Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 5/6/93 – Sábado – p. 19 de 19

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 5/6/93 — Sábado

A intuição e a agilidade serão talvez o colossismo dos fracos * O espírito da Igreja brilha de modo muito bonito quando virtudes antitéticas se apresentam simultâneas * Na formação das doutrinas e das observações e do pensamento de um homem, existem vários estágios de improbabilidade a caminho da probabilidade e depois do caminho da certeza * Há certas realidades que impregnam o ambiente como um perfume impregna uma determinada sala * Todos nós fomos educados de modo a não prestar atenção nos imponderáveis que pairam em diversos lugares * A Revolução industrial produziu uma série de ruídos, de coloridos e de impulsos, que deixam o ar cheio de restos de coisas que se passaram mas que não valem nada * O cultivo da inocência e o cultivo das experiências místicas ordinárias são a defesa contra o caos * “Até hoje, eu não fiz senão sofrer. As pessoas percebem isso, mas não se importam” * Uma solidão que é muito entristecedora e muito nobilitante, mas que, em certos momentos, se transforma numa moleza romântica, e é preciso saber resistir

(…)

Eu acho, meu filho, que essa vitalidade é uma coisa biológica mas sobre a qual incide a graça. E no caso lá deles, coincidiu com abundância, de maneira que você…

(Sr. Guerreiro: Abundância da graça e da natureza? Qual delas é maior?)

Juntas as duas, da graça e da natureza, forma uma colosso. E colosso assim: você tem por exemplo, o estadista colosso, teólogo colosso…

(…)

* A intuição e a agilidade serão talvez o colossismo dos fracos

diferente. Mas não é dizer que nós não tenhamos um certo colossismo, não é dizer isto, porque a todos os povos, eu tenho impressão, salvo povos que decaíram muito por castigos historicamente ignotos, etc., eu tenho a impressão de que conosco houve uma coisa: é a tal intuição nossa e a tal agilidade que será talvez o colossismo dos fracos, mas de qualquer maneira dá num colossismo que faz com que de frente com eles, nós tenhamos uma possibilidade de movimentação, de penetração e de discernimento que nos dá a possibilidade de vencê-los às vezes, e às vezes até com facilidade. O lado onde nós temos dificuldade de vencê-los é um só, e esse é um lado enorme, é a dificuldade em vencermo-nos.

(Sr. Gonzalo: …)

(…)

Dê-me aqui o cartão postal. O modo de vitalidade de nobres…

(Sr. Gonzalo: É o casamento dos dois?)

Não, é o seguinte: Felipe V da Espanha…

* Uma das coisas mais bonitas do espanhol é saber reverenciar com grandeza

Afinal foi o seguinte: o último Habsburgo de Espanha morreu deixando o trono para o neto de Luis XIV. E nesse momento o embaixador da Espanha chegou a Versailles e está comunicando a todos que o rei é o menino que está aí. Então esse que está de joelhos é o embaixador da Espanha que está prestando homenagem ao novo rei dele. Pouco atrás está o Luis XIV. Vocês estão vendo a diferença entre Luis XIV e o neto. O Luis XIV um sol! E esse aqui é um… ahahahah!, enjolras! Mas é propriamente um enjolras. Uma coisinha, uma lingüicinha.

Agora, por outro lado, é habituado a cerrar de cima. Ele está com jeito assim da nulidade que sabe disfarçar seu próprio zero e que então toma assim arezinhos quase protetores do grande de Espanha que está prosternado diante dos pés dele.

Vocês vêem, o Grande de Espanha tem muita vitalidade e está nessa… Uma das coisas mais bonitas do espanhol é saber reverenciar com grandeza. É uma coisa deles. A Providência deu a eles. Você está vendo que ele se jogou no chão. No meio de tudo isso, ele é um herói, é um guerreiro, é um homem capaz de…

(Sr. Paulo Henrique: Há uma grandeza cavalheiresca que só se vê lá.)

* O espírito da Igreja brilha de modo muito bonito quando virtudes antitéticas se apresentam simultâneas

Só se vê lá. É uma forma de humildade católica e grandeza católica, e o espírito da Igreja brilha de modo muito bonito quando virtudes antitéticas se apresentam simultâneas. Sai uma faísca do outro mundo. A grandeza é a grandeza e a humildade é a humildade. Elas se juntam sai uma coisa…

Agora, o interessante é o burburinho, o modo meio desordenado e muito latino de se colocar a francesada toda ali atrás. Vocês notarão com certeza que eles estão todos conversando e comentando os fatos. E que nesse comentar dos fatos…

(Sr. Paulo Henrique: O senhor quer que segure?)

Assim os senhores podem colocar na distância visual que lhes convém.

Mas a coisa é que eles todos estão num burburinho que não cessa um momento, e que é um ferver de champagne essa coisa…

(Sr. Gonzalo: É o frou-frou…)

Frou-frou, propriamente. Mas que é uma vitalidade de espírito contínua, como dizendo coisas engraçadas, ditos espirituosos, etc., críticas às vezes mordazes e mordacíssimas, que depois todos contam uns para os outros. Um dito especialmente interessante nasce aqui desse lado do cartão e vai imediatamente para cá.

* Debaixo de certo ponto de vista a América Latina é muito mais latina do que a Europa

Aqui entra uma certa outra coisa que eu chamaria propriamente a latinidade. E eu preciso fazer notar que debaixo de certo ponto de vista a América Latina é muito mais latina do que a Europa, no sentido de que ela só tem latinidade, negritude e ahahahahah!

(Sr. Gonzalo: Uma “pluma de por medio”.)

E a “pluma de por medio”, não tem outra coisa.

Mas dá uma coisa que poderia dar para isto. Mas se vocês puserem no meio disso um celta irlandês, é difícil pegar. Se vocês puserem um alemão, não tem isto…

(Sr. P. Roberto: Antigamente o senhor dizia que quaisquer que fossem os povos que viessem para cá, que a latinidade sabia colocar um acento circunflexo por cima de todos…)

Ahahaha, é isso. Mas é tal e qual.

(Sr. Paulo Henrique: Umas repercussões que eu colhi lá, de pessoas relacionadas com o sr. Martim Afonso, eles ficavam muito impressionados com os membros do Grupo que iam daqui para lá, por causa exatamente da intuição e da flexibilidade nossa em fazer um pouco de tudo. Porque normalmente eles sabem fazer uma, duas ou no máximo três coisas.)

Essas muito bem feitas.

