Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
4/9/93 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 4/9/93 — Sábado
Quando a graça faz com que uma pessoa tenha um deleite santificante com a presença de outrem, o demônio não entra diretamente com tentações contra esse deleite, mas a propósito do status * O mundo do status, ao se revelar a um indivíduo não habituado a ele, cria uma tal obsessão que o indivíduo já não encontra gosto em mais nada * Há crises que não começam diretamente por nenhuma tentação de roubar, matar, etc., mas começam por matérias comuns; um exemplo * Quando entra a crise de obsessão pelo status, o indivíduo se desinteressa da vida espiritual * Para efeitos internos do grupo, deve-se prestar muita atenção em dar o valor supremo ao deleite santificante que a presença de outrem traz e não dar atenção ao mundanismo * O único contravapor para não se deixar levar pela obsessão do mundo do status é não se comparar, se começar a entrar um pouquinho a vida espiritual não dura um mês * A questão por onde o demônio entra é sempre o status, adaptado ao ambiente
(Sr. Gonzalo: […] Como o senhor vê toda essa situação? Situação interna e também externa, uma espécie de quebra de eixo das coisas, enormemente grande? Qual é o antídoto único e verdadeiro que existe contra o caos?
(…)
* Quando a graça faz com que uma pessoa tenha um deleite santificante com a presença de outrem, o demônio não entra diretamente com tentações contra esse deleite, mas a propósito do status
Ponto primeiro: a graça pode fazer com que a pessoa tenha um grande deleite, ou um deleite médio ou pequeno, mas um deleite bom, santificante, com a presença de outrem.
Para o demônio é muito inconveniente que isto seja assim, porque se ele vai tentar a pessoa para fazer o mal, a pessoa mais ou menos intui que essa tentação é uma tentação malfazeja e que vai roubar à pessoa a vantagem que ela tem em ter aquele deleite. Então a pessoa se opoÊ ao demônio.
Então, o demônio não entra por aí, ele entra por outro lado. Ele deixa a pessoa no deleite bom da presença amável e santificante de outrem, mas ele levanta um problema novo para perder aquela alma. E em geral são questões de status.
(Sr. Guerreiro: Amor-próprio e e status.)
É o amor-próprio a propósito do status.
Não sei se é de sua geração a expressão status.
Então o status é uma matéria que diz respeito eminentemente ao amor-próprio, e o demônio tenta por aí.
Mas de que maneira? Também não tenta assim brutalmente, ele tenta com jeito.
* Dois exemplos de como o demônio tenta a pessoa a propósito do status
Por exemplo, ele faz com que você vá — por exemplo — à uma camisaria para comprar gravatas e você compra três ou quatro gravatas novas. Você encontra daí a pouco uma pessoa com a qual você tem uma subconsciente competição de status. Porque a pessoa é para você como alguém que tem um status que você gostaria de ter. E então você está continuamente se comparando com essa pessoa.
Você vai e vê aquele tipo que comprou também três ou quatro gravatas novas, mas todas as gravatas que ele comprou foram, não mais caras, mas mais bem escolhidas, mais jeitosas, e durante vários dias em seguida em que vocês se encontram freqüentando o mesmo clube, você vê a seguidilha das gravatas novas e os comentários quando ele sai da sala: “fulano, que jeito tem para escolha de gravatas!”
O outro diz: “é verdade mas vamos reconhecer que é com tudo, porque ele tem jeito para tudo. Olha, ele há pouco estava aqui conversando e a roda estava encantada porque ele conversa muito bem, e mais há pouco atrás ele estava conversando com um tipo ultra pau, mas com que ele ganha dinheiro, a gente tinha impressão que ele estava achando uma delícia, mas é porque é um velhacão, esperto, etc., que faz as coisas bem feitas”.
Ora, o sujeito ouviu de manhã, na hora do almoço, a mulher dizer: “fulano, você não tem jeito para fazer negócios. Não é que você não entenda do negócio, você não atrai as pessoas. Olha fulano como atrai gente! Eu estava vendo outro dia no clube, havia uma festa, em torno dele sempre uma roda e você girando de roda em roda para ver se encontrava uma roda onde você fosse bem visto para ficar durante algum tempo. Mas é por quê? Porque você é pesadão. Você não notou que você é pesadão? Agora, você compare — diz a mulher — compare-se com meu irmão, olha como meu irmão é, meu irmão […inaudível], conta piada, é engraçado, etc. O outro irmão que eu tenho é informadíssimo. É um contador de novidades políticas e sociais de primeira ordem. Você não conta nada! Se você conta não tem graça. O outro conta é interessante. Você precisa reconhecer, você é um fracassado.”
