Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
13/11/93 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 13/11/93 — Sábado
Analisando a SDL no sonho, o SDP percebeu o quanto ela estava alegre, transbordante, mas ordenada e assim é que se deve ser * Além dos vidros que se quebram sozinhos, pode ser que comece na história da TFP uma etapa em que sonhos ou outras coisas assim, em que a SDL esteja, tenham uma marca especial * Só há uma solução para a atual ordem de coisas: restaurar o elo de ligação entre a mística e a sociedade temporal * O momento delicado não é o quando o demônio bate na porta, é o momento em que ele produz no homem uma certa saciedade das maravilhas de que ele está cheio * O sentido profundo do “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem” * Na própria família, de um modo aparentemente o mais legítimo possível se decide num minuto o rumo de uma vida inteira * Se a gente extirpa uma má opção, todas as outras más opções diminuem um pouco de intensidade; se as gente faz uma boa opção, todas as outras boas opções aumentam de intensidade * Uma pessoa pode chegar a um tal grau de dureza que quando se sente chamado com mais instância e mais afeto, não quer se aproximar porque não quer se dar por inteiro
(…)
E depois tem o seguinte, [você vê nas notícias?] o que acontece hoje é cacete. De maneira que para a gente contar fica cacete. Não há maneira de contar de um modo interessante fatos cacetes.
(Sr. N. Fragelli: Mas ela era muito grave, não é?)
Como é?
(Sr. N. Fragelli: Eu achei que o senhor estava muito ferido na sua alma católica com aquela recepção do rabino, aquilo é uma coisa…)
Coisa asquerosa.
(Sr. N. Fragelli: Aquela coisa que ele falou do comunismo… Então ele quer reviver uma coisa que nós sabemos que não morreu, mas que para o público está em estado de “délabrement” como nunca antes.)
* A estrutura nunca passa de um certo limite, portanto, as declarações de JPII ultra-favoráveis ao comunismo foram deformadas pela imprensa
É, é uma coisa nunca vista.
Aquela história, eu não entrei nos pormenores para não tornar a reunião ainda mais cacete. Mas aquela história dele falar do comunismo, ele tem uma expressão categoricamente favorável ao comunismo. Aquilo eu te garanto que no jornal, originariamente, não é assim. E que da imprensa européia para cá isso filtrou com alguma fassurada. Porque eles não saem de uma certa linha.
(Sr. N. Fragelli: Que o senhor já conhece, que sabe…)
Eu estou farto, estou saturado dessa linha, você nem calcula o quanto eu estou saturado. De maneira que aquilo não tinha, de fato, muito provavelmente, a mesma gravidade que tem na realidade. Na realidade tem muito menos.
(Sr. N. Fragelli: Foi essa resposta que o senhor deu, de fato.)
É. Mais de uma vez…
Entrem meus caros.
(Sr. P. Roberto: Senhor, desculpe ter chegado atrasado.)
Meu Paulo Roberto, como vai você, meu filho? Você está bom?
(Sr. P. Roberto: Bem, graças a Deus, e o senhor como está passando?)
Graças a Deus bem.
E você, meu caro Guerreiro? Como está você?
(Sr. Guerreiro: Bem, obrigado, e o senhor como está passando?)
Vamos nos sentar que ficamos mais à vontade.
Agora, a pergunta que o Nelson me fez fica, portanto, na indefinição a resposta porque não se pode saber.
(Sr. Gonzalo: A outra parte foi muito boa. Essa resposta já foi muito bonita, mas a outra parte, a pergunta sobre o caos que o senhor respondeu, aquilo foi extraordinário. Sobre isso queríamos perguntar ao senhor alguma coisa hoje.)
Estou todo às ordens. Não sem registrar de um modo especial a presença de um hindu entre nós. Isso é um fato muito pouco comum. Por mais que a TFP esteja cosmopolitizada a presença de um hindu aqui e um fato insólito.
(Sr. Gonzalo: É uma grande alegria.)
É, e precisamos depois pedir um jornal falado para o nosso hindu. Eu não quis cansar com perguntas para hoje à tarde, mas quarta-feira, qualquer coisa assim, ir alguém lá para o microfone e fazer uma exposição das coisas da Índia é uma necessidade.
Mas então, qual é o nosso tema?
(Sr. Gonzalo: […] Quando, na outra pergunta do sr. Nelson [Reunião de Recortes], de quais eram os sinais que o senhor via do Céu, o senhor começou a tratar do sonho do senhor com a Senhora Dona Lucilia, e aquilo nos pareceu a todos, que quando o senhor começou a tratar houve uma desinfestação extraordinária no auditório. Deu uma alegria, uma…. Primeiro, o senhor nunca trata dela. No auditório da Reunião de Recortes não trata dela, nem pedindo que se trate o senhor trata, e agora o senhor tomou a iniciativa de tratar. E entrou uma espécie de oxigênio, de bem-estar, de alegria nisso, pelo qual nos parecia que esse mesmo demônio do qual o senhor estava tratando, um pouco saiu de nós…)
Essa impressão eu tive.
(Sr. Gonzalo: E da sala.)
É, essa impressão eu tive.
(Sr. Gonzalo: É uma coisa impressionante! O senhor tratar dela, o demônio, que tem o gênero humano na mão, vai embora. E ela, pelo que o senhor dizia, foi para o senhor uma mensageira de Nossa Senhora, no sonho. […] A solução para abrir-se para o senhor está aqui. Isso ficou muito claro para nós e foi a mão dela mostrando: “por aqui que esse demônio se expulsa, mas também é por aqui que se chega aí”. […] E isso para quem está…)
* Detalhes a respeito do sonho que o SDP teve com a SDL há alguns dias atrás
Eu não disse ali, porque me escapou, eu não tinha razão nenhuma para não dizer. Mas me escapou um pequeno pormenor. É que a alegria que eu teria, seria uma alegria ao mesmo tempo muito honorífica para mim. Quer dizer, o modo pelo qual o traje dela se apresentava, era o traje de gala, mas um traje de gala com uma nota festiva especial. Mas era gala.
(Sr. N. Fragelli: Muito bem, é um complemento extraordinário.)
E como quem sabia que uma mera alegria que não trouxesse nenhum valor moral, uma coisa honorífica, qualquer coisa assim, me diria muito pouco.
(Sr. N. Fragelli: Não é uma mera alegria doméstica, honesta, justa, mas não era. Tratava-se de algo…)
Nem era uma festança nem um rega-bofe. Sendo que um rega-bofe é uma coisa que sempre apreciei, manda a justiça que se diga. Mas é muito diferente um rega-bofe e uma coisa que é honorífica, que tem seu valor moral.
(Sr. Guerreiro: E estar na linha das expectativas que o senhor tem por causa da vocação.)
* Analogia entre a expectativa que o SDP tem por causa da vocação e a expectativa que o gênero humano teve em relação à Encarnação do Verbo
É, exatamente. Exatamente. E que se fizeram esperar prodigiosamente. Você imaginar que isto chega a um homem a quem a vocação dizia: “você terá”; isso chega quando esse homem está nas vésperas de fazer 85 anos!
(Sr. P. Roberto: Parece a espera que o gênero humano teve em relação à Encarnação do Verbo.)
Ahahah, é uma coisa por aí, quer dizer é uma coisa… A gente vê que o Verbo se encarnou quando todos — se naquele tempo tivesse relógio, a gente poderia dizer que todos relógios tinham deixado de funcionar de tão gastos. Aí o Verbo se encarnou. E aí também, no meu caso concreto, era tudo passando pelas últimas humilhações. Em certo momento — anunciado por quem… — esta alegria, não é? Realmente é uma coisa de encher o coração.