(Sr. Paulo Henrique: Eles ficavam impressionados como um membro do Grupo era capaz de tratar com os pais, tratar com os meninos, tratar com empregada, tratar com uma senhora, arrumar um vaso de flores, tratar com o padre, ajudar a missa, cantar… Quer dizer, não é possível uma pessoa fazer tanta coisa… e aparentemente bem…)

Ahahahahahaha! No aparentemente, entrou o cocar do índio, ouviu? Ahahahaah! Eu descendo de índio, portanto, eu posso falar.

* Um quadro que é uma obra-prima não pelos personagens considerados isoladamente, mas pelo conjunto

Agora, para ver um lado interessante do negócio, você precisa imaginar o seguinte. Nós estamos habituados à fotografia, de maneira que temos uma sensação de que essa distribuição de personagens, etc., foi fotografada, em determinado momento chegou alguém [inaudível] a composição das pessoas saiu assim, pega [sur le lit?]. Mas não é, isso é um quadro pintado, que não foi pintado nesta ocasião, que foi pintado depois, e sem dúvida alguma coisa é uma reprodução da realidade. Por exemplo, a posição do rei, a posição do rei da Espanha, a posição do Grande, umas coisas assim, são reais. Mas o resto foi composto depois.

Agora, como teve que pegar a realidade o homem que compôs esse tumulto espontâneo?

(Sr. Guerreiro: E que riqueza de alma precisa ter para…)

Para compor assim, é uma coisa… eu suponho que ele deva ter feito um croqui a lápis sobre papel, várias vezes corrigido, apagado, arranjado, até chegar ao que ele queria. E assim mesmo enquanto ele pintava, ele sentia necessidade de retocar aqui, lá e acolá. E para mim, é uma das obras-primas desse quadro não é nem um pouco o rei, o rei está muito bem, mas não é o rei nem nada, mas é…

(Sr. Gonzalo: É o conjunto.)

Este conjunto me parece formidável.

(Sr. Guerreiro: E aí a gente vê uma colossolidade de que o senhor falava.)

É, exatamente. O pegar isto, é a latinidade do homem.

(Sr. Guerreiro: Uma alma que pegou toda essa riqueza, precisava ter uma substância de alma, uma riqueza de personalidade…)

Fantástica!

(Sr. Guerreiro: Invulgar.)

Invulgar. É absolutamente assim.

(Sr. Gonzalo: Os personagem também muito interessantes.)

Todos. Você sabe que está Bossuet aí pelo meio não é?

(Sr. Gonzalo: Mas todos muito interessantes, e daí uma espécie de interessante despertado por quem é interessante, que isso chama de si a atenção. Está Saint-Simon, está Bossuet, está Monsieur, etc., […])

Quem é que você supõe que seja Monsieur aí?

(Sr. Gonzalo: Não sei, eu presumo, acho que é aqui.)

(Sr. P. Roberto: Esse de vermelho aqui.)

Deixa eu ver um pouquinho. Perfeitamente! Tem toda atitude do irmão do rei. Completamente senhor da situação, exceto face ao rei.

(Sr. Gonzalo: […])

Qualquer homem deste merecia… (…)

. não tem peso, e se tivesse peso ficava feio.

(Sr. Gonzalo: É algo que evoca um pouquinho o mundo angélico.)

Exatamente, é tal e qual. É uma verdadeira…

E sabe que esse quadro, parece que não tem autor conhecido.

(Sr. Paulo Henrique: É de um tal Gerard…)

(Sr. Gonzalo: Gerard é um pintor conhecido.)

Não, mas eu acho, meu filho, que é outro Gerard. O Gerard de que você fala é do século passado. Pode ser, talvez, descendente desse Gerard.

Mas aqui eu acho uma coisa…

E sabem onde é que está o quadro? Em Chambord. Quer dizer, nem está exposto numa galeria principal. Está exposto em Chambord.

Vamos sentar.

Você põe na mesinha, faz o favor.

Mas então, e o nosso tema hoje qual é?

(Sr. Gonzalo: [Dá um rápido resumo das últimas Conversas de Sábado à Noite] O senhor ia analisar a atmosfera atual. E o senhor disse que para dar-nos uma idéia de como era o ar hoje, o senhor analisou o ar quando o senhor tinha dez anos. Foi uma reunião prodigiosa, mostrando como era a componente dos vários fatores que constituíam a Sãopaulinho. […] Por contraste, o senhor ia mostrar como é o ar hoje, e como o demônio se utiliza desse tipo de coisa para mantar a situação que de si não se manteria. E o que nós vimos hoje na reunião — nós estávamos perguntando entre nós — é que o senhor deve estar discernindo, pensando nesse tipo de coisas: como é que essa ação se exerce e de outro lado, como mexer nesses pontos. […] Não sei se já está claro a problemática que o senhor havia deixado de pé.)

Sim, está muito clara.

* Na formação das doutrinas e das observações e do pensamento de um homem, existem vários estágios de improbabilidade a caminho da probabilidade e depois do caminho da certeza

Tem o seguinte: na formação das doutrinas e das observações e do pensamento de um homem, existem vários estágios de improbabilidade a caminho da probabilidade e depois do caminho da certeza. Quer dizer, as coisas que são evidentes, o espírito se detém pouco nelas. Porque chegou, olhou, viu e passou para frente, já está visto.

A atenção se detém mais, e até com mais curiosidade, etc., etc., nas coisas que não são evidentes, e que se trata de evidenciar, mas que não é a clássica “norte-européica” problemática de resolver os problemas científicos no quadro-negro. Não é isso. Mas é de pegar os imponderáveis das coisas e procurar torná-los ponderáveis.

* O passar do imponderável para o ponderável e depois do ponderável para o certo, isto é uma trajetória do espírito humano muito rica

O passar do imponderável para o ponderável e depois do ponderável para o certo, isto é uma trajetória do espírito humano muito rica, muito bela, etc., na qual o espírito tem que se habituar, mas naturalmente, ele se habitua naturalmente, não é como um prisioneiro que se habitua a trabalhar na prisão, mas é como um pássaro se habitua a cantar.

(Sr. Paulo Henrique: Só o senhor levantar a questão nesses termos… acho que ninguém nunca levantou…)

Pode ser, o fato é que no meu espírito a questão nasce assim. Se você quiser tem relação com o amanhecer. A coisa amanhece ainda dentro das trevas, depois ela vai ganhando luminosidade, em determinado momento ela já dominou as trevas mas não desenvolveu tudo que ela tinha. O meio-dia é o momento em que ela se desenvolveu [toda]. Ela brilha assim até às duas horas, até às três e a partir desse momento ela terminou sua tarefa e começa o papel de uma mãe de família que se recolhe em casa e que começa a tratar dos seus… aparece a vida de família noturna depois, que caminha para o sono. É um caminhar do espírito humano.

