na original senhor, porque o senhor acabou de ditar a inspiração para um quadro.)
* Ou um quadro é todo dicedor ou ele não está bem pintado
E depois outra coisa. Notem como tudo… é que num quadro desse a gente tem que pensar que nada é por acaso. Se imaginar que alguma coisa é por acaso, rateou a análise do quadro. Porque um grande pintor desses não perde oportunidades de exprimir o que ele quer em nada do quadro. Quer dizer, ou o quadro é todo dicedor ou o quadro não está bem pintado.
(Sr. Guerreiro: Não existe espontaneidade aí.)
Não.
Agora, vejam o modo pelo qual as nuvens estão espalhadas pelo céu. Elas estão numa desordem, e elas são grandes, sobretudo uma grandona que está aqui é em ponto nuvem o que o homem é para homem, mas toda disforme, toda assim, mas muito poderosa ao mesmo tempo. E não fica claro se essa nuvem constitui… se continua por detrás dele ou se são duas nuvens diferentes, o que já é um elemento de desordem.
E depois os contornos das nuvens são muito irregulares, são umas bolonas de nuvens sem beleza nenhuma — porque essas nuvens não têm beleza nenhuma — e que entram em contraste com este céu que se não fosse elas seria bonito, mas elas espalham uma feiúra por tudo aquilo que faz com que tudo isto seja o habitat próprio deste demônio.
* Goya pintou o demônio meio de costas para tirar o corpo do encargo de representar a cara
(Dr. Edwaldo: Por que o senhor acha que ele pôs o demônio? Porque o demônio teria que estar voltado para a cena que se passa embaixo, e ele está meio de costas assim.)
Eu acho que é evidente o seguinte: ele tirou o corpo do encargo de representar a cara. Mesmo porque a cara que a gente não pinta, esta cara não está sujeita a ficar abaixo do tema e uma vez que ele teve tal êxito no corpo o melhor é não pintar a cara.
(Sr. P. Roberto: Coisa de pintor genial também.)
Também, também.
* A pintura de Goya deixa entrever a cara olhando para o corpo; a cara desse corpo é uma cara monstruosa
Agora, ele deixa entrever a cara olhando para o corpo. A cara desse corpo é uma cara monstruosa. Feia! É uma coisa medonha. E esse pessoal sente o impacto completamente, não é?
(Sr. Gonzalo: E na luta do senhor com a Revolução o senhor se dirige muito mais a esse personagem que se evola do que propriamente aos fatos. Isso é uma realidade muito viva.)
Muito.
(Sr. Gonzalo: E na ordem ruim há uma transesfera […] há uma ação preternatural contínua, que quando o senhor luta, o senhor faz uma campanha, etc., tudo tem como objeto esse ser que se evola disso ou não?)
Ah tem. Continuamente isso.
(Sr. Gonzalo: Esse é o alvo contínuo.)
O alvo contínuo.
(Sr. Gonzalo: […] Nós achamos que é um fulano, mengano, um presidente…)
É, mas isso é muito baixa-de-nível.
(Sr. Gonzalo: O que o senhor está figurando dos cruzados, o senhor continuamente está fazendo isso com o demônio. Esse ser, ao longo da história do senhor, tem mudado de fisionomia? A figura que se foi colocando ao longo da vida do senhor…)
Contra a qual eu luto. Meu inimigo.
(Sr. Gonzalo: Exatamente. Isso foi mudando de fisionomia ou é fixo?)
Não, ele é fixo. Ele pode mudar de traços, pode mudar de coisas, mas no fundo plus ça change plus c’est la même chose.
(Sr. Gonzalo: São caretas que usa mas que é o mesmo.)
É o mesmo.
(Sr. Paulo Henrique: E a proporção que ele usou aqui seria mais ou menos a proporção que o senhor vê esse inimigo? Porque ele usa dois terços para representar o impalpável, e um terço para representar aquilo que… ou menos de um terço até.)
Menos. Para minha vista menos de um terço.
(Sr. Paulo Henrique: A proporção dele está boa? É isso mesmo que se passa na realidade ou é mais?)
Eu acho o seguinte: é que parece ser mais até, mas que na realidade isso dá para acrescentar para a reunião de hoje à tarde um dado que eu não dei à tarde, porque eu não tinha os elementos para explicitar, mas que corresponde à uma pergunta que me fez, se não me engano, o Ezcurra e que é o seguinte — se eu soubesse eu teria dito, eu detesto essa história de fingir que não sabe e no fundo sabe, mas para que ele de repente perceba que eu sei, então fica assim… isso é uma coisa horrível.
