Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
14/8/93 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 14/8/93 — Sábado
Não há um momento da história do “Legionário” ou do “Catolicismo” em que se diga: “Bom, coitado, ele dessa vez errou” * “O que dá mais ódio aos adversário é a visão de conjunto que eu tenho das coisas, e vendo-as, amo e amando-as elas se refletem no meu modo de ser” * Um estado de espírito diante do SDP: “O Sr. tem que sacrificar-se por minha alma e eu não tenho que sacrificar-me pela do Sr., portanto faça a minha vontade” * Sacrifícios que doem como um cutucão de agulha que atravesse a carne de um lado para outro * O caos cria as saudades da ordem, e o passo arriscado que a Revolução dá, pulando por dentro do caos, é exatamente aviventar aquilo que ela levou o tempo inteiro adormecendo * O Livro da Nobreza é a catedral “engloutie” que vem e o sino toca, as luzes se acendem, o incenso sai pelas frestas das janelas, mas que vem para ficar * Na última hora, no último minuto, a última luz recebeu um sopro para se apagar, e nesse sopro saiu um sol * Uma problema que vai se por para os historiadores do Reino de Maria, e do qual não se pode escapar
Vamos sentar.
Você sabe que, eu não sei se é alguma indisposição minha, mas eu estou sentido frio como nunca senti em São Paulo.
(Sr. Gonzalo: O senhor não quer recolher-se? Porque de repente…)
Ah não, não.
(Sr. Guerreiro: Eu que não sou friorento, tenho sentido muito frio.)
Tem sentido frio?
(Sr. Guerreiro: Tem feito muito frio. Eu me lembrava do senhor em Amparo, deve ter sentido muito frio…)
(Sr. Gonzalo: Não estava frio em Amparo.)
Um pouquinho mais quente.
(Sr. Guerreiro: Em São Paulo tem feito muito frio.)
Aproveito para lhes prevenir que é provável, mas é bom não falarem a ninguém porque eu não quero que me encha demais de gente lá… (…)
* Durante a Reunião de Recortes houve uma ação da graça pela qual as pessoas recebiam bem o tema
(Sr. Gonzalo: Nós temos um assunto a tratar, mas primeiro é manifestar a alegria pela Reunião de Recortes de hoje. […])
Você sabe que é uma coisa que eu não percebo, ouviu?
(Sr. Gonzalo: O senhor estava com uma luz, com um atrativo, com uma invencibilidade, uma coisa prodigiosa. […])
Eu fico contente que lhes tenha causado essa impressão. Mas quem está naquela cabine não tem essa impressão. Eu vi que vocês bateram muitas palmas, etc., eu evidentemente vi, mas se não batessem palmas não dava para se notar.
(Sr. Gonzalo: Mas o senhor não viu se havia graça no auditório?)
Vi porque eu vi pela atitude muito receptiva que só podia ser efeito da graça, mas que houvesse algo de especial no que eu dizia, eu não via.
(Sr. Guerreiro: Isso nos proporciona um conforto ainda mais extraordinário porque no dia que o senhor então começar achar que tem alguma coisa extraordinária então será sintoma de que o senhor está próximo de nós mesmo, diretamente…)
Ahahahaha!
(Sr. Paulo Henrique: Eu percebi que o senhor estava falando com muita naturalidade, etc., mas sem prestar muita atenção no auditório. […])
Eu tive um regime muito fatigante na fazenda. Trabalhei a mais não poder. E voltei um pouco cansado de lá e entrei na reunião um pouco cansado. E com um começo bravio de resfriado que, graças a Deus, durante a reunião foi decaindo, etc., e eu saí quase bom. Mas talvez houvesse, portanto, no meu todo um pouco de largado, de pessoa que não está querendo fazer um grande esforço, mas enfim…
(Sr. Paulo Henrique: Mas a reunião sai esplendorosa.)
(Sr. Gonzalo: […] O senhor chegou a dizer que podia ser uma graça de início de Grand-Retour para toda a humanidade…)
É, é verdade.
(Sr. Gonzalo: Isso é uma coisa extraordinária. […] Então, se nós estamos já na hora desse encontro em que esse firmamento interior extraordinário [do Sr.] conseguiu da Providência isso [as graças do livro da nobreza]. Essa receptividade que está começando a haver, uma espécie de Grand-Retour do gênero humano, isso é uma coisa colossal. E é muito importante para o Grupo saber isso para puxar pela campanha, rezar… Porque pode vir uma enorme glorificação a partir disso.)
Ah pode, uma glorificação colossal. Isso não tem dúvida nenhuma.