E assim, nesses termos, às vezes a gente forma impressões que não são nem sequer hipóteses, é uma coisa que se tem impressão de que é de um certo jeito. Será? É uma coisa tão imersa na penumbra, que a gente não diz: “eu estou fazendo uma hipótese”. A gente diz: “eu estou tendo uma impressão”. Para depois ver até que ponto essa impressão confere com a realidade.

Então, o que eu vou dizer é uma impressão, mas essa impressão a meu ver tem alguma coisa de verdadeiro, com base em quê, eu quero responder a pergunta do Gonzalo.

Mas eu dizendo que a meu ver tem alguma coisa de verdadeiro, eu estou lançando uma porção de hipotecas, de dúvidas sobre o que eu estou dizendo. Porque até a certeza tem [o] que caminhar. Mas apresento como está no meu espírito.

* Há certas realidades que impregnam o ambiente como um perfume impregna uma determinada sala

Eu tenho uma certa impressão de que o ar, por exemplo, vamos dizer, o ar dessa sala, o ar de qualquer lugar, não consiste só o ar propriamente dito, mas de uma porção de coisas que ficam pairando dentro do ar mais ou menos como o perfume. [Se se] pudesse destampar aqui um vidro de perfume muito ativo, esse olor poderia se espalhar por essas duas salas. Assim também há certas realidades que impregnam o ambiente como um perfume impregna uma determinada sala.

A gente, por exemplo, pode entrar nessas duas salas, que praticamente só são freqüentadas sábados à noite, eu tenho impressão que vocês que me dão alegria de vir aqui muitas vezes, vocês seriam capazes de entrar numa sala e sentir se durante essa semana esteve gente nessa sala ou não esteve. Se a sala esteve inteiramente… não esteve ninguém a não ser a limpadeira para limpar, eu acho que vocês sentiriam isso no ar.

Mas se eu tivesse dado por exemplo uma recepção nessa sala, vocês entrando sentiriam no ar que esteve muita gente aqui.

Sentiriam por quê?

Outra coisa: imagine que durante a semana tivesse estado aqui nessa sala um grupo musical de três ou quatro pessoas que tocam instrumentos afins…

(Sr. Gonzalo: Da TFP ou de fora?)

Da TFP. Tocassem, tocassem e depois fossem embora. Quando vocês no sábado entrassem aqui, vocês sentiriam hipoteticamente muitas das melodias que foram executadas aqui, paradas no ar. O que não sentiriam se durante esse tempo os vidros todos passassem abertos, porque é como se fosse uma realidade física, mas ventilando muito o ambiente, tudo quanto ele contém de riquezas imponderáveis passa, e entra a riqueza imponderável do ar livre, mas que é uma coisa diferente da riqueza de um salão.

* Para nós captarmos toda a riqueza de um ambiente, talvez seja o principal pegar a inspiração que o ar, depositário de todas essas riquezas, dá aos que vão lá para dentro

Se vocês admitirem isto como verdadeiro, então vocês têm que há uma porção de influências que estão pairando no ar, e que são por exemplo energias acumuladas, mais sons e vibrações que foram, mas que deixaram por assim dizer seus sinais digitais no ambiente, de maneira que quando a pessoa fizesse um estudo com aparelhos ultra-técnicos, no ar, pegariam alguma coisa desses “sinais digitais” que o ar pegou. E que para nós captarmos toda a riqueza de um ambiente, talvez seja o principal pegar a inspiração que o ar, depositário de todas essas riquezas, dá aos que vão lá para dentro.

* Há acontecimentos históricos que se passando num lugar deixam aquela marca: aqui aconteceu tal coisa

Então também acontecimentos históricos. Há acontecimentos históricos que se passando num lugar deixam aquela marca: aqui aconteceu tal coisa. É um pouco essa presença vibrátil, de vibrações que pararam, mas que não morreram, é diferente de uma vibração que parou e outra que morreu. A vibração que parou, ela de fato está o tempo inteiro fazendo sentir aquela mesma vibração, com aquela mesma ondulação. Enquanto a que morreu não sente mais nada, acabou e está liqüidado o caso.

(Sr. Gonzalo: Isso é no plano natural ainda…)

No plano natural.

(Sr. Gonzalo: O senhor não entrou ainda em anjos, nem coisas de gênero?)

Não, não, não.

(Sr. Gonzalo: O senhor poderia dar algum exemplo do que é uma vibração que ficou no lugar?)

No plano natural, a presença de mamãe.

(Sr. Gonzalo: Por que o senhor disse no plano natural e não sobrenatural?)

Porque eu acho que tem ambas as coisas, e posso, portanto, fazer uma distinção.

Mas a gente poderia tomar, por exemplo, pessoas de uma personalidade muito marcada, qualquer coisa assim, no plano natural, poderiam deixar aquilo…

(Sr. Gonzalo: Está claríssimo.)

* Todos nós fomos educados de modo a não prestar atenção nos imponderáveis que pairam nos diversos lugares

Agora, acontece que se forma, portanto, no ar um cocktail de impressões dessa natureza. E o espírito humano inala aquilo mas inala de um modo muito desagradável, porque em vez de dizerem para ele que isto existe, e que ele procure prestar atenção, dizem para ele que isso não existe e que quando ele sentir alguma coisa assim, ele esteja certo que ele está sendo vítima de uma miragem do espírito, que não é a realidade. Que é, portanto, próprio para poesia, e próprio para os artistas, etc., etc., que são os especialistas da mentira de bom gosto. [risos]

Mas é assim…

(Sr. P. Roberto: A gente se sente meio expatriado…)

Não é? Mas é assim tal e qual.

Às vezes é porque a coisa é insaisissable, não se pode pegar. E às vezes é porque foi-nos imposto aquilo: “Não dê importância a essas impressões; quando entre numa sala, elimine essas impressões ou não prestando atenção nelas nem um pouco, ou se elas estiverem muito importunas, pensando em outras coisas para fechar o espírito a elas”.

