Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
24/4/93 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 24/4/93 — Sábado
Comentários sobre a cerimônia do dia 22: “eu não imaginava que no atual regime houvesse uma graça tão grande assim” * Os dois tipos de graças: a graça sensível como a do dia 22, e a graça na aridez, e na resolução de carregar a aridez custe o que custar, seja como for, doa como doer * Nós temos que nos agüentar uns aos outros, mas essa mútua “agüentação” é a essência de nossa vida * Como deveria ser a vida dos setenta sábios do farol de Alexandria * Qual é o efeito da Revolução que a SDL procura especialmente combater nas almas? * Descrição do heresia branca anglo-saxão e do heresia branca latino * No fundo, o heresia branca nega o pecado original, e nega o que a graça põe no homem * Quem resolveu ser um homem que suporta aridezes mal e mal, e que vai logo procurar torcidas em outras matérias, esse homem não dá nada * Os tufões e as tragédias externas ou internas, são familiares ao SDP * “A única coisa pela qual eu poderia perder meu equilíbrio seria de ficar sabendo que eu não cumprirei a minha vocação por culpa minha” * A SDL era o modelo da alma que perdoa
(Sr. Gonzalo: … no auditório a presença da Senhora Dona Lucilia.)
Foi uma coisa extraordinária, de não se poder imaginar jamais que houvesse isso, ouviu?
* Comentários sobre a cerimônia do dia 22: “eu não imaginava que no atual regime houvesse uma graça tão grande assim”
(Sr. Gonzalo: O senhor não imaginava antes da Bagarre?)
Não, isso é diferente. Eu quero dizer, no atual regime houvesse uma graça grande assim, eu não podia imaginar.
(Cel. Poli: É muito bom saber disso.)
É, mas eu não podia imaginar. Graças a Nossa Senhora, Ela deu. E notem bem, que essas graças assim têm essa vantagem de serem habitualmente inopinadas. Quer dizer, a gente não imagina que elas venham, nem quando vem, mas de repente, inopinadamente ela se manifesta. É por onde Nossa Senhora afirma a soberania d’Ela, é assim e está acabado.
(Sr. Gonzalo: Nós queríamos fazer uma pergunta ao senhor….)
(…)
(Sr. Paulo Henrique: … o editor da Fayard.)
Pois é, você vê ali o ódio.
(Sr. Paulo Henrique: O ódio dele, mas o contra-ataque que ele recebeu foi duríssimo.)
Duríssimo! Mas cortês. Mas está longe de estar menos duro do que o dele. Porque eu não saio da invectiva dele com cara de bobo, ele sai da minha réplica com cara de bobo.
(Cel. Poli: Cara de tacho.)
Cara de tacho. Em contradições, etc. Mas a gente vê que ele escreveu aquilo delirando de ódio.
(Sr. Gonzalo: […] A cerimônia acaba sendo um revide na linha de que se mostrou de modo inopinado uma ação da graça para esses dias absolutamente surpreendente. […] Conversando com o sr. João, falávamos que colocando o senhor e ela no centro das coisas, a gente vê que as coisas do Grupo funcionam com muito mais facilidade. O sr. João comentava por exemplo, os êremos, etc., ele disse que quase nunca pede conselhos ao senhor do que fazer nos êremos…)
Não.
(Sr. Gonzalo: Mas aquilo vai muito bem, com um ambiente muito bom, e fazendo coisas como essa cerimônia, que ninguém faz a não ser no São Bento. E outras pessoas podem pedir ao senhor 500 conselhos, e estar todos os dias pedindo conselhos para uma coisa e outra, etc., mas se a devoção ao senhor e à ela não estão vivas, a coisa não anda, por mais conselhos que o senhor dê. Então há uma predisposição para que as coisas andem, em relação ao senhor e à ela que ficou muito claro no auditório. […] O senhor disse que satanás apanhou muito com essa cerimônia…)
Sim.
(Sr. Gonzalo: E que o senhor viu muito demônio sair do auditório.
(…)
* Quando a presença de uma pessoa é uma presença que traz o sobrenatural consigo, a pessoa faz o papel de vitral, e a graça faz o papel de sol
(Sr. Gonzalo: É para o senhor falar “ex abundância cordis” sobre tudo isso, estávamos muito desejosos.)
É, podemos falar sobre isso, porque a matéria é muito vasta e dá para se conversar muito sobre isso.
Eu acho que a questão se põe da seguinte maneira: quando a presença de uma pessoa é uma presença que traz o sobrenatural consigo, a pessoa faz o papel de vitral, e a graça faz o papel de sol. De maneira que, por exemplo, um vitral, por mais bonito que ele seja, quando anoitece, se não tem luz dentro da catedral nem fora, o vitral não é nada.
Agora, pode pelo contrário, haver uma luzinha elétrica a mais ordinária, de iluminação pública, do lado de fora e um pouco dessa luz de uma cidadezinha como Chartres, entrar por um canto do vitral que represente, por exemplo, dois anjos conversando, que aqueles dois anjos se iluminam e tomam um cor que sem dúvida está neles, mas que não dá degustação possível a não ser entrando a luz. E então esses dois anjos que a gente vê lá, é capaz de passar uma noite vendo esses dois anjos tocarem juntos dois instrumentos, e por assim dizer conversarem cantado. É uma gota de eternidade que está lá.
Essa sensação de que o vitral encanta quando passa luz, essa sensação se tem quando uma criatura terrena é objeto de uma transparência de uma graça. A propósito dessa criatura terrena, a graça filtra e ilumina a criatura. Mas o princípio da beleza da cena assim, não está no vitral, mas está na luz do sol que entra e que ilumina aquilo.
(Sr. Gonzalo: Se não fosse o vitral… [inaudível].)
Não, o vitral está nas intenções da Providência e é instrumento da Providência, mas para a gente compreender em que sentido é, é preciso compreender que a vida daquele fenômeno é o sol que entra.