* “O que dá mais ódio aos adversário é a visão de conjunto que eu tenho das coisas, e vendo-as, amo e amando-as elas se refletem no meu modo de ser”
Eu estou procurando ver quais são os termos adequados para exprimir essas coisas interiores porque elas são, em geral, de uma expressão muito difícil. A gente vai exprimir e não é bem isto, mas é um pouco diferente. Então, enquanto exprime, a gente altera um pouco o que ia dizer e modifica, e acaba sendo que não sai exatamente o que a gente queria. Porque são coisas muito sutis, muito delicadas e que exigem uma precisão de linguagem muito grande.
Eu noto muito bem que o que provavelmente dá, aos meus adversários — você disse isso há pouco —, mais ódio a mim é uma visão de conjunto que eu tenho das coisas que eu vejo de conjunto e vendo-as eu as amo; e o amor a isto produz um modo de ser na minha vontade, um modo de ser em toda a minha movimentação que é o reflexo daquilo que eu vejo. E que, por outro lado, caracteriza até minha fisionomia físico-moral. E vejo que este conjunto, de uma disposição de alma fundamental ligada à uma visão das coisas que é meio causa meio efeito dessa disposição de alma interior.
Depois, essa disposição de alma interior produzindo, por sua vez, um efeito não só mais na inteligência mas na vontade, quer dizer, o que a pessoa vê modela aquilo que a pessoa quer.
E, terceiro lugar, modelando a inteligência e a vontade modela o ser, faz uma espécie de círculo.
Isto determina uma integridade de modo de ser, e uma espécie de dar-se a esse modo de ser. De maneira que, a bem dizer, constitui quase que uma personalidade só com esse modo de ser. E isto, por sua vez, repercute para o exterior e determina a idéia de uma união com todo esse modo de ser, que é uma união que tanto quanto cabe na miséria humana é invencível. E isso tudo junto determina então um verdadeiro ódio.
Agora, um ódio que vem do quê?
É que eles percebem que…
(…) [parece um corte]
…e que saiba. Não falando, portanto, de pessoas que vivem uma vida isolada em convento, por exemplo, de trapistas, de cistencienses, etc., e que ninguém conhece. Esses estão à margem desta visão coletiva do universo. Eles fazem parte desse universo, mas são jóias cuja contemplação Deus reservou para si.
Então, tomando em consideração não essas jóias que Deus reservou para si… jóias que o demônio, creio eu que na grande maioria dos casos conhece, hem!
* Como os maus percebem que chegou a era histórica em que Deus os vai liqüidar, tornam-se carregados de ódio contra aquele que é a figura de proa do couraçado da Contra-Revolução
Bem, mas tomando em consideração o que Deus tornou visível para o mundo, eles percebem que o plano deles está visto até o fundo, a ignominia deles está vista até o fundo e o lado fraco deles também está visto até o fundo. Inclusive o lado fraco neste ponto: que Deus tenha assente nesta era histórica liqüidar com eles. E que, como Deus assentou isto, fará. E é irremissível, porque Deus querendo eles não são nada. E eles ficam trêmulos e carregados de ódio… homem! capazes de tudo o que vocês sabem.
Mas acabam vendo que havendo um varão ao qual tocou por uma porção de circunstâncias, ser a figura de proa do couraçado da Contra-Revolução, que eles odeiam aquilo de um modo muito especial e a bem dizer único, com a noção de que derrubando aquilo eles derrubam a ofensiva de Deus. Esta é a idéia que faz parte de meu firmamento interior.
Eu não sei se pode parecer pretensioso…
(Não!)
Pretensioso ou não pretensioso eu digo e peço a Nossa Senhora que me perdoe se houver pretensão nisso. Mas eu não acho que haja.
(Sr. P. Roberto: Isso parece muito com a personificação que existe em Deus da própria virtude. Porque o Sr. disse que a personalidade do Sr. exprime a atitude que o senhor tem. E em Deus isso é assim de um modo subsistente.)
É, mas aí é…
(Sr. P. Roberto: Sim, mas tem uma analogia com isto.)
Sim.
(Sr. P. Roberto: Por isso talvez eles odeiem tanto assim.)
* O ódio que o mal tem pelo Senhor Doutor Plinio vai na linha do ódio que eles têm a Deus
É porque essa analogia é uma presença de densidade dessas virtudes que eles não podem suportar. Porque em Deus essa densidade é o absoluto e então eles não podem nem pronunciar o nome de Deus, têm pânico, confusão, ódio, etc. Derrotados. Mas quem não tem essa personificação como Deus tem, mas tem analogia com isso, isto fá-los ter um ódio enormemente menor do que eles têm a Deus mas enormemente maior do que o que têm a muitíssimas outras criaturas.
(Sr. P. Roberto: E que vai na linha do ódio a Deus.)