E com isso a alma fica depauperada do que talvez haja de mais rico no ambiente onde ela vai começar uma conversa, onde ela vai começar a tratar de negócios, vai começar “n” coisas em que ela poderia haurir impressões de conjunto que estão no ar e que lhe inspirariam muito tomar atitudes ali. E ela não toma atitude — faz o papel de um bobo! — porque lhe inspiraram o contrário. Porque vocês todos, como eu, fomos ensinados que não se presta atenção nisso, que….

(Sr. P. Roberto: Mas por causa do thau existe um pouco de inconformidade com isso.)

Isso é do thau, porque ele é acompanhado de uma predisposição natural e de um começo sobrenatural de reação contra isso.

Daí também o seguinte: (…)

* Os imponderáveis constituem no ar um arquivo de folhas soltas, e compete à alma que aprecia essas coisas, pôr em ordem o ar

Seja como for, esses imponderáveis constituem no ar um arquivo de folhas soltas, e compete à alma que aprecia essas coisas, pôr em ordem o ar. E este pôr em ordem o ar é pôr em ordem a si mesmo em função do ar, mas que acaba projetando uma certa ordenação no ar. E [o] ser [isto] assim nos explica uma coisa muito interessante: é o fenômeno da decadência.

* A família decadente perde a possibilidade de sentir e de criar um ambiente

Um de vocês falava há pouco, não me lembro bem, [de] família decadente. Família decadente é como um recipiente no qual apareceram umas fissuras, e umas gotas ou quase todas as gotas deste líqüido superior, que ficariam como uma espécie de umidade cultural moderada e agradável no ar, se escorre. Então fica vazio. Seco. A família decadente é isso, escorreu isso, e perderam a possibilidade de sentir, e perderam a possibilidade de criar esse ambiente, de maneira que ficam vazio, fica um pneumático furado.

(Sr. P. Roberto: Uma espécie de passa.)

Uma espécie de passa, a seiva se retirou quase completamente, ela está murcha, amassada. Não está podre… mas acabou a história da passa. Daí para a cama funerária da boca, existe uma etapa apenas pequena, não existe mais nada.

Agora, nós podemos daí tirar uma conclusão seguinte: é uma coisa que foi feita e que ao mesmo tempo que a gente se dá conta da coisa, ao menos a mim, me enfurece, mas de outro lado dá uma espécie de sensação de impotência provisória.

Qual é a coisa?

* A Revolução industrial produziu uma série de ruídos, de coloridos e de impulsos, que deixam o ar cheio de restos de coisas que se passaram mas que não valem nada

É a seguinte: é que determinados empreendedores tiveram, a partir dos descobrimentos do século passado, perfeitamente regulado e sabido com antecedência tudo quanto haveria para descobrir e ainda há para descobrir. Uma quantidade enorme de coisas!, que eu não sei se eles sabiam porque tinham sábios que descobriam, mas proibidos de se meter a besta de [estarem] contando: “Falem para eles que vão ser recompensados, mas não se metam a besta de estar contando antes da hora”.

Ou se isto era, pelo contrário, uma coisa sabida pelo demônio que recebera permissão de ir soprando pouco a pouco neste ou naqueles dos elementos de maneira a graduar os famosos descobrimentos, de maneira a eles prepararem a Revolução industrial. E essa Revolução industrial foi preparada para tornar este ar inteiramente irrespirável nos dias do caos.

De que maneira?

Pela Revolução industrial, produzir uma série de ruídos, de coloridos, de impulsos, etc., que deixam o ar cheio de restos de coisas que se passaram mas que não valem nada, que não têm aproveitabilidade nenhuma, e que contrariam o homem continuamente. Eles então criam uma espécie de admiração no homem por isto, cujos efeitos estão contrariando. E isto cria no homem uma espécie de… Ele não tem noção disso, mas cria de fato essa situação.

* As impressões que sentiria um caipira de algum lugar do interior que, vindo a S. Paulo, fosse passear pela Av. São João num sábado à noite

O homem “A” entra num lugar, vamos dizer por exemplo um caipira que num sábado à noite vai — esse caipira, aliás, cuidaria muito mal de seus interesses espirituais se fizesse isso, mas enfim — num sábado à noite fosse à São Paulo na rua São João, e que caminhasse da periferia para o ponto mais alto, que é ali onde está o edifício Martinelli, a pé, vendo aqueles automóveis que passam, os sinais luminosos que acendem, que apagam para regular o trânsito, um ou outro apito — à noite é muito raro — apito para deter o trânsito num ponto, enfim, para regular um pouco as coisas. O barulho do arrastar das solas de sapatos e dos saltos no calçamento, o brouhaha do fala-fala, e sobretudo os pedaços de músicas que são tocadas pelas casas, pelos café-concertos, pelas coisas, ao mesmo tempo que as luzes acendem e apagam em todas as alturas. E um pobre coitado desses habituado a morar numa cidade onde casa de dois andares tem importância já, olha de longe para o Martinelli como para uma verdadeira maravilha, e vai caminhando para aquilo entusiasmado.

Mas o ar, apesar de ser ar livre com a mobilidade do ar livre, estas coisas ficam apesar dos ventos, e ficam de tal maneira que o sujeito ao mesmo tempo fica profundamente contrariado pela presença destas cacofonias, cacocromias, etc., e de outro lado fica embevecido por aquilo que lhe é dado de explícito. Explicitamente, ele vê coisas que o deixam admiradíssimo. Implicitamente, ele engole as piores coisas. E isso forma nele uma distonia medonha, que ele não tem a menor noção de como é nem por que é.

* Quando o caipira retorna à sua cidadezinha, seu espírito vai sendo exorcizado das recordações da Av. S. João e começa o circuito natural e habitual dele a se refazer, a cicatrizar

Quando ele, na segunda-feira cedo, toma o trem ou o ônibus para chegar à sua cidadezinha originária distante de São Paulo, digamos, de uma hora ou uma hora e meia, ele vai andando pelo campo e sem perceber ele vai se limpando de todos esses ares, de todas essas coisas. Olha para o campo, olha para a árvore, olha para a atmosfera parada e pouco viva das coisas bucólicas que ele vê pelo caminho, etc., e essas coisas têm os efeitos como que exorcísticos, vão pondo para fora dele as recordações da Av. São João. E quando ele chega na estaçãozinha dele, ele tem um verdadeiro alívio, e encontra um homem que é primo dele, está noutra ponta da praça, ele grita caipiramente: “óh Juca! Como vai? Vem cá! Juca”

O Juca custa para ouvir, afinal presta atenção, e diz para ele: “Espere um pouco!” E está acabando de tomar uma pinguinha. Quando se encontram, ele formou novamente o velho arco-voltaico das impressões do interior. Aquilo passou e começa o circuito natural e habitual dele a se refazer, a cicatrizar. Ao pé da letra é como uma ferida que cicatriza, uma machucadura: forma aquela casca, depois quando a pele está recomposta, aquela casca cai.