O Proust descrevendo uma igrejinha de Combray, uma igrejinha com o chão todo de granito, e um granito com uma cor comum do granito, mas que entra um raio de sol e que pega toda uma faixa de um vitral que havia lá, e imediatamente aquele chão se enche de pedras preciosas, que naturalmente são os reflexos do vitral sobre o granito. Assim também, por exemplo, se Nossa Senhora quiser, de repente a nossa conversa se enche de pedras preciosas. Então são coisas maravilhosas que se conversam, a gente se encanta, a gente pede, como o meu Guerreiro dizia há pouco, que no céu a gente possa continuar esses encontros e essas conversas, etc., e tudo isto porque passou a luz por ali e deu essa iluminação.
* Os dois tipos de graças: a graça sensível como a do dia 22, e a graça na aridez, e na resolução de carregar a aridez custe o que custar, seja como for, doa como doer
Então fica o problema seguinte: evidentemente essa iluminação assim é uma ação da graça. Essa ação da graça é dado ao homem para santificá-lo. E, portanto, esse efeito é um efeito eminentemente santificante. É certo que essa graça sensível não é o único tipo de graça que o homem recebe, muitas vezes a pessoa recebe a graça na aridez, e na resolução de carregar a aridez custe o que custar, seja como for, doa como doer, suportar a aridez porque ela deve ser suportada.
* Exemplos na vida dos grandes Santos do deserto
Enfim, aqueles grandes santos do deserto pelos quais eu tenho uma fascinação extraordinária, aqueles santos do período anterior às invasões dos árabes e dos germânicos, então São Pacômio e uns nomes desses que iam para o deserto e ficavam em distâncias incríveis, no meio de carrascais, vem de vez em quando um pombo ou um corvo e traz uma comida, e ele está morrendo de sede, mas de repente ele percebe que do espinho de uma planta que está diante dele começa a jorrar água. Ele vai então aplicar a boca àquele espinho e é uma bebida deliciosíssima que ele nunca bebeu igual na vida. E então o espinho se transformou numa fonte de uma consolação enorme.
* O suportar as coisas inenarráveis tem uma beleza e uma majestade extraordinárias
Mas qual é a parte mais bonita do episódio? É quando o santo está ressequido de sede, não tem nenhuma esperança terrena razoável de obter água, e resolve: eu fico aqui, e eu confio em Deus, eu confio em Nossa Senhora dê no que der, e vou passar essa noite acordado, gemendo de sede, mas eu não mudo e eu não vou para aquela direção onde está a cidade da maldição, onde estão as pontes das minha tentações. Pelo contrário, eu vou voltar as costas para a cidade, ainda que saiba que à pequena distância da entrada da cidade tem uma fonte de água fresca deliciosa, eu não quero me aproximar do pecado, pecado maldito, eu morrerei de sede mas não beberei daquela água da maldição.
De repente, ele olha para o carrascal… pan, pan!, pan! Ele aplica a boca ali, a espinha, ele vê, está mole, está delgada, a água que sai é um líquido maravilhoso.
As duas coisas são santificantes cada uma a seu modo. Uma é a exigência da aridez, do suportar as coisas inenarráveis. Isso tem uma beleza e tem uma majestade extraordinária.
Você andar por exemplo, por aqueles desertos e de repente perceber no alto de uma montanha, a silhueta de um homem que vai andando, e que é um eremita que mora ali sozinho a trinta e tantos anos, não vê pessoas humana, não tem conforto, não tem ajuda, não tem nada, mas a história dele é uma história de milagres, que ele só conhece, que ninguém conhece, mas de longe, quando ele aparece, ele não sabe, mas os pastores se ajoelham e rezam para ele, e pedem coisas por meio dele, que ele não pede porque ele não percebe os pastores, mas a graça dá, e os pastores abençoam a ele e se retiram depois com suas ovelhas. E aos poucos a região vai vivendo para vê-lo passar e ele não sabe de nada disso e pensa que é o ignorado das nações. Isso é de uma grande beleza, de uma grande grandeza.
Tem um lado que é o lado da dor, da cruz, do isolamento, etc., que santifica a seu modo. E depois tem o lado incomparável da água ou do líquido que brota do carrascal de que ele pode saciar-se e depois ele se deita tranqüilo junto a uma coluna velha, partida de um palácio de faraó que houve por ali, e dorme tranqüilo, certo de que talvez um leão possa passar por lá e comer a cabeça durante à noite.
Mas tranqüilo porque ele matou a sede, e quando amanhece, ele olha em volta de si e vê que está tudo direito, exceto umas pegadas de leão que ele observa na terra e que ele não tinha observado antes de dormir.
* Nós temos que amar, venerar e perceber a beleza dos dois modos de santificação porque assim nossa alma toma um equilíbrio e um “balancé” harmônico, direito e sério
Quer dizer, é um outro lado da santificação. E a gente tem que amar e venerar ambos os lados e perceber a beleza de ambos os lados.
Mas acontece que nós temos que amar uma coisa e outra, e é no amor de uma coisa e de outra, que nossa alma toma um equilíbrio e um balancé harmônico, direito, sério, que habitualmente as pessoas não querem ter. Não querem ter porque são devoradas de desejos, de caprichos, de volições, de ambições, de coisas que arrebentam, elas perdem esse equilíbrio que depois lhes abrirá o céu.
Assim é a vida da TFP também. Há episódios da TFP que são como dormir ao pé da coluna e quando amanhece perceber que os leões andaram por lá. O homem até teve um pesadelo de uma pata de leão que lhe oprimia o peito. E quando amanhece ele percebe que oprimia mesmo, e percebe que a cabeça dele só não foi devorada porque Nossa Senhora proibiu, não pode! Então não acontece nada.
* Na TFP há eras de uma aridez tremenda de uns com os outros, em que a gente se pergunta um pouco onde está a TFP
Há coisas assim na vida da TFP, épocas, eras, que são eras de aridez, de uma aridez tremenda de uns com os outros, em que a gente se pergunta um pouco onde está a TFP? Mas é como vem a pergunta.
