Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 8/5/93 – Sábado – p. 6 de 6

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 8/5/93 — Sábado

Comentários sobre uma imagem de Nosso Senhor da Ilha da Madeira: uma tristeza meio perplexa diante da maldade que Ele encontra diante de si * O artista entrou profundamente no papel de Nosso Senhor e soube compreender a posição d’Ele * “Meu filho, olhe e faça segundo o Modelo”; é um convite a todos nós a carregarmos as nossas respectivas cruzes * Oferecimento a Nossa Senhora pelo Senhor Doutor Plinio

* Comentários sobre uma imagem de Nosso Senhor da Ilha da Madeira: uma tristeza meio perplexa diante da maldade que Ele encontra diante de si

(…)

ilha da Madeira. Mas é uma imagem pelo menos de busto.

Na fotografia aparece só aqui o rosto. E alguém dos Estados Unidos passando pela ilha da Madeira, gostou enormemente da imagem, e mandou um sujeito copiar e levou para os Estados Unidos, uma cópia muito bem feita. E desta cópia o Grupo dos Estados Unidos tirou uma foto, por sua vez, e essa foto está aqui.

Eu acho impressionante, e me agradou muito. Não sei o que é que acham.

(Sr. Gonzalo: Muita perplexidade.)

É, é isso. Mas de qualquer maneira tem muita expressão, não é?

(Sr. Guerreiro: Poucas imagens de Nosso Senhor são tão expressivas quanto essa. Eu acho, eu acho uma coisa extraordinária.)

É, inteiramente.

(Sr. P. Roberto: Como o senhor interpreta esse olhar de Nosso Senhor assim?)

(Sr. Paulo Henrique: Até a coroa de espinho arranjada em forma de um diadema.)

Mas de outro lado, muito dolorida, não é?

* Uma fisionomia que traduz uma dor que chega até o limite da resistência

Eu interpreto da seguinte maneira:

É uma fisionomia que traduz uma dor que chega até o limite da resistência. Quer dizer, um pouco mais que essa dor doesse, a resistência quebrava, Ele morria, ou qualquer coisa assim. Essa é a primeira interpretação que eu dou.

Mas de outro lado, com uma firmeza e uma deliberação de ir até o fim, que é impressionante.

(Sr. Paulo Henrique: Isso no olhar?)

Não, no todo.

(Sr. Horácio B.: É simbólico que tenha chegado às mãos do senhor esta semana.)

Muito.

(Sr. Horácio B.: Quanto firmeza.)

Uma firmeza que vai até o fim.

Por outro lado, uma espécie de tristeza, uma tristeza meio perplexa diante da maldade que Ele encontra diante de si. De uma maldade que surpreende, mas surpreende quase até o desconcerto.

É um recurso artístico para sentir quanto Ele era sensível à contradição e ao disparate dessa crueldade, diante de tanta bondade. É o que está no fundo.

(Sr. Paulo Henrique: Essa ferida no rosto dele também…)

Bofetadas.

(Sr. P. Roberto: Mas uma expressão artística muito…)

Muito, muito!…. Por exemplo, eu dou muito mais valor a isso do que aquelas figuras da Renascença com aqueles esgares e aqueles…

(Sr. Guerreiro: Não têm piedade nenhuma.)

Nada, nada, nada.

* O artista entrou profundamente no papel de Nosso Senhor e soube compreender a posição d’Ele

E exatamente a coisa é essa. A gente vê que o artista entrou profundamente no papel de Nosso Senhor e soube compreender a posição d’Ele. É toda uma análise da situação de Nosso Senhor, interna, diante do que externamente Lhe ia sucedendo. No meio de tudo isso, uma doçura inefável. Por mim, eu gosto muito. Se lhes agradar eu posso mandar tirar cópias para vocês também.

(Sr. Gonzalo: A gente entende Nosso Senhor quando conhece o senhor.)

O fato é que não há nEle nenhuma cólera, mas há um reproche enorme, porque tem.