Que vai na linha do ódio a Deus. É bem assim.
Agora, exatamente uma das coisas que causa recusa e mal-estar aos que são convidados para este caminho é que eles percebem que são convidados para se pôr nesta posição de doação. E isso eles não querem. Eles não querem pôr-se nessa posição de doação e de como que identificação — não é nem um pouco uma identificação, mas é uma como que identificação — com a própria virtude, como o Paulo Roberto dizia há pouco: Deus que é essa virtude subsistente, é infinitamente superior.
(Sr. Gonzalo: Mas é uma identificação com o superior…)
* O filho das trevas dá tudo para ter a sensação aparentemente deliciosa de não pertencer a ninguém, e fazer tudo segundo o seu próprio alvedrio
Isso, exatamente.
E isto que deveria atrair, causa repulsa. Porque a pessoa gosta de ter a livre disposição de si mesmo e a liberdade de fazer de si mesmo o que quer. Esta sensação aparentemente deliciosa de não pertencer a ninguém de não estar vinculado com nada, e de fazer segundo o seu próprio alvedrio absolutamente o que quer, essa sensação é a sensação pela qual o filho das trevas dá tudo.
Então, por exemplo, imaginem o seguinte:
Um de nós vai a um lugar aonde tem tudo que pode desejar, mas ele vai para cumprir uma missão. Então, à noite enquanto ele se prepara para deitar, ele está pensando, está com a atenção voltada entre dois pólos: o conforto, o status em que ele está, de um lado; e de outro lado, o que ele vai fazer no dia seguinte. E é-lhe sumamente agradável saber que no dia seguinte ele tem quatro diversões inteiramente à vontade dele das dos gênero que ele aprecia mais. E que ele até a última hora não vai resolver, vai ficar, por assim dizer, com a imaginação flanando de uma para outra diversão até chegar o último momento em que ele por um pequeno movimento resolve tal coisa. Mas sabendo que amanhã, depois de amanhã, depois de amanhã, essas opções parecidas podem repetir-se no caminho dele e que ele é livre, libérrimo de fazer o que entender sem nenhuma coerção nem coação, isso lhe dá um gosto extraordinário.
* Um fato “sui generis” que faz parte do panorama interior do Senhor Doutor Plinio
Agora, um outro que faça uma viagem da seguinte maneira. Por exemplo, eu sei que no caminho — isso me aconteceu — no caminho de Paris para um lugarzinho do interior da França, onde fiz um [retiro?], não me lembro mais o que é. [Deve?] ser daqueles padres do pe. Vale, espanhol, pregadores de retiros na França. Que nesse caminho existe uma trapa CÔteaux, [Septfonds?], qualquer uma dessas trapas famosas, que quando a gente passar por lá, pela hora em que vai sair de Paris, porque os deveres da apostolado impedem de sair antes, a gente só poderá passar diante dessa porta de tal a tal hora, e aí a pessoa forma uma deliberação:
─ “Eu vou passar lá, eu saio do automóvel e do lado de fora osculo essa porta. Porque tenho um respeito e uma veneração, uma admiração levada até o último ponto para com os homens que levam essa vida aí dentro. E mais do que isto, pelo gênero de vida em si mesmo considerado que eles levam aí dentro. E, portanto, não podendo entrar, que é o que eu gostaria de fazer, eu quero, pelo menos, do lado de fora oscular. E eu sei que osculando esta porta, Deus toma isto como um ósculo — usando uma linguagem figurada — que eu daria à última das nuvens sobre a qual os seus pés divinos pousam.”
E, portanto, quero fazer, e resolvo fazer.
[Mas] Encontro dificuldades: saio mais tarde de Paris do que queria, posso ser obrigado a cortar o caminho e não passar por esse lugar, então vou acelerando, acelerando, e deixando de olhar as coisas que estão no caminho e que são muito bonitas para passar diante da porta da trapa, e sem dizer aos meus companheiros por que é que eu estou acelerando. Mas digo: “vão mais de pressa, toca, toca!, etc., etc.,” porque eu sei que eles não compreenderão esta veneração levada a um tal extremo.
Por quê?
Porque não compreendem que se possa ter este respeito, este grau de admiração por aquele grau de virtude. Nem compreendem bem que o residir ali e levar aquela vida de virtude, seja uma coisa tão excelsa quanto é de verdade. Não. Não chegam a realizar bem a coisa.
Afinal, a gente passa diante da porta da trapa e eu digo:
— Parem! parem! aqui é a porta da trapa!
— Ãhm? Ãhm?
Estão todos meio dormindo.
(Sr. Gonzalo: E foi assim tal e qual, não é? Historicamente foi assim, não é?)
Foi isso.