Porque virem a coisa como virarem, aquelas celebrações várias, notadamente a de Roma e a de Washington, são celebrações que um escritor brasileiro não tem. Qual é o escritor brasileiro que tem uma celebração dessa?
(Sr. Pedro Paulo: Não se tem notícia de que…)
Não se tem notícia. Não se tem notícia.
(Sr. Guerreiro: E depois não é só brasileiro não. Qual é o escritor que nos últimos 40 ou 50 anos tenha acontecido com ele o que se passou com o senhor.)
Não, isso é…
(Sr. Guerreiro: E depois contra todos os ventos, não é senhor.)
Contra todos os ventos! Todos.
(Sr. Pedro Paulo: E é o começo, não é senhor?)
É o começo… bom, vejamos. Pode-se conjeturar que seja.
(Sr. N. Fragelli: Eu já fui a lançamento de livros de grandes escritores, e não tem a nota honorífica…)
Não tem a nota honorífica.
(Sr. N. Fragelli: Não tem. Tem a nota intelectual, um pesquisador, um homem que tem coisas muito bem achadas, que então vale a pena ir e conversar com ele; mas a pompa, a alma que traça para o futuro o caminho e que abre perspectivas, não. Isso de modo nenhum. E isso é o que tinha… eu falo por Roma e Milão, que é o que eu vi, e Washington certamente.)
* Os lançamentos do Livro do SDP sobre a Nobreza têm tido uma nota honorífica para a pessoa do SDP
Washington certamente.
Eu vi fotografias e tudo, mas não tem dúvida. Naturalmente tem à maneira americana, não se pode querer outra coisa. Mas tem largamente.
(Sr. Gonzalo: A impostação que ficava clara na reunião é que no meio de um deserto pavoroso, umas provações espantosas em que por infidelidade nossa o senhor está, isso é um sinal de Deus. Agora, o fato de que tenha sido uma concomitância enquanto o senhor tratava do demônio que está infestando o mundo, e a Senhora Dona Lucilia se mostrasse assim e no auditório se produzisse essa desinfestação, nos parecia que é muito promissor de um lado, mas também muito sério.)
Sim.
(Sr. Gonzalo: Quer dizer, para ser levado com muita seriedade.)
Sim.
(Sr. Gonzalo: Todos nós sentimos muito essa infestação. […] E essa separação que existe com o senhor, é muito fruto desse poder que o demônio tem dentro de nossa alma. Agora, se isso continua, as pessoas podem fazer qualquer disparate.)
Qualquer disparate.
(Sr. Gonzalo: A pergunta que se levantava é: “como resolver esse caso?” Agora, vem ela e na reunião de hoje e mostra […inaudível] porque o senhor quer tratar desse assunto. Então o pedido era se o senhor poderia tratar mais disso na linha de como essa infestação atual, desse poder do demônio fora e dentro, e contra quem é, e também do próximo passo que o demônio está preparando. Porque o senhor disse que isso é uma preparação para outro passo. E de outro lado, como é essa ação exorcística dela de expulsar o demônio, para abrirmos a alma para o senhor. Porque de fato, depois da reunião havia uma alegria meio primaveril.)
Eu senti alguma coisa dessa alegria no ar, mas pensei que fosse menos intensa do que você está narrando, e com o que eles parecem estar de acordo.
(Sr. Gonzalo: O que o senhor vê é o certo.)
Não, não, não. Não.
(Sr. Gonzalo: Porque realmente foi um alívio extraordinário.)
* Há sonhos que são mandados por Deus, e há situações em que Deus resolve falar por meio de sonhos
Eu resolvi tratar disso, por duas razões: a primeira razão é que eu tenho razão para ter certeza de que isto foi uma coisa mandada por Nossa Senhora. Agora, donde vem essa certeza? A objeção contra essa certeza seria a seguinte: se é um mero sonho, não se deve dar crédito, a priori. Em vez de se deter na coisa com análises que não acabam mais, o verdadeiro não é o contrário? Quer dizer, não é de deixar passar? Não é o que se faz com sonhos?
Isso corresponde a um preconceito contra o sonho que existe por aí e que é uma estupidez. Porque quanto ao sonho pesa uma ambigüidade, mas não uma ambigüidade necessariamente irremovível, que é coisa diferente. A prova disso é o sonho de São José. O sonho de São José é de fé que foi uma coisa mandada por Deus. Portanto existem para nós católicos, todas as certezas possíveis de que aquela foi uma mensagem mesmo, embora mandada no contexto, no quadro de um sonho.
(Sr. Pedro Paulo: E mil outros, não é senhor.)
Mas a questão o Antigo Testamento está cheio de sonhos assim que são sonhos mandados por Deus, Deus resolvendo falar por meio de sonhos. E na vida de santos…
(Sr. Paulo Henrique: São João Bosco.)
São João Bosco, por exemplo, e muito notoriamente. São João Bosco tem uma biblioteca de sonhos. E esses sonhos são evidentemente… a gente começa a ler, a gente percebe que foi Deus que mandou por meio dele, não há discussão possível. Portanto, essa história de dizer: “é um sonho, portanto, não vou dar crédito, é de si a priori uma besteira.
* O sonho que o SDP teve com a SDL foi confirmado por uma série de fatos que se sucederam e que ainda estão se sucedendo
Agora, a isso se acrescenta uma razão. E é a seguinte: é que este sonho concreto foi confirmado por um fato. E depois… foi confirmado por um fato não, foi confirmado por uma serrania de fatos, por uma série de fatos que se sucederam e que ainda estão se sucedendo.
(Sr. Gonzalo: E é de esperar que continue.)
Exatamente, que tem consigo promessas extraordinárias. Vamos dizer, por exemplo, Siracusa. Siracusa é uma coisa extraordinária, não se pode tratar isto assim…
(Sr. Gonzalo: Siracusa, quer dizer o lançamento?)
Não, a informação e… Quem que esteve em Siracusa, Nelson, foi o J. Miguel, não é?
(Sr. N. Fragelli: Palermo, o senhor diz?)
Palermo.
(Sr. N. Fragelli: Sim, foi o sr. J. Miguel.)
Não, mas parece que em Siracusa há mais gente do que em Palermo…
(Sr. N. Fragelli: Ah, isso, ele me mandou uma comunicação muito breve.)
Mas foi Siracusa mesmo.
Quer dizer, Siracusa está uma cidade muito venida a menos porque sofreu bombardeios e guerras, no passado…
(Sr. N. Fragelli: Terremotos.)
* Um aspecto do laissez-faire meridional que tem alguma coisa do sabor de viver
Terremotos, etc. Então tem por exemplo, uma avenida do lado direito e esquerdo toda de palácios, mas esses palácios caindo aos pedaços, e todo atrapalhado, etc., porque não há dinheiro para reconstruir, existe o laissez-faire meridional que é uma coisa clássica que não se pode contestar. Que nos atinge, aliás, a nós mesmo muito profundamente. Que tem no fundo, alguma coisa do sabor de viver… [risos] Porque tem.
(Sr. Guerreiro: Que é uma arte que os latinos têm.)
É, é isso sim. Eu vou dar um exemplo.
A gente chega a Roma, quando a gente está bem orientado a primeira coisa que a gente vai fazer é comer uma pizza… um dos pratos mais gostosos que há hoje no mundo, uma pizza num restaurante que o Nelson conhece até dormindo… ele tem sonhos com esse restaurante, chamado Sacristia.