Mas a coisa é a seguinte: é que…
(Sr. Paulo Henrique: O senhor quer que apague a luz?)
Não para mim… para mim, meu filho, eu vi o suficiente, agora se vocês…
(Sr. P. Roberto: Nós já tínhamos visto…)
Eu já conhecia o quadro. Naturalmente ajuda a memória a gente ver de novo.
Mas o que é que eu ia dizendo?
Eu disse ao Ezcurra que não respondia porque eu não sabia responder.
* À propósito do Livro da Nobreza nós descobrimos, no conjunto do que se poderia chamar os contra-revolucionários de hoje, um número e um ânimo numa quantidade maiores do que se imaginaria
Mas a verdade é a seguinte: a coisa que eu não sabia responder eu encontro uma hipótese que talvez responda. É a seguinte: nós descobrimos, de repente, no conjunto do que se poderia chamar os contra-revolucionários de hoje, nós descobrimos um número e um ânimo e uma quantidade algum tanto maiores do que se podia imaginar.
(Sr. Gonzalo: À raiz do livro.)
À raiz do livro.
À raiz do livro quer dizer o seguinte: os fatos ocorridos com o livro levam-nos a notar isso.
Agora, essa existência, desses elementos ou fatores de Contra-Revolução, não será uma existência invisível, vaporosa, benfazeja, mas desconhecida a nós, como essa o é conhecida e malfazeja? E no fundo não foi a Providência que deu ordem a que esses elementos que são dela, de repente, se deixassem ver? E se deixassem mover, se deixassem sair do pó e do nada em que estavam por uma moção da graça? Então, a Contra-Revolução seria o contrário da Revolução mas numa linha de formosura, de varonilidade, de força, de beleza, mas posta numa posição dormiente, medrosa e pouco combativa, e, de repente vem uma luz que estava imanente neste conjunto que começa a brilhar como se alguém tivesse acendido dentro dela um sol, e ela começa a dar sinais de si que se revelam, por exemplo, no artigo que eu considero…
(Sr. Guerreiro: “The Wanderer”.)
Do “Wanderer”. Eu achei que era obrigatório que fosse o primeiro artigo da reunião.
(Sr. Gonzalo: Estava muito bem feito. Estava excelente.)
Excelente.
(Sr. Horácio B.: E a introdução que o senhor fez estava maravilhosa também…)
Pois é, porque era indispensável para a gente compreender.
Mas não se poderia imaginar a realidade total do quadro compondo-se de um Goya e de um anti-Goya antitéticos meio invisíveis, com forças, fraquezas, e lutando assim com emissões de impulsos quase magnéticos de um contra outro, de maneira a em certo momento partir do elemento bom — se quiser do Anjo bom — partir uma coisa extraordinária e o elemento ruim fica definhado, mole, etc., mas depois o bem existente no elemento bom, começa a comprazer-se consigo mesmo, se enfraquece e vai olhar para o outro lado, [e], de repente, o outro lado recuperou toda a força que tinha?
Essa não seria bem a hipótese que daria resposta à pergunta do Ezcurra?
(Sr. Gonzalo: Mas houve algo que foi um fator que fez com que isso acordasse. E isso é uma coisa que o senhor não pode tratar ainda. […] Na base há um sacrifício, há um ato de virtude que comprouve a Providência para que abrisse as comportas para que essa gente se manifestasse.)
* A luta entre o bem e o mal dar-se-ia na pessoa do homens, mas o fator decisivo é um misto dos homens, de Deus e do demônio
Sim. E a Providência, vamos dizer assim: teria de um lado Deus e de outro lado o demônio. E os bons pela sua atitude boa fazendo se expandir esse elemento bom, e os ruins pelas sua atitude ruim fazendo encolher e amortecer esses elementos e o mal expandir-se. E a luta, portanto, entre o bem e o mal dar-se-ia na pessoa do homens, mas o fator decisivo é um misto dos homens, de Deus e do demônio. Naturalmente é preciso não esquecer o papel de Nossa Senhora nisso.
(Sr. Guerreiro: Houve um cântico cantado com uma tal beleza, com uma tal elevação, e com tais harmonias que por assim dizer os Anjos que estavam distantes e desinteressados da luta dos homens, porque os homens bons eram medíocres e pocas, ouvindo isso se sentiram atraídos para essa luta e vieram então compor o outro lado do quadro de Goya.)