Assim então as recordações de uma cidade, desde que ele passe um ano sem voltar para lá, elas caem como cai a casca. É muito prosaica a comparação, mas é isso. A obrigação dela é de ser real, não é de ser poética, de maneira que estou orientando a coisa para a obrigação que tem, para o rumo que deve tomar.

* Para nós que moramos numa grande cidade moderna, há vários gêneros de poluição insensível que se acumulam

Agora, para nós que moramos numa cidade onde habitualmente tudo isso se acumula e deixa maus resíduos, há vários gêneros de poluição insensível que se acumulam aí, e de coisas contraditórias. E a pessoa quer formar uma idéia que nisso existe um unum, então subconscientemente forma…

Vamos dizer aquilo que se dá tanto conosco: imagine que passasse um ano sem entrar aqui ninguém a não ser a limpadeira, a pessoa entra, aqui estão acumulado sons mecânicos não interrompidos em uma só vez pelos sons harmoniosos como cânticos da voz humana mais rachada que possa apresentar, mas entre um barulho de automóvel que sai com o motor fazendo bruuuunn!, aqui dessa bomba ao lado, e a voz mais taquara rachada que pode haver de um homem, o homem é um passarinho em comparação com o barulho da mecânica.

Mas durante um ano uma voz humana não se fez sentir aqui… [vira a fita]… pelo efeito das cortinas, dos quadros, dos móveis, etc., e, por exemplo, o olhar severo dessa senhora “reagiu” contra uma porção de coisas mecânicas que se colocaram, se instalaram aqui durante esse tempo. Esse espelhozinho que está aí atrás, tem um reflexo Ancien Régime e também protestou e lançou efeitos em sentido contrário. Aquela duquesa de Nemours, pranturosa, burguesona, mas fina e bem educada, entrou com sua ação em cena, e cada objeto tem sua ação nesse sentido.

(Sr. Gonzalo: Sobretudo a Senhora Dona Lucilia.)

Ah, perfeitamente, nem tem dúvida.

* A atmosfera pré-caótica do mundo moderno vai atuando sobre as pessoas

Uma pessoa entra e vem fazer um visita. Eu apareço, sento aqui e começo a conversar. O meu visitante, vamos dizer que vem aqui pela primeira vez, tem uma porção de impressões novas assim que vão se pondo na alma dele e que ele subsconscientemente, enquanto conversa, vai querer coordenar, vai querer ordenar, etc., etc. Depois perde o fio da conversa por causa disso. Mais adiante é o contrário, ele conversa e perde o fio dessas impressões, mas ele percebe que as impressões continuam a tecer a sua fiação independente dele querer ou não querer prestar atenção ou não prestar. De maneira que o sofá em que ele está sentado diz a ele coisas contraditórias com um barulho da rua qualquer que acontece, e tudo vai criando nele a atmosfera pré-caótica do mundo moderno.

A questão é a seguinte: que quando há graças, pode-se conversar sobre isso. Mas eu tenho certeza que nenhum de vocês, fora dessa rodinha, empreenderia de ter essa conversa, porque simplesmente não tinha idéia se não poderia ser tachado de um lunático, de um sujeito fantasioso, de um bobo, de um gagá até, se quisessem. E é a hora dos burros, porque a hora de dizer que tudo isso é gagueira, é do espírito prático que diz: “não, isso não é assim, etc., o que é que você está pensando!” E com jeito assim de desafio, de superioridade porque ele sabe que se outros ouvirem ele tem as palmas dos outros, então ele já nos enfrenta com ar de superioridade das palmas da mentira que o estão aguardando no caminho. E cria um misto de coisas mas que todas elas estão para a caminhada do caos mais ou menos como o leito de uma estrada asfaltada está para o passageiro. O caos é o passageiro. O leito de estrada asfaltada é todo esse conjunto de coisas interiores em que o sujeito não se dá conta e que tem como resultado a impossibilidade de construir-se a si mesmo ordenadamente.

Isso seria uma espécie de síntese do que eu teria que dizer.

Se vocês me derem licença eu vou consultar o relógio por causa de um colírio que eu preciso tomar. Que horas são?

(Cel. Poli: Quinze para às três.)

Quinze para às três já? Oh como corre.

(Cel. Poli: Não é às três horas?)

Não, tinha que ter sido às duas.

(Cel. Poli: Ontem foi às três.)

Tinha um e outro às três, que fica empurrado não sei para que horas.

Bem, eu quero saber o seguinte: a vocês isso dá impressão de uma fantasmagoria?

(Não!)

(Sr. Gonzalo: Isso é no plano natural, agora ainda teria…)

Tem o sobrenatural.

(Sr. Guerreiro: E o preternatural.)

O preternatural e o sobrenatural, vamos dizer, o extra-natural seria para ser tratado agora.

(Sr. P. Roberto: É a primeira vez que, pelo menos para mim, fica tão explícita a noção de caos, porque o caos é resultante dessa sobreposição de impressões variáveis e de coisas assim…)

[O Senhor Doutor Plinio interrompe para pôr o colírio]

(Sr. Guerreiro: … a gente vê que eles estão congestionando a imprensa escrita e todo o mundo do pensamento por uma processo similar a esse que o senhor descreveu das impressões, mas aí não é das impressões somente, é dos princípios e dos conceitos. Mas a respeito de todas questões da cultura.)

A cultura inteira é um caos.

(Sr. Guerreiro: Toda está trabalhada por esta técnica, mas aí no plano intelectual.)

Isso, é tal e qual.

(Sr. Guerreiro: Levar a coisa a esta extensão, inclusive no plano intelectual, porque se eles não levarem os que pensam para um processo similar da mente a este que o senhor acabou de descrever que é para a maioria das pessoas, para o comum das pessoas, a gente vê que eles não conseguiam levar sem a desmontagem do mundo comunista. A desmontagem do mundo comunista desatarrachou toda a lógica de princípios ideológicos que procuravam cobrir toda extensão da civilização e da cultura, e que uma vez desatarrachado isso, tudo volta a uma espécie de caos.)

É a lava do vulcão.

(Sr. Guerreiro: É isso mesmo?)

É isso tal e qual.

