Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 1/1/94 – Sábado – p. 20 de 20

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 1/1/94 — Sábado

Nós estamos nas poças de água [salgada da praia] da Bagarre” * Quando a criminalidade chega ao ponto que chegou, ela toma o aspecto de insolúvel com uma propagação muito rápida e com pormenores que vão somando o horrível ao horrível até o inimaginável * A incurabilidade do avanço da criminalidade acaba dando numa degenerescência global, e esta degenerescência é a Bagarre * Com o avanço do caos ficará cada vez mais clara aos olhos do público a posição sempre impoluta do SDP * O modo pelo qual a sociedade se precipitou no mata-mata: a “camambertização” do gênero humano * Um conjunto de dignatários eclesiástico poderia ser o ponto de partida para uma resistência; mas hoje o que é que é? É o ponto de partida da infecção! * O esfuziar de luz prateada em torno do Livro da Nobreza pode preparar uma focalização da TFP como sendo uma luz, uma saída a jogar um papel “x” no fato concreto ainda não previsível * O sonho do SDP com a SDL teve o efeito, guardadas as devidas proporções, do cálice que o Anjo trouxe para Nosso Senhor durante a agonia no Horto

Mas hoje, eu proponho um pouquinho do assunto.

A menos, a menos que…

(Não!)

(Sr. P. Roberto: Temos que começar o ano assim.)

(Sr. Gonzalo: E terminá-lo assim.)

O Mario e o Poli que estavam presentes podem ajudar a composição do quadro.

* A criminalidade atingiu um tal grau de expansão, de nocividade e de audácia que praticamente se deve dizer que os governos e estados se mostram impotentes em conter a criminalidade na sua raiz

Mas, o quadro é extremamente importante — e o Fernando estava também — e deve ser matéria para uma conversa de primeiro do ano.

A conversa andou assim, conversa de almoço sem maior engajamento de nada e não sei como entrou desde logo a respeito de negócio de crime e assaltos, etc., e cada um foi contando alguma coisa que leu, que ouviu, de que tem notícias, etc.

Eu de algum tempo para cá tenho feito, desde que estou com esse incômodo na vista, tenho feito o Luis Gonzaga ler-me de manhã as partes mais importantes do jornal. E quando começou esse serviço com ele, eu dei com todo desembaraço, com a maior segurança do mundo a seguinte instrução: notícias de crime, resumo de crime, nunca. Não quero saber disso. Que é o que fazia qualquer pessoa sensata, vamos dizer, há um ano atrás.

Eu, portanto, tenho acompanhado muito pouco essa história de criminalidade. Sabia, naturalmente, que vai mar alto, que está terrível, esses gemidos que se tornam banais à força de se repetirem e cada vez até mais dolorido, mas se tornam banais, esses gemidos eu conhecia vagamente o conteúdo desses gemidos.

E eles, os que estavam comigo, vendo que eu estava pouco informado foram contando isto, aquilo, aquilo outro. O Mario com várias narrações de coisas dos Estados Unidos e tal. E aos poucos, conversando, foi se precisando em nosso espírito a tese seguinte:

A criminalidade atingiu um tal grau de expansão, de nocividade e de audácia que praticamente se deve dizer que os governos e estados se mostram impotentes em conter a criminalidade na sua raiz.

* Quando a criminalidade chega ao ponto que chegou, ela toma o aspecto de insolúvel com uma propagação muito rápida e com pormenores que vão somando o horrível ao horrível até o inimaginável

O fato provado é o fato do qual eu já tinha ouvido falar, e tenho idéia até que comentamos alguma coisa aqui numa das nossas reuniões, daqueles dois inglesinhos de 9 ou 10 anos…

(Sr. Gonzalo: Na Reunião de Recortes.)

Na Reunião de Recortes, não é?

Que mataram uma criança de 2 anos ou 1 ano, sei lá o quê, e depois de maltratar a criança, etc., levaram nos trilhos de um trem e o trem passou por cima da criança e estraçalhou naturalmente a criança, etc. Eles foram processados e ficou provado que eles eram os criminosos, etc.

Mas quando a coisa chega a esse ponto, que há numa determinada área de civilização, e vamos dizer que a Europa e América formam uma área de civilização própria, quando chega a esse ponto a criminalidade, atingiu causas tais, brotam de raízes tais, que pela natureza das coisas isso não está na altura do Estado de resolver. E o problema toma desde logo o aspecto de insolúvel. Insolúvel com uma propagação muito rápida e com pormenores que vão somando o horrível ao horrível como a gente não imagina.

Nós comentamos, por exemplo, o caso que se deu parece que há dias aqui em São Paulo de um homem que jantando com várias pessoas de sua família, inclusive esposa e filhos, em casa, casado há 17 anos com essa esposa, de repente mata ali, pan, pan! tiros, a esposa e parece que matou…

(Sr. Gonzalo: Sogro, sogra…)

Matou tudo?

(Sr. Gonzalo: Sim, senhor, não deixou nada.)

E depois foi ao telefone avisou à polícia o que é que ele fez e disse que estava à espera para ser preso, com os cadáveres todos ali.

Bom, naturalmente uma pessoa diria: “Mas Doutor Plinio, isso é um caso de desequilíbrio mental, não vale a pena nem analisar como crime, é um ato de loucura”.

* Antigamente para certos tipos de crime se pensava logo em loucura, mas hoje já não é mais assim

Antigamente isto era assim. Acontecia isto pensava-se logo em loucura, e está acabado. Mas não é, o homem foi examinado, foi considerado normal clinicamente, do ponto de vista da cabeça ele foi considerado normal. E ele deu como explicação que ele há 17 anos convivia com essa mulher e que não tinha agrado nenhum nisso, e que ele por causa disso resolveu matá-la.

Agora, por que é que ele matou sogro, sogra, filhos — os filhos dele!

(Sr. Paulo Henrique: Sobrinhos.)

Sobrinhos. Então os sobrinhos dele, como é que ele matou, como foi [fazer] uma coisa dessas maluca? Está para ser demonstrado no inquérito, mas é uma coisa que evidentemente não há razão que explique. Ainda mais quando o indivíduo sai com essa razão, que há 17 anos que ele não encontrava agrado no convívio com ela.

Quer dizer, está bom, separe! Vamos tomar a solução mais drástica, mais moderna no mau sentido da palavra, etc., para o caso: separe! Mas matar, e matar umas pessoas que não têm a menor culpa nisso, é uma coisa de louco!

E assim foram sendo mencionados vários outros casos. Eu não sei…

(Sr. Gonzalo: Todos os dias no jornal “O Estado de São Paulo”, tudo é uma barbaridade.)

Mas não é só no Brasil, é no exterior também?