Exatamente. Exatamente.
(Sr. Guerreiro: Se não ouvissem esse cântico com toda essa pureza, com toda esta beleza, com todo este frêmito de entusiasmo e de indignação ao mesmo tempo, possivelmente esse Anjo não ouviria isso, não se interessaria por toda esta batalha.)
É.
* A doutrina da Revolução e da Contra-Revolução angélicas
E entraria aqui toda uma doutrina da Revolução e Contra-Revolução angélicos.
(Sr. Guerreiro: Como trazer os Anjos para a luta.)
Para trazer para a luta ou como que os demônios espancando os bons para que o caminho ficasse livre para ele mandar os porcalhões deles. Se podia pensar nisso.
(Sr. Paulo Henrique: […] Como o senhor vê hoje esses dois personagens lutando, o do senhor e do Goya?)
* Na ordem da transesfera, que impressão produz os fatos inesperados, relacionados com Livro do Sr. Dr. Plinio sobre a Nobreza?
Dir-se-ia, meu filho, que se devia se ver da seguinte maneira: do lado do demônio havia tudo o que se sabe, mais uma espécie de poder de jugular e de manter o pé em cima do pescoço dos bons indefinidamente. Da parte de Deus haveria o ter consentido em que isso se fizesse por um súbito amolecimento dos bons. Mas com a idéia de que quando um certo tempo de penitência se acabasse, os bons seriam liberados, e os maus teriam que retirar o pé do pescoço dele e ele poderia começar a sua contra ofensiva. Então brilhante, forte e reluzente.
Porque dir-se-ia, com o que está se passando conosco, dir-se-ia que já é uma coisa dessa que está se passando.
Eu tenho a impressão de que isto é… é o momento em que isto foi solto e que nós pudemos encontrar as pessoas que ornariam o nosso carro de triunfo e que o levariam, e no momento em que isso se encontrou, que o demônio ficou assim…
Naturalmente é uma hipótese.
(Sr. Gonzalo: Mas o profetismo propriamente é isso.)
É.
(Sr. Gonzalo: Mexe nessa ordem de realidade muito mais do que na outra.)
Muito mais do que na outra.
(Sr. Gonzalo: A outra seria pretexto para mover a Deus e trazer os Anjos.)
Isso, exatamente.
Acho que fica muito bonito.
(Sr. Paulo Henrique: Está excelente, agradeço muito a resposta.)
* Carlos Magno é o Anjo bom que reduziu toda a canalha ao estado que se sabe
O que fica muito bonito aí é o papel de Carlos Magno. Porque Carlos Magno é o Anjo bom e que reduziu a canalha toda ao estado que você sabe. Mas é um estado tal que durante séculos e séculos o mal progrediu saindo lentamente e machucado, indolente, sem vontade de lutar, etc., de sua condição de escravo para passar aos poucos à condição de senhor. E conosco foi se dando o contrário. Nós fomos deixando a nossa condição de príncipes, e fomos lentamente nos deixando envolver para a condição de escravo do mal.
(Sr. Gonzalo: Até que chegou o homem que está à direita de Carlos Magno.)
Isso…
(Sr. Paulo Henrique: Porque no personagem mítico do Goya está representando o pecado de Revolução.)
É, aqui…
(Sr. Paulo Henrique: Então precisamos imaginar esse exército com outro Carlos Magno.)
* O quadro de Goya é a imagem da Revolução metendo terror em pessoas que não são a Contra-Revolução, mas que também não são a Revolução
Aqui é a imagem da Revolução metendo terror em pessoas que não são a Contra-Revolução, mas que não são a Revolução e que por isso ele odeia e gostaria de estraçalhar, porque tudo que não é Revolução ele gosta de estraçalhar. E os papalvos, os babaquaras apavorados: “Como é que nós vamos fazer!? A situação não tem saída, etc.”
Diga meu filho.
(Sr. Guerreiro: […] Como atrair os Anjos para esta conflagração? Com o livro do senhor, se altera esse quadro da luta nessa esfera […]. E os espaços por assim dizer infinitos foram de repente preenchidos por algo de bom oposto a esse demiurgo que o Goya apresenta no quadro dele, que dá sustentação a toda a ação que o senhor move nesse plano. Posto que isto foi possível, como continuar dentro desta perspectiva?)
Como nós continuarmos?