Eu não sei se…
(Sr. Gonzalo: Claro e muito “dicedor”.)
(Sr. Guerreiro: E aí a gente sente a força do demônio para perder uma alma que é uma coisa tremenda.)
Olha aqui, pode ir a um grau inimaginável. Por exemplo assim: estão numa sala de clube cinco pessoas. Vão jogar um jogo qualquer de baralho que só permite 4 parceiros. O jogo se organiza espontaneamente de maneira que eu fico de fora. Eles como são amáveis ainda dizem para o groom: “olha, traz uma cadeira para dr. fulano aqui que ele vai assistir nosso jogo”.
Eu sento lá e o mesmo silêncio em torno de mim. É assim! Não tem conversa.
* O mundo do status, ao se revelar a um indivíduo não habituado a ele, cria uma tal obsessão que o indivíduo já não encontra gosto em mais nada
Agora, isso faz com que o indivíduo que foi habituado a um ambiente onde as pessoas não ligam para status — não têm idéia de status ou se tem idéia têm uma idéia vaga e não ligam como eu acabo de dizer — ele fica… se revela para ele um mundo novo que é o mundo do status. E ele começa a perceber que ele é como Adão saindo do Paraíso, ele está nesse mundo concreto como um Zé Bobo que não sabe nada, e que tem que aprender tudo.
Então começa a querer conversar, etc., com gente que dê status para ele, a querer aprender como é que a gente conversa, como é que a gente trata com outro, como é que não sei o quê, etc. E nessa dura aprendizagem — porque essa é uma aprendizagem muito dura — entram patadas. Porque o sujeito forçosamente comete erros. Mas quando comete erros, o mundo é inexorável. Quando o sujeito nesse ponto comete erro ele leva uma picuetada de alguém. E ele leva aquilo como se fosse um alfinete incandescente que enfiassem num músculo dele.
Agora, começa então a querer de todos os modos enfeitar-se como uma árvore de natal que fosse um ser vivo…
Imagine uma árvore de natal andando viva numa rua de comércio em véspera de Natal e comprando todas as bolas possíveis, e todas as velinhas, e todas as guirlandas de prata, de ouro, etc., para se enfeitar diante dos outros.
Essa pessoa faria o papel da árvore de natal. Ela vai procurado se enfeitar diante de todos os outros de todos os modos possíveis. Acaba sendo que é uma obsessão, porque isso se torna obsessivo, e a pessoa na vida só encontra gosto nisso, não encontra gosto em mais nada. E a coisa pode chegar a tal ponto que, por exemplo, se a mulher dele ainda tem menos status do que ele, ele é capaz de pensar em se divorciar.
(Sr. Guerreiro: Impressionante.)
Mas é assim! Ele é capaz de começar a pensar em se divorciar. E, de repente, se divorcia.
* Há crises que não começam diretamente por nenhuma tentação de roubar, matar, etc., mas começam por matérias comuns; um exemplo
Quer dizer, é uma crise que não começou diretamente por nenhuma tentação de roubar, de matar, de mentir, de caluniar, mas são matérias comuns.
(Sr. Guerreiro: Nem impureza.)
Nem impureza. É uma pura questão de status.
(Sr. Guerreiro: E isso mexe na alma da pessoa, não é na sensibilidade física.)
Não, não. E por causa disso é uma coisa que… Eu me lembro…
(…)
Bem, eu perdi de vista o rapaz, São Paulo já muito grande naquele tempo e perdi de vista. E, de repente, eu ouvi falar que uma senhora de origem francesa, mas que eu conhecia e muito bonita, realmente muito, muito bonita, e fina, bem conversada, elegante, etc., etc., tinha se casado num meio muito, muito bom daqui de São Paulo. Ela era gente plutôt segunda classe, mas com todo charme francês ela se emperiquitou e entrou nesse meio completamente.
A mulata sumiu do horizonte.
O rapaz também sumiu do horizonte.
Em certo momento ouço contar que a francesa ficou viúva, e que o rapaz imediatamente que a francesa ficou viúva, o homem da mulata pediu a francesa em casamento. E a francesa topou.
Agora topou por quê?