(Sr. Gonzalo: Também, também. Mas aqui sai mais do Brasil.)

Sim.

(Sr. Gonzalo: Na Colômbia não deve ser muito diferente. Mas aqui é impressionante. “O Estado de São Paulo” publica muito mais coisa daqui, evidentemente.)

Sim, é natural.

* A criminalidade chegou a um tal ponto que qualquer trajetinho acaba sendo perigoso

A coisa acaba pondo-se assim, que são crimes também desses de simples assalto na rua. O número de pessoas agredidas na rua, como estaria arriscado de estar qualquer um de vocês se a esta hora saísse sozinho, por exemplo, para ir a pé desde aqui da porta de casa até a praça Marechal Deodoro…

(Sr. P. Roberto: Aí…)

(Sr. Gonzalo: Hoje, a esta hora, ir daqui aos Buissonets, é muito perigoso ir sozinho. Dr. Plinio Xavier outro dia me disse que as pessoas não falam por uma espécie de “imbecilização” no Grupo, mas que tem havido muitos membros do Grupo que têm sido assaltado entre a Sede do Reino de Maria e os Buissonets, mas as pessoas não falam, porque é normal.)

Tem havido menos gente?

(Sr. Gonzalo: Não, não, tem havido quantidades de membros do Grupo assaltados, mas que os membros do Grupo nem contam para outro por uma espécie de fenômeno de “estupidificação”… […] O próprio dr. PX me disse, não sei se daqui a Alagoas ou a Sede do Reino de Maria ou até os Buissonets, nesse trajeto, quantidade de pessoas.)

Um trajetinho de nada.

(Sr. Gonzalo: Ah?)

É um trajetinho de nada.

(Sr. Gonzalo: É muito puxado sair sozinho para baixo hoje [os Buissonets].)

São as coisas mais incríveis.

Por exemplo, contaram do caso — é um caso dos mais inocentes no conjunto — do Glavan, que por ordem médica faz todo o dia o trajeto de não sei onde até o cemitério. Ele vai e vem, vai e vem. E depois fica rezando, e depois quando quer ele vem para casa. Ele ia passando por aquela pracinha que tem atrás do cemitério da Consolação — é uma praça insignificante com uma árvore bonita até, em frente à concessionária da Chevrolet — um homem chegou para ele entrou assim um pouco num vão e esperou-o. Ele passou, o homem disse: “Me dê sua carteira! Me mostre sua carteira”.

Ele foi, mostrou a carteira e estava vazia. O sujeito deu um murro na cara dele. Ele foi e deu um murro na cara do sujeito. Ele pensou que fosse sair uma encrenca, mas aquela rudis indigestaque moles, do nosso bom Glavan meteu medo no sujeito e o sujeito não fez nada. Engoliu, encaixou o murro e ficou quieto. Mas casinhos assim é uma infinitude.

(Sr. Gonzalo: Aqui, o porteiro do prédio disse que é muito comum que passem ladrões que roubam carros e objetos que há dentro do carro e perguntam ao porteiro:

Esse carro é aqui do prédio ou não?

Não, não.

Então você não viu nada, hein.

Roubam a coisa. Isso todos os porteiros aqui… Em frente, na Sede do Reino de Maria, eu vi outro dia roubando carro. E as pessoas não reagem, porque se reagir…)

É uma loucura reagir.

(Sr. Paulo Henrique: Há cerca de um ano atrás eu assisti um assassinato ali a dez metros abaixo da Sede do Reino de Maria, na rua Itacolomi.)

Você assistiu, é?

(Sr. Paulo Henrique: Sim, estava descendo…)

Em que ponto da rua Itacolomi?

* A naturalidade com que os piores crimes vão se passando

(Sr. Paulo Henrique: Logo depois do quarteirão da Sede do Reino de Maria estava indo do lado direito. Do lado esquerdo onde construíram aquele prédio novo, um senhor de talvez uns 60 anos que mora num prédio ao lado, em frente a Sede do Reino de Maria na rua Maranhão, ele também fazia esse exercício de rodar o quarteirão. Dois dias antes, ele havia encontrado uns meninos roubando, dentro do edifício dele, os carros. E ele chamou a polícia. Então no primeiro dia que ele voltou não houve nada. No segundo, dois negrões o esperaram e o esfaquearam. Eu estava do outro lado do quarteirão assisti a cena.)

Quem assistiu a cena?

(Sr. Paulo Henrique: Eu assisti. Era ele de um lado e eu dou outro. E vi aquela confusão do outro lado, fiquei esperando para ver o que se tratava. Eles o jogaram no chão, e aí o esfaquearam. Eu vi de longe que era uma confusão grossa e não sabia se saía tiro ou não e não me aproximei. Mas à distância podia ir acompanhando. Aí o suspenderam pelo braço, jogam por cima de um automóvel, ele caiu com o nariz no chão. E aí saiu um negro para um lado e outro para outro. E um com uma faca desse tamanho. Depois veio um sr. e levantou a camisa e ele estava com um furo de todo tamanho no coração. Eu falei para ele: “O que o sr. deseja que faça? Está sentindo bem? Sente-se um pouco aí.” Mas daí a pouco o homem morreu.)

O homem morreu?

(Sr. Paulo Henrique: Morreu. Começou a chegar gente, etc., aí eu saí para não dar confusão com polícia, etc.)

Mas você veja como as… mas a questão é uma espécie de naturalidade com que essas coisas vão se passando. E essa história do automóvel que você contava, ou você, — foi você que falava — que perguntaram ao zelador aqui:

Esse automóvel é do prédio ou não?

Não, não é.

Você não viu nada, hein!

Equivale no fundo a dizer o seguinte: “Nós matamos a você, ou sai uma vingança grossa se você contar, não chame ninguém, não amole senão quem vai embora é você.”

Agora, vai rouba aquele negócio e sai.

(Cel. Poli: E mais ainda, é a você e também um ataque seletivo no prédio.)

Ah, assim é?

(Cel. Poli: É.)

Mas o que é um ataque seletivo?

(Cel. Poli: Pegamos alguém do prédio também para ir junto.)

Unh! Unh!

(Cel. Poli: Então o porteiro do prédio fica com respaldo para não agir também, senão compromete o prédio inteiro.)

Sim, claro.

* A lei cerceia tanto a polícia e dá tanta liberdade aos bandidos, que não há remédio e a conseqüência é que a coisa vai para frente sem haver meios de prever uma cicatrização desse mal

Veja a agilidade psicológica desse golpe. Quer dizer, dá ao porteiro, prontinha, uma explicação para dar para a polícia:

Eu não falei nem nada porque eu fiquei sobre essa coação.

Então o que é que aconteceu?