(Sr. P. Roberto: Um pouco como o senhor disse do Santo Sudário, que põe uma distâncias entre Ele e aquilo que estão fazendo.)

É, e aqueles que estão fazendo também. Aquilo e aqueles.

(Sr. P. Roberto: Que vai exigir o julgamento final.)

Isso, isso, caminha para o Juízo Final. Quer dizer, expliquem agora! Chegou a vez. Eu acho de um grande valor. E nunca imaginei que um artista local, de um lugarzinho muito bonito, mas muito pouco expressivo do ponto de vista cultural, etc., pudesse representar uma coisa dessas. Ou que um artista de nossos dias, que eu suponho que seja em nossos dias, seja capaz de fazer uma cópia tão bem feita. Porque como cópia… se eu dissesse a vocês que era original, vocês tomariam como certo. Eu tomaria como certo. Se me dissessem esse é o original, eu diria: está bom.

(Sr. Guerreiro: O artista é português?)

Parece que nem sabem lá.

(Sr. P. Roberto: …)

Não, um norte-americano parece que mandou alguém ir à ilha da Madeira copiar. E fez uma escultura. Essa cópia foi para os Estados Unidos, e nos Estados Unidos, e nos Estados Unidos tiraram a foto.

* “Ecce in pace amaritudo mea amarissima”: Eis na paz a minha amargura muito amarga

(Sr. Guerreiro: Há uma louçania no semblante de Nosso Senhor, que são poucas as imagens d’Ele que tornam tão sensível isso, o aspecto imaculado de Nosso Senhor…)

Imaculado! Justo! Reto! Isso nem se fala. Mas me lembra uma frase profética do Antigo Testamento que diz respeito a Ele. Ecce in pace amaritudo mea amarissima: “Eis na paz a minha amargura muito amarga”. Eu acho estupendo.

Você viu aí coronel? Eu já mostrei a você.

(Cel. Poli: O sr. João mostrou.)

Foi esculpida na ilha da Madeira por alguém que não sei quem foi, é um artista local com certeza. E daí um norte-americano mandou tirar uma cópia em escultura, e essa cópia ele levou para os Estados Unidos. E aqui está a foto.

Mas poucas coisas eu conheço — naturalmente o Santo Sudário é superior, mas nada se compara ao Santo Sudário.

(Cel. Poli: Muito nobre.)

Muito, muito, muito.

A foto muito bem tirada, não é? A posição, o enfoque está muito bem feito a meu ver.

(Sr. Guerreiro: O senhor comentando, o pouco que a gente vê, o pouco se amplia, e nós passamos a ver bastante.)

Se vocês quiserem podem fazer depois, é o seguinte: vocês ficam com a fita. Vocês podem mandar alguém bater no dorso o comentário. Se quiserem.

(Sr. Guerreiro: Se a Senhora Dona Lucilia tivesse conhecido essa foto, ela ficaria profundamente encantada.)

Oooooh! muitíssimo! Muitíssimo! É feita para encantá-la.

* “Meu filho, olhe e faça segundo o Modelo”; é um convite a todos nós a carregarmos as nossas respectivas cruzes

(Sr. Horácio B.: O senhor poderia comentar o simbolismo que tem de ter chegado nesses dias?)

Meu filho, eu não ouvi bem se você disse nesse dia ou nesses dias.

(Sr. Horácio B.: Nesses dias.)

Ah, nesses dias sim. Quer dizer, o seguinte, eu até pensei no caso. Acho que é um convite — eu estou cheio de frases latinas hoje, é uma frase latina da Escritura assim: [inspice et fac secundum me exemplar?]: “olhe e faça segundo o modelo”. Porque é um convite a todos nós a carregarmos as nossas respectivas cruzes.

(Sr. Paulo Henrique: Muito sobranceria, um porte muito nobre.)

Uma firmeza! Mas uma firmeza do outro mundo.

