Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 22/5/93 – Sábado – p. 19 de 19

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 22/5/93 — Sábado

No ambiente em que a presença do homem não se impõe como nota dominante, torna-se mais visível o plano de Deus em relação a ele * A degradação de Adão e Eva fez estremecer e diminuir de beleza o Paraíso inteiro, do qual haviam sido reis * O progresso, ainda que dirigido em favor do homem, é deformado pelo mesmo homem em estado de pecado, e, por isso, traz vantagens aparentes, mas na realidade ele arruína * Na Sala do Reino de Maria se espelham muitas qualidades dos homens que quando a fizeram estavam respondendo à graça, a qual paira sempre ali dentro: a sala é um sonho realizado * Arranha-céus e aeroporto na São Paulo antiga: o “bluff” do útil aparecendo como um triunfador sobre o belo era a glorificação da feiúra * Um torreão denunciando a Revolução Industrial seria um contrachoque num front da Contra-Revolução inteiramente desguarnecido * Para contrariar os maus hábitos do progresso, a Igreja precisa aparecer em seu aspecto militante, como o SDP sempre procurou e conseguiu realizar

(Sr. Gonzalo: [Um rápido resumo da CSN anterior] A primeira pergunta é: quais são os agentes que ajudam o mantenedor a sustentar isso de pé. Segundo, até onde pode ir a manutenção dessa situação assim. Terceiro, uma vez cessado isso, o que vai acontecer no mundo. [Continua o resumo da reunião anterior] Não sei se está claro.)

Está, está muito claro.

* No ambiente em que a presença do homem não se impõe como nota dominante, torna-se mais visível o plano de Deus em relação a ele. Exemplificando com a Ilha Fernando de Noronha

Hoje, na hora do almoço, tratou-se de algo que sem tocar nisto, entretanto tem uma relação profunda com isso. Até abre campo para coisas especiais, etc., sobre as quais para se ter uma idéia exata, inclusive no Reino de Maria, é muito importante a gente ir fixando desde logo os pontos cardeais do assunto, pelo menos. Que é o seguinte.

Se você tomar, por exemplo, um lugar onde o homem nunca esteve. Vamos dizer, por exemplo, a Ilha Fernando de Noronha antes de ser habitada pelos homens. É certo que é uma ilha relativamente pequena, é certo que ali nunca estiveram homens morando estavelmente e fazendo ali sua residência. Pode ter sido que navios, de passagem, tivessem parado ali para pegar água, para pegar bichos para comer, etc. Então passam alguns dias, se quiser pode passar um mês lá para pescar, etc., mas depois passam e aquilo volta à sua ordem natural.

Você pode imaginar que a ilha assim não habitada, tem uma situação de harmonia, de agrado, de ao mesmo tempo contraste entre a terra firme e o alto mar, de maneira que você tem uma terra firme, mas que é por assim dizer uma aldeia dentro do alto mar, como seria por exemplo, uma aldeia dentro do campo, dentro do mato; a atmosfera toda seria de alto mar. Mas com um pouquinho da atmosfera da terra. Pode-se imaginar que isto fosse muito aprazível, e que pessoas de passagem por lá sentissem muito agrado em ficar lá um certo tempo. Mas que essas pessoas não tivessem agrado em ficar lá muito tempo. Sobretudo ficando lá um número apreciável de pessoas durante muito tempo, alguma coisa ali caísse no errado.

Se vocês chegassem àquela ilha no momento em que ela estava desimpedida dos efeitos dos últimos homens que tivessem estado ali, se é que homens ali tinham estado, e tivesse a natureza em estado puro, você teria um deleite especial com aquilo e não teria dificuldade em admitir que havia uma ordem posta ali por Deus com a sabedoria e bondade divinas, muito agradável, especialmente privilegiada por Deus e que você poderia apreciar ali o que se poderia chamar propriamente a ordem natural. De tal maneira que se ali se estabelecesse uma cidadezinha, ou mesmo uma aldeia de pescadores, mas duravelmente com o homem morando lá, na ilha propriamente dita — eu não digo na atmosfera marítima circunjacente — mas na ilha propriamente dita, qualquer coisa ficava prejudicada, embora o panorama não ficasse prejudicado em nada, nem o ar circulando a toda hora e de todo lado também, não ficaria prejudicado, mas alguma coisa ficaria prejudicado.

Donde se poderia eventualmente — mas note muito a palavra eventualmente — poder-se-ia tirar a conclusão de que a presença do homem quebra alguma coisa da atmosfera habitual, e que a coisa inabitada ou habitada por tão pouca gente e a presença do homem não tem força suficiente para se impor como nota dominante do ambiente, que ali você vê em algo o plano de Deus, e que esse plano é menos visível na medida em que o número de homens que estão lá se acentua.

* Por outro lado, seria próprio do homem, como rei da criação, embelezar a natureza ao seu redor

Isso parece uma contradição, porque sendo o homem o rei da natureza, só se pode admitir que a presença dele valorize a natureza, que torne a natureza mais agradável, torne a coisa mais interessante. Vamos dizer que a natureza do homem transformasse aquilo tudo num jardim, pela presença do homem e que com isso não só então a simples presença — vou eu acrescentar agora — mas o agir do homem, o fato de que ele constrói, o fato de que ele adapta quereres seus, por exemplo constrói num ponto bonito uma casinha pequena de mero repouso, numa outra ponta da ilha, e onde ele vai ter as delícias da variedade de panorama, etc., etc., e construindo ali, ele põe um jardim, faz uma plantação… beneficia o lugar com a ação dele, homem, que ele valoriza e que a Ilha Fernando de Noronha lucraria em ser habitada dessa maneira pelo homem, porque ela foi habitada pelo rei.

Aqui começa a necessidade de distinguir. Pode-se compreender que o homem fazendo uso da inteligência que Deus lhe deu e de uma certa capacidade de transformar o ambiente que Deus lhe deu, que o homem de fato melhore senão o total da ilha, melhore pelo menos vários aspectos da ilha e que ela lucre, fique mais agradável, mais bonita, etc., etc. É uma coisa que se pode compreender.

Pode até compreender que a presença do homem dê à ilha um certo charme mesmo quando o homem não esteja visível lá. Vamos dizer, por exemplo, que haja à uma pequena distância do mar, um bosque, mas um bosque que não é o bosque tropical com aquela superabundância de presença de vegetação que o indivíduo não pode pôr um pé no chão sem esmagar uma folha, ou sem esmagar uma flor que caiu, ou sem esmagar um bicho no caso de ser não vegetação mas fauna, etc.

Mas pode-se admitir que o homem, agindo intencionalmente, construa num bosque pouco denso, uma alameda bonita, com um serpentear interessante, no qual serpentear eles às vezes toque, por exemplo, num rochedo do alto do qual se vê um barranco e lá no fundo tem o mar. Ou então noutro lugar ele toca num rochedo muito alto, que sobe para onde o homem pode ter uma vista maior, etc., e que a presença dela embeleze vários pontos da ilha.