Não aconteceu nada. E está acabado.

Depois, como eles se movem para tornar a polícia mais ou menos ineficaz. A polícia diz que não tem meios para combater com eficácia umas coisas dessas. São tais jeitos, tais trejeitos, e a lei cerceia tanto a polícia e dá tanto a liberdade para esses canalhas, que não há remédio. E a conseqüência é que a coisa vai para frente, para frente, sem que haja meios de prever uma cicatrização desse mal que é no que a gente pensa espontaneamente. Porque o que vem na cabeça é o seguinte:

Bem, isto está horrível, mas houve tempo que isto não era assim, era até muito tranqüilo, foi por um processo de degenerescência não ruidoso, agravado pela propaganda dos crimes em televisão, foi por esse processo que a situação foi se agravando. Bem, assim como foi se agravando espontaneamente e sem causa definida, deve cicatrizar espontaneamente sem causas definidas. É o caso de não amolar muito e não combater a eles. Deixe, eles vão matando até o ponto que tenham morto tanto quanto queiram, e depois por uma reação geral indignada da população a coisa volta aos eixos”.

Não, não tem absolutamente ares de que um processo de cicatrização dessa enfermidade se opere em nenhum sentido.

* A avanço da criminalidade caminha para uma liquidação de todo poder organizado e para a implantação do mata-mata geral, que foi sempre onde o SDP previa que ia ter a Bagarre

Mas então o que é que é isso?

É uma coisa que caminha para uma liquidação de todo poder organizado e no fundo a liquidação do Estado. E a implantação do mata-mata geral que foi sempre onde nós dissemos que ia ter a Bagarre.

Quer dizer, o Gonzalo que está ultra documentado sobre essas coisas, está atestando que freqüentemente foi previsto isto: um mata-mata geral. As pessoas começam a se matar. E dizem:

Bom, mas e um entendimento entre elas?”

Há certas situações que não há entendimento possível. Como é que entre dois bandidos desses, um entendimento pode resolver qualquer coisa? Não pode resolver nada.

* A incurabilidade do avanço da criminalidade acaba dando numa degenerescência global, e esta degenerescência é a Bagarre

Quer dizer, então se este modo de ver a situação, se os dados são estes, se o modo de diagnosticar pela incurabilidade por uma cicatrização normal, se esse diagnóstico é verdadeiro, não tem o por onde escapar, acaba isso dando numa espécie de degenerescência global. Porque isso no fundo é uma degenerescência. Uma degenerescência global cujas causas próximas não é difícil a gente avaliar pelo que eu vou dizer daqui a pouco, essa degenerescência é a Bagarre.

Não sei se algum de vocês, diante dessa afirmação de que é a Bagarre, afirmação muito grave, certamente pouco festiva debaixo do ponto de vista de quem cuida de sua segurança imediata, muito libertadora enquanto…

Como?

(Sr. F. Antúnez: Nós não nascemos para cuidar de nossa segurança imediata, mas para outra coisa.)

É evidente, não é? [Ad maiora natis sumus??].

(Cel. Poli: É das notícias mais auspiciosas que o senhor nos está dando.)

(Sr. N. Fragelli: Eu acho que sobre ser auspiciosa não se pode exagerar num ponto, porque nós esperávamos que a Bagarre começasse por causas mais elevadas, ou religiosas, ou pelo menos políticas, mas que ela comece num pântano como esse, numa podridão desse tipo, é de fato um aspecto negro e que não traz o contentamento da bandeira despregada, de uma batalha “rangée”, de uma exposição de idéias, de uma proclamação… Porque aí não há proclamação a fazer.)

Uma polêmica, nada!

(Sr. N. Fragelli: É a mais suja possível.)

(Sr. M. Navarro: Mas há muito tempo que nós não esperávamos que fosse diferente, não é?)

(Cel. Poli: E depois que comece de qualquer jeito, sujo ou limpo, desde que comece, não é senhor? Porque não pode continuar desse jeito.)

* Na reunião sobre o Ordo Missae, no auditório da São Milas, o SDP prognosticava que o Ordo Missae era a destruição da Igreja e que traria o desabamento da sociedade civil

(Sr. Guerreiro: O que o senhor frisava muito, foi quando o senhor fez no auditório da São Milas, a reunião sobre o novo Ordo Missae, o senhor comentou que aquilo era a destruição da Igreja e que mais cedo ou mais tarde nós veríamos a sociedade civil desabar. O senhor disse.)

Foi.

(Sr. Guerreiro: E aqueles que quisessem guardar uma recordação desta reunião que levassem uma amostra daquele pano que cobria o quadro negro no fundo, que era um pano lilás, levassem que para quando isso começasse acontecer, nós nos lembrássemos que o senhor havia nos advertido naquela data.)

Sim.

(Sr. Guerreiro: Então a desintegração da sociedade civil como uma conseqüência necessária do crime perpetrado contra a Igreja, a gente vê que dentro deste enfoque geral, o que o senhor está comentando é um aspecto dessa desintegração. Quer dizer, são as conseqüências do crime cometido contra a Igreja que agora vão gerando esses vermes infames que vão comer o corpo da sociedade podre.)

Podre completamente por uma putrefação consentida senão até fabricada. O que tem, meu Nelson, é o seguinte:

* A atual criminalidade é o que o nojo pode oferecer de mais repelente

O que fica para quem tem o senso pelo menos do “decorum” das coisas, o que fica é a explicável tristeza de ver afundar num tal pântano, porque isso aqui é o que o nojo pode oferecer de mais repelente. Uma luta na qual nós engajamos a nossa vida inteira e na qual afinal de contas as coisas podem terminar dentro dessa sordície. Mas não se pode dizer que o que está se passando agora está alheio às hipóteses admitidas como hipóteses e não como previsões certas quando falávamos a respeito de Bagarre.

Eu me lembro que mais de uma vez eu falei do mata-mata final que seria depois, porque por bom-senso, por “decorum”, eu também imaginava uma batalha rangée, depois, se você quiser uma batalha melée, depois então vem…

(Sr. N. Fragelli: Até guerrilha.)

Até guerrilha, etc. Mas uma guerrilha por mais suja que seja, é mais limpa do que isso. Isso aqui é a morte do morfético, não é?

(Sr. N. Fragelli: E não difere o membro do Grupo do nhonhô aqui do lado.)

Não! Nada, nada!

(Sr. N. Fragelli: Nós entramos num igualitarismo terrível em matéria de posição religiosa e ideológica.)

* O Senhor Doutor Plinio sempre considerou o mata-mata como uma explosão de ódio, de nervosismo, de estupidez, de crime, que é o que está havendo

Bom, eu chego lá daqui a pouco.