Isto é muito duro para mim pelo seguinte: quando eu vejo um filho nessas condições, eu posso ter previamente a idéia de que faça eu a ele o afeto que fizer, procure distraí-lo quanto possa, procure fazer o impossível se for o caso, isso não remediará, mas a cruz que eu carrego procurando carregá-lo essa cruz torna mais leve a cruz dele. De maneira que posso vê-lo dizer a um outro: o Doutor Plinio de hoje não é mais o Doutor Plinio de outrora. Lembra-se do Doutor Plinio do começo, quando a gente conversava com ele, era um encanto, uma consolação, uma satisfação… Hoje, nós conversamos com ele há pouco, ele não estava ao par de nada, ele não sabe como se vota, ele não sabe se o valor do ouro está subindo ou está caindo, ele não sabe nada! Tudo que todo homem equipado tem que saber, Doutor Plinio não sabe. Nós procuramos um conselho junto a ele, ele não tem para dar. Dir-se-ia que ele está envelhecendo tanto que já não está capaz para a missão dele.
E a gente acaba de se esbaldar fazendo a melhor reunião que consegue, especialmente para aquele filho. E ele sai murmurando, e a gente sai rezando por ele.
(Sr. Gonzalo: É tal e qual, senhor; é assim mesmo.)
* Nós temos que nos agüentar uns aos outros, mas essa mútua “agüentação” é a essência de nossa vida
Esta é a vida da TFP. Nós temos que agüentar esta vida assim. E agüentarmos uns aos outros assim. É terrível, mas essa mútua “agüentação” é a essência de nossa vida.
Agora, Nossa Senhora de vez em quando faz brotar água da pedra, ou do carrascal, e de repente chiiiii! aquele jorro, e o conjunto de consolações, de alegrias, etc. Então os outros procuram pela gente e a gente percebe que se pode dizer que é a fonte da alegria deles. Mas nós devemos conservar a consciência de que isso é porque a graça está batendo sobre nós e que está nos varando e atingindo aquele, aquele e aquele outro; e que todo aquele efeito que a gente está produzindo, produz por causa da graça.
Eu, de propósito não estou dizendo que é só por causa da graça, eu estou dizendo que é por causa da graça. Não é só. De maneira que se, por exemplo, nós relaxamos no passado, as boas ocasiões para ter um modo de exprimir-se agradável, atraente, para fazer tal coisa bem feita, tal outra bem feita, para no plano natural poder ajudar um pouco os outros, se nós fizemos isso, na hora da graça ajudar ela entra como através de um vitral sujo. Porque não tem remédio. O tom é bonito, mas a gente não percebe nem que cena está ali, porque está a fuligem da cidade, está a poluição, estará… e o sacristão não limpou. Então nós temos que ser homens que limpam sempre os vidros pelos quais a graça nos passa. Mas inteiramente conformes se não acontecer nada. O imprevisto, inclusive com as horas em que pedimos e somos atendidos e parece tão fácil ser atendido; e as outras horas de que a gente tem impressão de que a prece da gente… a gente está embaixo da montanha e a prece está no alto da montanha, nós não conseguimos subir até o píncaro de oração bem feita que nós devemos apresentar para ser atendido.
Que tudo isso se compõe, tudo isso faz um todo que é a nossa vida. É tecida de coisas dessas. Então com os atos de paciência que isso envolve, os atos de furor, de inconformidade contra o mal, as indignações, etc., etc., tudo isso se soma.
* Como deveria ser a vida dos setenta sábios do farol de Alexandria
Por exemplo, eu creio que foi aqui que estava falando outro dia a respeito dos setentas sábios que trabalhavam no farol de Alexandria, não foi aqui? Conhecem essa história não é?
Que em Alexandria havia um farol de importância única para a navegação daquele tempo. Naturalmente com os meios de iluminação muito precários, nós não podemos pensar nem de longe nos faróis potentes de hoje em dia, estupidamente potentes, de hoje em dia. Mas era o que eles tinham, eles acendiam uma luz lá. Mas aquilo parece que era na ponta de um promontório, e o chão desse promontório estava calçado e posta as muretas ao longo para chegar até a terra, e que nos dias e nas noites quentes do Egito, esses setentas sábios estavam traduzindo a Escritura para o grego — eu não me lembro mais para o que é que é — e então colaboravam entre si, uma verdadeira escola, do Egito já cristianizado, já católico.
Então a gente pode imaginar setenta homens vestidos, vamos dizer de um hábito branco, com o capuz branco também, sentados uns perto dos outros, com livros, e trabalhando serenamente com um ou outro escravo escrevendo para eles, e uma brisazinha soprando o marulhar do Mediterrâneo, de vez em quando um navio grego ou fenício que passa, ou mais tarde as temíveis naus romanas que passam, iluminadas durante à noite. De longe a gente vê que os marinheiros estão tocando e cantando para encher o tempo. E que quando passam perto do farol, em saudação do farol levantam os remos, e depois continuam. E os setenta sábios olham aquilo, fazem os comentários ligeiros: deve vir de lá, devem vir de cá, e depois continua aquela tradução.
Eu me figuro essa vida como sumamente agradável. Não sei se vocês se figuram isso assim, mas eu me figuraria assim. Sem as amolações dessa terra, posta exclusivamente na preocupação de bem traduzir as Sagradas Escrituras, portanto, traduzindo, traduzindo, não sabendo quando é que isto acaba, mas sabendo que se eles morrerem virão outras gerações e que a obra vai ser terminada, na perfeita harmonia uns com os outros e na tranqüilidade de quem não está agredido por nada, e quando vai dormir, dorme numa cela sem vidros, sem algo de parecido com persianas, na brisa agradável que passa, do Mediterrâneo, de uma janela para outra, sobre uma cama de pedra, com um travesseiro de pedra, ao qual eles estão ultra habituados. Não têm leão nem serpentes durante à noite. Eles olham mais uma vez para uma estrela, rezam a Ave Maria Stella e depois adormecem tranqüilamente. De manhã um sino acorda os setenta sábios e o trabalho recomeça.
Eu acho isso aí de uma poesia e de uma beleza extraordinária. Não sei até que ponto este ou aquele entre os senhores se sentiriam atraídos para esse jeito de vida.
(Sr. Gonzalo: Se o senhor estiver aí, estamos todos P. Sum. Mas sem o senhor não dá não.)