— Parem! Parem! etc., etc.
— Não, vamos passar. Está aí a porta, o que é que tem a porta?
— Mas eu queria descer.
— Como?!! Descer a essa hora da noite?!
— É verdade, eu quero oscular essa porta.
— Ah não! Absolutamente, isso é uma fantasia, perder tempo saindo todos nós de nossos lugares dentro do automóvel para ir oscular a porta e voltar! Não absolutamente!
— Não, vocês fiquem, eu vou.
— Não, não! Nós vamos chegar mais tarde lá para o retiro, podemos nem alcançar a primeira plática da manhã, não convém, etc.
E oferecer a Nosso Senhor, a Nossa Senhora esta fórmula de oscular a trapa: que é de não descer, de oscular apenas em espírito, de varar com os olhos a trapa pelo gosto de ver aquilo do lado de dentro; e tocar tranqüilo, não fazer careta, não criar briga e tocar tranqüilamente para frente. [Este] é um modo melhor de oscular a trapa do que de descer e de oscular simplesmente.
Bem, nisso há uma forma de união com todos os santos que estejam vivendo naquela trapa, ou que tenham vivido, e eventualmente com os que venham a viver naquela trapa, que é uma coisa completamente sui generis que faz parte do panorama interior que uma pessoa pode ter ao ver coisas desse gênero.
(Sr. Gonzalo: E sobretudo não sentir-se livre, porque propriamente é ser escravo nessa matéria.)
* A “minus” virtude deve ser flexível ao que é mais virtuoso, mas há pessoas que vivem dominadas pela mediocridade
É se escravo.
Porque eu poderia perfeitamente dizer o seguinte: “Vocês entendam que se trata da parte de vocês não de um ato mau, mas de uma minus virtude, e a minus virtude deve ser flexível àquilo que é um pouco mais virtuoso e deve ceder sempre o passo ao que é mais virtuoso e melhor. Cedam o passo, parem um instante, eu me comprometo a ir correndo”.
Mas nem dá tempo, porque do automóvel até a porta havia a distância desse arco até aquela cortina. Quer dizer, aquilo é um minuto. Eu não tinha sofrido o desastre de automóvel, movia-me perfeitamente bem, e até lá, vocês sabem perfeitamente, não se conta o tempo que isso leva.
Havia, portanto, da parte deles uma porção de coisas que eu estava notando, é que eles ficavam meio com remorso de não descer. Se eu descesse esse remorso aumentava de ponto, porque: “Está vendo?, olha, ele está fazendo, eu não estou fazendo, etc.”
Mas de outro lado, também um medo de perder o sono caso se levantassem para ir até lá e passar o dia, portanto, meio cansados, e outros cálculos dessa sublimidade, e que dominam a vida das pessoas, hem! Porque cálculos desses, há pessoas que levam a vida dominada por cálculos desses. Simplesmente sem mais nada, não é?
* Um estado de espírito diante do SDP: “O Sr. tem que sacrificar-se por minha alma e eu não tenho que sacrificar-me pela do Sr., portanto faça a minha vontade”
Isto constitui mundos interiores.
Vamos dizer, por exemplo, eu estive em Paris não sei quantas vezes, eu quereria muito fazer o seguinte: em frente a Notre-Dame tem o famoso parvis e depois tem a praça. E, depois, do outro lado da praça tem uma casas inteiramente inexpressivas, e no andar térreo de uma dessas casas há um café bem ordinário. Mas eu gostaria de me sentar junto a um desses cafés, ficar sentado, mandar vir um café, dois, cinco, o que for necessário para poder me sentar à vontade ali sem ter amolação e ficar olhando Notre-Dame sem ter ninguém comigo que me contestasse: “Vamos embora, já está tarde, já não sei o quê.” Essas coisas todas.
Se você quiser ir, meu caro, vá! Não se prenda comigo, mas eu não quero prender-me com você.
Mas as pessoas que viajam com a gente, não gostam desse sistema, quer dizer: “Você faça o que quiser, eu faço o que quiser”. Não.
É: “O senhor fará o que eu quiser, porque vai fazer mal para a minha alma o senhor não fazer o que eu quero. E o senhor, portanto, tem obrigações para com minha alma e eu não tenho para com a alma do senhor. E, portanto, o senhor deve sacrificar-se e eu não”.
É por aí!
(Sr. Gonzalo: Esse silêncio, senhor, diz quanto nós somos e conhecemos isso.)
* Sacrifícios que doem como um cutucão de agulha que atravesse a carne de um lado para outro
Várias vezes eu passo por aquela praça e em espírito me imagino sentado lá. Mas não posso parar, porque não tem jeito. Então eu sei que eu vou fazer, até certo ponto, a viagem de um outro.