Porque ela tina feito dinheiro às custas do primeiro marido, mas também porque ele era de um bom meio e podia assegurar a ela uma estabilidade nesse bom meio que, de repente, ela sem o marido que era do bom meio ficava com os pés em falso.
Então ele pediu para casar com essa moça, a moça topou a parada e levou-[o] para dentro do ambiente dela que era melhor do que o ambiente dele. Mas ele nesse ínterim, se tinha feito um grande médico, e era na matéria que ele se especializou, um dos maiores médicos de São Paulo. Portanto, uma notabilidade. E freqüentou sociedade nesse ambiente muito tempo, com status muito bom.
* Um exemplo do modo discriminatório com que o mundo do status trata àqueles que não são do seu ambiente
De repente, morre a francesa e ele ficou viúvo e querendo manter-se a todo custo na situação em que a francesa o colocou. Mas ao mesmo tempo fez um casamentote muito de segunda classe.
Resultado: ele fez uma viagem de lua de mel, voltou para São Paulo, arranjou uma casa excelente — ele tinha recursos, tinha tudo — e começou a convidar pessoas do meio melhor para irem à casa dele. E ia visitar sem ser convidado, as casas do meio melhor para ver se entrava.
Fizeram uma combinação expressamente combinada: cada vez que ele fosse a uma casa, não convidar ele para nada. Cada vez que ele fosse a uma casa, iam uma vez pagar uma visita e depois nunca mais nada.
Esse “uma vez pagar uma visita” é porque os recursos médicos dele podiam ser úteis, então não queriam romper inteiramente com ele. Mas o resto de lado. O resultado é que ele ficou completamente posto de lado, rico, de uma boa família, de meios bons de São Paulo, médico de fama, que tinha freqüentado o melhor dos cremes, mas posto de lado porque ele não tinha aprendido um certo modo de ser que quando a pessoa não tem não entra.
O que ele fez de papéis ridículos para ver se se metia dentro era uma coisa medonha. Ele não teve coragem de fazer a única coisa que devia fazer: é quando aparecesse um cliente bom dessa roda para se tratar com ele, ele dar um pretexto qualquer e não tratar.
(Sr. Gonzalo: Aviso aos navegantes.)
Aviso aos navegantes.
(Sr. P. Roberto: O troco na mesma moeda.)
* Quando entra a crise de obsessão pelo status, o indivíduo se desinteressa da vida espiritual
O troco na mesma moeda.
Mas isso é preciso a pessoa… os espíritos pseudo-profundos, não prestam atenção nessas coisas, acham que é coisa de mulher. Os espíritos um pouco mais profundos acham que não, que isto aqui é especialidade da mulher dentro da vida do homem. Mas que tem muita importância na vida do homem. E daí a obsessão.
Quando entra essa crise de obsessão, o indivíduo se desinteressa de fé, esperança, caridade, os novíssimos, etc., porque ou ele tem aquilo ou nada interessa a ele.
(Sr. Gonzalo: Como a pessoa se defende para não entrar nisso? Como evitar de cair nessa tentação? Há algum jeito?)
Meu filho, na sociedade como ela é hoje, plutocrática e arbitrária, é muito diferente do tempo dos marqueses. Quando o sujeito era marquês, ele tinha um passaporte, e entrava por todo lado. Hoje não, é uma coisa arbitrária. Ou você tem certos elementos arbitrários que lhe dão destaque ou você não tem. E se você não tem não adianta querer transpor uma porta que você não sabe transpor.
(Sr. Gonzalo: E para efeito interno do Grupo […inaudível] do que é, mas com muita atenção nessa graça.)
* Para efeitos internos do grupo, deve-se prestar muita atenção em dar o valor supremo ao deleite santificante que a presença de outrem traz e não dar atenção ao mundanismo
Prestar muita atenção em dar o valor supremo a essa graça e não a essa história que o mundanismo mete na cabeça do homem.
Esse é o ponto essencial.
Você perguntou alguma coisa, meu Paulo Roberto?
(Sr. P. Roberto: Eu queria perguntar se se pode dizer que isto seria o suco da Revolução, porque é uma coisa que o demônio produz que põe a pessoa dentro de um determinado fluxo que ela não sai daquilo ali…)
Não sai.
(Sr. P. Roberto: Ela vive em função daquilo.)
Isso, completamente em função daquilo.
(Sr. P. Roberto: Se isso seria propriamente o dinamismo da Revolução?)
Da Revolução sim em alguns de seus aspectos.