[Nesse momento faz-se um ruído contínuo e agudo na rua provocado por um carro que passava.]

Por exemplo, isso aqui. Foi embora, mas não foi embora…

(Sr. P. Roberto: Deixou…)

Deixou…

(Sr. Guerreiro: Os ecos.)

Os ecos. Deixou um imponderável, mas rasgou qualquer coisa.

Agora, podia ser que em cima estivesse dormindo uma pessoa. Nem acordou, mas de manhã sem ela se dar conta, ela viveu isso.

(Sr. Guerreiro: Posto então todo esse quadro, como é que o senhor continuaria a explicitação dessa problemática para defender as nossas almas?)

É o que o Gonzalo perguntava também.

(Sr. Gonzalo: Como é a defesa disso, é pela preservação da inocência?)

* O cultivo da inocência e o cultivo das experiências místicas ordinárias são a defesa contra o caos

É isso. Quer dizer, o cultivo da inocência e o cultivo das experiências místicas, da mística ordinária, que vem em quantidade na idade da inocência e que povoam a alma. Quando a alma ama essas coisas, ela instintivamente forma para si, aqui dentro, um mundo oposto. E na formação do mundo oposto, o contraste entre os dois mundos é muito mais vivo, e, portanto, a defesa contra é muito mais viável. Eu percebia que se eu me deixasse levar por essas coisas…

Agora, como é que é o deixar levar?

* O ato de virtude imenso praticado pelo SDP foi muito ajudado por dois fatores: em primeiro lugar a igreja do Sagrado Coração de Jesus; em segundo lugar a SDL

Era dizer-me a mim mesmo que a opinião preponderante era boa e tinha razão. Se eu dissesse isso a mim mesmo, eu abriria umas escotilhas por onde esses ruídos e tudo entrariam em mim com uma dominação enorme, e daí eu não quereria mais largar.

(Sr. Gonzalo: O ato de virtude imenso é isso.)

É isso. É isso. Esse, vocês dizem bem, é o ato de virtude imenso, que no meu caso concreto foi muito ajudado por dois fatores: em primeiro lugar a igreja do Sagrado Coração de Jesus; em segundo lugar, mamãe; e depois de um modo mais remoto, mas não ineficaz o conjunto do ambiente da casa onde eu vivia: móveis, objetos, etc., etc., dos quais uma parte está aqui e vocês conhecem. Isso tudo já estava antiquado para aquele tempo, e já entrava em choque na minha alma naquele tempo. E então uma reação. E daí depois essa explicitação.

Nesse sentido o terrível choque com o colégio São Luis me fez bem, porque produziu o choque que define e que torna possível a explicitação. Então uma infância muito dura, muito árdua, etc., mas uma infância que tinha em seu favor esse fato concreto. Qual é o fato concreto? É o fato concreto de que era possível reagir, que se eu quisesse era só eu fixar a vista que eu veria o que era para ver e faria o que era para fazer.

(Sr. Gonzalo: E amar muito.)

Muito! Vamos dizer, amar mais do que a minha própria vida.

(Sr. Gonzalo: A TFP ou é isso, ou senão a TFP não é a TFP.)

Não, não é nada.

(Sr. Gonzalo: E o Grupo enquanto não vê isso não nasceu.)

Não.

(Sr. Gonzalo: O livro da Nobreza está banhado desses anti-eflúvios…)

E em parte despertando novamente o amor à nobreza, ou impedindo que ele desaparecesse, eu tentei fixar no ar muita coisa de antigo que era para não sumir.

Quer dizer, é um trabalho de reação. Que naturalmente enfurece muito.

(Sr. P. Roberto: A gente sente que passa vida por isso.)

É isso.

(Sr. Gonzalo: Uma coisa muito bonita, é que o livro da Nobreza, não são as teses só. Se essas teses fossem escritas por um nobre, por mais nobre que fosse, mas não tivesse esse espírito, esse livro não teria a transmissão dessas graças.)

Não.

(Sr. Gonzalo: Então é uma coisa que tem a marca de Plinio Corrêa de Oliveira fundamentalmente.)

Ah também.

(Sr. Gonzalo: Mesmo que copiassem, não tinha a bênção.)

Não tem.

(Sr. Gonzalo: A bênção que o livro traz é a coisa feita por um homem totalmente inocente.)

Espero em Deus que sim.

(Sr. Gonzalo: E isso é que move as coisas para a Contra-Revolução ou para a Revolução.)

Tal e qual, e por isso mesmo a gente vê que existem almas, por exemplo, em Portugal, que se entusiasmam com o livro. Algumas dizem: “Era o livro que eu estava querendo”. E depois outros mandam dizer: “Não interessa”.

(Sr. Gonzalo: É em função disso, não em função da tese.)

Não, não, não.

(Sr. Gonzalo: São desses problemas atmosféricos que o livro produz.)

É isso. E já na capa aquele Pio XII andando com aquela corte, etc., já produz esse efeito.

* Uma pergunta feita com afeto: Qual é o “lendemain” dessa conversa?

(Sr. P. Roberto: O senhor ter passado a vida inteira sendo assim, e ninguém ter aderido a isso…)

Ninguém!

(Sr. P. Roberto: É uma coisa impressionante, porque a vida do senhor é um exemplo disso, e é uma tragédia o senhor ter ficado sozinho durante todo esse tempo…)

84 anos!

(Sr. P. Roberto: Continua sozinho.)

Por exemplo, meu filho, eu estou falando agora. Eu me pergunto — essa conversa, acho que vocês têm como líquido também que é uma conversa banhada por muitas graças — agora, eu me pergunto: qual é o lendemain dessa conversa?

É uma pergunta feita com afeto, não há recriminação no que eu estou dizendo, mas há uma…

(Sr. P. Roberto: Nós pediríamos ao senhor que dissesse alguma coisa para que isso não ficasse em vão, porque é uma coisa tão extraordinária…)

Meu filho, a questão é a seguinte: seria preciso que vocês se pusessem a seguinte pergunta. No dia de hoje, qual é um ponto de resistência no espírito de cada um de vocês em torno do qual poderiam se aglutinar as lembranças e as reações afins que houve no passado e que há no presente?

Não sei se me exprimo bem?

(Sr. P. Roberto: Se o senhor pudesse dar um exemplo…)

Vamos dizer, por exemplo: tomando o período de inocência ou a inocência ainda presente, ainda viva, em cada um de vocês, quais são as impressões inocentes que ainda vocês guardam?