(Sr. N. Fragelli: Sacristia, exatamente.)
(Sr. Paulo Henrique: São realidade e sonhos…)
É, realidades e sonhos…
(Sr. Paulo Henrique: E caminho de volta dele para a Europa é Roma, e o caminho de volta de onde ele está é Roma e Brasil, senhor.)
Isso.
Mas acontece que essas pizzas da “Sacristia” é uma espécie de “[vol-au-vent?]”, mas “[vol-au-vent?]” colossal com queijos… aquele queijo provolone soberbo derretido ali como tem na pizza, é um prato prodigioso, é uma coisa extraordinária! Dá para sonhar. Eu não sonhei, mas dá para sonhar.
Mas quer ver o lado meridional do negócio?
É o seguinte: o lugar do “Sacristia” é um… a gente diria que na véspera tinha uma garagem dessas de guardar automóvel durante à noite, e que no dia puseram depressa umas mesinhas dessas de bar ordinário de ter assim na calçada, puseram lá dentro, puseram umas cadeiras e montaram o “Sacristia” cujo o mobiliário é só esse. E tem uns garçons de uma habilidade prodigiosa em vender o maior número possível de pizzas para as pessoas. E as pessoas também comem desenfreadamente a tal pizza.
* Há certos relaxamentos que fazem sentir a realidade da vida
Mas se fosse imaginar isto vendido e consumido num salãozinho Maria Antonieta, e com garçons com librés de seda, etc., no Trianon de porcelana, por exemplo, perderia completamente o gosto. Aquilo tem que estar a la far niente com umas gotas de azeite grossas empanturrando a calça do garçon… é, tem que ter uns relaxamentos desses para sentir a realidade da vida.
Não sei se você concorda com isso, meu Nelson?
(Sr. N. Fragelli: Inteiramente.)
E assim serão os palácios de Siracusa. Deve ser isso.
Em cima, bem em cima tem os restos de uma escultura do século XVI por exemplo, e perto, junto, tem uma chaminé que há muito tempo não se usa mais, e dentro da qual mora um galo branco, está compreendendo?
(Sr. N. Fragelli: É exatamente assim.)
E o galo faz no idioma universal que os galos usam, faz co-co-re-có quando chega em certas horas, e então o restaurante embaixo que vende umas pizzas deliciosas, mas também ensebadas e tudo, este restaurante chama Cocoricó por causa do galo. A coisa é assim….
Aloísio dirá que isto são sabores, cores e odores [fade?] do Ocidente. Que no Oriente as vacas que andam pela rua comunicam à vida outra… [Risos]
(Sr. P. Roberto: As aves que lá gorjeiam não gorjeiam como aqui.)
* A SDL é a pessoa que deveria comunicar ao SDP através de um sonho a glória que representaria para ele os lançamentos de seu Livro sobre a Nobreza
Exatamente, aahahaha! Exatamente, tal e qual.
Mas o fato concreto é que — voltando ao sonho — aquilo tinha caráter de sonho que os fatos confirmaram. E a confirmação dos fatos, a mim eu não posso negar, tanto mais quanto eu não sou pessoa de sonhar. Eu acho que é raríssimo vocês me ouvirem contar algum sonho, se é que acontece. São sonhos insignificantes. E por outro lado, sonho com mamãe é para mim de uma significação enorme. É com mamãe que eu haveria de ter esse sonho. E depois eu não consegui decifrar. Foi depois só de dada a confirmação, que eu compreendi o que o sonho queria dizer.
Quer dizer, é uma coisa que está bem demonstrada.
Agora, nessa espécie de communauté que existe entre nós, eu não andaria bem se uma coisa dessa eu não contasse. Eu não andaria bem, eu deveria contar. Deveria naturalmente escolher uma oportunidade, não deveria ter sofreguidão e sobretudo não contar num ambiente de sofreguidão. Não fazer nenhuma mise en scène, mas em certo momento contar.
Eu ali pensei: “está na hora, chegou a hora, eu vou contar”.
Agora, também tem que a reunião tinha chegado a um dos numerosos pequenos engarrafamentos onde ela chegou hoje. E terminaria encalhada se eu não dissesse uma coisa que desse vida. E dizendo aquilo eu tinha certeza que daria vida.
(Sr. P. Roberto: Mas tudo que o senhor diz tem significado. Então nós nos perguntávamos se isso não teria sido uma demonstração do papel precursor dela enquanto sendo ela que viria trazer essas desinfestações e graças novas como essa que foi inaugurada agora.)
É possível. Depende do efeito. O que vocês estão dizendo fala a favor dessa hipótese. Não fala de um modo irrecusável, mas fala a favor dessa hipótese. Se outros fatos e circunstâncias se derem nesse sentido, ser-nos-á lícito concluir nessa linha.
(Sr. Gonzalo: Tem um texto muito bonito. Como o senhor está falando do caos, e do demônio do caos, o senhor na última reunião analisando as fotos — o sr. Horácio mostrou para o senhor a última foto que encontrou dela — o senhor deu um trecho muito bonito sobre a ordem que havia na Senhora Dona Lucilia. Havia uma espécie de oposição entre ordem e caos que também tem nexo. Todas as coisas se encaixaram muito bem. O sr. Nelson tem as palavras do senhor . Talvez ler.)
(Sr. N. Fragelli: Posso ler, Senhor Doutor Plinio?)
Pode.
(Sr. N. Fragelli: É interessante notar quantas vezes o senhor falou em ordem. O senhor disse:
É um teclado todo posto em ordem, todo posto em ordem. E depois a nota que aparece muito aqui é o seguinte: é uma ordem que ela impôs a si mesma porque estava de acordo com o que o intelecto dela explicava o que era a ordem. E aí está uma resolução de estar dentro dessa ordem e viver dentro dessa ordem e para essa ordem, que com toda suavidade dá um traço heróico.
Eu não sei se notam que é um traço heróico. É de um certo jeito, acabou-se.
Sim.
(Sr. Gonzalo: Tudo isso se encaixa no anti-caos.)
* Analisando a SDL no sonho, o SDP percebeu o quanto ela estava alegre, transbordante, mas ordenada, nela tudo estava em ordem e assim é que se deve ser
E depois no sonho ela veio… eu também não contei isso porque me escapou. Mas quando ela chegou bem perto de mim, e que nos abraçamos, beijamos e tal, não é que eu desse muitos beijos a ela, ou ela a mim, não; mas é a efusão recíproca de afeto que se deu nessa ocasião. Mas eu olhando para ela, sempre a analisei muito e mesmo em sonhos analisei muito. E o fruto dessa análise nessa ocasião foi uma coisa assim: “como ela está alegre, transbordante, mas ordenada!” Eu me comprouve muito nisso. Quer dizer, deve-se ser assim, mas ela o é, mas o é muito intensamente. É transbordante, alegre mas ordenada. Está tudo em ordem. E é como eu gosto, assim se deve ser. E o conceito de ordem entra muito nisso.
Agora, o que eu acho é o seguinte: que realmente vocês têm razão, se deduziram disso, que se pode esperar que em outras ocasiões ela seja expressivamente, significativamente utilizada pela Providência para de um modo ou de outro, fazer sentir isto. Porque nossa vida, ainda mais agora com esse negócio desse sonho, a gente prestando bem atenção, tem uma contradição curiosa sobre a qual, aliás, nós já falamos várias vezes.