(Sr. Guerreiro: O que o Sr. acabou de descrever era para uma época em que havia uma noção mais viva de hierarquia social, o Sr. acredita que hoje ainda é assim como o Sr. está dizendo? Ou esse primeiro pseudo creme é uma espuma já com coisas muito escuras pelo meio, e uma guirlanda muito grande… o que é hoje a elite aqui em São Paulo? […] Isso é uma pergunta. E a segunda é: como é que no Grupo o demônio faz com essa mesma problemática e fica exatamente mordiscando o fundo da alma das pessoas para atrapalhar a vida delas e se afastarem do Sr.?)
* Para o indivíduo manter-se no mundo do status da sociedade plutocrática e arbitrária de hoje, tem que ter um substrato mínimo de dote pessoal e saber fazê-lo valer
A coisa é a seguinte:
Há várias coisas a considerar. Isso que nós falamos foi antigamente toda a vida social.
Hoje em dia há um mundo de pessoas que constituem a vida social e que não têm nada disso. Mas há uma espécie de filete mais fino interno, que tem isto e que quando sabe fazer valer, cerra de cima. Agora, é preciso saber fazer valer.
(Sr. Guerreiro: Hoje ainda é assim?)]
No fundo é para quem sabe fazer valer.
(Sr. Guerreiro: Portanto, o critério de todo esse jogo de alma é um saber valer, não é necessariamente que a pessoa tenha uma condição tradicional ou seja muito rica, é mais esse dom pessoal por onde ela saiba utilizar isso.)
É, você diz bem, é mais o saber fazer valer. Mas na realidade um substrato mínimo é preciso ter. Porque do contrário [fica?] a pé.
Agora, o que é fundamental é a pessoa ao saber fazer valer, fazer de um tal modo que ela não pareça estar se comparando com os que não têm isso.
Há uma coisa muito característica. Em frente a nossa sede na rua Maranhão, há vários cacarecos de casas velhas entre as quais uma casa com… não sei se no momento presente elas ainda estão erguidas, mas acho que estão. Um tipo de casa velha, espandongada, que não tem eira nem beira. Essa casa foi alugada — eu creio que não era dono, era alugada — por uma Sra. de São Paulo…
(…)
* Um exemplo de gente que soube fazer valer o substrato mínimo de dote pessoal para manter-se no mundo do status
O rapaz tinha no porão — era dessas casas térreas com o porão alto — mandado fazer para ele um bar, onde tinha as bebidas das melhores, e tinha umas duas ou três mesinhas, em que ele convidava amigos à tardinha para vir conversar com ele.
(Sr. Guerreiro: Essa descrição que o Sr. está fazendo tem um sabor, tem uma penetração extraordinária…)
Você vai ver o negócio da história como é.
E tinha coisas desse gênero: por exemplo, eles tinham pouco dinheiro, mas tinha o dinheiro para luxar muito em bagatelas, só em bagatelas. Então nesse barzinho, por exemplo, o que havia…
(Sr. Paulo Henrique: Esse aí sabia se fazer valer.)
É, é um conjunto de coisas, você vai ver a coisa.
Vinham muito para São Paulo esses guardanapinhos feitos para o sujeito que toma drink, etc., enxugar os lábios. Mas que eram de um tamanho pequeno e de qualidade muito boa, e a qualidade destes guardanapinhos mudava constantemente. Constantemente estava vindo de Paris guardanapinhos diferentes. E ele tinha constantemente — para isso o dinheiro dele chegava — guardanapinhos desses novos e muito diferentes uns dos outros, de maneira que cada vez que se ia à casa dele, era objeto de conversa entre o pessoal depois quando saía, o guardanapinho.
Então também — o comércio era mais livre, o comércio com o exterior — certas conservas, certas coisas assim, ele mandava vir do que há de melhor. O resto era o suficiente para sentar.
Bom, veio passar aqui um dia — eu não sei para quê — o Conde de Paris, e quiseram fazer o homem conhecer os lados mais interessantes de São Paulo. A primeira coisa do programa é drink às tantas horas da tarde em casa do Roberto de Paiva Meira.
Note outra coisa: esse Roberto de Paiva Meira era manco, tão gravemente manco que na perna mais curta ele usava uma sola desta espessura mais ou menos. E arrastava aquela perna. Mas sempre lavadíssimo, a gente tinha impressão que ele estava saindo do lavatório onde ele tinha lavado o rosto, tinha lavado as mãos, tinha escovado os dentes, tinha não sei mais o quê. Sempre penteadíssimo com ar de quem não percebia que estava lavado e nem penteado. E sempre muito atento às menores regras de educação. No mais, como um qualquer.