Acontece que a situação dá no seguinte: é que sempre nós achamos — eu ao menos admitia essa hipótese — de que haveria esse mata-mata e considerava esse mata-mata como o epílogo de um começo mais decorável, mas o mata-mata eu não considerava como uma batalha ideológica, considerava como uma explosão de ódio, de nervosismo, de estupidez, de crime, que é o que estamos vendo.

Como, Paulo Roberto?

(Sr. P. Roberto: O senhor uma vez comentou numa reunião em Jazna Gora, de um sonho que um membro do Grupo teve em que as pessoas iam sendo atraídas de dentro do Grupo para fora, pelo frenesi que reinava fora, uma espécie de ritmo que havia em que as pessoas se matavam. Ora um saía, depois outro saía, atraídos por esse ritmo.)

É assim exatamente.

(Sr. P. Roberto: Mas que era bem essa situação atual em que nós estamos em que há uma espécie de hipnose pelo qual as pessoas são atraídas para entrar nisso aí também.)

É, exatamente, hipnose e possessão diabólica, tudo junto. É isso.

(Sr. F. Antúnez: Haveria um momento em que vai se “degagé” desse mata-mata, dessa podridão, etc., uma luta propriamente ideológica, religiosa, profética, e que o senhor levanta um estandarte e aparecem os dois exércitos lutando um em frente ao outro, ou o senhor prevê a morte do morfético?)

* Com o avanço do caos ficará cada vez mais clara aos olhos do público a posição sempre impoluta do Senhor Doutor Plinio

Meu filho, quer me parecer que no jeito que a coisa toma, está se colocando uma alternativa que é a seguinte:

De um lado um mundo contra o qual vai ficando cada vez mais claro [o] que nós sempre fomos, sempre escrevemos, sempre falamos, e do qual nasce a morféia. E nós do outro lado da morféia.

Eles verão que nós, humanamente falando, somos fracos para enfrentar essa batalha da morféia, mas que estamos sós mas lutando e lutando com uma coisa que é, no fundo, a morféia. Mas a morféia é a Revolução, é o fruto da Revolução. E você tem a RCR. Porque para esta gente nós vamos parecendo cada vez mais os impolutos.

(Sr. Gonzalo: Todas as campanhas foram os estandartes que o senhor levantou. Não há um estandarte a ser levantado. O livro da nobreza por exemplo, é uma campanha colossal que é um estandarte que o senhor está levantando no mundo todo que faz parte de toda essa batalha.)

Faz parte, é evidente, evidente.

(Sr. Gonzalo: Depois, por cegueira nossa, nós não demos conta de quantos estandartes se levantaram no mundo todo. Certamente terão outros para levantar, mas se pode estar chegando ao começo do fim.)

* A propósito do mata-mata muitos não se levantarão de nosso lado, mas os que se levantarem terão a consciência de que o cerne duro da resistência é o Senhor Doutor Plinio

O que haverá, pelo menos, é o seguinte, dentro desse quadro, se esse quadro sair como estou dizendo, o que haverá será o seguinte: é que muitos não se levantarão de nosso lado, mas os que se levantarem contra isto terão a consciência de que o cerne duro disto que resiste somos nós.

(Sr. Gonzalo: O senhor acha que há gente que se vai levantar contra isso por quê?)

Contra esse mata-mata?

(Sr. Gonzalo: Sim. Que não seja o senhor. Quem é essa gente que se levantará contra isso?)

Uns falsos Le Pens.

E, aliás, eu não sei se vocês percebem, mas o Le Pen está se liquefazendo.

(Sr. Gonzalo: Mas têm muitos outros que estão se levantando por tudo quanto é canto.)

Oh, óh! Quantos Caiados, etc., em quantidade. E naturalmente eles aparecem para explorar a situação. Não há mata-mata sem falsos policiais e coisas do gênero. Não é possível.

(Sr. N. Fragelli: O senhor disse que gostaria de falar sobre as causas próximas disso.)

Desse fenômeno?

* O modo pelo qual a sociedade se precipitou no mata-mata: a “camambertização” do gênero humano

Eu tenho a impressão seguinte: que sem falar propriamente de loucura — vamos nos aproximar do tema — acontece que quando uma pessoa, vamos dizer um navio, um navio no qual gradualmente por efeito de uma causa que se pode supor qualquer uma, gradualmente os membros do navio vão ficando gagás. Mas não vão ficando gagás assim de tal maneira que fiquem gagás completamente e na hora do jantar voltam-se para o tapete e perguntam para o tapete: “Há quanto tempo você não toma sopa? Estou com pena de você”. E derrama sopa no tapete. Depois pega um pedaço do tapete molhado de sopa e quer comer porque está gostoso. É gagueira solta.

Não, mas imagine que gradualmente vão ficando com as conversas mais ramolli, com as afirmações mais discutíveis, com tudo amolecendo gradualmente, virando “camembert”. Que os miolos das pessoas passassem por um processo de “camembertização”. É uma figura…

(Sr. Guerreiro: O senhor está descrevendo o no que a imprensa atual está se transformando.)

Mas é. A imprensa, meu filho, e a realidade que essa imprensa descreve. Porque dizer por exemplo que a imprensa exagera a criminalidade, eu tenho impressão que outrora exagerava muito mais. Havia muito menos crimes, mas o que ela noticiava com letras garrafais…

(Sr. Gonzalo: A decalagem está muito menor nessa matéria agora.)

Muito menor.

(Sr. P. Roberto: Se a pessoa for conversar com alguém aí fora, é isso que se sente nas cabeças das pessoas.)

Não é?

* O homem são ao cabo de alguns dias de agradar o sujeito meio “camembertizado” para não ficar inteiramente louco, o são começa a entrar no ritmo

Agora, nessa “camembertização” a coisa vai indo, vai indo, vai indo, e apenas um não fica “camembertizado”, vamos ver o que é que se passa com esse um.

Nós admiraremos o homem que não se deixe “camembertizar” num caso desse, mas nós somos propensos a admitir que sem ficar propriamente “camembertizado” ele cheire a “camembert”.

Quer dizer, está bom, não está gagá, mas han, han! Está bom ele solta de repente uma piada para a qual ele ri exageradamente, e quando ele vê que a gente não está achando tanto graça, ele bate assim com o dorso da mão no abdômen da gente: “o que é isso, meu velho, você não acha graça? Se você não rir eu conto outra”. A gente: “Ahahahah!”, dá a risada para sossegar o homem.

O são, já é o homem… Já não é o gagá, o são ao cabo de alguns dias de agradar o sujeito meio “camembertizado” para não ficar inteiramente louco, o são começa a entrar no ritmo.

(Sr. N. Fragelli: Essa é a regra.)