* Dependendo do seu gênero e estilo, o homem, pela sua simples presença, pode tornar agradável um lugar

Mas, há mais do que isso. A gente pode admitir que sendo homens de um certo gênero, de um certo estilo, a simples presença deles torne agradável o lugar. Já a alameda construída pelo homem e o serpentear do lugar, confere a ela uma certa graça. Já uma árvore plantada pelo homem num certo ponto dá a idéia de qual foi a intenção do homem, qual é o espírito dele, com que mentalidade ele esteve ali, pode ser um homem que até já tenha morrido, pode ser até que o tenham enterrado ao pé de um cedro, por exemplo, muito bonito, e que se saiba que ali tem um homem que morreu, mas que plantou alguns cedros na ilha, e a ilha, até alguns gostariam de chamar a ilha dos cedros, etc., etc.. Tudo isso vai dando à ilha hipotética um certo charme da presença do homem, e o homem, portanto, acrescentou alguma coisa de positivo à ilha.

* Concebido no pecado original, o homem é um rei destemperado

Mas acontece que o fato de o homem trazer isto consigo, e a própria atmosfera da ilha ser bem impregnada pela ação de presença dele, isso traz consigo um conforme: que ele é o rei da ilha, mas ele é um rei que está para o que seria o rei, como uma xícara rachada está para o que ela seria se não fosse rachada. Porque ele é concebido no pecado original. Ele tem, portanto, destemperos, ele, às vezes, quer coisas em número maior do que deveria querer; outras vezes ele relaxa e não aproveita as coisas que deveria aproveitar; em outras vezes ele tem mau gosto e deteriora alguma coisa que era melhor que ele não mexesse. De maneira que ao mesmo tempo se pode admitir uma valorização da ilha pela presença do homem, e uma desvalorização da ilha pela mesma presença do homem.

(…)

do homem e desordenante, que vem junto com a ação civilizadora e embelezante. Mas vem quase indissoluvelmente junto, de tal maneira que quem visse uma ilha assim, mas sem homens, ficaria na dúvida se deveria desejar a fixação de homens ali — e note: de homens de um porte natural, não quaisquer —, se ele deveria desejar isso ou se ele não deveria desejar. E se a presença humana deteriora, valoriza ou desvaloriza as coisas.

Assim a gente vai compreendendo o que é que precisa haver para que um panorama se desenvolva agradavelmente e convenientemente para o homem, como é que ele deve ser.

(Sr. Gonzalo: Como deve ser o panorama ou o homem?)

Como deve ser o homem.

* A degradação de Adão e Eva fez estremecer e diminuir de beleza o Paraíso inteiro, do qual haviam sido reis

Então a gente deve dizer que quando Adão e Eva saíram do Paraíso, houve uma tristeza no Paraíso, e talvez uma tristeza na natureza, porque o rei e a rainha tinham sido conspurcados. Eles que eram o adorno fundamental daquilo tinham sido degradados, e que essa degradação fez estremecer o Paraíso inteiro, ele todo ficou menos belo. E alguma coisa ficou nesta soma de fatores que nós chamaríamos ambiente, ficou qualquer coisa marcada pelo pecado original que ali se cometeu.

E que de outro lado, entretanto, alguma coisa que Adão e Eva tenham deixado de bonito por ali, tenham deixado uma idéia de como seria o Paraíso se o homem tivesse sempre agido bem nele e levantado a idéia de uma perfeição paradisíaca do Paraíso que era resultado da presença do homem.

(Sr. Gonzalo: Que era o plano de Deus.)

Era o plano de Deus.

* Superior idéia de um ambiente condicionado pelo homem, ter-se-ia vendo o Paraíso onde se misturam os vestígios da presença de Adão, a cólera e a misericórdia de Deus

De maneira que havia um misto, depois do homem ter passado lá e o anjo ter ficado tomando conta do Paraíso de maneira que ninguém pudesse entrar, ter ficado alguma coisa, onde até a presença do anjo como presença da cólera de Deus, da cólera chama, da cólera fogo de Deus, o esplendor da majestade de Deus por meio de um ser de altas qualidades como um anjo posto ali até o oposto, quer dizer, a hora da misericórdia em que o Padre Eterno fez uma roupa para Adão andar e as coisas assim, tudo ali se celebrasse e se rememorasse de algum modo.

No total, no total, fosse muito complexo fixar a nota dominante de tantos fatores presentes ali. Fatores do passado e fatores do presente, porque o presente não é senão uma evolução do passado. Fatores do futuro porque é para o futuro que aquilo caminha. O conjunto todo de elementos cercando aquilo, que já não é a Ilha Fernando de Noronha, mas que completam um pouco a idéia que eu quis dar de ambiente e de ambiente condicionado pelo homem, e sobretudo o plano de Deus a respeito daquilo, ficasse com uma determinada idéia.

Agora, é engraçado o seguinte, que isso são coisas que a mim, por exemplo, conversar com vocês sobre isso me distrai…

(Sr. P. Roberto: Para nós é paradisíaco.)

Eu acho que sim, para nós é.

* Para mostrar como o homem pode ser o rei metafísico de certo ambiente, o SDP conta um sonho que teve, no qual ele se encontra na Ilha Fernando de Noronha com um conhecido

Eu vou contar um caso que eu não posso contar inteiro.

Eu tive um sonho a respeito de uma pessoa que morreu, essa pessoa era uma pessoa que tinha muitos defeitos morais, mas que ao mesmo tempo era uma pessoa que tinha, a par dos defeitos morais, por espantoso que fosse, uma espécie de inocência pela qual a pessoa não chegava a ter uma idéia inteira, era mais ou menos como uma criançona que não chegava a ter idéia inteira da moral, e que por causa disso, algumas coisas que fez, não era de se lhe imputar inteiramente. Ele era uma pessoa com quem eu me preocupava muito pouco.

Uma noite eu tive um sonho, que eu me encontrei com essa pessoa na Ilha Fernando de Noronha, onde eu nunca estive. Eu creio que vi uma fotografia da Ilha Fernando de Noronha, mas também ficou nisso. E nem era uma fotografia muito bonita, tinha um pãozinho-de-açúcar pequeno e depois o resto era umas montanhas, uma coisa assim. Mas que havia uma casa, uma construção de emergência tipo residências de oficiais, e neles estaria essa pessoa que morreu. Essa pessoa não era nada militarista, mas o menos militarista que se possa ser, era pacifista o quanto se possa ser. Que a pessoa se encontrou lá mas numa atmosfera deliciosa, residindo nesse cassino de oficiais com uma atmosfera de mar entrando por todo lado, o mar batendo perto, mas aquilo ficava no alto do rochedo, e os rochedos não chegavam a ser atingidos, mas era um mar limpidíssimo, uma verdadeira beleza.