(Sr. P. Roberto: Em função de algo de hoje em dia?)

Não, em função do passado. No passado como isto foi, o que é que se conserva e quais são as coisas de hoje em dia em que convém prestar atenção para ir consolidando e aumentando esta área de inocência.

(Sr. P. Roberto: Isso supõe também um intercâmbio entre nós.)

Supõe. Supõe valentemente o intercâmbio entre nós.

* “Até hoje, eu não fiz senão sofrer. As pessoas percebem isso, mas não se importam”

(Sr. Paulo Henrique: Sobretudo esse amor de que o senhor falava, amar mais do que a própria vida, em outras palavras é o holocausto.)

É o holocausto.

(Sr. Paulo Henrique: É a disposição para o holocausto que cada um de nós deveria ter e não temos.)

Afinal de contas, grosso modo falando, desde aquele tempo até hoje, eu não fiz senão sofrer. E as pessoas percebem isso, mais ou menos percebem. Mas não se importam [inaudível].

(Sr. Paulo Henrique: Isso é um pressuposto.)

É um pressuposto.

(Sr. Paulo Henrique: Nós procuramos fugir disso..)

Como podem. E daí, por exemplo, antipatias também, nós, objeções, e coisas desse gênero de toda ordem.

(Sr. Gonzalo: Tem que entrar muita graça também.)

Muito! Eu acho que…

(Sr. Gonzalo: O Grand-Retour vai ser isso.)

Esse é o Grand-Retour.

(Sr. Gonzalo: Mas de fato a gente pode colaborar um pouco na linha de remover obstáculos, mas isso é tão sagrado, e nossa inocência está tão furada, que ou vem uma comunicação do espírito do senhor para refazer nossa inocência ou isso não se faz. Sobretudo nós temos que olhar com muito mais amor para o senhor. A fonte disto está aqui. Agora, as medidas práticas é difícil, porque a gente começa a discutir isso, e é eterno. Então vejo que o saborear uma reunião como a de agora, e a presença do senhor, e ver o senhor muito nessa clave, isso vai tecendo alguma coisa dentro da alma. E rompendo o contato com as coisas de fora…)

* Em relação às coisas de fora, do mundo revolucionário, é preciso a gente tomar uma atitude permanente de juiz

E em relação com as coisas de fora, meu filho, é preciso a gente tomar uma atitude permanente de juiz. Não tem remédio. Há pouco passou um som por aí, um som horrível, um ruído evidente que faz parte do hino cacofônico da Revolução industrial. Passou aí, nós não teríamos o direito de deixar passar sem prestar atenção.

Então, diante desses ruídos, ou dessas cores, ou destes sabores, ou perfumes, ou seja o que for, nós estamos em condições de dizer qual é o estado de espírito que está ligado a isso, e recusar este estado de espírito? Essa é a questão. Mas fazendo isto como coisa de vida espiritual. Porque se for tirado a vida espiritual isso não tem nada, morreu.

Por exemplo, uma coisa que eu considero muito frisante aqui, é no livro da nobreza aquela coroa que tem na contracapa. Não sei se prestaram atenção naquela coroa.

(Sr. P. Roberto: A de Portugal.)

A de Portugal. A seu modo, a coroa por excelência é aquela coroa dos Habsburgs, que eu mostrei. Mas num outro sentido minor da palavra, é a coroa dos reis de Portugal.

É uma coroa de uma elegância… Não sei, aquelas formas daquela coroa… a gente tem a impressão que aquela coroa é como pessoa que fala e que está continuamente dizendo alguma coisa, comunicando alguma coisa, etc.

Agora, pergunta: “Diante daquela coroa nós temos resistência para, por exemplo, mandar tirar uma fotografia daquela coroa — a fotografia não da coroa como ela está em Portugal, mas como ela está na contracapa do livro — e ter diante de nós como quem teria, por exemplo, uma fotografia de um santo?”

É uma coisa muito boa, mas até onde leva?

(Sr. G. Larraín: Solidão completa.)

Solidão completa.

(Sr. G. Larraín: Isso se sente muito, que o Sr. disse no outro dia, e é uma coisa que é impressionante. Se trata de intercâmbio entre nós, mas sobretudo o Sr. disse que nós devíamos ter a coragem de ficar sozinhos com o Sr. […] O Sr. faz um convite a essa solidão, e aí fica unido com o Sr. mesmo.)

Exatamente.

Eu vou mostrar a vocês quantos cuidados essas coisas pedem.

* Uma solidão que é muito entristecedora e muito nobilitante, mas que, em certos momentos, se transforma numa moleza romântica, e é preciso saber resistir

Você está falando da solidão. Essa solidão é muito entristecedora, mas ela é muito nobilitante. Mas entra qualquer coisa nela, em certos momentos, em que ela se transforma numa moleza romântica, e é preciso saber resistir.

(Sr. Poli: É a crítica que o Sr. estava falando há pouco, não é?)

Exatamente.

(Sr. Poli: Implacável.)

Tem que ser implacável.

Então eu me lembro que foi em certo momento de minha adolescência, se eu não me engano, que entrou o negócio daquela música do luar do sertão. Coincidiu com o período em que a lua estava chamando muito a minha atenção, enquanto um ser que sugeria estados de espírito muito elevados, muito diferentes da Revolução Industrial e muito “ajudadores” de reagir contra ela, em que eu, tendo ocasião, às vezes ficava só olhando para a lua.

* O efeito emoliente que produzia sobre o SDP, ainda jovem, a música “Luar do Sertão”

Quando veio aquela história “quando a lua nasce por detrás da verde mata, até parece um sol de prata a brilhar na solidão”… Eu nem preciso comentar, porque vocês estão rindo.

(Sr. G. Larraín: Aquilo fala muito, é muito “dicedor”.)

Pois é.

A música, o tom e as palavras vão acumulando uma espécie de sensação de solidão, de tristeza, que se descarrega toda quando a palavra “solidão” entra inesperadamente em cena. A gente tem a impressão que fica todo banhado por aquele luar, todo transparente [por] aquele luar, como que se admirando a si próprio banhado neste lugar, achando gostosa uma certa moleza melancólica e romântica, dentro da qual a gente pode descansar duas horas folgadamente.



Eu comecei a me deixar levar por essa impressão enquanto me chamava a atenção como isso me levava a detestar o mundo mecânico. O mundo mecânico que estava começando a se afirmar naquele período de minha vida e que, portanto, me chamava muito a atenção.