(Sr. Guerreiro: É. Me pareceu que o senhor queria tratar disso. […])
(…)
Há alguma coisa que a gente sente ao vivo que é assim — aliás, tratamos disso no MNF — que a tese tal enquanto tal, essa tese desvenda à maneira de símbolo algo de profundamente real na ordem do universo que uma vez desvendado se faça amar pelos homens de um modo extraordinário como talvez nunca até hoje. E que não desvendado fica como uma crosta, como dizia o Gonzalo, e os homens não sentindo o problema a não ser vagamente, não se interessando pelo problema a não ser […inaudível] quase nada, por esta espécie de cegueira em que essa coisa os põe, o demônio fica dono da situação.
Em termos mais precisos.
* Vendo no tal enquanto tal uma ordem espiritual e temporal de tal maneira harmônicas fica-se conquistado por uma força extraordinária
Você imaginando o tal enquanto tal, e no tal enquanto tal uma ordem espiritual e temporal de tal maneira harmônicas que a ordem espiritual sente, conhece e sabe os influxos que ela pode receber da ordem temporal e o quanto é necessário para ela que a ordem temporal seja ordenada por ela em relação a ela, para que tudo corra bem. E a gente imaginando uma coisa construída assim, imagina algo com uma tal delicadeza de alma, com uma tal sensibilidade de alma, com uma tal força de alma, uma tal perspectiva que quem vê e pertence a Deus, este fica conquistado com uma força extraordinária.
Agora, imagine que nessa mesma ordem de coisas a força espiritual sinta o simétrico com a força temporal e que a força temporal por isso tenha conhecimento de quanto ela é feita para o serviço da espiritual, de quanto nela tudo se deve orientar para o espiritual, de quanto é postiço, artificial e besta, tudo que nela desvie desta meta que é de servir o espiritual.
Você imagine as duas coisas se compondo assim, você tem uma luz, uma transparência, uma beleza que é muito difícil uma pessoa se dar conta até que ponto vai.
* A forma de virtude que é o segredo de Maria
Aí você tem uma idéia de como serão as almas que terão isto continuamente diante dos olhos e que por terem isso continuamente diante dos olhos — este é o segredo de Maria — têm uma forma de virtude, e uma forma e uma qualidade, uma excelência de qualidade incomparável, e que por isso mesmo essa posição faz nascer flores e frutos, e odores, e sons incomparáveis, que vêm de que este ponto de união — que é o ponto a partir do qual todo o resto está bem ou está mal — que esse ponto de união irradia continuamente junto ao mundo. Isto é o espírito de Maria, e a forma de virtude que decorre disso e que isto pressupõe é a forma de virtude que é o segredo de Maria.
* O profeta Elias existe para proteger de todas as forças adversas o segredo de Maria que resta no mundo, e para lutar pela implantação desse reino [do Segredo de Maria]
Agora, no meu modo de entender, o profeta Elias existe em algo que seria como que o Paraíso — e que eu imagino que seja o Paraíso — existe para proteger isto do segredo de Maria que resta no mundo, de todas as forças adversas, e lutar para implantar esse reino. E depois manter contra todas as tentativas de reimplantar a porcaria presente. E esse seria também Elias.
Agora, que os homens que depois de Elias tenham guardado esse espírito — e eu tenho a impressão que os homens do presente guardam mais do que muitos outros de épocas anteriores — que esses homens serão como que reduções de Elias e continuações de Elias. Carlos Magno teria sido um continuador de Elias.
(Sr. Gonzalo: O filão eliático fica muito bem explicado.)
Muito.
(Sr. Gonzalo: A missão…)
A missão fica inteiramente explicada.
* Nós temos um modo de sentir quando o filão de Elias trabalha em nós: é quando nós sentimos certa forma de entusiasmo, que nos põe como que fora de nós, ainda que seja por instante
E nós temos um jeito de sentir quando o filão de Elias trabalha em nós: é quando nós sentimos certa forma de entusiasmo, certo arrepio interior, que nos põe todos como que fora de nós, ainda que seja por instante. E que nós quereríamos nesta hora sair da casa de nossa pele e sermos outros e abandonar tudo e fazer como Elias, tocar a vida só para isso, etc. Isto será a TFP que são os soldados do filão de Elias.