E a pessoa me viu e caminhou de encontro a mim com espírito muito acolhedor e brincando um pouco comigo, e me abraçando muito — essa pessoa era muito seca — e assim várias vezes e pegando assim pelos braços, etc., e dando risada. Mas um riso que não era um riso de debique nem nada, era um riso de transbordamento de alegria. E sem dizer, exprimia o seguinte: você está vendo rapaz, eu afinal de contas estou num lugar super delicioso — também não estava mencionado Deus, mas a idéia estava — Deus me deu esse lugar aqui, e no fundo, divertindo-se: você deve estar espantado de eu ainda com todos os meus defeitos ter obtido um lugar tão bom.

(Sr. Gonzalo: O personagem está mais ou menos definido.)

Não, eu acho que vocês não atinam quem é a pessoa.

(Sr. Gonzalo: Nós já conversamos sobre esse personagem…)

Eu já contei tudo isso a vocês?

(Sr. Gonzalo: Não, não, uma vez o senhor contou um pouquinho, mas não todo o caso.)

Mas espere um pouquinho, não é um morto que entrou dentro do meu…

(Cel. Poli: O senhor deu outro aspecto, deu um aspecto que o senhor não contou agora.)

(Sr. P. Roberto: Acho que o senhor não falou da Ilha de Fernando de Noronha no outro caso.)

(Sr. Gonzalo: É interessantíssimo.)

Bem, eu fico com medo de prosseguir e de…

(Sr. Gonzalo: Nós já sabemos.)

Bem, vamos dizer isto assim: a presença da pessoa dava um sentido humanocêntrico àquelas belezas todas, porque não apareceu nenhum oficial, não apareceu nada, para ver era só ele. E onde se compreendia, uma pessoa assim tão poca, como rei da Ilha Fernando de Noronha. Não rei político, rei metafísico da Ilha Fernando de Noronha. E o que é o todo da presença de um homem no meio da natureza quando não há entrechoque entre o homem e a natureza. O realce para o homem e o realce para a natureza.

Quando se estuda o progresso de uma Sãopaulinho, os dados que eu dei ajudam um pouco para compreender o que é que eu quis dizer na reunião passada, em que eu não cheguei a me exprimir por inteiro, mas que dava alguma coisa. E nessa atmosfera, nesse tônus todo, eu me lembro que eu fiquei meio desapontado no sonho em relação ao meu interlocutor, e também que um certo repúdio que eu tinha a defeitos do meu interlocutor se acentuavam e enregelaram um pouco… eu não queria ficar tão amigo dele quanto ele estava pondo. E eu pus assim uma certa distância, mas uma distância amável, cordial, uma coisa bondosa. Mas quand même, olha aqui allegro ma no tropo.

* O progresso, ainda que dirigido em favor do homem, é deformado pelo mesmo homem em estado de pecado, e, por isso, traz vantagens aparentes, mas na realidade ele arruína

Aqui nasce um problema que é o seguinte: o problema do progresso. Serve para a gente definir nos devidos termos o que é o progresso e o problema que o progresso põe, mas tomando a palavra progresso no sentido em que ele era tomado quando eu era pequeno, mas no sentido que ficou mais ou menos até o fim da Segunda Guerra Mundial. Quer dizer, um movimento ascensional de tudo quanto cerca o homem, e, portanto, também da natureza, continuamente para o melhor, para o mais agradável, para o mais humano, se quiser para o mais paradisíaco. Mas um paradisíaco concebido a la progresso técnico, a la progresso humano, a la progresso tout court.

(Sr. Gonzalo: A la Populorum progresso.)

A la Populorum progresso, perfeitamente.

E como é mais ou menos inevitável que o homem progredindo muito obtenha da natureza vantagens muito grandes, embeleze em algo a natureza, mas de outro lado a conspurque e a desordene ainda que a intenção dele não seja essa.

(Sr. Gonzalo: Mas daí não se conclui que não deva progredir.)

Eu já chego ao ponto. Então o progresso considerado em função de sua estaca zero, se poderia ver da seguinte maneira: não tanto como um melhoramento do meio ambiente e do ambiente todo, mas melhoramento em função do homem, alguma coisa que faça sobretudo, convide o homem a melhorar, convide o homem a ser mais ele mesmo, e mais homem, convide para uma plenitude da natureza humana, e quando a natureza humana suba no seu conjunto, ela traga outro conjunto de fatores muito mais positivo do que negativos. E que apesar de algo de negativo, o progresso de fato represente então uma vantagem grande.

(Sr. Gonzalo: O progresso aí não é o progresso revolucionário.)

O progresso que a revolução industrial trouxe.

Quer dizer, o progresso resultado da plena aplicação das aptidões do homem à natureza para que ela lhe sirva mais.

(Sr. Gonzalo: Por que o senhor disse que é o progresso que a revolução industrial trouxe? Não poderia haver um progresso que não fosse fruto da revolução industrial?)

Aqui é que está a questão. É que nessa concepção toda que eu dei, acaba sendo o seguinte: que se a maior parte dos homens não vivem em estado de graça, ele necessariamente por mais que invente, ele acaba fazendo coisas mal feitas, e, portanto, prejudique. E, portanto, parece progresso debaixo de alguns pontos de vista, e o é, por exemplo, vamos dizer certos progressos da medicina que conferem a possibilidade de curar doenças, prolongar a vida, etc., etc., inegavelmente pode ser um progresso. Mas esse progresso visto assim, somados aos fatores negativos que ele traz, porque ele é dirigido em favor do homem que está em pecado, e é deformado por isto pelo homem, esse progresso na aparência traz vantagens muito grandes, mas na realidade ele arruína. E quanto mais ele fica grande, tanto mais os fatores negativos pesam. E tanto mais esse progresso é ruim.

(Sr. Gonzalo: Não se escapa dele.)

Não se escapa dele. Entrou, não se escapa.

E por causa disso, a gente percebe assim em oblíquo, que a série de progressos feitos mais ou menos a partir da Revolução Francesa com o balão, com o vapor, com o raio e umas outras coisas assim, que apareceram numa espécie de simultaneidade meio suspeita, que esse progresso imprimiu a certos acontecimentos humanos, inclusive descobrimentos e invenções, imprimiu uma velocidade, uma celeridade e uma artificialidade, que deformaram a vida do homem.

E tudo isso, meu filho, coisas que ninguém gosta de conversar.

* A Revolução e o progresso se colaram

(Sr. P. Roberto: Os “valores” Liberté, egalité e fraternité ficaram como que uma coisa só com…)

Com o progresso, colado no progresso. A Revolução e o progresso se colaram, de maneira que todas as revoluções trouxeram progressos e todos os progressos trouxeram revoluções. E é por isso que se fala em revolução industrial. Quer dizer, é a adaptação do ambiente para a Revolução, e a adaptação da Revolução para o ambiente, formando um todo só. A revolução industrial é isso.