(Sr. Guerreiro: E depois uma força de alma que normalmente não se vê nas imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo.)

Não. Todas as imagens que se vê aqui nessas igrejas, nem de longe se compara com essa.

(Sr. Guerreiro: É um rei padecente.)

É um rei padecente, mas que tem a coroa das dores que vale mais do que a coroa de ouro.

* Quem quer compreender Nosso Senhor inteiramente, é em função da cruz. Se fizer abstração da cruz não entendeu nada

(Sr. P. Roberto: O Aleijadinho tem alguma coisa dessa escola.)

Tem. Eu até já me perguntei se haveria alguma coisa de comum. Mas eu acho que o Aleijadinho é mais artista do que esse. Agora, que ele pegou melhor a alma de Nosso Senhor. O Aleijadinho pegou muito bem os profetas. Eu acho que a obra-prima do Aleijadinho são os profetas, quaisquer. Acho-os estupendo. Mas pegar a alma de Nosso Senhor, o padecimento dele, etc., etc. Nesse ponto o Aleijadinho não chegou.

(Sr. Guerreiro: Ele pega um pouco o lado principesco de Nosso Senhor, não é? O desnível humano entre Nosso Senhor e os outros é muito sensível.)

A perder de vista.

(Sr. Guerreiro: Isso ele pegou, mas alma, como o senhor está dizendo, esse pegou mais.)

Sendo que Nosso Senhor é por excelência o vir dolorum, o varão das dores. Quem quer compreender Nosso Senhor inteiramente, é em função da cruz. Se fizer abstração da cruz não entendeu nada. É evidente, é evidente.

Bom, eu estou dizendo, meu coronel, se vocês quiserem eu mando tirar uma cópia disso.

(Sr. Paulo Henrique: Agradecemos muito.)

Agora, quem é nas nossas coisas que fotografa.

Eu tenho impressão que é muito pouco difícil…

(Sr. Gonzalo: No São Bento fazem isso com os olhos fechados.)

É, me parece que é uma coisa muito fácil de copiar. Aliás, é preciso dizer também o seguinte — isso é obra do fotógrafo, o que eu vou comentar agora — que o jogo de luz sobre a face está magnificamente bem escolhido. O fundo escuro, está tudo magnificamente bem escolhido.

(Sr. Paulo Henrique: Tomar muito cuidado com o original.)

E não confundir original com as cópias.

(Sr. Gonzalo: Isso fica claríssimo. Porque o material é diferente.)

Bom, vamos começar nossa reunião.

Vocês me dêem isso no fim da reunião, porque se deixar aqui, de repente some.

Então meu caros.

* Oferecimento a Nossa Senhora pelo Senhor Doutor Plinio

(Sr. Gonzalo: O coronel tem uma coisa para dizer para o senhor e o sr. Guerreiro também.)

(…)

(Cel. Poli: Essa reunião de sábado à noite, é a primeira reunião depois de sabermos da infame notícia de bradar ao Céus de indiciar ao senhor num processo criminal. Nós conversamos em cima, e eu sou o expositor do desejo de todos nós e queríamos dizer ao senhor que nós tomamos isto como uma afronta absolutamente inaceitável e que queríamos pôr tudo que nós temos, toda a nossa pessoa, inclusive as nossas vidas, à disposição de Nossa Senhora para que de acordo com os desígnios d’Ela, Ela faça o uso que quiser para preservar o senhor. E lembramos o que o sr. Argemiro disso ontem para o senhor. Como Christianus alter Christus, o senhor é um outro Nosso Senhor, e especialmente para nós. De modo que querer por a mão no senhor é querer por a mão em Nosso Senhor, e nós não podemos ficar, absolutamente, sem ter a máxima indignação a respeito disso. Mas queremos que o senhor tome essa nossa disposição, não tomando a nós como fiador disso, porque nós não temos credenciais para sermos fiador de um propósito desse. Pedimos que a Senhora Dona Lucilia seja a fiadora desse nosso propósito. E que seja um propósito de muita radicalidade, de muito autenticidade seja realmente muito objetivo essa disposição de que Nossa Senhora disponha de nós para preservar o senhor.