* Uma vida que tem aspectos magníficos pode ter aridezes fabulosas, e pode tomar quase aspecto de um cárcere, mas é carregando as duas coisas que vem a beleza da situação
Ahahahahah! Mas vamos dizer o seguinte: os vários objetos que eu estou imaginando, porque eu nunca vi planta desse farol, nem sei se existe essa planta, não sei se guardaram isso em algum velho manuscrito egípcio ou então [inaudível], o que for, mas enfim, seja como for, isso que eu estou imaginando, eu imagino satisfazendo o meu modo de ser, e dentro dessa perspectiva cada objeto tem uma ação de presença que é como de uma arqui-pessoa, quer dizer de um anjo. Então um farol que a gente deve imaginar de pedra alvíssima, branquíssima, para poder ser vista a luz que ele irradia até durante à noite. O farol então ereto e se adelgaçando muito ligeiramente rumo à ponta. Em cima um fogo ardendo, mas com esses materiais que não há vento que apague, não há material que pegue fogo, e a gente vê aquelas chamaradas de vez em quando, e às vezes pelo contrário, a chama quase desaparece, e a gente se pergunta se não terá chovido em cima e acabado o fogo. Mas de repente, é um fogo que passa de novo, a gente se alegra com isso. Depois em torno daquele farol a mureta como dois braços que seguram a gente afetuosamente protegendo contra qualquer perigo. E ao longo da mureta, banquinhos da própria mureta. A pessoa se senta e de vez em quando batem ondas e as gotas salgadas do mar molham um pouquinho a manga, ou molham um pouco o capuz.
O homem que está há vinte anos ali sem sair, passa um pouco da mão naquela água e diz: “água, donde virás? Que sal e que outros ingredientes tens?” Bebe um pouquinho e joga o resto dentro do mar de novo. E aquela água que tocou nos lábios do sábio, vai depois para Cartago, para [inaudível].
(Sr. Gonzalo: Que coisa poética!)
E depois é a realidade!
Tudo isto junto, vamos dizer, os hábitos brancos dão uma idéia de inocência, de inocência confiante, de inocência confortável para a alma, que deixa a alma tranqüila, satisfeita, mas não dão a impressão da coisa assim relaxada, encostada, nem nada disso. O silêncio completo. De vez em quando a gente ouve o barulho da pena de pássaro que racha e que está começando a respingar em cima do pergaminho. Então joga aquilo por cima das águas, e a pena vai flutuando também pelos mares, não se sabe para onde. Trazem outra pena, para a gente começar a escrever. E assim os pequenos episódios da vida…
Mas isso tudo pode ter aridezes fabulosas, e pode tomar quase aspecto, para o indivíduo, de um cárcere. E é carregando as duas coisas que vem a beleza da situação.
Eu me estendi um pouco demais. Mas eu pergunto se os senhores não reconhecem o modo da Providência manusear as nossas almas, dentro dessa descrição?
(Sr. Gonzalo: E [… inaudível] ao demônio também.)
E o demônio que vem.
[Dá um problema numa lâmpada e interrompe um pouco]
(Sr. F. Antúnez: A reunião está fantástica, o senhor não se preocupe, eu já arranjo isso.)
Bem, também eu me limitei a responder a sua pergunta.
(Sr. Gonzalo: E a ação dela?)
* Sem a graça, as coisas não seriam senão o que elas são
Você se lembra a respeito do Claude Lorrain, eu não sei que literato disse: “óh sol sem o qual as coisas não seriam senão o que elas são”.
É isso. A graça é isso. As coisas não seriam senão o que elas são se não fosse a graça.
(Sr. Gonzalo: Agora, a graça tem vitrais que são de categorias diferentes. E a Revolução é um sol negro que tem seus vitrais negros, e para expulsar o pecado de Revolução, os demônios que estão mais empenhados em fazer mal à Contra-Revolução, são certas graças mais específicas que Nossa Senhora dá para isso. E o que houve na cerimônia de quinta-feira foi uma ação da graça, mas de uma graça muito definida, e que essa graça é muito específica para destroçar a Revolução em nossas almas. […] Porque muita gente pode pensar que é qualquer graça que vai resolver o caso, mas não é isso. […] A missão dela e do senhor é explicitamente isso, expulsar a Revolução de cada um.)
É, o demônio da Revolução.
(Sr. Gonzalo: E isso é que nós sentimos muito na cerimônia. […] O senhor teria algo a dizer sobre isso?)
* Qual é o efeito da Revolução que a SDL procura especialmente combater nas almas?
Quer dizer, quando se fala em Revolução e Contra-Revolução; quando se fala em Revolução, vem a idéia da Contra-Revolução, e quando se fala na luta da Revolução e da Contra-Revolução, se pensa numa ação que metaforicamente falando é militante, e, portanto, é a luta que a gente deve desenvolver para vencer as paixões, etc., etc., mas que a gente deve desenvolver para reprimir todos os efeitos que a Revolução tem em nossa alma.
Agora, qual é o efeito da Revolução que ela procura especialmente combater nas almas? Porque a ação dela é uma ação contra-revolucionária. Mas não é uma ação declaradamente contra-revolucionária, embora seja profundamente e, portanto, militantemente. É o seguinte: o demônio Emery procura criar uma situação de heresia branca, em que tudo quanto parece ser efeito da graça sobre as almas é uma coisa emoliente, e que, portanto, desvia, encurta as vistas, debilita a vontade, dá uma espécie de preguiça, de vontade de ser pequeno e mesquinho para não ter que travar as grandes batalhas da luta, etc., etc.
* A heresia branca cria uma caricatura de afeto dando a idéia que as pessoas normalmente devem querer-se muito bem umas as outras
Faz parte disso uma espécie de caricatura de afeto. A heresia branca cria uma caricatura de afeto dando a idéia que as pessoas normalmente devem querer-se muito bem umas as outras. E de fato se querem, e se as pessoas se tratarem bem, a benevolência recíproca jorra daí, e que há um sistema de combater a Revolução pelo afeto, combater a Revolução pelo amor, que leva a que se podem jogar fora todas as armaduras da Idade Média todos os estandartes de Lepanto e de outros lugares, a memória de todos os grandes papas combativos como São Pio V, Urbano II, São Gregório VII, etc., que tudo isso se pode jogar fora como material de uma época falecida da Igreja. E o que fica é apenas um sorriso invariável, uma concessão uniforme, que faz bem, alegra os nossos adversários, e que transforma em nosso amigo. Se você quiser, é o Rotary Club, Lyons e essa porcaria toda.