É a regra e explica a meu ver a precipitação dessa criminalidade.

Quer dizer, todo o mundo já não tem os miolos muito firmes, começa essa história geral como está vindo. Leia aqui na política as coisas como são, ou leia lá na Itália aquele processo das “Mãos Limpas”, vai ver como é que está aquilo.

Vamos dizer que se suponha, portanto, que ele more na Itália, um outro que more no Brasil. Vê essas coisas todas e vê que, ao mesmo tempo, todo o mundo acha monstruoso, mas vive normal dentro da monstruosidade. E que, portanto, há uma espécie de reação para salvar a normalidade dentro da gagueira. O sujeito fica sem saber mais como ele deve reagir, no que é que ele deve achar graça, no que é que ele não deve achar graça, o que é perigoso, o que não é perigoso, etc.

Como arranjar o caso?

Quer dizer, a gente compreende que o caso não tem arranjo. Que é um lento processo que vai tocando e que está chegando ao seu termo.

(Sr. N. Fragelli: Na época de Clóvis a situação era essa também.)

(Sr. M. Navarro: Mas havia lumen rationis.)

(Sr. N. Fragelli: Houve uma solução.)

Sim.

(Sr. N. Fragelli: E essa solução agora não se apresenta.)

Pois é, não se apresenta. E qual foi a solução?

(Sr. N. Fragelli: Pois é, […inaudível].)

* Por ocasião da invasão dos bárbaros o Império Romano estava tão podre que não ofereceu resistência, mas a Igreja não fazia parte da decadência

Meu filho, é uma coisa que os historiadores em geral admitem, é que na podridão do império romano a Igreja não estava nesse caso. E todos comentam o seguinte, que quando os bárbaros transpuseram o Reno e o Danúbio, as legiões romanas ajudaram a transpor. Não é verdade que as legiões romanas tenham procurado resistir. Esses alamanos e tudo mais disseram a eles: “Vem atrás de nós quem é pior do que nós, são os hunos, e nos atacam a nós. Se vocês nos permitirem de passar para o outro lado do rio, eles quando quiserem passar nós nos defendemos melhor.”

E os legionários romanos construíram uma espécie de pontes feita com barcas — nem é construir, juntaram uma espécie de pontes feitas com barcas e aqueles povos todos, homens, mulheres, crianças, aquilo tudo vinha invadindo. Depois não quiseram voltar. Quando Átila voltou, os hunos voltaram, os romanos:

Bem, monsieurs, chegou a ocasião de voltar para casa.

Não, aqui está tão bem, nós até já estamos descendo.

Bom, chegou ao ponto que os vândalos invadiram até o norte da África. Quer dizer, deram a volta pelo Mediterrâneo e invadiram até o norte da África.

O império romano estava tão podre que não só não ofereceu resistência mas construiu os barcos.

* Um conjunto de dignatários eclesiástico poderia ser o ponto de partida para uma resistência; mas hoje o que é que é? É o ponto de partida da infecção!

Os papas deram ordem: “nenhum bispo, nenhum padre, nenhum dignatário eclesiástico sai de onde está”.

(Sr. N. Fragelli: Aí é que está.)

Perdão.

(Sr. N. Fragelli: Esse é bonito. Aí está a coisa.)

Então o império se desfez e a Igreja ficou. Um conjunto de dignatários eclesiástico capaz disto, pode ser ponto de partida para uma resistência. Mas hoje o que é que é? É o ponto de partida da infecção!

(Sr. N. Fragelli: Sim, mas e o Grupo?)

* O esfuziar de luz prateada em torno do Livro da Nobreza pode preparar uma focalização da TFP como sendo uma luz, uma saída a jogar um papel “x” no fato concreto ainda não previsível

Bom, o papel do Grupo dentro disso.

Eu me pergunto se esse esfuziar de luz prateada em torno do nosso livro não é algo que prepara uma focalização da TFP como sendo uma luz, uma saída, uma emergência, etc. a jogar um papel no fato concreto ainda não previsível, um papel “x” dentro disso.

(Sr. N. Fragelli: Tem que ser.)

É, tudo leva a crer.

(Sr. N. Fragelli: Resta saber como. Mas tem que ser.)

O como eu não sei prever.

(Sr. N. Fragelli: Certamente sabe.)

(Sr. Gonzalo: Mas é secundário em relação à compenetração primeira de que o livro tem esse papel.)

Sim.

(Sr. Gonzalo: E daí a difusão do livro, e sobretudo o senhor.)

Sim, é fora de dúvida.

(Sr. Gonzalo: Isso se vê que ainda está… a gente está meio “camembertizado” também, e a gente não dá suficiente importância a isso. Porque há gente que recebe o livro e vê a capa, e têm a reação que têm, só se explica que reajam assim porque eles já estão trabalhados por esse processo ruim, assustado e vêem a luz que aparece aí. Porque elas não leram o livro, não estudaram, não deu tempo para isso.)

Não.

(Sr. Gonzalo: É uma coisa realmente muito providencial. E a necessidade do Grupo fazer disso um verdadeiro estandarte e não ficar esperando outro estandarte.)

Não, não.

(Sr. N. Fragelli: Me parece uma situação de tal gravidade que talvez se desse o que o senhor disse ontem, a tal permeação do espiritual, do visível e invisível que se não me engano foi o que se deu com a Igreja na época dos francos, ou algo disso.)

* A maioria das conversões em massa inauguram um processo de conversão que vai ter seu despliegue total na geração, por exemplo, do bisneto

O característico com os francos é o seguinte.

Você se lembra perfeitamente, vocês todos, a beleza do episódio do batismo de Clóvis. Primeiro a conversão pela influência de Santa Clotilde de depois o batismo. Aquela pergunta dele quando ele entrou na Igreja e viu tudo enfeitado, e disse para Saint Remy: “Meu pai, já é o Céu?”

(Sr. M. Navarro: Que vai na linha da reação das pessoas com o livro.)

É, é isso.

Mas depois — e os livros de História são de uma má fé e de uma má vontade do outro mundo — insistem em mostrar que Clóvis continuou um facínora e que matou sobrinhos, que fez não sei o quê.

É não ter compreendido bem a coisa. Ele continuou um facínora. Ele podia não ter continuado um facínora.

(Sr. N. Fragelli: Santa Clotilde converteu-se…)

Era uma santa.

Mas acontece que se dão aí essas conversões em massa que algumas e talvez a maioria inaugura um processo de conversão que vai ter seu efetivo, despliegue total, na geração do bisneto.

(Sr. N. Fragelli: […inaudível] no século XVIII.)

Sob algum aspecto podia se dizer.

E isto é assim.