* Além dos vidros que se quebram sozinhos, pode ser que comece na história da TFP uma etapa em que sonhos ou outras coisas assim, em que a SDL esteja, tenham uma marca especial
Ela tem sido uma vida árida, de aridezes enormes, marcada de tempos em tempos por uma coisa que à força de se tornar freqüente se tornou altamente expressiva, que é o famoso negócio dos objetos de vidro que se partem. Isso é uma coisa que nós não podemos deixar de tomar a sério. E uma vez que estamos nessa construção, nós devemos lembrar.
Ainda outro dia, foi uma história no Canadá com Picanço. No Canadá inglês portanto, com o Picanço e com outras pessoas. Eu não me lembro bem dos pormenores, mas afinal de contas era uma coisa, um recipiente qualquer que continha vinho. E eles estavam todos numa outra sala, e em certo momento — o clássico! — é um estalo. Engraçado que o estalo faz parte do fato. Porque podia haver a fratura sem o estalo. Mas não, o estalo chama a atenção para o fato. E muitas vezes não se notaria que houve o fato se não houvesse um estalo.
(Sr. Guerreiro: Ou se notaria mais tarde.)
É, mas a questão é a seguinte: é que ao notar-se mais tarde, começaria aparecer alguma dúvida a respeito da situação inteiramente anormal com que o fato se passou. Uma coisa impressionante é que todos notam ao mesmo tempo. Ou seja, há o testemunho para todos de que aquela brisure se deu no mesmo momento para os ouvidos de todos. Isso é uma coisa muito impressionante.
E então esse estalo se notou, e o vinho se espalhou, etc. O resto da coisa.
Mas o nosso caminho é marcado quase que em etapas por esses estalos.
Agora, além desses estalos pode ser que comece uma etapa em que sonhos ou outras coisas assim, em que ela esteja, tenham uma marca especial. É uma coisa evidente.
(Sr. Gonzalo: É muito importante, porque a gente vê também de outro lado o demônio mexendo muito.)
Muito.
(Sr. Gonzalo: Não sei se desse lado o senhor poderia tratar um pouco mais sobre como o senhor vê todas essas infestações e essas, etc. […] O demônio mexe muito nisso.)
Muito, constantemente.
Mas sem chegar já ao demônio vamos terminar a coisa.
Fica a meu ver perfeitamente demonstrado que ocorrendo fatos desta natureza, nós devemos medir até que ponto esses fatos são verdadeiros ou não, conferindo com esses dados. Porque esses dados dão uma solidez ao que se venha a passar nesse terreno. Constitui uma espécie de apologética do que se venha a passar nesse terreno.
Eu queria chegar até lá bem expressamente porque isto é muito natural. Muito bom.
* Na infância do SDP as manifestações do sobrenatural se davam a propósito de coisas maravilhosas, mas que eram ao mesmo tempo puramente naturais
Agora, falando o que você pedia a respeito do demônio, eu quero dizer a você o seguinte: que muito freqüentemente, quando eu era menino, eu tinha sensações — mas eram sensações que se apresentavam a mim como coisas assim maravilhosas, mas que eram ao mesmo tempo puramente naturais. Eu não compreendia que uma visão, uma revelação, uma manifestação sobrenatural qualquer pudesse dar-se a não ser por meio de Deus, de um de seus Anjos ou de seus Santos aparecendo e falando. Eu não compreendia que não pudesse haver… eu era muito menino, eu tinha cinco anos, tinha seis anos, o que é que eu podia entender disso?
Mas muitas vezes acontecia que diante de certas coisas bem ordenadas que ainda eram restos da Belle Époque algumas coisas esplendidamente ordenadas para nível sul-americano. Num nível sul-americano, esplendidamente ordenadas. Outras coisas ordenadas de modo razoável, agradável, etc, mas sem ser tão esplêndidas. Outras coisas, às vezes muito menos, eram coisinhas pequenas, mas que tinham — é bem a Belle Époque — um agradavelzinho extremo que enchia a pessoa que tinha a coisa de bem-estar.
Eu vou mencionar, por exemplo, uma coisa que era assim: os devocionários. Vocês fazem idéia — vocês não alcançaram isso, vieram muito depois de mim — vocês não fazem idéia do que eram os devocionários para criança — porque os havia especialmente para criança — no meu tempo de menino. Sobretudo de menininho. Quando eu entrei no São Luis já isso estava morrendo. Eu entrei com uns dez anos, mais ou menos no São Luis.
* Um devocionário de madrepérola que na mais tenra infância do SDP o fazia pensar agradável e intensamente numa porção de coisas
Mas eram devocionários… aqui não havia senão tipografias muito comuns, e então os devocionários finos vinham da Europa. E um devocionário, um livrinho de oração com orações privadas com o texto da missa, com algumas coisas dessas, podia vir por exemplo, todo ele plaqué dos dois lados e também na costaneira de madrepérola.
(Sr. N. Fragelli: Muito gracioso, muito próprio…)
Muito próprio, mesmo para uma criança e tudo. E com os dizeres sempre em francês Livre de messe, ou livre d’oraison, livre de prière, qualquer coisa assim em letra dourada, gravada não sei como no fundo assim sobre madrepérola. E com letras bonitas assim.
Pegando o jogo da madrepérola e vendo aquele irizado da madrepérola… e depois o livro também podia ser assim, não era necessariamente, mas era a madrepérola e depois debaixo a madrepérola, não sei por que, talvez para evitar que a madrepérola se quebrasse, um acolchoamento de algodão, de qualquer coisa assim muito mais mole. Depois um papelão, depois então um papel qualquer que era assim, que dava impressão de feito de seda, ou era seda, colado do lado de dentro. E a capa ser constituída, portanto, de materiais de resistência diferentes. Depois tinha o frontispício do livro já escrito em vermelho, dourado e em preto… [vira a fita] … e de dentro saía, por exemplo, uma ou duas fitazinhas e uma espécie de cordazinha de seda para a criança marcar onde é que estava… e também pretexto para pôr enfeites para alegrar a criança.
O ter uma coisa dessa poderia produzir em mim um prazer intenso mas que não era apenas o prazer da posse de um objeto bonitinho, que qualquer criança gosta de ter. Mas era um gáudio intenso que hoje eu vejo que tinha possivelmente ou até muito provavelmente alguma coisa de meio sobrenatural, uma graça que era ligado àquilo que fazia com que ter aquilo nas mãos e durante a semana inteira com a recomendação de não usar porque podia quebrar — eu era um quebrador medonho — mas na hora de ir para a missa, então podia pegar. E na missa utilizar aquilo, etc., etc., era um coisa que dava uma alegria intensa.
Assim na minha primeira idade de recordações, havia já coisas que faziam pensar agradável e intensamente numa porção de coisas assim.
* A partir de uma certa época, o SDP percebeu que tudo aquilo que era muito bonito foi sendo substituído por coisas que eram boas, mas que já não tinham a tendência para o belíssimo
Mas eu fui vendo, essas coisas que eu gostava muito, eu ter a tendência a elogiar muito, eu era muito comunicativo, eu elogiava. Mas o elogio era respondido para mim por um modo sumário e distraído de quem compreende que eu esteja gostando, não acham que seja uma gagueira que eu esteja gostando tanto assim, mas acham que é inoportuno, e não se… “este é um gênero de sensações sobre as quais não se conversa”.
(Sr. P. Roberto: Demasiado)
Não exagerado, não, é inoportuno, você vai ver onde é que a coisa chega.
Daí a pouco, vamos dizer um ano ou dois depois, eu recebo um outro devocionário, com essa explicação:
“Olha aqui, este aqui é muito mais prático. Tem um índice muito melhor, e não tem perigo de quebrar a madrepérola. Você guarda esse de madrepérola na sua gaveta e use agora este outro”.