* O heresia branca nega o caráter militante da Igreja
Agora, por este modo de agir, a Revolução nega o caráter militante da Igreja. Quer dizer, as almas heresia branca negam o caráter militante da Igreja. E esse caráter militante é tão saliente, que essa Igreja na qual nós vivemos, que é a Igreja aqui na Terra, é a Igreja militante. A outra é a gloriosa no céu, e outra é padecente no purgatório. Mas a Igreja militante somos nós. Há, portanto, uma mudança das coisas tendente a fazer do católico, necessariamente o cretino, o imbecil, o idiota, etc., que nós estamos fartos de conhecer e de comentar.
* Descrição do heresia branca anglo-saxão e do heresia branca latino
A devastação que isso produz nas almas é uma devastação enorme, porque ela produz nas almas o que eu acabo de dizer. Mas há, de outro lado, um modo de heresia branca… porque essa heresia branca que eu estou descrevendo é mais latina do que anglo-saxônica, mas há uma heresia branca que é mais anglo-saxônica — meu Gonzalo e meu caro Horácio não me queiram mal — mas é mais anglo-saxônica do que latina, e é o modo de ser Emery dentro da escola norte-americana, e que consiste no seguinte:
Na perfeita correção de uns para os outros em matéria de negócios, em matéria do que for, muito corretos uns com os outros, e com uma espécie de simpatia benevolente de todo o mundo para com todo o mundo. De maneira que uma pessoa precisando do auxílio, dessas pequenas gentilezas, uma da outra, as pessoas se prestam a essa gentilezas com um pequeno sorriso, com uma pequena marca de atenção, e com isso o relacionamento recíproco está estabelecido.
O afeto familiar toma facilmente um aspecto sindical. Quer dizer, o marido e mulher fazem permutas de bons ofícios. Depois fazem bons ofícios aos filhos também, e os irmãos entre sim também. O que resulta de uma certa afinidade, de uma certa simpatia, mas resulta sobretudo da idéia de que é muito prático fazer isto, porque aquilo é uma pequena sociedade de socorros mútuos, com a gente pode contar se cada um for leal dentro do circuito familiar na prestação dos serviços adequados… [vira a fita] … da escola Emery latina, no quê e por quê.
É que na escola latina esse afeto mútuo, ainda que seja alaranjado, etc., etc., se presume que provém de uma afinidade de alma muito profunda, e que consiste no mútuo conhecimento em que ambas as partes sentem essa afinidade. E por sentirem essa afinidade se querem bem profundamente, da onde uma grande dedicação.
Isto não está presente na escola anglo-saxônica. Na escola anglo-saxônica existe um certo afeto, um certo carinho, mas o que está presente é o não olhar muito profundamente, quase que respeitar [inaudível] particular de cada um e não entrar muito nos problemas dele se ele não pedir ajuda. E se ele pedir ajuda também: olha, eu vou dispor para você de 45 minutos, mas meu ônibus passa a tal hora assim, e a tal hora, portanto, eu preciso acabar. O sujeito pode morrer depois que não tem importância. O ônibus que passa daqui a 45 minutos tem prevalência sobre todo o resto. E a própria vítima percebe, e também pensa assim. Se os papéis estivessem invertidos, ele que é decapitado pelos 45 minutos, decapitaria o outro pelos 45 minutos. Mas é assim.
(Sr. P. Roberto: Um latino morria com isso.)
Ah, não ia, simplesmente não ia, nem sei que espécie de angu que dava. Brasileiro então!… nem sei que espécie de angu que dava.
Agora, isto faz uma vida centrada no interesse, centrada numa racionalidade fria, e num não precisar do outro para resolver problemas afetivos internos.
(Cel. Poli: Isso a escola alemã.)
Isso a anglo-saxônica. A alemã é mais sentimental, pode chegar até melada, melada de fuzil na mão.
Como é meu Guerreiro, eu estou contundindo todo o mundo.
(Sr. Gonzalo: Estamos na época dos pingos nos “is”.)
* No fundo, o heresia branca nega o pecado original, e nega o que a graça põe no homem
(Sr. Paulo Henrique: O fato de ser heresia é negar o caráter militante da Santa Igreja.)
Não, é pior, é que no fundo nega o pecado original, e nega o que a graça põe no homem. De maneira que o homem sempre é melhor ou pior do que a heresia branca diz. E isso ela não gosta, a heresia branca, fica indignada conosco, com isso.
Mas afinal, tocamos para frente.
* As almas ficam desajustadas no que elas têm de mais profundo, e a SDL traz um ajuste nesse ponto e tendo como centro ao Sagrado Coração de Jesus, a Deus Nosso Senhor
Isso produz nas almas uma espécie de isolamento, de incompreensão, e no fundo, uma espécie de amputação. Você imagina por exemplo, a falta que um homem sentiria — uma idéia esquisita me vem pela cabeça — mas se lhe arrancasse o maxilar inferior. É quase o caso de perguntar se não se exprimiu bem o francês de hoje que dizia que valia a pena fazer parar o mundo e descer, porque não valia a pena…
(Sr. Gonzalo: …)
E um homem sem o maxilar inferior, arretez le monde, il veut descendre, porque você já imaginou tudo isso pendente aqui, e a língua que não tem onde se colocar, tem que pôr um band-aid dos dois lados para sustentar a língua. O que é uma coisa dessa? Eu nem sei o que é que é.
As almas ficam desajustadas assim no que elas têm de mais profundo, latinas ou alemãs, ou anglo-saxônicas, o que for, elas ficam desajustadas, todas. E trazer um ajuste nesse ponto e tendo como centro ao Sagrado Coração de Jesus, a Deus Nosso Senhor, isto é a missão dela. É propriamente a coisa. Ela vai à alma de cada um, onde essa alma tem feridas das mais doídas, e que a pessoa mesmo não sabe por que é que é, e com a presença dela como que dizendo: eu estou aqui, não se incomode, tudo se arranjará, tudo tem uma solução, venha meu filho!”, se faz uma ação de um alcance contra-revolucionário que é difícil calcular. Este é propriamente o efeito procurado por ela.