Mas há mais ainda, como eu sou mais velho, tive tempo de ler mais e, portanto, estou mais informado sobre um ou outro dado, uma ou outra coisa, etc., etc. Então eu preciso estar falando, contando e entretendo. Um indivíduo que não está com vontade de conversar mas que gosta de me ouvir falar e que fica quieto, não comenta, não fala nada. Quando eu termino, ele me diz:
— Acabou?
— Sim.
— Então vamos embora!
(Sr. P. Roberto: Como se tivesse desligado a televisão.)
Desligou a televisão.
Bem, mas isso tudo são sacrifícios que doem como, por exemplo, um cutucão de agulha que atravesse a carne de um lado para outro. Não é uma tragédia, não vamos exagerar nada, mas também não é uma brincadeira.
É por isso que eu acho graça que…
Eu ouço às vezes o Átila me contar as viagens dele à Europa — ele não me diz isso assim — mas eu vejo que ele quase sempre sai sozinho, e faz o que quer, quando ele entende. Mas é por causa disso, com certeza. Ele, por exemplo, fez uma coisa muito bonita. Na igreja de Saint-Germain-Lauxerrois tem o sino que bateu o primeiro sinal de alarme de agressão da Saint-Barthelemy, ali começaram a bater os sinos das igrejas católicas e os católicos saíram de dentro das igrejas aos maços e começaram a dar destino aos protestantes que eram de Paris.
Bem, o Átila arranjou um jeito de estar lá numa hora em que não chamasse atenção, e nessa hora ele foi à torre ao pé da qual estava o sino e osculou a torre. Isso é um gênero de coisa que eu gostaria muito de fazer.
(Sr. Gonzalo: Ele fez em nome do senhor.)
* O dar um passeio, oscular a torre de Saint-Barthelemy e depois voltar para casa, enche o dia de quem tem olhos para ver
Fez em meu nome. E eu ratifico. É evidente.
Eu me consolei sabendo que um filho meu fez isso.
Mas essas coisinhas fazem parte do horizonte de alguém. A gente, por exemplo, dar um passeio, oscular a torre de Saint-Barthelemy e depois voltar para casa, enche o dia de quem tem olhos para ver. Mas há outro gênero de gente que não é assim, que vai, olha para a torre, e a gente diz: “Olha, ali foi o primeiro tocsin da Saint-Barthelemy”.
— Ah?! Ah?!
E acabou-se.
Mas tem na praça de Notre-Dame, por exemplo, para voltarmos a Notre-Dame, um burriquinho — mas um burrico — que tem umas espécies de cestinhas de um lado e doutro, e vende uns frascozinhos feito de terracota e que tem um perfume provincial. Uma coisa muito engraçadinha, mas é quase para dar para criança. Mas muito engraçadinha e tem o charme francês.
A um indivíduo desse que a gente diz: “Olha, ali está a porta pela qual entrou Carlos X quando ele voltou da Revolução Francesa como irmão do rei para tomar posse da capital até que o rei viesse e aí tomasse posse”. Bem, se a gente dissesse isso, ele diria: “Ah, olha aqui, aquele burriquinho que engraçadinho, vamos ver?”
São horizontes diferentes, não é? E que existem.
(Sr. Gonzalo: Entre esse firmamento interior de que o senhor estava falando e a atração dessas graças novas em relação ao livro, o senhor teria alguma coisa a dizer? […])
Me diga uma coisa, a primeira edição foi feita no “Catolicismo” ou no “Legionário”?
(Sr. Gonzalo: De quê?)
Das alocuções de Pio XII.
(Sr. Gonzalo: O senhor comenta no “Legionário” uma ou duas dessas alocuções, mas o que deu origem ao livro foi o “Catolicismo”. […] portanto, depois do ano 50.)
* Contra toda a relação normal causa e efeito, quando o mundo está pior, o Livro da Nobreza causa um efeito muito melhor na sua repercussão do que quando o mundo estava menos mau
Depois do ano 50.
Bem, mas as coisas no mundo andavam muito menos mal do que hoje. Pioraram muito. Pois bem, naquele mundo muito menos mal que o de hoje, mais ou menos isso foi publicado, e produziu aquela inércia prodigiosa inclusive dentro do Grupo. Sem falar dos dois bispos que foram de uma inércia piramidal a esse respeito, produziu esse efeito.
(Sr. Gonzalo: Indiferença completa.)
Indiferença completa.