* De agrícola que era, São Paulo passou a ser uma cidade colada na Revolução Industrial

São Paulo passou a ser da Sãopaulinha preponderantemente agrícola, uma cidade colada na revolução industrial e que estava para a revolução industrial como um carneiro sobre o qual pousa uma águia, pega nas lãs do carneiro, etc., com as garras, suspende, voa alto, volta alto, voa alto com o carneiro, o carneiro vê coisas que ele nunca pensava em ter visto, mas ele não tem um momento em que o seu coração não bata depressa demais, porque ele está transplantado para alturas e para coisas que não são para ele.

Vocês acham pessimista esta visão?

(Sr. Gonzalo: Extraordinário.)

* O progresso é um grande bem que traz males maiores do que ele

A verdade é… me parece que é assim a coisa, e que por falta de ver a coisa com essas variedades de aspectos, a pessoa naufraga na apreciação do progresso. Porque a pessoa procura: é um bem ou é um mal absolutamente falando? E a resposta é? É um grande bem que traz males maiores do que ele.

(Sr. Gonzalo: Sobretudo que há um lado, que é o lado por onde seria trabalhada a natureza, um país de acordo com o plano de Deus e que também não se sabe o que pode dar do lado bom. Porque pode dar numa coisa fabulosíssima.)

Ah pode, pode! E vou dizer mais. Isso tudo que estou dizendo é indissociável da idéia do Reino de Maria.

(Sr. Gonzalo: E do profetismo também, porque como guiar isso?)

Como guiar isso.

(Sr. Gonzalo: Quem é a pessoa que vai determinar qual é o rumo que homem pode dar a si mesmo e às suas construções que não rompa o plano de Deus nessa ilha. É uma coisa que requer o discernimento dos espírito muito grande e e que está muito ligado ao profetismo.)

Eu posso tratar logo mais, mas não está na visão muito imediata que eu tenho que considerar.

* Há um progresso que é filho do homem pecador

Então nós vemos uma cidade dominada pelo ambiente agrícola em que o progresso vai destruindo uma porção de coisas da natureza com as quais ele é incompatível e construindo uma série de pseudo delícias, que são delícias nas quais o homem julga refocilar de alegria, mas nas quais de fato o homem está perdendo.

E nós vemos então que há um progresso que é um falso progresso, que é filho do homem pecador, logo do pecado que há no homem, e que é do pecado original, mas é também dos pecados atuais que os homens podem ir acumulando e que se multiplicam como que por si mesmo, independente da colaboração do homem, quando o progresso é fruto do pecado.

* Em Paris, uma ilha urbanística dá ao homem vontade do paradisíaco terreno, que ele nunca alcançará: a vida dele fica meio cambaia por causa disso

Vamos dizer, por exemplo, o seguinte: há uma ilha no Bois de Boulonge, em Paris — o nome da ilha me vem logo à cabeça — é uma ilha artificial, ilha urbanística, é um braço do Sena que corre por lá, qualquer coisa assim —, que tem dentro um pavilhão que é um salão de festa com duas ou três salas pequenas para fins vários e com uma plantação de árvores e coisas dessas muito suaves, próprias ao panorama parisiense e à beleza parisiense, mas que no fundo vocês examinando, percebem que é um lugar propriamente delicioso, mas que tem este ponto: que quando você sai daquela ilha e entra em terra firme, você percebe tudo aquilo que a terra firme deveria ter e não tem. A ilha é uma espécie de errata da terra firme. E quando o indivíduo sai da ilha, sai com uma inadaptação que lhe dá uma vontade de um paradisíaco terreno que ele não terá, e toda vida dele fica meio cambaia por causa disso. Fica assim e não adianta.

(Sr. Gonzalo: E foi feito com essa intenção.)

Foi feito com essa intenção. É uma coisa revolucionária.

(Sr. P. Roberto: É a diferença entre a utopia e um progresso verdadeiro.)

Extraordinariamente, aqui é uma utopia realizada. Então eles dão bailes ali, etc. Você pode imaginar bem, ainda mais em Paris, quanta adaptação feliz isto tem, quanto coisa fazem, mas também quanto mal se pratica ali.

* Na Sala do Reino de Maria se espelham muitas qualidades dos homens que quando a fizeram estavam respondendo à graça, a qual paira sempre ali dentro: a sala é um sonho realizado

(Sr. Gonzalo: Qual é a diferença entre isso e um lugar excelente e que tire o homem do contexto de Paris, como La Saint Chapelle ou um lugar de ordem temporal…)

Luxembourg.

(Sr. Gonzalo: Que de algum modo tire a pessoa, e quando a pessoa sai esse fenômeno não se produz. Ou para fazer uma comparação mais ao alcance nosso, a Sala do Reino de Maria. A sala do Reino de Maria está para a sede, como a sede está para a rua. […] Por que isso?)

Porque na sala do Reino de Maria se espelham muitas qualidades dos homens que quando a fizeram estavam respondendo à graça. E como uma espécie de prêmio de ter sido feito a sala, a graça paira sempre ali dentro. E por causa disto ela traz qualquer coisa de celeste que é toda especial, e cuja diferença a gente já sente quando sai da sala e passa para o corredor… [vira a fita]

(Sr. Gonzalo: … não obstante não fica com esse desencontro que fica o homem que sai da ilha no Bois de Boulogne…)

É porque a sala do Reino de Maria, não é, como dizia o Paulo Roberto, não é uma utopia, é um sonho, um sonho realizado. A ilha do Bois de Boulogne é uma utopia realizada. É diferente. Utopia é um desejo de uma felicidade que tem um certo descompasso com o homem no pecado original.

(Sr. Gonzalo: Há algo de desajustado, e a sala do Reino de Maria é tudo ordenado.)

Ordenado. Vamos dizer assim — é prosaica a comparação — mas a sala do Reino de Maria é como um sapato ortopédico para o pé torto. O pé entra lá e se sente à vontade.

O Bois de Boulogne não, é como um sapato ordenado mas que tem um pouquinho de tóxico naquilo, e o pé tem uma delícia tóxica que é diferente.

(Sr. Gonzalo: Muito obrigado.)

Não, isso é preciso ter as idéias realmente muito retas, porque do contrário forma uma neblina e o indivíduo não…

* Esta reunião, que entra com vinte anos de atraso, nos prepara para a Bagarre

(Cel. Poli: Essa reunião está sendo uma luz sobre todos esses assuntos. Uma luz de precisão, de definição…)

E muito agradável para o espírito.