(Sr. Gonzalo: Cada um de nós sentiu isso abundantemente.)
E o que houve ontem no auditório, é que todo o mundo se sentia mais ordenado, mais regulado nesse ponto. O maxilar mais próximo de ter sido colocado bem e funcionando direito.
Diga-me francamente se acham isso.
(Inteiramente.)
É esta forma de equilíbrio que ela me deu muito — eu não quero dizer que eu tenha haurido muito.
(Sr. Gonzalo: …)
O fato concreto é que ela… (…)
* Na série de fotografias da SDL, desde o vestido de gala até ela sentada com a neta, ela está com atitudes de um equilíbrio santo
… uma série de fotografias dela, são ou é uma série de fotografias de atitudes de um equilíbrio santo. Porque em tudo, desde o vestido de gala até ela sentada com a neta dela, no terraço da casa de vovó, com um vestido que uma senhora traz quando está em casa, e brincando com a netinha, desde uma ponta da coisa até a outra, ela sempre o que faz é que a alma se aproximando dela, entram elementos de equilíbrio, entram sensações que põem a pessoa nos gonzos.
Agora, e depois passa a Revolução e propõe seus desequilíbrios e a maior parte das pessoas sai do cemitério e vai para a rua já com a idéia de que aquela ação ali foi uma ação um tanto fortuita, e passando pela rua e vendo passar um automóvel muito rápido ou muito bonito, já o desequilíbrio começa. E aí nem falemos. O resto da coisa está entendida.
(Cel. Poli: É curioso que essa missão dela se exerceu depois da morte dela.)
Não se exerceu, encontrou quem a recebesse depois da morte. Ela ofereceu largamente a todo o mundo, mas foi recusada.
(Sr. Guerreiro: Hollywood foi preferido à ela.)
Sim. Isso foi o que se passou ontem. Aquela alegria geral era alegria de pessoas que todas elas, de repente, sentem que o maxilar está em ordem.
(Sr. Gonzalo: […] Esse estado nosso é um estado preternatural.)
Preternatural.
(Sr. Gonzalo: Todos nós estávamos num estado preternatural que ela conseguiu exorcizar nesse momento. […] É bom termos presente que o demônio tem muito mais poder do que a gente pensa, sobre nós.)
Você vê, por exemplo… (…)
* Reação que pode ter um filho do SDP, durante uma Reunião de Recortes, após se ter deixado levar, por exemplo, pelos desequilíbrios da torcida dos negócios
… uma pessoa depois de recusar um equilíbrio desse, de fato entra no circuito, na engrenagem, porque é uma verdadeira engrenagem, dos desequilíbrios que estão por aí, ela anda pela cidade, e chega uma certa hora ela vai assistir a Reunião de Recortes. Agora a Reunião de Recortes pode versar, por exemplo, sobre a matéria de que nós tratamos hoje à tarde. É perfeitamente possível que uma pessoa diga o seguinte: tudo isso é verdadeiro, é útil eu ficar sabendo, eu em certo dia ainda vou saber disso melhor, etc., mas eu agora à tarde me meti num tal desequilíbrio torcendo no sentido de que o negócio que eu fiz é certo, que eu agora não encontro graça nesse tema. E Doutor Plinio que tenha a paciência, mas ele está “pau”.
O que é que é então interessante?
É um tal corretor sei lá, chamado Antonelli, ou qualquer outra coisa assim que deve me telefonar amanhã de tantas às tantas horas dizendo se as ações que eu coloquei subiram ou caíram, e que brinca comigo a esse respeito antes de dar a notícia. Eu me zango com ele, ele brinca ainda mais, e afinal acaba me dizendo que as ações não se moveram. Esse é um homem amigo meu, ele compreende as minhas aflições, e Doutor Plinio não compreende, Doutor está nas teorias dele, nas generalizações… se quiserem está no farol de Alexandria, mas não está onde eu, filho dele, estou sofrendo.
Quer dizer, ele quereria que eu fosse para a charneca dos desequilíbrios e me desequilibrasse com ele, para consolá-lo. Tenha paciência até isso não vai.
Mas acho-os com exceção do meu querido Gonzalo, muito quietos.
(Extraordinário!)
Quer dizer, a pergunta que deveria resultar disso seria a seguinte: o que fazer?
(Sr. P. Roberto: Como voltar para o farol de Alexandria?)
Exatamente.
* Quem resolveu ser um homem que suporta aridezes mal e mal, e que vai logo procurar torcidas em outras matérias, esse homem não dá nada
(Cel. Poli: O caminho o senhor apontou agora.)
O caminho é primeiro saber que sem umas tantas graças sensíveis de caráter místico, discretas ou não, nós não conseguimos isso. Segundo ponto, é saber que com ela o que nós conseguimos é isso, e que nos foi dada para isto. Terceiro ponto, que isto não basta, mas que é preciso agüentar a cruz das aridezes do equilíbrio, porque muitas vezes o equilíbrio é árido. É árido como era árido o farol de Alexandria, como tudo é árido na vida. E se eu faço um programa dizendo-me a mim mesmo: “eu não tolerarei nada de árido na minha vida”, eu fiz um programa de ser um fracassado. Isso é assim.
Quer dizer, quem resolveu ser um homem que suporta aridezes mal e mal, e que vai logo procurar torcidas em outras matérias, esse homem não dá nada.
Eu acrescentaria uma última coisinha a isso. É compreender também as delícias castas e tranqüilas de uma coisa que não é nem o sentir a consolação, nem, é claro, a desolação. Mas é uma espécie de prazer da temperança que é muito parecido com a felicidade da castidade.
A pessoa diz de si para consigo: “eu vou ter poucos prazeres hoje ou nenhum, vou ter um dia que vai ser um dia muito comum, mas no dia comum eu vou ter tal coisa, vou ter tal outra coisa. São pequenas coisas que me alegram e pelas quais eu vou dar graças a Nossa Senhora. Está acabado e não tem mais nada.” Isso faz parte de uma terapêutica do equilíbrio.