(Sr. M. Navarro: Eu vi agora, eu estive na Sede do Reino de Maria para estar um pouco com eles na ceia, e comentei o almoço do senhor, os comentários que o senhor fez, e é incrível que quando se levanta o assunto, todo o mundo tem 500 exemplos. Mas o mais importante é uma reação que houve naquele edifício grande que tem no P. Sum, aquele edifício novo…)

É um monstro aquilo.

* Para muitos vizinhos do Praesto Sum, o único dia em que encontram sossego na semana é vendo o alardo da Reunião de Recortes

(Sr. M. Navarro: Como amanhã vai ter uma exibição da Fanfarra, foi gente nossa lá convidar gente. Evidentemente nós esperávamos que o pessoal não gostasse do barulho que nós fazemos, etc. É exatamente o oposto. As pessoas diziam: “olha, para mim, o único dia em que eu encontro sossego durante a semana e paz de espírito, é no sábado quando vocês estão fazendo a cerimônia lá embaixo.”)

Veja que coisa característica. Veja que coisa característica.

(Sr. M. Navarro: Que vai exatamente no oposto do caos.)

Isso.

(Sr. M. Navarro: É o senhor enquanto o oposto o caos.)

(Sr. Gonzalo: O lado pulchrum.)

O pulchrum.

(Sr. M. Navarro: E se compreende como sem esforço que se imaginava, etc., etc., de repente o senhor é visto como uma solução para um problema que para todo o mundo já virou óbvio, é que já não dá para viver.)

(Sr. Gonzalo: E o alardo é um pouco a capa do livro.)

É. É isso.

Aliás, se você pudesse dizer ao João que eu gostaria que amanhã à tarde logo no começo da reunião fosse dado um jornal falado deste contato para depois eu fazer este comentário, você me faria um obséquio.

(Sr. Guerreiro: Entra uma graça, não é senhor?)

* O Livro do Senhor Doutor Plinio sobre a Nobreza suscita graças “a la” Clóvis

É. E entra… [vira a fita] … que hoje nós achamos que estão recebendo uma graça, haverá alguns Clóvis, hein.

(Sr. Gonzalo: E depois tem outros que […inaudível] o alardo.)

É, é isso.

(Sr. Gonzalo: Tem em quantidade, se juntam e sabotam o alardo.)

(Sr. N. Fragelli: O paralelo com Clóvis com o livro é muito interessante. Eu vi num livro, o autor perguntava: “por que é que Clóvis achou que ele estava no Paraíso?” Ele disse: era inverno, não tinha flores, não tinha os vitrais, o gótico estava há sete séculos de ser descoberto…)

É isso.

(Sr. N. Fragelli: E então diz: “eram as caras dos santos que estavam lá.”)

Está vendo?

(Sr. N. Fragelli: Em torno da pia batismal. Porque tinha três ou quatro Santos canonizados juntos com Saint Remy.)

Está vendo?

(Sr. N. Fragelli: E ele olhando aquilo e viu naqueles homens a imagem do…)

Do Céu. Perfeitamente. Perfeitamente. É isso mesmo.

(Sr. N. Fragelli: E o paralelo então com o livro…)

É isso mesmo.

(Sr. Gonzalo: Mas tem que ficar muito claro que agora há um só santo e que tem muitos candidatos.)

Não, se Deus quiser haverá muito santos. Eu quase que digo o seguinte: que ou haverá vários ou não haverá nenhum.

(Sr. Gonzalo: Mas depois que todos reconheçam que é só um mesmo, senão…)

* Segundo todos os dados de bom-senso assestados em cima da atual feira de loucura do mundo contemporâneo se deve dizer que nós estamos na Bagarre

Mas enfim, qual é o efeito para o qual vai conduzindo essa conversa?

É de os senhores sentirem junto conosco que sobre a questão da Bagarre mudou algo que se pode definir assim: segundo todos os dados de bom-senso assestados em cima desta feira de loucura se deve dizer que nós provavelmente estamos na Bagarre.

(Sr. P. Roberto: E o sonho que o senhor teve com a Senhora Dona Lucilia como é que se encaixa em tudo isso que está acontecendo agora?)

Aquele sonho foi muito circunscritamente posto para a questão o livro, embora durante o sonho, não me tenha ocorrido a idéia do livro em nada, mas em nada. Foi depois com o triunfo do livro é que eu entendi o que é que o sonho queria dizer.

(Sr. P. Roberto: O senhor acha que só tem relação com o livro.)

É. E era a meu ver aquilo teve para mim — isso não é a meu ver, é evidente — um alento dentro da aflição em que eu estava, um alento muito grande, porque eu senti que era uma promessa da Providência de que algo de muito bom viria. E a “presença” dela com tudo quanto tinha de — você pode imaginar — de tonificante e de rejubilante para mim, estar abraçado a ela, agradá-la, ver, receber o afeto dela, e tudo mais o que tudo isso tinha.

* O sonho do Senhor Doutor Plinio com a Senhora Dona Lucilia teve o efeito, guardadas as devidas proporções, do cálice que o Anjo trouxe para Nosso Senhor durante a agonia no Horto

Então, a meu ver foi uma gota de bálsamo no meio de um horror. Se fosse possível fazer, entre uma coisa pequena e uma sacrossanta e infinita, uma comparação, seria como o cálice que o Anjo trouxe para Nosso Senhor durante a agonia no Horto.

(Sr. P. Roberto: E ela também não teria um papel nessa ordenação das coisas daqui para frente?)

É muito possível, tudo leva a crer. Seria espantoso que tendo tido um tal papel na ordenação das coisas até aqui, e nas raízes mais profundas da ordem — porque ela combateu a desordem exatamente nas zonas mais obscuras do espírito humano; foi o que ela fez, no cemitério o que ela faz é isso — que essa tarefa não continuasse.

(Sr. Gonzalo: Como o senhor disse que nós estamos na Bagarre, o senhor já disse isso várias outras vezes, há um ano, dois anos atrás, e até mais tempo…)

Por graus de intensidade.

(Sr. Gonzalo: O senhor declarou na Reunião de Recortes há uns 7 anos atrás que declaradamente nós estamos na Bagarre. Mas agora seria em que grau? O começo da Bagarre vermelha? Apenas para localizar, porque já o senhor disse no “Em Defesa” que uma vez que começou a luta na Igreja, para o senhor começou a Bagarre.)

Foi.