* Virá um momento em que entre os filhos de Elias se apresentará o filho da abominação e os filhos de Elias começarão a decair
Agora, virá um momento em que entre os filhos de Elias se apresentará o filho da abominação e os filhos de Elias começarão a decair, eles começarão a se dar bem com gente de fora do grupo de Elias, e presentes, boas amizades, como vai, etc., etc., e aí vem até o anticristo e depois vem Nosso Senhor [que] com o sopro da boca elimina o anticristo, declara extinta a História e estabelece em estado de perenidade o seu reino, que teria existido durante a História por intervalos mais longos ou menos mas que de fato neste lance de depois da instalação do Reino de Maria, terá sido a mais longa duração do poder de Elias.
E eu creio verdadeiramente que Elias pode, é razoável, é cabível crer que Elias apareça a vocês… [vira a fita]
… da Escritura que é assim: [Filii ejus surrexerunt et beatissimae praedicaverunt??]. “Os filhos d’Ela se levantaram e a proclamaram muito bem aventurada”. É Elias e a grei toda de Elias.
(Sr. Guerreiro: […] Para nós fica muito mais didático ver Elias depois do que o senhor […inaudível] Elias entre o senhor e nós. É uma questão didática para nós aqui.)
Não, isso… convencionado o caráter didático da coisa, não tem nenhuma dificuldade.
(Sr. Guerreiro: É melhor ver o assunto todo sem aquela montagem que tem no auditório, é ver o senhor diretamente…)
Fora da cabine
(Sr. Guerreiro: Fora da cabine.)
Ahahahahah!
(Sr. Guerreiro: A cabine é necessária devido a certas circunstâncias…)
Não, não há problema.
Você quer que eu diga a você?
* Carlos Magno irradia o poder eliático o tempo inteiro e não há coisa que ele faça que não resplandece isso
Carlos Magno irradia esse poder eliático o tempo inteiro e não há coisa que ele faça que não resplandece isso. É fora de dúvida.
Então, por exemplo, Napoleão fez porcarias, ele não podia deixar de fazer, ele foi para Aachen mexer lá no túmulo e nas coisas todas de Carlos Magno, e entre outras coisas ele mexeu no trono de Carlos Magno. O trono de Carlos Magno parece de um caipirismo, uma coisa assustadora, ele é estreitinho, alto, e de umas plaquinhas, uma coisa que eu chamaria quase de ladrilho, ladrilho branco mas de um branco que não tem nada de esplendoroso nem nada.
Depois eu ouvi dizer que era todo forrado de placa de ouro, que Napoleão mandou arrancar as placas de ouro para levar para a França para fazer um trono para ele. Eram as megalices ordinárias e sem-vergonha dele.
Como também algumas colunas de pedras do Oriente muito bonitas que Carlos Magno tinha mandado vir e que davam o suporte à nave central da igreja, Napoleão mandou levar embora. Mas que essas, os aliados do tratado de Viena de 1814 exigiram que a França restituísse. Donde eu deduzo que a França que já era dos Bourbons não queria restituir. E que veio pressão de todos os vencedores de Napoleão exigindo. E a França então restituiu e as colunas foram repostas.
* Tudo aquilo que tocou em Carlos Magno fica com uma sacralidade que as pessoas tocam com a ponta dos dedos: isso é uma coisa eliática
Mas seja de um jeito ou doutro, tudo aquilo que tocou em Carlos Magno fica com uma sacralidade que as pessoas tocam com a ponta dos dedos. Isso é uma coisa eliática.
(Sr. P. Roberto: Essa grandeza carolíngia que havia nesse embate, daqui para frente consistiria em quê?)
No momento presente consistiria no seguinte: se você presta atenção na coisa…
(…)
Então se chega à conclusão de que as coisas estavam correndo num rumo que eles não desejavam, e que, portanto, grosso modo falando, houvera uma diminuição de força diretiva sobre os acontecimentos. Visto de um lado.
Visto de outro lado, então muito mais recentemente, quando saíram à lume as história dos vários fracassos para chegar a Maastricht e depois do desastre de Maastricht, e depois a fraude com que Maastricht afinal de contas se fez pseudo-eleger, etc., ficou inteiramente claro que o rumo diretivo da opinião pública eles não têm. Mas tudo isso levando à esperança de que as classes que tinham sido vítimas da aplicação desse rumo diretivo contra ela, era muito natural que estivessem mais regaillardi.
Meus caros, se me derem licença…
(Sr. Gonzalo: Uma noite verdadeiramente histórica.)
Graças a Nossa Senhora.
Benedictio…
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