(Sr. P. Roberto: Essa é a atmosfera a que nós deveríamos corresponder…)

Deveriam corresponder. E em parte a incorrespondência que nós temos é porque nós não tivemos o que eu estou dizendo. Uma reunião dessa está entrando com vinte anos de atraso, mas é uma reunião que deveria entrar para nós, inclusive, sermos capazes de enfrentar a Bagarre. A própria coragem durante a Bagarre se clarifica e toma mais jeito quando a pessoa se joga assim nessa linha, corajosamente e com clareza, sabendo que é, por que é que é, por que é que não é, etc. Propriamente, propriamente uma reunião dessas precisaria ter duas ou três reuniões, pelo menos, para ser útil.

(Sr. Gonzalo: Amanhã e segunda.)

Ah, ah, ah!

* Outro exemplo: A pastilheira de ágata é mais uma obra-prima pela amolação que evita do que pelo prazer que traz

Então, tocando para frente, acontece o seguinte. Vamos tomar a mais simples das coisas. Tomam uma dessas caixinhas onde se guardam remédios, caixinhas ornamentais que a gente põe no bolso, etc. As caixinhas se são bonitas como são algumas feitas na Serra da Piedade, com ágata, etc., etc., essas caixinhas podem ser muito bonitinhas. Elas são pequenas obras-primas do progresso, porque elas são pequenas obras de arte — é preciso não exagerar nada — mas elas são muito engraçadinhas, muito agradáveis, fazem ver uma pedra que não se encontra no chão a toda hora, não é uma pedra preciosa, mas não é um pedregulho qualquer de moleque na rua. Depois, em segundo lugar, elas têm um fim útil: guardar remédios que são úteis para o prolongamento da vida do homem, ou ao menos de seu bem-estar. E se adequam a isso muito bem. Elas são pequenas, de maneira que não precisa estar com uma farmácia no bolso.

Elas fecham e abrem de um modo muito cômodo, não tem perigo de inundar os papéis de negócios que a gente tem dentro do bolso com pastilhas que estão no meio das páginas dos contratos, que são enquanto tais, deplaisantes ao último ponto. Chove, o bolso molha, a cor da pastilha impregna o papel de negócio, e outros desastres. Não pode acontecer, a caixa está estudada de maneira a isso não poder acontecer. São fáceis de abrir, mas são muito difíceis de serem abertas quando o homem não tem vontade que elas se abram. Porque é assim.

E, depois, a vontade do homem, quando ele acabou de tomar a pastilha, não pensar mais naquilo, se exprime pela facilidade com que ele aperta e aquilo fechou e ele não tem mais o que pensar naquilo. O domínio do homem sobre aquilo é completo. É uma pequeno obra-prima.

Aquela lingüeta, quando a gente abre, salta, ou ao menos fica tão frouxa que é muito fácil a gente abrir. Quando fecha, faz um pequeno plec!, assim, um ruidozinho pequeno, que é um ruidozinho agradável de ouvir. Evidentemente não é uma nota musical, mas é um “plec”, como quem diz: está liqüidado. O império do homem se manifesta. Fecha-se a caixinha, põe dentro do bolso e não tem mais amolação com ela.

Tudo isso parece tão prático e tão útil, que uma pessoa que quisesse fazer análise dessa caixinha, poderia dizer que é uma pequena obra-prima do homem civilizado.

Eu penso que vocês aceitam esta impostação, até banal.

No total há alguma coisa nessa caixinha que é tão artificial, qualquer coisa toma aquele material e o adapta tão cegamente a alguma coisa que ela tem em vista, o plec é tão plec, e tudo obedece tão escravamente ao homem, que no total aquilo é mais uma obra-prima pela amolação que evita do que pelo prazer que traz.

* Um número enorme de coisas do progresso corresponde mais ou menos à pastilheira de ágata. Por exemplo, o metrô

E um número enorme de coisas do progresso corresponde mais ou menos a isso. Por exemplo, o metrô que pode passar por debaixo de uma casa e que de vez quando, a gente estando no salão mais faustoso, se ouve um pouquinho de trepidação no salão inteiro, e a gente nota que um quadro se moveu um pouco e que uma bisavó ficou torta ou que uma almofada num sofá estufou mais, qualquer coisa assim. E que ao cabo do dia, o metrô passou doze vezes por ali, e ao cabo do dia é preciso pôr tudo em ordem. Por lá passou o progresso. Mas passou o progresso, passou a desordem.

Aquilo é progresso? O que é que é aquilo?

Aquilo cheira mal, faz trepidar as coisas, dá uma velocidade que o homem precisa toda uma adaptação para ter um controle psicológico do que está se passando, ele não se sentir arrastado loucamente dentro das entranhas da terra que são para ele lugar de não habitação. Ele chega, por exemplo, em Itaquera, onde parece que vai haver daqui a pouco o metrô. Ele toma o metrô e dez minutos depois ele está no largo da Sé. É uma velocidade vertiginosa, o homem compreende o que é que há de contrário à natureza dele, que ele percorra tão depressa uma distância tão pequena…

Mas, sobretudo, o que tem é isso: é que é contra a natureza dele percorrer tanto espaço em tão pouco tempo. E o resultado é que quando ele chega na outra extremidade, ele está de um lado inteiramente quieto, e em ordem, porque persuadiram a ele que se deixar arrepiar por isso é próprio de um camponês. E ele então faz um ato de ascese de se pôr quieto para não tomar ares de camponês. Mas, de outro lado, tudo dentro dele se arrepia.

* O homem do progresso é assediado a todo momento por coisas que lhe bradam: “não estranhe, não proteste! É ótimo!”

E a natureza dele se arrepia com cem coisas dessas que a todo momento o assediam e que urram para ele: não estranhe! Não proteste! Olha, é ótimo! É óóótimo! É óóóóóótimo!

(Sr. Gonzalo: Aí não tem trabalho escravo.)

Não tem trabalho escravo.

Por exemplo….

(….)

veja que comodidade te traz o progresso. Você sem sair do sofá onde você despacha toda noite, você fez andar os assuntos da causa de Nossa Senhora, em três capitais, ou três cidades de modo inteiramente diferente.

Na realidade, por algum aspecto isto é verdade, mas é verdade que me meti numa tortura.

(Sr. Paulo Henrique: Imperativa.)

Imperativa, porque o rapaz que está lá, ele só fala uma vez por mês no telefone internacional e é comigo, para ele isso é longamente ansiado, para mim é longamente fugido, porque eu tenho que falar com vários. São meus filhos, eu os quero muito, etc., mas é das coisas: vai pegar um pai que está trabalhando durante a noite e entra um filhinho que acorda com insônia e que “pai, pai, pai! papapapa!” Não vai.