Em certo momento eu percebi que era quase que uma contra-revolução industrial — não é a Contra-Revolução —, que parecia, pelo extremo oposto, ser o contrário da Revolução Industrial verdadeira. Era um efeito paralelo e reforçante.

(Sr. G. Larraín: Era reforçante para o Sr.?)

Reforçante da Revolução Industrial.

(Sr. P. Roberto: Efeito emoliente.)

Emoliente.

(Sr. P. Henrique: Ela jogava em dois fronts, não é?)

Isso, jogava em dois fronts.

(Sr. P. Henrique: Quem não embarcasse por uma ela pegaria por outra.)

Razão pela qual aquela música também foi propagandeada. Isso vocês viram.

(Sr. P. Henrique: Até hoje.)

Até hoje. Eu tenho certeza que em casa de disco hoje em dia ainda se encontra o disco.

Encontra, não é?

(Sr. P. Henrique: Ontem estava jantando no Sagres e estava ouvindo a todo o volume, num bar que existe em frente, essa música. Quer dizer que se toca ainda.)

Toca-se. E eu acho que mais ou menos todo o brasileiro tem isso no ouvido.

(Sr. Guerreiro: Em matéria de música do interior é clássico isso.)

É clássico, não é?

(Sr. Guerreiro: É das músicas mais geniais, digamos, que existem é essa.)

* Em determinado momento houve uma onda de músicas que envolveram a sentimentalidade popular

Eu me lembro que houve uma ofensiva musical nesse sentido. Então havia uma outra música que era assim, é um fundo fassur: “Tu não te lembras da casinha pequenina…”

Você ouviu aquilo?

(Sr. Guerreiro: É muito sentimental.)

Muito sentimental. E no fundo era uma história do marido ou da mulher que rompeu com a outra parte e que censura a outra parte por ter abandonado a casinha pequenina, onde ficou só o cônjuge fiel, fosse homem ou fosse mulher. Em certo momento então canta: “Tu não te lembras da casinha pequenina…”, repete: “Ai! tu não te lembras da casinha pequenina”.

Lembra-se da operação quando fala da solidão no luar do sertão?

(Sr. Guerreiro: Sim.)

Esse efeito é produzido por outra coisa: “Tinha um coqueiro ao lado, que ai de mim, pobre coitado, de saudades já morreu!”.

Então a casinha pequenina tinha um coqueiro, e de saudades do cônjuge que tinha ido embora o coqueiro tinha secado. Era a saudade que ele ou ela tinha do que foi embora.

Mas não sei se vocês percebem que a casinha que ficou, no fundo exposta ao luar do sertão e na solidão, tinha uma analogia, um coisa, com o luar do sertão.

Assim [houve] uma onda de músicas que envolveram a sentimentalidade popular. E essa casinha pequenina, essas coisas assim, é capaz de ainda se encontrar em casa de discos.

(Sr. Horácio: O lampião de gás também.)

(Sr. Guerreiro: O lampião de gás é menos revolucionário, digamos, não é?)

É menos revolucionário, mas é todo ele nessa linha.

A questão é o seguinte: antes da revolução da eletricidade houve a revolução do gás, e é diferente das ruas sem iluminação da arqui-antiga São Paulinho.

De fato o lampião de gás é cheio de coisas dessas: uma árvore que tinha na Rua da Graça, que era uma árvore… Nem sei onde é a Rua da Graça. Eu tenho idéia para que lado fica da Liberdade.

Mas você tem razão, com temática menos arcaica é a mesma coisa.

* Um gênero de música que também tem um enorme efeito emoliente é o tango

(Sr. G. Larraín: O tango também tem muito disso.)

Muitíssimo, muitíssimo.

O engraçado é o seguinte: é que a figura do cantor do tango eu não conhecia, e outro dia numa revista, “Point de Vue” ou uma dessas coisas, tem a fotografia de página inteira do cantor do tango por excelência, que é o Carlos Gardel.

Era um presuntão tão diferente do que se poderia imaginar do que ele cantava, que é uma coisa incrível. Era um sujeito gordão, de rosto cheio, com essa distância aqui muito pronunciada, depois fechava um pouco prematuramente aqui, louro e bem claro. Deveria ter uma antecedência racial européia, mas dos povos louros.

Dizia completamente o contrário do que ele cantava, que [eram] as coisas argentinas repassadas muitas vezes, meu filho, de uma melancolia não tão saudável, não é?

(Sr. Horácio: É horrível. Pelo menos isso não me podem acusar: sempre abominei o tango.)

(…)

(Sr. Guerreiro: Essa melancolia, como a modernidade exprimiu, é uma coisa emoliente e no fundo liquida com a pessoa.)

Sim.

(Sr. Guerreiro: Mas não como a melancolia está expressa modernamente. Porque há qualquer coisa na melancolia que é o cântico da tristeza de algo muito bom que a pessoa perdeu, ou de algo muito bom que a pessoa deseja e deseja, que não consegue obter de momento mas que ela sabe que existe. Isso não faz a alma transcender, no fundo, do concreto, do banal, e não desperta uma certa aspiração de algo mais sublime do que o prosaísmo da vida cotidiana e material?)

É, como o “Luar do sertão” também, meu filho. Quer dizer, faz transcender, mas chama para outro lado.

Você poderá me dizer: “Mas não é melhor cair nesse excesso do que no excesso mecânico?”

Eu digo: “É, mas a nossa obrigação é de nos salvarmos”.

Meus filhos, o que é que eu posso fazer…

(Sr. Guerreiro: É maravilhoso. Uma coisa maravilhosa é que há algumas capelas em que se nota muito o Santíssimo, mas o efeito é muito parecido à presença do Sr. nestes imponderáveis assim de uma quietude, de um contra-eflúvio-revolucionário que é uma coisa impressionante. Há certas capelas do grupo — por exemplo, a de São Bento quando não tem ninguém — em que se sente que o Santíssimo… o Sr. tem o imponderável de Nosso Senhor, é uma coisa impressionante.)

Eu vi numa capela — capela é boazinha, mas não é tanto assim — uma coisa escrita em torno do Santíssimo: “Magister adest, et vocat te”, que foi um recado que Marta ou a Maria mandou, etc. “O Mestre está e manda-te chamar”.

Dizia respeito ao Santíssimo que está presente e chama a alma fiel, que completava muito bem essa atmosfera do Santíssimo.

(Sr. G. Larraín: Era Santa Cecília isso.)

Santa Cecília, exatamente.

Boa memória, meu Gonzalo.

Benedictio…

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