(Sr. P. Roberto: A desolação nesse caso fica menor.)
Fica menor. Ela se atenua, fica mais suportável, etc., etc.
(Sr. Paulo Henrique: O senhor tem o equilíbrio perfeito. […]. Agora, o nosso é um desequilíbrio total, somos infiéis… […] Não sei se coloquei bem a dicotomia entre o que se passa com o senhor e o que se passa conosco.)
Sim, colocou perfeitamente.
(Sr. Paulo Henrique: Como seria o que se passa com o senhor?)
* Os tufões e as tragédias externas ou internas, são familiares ao SDP
Quer dizer, houve tempo em que as coisas foram diferentes, mas também as idades condicionam o modo de ser do homem. Mas hoje em dia as aridezes me são raríssimas. Agora, os tufões e as tragédias externas ou internas, me são por assim dizer, vou usar uma expressão exagerada, até não vou usá-la. Me são familiares. O termo errado que ia usar era quotidianas. Isso é exagerado, mas me são familiares. Mas são então tufões terríveis, preocupações terríveis, ou trabalhos pesadíssimos.
(Sr. P. Roberto: Mas o equilíbrio interno do senhor não se altera com isso.)
* “A única coisa pela qual eu poderia perder meu equilíbrio seria de ficar sabendo que eu não cumprirei a minha vocação por culpa minha”
Não. Agora, aí, por quê? Porque Nossa Senhora me deu a graça de Genazzano, e a graça de Genazzano me assegura que… a única coisa de que eu faço questão, e pela qual eu poderia perder meu equilíbrio, seria de ficar sabendo que eu não cumprirei a minha vocação por culpa minha, que não levarei a cabo a minha batalha por culpa minha. Aí eu poderia perder a [tramontana?]. Mas que eu tenha essa promessa de Nossa Senhora, que eu cumprirei. Então vem naturalmente coisas que são realmente terríveis. Essa coisa do Rio Grande do Sul é uma. Basta ter dois dedos de discernimento para entender bem. Mas há um equilíbrio que domina tudo isso, quer dizer: eu cumprirei a minha vocação.
(Sr. P. Roberto: É um equilíbrio axiológico muito parecido com a graças que ela dá.)
Muito, muito parecido. E o hábito de viver com ela, e de por osmose, por assim dizer, quando esses problemas não se punham para mim assim, habituar-me a viver na consonância do equilíbrio dela, e encontrar as minhas delícias na consonância do equilíbrio dela, foi uma preparação inapreciável para isso.
* Perceber um plano de Deus que se deveria realizar e que não se realiza, imprime na alma uma dor muito pungente
Agora, na linha de nossa vocação quando a gente pesa bem as coisas, tudo é importante, e, portanto, o fracasso de qualquer coisa, pode ser uma coisa muito lamentável, e a gente perceber um fracasso assim de uma coisa que esteve na mão da gente e que acaba fracassando, ainda que a gente veja que não tem culpa nenhuma nisso, é um plano de Deus que se deveria realizar e que não se realiza, e por amor de Deus, isso imprime na alma uma dor muito pungente.
(Cel. Poli: É o caso das Congregações Marianas.)
É o caso das Congregações Marianas. Dois casos aqui dentro, que eu vou revelar, e posso revelar, não tem nada. O caso do Paulo Roberto e depois você, o do Horácio.
Eu via o Paulo Roberto dentro do Grupo muito isolado, sem estar ligado nem apoiado nem nada, etc., por uma roda, por um grupo de amigos, por uma coisa que ajuda a pessoa a se inserir nesse todo que é a TFP. Via-o ir ficando mais velho e, portanto entrando na idade onde se começa a fazer reflexões sobre essas coisas, e com medo dos efeitos dessa situação sobre a alma dele. Efeitos conscientes ou subconscientes. Me parecia que havia alguns efeitos — não me diga sim nem não, eu não vou pôr você no confessionário público — me pareciam efeitos subconscientes que ele sentia mas não conscientizava bem, e uma certa forma de azedume e de amargura que ia se acumulando e que podia dar numa crise.
Bem, eu não tenho tempo pessoal para dedicar a ele de maneira a resolver eu esse caso. Mas eu acompanhava o caso de maneira que cada vez que eu o via, eu procurava ver como é que estava isso. Me veio a idéia de fazer convidar o Paulo Roberto aqui para as reuniões. Os grupos pequenos têm um sistema de defesa pelo qual eles não gostam muito de ser acrescidos, e o resultado é que primeiro eu falei com Paulo Roberto, perguntei se ele quereria participar do grupo, etc., etc. Eu me lembro que foi no automóvel depois de uma reunião de J. Gora. Não sei se você se lembra dessa conversa, meu filho, ou não?
(Sr. P. Roberto: Lembro-me.)
Nessa conversa mesma, eu procurei discretamente já dizer algumas coisas a você que o favorecesse, que o ajudasse em alguma coisa, etc., e levou perto de um ano para que eu obtivesse o consenso dos que estão aqui para ele entrar. E eu tinha muito receio de uma resposta negativa. Porque seria uma coisa injusta, sem razão de ser nenhuma, ninguém alegava nada contra, ninguém dizia que não gostava dele, pelo contrário, mas era uma coisa que se fazia esperar, suponho que por uma espécie de preciosismo individualista de pequeno grupo. Uma coisa que funcionava assim: a nossa coisa vai indo tão bem, põe uma pessoa de fora dentro, essa pessoa vai atrapalhar. Para que correr o risco de atrapalhar? Deve deixar ele que nade no mar dele à vontade, nós na nossa canoa temos espaços suficientes para nós e vamos andando.”
Era um sentimento altruísta assim, mais ou menos desse gênero.
Afinal de contas foi possível convidar o Paulo Roberto. E aí eu não tinha a menor dúvida que ele se aclimataria muito bem com vocês, e a coisa correria muito bem, como, graças a Nossa Senhora, aconteceu.