* Em sua mocidade, o SDP sentiu a superposição de impressões, fruto do progresso

Agora, vocês componham tudo isso. A sensação que tinha por exemplo — os assuntos gastronômicas entram sempre nas minhas avaliações —, eu já falei a vocês de um bar suíço muito bom que tinha aqui chamado [Ruitlik?]. Suíço alemão. Caviar romanov, caro, mas gostoso. Todo um pitoresco. E depois a melhor espécie de pitoresco, que não é o desejo que o sujeito fez de pitoresco, saiu pitoresco por acaso. Eu chegava lá, comia aquilo… Tinha assistido uma peça de cinema cujo enredo era na França, depois ia comer no [Ruitlick?], depois ia em casa, e vamos dizer que fosse sábado à noite, deitava-me e ia ler uma história de Nicolau II, e caía no massacre de Ekaterineburg. Depois dormia.

Era uma superposição de impressões fruto do progresso. Já era puxado. Tinha me trazido de vários lugares da Europa, delícias diferentes que eu comi com avidezes diferentes. Depois o massacre de Ekaterineburg. No total é fruto do progresso tudo isso. A junção de tudo isso é fruto do progresso.

* O homem não foi feito para viver no mirabolante, mas na tranqüilidade distendida e calma do simpático

Mas eu mesmo sentia que havia qualquer coisa de artificial, com velocidades anormais, com frutos por demais mirabolantes, o homem não foi feito para viver no mirabolante, ele pede as tranqüilidades distendidas e calmas do simpático, do afável, do acolhedor mais do que do mirabolante. O mirabolante ele deve querer ver às vezes, mas ele não deve viver no mirabolante.

O resultado. Todo um dinamismo de coisas que revolve o homem, e que cria uma situação que é o progresso.

* Arranha-céus e aeroporto na São Paulo antiga: o “bluff” do útil aparecendo como um triunfador sobre o belo era a glorificação da feiúra

Mais ou menos nessa época do [Ruitlik?] se construiu o arranha-céu Martineli, que passava por ser o orgulho dos paulistas. Prédio de vinte andares, você faz idéia. E começaram a construir, se não me engano, o aeroporto de Congonhas. Então daqui a alguns anos o avião chegará a São Paulo. Então ébrio de tomar um avião e dentro de uma hora estar no Rio de Janeiro. Mas você está vendo o maravilhoso, o deslumbrante, o extraordinário, conjugado com o horroroso, criando uma situação que no seu conjunto é um bluff fantástico.

Com isto acionado pelo demônio e pelos agentes dele, fazendo com que cada vez mais o útil aparecesse como um triunfador sobre o belo. O espírito prático, no fundo, era a glorificação da feiúra.

Então a feiúra cada vez dominando mais. E sob pretexto de espírito prático — daqui a pouco eu vou dar um exemplo para vocês — e com isso tudo ficando sempre mais feio, sempre mais excelente, sempre mais horroroso, e sempre mais delicioso. Mas o delicioso definhando gradualmente, o horroroso tomando conta da vida.

* A Revolução Industrial: lava heterogênea e caudalosa de um vulcão que começa a expurgar seus detritos sobre a humanidade

(Sr. Gonzalo: E tudo padronizado.)

Padronização, banalização, massificação, tudo isso são corolários dessa revolução industrial, que doutrinas erradas de caráter filosófico, tendências erradas de caráter Revolução A tendencial, B sofística, tudo isso junto vai fazendo uma mexida que seria uma lava heterogênea e caudalosa de um vulcão que começa a expurgar aquela porcaria toda sobre a humanidade.

Esta é uma definição da revolução industrial.

* Um torreão denunciando a Revolução Industrial seria um contrachoque num front da Contra-Revolução inteiramente desguarnecido

Agora, se nós tivéssemos uma equipe que fosse capaz de montar o quadro da Revolução industrial bem exatamente, e com essas distinções que eu fiz no começo, bem ilustradas, com belas fotografias, com fotografias de quadro do Claude Lorrain com sóis do Claude Lorrain, e outras coisas assim, fotografias de Veneza, etc., nós faríamos um contrachoque, num front da nossa Contra-Revolução inteiramente desguarnecido, inclusive para efeitos internos.

(Sr. Gonzalo: […] Para quem se entregou a isso, a refutação disso parece impossível, porque eles defendem isso como um precito defende o inferno.)

Isso.

* O combate à Revolução Industrial precisaria começar por uma brilhante descrição retrospectiva da Belle Époque e do Ancien Régime

(Sr. Gonzalo: O senhor acha que a contra-ofensiva seria isso? Seria suficiente isso que o senhor acaba de dizer? Não há uma coisa a mais a ser mostrada?)

Não, seria preciso fazer uma coisa que eu acho muito boa, e que o João está começando a fazer, que é o seguinte. O André Dantas andou mexendo no torreão que descreve o Ancien Régime, e ficou emocionado ao último ponto com isso, e o João vendo isso, resolveu ampliar a descrição do Ancien Régime.

Seria preciso fazer uma história de frente para trás, de maneira tal que a gente fosse partindo de uma cena que eu vi na Illustration muito interessante da Belle Époque. Eu não me lembro se era uma foto ou se era um desenho, mas representava uma loja em Paris com duas senhoras vestidas meio decotadas, com esses manteaux, etc., de ir ao teatro, de ir a um baile, de ir a uma recepção diplomática, qualquer coisa, e paradas diante da vitrine ultra iluminada de um joalheiro. Em cima, um letreiro em que você percebe as últimas letras da palavra joalheiro. De maneira que se percebe que é um joalheiro em que elas estão lá. E as duas estão conversando entre si, meio baixinho, como quem troca impressões que são para não ser ouvidas por um homem que está atrás das duas, e que evidentemente forma com elas um trio. Poderia ser o esposo, a esposa e a filha.

A mãe e a filha comentando jóias que estão com vontade de comprar. Agora, em pé, atrás dela, formando uma espécie de mundo diferente, de cartola, um velho assim meio asmático. Sabe certos velhos que ficam assim com dois dentes de fora, assim, super fumante, com uma bengala assim embaixo do braço como na Belle Époque se usava às vezes, e olhando com uma cara de raiva para o joalheiro, porque era evidente que as duas mulheres estavam combinando uma pressão sobre ele, para, digamos, a compra de uma pedra preciosa, de uma jóia qualquer, para uma das duas. Ou uma para cada uma.

Às vezes acontece que o marido tem o dinheiro mas não quer gastar, e a mulher quer gastar porque sabe que o marido tem dinheiro. E isso vai dar amolação durante não sei quanto tempo, até que afinal ele percebe que elas passam todos os dias diante do joalheiro para ver se a jóia ainda não foi vendida, e enquanto a jóia não foi vendida tem pressão.



Então pegar esse tipo de convívio brilhante, mas ao mesmo tempo tenso e ríspido e pôr no quadro seguinte a mesma gente, os avós desse pessoal, diante de um joalheiro. A cena é inteiramente diferente. A senhora dizendo para outra: ma fille, como lhe ficaria bem esse rubi. E a filha dizendo de um modo amável: se papa voudrait bien me le donné… Mas com ares assim modesto. E o pai com ar muito gentil dizer para ela: “Minha filha, logo que os seus interesses nas minhas mãos o permitam, eu lhe darei uma coisa assim.”