Mas eu ficava espantado e pensei: “mas então eu estou na fruição desse objetos e me tiram para pôr nas mãos um objeto tão inferior, com esta indiferença?”
Eu percebia que as pessoas faziam, elas, com coisas dela, também coisas assim. Vamos dizer, senhoras que deixavam de usar coisas bonitas… Por exemplo, uma coisa muito bonita que eu suponho que vocês gostem também, aigrette. Elas usavam assim… por exemplo, uma coisa muito usada, é uma espécie de diadema de tartaruga. A mais bonita era a tartaruga dita loura. De um amarelo… não chega a ser bem amarelo, mas é um marrom…
(Sr. N. Fragelli: ≥mbar.)
É meio dado a âmbar. E que circundava a cabeça das senhoras. Mas quando chegava aqui, tinha um dispositivo e se prendiam penas de garça muito delicada, só a parte mais delicada da penugem que formava na cabeça das senhoras uma espécie de chafariz seco de mil gotas d’água.
(Sr. N. Fragelli: Inteiramente branco.)
Branco, mas de um branco meio éclatant, bonito, agradável, e que as senhoras punham muitas vezes, por exemplo, em recepções, etc. De repente, eu via sumir. E via continuamente um sumir de coisas muito bonitas, substituídas por outras que eram boas, mas que já não tinha aquela tendência para o belíssimo que representavam não propriamente, diretamente um repúdio, mas um refluxo. Como uma maré que se retira.
* Na queda do luxo o SDP percebeu a ruptura com uma ordem de coisas invisível mas que pairava acima da ordem visível e com a qual se tinha por meio do maravilhoso uma certa comunicação
Isto em mim produzia as seguintes impressões: “então, é uma coisa lindíssima que me foi dada como lindíssima, ou que fulana — uma prima, ou uma tia, mamãe, o sei lá quem for — recebeu e mostrou para várias pessoas e todo o mundo achou que estava muito bonito, etc., e que de repente sai da moda. Mas a tal famosa moda tem como seguinte resultado que nunca é substituída por uma coisa mais bonita. É substituída sempre pelo nada, quer dizer, um ornato que desaparece ou por uma coisa que quase não é mais ornato mas que tem um sentido prático que a primitiva aigrette não tem.
(Sr. P. Roberto: É passar da monarquia para a república.)
Perfeitamente, meu filho. É isso, é passar da monarquia para a república.
(Sr. N. Fragelli: Um dos nobres que discursaram no lançamento do livro do senhor, ele disse: “nós, os nobres, gostamos de luxo, os burgueses se contentam com conforto….”)
Aahahahahah! É muito interessante! Pois bem, essa gente que eu vi, derrapava do luxo para o conforto. Mas num festival de conforto hollywoodizado. Que era a transição… se você quiser era a democratização.
(Sr. Guerreiro: O conforto atende mais ao corpo, e o luxo muito mais a alma.)
Muito mais, dá uma outra alegria.
Mas eu percebia aí uma espécie de ruptura com uma ordem de coisas invisível mas que pairava acima da ordem de coisas visível e com a qual se tinha por meio do maravilhoso uma certa comunicação.
(Sr. Guerreiro: Certos passaportes para aquilo.)
Isso mesmo.
E essa comunicação quebrava, mas no mesmo tempo em que isso se quebrava as almas se tornavam incapazes de certas formas mais delicadas de trato, de atenções, de amizade, de carinho, de solicitude, etc., etc., mas era como se houvesse uma tal brisure que de fato seria com um fluxo superior que não descia mais, e que tornava os homens — que não descia porque eles não tinham mais querido — incapazes de estimar e de querer isto, e os tornavam todos eles — para usar a expressão do Paulo Roberto — republicanizados. Era posto um barrete frígio na cabeça de todos eles.
(Sr. Guerreiro: Isso está extraordinário. Isso pode entrar como um espécie de texto para explicar as origens e os fundamentos do pensamento aristocrático.)
Ah sim, acho que sim. Eu acho que sim.
(Sr. Guerreiro: Católico.)
* Quando não se conseguia destruir uma coisa bonita, havia um jogo pelo qual se dizia que aquilo era de uma beleza linda, mas que tinha deixado de ser para o tempo
Católico.
Depois uma outra coisa que eu sentia muito: quando uma coisa bonita dessa eles não podiam destruir, havia um jogo pelo qual eles diziam que aquilo era uma coisa de uma beleza linda, mas tão bonita que tinha deixado de ser para o tempo. Era mais ou menos como um balão que escapa das mãos da criança e que fica pousando no ar. Então a criança não pode mais pegar porque escapou da mão, mas fica olhando. Assim também…
Por exemplo, a Sainte-Chapelle seria para eles um balão. No seguinte sentido — é claro que a Sainte-Chapelle material está lá, não é um balão, mas aquela ordem de beleza passou. E depois passou, mas a gente não deve também ter muita nostalgia: “é pena, a gente até vai ver, visitar, etc., etc.”, mas é substituído pela máquina, é substituído pela velocidade, economia, técnica, etc., que dão outros valores, inferiores, é fora de dúvida, mas com os quais eu sentia operar-se em mim, dentro da minha cabeça, uma coisa que era assim:
Ficava uma parte de minha alma aderente a essa parte superior das coisas, e eu não queria não aderir, de maneira que eu ficava mais do que com esta nostalgia. Mas por exemplo, com o aroma de uma flor que não deixou de cheirar bem porque ela foi cortada da raiz. Então uma folha seca, se você quiser, mas é uma folha que ainda cheira bem. Assim eram todas essas recordações dessas coisas para mim. E na minha alma uma série de coisas caminhando nessa direção. E sentimentos que eu sentia sozinho e que às vezes sentia vendo a alma de mamãe. E que me davam assim, essa espécie de, mais do que nostalgia, uma sobrevivência em mim daquilo que ninguém mais queria. O que fazia parte do programa da Contra-Revolução: “haverá um dia em que todas essas coisas voltarão, e isto faz parte da vitória com a qual eu conto”.
(Sr. Pedro Paulo: Isso liga perfeitamente o sonho com o livro do senhor sobre a nobreza, com a glorificação, com o esplendor…)
Isso.
(Sr. Pedro Paulo: Que é o ressuscitar de tudo isso.)
* Uma metáfora que explica o processo pelo qual se chegou aos horrores dos presentes dias
Não, é isso, e é a necessidade de [que tudo?] se ressuscite. Está acabado. Porque não é possível na Terra…
Eu vou dar uma comparação que é horrorosa, mas você imagine numa banheira. Tem a torneira de onde sai a água limpa para a pessoa tomar banho, e tem o ralo por onde a água servida se despeja para dentro do encanamento.
Agora, você imagine, uma banheira na qual a água não servida deixa de correr, mas do ralo fica continuamente aberto com água servida de outros encanamentos, em certo momento não me espanta de bichinhos horrorosos “monstrequinhos” de natureza misteriosa e perfeitamente repugnante começarem a subir e tentarem invadir o quarto.
Assim, quando com esta esfera superior que não é outra coisa senão a graça tornada sensível — e que é o tal contato com a esfera superior — tornada sensível a propósito de objetos concretos que a gente vê, etc., quando há uma coisa dessa que determina, que ocasiona o fechar da água limpa, os monstros vêm. Não é possível que dos ralos — para falar de um país — do Brasil não saiam os bichos que vão ocupar os mais altos lugares da política, da administração, das finanças e do que mais queiram…
(Sr. Guerreiro: Da vida cultural.)