Agora, publicando numa época em que as coisas estão muito piores, se dá a esse mesmo material ainda mais radicalizado e mais aumentado, se dá a esse material uma difusão muito maior. O natural seria uma rejeição muito maior. Ao contrário disto, contra toda a relação normal causa e efeito, quando o mundo está pior, ele causa um efeito muito melhor na sua repercussão do que quando estava menos mau. E o livro repercute junto a um mundo de bandidos com uma densidade admirável que não aconteceu quando o mundo não era todo cheio de bandidos. É uma tal inversão das causas e efeitos que a gente é levado naturalmente a supor que há nisso uma graça de Deus.
Esse argumento é um argumento irrecusável.
(Sr. Gonzalo: No MNF em 74, o senhor fez a série da inocência, e aí o senhor disse que viria um momento em que o mundo estava decaindo tanto que o senhor teria que produzir no mundo “impactos simbólicos restauradores”, e criteriológicos restauradores, que vão utilizando muito mais o pulchrum do que propriamente o verum, nas coisas. E o senhor dizia que a linguagem de Deus com o filho quando está em casa é uma, mas que a linguagem do pai com o filho quando está comendo as bolotas dos porcos, é outra linguagem, e que essa é a linguagem das saudades. E que o senhor disse que chegaria o momento em que o senhor ia usar esse impacto simbólico restaurador e começar a falar a linguagem das saudades para o filho pródigo. Não entra algo disso também?)
Entra.
(Sr. Gonzalo: Nos anos 40 ainda o filho estava meio em casa, mas agora foi embora mesmo.)
Demarrou.
(Sr. Gonzalo: E o senhor aparece muito como pai do filho pródigo. Não há algo disso também?)
Muito.
(Sr. Gonzalo: […] O senhor aparece muito mais como pai e que levanta as saudades de todo o mundo. Esse fenômeno está se produzindo?)
* O caos cria as saudades da ordem, e o passo arriscado que a Revolução dá, pulando por dentro do caos, é exatamente aviventar aquilo que ela levou o tempo inteiro adormecendo
Eu acho que sim.
O efeito que produz aquele Pio XII sentado no trono pontifício é uma saudades. Mas é uma saudades de todo o Vaticano, mas do Vaticano como ele foi, como ele já não é. É uma saudade da nobreza, uma saudade de uma nobreza paterna, esplendorosa, bondosa, benfazeja, de um mundo sossegado, bem ordenado, no qual tudo corria de acordo com o plano da Providência porque os homens não vivendo no pecado, de um modo geral, realizavam os planos da Providência e o mundo reluzia de providencialidades realizadas.
Tudo isto deixou de ser e começa a dar saudades.
Em última análise, se você quiser pode resumir isto da seguinte maneira: o caos cria as saudades da ordem. E o passo arriscado que a Revolução dá pulando por dentro do caos como ela está fazendo, é exatamente aviventar aquilo que ela levou o tempo inteiro adormecendo.
(Sr. P. Roberto: Não é uma questão de fervor assim, eu acho que a fotografia do senhor que existe no livro desperta uma saudade de alguém que é como deveria ser.)
Eu quase não examinei essa fotografia, ouviu, meu filho? Eu nem me lembro se me consultaram sobre essa fotografia ou não.
(Sr. Horácio B.: A fotografia que o senhor observou foi a da Senhora Dona Lucilia no livro da Espanha. Essa desperta também saudades.)
Saudade de mamãe desperta muito em mim.
(Sr. Gonzalo: Não, nas pessoas. Porque o fenômeno que é muito bonito, é gente que tem saudades de algo que não conheceu… [vira a fita]
É isso sim, é isso.
(Sr. Gonzalo: Para isso que o senhor vê uma graça especial.)
* O Livro da Nobreza é a catedral “engloutie” que vem e o sino toca, as luzes se acendem, o incenso sai pelas frestas das janelas, mas que vem para ficar
Acho que a Providência deu esta graça [de ter?] saudades que é uma graça especial. E acho que daí vem, exatamente, o fato de que esse livro é um livro nostálgico. Ele produz uma nostalgia que a pessoa não sabe bem do quê. Mas é uma nostalgias sem lágrimas, é uma nostalgia com esperança.
(Sr. Paulo Henrique: É uma espécie de oração da restauração…)
É isso.
(Sr. Paulo Henrique: A catedral “engloutie” que toca os sinos…)
Mas é isso mesmo, é tal e qual. É a catedral “engloutie” que vem e o sino toca, as luzes se acendem, o incenso sai pelas frestas das janelas, e em certo momento, inexoravelmente a feería vai se apagando e se perde nas ondas de novo. Mas aqui não, aqui é para ficar. Chega para ficar.
(Sr. P. Roberto: É uma coisa que a pessoa não tem nem palavras para exprimir direito.)
Perfeitamente, é isso tal e qual.
(Sr. Gonzalo: É muito bom.)
Não, realmente é muito, muito bonito.