E assim fazer os retrospectos me parece que seria muito interessante.

(Sr. Gonzalo: O pouco que já tem nesse torreão do Ancien Regime é muito repousante, muito benfazejo.)

Eu acho que sobretudo para nós que não nascemos na Europa e que não tivemos senão contatos esporádicos com a Europa, é muito necessário ter coisas que nos dêem as idéias das nascentes cristalinas de nossa história para compreendermos que água do Tietê é essa em que nós nos banhamos, para compreendermos uma série de outras coisas. Porque nós, no fundo, fazemos o papel de asnos — me desculpem a brutalidade da palavra, mas é isso — ignorando tudo isso, e trotando no meio da massa achando que está tudo muito bom.

(Sr. Gonzalo: E pior, porque como temos thau, sabemos que é falso.)

Isso.

* A paixão do progresso era uma ânsia de libertação dos velhos hábitos: estes têm um nome, que é Jesus Cristo; aquela tem outro, que é satanás

(Sr. Gonzalo: […] A vida do senhor, quando a gente vê os fatinhos, os chás, a luta do senhor desde o “Legionário” até agora, enfocado desse ângulo é uma coisa fabulosa. E depois é uma coisa que se realizou, é um tipo humano que se realizou. E isso me parece que para problemas sem solução — porque o mundo se vai colocando em problemas sem solução, porque o Brasil não tem solução — mas só tem uma solução que é um tipo humano.)

Eu concordo.

(Sr. Gonzalo: Porque senão a gente fica: olha, foi extraordinário Luís XIV”. Não tem dúvida que foi muito interessante. […] Mas como o senhor tem tudo isso na alma, isso é que dá o revide e nos deixa em paz, o resto não nos deixa em paz.)

Sim, eu estou de acordo com você.

(Sr. Gonzalo: Eu não nego que tenha que fazer esse torreão, porque esse torreão ajuda muito, inclusive ajuda a entender ao senhor.)

Com isso, eu concordo inteiramente com você.

(Sr. Gonzalo: O Barão de Frénilly diz que os homens no começo da Revolução…)

É muito inteligente ele.

(Sr. Gonzalo: Ele usa uma frase muito interessante que diz: que essa época havia velhos hábitos e novas paixões, mas que as paixões tinham um dinamismo maior do que o velho hábito.)

Está muito bem feito.

(Sr. Gonzalo: Me pareceu muito bem apanhado.)

Muito, muito.

(Sr. Gonzalo: E à essa nova paixão do progresso, ou se coloca uma nova virtude, ou senão não se fecha o parênteses.)

Perfeitamente. E em parte a paixão do progresso era uma ânsia de libertação dos velhos hábitos. A gente poderia dizer, que aonde o que é perpétuo é representado por velhos hábitos e não por novas paixões, é como uma árvore onde as raízes morreram. Quer dizer, aquela árvore pode demorar algum tempo, mas ela não dá mais folha, não dá mais frutos, em certo momento ela está tão débil que uma criança derruba. É a Revolução.

(Sr. Gonzalo: E o interessante é mostrar força da nova virtude, como a nova virtude é mais forte do que a nova paixão.)

É terrível o seguinte: é que o velho hábito tem um nome, é Jesus Cristo. A nova paixão tem um nome, é satanás. Tudo que vai rumando para o lado do pecado desperta novas paixões, e deixa sem defesa os velhos hábitos.

* Para contrariar os novos hábitos, a Igreja precisa aparecer em seu aspecto militante, como o SDP sempre procurou e conseguiu realizar

(Sr. Gonzalo: O velho hábito chamando Jesus Cristo se revigora de vez em quando, e esse é o assunto. Nós não podemos ficar em Nosso Senhor Jesus Cristo não revigorado, porque Ele como que seria derrotado pelo novo satanás.)

Isso.

(Sr. Gonzalo: Acontece que com o senhor, Nosso Senhor Jesus Cristo é revigorado, de maneira a derrotar satanás. Isso é que é preciso mostrar e entender bem.)

O que é preciso acrescentar que para isto ser assim, é preciso a Igreja ser mostrada em seu aspecto militante. Ela tem que pegar essas potências dos novos hábitos, e agredi-los a pontapé. Se isso se dá assim está bom. Se não se dá assim, a Igreja parece uma árvore com as raízes mortas.

(Sr. Gonzalo: É o que o senhor fez durante toda vida.)

Toda vida foi isso.

Por exemplo, uma série de coisas que Nossa Senhora me tem ajudado a fazer ao longo da vida, são coisas das quais consta que um homem com as nossas idéias não podia fazer. Era impraticável para quem tivesse nossas idéias. Pois bem, nós apresentamos como realizadas.

* O exemplo do livro da Nobreza e seu Autor: “petulância” contra-revolucionária

(Sr. P. Roberto: O livro da Nobreza por exemplo.)

O livro da Nobreza. O livro da Nobreza é de uma petulância. Não é petulante no que está escrito, ele é petulante em ser, em se chamar assim.

(Sr. P. Roberto: Levantar o problema.)

Levantar o problema e tratá-lo daquele jeito. Quer dizer, é assim e engulam como quiserem, etc., etc. E a gente poder dizer, se as coisas continuarem como estão em Portugal, o livro teve uma grande saída. E vamos dizer que se possa dizer um dia que teve uma grande saída em cinco ou seis nações. Isto é uma coisa inacreditável que os nossos inimigos vão fingir que esqueceram. Você pode contar para eles quinze vezes ou vinte, que eles de cada vez esquecem. Quando você conta, eles não têm surpresa, eles fingem que é uma coisa banal, quando eles, pouco antes, diriam que era uma coisa impossível. Mas a gente não se incomodando e mostrando para eles: eu fiz, eu fiz, eu fiz… isso tem um efeito extraordinário.

(Dr. Edwaldo: O livro não podia existir, assim como o autor.)

O autor não devia existir. Deveria ser um homem raquítico, de voz fraca, tímido e de pensamento confusos.

(Sr. Gonzalo: Não podia ter um nome aristocrático.)

Isso seria impossível.

E nesse sentido tudo quanto acresce… por exemplo, uma coisa característica, um homem assim ser professor universitário. Não poderia ser. Ele deveria quando muito ter sido um indivíduo que foi um aluno medíocre formando numa pequena universidade de Mogi das Cruzes.

* Sr. Gonzalo relata encontro que teve com ex-congregado mariano, inimigo do SDP

(Sr. Gonzalo: Um dia vou contar um fatinho que me aconteceu aqui na farmácia que realmente é muito interessante.)

Conte.

(Sr. Gonzalo: Mas realmente foi uma discussão muito interessante. O tempo está muito tarde.)