A irmã dele era medonha, parecia uma arara velha. Ela se dava de igual a igual com o que há de melhor em São Paulo, porque ela vivia na mesma casa que o irmão e punha no andar dela que era o andar feminino, com mais tônus do que o masculino, é claro, ela punha a mesma arte.
Então ela costumava dizer: “eu não tenho nada para ser alguém, porque é bonito ser bonita; eu sou feia. É bonito ter uma voz agradável, eu tenho uma voz de taquara rachada…”
Ela mesma se descascava com todas as pessoas em volta dela rindo, hem. Ela dizia: “então o que é que eu sou? Eu sou Olga de Paiva Meira! Você digam o que é que é ser Olga de Paiva Meira, porque eu não sei o que é que é”.
— Ah-ah-ha-ha!
Agora, vocês são inteligentes e compreendem de sobra os arranhões que uma coisa dessas pode dar…
(Sr. Gonzalo: Uma dor de cotovelo feroz.)
Feroz. E isto pode fazer com que uma pessoa comece a ter uma… Aliás, eu conheço um caso assim, esse caso até tem — o que eu vou contar agora — tem uma ligação com a TFP.
Eu perdi o fio do que ia dizer agora…
Ah! A pessoa ficar com vexame das amizades boas que tem, dos amigos sérios, das relações direitas, das pessoas de categoria, etc., mas que não aprenderam esse frou-frou, e que por causa disso desprezam os outros.
* O único contravapor para não se deixar levar pela obsessão do mundo do status é não se comparar, se começar a entrar um pouquinho a vida espiritual não dura um mês
Agora, o que é que há para fazer para contra-restar isto? Quer dizer, qual é o contravapor?
Só tem um contravapor: é a abstração feita de que isto existe. Não tem outro contravapor.
(Sr. Gonzalo: De que isto existe nos outros?)
Nos outros.
(Sr. Guerreiro: O único meio da pessoa se premunir para que o demônio não assalte a ela com a tentação comparativa.)
Isso. É abstração: eu não tenho dinheiro para isso, não tenho os recursos para isso, não vou ser o louco de entrar para uma coisa que não foi feita para mim. E vou ser o que eu posso ser, e está acabado. Não vou fazer o papel de cretino. Ao menos isso eu não sou, cretino eu não sou. Porque não existe outro jeito. Se a pessoa começa a entrar um pouquinho dentro disso, eu não dou um mês para a vida espiritual estar extinta.
(Cel. Poli: O Sr. estava dando isto como um exemplo de como o demônio entra para não atacar a graça sensível que seria para desviar… então o Sr. deu todo o problema…)
É espichei-me demais.
(Cel. Poli: Não, não, não. O demônio pode explorar o problema do status, mas há uma outra matéria que o demônio pode entrar igualmente ou é fundamentalmente questão de status?)
* A questão por onde o demônio entra é sempre o status, adaptado ao ambiente
A questão é que existe ambientes onde o status é diferente.
(Cel. Poli: Mas é sempre questão de status?)
Sempre questão de status.
(Cel. Poli: Não é por exemplo, questão de saúde, questão de…)
Não, não.
(Cel. Poli: O Sr. deu exemplo de status, mas a questão por onde o demônio entra é sempre status.)
É sempre status.
(Sr. Paulo Henrique: O Sr. disse que tinha um outro casa ainda para contar…)
(Sr. Gonzalo: Está tardíssimo.)
Que horas são?
(Sr. Gonzalo: São três e meia já.)
Não, eu ia contar uma coisa…
(Sr. Guerreiro: Que tinha ligação com a TFP.)
Ah, é o seguinte: vocês conhecem lá na rua Marquês de Itu um lugar onde funcionou até há pouco uma repartição nossa onde trabalhava o Borelli? Vocês notaram, contíguo a essa repartição um prédio que foi de residência e de estilo francês muito bonito, mas que ficou sindicato…
(Sr. Guerreiro: É uma casa apalaciada.)
Apalaciada. Tanto mais que teve jardim bonito, que foi desajardinado, etc., mas era uma casa apalaciada.
A história disso é o seguinte: havia um casal velho de São Paulo, que tinha uma série de filhos e filhas. E todos fizeram casamentos regulares, eles eram ricos, estavam bem instados, etc., e viviam. Esses filhos e filhas tiveram destinos muito diferentes: uma se casou com um industrial de origem alemã, rico, e enriqueceu ainda mais. Mas ela ficou comunista.