Da vida cultural, do que queira, é impossível que não seja ocupados pelos bichos vindo do ralo se a água deixa de correr.
Eu estou conseguindo ser claro?
(Sr. Gonzalo: Está sublime. E está muito ligado ao ato de virtude imenso.)
É isso, é.
(Sr. Gonzalo: O senhor dizia que a Revolução começou por um pecado imenso, mas tinha que ser fechada a Revolução por um ato de virtude imenso. E o senhor praticou exatamente para isso. Porque o ato de virtude imenso consistia nessa fidelidades às arquetipias de menino. […])
* Só há uma solução para a atual ordem de coisas: restaurar o elo de ligação entre a mística e a sociedade temporal
É tal e qual.
Bom, mas a questão é a seguinte:
A gente olha para o Brasil e diz: isso não tem remédio.
A vontade que eu tenho é de dizer: “solte a água limpa!”
Não precisa mais nada. Ela correndo, a bicharada vai pelo ralo correndo. E em pouco tempo a banheira está em ordem.
Quer dizer, crie, restaure esta situação e nós teremos toda uma ordem de coisas que se põe de novo como ela deveria se pôr. Enquanto não fizer, o número de gatunos e de idiotas vai crescendo.
(Sr. Gonzalo: Só que tem uma só torneira de onde essa água vem.)
É isso.
(Sr. Gonzalo: E o problema é que querem abrir outra torneira e não dá.)
Não dá. Não dá.
(Sr. Gonzalo: Tem que ser só por uma.)
É isso.
(Sr. P. Roberto: E tem uma cachoeira que tem vários andares, e o primeiro andar é o Grupo. O primeiro receptáculo dessa água deveria ser o Grupo.)
E que deve depois derramar para outros.
Agora, para que essa água passe de um degrau da cachoeira para outra, é preciso que no degrau um, onde ela repousou, ela seja amada e transmitida com amor para o degrau seguinte. Se faltar o amor, falta limpeza.
(Sr. P. Roberto: Se faltar também a ligação com a fonte primeira.)
Está claro.
(Sr. Gonzalo: Não é só uma coisa teórica.)
Não, isso é absolutamente assim.
(Sr. P. Roberto: Isso dá ar, porque a gente vê que o senhor sustentou a fé de todos nós, pelo menos, porque se não fosse isto não haveria possibilidade de haver uma base para a fé, para nós.)
(Sr. Paulo Henrique: O senhor sustenta a fé de um hindu que está na Índia, que está lá, que se aproxima, e que se sente com sua fé vivificada por causa do senhor, porque caso contrário já teria perdido…)
A questão é que estas graças foram dadas para sustentar a fé. Aí é que está.
(Sr. Guerreiro: São ilustrações da fé.)
São ilustrações da fé. Perfeitamente.
(Sr. Paulo Henrique: Que é o que importa.)
É muito boa a expressão.
(Sr. Paulo Henrique: Isso seria a clave, o ponto mais alto por onde todas as outras coisas se estruturam.)
Mas agora, aqui vem a questão. É que o homem foi colocado — mas esta alternativa nunca foi a meu ver colocada de modo tão flagrante como na época que eu vou mencionar — em determinado momento foi colocado entre fechar a torneira para deixar os bichos penetrarem porque são engraçados, porque são ridículos, porque a gente ri com isso, se diverte, porque esses bichinhos, vamos dizer que falam e contam anedotas porcas, etc., e ele se deita na banheira seca e se enche desse bichos. É a tragédia do homem na Revolução Francesa. Todo pulchrum anterior à Revolução Francesa, ele fecha as torneiras.
(Sr. P. Roberto: Estão aparecendo alguns automóveis que têm atrás um colante…)
“Autocolant”.
(Sr. P. Roberto: Que tem um demônio e diz: “why not”, quer dizer “por que não?”)
Está vendo? Mas é isso. É como quem chega para o ralo de onde sai os bichos e diz: porquoi pas?, Why not? Deixe vir, vamos brincar. Mas todo pulchrum desaparece. Toda beleza morre, etc.
(Sr. P. Roberto: Mas o senhor estava falando da Revolução Francesa.)
Mas depois a Revolução Francesa é seguida de uma cascata de “revoluções francesas mirins”, pequenas. Por exemplo, quando cessou a Belle Époque e começou uma Époque que se não é mais a Belle Époque só pode ser a laide Époque. Um raciocínio que eles não gostariam de ouvir…
Você que está todo impregnado das coisas da França, dizer isso numa conferência, não querem nem saber saber. De nenhum modo.
(Sr. Gonzalo: Deixou de ser “belle”, teria que ser “laide”.)
Não tem… como é que pode…
Bom, e então nós temos esse avanço da laideur que vai indo, mas com a laideur vai indo — e isto que nos interessa — simultaneamente o gosto da laideur veio produzindo um enfaramento da lucidez, um enfaramento da clareza cristalina da palavra que é dita e que tem um alcance que não deixa margem à dúvida nenhuma, de tudo aquilo que a qualquer título é bonito, a contestação daquilo vai saindo dos vários ralos.
Mas isto vai abrindo no espírito humano uma receptividade para tudo quanto é torto, para tudo quanto é errado, para tudo quanto é monstruoso, que necessariamente tem que abrir, tem que ser, que dê numa forma de desequilíbrio que não é aquela história da cabeça do camelo que eu falei hoje, mas é o desequilíbrio que nós estamos presenciando.
(Sr. Pedro Paulo: Isso vai ao fundo da questão de hoje.)
Isso, seu eu fosse expor hoje à tarde, levava outra reunião. Vocês estão [subissant??] a reunião agora à noite…
(Não!!)
Bem, mas de fato eu pergunto: podia não ter acontecido isto? Esta espécie de hecatombe da lucidez, podia não ter acontecido? Não podia não ter acontecido.
(Sr. Gonzalo: Se fecharam à fonte, não tem jeito.)
Não tem jeito.
(Sr. Gonzalo: Esse fim dos padres aidéticos, essas coisas partem do fechamento da “estrutura” em relação ao senhor.)
Isso.
(Sr. Gonzalo: Se fecharam, e não tem jeito.)
A coisa vai para frente.
Quer dizer, vai para frente, vai para frente, vai para frente.
(Sr. Guerreiro: E também começam aparecer as criaturas espirituais que têm afinidade com essa deformação de alma.)
Pois é. E aí vem as coisas…
(Sr. Guerreiro: O reino do demônio é meio inevitável.)
Inevitável! Quando é que começou? É no momento em que o homem resolveu não pôr aquela borrachazinha no ralo. E não abrir a água limpa, começou o reino do demônio. A primeira formiguinha mal construída com a cabeça entre as patas e toda torta que saiu de dentro, mal cheirosa e vertendo um líquido esverdeado nojento, a primeira formiguinha dessa, é o demônio que começou a reinar.
Isso nos dá a coisa.
Agora…
(Sr. N. Fragelli: De certo modo é a RCR no plano simbólico, transesfera…)
No alto, no mais alto ponto do plano simbólico é isso.
(Sr. Gonzalo: Agora, isso não foi sem demônio ou foi com demônio? […] O homem não se deixou deformar por um erro, ou por uma falta de luminosidade, mas foi junto com a infestação, ou o senhor analisou só a parte natural sem entrar no preternatural ainda?)