Não, conte.

(Sr. Gonzalo: Mas ilustra um pouco assim… sai um pouquinho do eixo. Eu estava na farmácia comprando um remédio, aqui na esquina. Um senhor de uns 75 anos me procurou, bem educado, de boa família…)

Vestido de paletó e gravata?

(Sr. Gonzalo: Sim, sim. É um tal Barreto Prado.)

Ah, Roberto Barreto Prado, é um baixote.

(Sr. Gonzalo: Sim.)

(…)

esse é um dos meus inimicíssimos.

(Sr. Gonzalo: Mas o senhor precisava ver o homem. Ele me dizia: olha, congregado! Congregado!…)

Ele é juiz trabalhista.

(Sr. Gonzalo: O jeito era de um homem de uma certa educação.)

É claro.

(Sr. Gonzalo: Ele me procurou e disse: ó congregado, congregado.

Eu disse: sim, mas congregado do Doutor Plinio.)

Iiiiihhhh!

(Sr. Gonzalo: Então ele disse: eu fui congregado também.

Bom, se o senhor foi congregado, o senhor tem que ter conhecido Doutor Plinio.

É, sim, sim, ele era meu mestre de noviço. Quando ele era deputado, ele vinha aqui e era mestre de noviço. Mas o senhor de que nacionalidade é?

Eu sou chileno.

Ah, o Chile vai muito bem! Vai muito bem.

Vai, mas eu gosto muito do Brasil. Eu gosto enormemente do Brasil, e estou no Brasil por causa do Doutor Plinio…)

Ahahahahahahahaha!

(Sr. Gonzalo: … porque eu venho justamente de falar com ele, ele mora aqui, o senhor sabe.

É, eu sei.

E eu estou aqui no Brasil, acho muito interessante o país, gosto muito dos brasileiros.)

(Sr. Gonzalo: A conversa foi um pouco longa, voltou para o Chile etc.

Mas eu estou aqui por causa do Doutor Plinio e trabalho com ele há vinte três anos. E vocês têm uma pessoa extraordinária aqui no Brasil, que é ele.)

(Sr. Gonzalo: Ele estava meio assim… e disse:

Olha, eu rompi com o Plinio, eu me saparei do Plinio. Quando ele atacou Maritain foi demais, foi muito forte.

Mas o sr. é maritanista? Mas o senhor acaba de falar mal da situação do Brasil, quem é o culpado de toda situação do progressismo? Maritain é o pai de tudo isso que está acontecendo aqui. É o pai do d.Arns, pai do Boff, pai do frei Beto, toda essa gente.

Éééé! — ele ficava muito atrapalhado.)

Além do mais ele é burro.

(Sr. Gonzalo: — Além do mais é o pai de democracia cristã.

Eu voto nele.

Eu sou chileno, Frei pôs Allende no poder, aquilo foi uma vergonha.

Não, Frei foi ruim… e também tem o Tristão, e o Tristão eu não gosto….

Mas então como o sr. é maritanista? O Maritain do Brasil foi o Tristão. O senhor está em contradição…

Ele me disse assim: — É, mas nós precisamos de valores novos. Então eu disse: — Mas aqui no Brasil não vejo nenhum valor novo.

Aí ele me disse assim: — Mas o senhor, que fala tão bem português…

Sr., faz vinte e três anos que estou no Brasil, minha burrice não é tal que umas poucas palavras de português não fale. E eu estou há vinte três anos aqui por causa do Doutor Plinio.)

(Sr. Gonzalo: Eu vou encurtar a história porque foi longa.) [vira a fita]

(Sr. Gonzalo: Ele disse: mas tem também o frei João.

Mas quem é o frei João?

É o único eremita que nós temos aqui no Brasil.)

Ah, eu sei quem é. É frei Jó Feli.

(Sr. Gonzalo: — Mas a Igreja Católica tem que mostrar seus ideais no mundo inteiro, e quem tem feito isso é Doutor Plinio, porque só ele fez isso no Brasil, e fez isso em todo o mundo. O estandarte da ortodoxia está no mundo inteiro por causa do Doutor Plinio.)

Iiihhh!

(Sr. Gonzalo: Mas o homem apanhou duríssimo. Então aí ele me disse assim: — Mas o que o senhor acha do cardeal Ratzinger?

Do cardeal Ratzinger tem coisas boas também, evidentemente. Mas me diga uma coisa, quando Doutor Plinio era jovem, quando o sr. o conheceu, ele até agora mudou em alguma coisa? O Doutor Plinio de hoje é o mesmo Doutor Plinio de ontem?

Ele olhou e disse: — Olha, tenho que reconhecer, isso é assim mesmo, esse mérito ele tem.

Mas isso não é pouca coisa. Quem é o homem que defendeu a ortodoxia da Igreja Católica aqui no Brasil? Foi Doutor Plinio ou não?

Esse mérito ele tem.)

(Sr. Gonzalo: Foi longo. Ele estava muito atrapalhado. Ele disse: mas o grupo do Plinio é muito anacrônico.

Mas sr., o sr. não está vendo que a TFP é de jovem, como é que o senhor pode dizer que é anacrônico. Anacrônico está ficando o senhor.)

(Sr. Gonzalo: Ele disse antes: mas o Plinio rompeu com D. Mayer isso foi errado.

Eu lhe disse: não, foi d. Mayer que rompeu com Doutor Plinio. E o sr. sabe que D. Mayer se meteu com D. Lefevre e que ficou cismático junto com D. Lefèvre…)

Isso ele não gostou.

(Sr. Gonzalo: Mas ficou como um demônio no inferno. E disse outra coisa: e também tem o José Pedro…

Eu disse: ele foi do Grupo do Doutor Plinio…

É, mas foi muito amigo meu.

Mas depois rompeu com Doutor Plinio.

Foi muito meu amigo.

(Sr. Gonzalo: A coisa terminou nisso. Mas o homem tem tudo claro na cabeça. […])

É bem a idéia que eu fazia dele.

(Sr. Gonzalo: […] Com uma espécie de lucidez, mas com o senhor atravessado na cabeça. Agora, é preciso dizer o nome do senhor, porque senão o tipo nos leva na conversa.)

Leva e…

(…)

e sem que a pessoa perca o contato com o campo, nem perca o contado com o luxo. Um equilíbrio muito bem achado.

(Sr. Gonzalo: Eu confesso que me fez muito bem isso.)

Achei muito….

(Sr. Gonzalo: Sobretudo para quem tinha fazenda do outro lado dos Andes, é muito exorcizante…)

Ahahah! Eu não sei o que o Horácio está achando do que estamos dizendo… Você está achando que nós somos muito imparciais.

(Sr. Horácio B.: Estou pensando tanto na Sãopaulinho que me esqueci de Buenos Aires.)

Ahahahah! Vamos andando, meu caros.

*_*_*_*_*