(Sr. Gonzalo: Na história da humanidade não se viu isto.)
E é muito, muito bonito.
Houve uma coisa assim quando os Bourbons foram restaurados. Há narrações que contam como se deu a entrada de Carlos X. É extraordinária, a começar pelo bilhete do Talleyrand para ele: “Monseigneur, nous en avons assez de la gloire, amenez-nous l’honneur”.
Isso é uma coisa do outro mundo.n
(Sr. Gonzalo: Mas é diferente. A humanidade não tinha caído onde caiu e o senhor não é Carlos X. Então são outros pólos de intensidade que estão mexendo no mundo e que dá uma carga… a gente vê que se a campanha vai para frente, isto dá uma carga elétrica que ninguém segura.)
* Porque os membros do grupo não quiseram crer, ficam desapontados por constatar que os dias não chegaram, mas as graças do Livro da Nobreza mudam o panorama
Vamos imaginar — a palavra imaginar não é boa — vamos esperar que a campanha até o fim renda o que ela está rendendo.
Bem, a TFP ficará colocada diante de um fato que só os piores poderão alegar que não é milagroso. Só os piores.
E por outro lado, ela ficará meio curada de uma decepção-castigo debaixo da qual ela geme muito. Porque como ela não quis crer, ela fica desapontada diante do fato de constatar que as coisas não se realizaram e que os dias não chegaram. E que ela não é aquilo que poderia ser, e que ela vai crescendo tão devagar… vai crescendo, mas tão devagar que é o caso de se perguntar qual é o destino de Deus a respeito dela. Pensam [assim] os sabugos.
Em determinado momento acontece que ela é promovida assim por Deus. E estar a TFP nas nascentes de um livro que foi publicado simultaneamente em todas as nações das três Américas, com exceção de algumas naçõezinhas da América Central, e ainda mesmo assim excluindo a Costa Rica onde está sendo publicado. Depois, em todas as nações importantes da Europa…
Vocês sabem que o Andreas está trabalhando com um vigor que é preciso reconhecer que é encarniçado em favor da edição alemã, ele está andando acharné naquilo. Ele quer, e quer e quer, e lá vai, etc., etc. E, portanto, o mundo anglo, o mundo teuto, o mundo latino, são os três grandes mundos do Ocidente, que tem edições [inaudível]. E que em toda parte a acolhida é triunfal, se você toma tudo isso em linha de conta, é uma coisa de um alcance assombroso. Porque isso na história da TFP é como, por exemplo, na história de um indivíduo, ele ter vamos dizer, ganha o campeonato mundial, qualquer coisa assim. É literalmente isso. Muda a história de um homem.
(Sr. P. Roberto: É uma temática meio sonho também, não é?)
Também, é completamente sonho. É a coisa rebarbativa… o tema que seria negado, que seria tido como inviável, odiado, era este. Agora, a gente se reveste dos símbolos desse tema e sai passeando pelo mundo e o pessoal aplaude, os nossos inimigos aplaudem!…
(Sr. Gonzalo: É o que o senhor dizia na resposta ao Sr. Rodrigo na reunião. Que na opinião pública havia por debaixo alguma coisa que o senhor em determinado momento ia pegar, isso é uma coisa de uma beleza fabulosa.)
É fabulosa.
(Sr. Gonzalo: E depois que é criada pelo senhor, porque o fato de ter corrompido, mas que não esteja tão corrompido a ponto de poder essa gente reagir, isso é criado pela luta do Sr. a longo de sua vida…)
* Na última hora, no último minuto, a última luz recebeu um sopro para se apagar, e nesse sopro saiu um sol
Mas com uma circunstância, é que esse solavanco foi dado agora num momento em que essas luzes iam dar os últimos lampejos. Na última hora, no último minuto, a última luz recebeu um sopro para se apagar, e nesse sopro saiu um sol!
(Cel. Poli: Mas também essa hora e esse minuto esperado pelo Sr. por 80 anos, não é?.)
Ah sim.
(Cel. Poli: Não é uma hora e um minuto que apareceram casualmente. Foi super desejado pelo senhor… […])
É fora de dúvida. Houve de tudo no caminho, não é?
(Sr. Guerreiro: Aí entra uma página da história do profetismo que só o Sr. pôde escrever. Porque a temática de si seria intolerável, mas acontece que ela tratada pelo senhor se tornou atraente. Agora, no futuro se perguntará isso: o que foi necessário ele reunir durante 80 anos para que no último minuto ele escrevesse essa obra e ela tivesse todo o resultado que teve? […])
Note meu filho, que é o livro da nobreza escrito na porta da prisão. Isso é uma coisa indizível. (…)
(Cel. Poli: Desde a Revolução Francesa o espírito monárquico e aristocrático…)
Não foram acolhidos pela opinião pública como agora.