* O momento delicado não é o momento em que o demônio bate na porta, é o momento em que ele produz no homem uma certa saciedade das maravilhas de que ele está cheio
Não, foi pari passo. Mas pari passo assim: quando é que começa a coisa? É quando se retira o sensível e Deus resolver provar o homem, e, portanto, cria o campo em que o demônio pode entrar, ou é no momento em que o demônio bate na porta e produz no homem… O momento delicado não é o momento em que o demônio bate na porta, é o momento em que ele produz no homem uma certa saciedade das maravilhas de que ele está cheio. E ele fica sensível a que um bêbado sujo, fétido, e gritando coisas obscenas e apalhaçadas bata na porta dele. Ele está colocado num salão maravilhoso, ele ouve aquilo e ele tem uma espécie de alívio e diz: “deixa entrar afinal de contas a gargalhada!”
(Sr. P. Roberto: É Eva com a serpente.)
É isso.
(Sr. Gonzalo: Todas as apostasias são por aí.)
É isso. Não tem conversa.
(Sr. N. Fragelli: Quando o senhor penetrava através das coisas maravilhosas nessa esfera mais alta, por que é que vendo a alma da Senhora Dona Lucilia tudo isso se tonificava no senhor e se tornava mais fácil?)
Porque eu notava que a alma dela era intensamente colocada nessa esfera.
(Sr. N. Fragelli: Ela também?)
Ela também, intensamente.
(Sr. Guerreiro: Embora não explicitasse para o senhor.)
E nem saberia explicitar.
(Sr. Guerreiro: Mais via.)
Via e sobretudo mostrava.
(Sr. Guerreiro: Transluzia para o senhor.)
Transluzia.
(Sr. N. Fragelli: E que daí a ordem que o senhor assinala, aquilo que o senhor chama tanto atenção para a expressão de ordem que tem…)
É isso.
(Sr. N. Fragelli: Daí vinha essa ordenação…)
É isso.
(Sr. Paulo Henrique: E seria uma característica da santificação dela.)
É sim, sem dúvida.
(Sr. Paulo Henrique: O sr. Nelson comentava que ela era uma senhora que não era de ficar nas sacristia, não foi freira, etc., ela se santificou inaugurando uma via inteiramente nova.)
É isso.
(Sr. N. Fragelli: De uma comunhão intensa com a civilização cristã.)
É isso. Ela tinha tudo isso muito intensamente em si.
(Sr. N. Fragelli: Era ela.)
É isso.
(Sr. P. Roberto: É uma ordem povoada dessas coisas.)
* O sentido profundo do “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”
Povoada dessas coisas. Mas a começar por uma ordem interior.
Quando ela dizia — vocês vão ver agora uma coisa aparentemente pequena, mas todo o conteúdo que tem — que “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”, era verdade suposto que todas as pessoas estivessem nessa ordem.
(Sr. N. Fragelli: Muito bem, muito bem.)
(Sr. Pedro Paulo: É um detalhe indispensável para compreender.)
É. Eu creio que aí se compreende bem a coisa.
(Sr. Guerreiro: A gente vê muito claramente o quanto ela foi um exemplar cheio de riquezas para a própria formação do senhor.)
Enormemente! Mas enormemente!
(Sr. Guerreiro: Ela foi a ilustração para o senhor exercitar seu profetismo.)
Enormemente.
(Sr. Gonzalo: O ambiente da casa o senhor também dava como elemento disso.)
Mas é porque a casa dela tinha uma porção de coisas assim, de que vocês têm sobrevivências aqui.
(Sr. P. Roberto: A casa como que fica marcada pela alma dela.)
* Há um momento em que existe no homem uma saciedade da ordem e um desejo da desordem, do imprevisto, da gargalhada, que levam a uma posição desmandada
Pela alma dela.
Agora, onde é que então começa o problema?
É como na parábola do príncipe perfeito. Do príncipe que teve a tentação. Quer dizer, é um momento em que existe uma saciedade da ordem e um desejo da desordem, do imprevisto, da gargalhada, etc., que levam a essa posição desmandada.
(Sr. Pedro Paulo: É a explicitação do Reino de Maria.)
É a explicitação do Reino de Maria.
Diga.
(Sr. Paulo Henrique: Perdão, senhor, o senhor ia dizer…)
Não, fale você.
(Sr. Paulo Henrique: O senhor ia dizer…)
Eu não ia dizer nada de especial.
(Sr. Paulo Henrique: A respeito do príncipe perfeito. A partir daquele ponto foi desencadeado o processo revolucionário, e séculos depois nasceu a Senhora Dona Lucilia, agora, como é que ela ficou imune a esse pecado de Revolução, guardando essa ordem interior? Porque o senhor disse que fato isso partia de uma ordem interior dela. É evidente que isto parte também de uma graça, mas ela correspondeu inteiramente a essa graça…)
Foi. Foi isso.
(Sr. Paulo Henrique: Mas ela não se deixou penetrar pelo pecado de Revolução.)
Não.
(Sr. Paulo Henrique: Agora pelo que nos consta deve ter sido a única…)
Ah, eu acho que é a única. E depois tem certas coisas assim….
(…)
* O momento em que o SDP teve que optar entre uma vida séria e grave como a da SDL ou uma vida de alegria e superficialidade como a de uma tia
… para 15 dias. E você sabem bem que para um menino ficar 10 dias de cama é uma tortura, simplesmente. Quinze dias é inimaginável. Ele pensa que no décimo quinto dia estará morto de desagrado, etc. Quando começava a doença, dizia-se para a criança: “você está com catapora…”
A criança: “uhhiihn”.
— Não, não chore porque é bobagem, você vai ser muito bem cuidado por mamãe, etc.
Só de ela começar a me vir com essa cantiga, já eu ia acreditando, ia me consolando, etc. Um certo momento, eu não sei bem por que, se mamãe andava mais doente, eu não sei o que é que era, arrebentou em mim uma doença dessa. Digamos caxumba. E mamãe apareceu no quarto com minha tia. A minha tia dando risada, achando tudo muito engraçado, etc., etc., e mamãe com aquele sério daquela fotografia que está naquele [sofá] do meu quarto de dormir. E ambas puseram a coisa assim…
A minha tia:
— Sua mãe está muito cansada, enfim, por estas ou aquelas razões, há conveniências que não trate de você, mas eu estou disposta a tratar de você com todo carinho, etc., etc.
Mamãe olhando.
E mamãe disse:
— Meu filho, é claro que se você preferir tratar comigo, você terá tudo que você quiser, com aquela assiduidade, aquela tranqüilidade, etc.
E se pôs diante de mim à maneira de uma opção para o futuro. Mas posto assim:
Quer dizer, aqui está um modo de enfrentar a doença com a gargalhada, com a brincadeira; ela com certeza vai comprar para você um palhaço de pano para você se divertir. Ela vai comprar um gramofone — gramofone é uma forma ancestral dessas caixas de som; então a gente dava a volta assim com uma manivela, que eu me prestava em quebrar logo com a minha falta de jeito, mas compravam outra —, ela vai manter um ambiente de alegria em torno de mim. Mamãe vai manter em torno de mim um ambiente de seriedade e de tranqüilidade. O que é melhor para eu sarar logo? A alegria ou a seriedade e a tranqüilidade? Eu preciso escolher uma atmosfera de cura. E ficamos os três quietos. E eu olhando para as duas. E por algum lado muito mais atraído para a tia, pelas razões que eu estou falando. Por outro lado, naturalmente, incomparavelmente…
(…)
Bem, o tratamento começou com mamãe.
(Sr. N. Fragelli: Que situação.)