Algum tempo depois eu vi o Horácio, com feitio pessoal diferente do Paulo Roberto, muito legítimo, mas em problemas que tinham alguma coisa disso e que podiam, de repente, tornar-se muito mais agudos. Repeti a cena, mas aí a graça que eles tinham merecido abrindo as portas para o Paulo Roberto, fê-los terem progredido no tempo e abrirem as portas muito mais facilmente para meu querido Horácio. E também eu não tinha dúvida nenhuma de que isto iria correr muito bem, muito naturalmente, apesar do título de Complicados, vocês dos complicados não são, a coisa poderia correr bem. Mas se um dos dois se perdesse por uma recusa nossa, seria para mim uma tristeza, mas uma devastação, que Nossa Senhora me poupou tocando a vocês pela mão.
Agora, quantos casos desses existem na TFP? De que tamanho e de que jeito?
Diga, meu filho?
(Sr. Paulo Henrique: O senhor permite que se desligue o gravador?)
(…)
… ele entretém e atrai de tal maneira o pessoal lá, que quando há assim jantares que parece que ele faz com uma certa liberalidade, jantares com por exemplo para comemorar o bom andamento, o esplêndido êxito dessa fita do dia 21 de abril. Não é uma fita, é de uma apresentação do dia 21 de abril. Que ele manda organizar um jantar fora, no claustro mas ele não comparece porque se ele comparece a conversa vai tão longe que chega até às cinco da manhã, e que para ele então poder fazer o pessoal dormir mais ou menos à hora, ele janta sozinho em cima. Assim mesmo o pessoal parece que vai cutucá-lo em cima para conseguir alguma palavra dele antes de dormir.
(Sr. Gonzalo: Sem dúvida.)
Tudo isso é bem assim, não é?
(Sr. Gonzalo: Totalmente assim. Ele chega e tem que haver um jornal-falado do que aconteceu aqui, demorou uma hora mais ou menos. Todo o mundo abandona os pratos e tudo, e ele fica na ponta da mesa dando o jornal-falado do que o senhor comentou. Depois ele tem que dar uma ordem para todo o mundo continuar comendo, ele vai para cima… mas é muito interessante.)
Ahahah! Porque eu não sei, segundo o meu gosto, desde que o temperamento dele se adaptasse a isso, iria perfeitamente bem… (…)
… mais ou menos assim, o que é que a gente pode fazer?
Um dos pontos delicados… (…)
[defeito de gravação]
* É preciso ter a tristeza pelo mal que foi feito. A tristeza é a contrição; tendo a contrição, esta apaga o pecado e isso de algum modo supre a falta
(Sr. Gonzalo: […] Como deve ser a posição de uma pessoa que foi ou que é responsável por muitas coisas que não andou, e que muita gente se perdeu por atitudes de moleza nossa em relação ao senhor, de onde nunca [inaudível]. Como fazer para manter uma situação de alma equilibrada numa situação de muita culpa? […] De outro lado estamos vivos ainda, e Nossa Senhora pode ter misericórdia e salvar-nos…)
Ela está tendo muita misericórdia.
(Sr. Gonzalo: […] Qual é a posição de alma que o senhor recomendaria a nós?)
Meu filho, é preciso ter a tristeza do mal feito. E a gente tendo a tristeza, é a contrição, tendo a contrição, a contrição apaga o pecado. E isso de algum modo supre a falta. De maneira que a gente deve com tranqüilidade olhar para trás e dizer: eu fiz isso, aquilo, aquilo outro, miserere mei, Deus, secundum magnam misericórdia tuam. Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem mea. Apagai a minha iniqüidade, meu defeito.
(Sr. Gonzalo: E a gente nem sabe que mal as atitudes nossas tiveram, [inaudível] e pede perdão pelo que não sabe?)
* A SDL era o modelo da alma que perdoa
Ah sim. Quer dizer: “Meu Deus, eu noto que por minha irreflexão, necessariamente coisas se passaram que não deveriam ter se passado, perdoai-me.” Mas isso com confiança. Exatamente a isto uma ação como que de presença de mamãe pode ajudar enormemente, porque ela era o modelo da alma que perdoa.
(Cel. Poli: [inaudível].)
Muito! Era o modelo. O perdão dela era completo, era afetuoso, esquecia, não gostava que se lembrasse que fulano fez isso, aquilo e aquilo outro, etc., etc. Ia mar alto o perdão dela.
(Cel. Poli: E com uma integridade total, como o senhor disse.)
Total. De maneira que é tomar com tranqüilidade, compreendendo o seguinte: que se é verdade que ela era assim, Nossa Senhora que é inimaginavelmente mais perfeita do que a pessoa mais perfeita que tivesse tido logo depois dela, porque é incalculável o que é Nossa Senhora, Nossa Senhora perdoa ainda muito mais. E, portanto, a gente colocando tudo nas mãos dela em paz, com tranqüilidade, se resolvem.
(Sr. Gonzalo: […] Essa ação dela é uma ação que vai junto com a ação do senhor, ou que é uma ação que enquanto não se consolida esse equilíbrio, a ação que o senhor é chamado a ter em cada um de nós, não se puder realizar? Porque há um papel que é dela, mas há um papel que é do senhor. Essas coisas vão andando junto, Nossa Senhora primeiro colocará as bases e depois o senhor como que derrama o espírito para os membros do Grupo?)
Eu acho que depende muito do caminho que ela escolha para cada um. Agora, que normalmente falando, eu acho que quando eu procuro exercer uma influência sobre uma alma, eu suponho que normalmente ela exerce ao mesmo tempo essa influência. Suponho. O fato concreto é o seguinte: que apesar de toda a minha truculência, exigências, etc., etc., não me consta que no Grupo alguém me acuse de falta de bondade. E que eu acho que isso se deve a ela. Que o normal seria de as pessoas ficarem não sei de que jeito. Mas no contato comigo, creio que suavizado pela oração dela, etc., que as pessoas sentem a minha boa disposição, etc.
Meus caros, que horas temos?
(Sr. Gonzalo: Está na hora.)
(Sr. F. Antúnez: Lamentavelmente.)
Eu estou com pena do meu Fernando, até agora…
(Cel. Poli: Ele vai ficar mais uma semana, senhor.)
Ah, vai ficar mais uma semana? Otimo!
Manda avisar ao Caio, você [inaudível].
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