Depois tinha um irmão ateu, mundano, não valia dois caracóis, mas que também ficou comunista. E quando ficou comunista entrou muito na sociedade. Eles todos eram da sociedade. Mas ele foi muito promovido.
* Exemplo de uma pessoa virtuosa que se tornou acidamente contra a TFP porque não quis romper com o status
Depois tinha outros casos. E tinha uma Sra. muito boa, era a mais velha das irmãs, muito digna, muito direita, muito piedosa, e a mãe dela morava lá pelo lado do Sagrado Coração de Jesus, ainda era daqueles antigos habitantes dos Campos Elíseos, e todos os domingos convidava o vigário da igreja do Sagrado Coração de Jesus para almoçar com a família. O que em São Paulo é completamente fora do uso, não se convida nunca um padre para nada. Nem existe, como eu sei que existe no Chile, padres de boas família, aqui não tem, ou quase não tem.
(Sr. Gonzalo: Para o bem de São Paulo, não tem.)
Ahahahahah! Não sei. A pergunta pode se fazer para o Chile também.
Mas afinal, seja como for, essa era uma pessoa muito esmoler e dava muito dinheiro, etc., e bem rica.
* O mundo do status não tolera que seus membros sejam sérios, dignos e piedosos
Então ela mandou construir aquela casa apalaciada. E ela tinha a intenção de manter um status apalaciado para si, mas ao mesmo tempo continuando a ser uma pessoa muito digna, muito direita e tal. E isto não foi suportado pelo pessoal apalaciado: que uma pessoa apalaciada quisesse freqüentar com seriedade, com dignidade, e até com piedade, ambientes apalaciados.
Então o Alfredinho Mesquita que era um irmão do Julio Mesquista, um dos Mesquistas, e que era dado a um comentador de todas essas coisas que nós estamos falando, o Alfredinho Mesquista entrou em certo contato com ela e depois veio como que dando uma reportagem dela. E disse o seguinte: coitada da fulana, ela é muito boa Sra., ela é muito caridosa, ela é amiga do vigário, ela é também uma pessoa que leva uma vida tranqüila, recolhida, sensata, ela tem muito bom-senso”.
E fez o elogio das qualidades dela, mas era o elogio fúnebre.
(Sr. Gonzalo: São espertíssimos.)
Espertíssimos.
O resultado é que ela se sentiu tão excluída que ela mudou completamente de modo de ser — é a vitória do demônio! E transformou a casa dela numa foco de campanha anti-TFP, fazendo contra a TFP o sarcasmo que o Alfredinho Mesquita fizera contra ela. E foi aí que se deu um fato de que vocês talvez tenham memória que é de um rapaz que foi de automóvel por cima do genuflexório em frente do oratório. Foi um rapaz ultra-apalaciado que estava em casa dela, e onde se falou tanto, tanto mal da TFP que ele saiu de lá meio bêbedo e tentou aquela história.
(Sr. P. Roberto: Daquela casa mesmo?)
Não, porque ela se apalaciou — para usar a expressão — mas como que por um castigo da Providência, o marido perdeu uma parte da fortuna e foi morar numa casa de apartamento bem boa que tem ali perto, mas que era só um apartamento. Mas ela continuou a manter muito status.
E ela mantinha esse ambiente e com certeza a consciência dela dizia a ela que devia ser uma coisa diferente, que era mal feito e não sei mais o quê. Mas ela agüentou no duro, e me parece, eu não tenho certeza, que ela já morreu.
(Sr. P. Roberto: Uma verdadeira apostasia.)
Uma verdadeira apostasia.
Como ela era muito mais velha do que eu, no tempo que eu freqüentei a sociedade, não cheguei a conhecê-la, mas ela fazia uns esforços para entrar em contato comigo. Eu me lembro, então, numa festa de casamento onde eu tive que ir, eu indo de um lugar para outro, eu passei perto de uma mesa onde tinha conversando uma tia minha e ela, e ela disse qualquer coisa para minha tia, e a minha tia…
(…)
… de dentro da TFP nenhuma forma de tentação tirou tanta gente quanto isto.
(Cel. Poli: Fugir disso como o pior dos inimigos.)
Como o pior dos inimigos.
Bem, vamos andando.
Há momento minha Mãe…
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