(Cel. Poli: E depois que ela nos dê forças para agirmos de acordo com as leis de Deus e com as leis dos homens, mas sem perder a menor chance, a menor oportunidade, sem deixar de vingar o menor pormenor, e do modo mais radical também, [inaudível], essa ofensa é sobretudo uma ofensa insigne a Deus, o querer deitar a mão no senhor. Nós queremos ser milimetricamente precisos na vingança e com todos os meios possíveis que Nossa Senhora coloque nas mãos.)

* A reciprocidade é a nota de autenticidade de todas as relações humanas

Meu filho, eu acho as palavras muito boas, sentimentos muito bons. Eu esperava uma coisa dessa dos meus Complicados. Porque todos sabem o que é que eu faria por qualquer um, e em conseqüência a reciprocidade é a nota de autenticidade de todas as relações humanas. Mas muito mais alto do que isso é quando a gente se quer por amor de Deus, e, portanto, estar como elemento essencial o amor de Deus, que faz o homem tirar de si e dar coisas que ele não faria nunca para um outro homem quem quer que fosse.

E debaixo desse ponto de vista, eu acho que essa recíproca doação de uns pelos outros, é uma coisa muito boa e que nós devemos ter sempre muito em vista daqui para o futuro. Futuro muito incerto para todos nós — daqui a pouco eu digo uma palavra a respeito disso — futuro muito incerto para todos nós, e conduzindo facilmente à surpresas, à coisas de toda ordem, na qual nós podemos nos encontrar também em outras ocasiões em qualquer risco. E isto é o que nós devemos ter em vista.

(Cel. Poli: Eu sinto que o senhor é amável por ser quem é, mas muito amável, agora, eu sinto que o amor que eu tenho para o senhor, é muito insuficiente por mais que eu sinta que o senhor deve ser amado incondicionalmente, eu sinto muito insuficiente no amor ao senhor. E por outro lado, para acompanhar ao senhor nessa passagem, eu precisaria amar ao senhor como o senhor deve ser amado, então que o senhor peça a Senhora Dona Lucilia isso para nós, que nós amemos ao senhor como o senhor deve ser amado, mas de modo irreversível também, que tenhamos essa visão do senhor dentro do planos de Deus, dentro dos planos de Nossa Senhora e amemos ao senhor abandonadamente e sem fraude, sem reservas, inteiramente como nós estamos persuadidos que é a nossa obrigação amar, e que o senhor deve ser amado.)

E que isto deve ser, meu filho, sobretudo quando as horas chegam.

(Sr. P. Roberto: Há pouco li uma coisa que me tocou muito, que no céu nós vamos viver do amor de Deus, mas de tal maneira que nós vamos estar identificado com Ele, com os desígnios dele. De maneira que aquela frase que se diz que Deus é tudo em todos, que isso é uma coisa que se aplica sobretudo ao céu. Então pensei que no céu as pessoas entre si vão estar de tal maneira ligadas, que elas vão ser uma coisa só em Deus. Então pensei em pedir ao senhor nós já tivéssemos esse amor que nós deveríamos ter ao senhor no céu. Pedimos isso ao senhor.)

Se há uma coisa que eu queria lhes dar é isso.

Agora, por que razão? Não é por um sentimento egoístico, mas é porque sei que assim amariam a Nossa Senhora, e amariam a Nosso Senhor como Ele deve ser amado. E é isso que me leva a quase lhe cortar a palavra para concordar. Uma espécie de pressurosidade.

(Sr. P. Roberto: Mas era só isso que eu tinha a dizer…)

Não é pouco.

(Sr. Gonzalo: O senhor ia falar algo sobre o futuro.)

Sim… (…)

*_*_*_*_*