(Sr. Gonzalo: Agora, isso foi andando como uma pessoa caminha em direção ao mar, já está com os pés nas ondas. Isto que o senhor acaba de dizer agora é o quê? Em que grau as coisas estão? […])

Eu diria o seguinte:

* “Nós estamos nas poças de água [salgada da praia] da Bagarre”

Eu retomo a metáfora que você usou há pouco. Você imagine uma pessoa que [vai] de São Paulo para Santos para tomar banho de mar. Chega lá põe seu maiô — do tempo do maiô ainda — e entra nas ondas. Há uma primeira etapa em que ela pisa na areia e a areia está seca. Se a pessoa disser: “eu já entrei com os pés no Oceano Atlântico”, dá-se risada dela, porque a areia está seca. Onde não tem água não tem oceano. O resto vá plantar batatas.

Agora, pouco mais adiante a areia está úmida. É cedo para dizer que entrou no Oceano atlântico.

Mais adiante há umas poçazinhas de água no meio da areia úmida. Aquelas poçazinhas de água salgada, portanto restos de mar que passou por ali voltou e deixou poças de água, essas poças de água já são o Oceano Atlântico? A gente pode dizer: pisei no Oceano Atlântico, ou o Oceano Atlântico é mais adiante? Em que medida da coisas se pode dizer que entrou? Se a pessoa está com o Oceano Atlântico até os joelhos, já penetrou no Oceano Atlântico?

Bem, essas coisas têm gradualidades assim.

E eu tenho impressão de que nós estamos, tanto quanto eu possa calcular e se não houver uma surpresa que, de repente, me mostre que eu estou desinformado e que a coisa está muito pior, o que de fato está havendo é que nós estamos nas poças de água da Bagarre.

(Cel. Poli: Poças de água ainda.)

É, os poços de…

(Sr. Guerreiro: Mas dessas poças de água para o Oceano a distância é menor do que dessas poças de água para a vida normal de trinta anos atrás.)

Ah, nem tem comparação. Nem tem comparação.

(Sr. N. Fragelli: Somente se pode medir pela forma específica de atuação do senhor essa situação, eu perguntaria qual seria, senhor?)

Deixa eu acabar de responder o Gonzalo. Mas então?

(Sr. Gonzalo: […] Eu pergunto o que leva o senhor a declarar isso hoje, além dos fatos concretos que importa para efeito nosso […], mas as razões mais altas em relação à Providência quais seriam?)

Razões para a Providência retirar?

(Sr. Gonzalo: Claro. E que o senhor julgue em função não tanto do mata-mata, mas de outras razões que o senhor julgue que a situação está assim. Porque pareceria que mesmo que o senhor não tivesse esses dados, o senhor acharia a situação assim.)

* O mata-mata se insere dentro de um mundo violentamente “camembertizado”, então, as duas coisas se somam porque a parte doida tem como periferia saudável a parte “camembertizada”

Não, tem o seguinte: vamos pôr os pingos nos “is”.

Se houvesse um mata-mata mas não houvesse todo o caos do mundo moderno e o mata-mata fosse um aspecto dramático de um mundo que não está em caos, eu não diria quase nada do que eu estou dizendo. Mas é porque esse mata-mata se insere dentro de um mundo “camembertizado” e violentamente “camembertizado”, ao menos segundo às minhas possibilidades nasais. Então, as duas coisas se somam porque a parte doida tem como periferia saudável a parte “camembertizada”. Qual é a reação possível?

(Sr. Gonzalo: Está magnífico, senhor.)

Você me perguntou uma coisa, meu Nelson.

(Sr. N. Fragelli: Qual seria a atuação específica do senhor nessas fases sucessivas até chegar ao Oceano? Porque aí se poderia caracterizar a Bagarre ou não? Seria um elemento a mais.)

Mas você chama aí a Bagarre a guerra?

(Sr. N. Fragelli: Sim. Segundo a figura que o senhor diz, quando a pessoa já estivesse afogando-se.)

Sim, mas poderia ser num regime sem Guerra Mundial ainda, hein. Isso [é] que é preciso ver.

Eu compreendo que você tenda a soldar uma coisa com a outra, porque foi sempre o nosso hábito mental, mas de fato como está se passando…

O que é que há meu Guerreiro?

(Sr. Guerreiro: […] O senhor poderia explicitar um pouco mais, quer dizer, desse começo de mata-mata a situação se degeneraria progressivamente e poder-se-ia entrar numa Bagarre “tout court” sem Guerra Mundial, é isso?)

Sim.

(Sr. Guerreiro: E como é que o senhor então, no momento atual, acha que isso poderia ter seus desdobramentos?)

O que quer dizer, “por um momento atual”?

(Sr. Guerreiro: Foi o que o senhor acabou de descrever no momento.)

A partir do que eu acabo de descrever?

(Sr. Guerreiro: Sim.)

* Levando a coisa à última conseqüência, um regime de mata-mata muito intenso, muito generalizado, pode-se chegar a um ponto em que o mata-mata é uma guerra universal de casa a casa

Se você, meu filho, imaginar um regime de mata-mata muito intenso, muito generalizado, você pode chegar a um ponto em que o mata-mata é uma guerra universal de casa a casa. Levando a coisa à última conseqüência é isso.

(Cel. Poli: O senhor vê mais intensidade num país e noutro país?)

Ah sim, com diferença de intensidade até de região em região. Sendo que algumas regiões mais podres, satanás encontrará permissão de dar impressão que estão mais protegidas.

(Cel. Poli: Menos atingidas pelo mata-mata.)

Menos atingidas.

(Sr. Paulo Henrique: Vai dar impressão, porque no final não vai sobrar ninguém.)

Ninguém. É claro. É isso.

Mas essa impressão você pode imaginar como seria pungente?

(Sr. F. Antúnez: O senhor previa na década de 60 de que lugares assim que iam entrar num caos total, de repente volta a normalidade e parece que tudo acabou. E que faz parte da Bagarre.)

Sim.

(Sr. F. Antúnez: Parece que tudo acabou, que voltou à normalidade, etc., etc., e outro lugar que estoura. […])

Tal e qual. Tal e qual.

* Pode ser que haja retrocesso no mata-mata em determinadas regiões, e então aparecerão os apologistas e profestas da paz e do processo de cicatrização do mundo moderno

E depois enquanto aquele lugar primeiro que você se referiu que voltou à normalidade estiver normal, haverá apologistas, não só apologistas mas profetas da paz do processo de cicatrização que exclamarão: “Olha lá como eles estavam errados! Eu estou vindo de tal lugar, olha aqui as fotografias, vamos passar isto aqui numa televisão, numa coisa qualquer para vocês verem como é uma coisa extraordinária. Vai ver, ruas de Praga, criancinhas brincando, etc., “ehehehehe!”

E pelo contrário, vamos dizer por exemplo, na Espanha, onde aliás, pode, em certas regiões, não ser tão difícil provocar reações dessa natureza, na Espanha numa região muito católica um mata-mata medonho. Diz: “Olha lá, está vendo? Na região de seus congêneres um mata-mata. No nosso, nós somos imorais, somos o que o senhor quiser. Mas olhe como está tudo bem.”