* Na própria família, de um modo, na aparência, o mais legítimo possível se decide num minuto o rumo de uma vida inteira
Mas eu percebi, Nelson, que se eu fizesse outra escolha, era para a vida inteira.
(Sr. Guerreiro: A escolha se colocou na própria família.)
Na própria família, e do modo, na aparência, o mais legítimo possível. Eu tenho certeza eu você não encontraria um padre que censurasse isso.
(Sr. Paulo Henrique: E isso é uma questão de segundos ou de minutos.)
Minutos.
(Sr. Paulo Henrique: Para o senhor tomar essa decisão.)
Um minuto ou dois. Você está vendo um menino…
(Sr. Guerreiro: É bom a gente saber que na própria família isso pode acontecer…)
(Sr. N. Fragelli: Eu me lembro dos momentos em que eu optei pela “tia”. Vários na minha vida.)
Está vendo.
(Sr. N. Fragelli: Me lembro perfeitamente.)
(Sr. Guerreiro: Sim, mas todos nós. Começa pela tia para depois entrar em outras coisas.)
Mas você vê como… mas o que o Nelson disse tem esse interesse de que realmente essa opção se põe. Não é um fruto da minha fantasia, mas se punha…
(Sr. N. Fragelli: Não, eu me lembro perfeitamente.)
(Sr. Guerreiro: E depois, dentro da TFP isso se põe novamente.)
Ah, se põe a todo momento.
(Sr. Guerreiro: E se porá até a Bagarre e depois no Reino de Maria.)
No Reino de Maria essas opções renascem.
(Sr. N. Fragelli: Hoje, pelo que o senhor diz, eu vejo que entrava um demônio.)
Está vendo que coisa interessante?
(Sr. N. Fragelli: Entrava um demônio, e um demônio que fica e certamente fica até hoje, e que constitui a grande tentação da qual o senhor falava na Reunião de Recortes.)
É isso.
(Sr. N. Fragelli: Sucessivos depósitos de demônios…)
(Sr. Gonzalo: Quantidades de “tias” que se optou.)
(Sr. N. Fragelli: Quantidade de “tias” que se optou. E eu me lembro de uma eletricidade que entrava na hora, e [dizia]: “é isso mesmo, é essa a opção e pronto!”)
Está acabado.
(Sr. N. Fragelli: E era a Revolução.)
É terrível, ouviu?
(Sr. P. Roberto: Mas senhor, […inaudível] são as opções atuais mesmo, não é?)
* No relacionamento com o SDP, uma atitude que aparentemente é fio de linha de baixa-tensão, mas que de fato é fio elétrico de alta-tensão
São terríveis. Terríveis. Só de ouvir uma reunião de sábado, e me verem pregar uma palavra de linguagem um tanto arcaica e revoltar-se, dizer: “não, essa palavra não se emprega mais, ele não devia usar isso, ele está puxando continuamente por demais para trás”.
Só isso: “essa palavra eu nunca usarei!”…
(Sr. N. Fragelli: Está muito bem explicado. Muito bem explicado. É assim mesmo.)
É assim mesmo.
(Sr. Pedro Paulo: Fio de alta-tensão.)
Não ouvi.
(Sr. Pedro Paulo: Fio de alta-tensão.)
Fio de alta-tensão.
(Sr. N. Fragelli: Aparentemente é baixa-tensão, mas que envolve…)
Aparentemente fio de linha de baixa-tensão. E é de fato fio elétrico de alta-tensão.
(Sr. Gonzalo: O senhor está dizendo uma coisa muito bonita, maravilhosa. Um convite… E depois a bondade do senhor é uma coisa incansável e impressionante. […] E de outro lado, nunca, jamais ter uma opção errada na vida.)
* Se a gente extirpa uma má opção, todas as outras más opções diminuem um pouco de intensidade; se as gente faz uma boa opção, todas as outras boas opções aumentam de intensidade
Começa por aí. Se a gente extirpa uma má opção, todas as outras más opções diminuem um pouco de intensidade. Se as gente faz uma boa opção, todas as outras boas opções aumentam de intensidade.
(Sr. P. Roberto: Ela poderia ser a padroeira nossa das boas opções.)
Ah, poderia ser.
Outro dia alguém me contou o seguinte: que foi ao cemitério e que encontrou um apóstata. Mas um apóstata recente. Pelo visto era um enjolras muito novo que eu nem ligava o nome à pessoa. Mas de um modo ou de outro, esse apóstata ia se retirando da sepultura, quando veio em sentido contrário um membro da TFP. [troca a fita]
(Sr. Gonzalo: Está pronto.)
Ah está pronto?
Se falaram, e o rapaz bom da TFP, percebeu o que é que deu com o apóstata. O apóstata teve um bom movimento de alma qualquer e foi rezar na sepultura. Então disse a ele: “mas por que é que você já vai embora, vamos juntos para lá?”
Ele disse: “eu vim aqui rezar para ela, mas acontece que à medida que eu me senti mais próximo da sepultura, ela foi me chamando com tanta força, que eu resolvi não chegar mais perto”.
(Sr. Pedro Paulo: Isso para nós é uma lição tremenda.)
Eu lhe garanto, meu filho, que isso se dá no cemitério com certa freqüência.
(Sr. Gonzalo: A todo momento.)
A todo momento.
(Sr. Gonzalo: Com o senhor a cada momento, aqui…)
É isso, aqui nessa conversa isso se deu.
(Sr. P. Roberto: Esperemos que quando o senhor nos convide para mais perto, nós não digamos não.)
* Uma pessoa pode chegar a um tal grau de dureza que quando se sente chamado com mais instância e mais afeto, não quer se aproximar porque não quer se dar por inteiro
É, pois é isso. Porque de fato na realidade das realidades realíssima é assim, a pessoa chega a um grau tal de dureza, que quando se sente chamado com mais instância e mais afeto, não quer se aproximar porque não quer se dar inteiro.
(Sr. P. Roberto: Mas isso aí é só uma graça de Grand-Retour, não é?)
É, é por isso que o Grand-Retour é qualificado como ele é. Quer dizer, todas as noções que nós temos de Grand-Retour cabem para isso como uma tampa de bombonnière cabe para a bombonniêre. Põe em cima e está perfeito, não tem mais nada.
(Sr. Gonzalo: O princípio que o senhor deu era que fazendo uma boa opção, todas as boas inclinações sobem, é isso?)
É isso. Se robustecem.
(Sr. Gonzalo: E extirpando as más, que se fizeram no passado, as más diminuem, é isso?)
É isso.
Há um outro princípio, meu filho, que é meio terrificante, mas é assim: é que as almas de muitas pessoas não fizeram a opção das opções seriamente. A opção das opções é: “eu nunca cederei! Perceberei todas e recusarei todas que são más, e aceitarei todas que são boas. Nunca cederei!”
A pessoa que nunca fez seriamente essa opção, está a todo momento balançando…
(Sr. Pedro Paulo: Esse é o equilíbrio da vida do senhor?)
Graças a Deus, graças a Nossa Senhora é.
(Sr. N. Fragelli: Só isso é equilíbrio.)
Só isso é equilíbrio.
(Sr. Gonzalo: A única solução séria é quebrar as pontes ruins. Entregar-se inteiramente ao senhor.)
É fazer, portanto, a consagração em toda seriedade. Mas consagrações feitas… bonitinhas… não valem nada.
Meus filhos, eu preciso ver um pouquinho a hora. Que horas são?
(Sr. Gonzalo: Já está tarde. São três horas.)
Eu lamento muito…
(…)
Vamos rezar, não é?
Há momentos….
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