(Sr. Guerreiro: Pode-se estender isso até o início da Renascença.)
É verdade. É verdade.
Quer dizer, é um conjunto de circunstâncias, ao mesmo tempo… vocês querendo ter uma idéia do conjunto de circunstâncias, tomem em consideração as reflexões que fizemos juntos hoje à tarde. Porque é o outro lado. É um esboroamento do poder do Vaticano nos Estados Unidos, mas trazendo atrás de si, não digo certamente, mas muito verossimilmente o esboroamento um pouco por toda parte. Com as conseqüências que são óbvias aí. Não se tem nada que dizer.
Então o resumo é a glorificação da aristocracia católica — você acrescentou muito bem — do aristocratismo católico; é a porta da prisão e é o esboroamento. O esboroamento do poder da Santa Sé. Tudo junto.
E eu não quis dizer na reunião, mas há uma outra coisa… (…)
(Sr. Gonzalo: […] Esse esforço feito pelo senhor, deve ter um efeito nas graças que essa opinião pública está recebendo.)
Deve ter, mas uma outra coisa a gente já pode prever.
Você tome a reunião de hoje à tarde, o panorama dos Estados Unidos, o panorama da Santa Sé, isso vai ser daqui a alguns anos o panorama do mundo e muito agravado ainda. O que vai ser… (…)
* Uma problema que vai se por para os historiadores do Reino de Maria, e do qual não se pode escapar
… é opinião do Gonzalo e estou certo que ele faria toda forma de insistências para me convencer disso — se necessário fosse, porque eu estou convencido disso — de que em determinado momento vai se pôr para os historiadores no Reino de Maria o seguinte problema:
─ “O que é que se passou para que todas essas ignomínias tivessem lugar e a Igreja não aparecesse como heroína, a Joana D’Arc do mundo atual defendendo-o contra tudo aquilo que o corroia? O que é que se passou? Ou de pelo contrário, se tem medo de dizer a verdade, mas a verdade é essa, tantos e tantos de seus elementos dentre os mais exponenciais, colaboraram com todo esse mal, porque até lá chegou. Tudo isso afundando e da parte da Igreja não veio um esforço para salvar a obra da qual ela erguera, quer dizer, a obra da civilização Cristã. Onde é que está a honra da Igreja? A honra da Igreja estaria em fazer isto, em cumprir sua missão. Ela tem uma missão. Quem tem uma missão, a honra da pessoa que tem uma missão é cumprir essa missão.” Não tem por onde escapar.
Mas então vem a pergunta: onde está a honra da Igreja?
E se dirá: “Não digam que ninguém dentro da Igreja se moveu nessa direção, porque houve em São Paulo um grupo pequeno que começou assim, e que ao longo das décadas foi se espraiando assim, sofrendo tais humilhações, tais calúnias, tais agonias, etc., etc. E que no momento em que a conspiração contra esse Grupo o levou até às portas da prisão, neste momento entretanto o Grupo ainda estava fazendo tal coisa, [inaudível] o negócio do livro da Nobreza, e estava, portanto, tocando o sinal da aurora da época que deveria vir.
* Não há um momento da história do “Legionário” ou do “Catolicismo” em que se diga: “Bom, coitado, ele dessa vez errou”
(Sr. Gonzalo: E que durante toda sua vida deu diretrizes para todos os povos.)
Todos.
(Sr. Gonzalo: Não tem um povo na face da Terra que não tenha recebido as diretrizes do que deveria ser para servir a Deus.)
E depois os fatos posteriores provam o acerto das diretrizes.
Não há um momento da história do “Legionário” ou do “Catolicismo” em que se diga: “Bom, coitado, ele dessa vez errou”.
(Sr. Gonzalo: Não. É uma coisa impressionante.)
Bem, meus caros…
(Sr. Gonzalo: Porque o senhor disse que estava tão sóbrio? O senhor ia completar uma frase.)
Eu estou procurando me lembrar e não me lembro bem. O que é que você estava dizendo? (…)
… Vicejar na hora em que eles tenham um certo quid da Providência que faça vicejar, porque do contrário cai no chão. E não me parece que essa seja a hora. Mas já é hora de ter isso planejado e o material ordenado para publicar.
(Sr. Gonzalo: Já está sendo feito, graças a Deus com umas cinco ou seis pessoas que estão trabalhando bastante bem.)
Porque isso é fora de dúvida.
Meu caros, estou gostando…
(Cel. Poli: Rezar para que a hora da Providência para esse assunto venha logo.)
Sim, nós não podemos saber, por exemplo… (…)
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