(Sr. F. Antúnez: Os suecos.)

É, suecos.

(Sr. Gonzalo: O Chile é que está dando exemplo desse tipo de coisa. Porque é onde todo o mundo faz campanha que está tudo bom, está tudo tranqüilo, tudo está em ordem, tem riqueza, etc. E acaba sendo uma maldição muito maior que estar em um mata-mata.)

É evidente.

(Sr. F. Antúnez: É, mas está havendo muito assalto. Parece que está bastante avançado lá, pelo que me contam.)

* A rajada de metralhadora dentro da ordem chilena foi o assassinato do Jaime Gusmán

A rajada de metralhadora dentro da ordem chilena foi o assassinato do Jaime Gusmán. E eu tive impressão, meu filho, aqui à distância que houve gente que ficou seriamente abalada com a morte Jaime Gusmán.

(Sr. Gonzalo: Sim, claro. Eu conheço.)

(Sr. F. Antúnez: E gente do grupo disse que no dia seguinte pedindo donativo, o pessoal estava tão abalado que ele dizia: “bom, vamos deixar para outro dia, nós passamos outro dia, eu vejo que o senhor está muito afetado, etc.” Mais de um caso houve assim.)

Está vendo?

(Sr. Gonzalo: Mas a imagem é de muito otimismo. […])

(…)

Bem, querem voltar ao nosso assunto?

(Sr. F. Antúnez: Senhor, são três e sete. Por nós, continuávamos até às quatro, mas o horário do senhor.)

[Passa um carro da polícia tocando a sirene]

Olha aqui por exemplo, a coisa mais comum, um apito da polícia qualquer, mas se por exemplo, eu quisesse fazer sensação, eu diria: “está vendo o gemido das preocupações, das aflições, que pairam na rua?”

Está bom, é. É isso. Passou a ser. Está acabado.

Porque é que foram escolher uma coisa dessas tão parecida com um gemido, com un sanglot e com um estertor? Podia não fazer.

(…)

(Sr. Guerreiro: Todos nós temos conversado de que essa reunião se faz no primeiro dia do ano, e ainda ontem, na passagem do ano estivemos com o senhor. E naturalmente nós nos voltamos para esse ano que passou e nele vendo tantas graças que o senhor nos deu aqui nesse salão, tantas graças que o senhor nos deu na vida quotidiana da TFP, mas a nós aqui, especialmente neste salão, tantas paciências, tantas bondades, mesmo nos cansaços como nunca o senhor teve na vida, o senhor conservou essas reuniões para que a graça nos tocasse, nos beneficiasse. Senhor, nosso agradecimento é muito grande, e nós pedimos à Senhora Dona Lucilia que ela como mãe, mãe também nossa, que ela possa compensar ao senhor com os modos e com os jeitos que ela tem para compensar ao senhor por todos esses benefícios que o senhor tem nos feito. E que ela nos conceda também a graça de que todas as palavras do senhor, os conselhos, todos os convites que o senhor tem nos feito, que ela não nos deixe esquecer isto e que ela nos dê a graça de sermos fiéis a isto.)

Pois não, meu filho.

(Sr. Guerreiro: E que ela nos conserve também evidentemente essas reuniões sem prejuízo dos descansos e dos repousos que o senhor necessita para luta. Mas que ela nos conserve tanto quanto for possível as graças extraordinárias dessa reunião. Que ela sobretudo proporcione ao senhor o descanso, a distensão e o alívio de tantas preocupações que cercam no momento ao senhor. E que ela como mãe nos abençoe e nos conserve sempre ao lado do senhor ouvintes, interessados e dedicados. E que Nossa Senhora nos conserve nessas intenções e pedimos a bênção do senhor nessas intenções.)

A essas palavras, meu filho, eu respondo com uma confidência. Às vezes eu me pergunto, depois da Reunião de Recortes à tarde, depois da reunião para os enjolrinhas — algumas é preciso fazer, não é possível não fazer — depois vir aqui jantar correndo — depois a coisa menos eficaz que há para matéria de repouso é repousar correndo —, repousar correndo e fazer a nossa reunião, me parecia a mim, várias vezes, uma coisa inconveniente, e eu me perguntava o seguinte:

Se essa situação dura muito tempo, é preciso olhar o problema de frente, mas na minha idade, sem cansaços extraordinários se morre de repente, com cansaços extraordinários é pouco comum que não se morra.

Quer dizer, em qualquer família onde haja um homem da minha idade, passando pelo que eu passei e que estou passando, e tendo que dar a leistung que eu tive que dar e estou tendo que dar, se a situação é essa, os familiares temem pela vida dele de repente. Então começam os cuidados, as preocupações, etc., etc. A criança que não faça barulho em casa, etc., etc., para assegurar de qualquer maneira uma sobrevivência.

E eu me perguntava se eu não era obrigado a me sujeitar a alguma coisa desse gênero. É de um bom senso evidente.

* Nós devemos tocar as coisas com uma confiança crescente e que todo esse panorama da Bagarre não passa de um pesadelo enorme e insuportável se a gente não o tem iluminado pela confiança

Agora, acontece o seguinte, que a graça que visita essas nossas reuniões da noite de sábado é de tal maneira benfazeja que invariavelmente, terminada a reunião, eu estava mais repousado. De maneira que onde vocês poderia ver um ato de dedicação, a Providência intervém de maneira tal que aquilo que parece o último hausto, é pelo contrário, o alento para o dia seguinte. E isso tudo mostra bem não só com que afeto eu venho a essas reuniões, mas também e sobretudo porque é o que mais interessa, que afeto a Providência tem para os filhos que aqui se reúnem assim, e quanto Ela quer, quanto Ela espera desses filhos. E, portanto, em conseqüência, com quanta confiança nela nós devemos abordar os acontecimentos imprevistos, imprevisíveis que vem se aproximando. E que com isso nós devemos tocar as coisas com uma confiança crescente e que todo esse panorama da Bagarre não passa de um pesadelo enorme e insuportável se a gente não o tem iluminado pela confiança. Esse é o ponto.

Nossa Senhora do Bom Sucesso, Nossa Senhora do Bom Conselho, Nossa Senhora de Genazzano são invocações que falam exatamente desse atendimento, desse socorro, dessa bondade, etc., que resiste a tudo e transpõe tudo. E eu lhes queria muito recomendar isso.

Como está muito novo o panorama que eu estou dando, os senhores não estão precisando, logo nos primeiros passos, de alguma coisa que os anime, é quase mais…

(…)

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