Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 17/4/93 – Sábado – p. 16 de 16

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 17/4/93 — Sábado

Como é que se delineou na alma do SDP, o gosto das coisas superiores, delicadas, elevadas e que papel isto exerceu na sua formação contra-revolucionária * Mamãe estava continuamente na contemplação de certas super-realidades que ela considerava e que ela estimava muito * Quando em menino eu tratava com mamãe, eu percebia que dela emanava uma doçura, uma acolhida, uma retidão, uma harmonia de opostos que fazia dela quase uma utopia * A ação de presença da Senhora Dona Lucilia era toda feita de comunicação de imponderáveis * O Sagrado Coração de Jesus era o auge daquilo para o qual a SDL estava orientada * Comentários sobre a foto do Senhor Doutor Plinio na praia de Santos: atitude de frieza antipática em relação ao mundo que o cercava * Na medida em que a imoralidade e a hollywoodização iam crescendo, a SDL ia ficando mais à margem, e com isso o martírio dela ia ficando também mais amargo

(…)

ser muito rápido, mas a questão é que se, talvez, você ainda não conheça, é uma coisa tão interessante que vale a pena dizer em duas palavras.

* Rápido comentário sobre uma notícia de uma nova doença, causada pela televisão

Durante o jantar o João estava me dizendo que apareceu uma doença nova que é provocada, é uma espécie de regressão do ente humano, provocada por razão que não se sabia qual era, e que um médico, um cientista chamado Alzaigner, descobriu. Você ouviu falar disso ou não?

(Sr. Paulo Henrique: Ainda não.)

Em duas palavras é o seguinte: disse que o princípio é de que tudo aquilo que há no homem e que não se exerce — vamos submeter isso ao juízo severo do nosso Edwaldo — tudo quanto há no homem que não se exerce se atrofia, e que foi descoberto por esse médico que há umas célula do cérebro que não se exercem quando a pessoa está muito habituada a não refletir, a não pensar e se deixar levar pela televisão. E que provoca uma atrofia dessas células e essas células por sua vez provocam atrofia de outras partes do corpo e a pessoa vai cada vez mais, sem diminuir o tamanho, tomando o jeito de criança, porque essas células são muito pouco desenvolvidas nas crianças. E que a pessoa morre num atitude de criança deitada na cama.

Eu achava que valia e pena, se você se interessar pelo caso…

(Sr. Paulo Henrique: Para o “Amanhã de nossos filhos” é importantíssimo.)

Pois é, é para isso.

Você perguntar ao João ou ao Edwaldo, se o Edwaldo ouviu falar disso.

(Sr. Paulo Henrique: Esse Haimmer aí é um alemão.)

(Sr. P. Roberto: Isso é muito difundido no Estados Unidos.)

Esse negócio? Você ouviu já falar disso?



(Sr. P. Roberto: Muito, muito.)

(Dr. Edwaldo: Aqui também.)

Aqui também é? Mas como é que chama essa doença?

(Dr. Edwaldo: É a mesma coisa, Alzaigner.)

Alzaigner. Mas eu acho que valeria a pena… Já é admitida como coisa cientificamente certa?

(Dr. Edwaldo: Não, tendo como causa a televisão, ou falta de uso do pensamento e tal, eu não conheço, não vi nenhuma relação. Valia a pena ver o trabalho científico. Porque há uma atrofia de certas zonas do cérebro, a pessoa perde a memória, perde noção de tempo e do espaço, esquece até a própria identidade.)

(Sr. Paulo Henrique: [Relata uma entrevista que um médico deu para “O Amanhã dos nossos filhos” muito contundente, mostrando como a televisão prejudica a saúde.] Talvez possamos falar com ele sobre isso.)

Pois é.

(Sr. Paulo Henrique: [Dá uma explicação sobre um trabalho que vai sair no “O amanhã de nossos filhos”].)

Está bom, me interessa muito como elemento de um libelo qualquer contra o chamado progresso. Vocês não assistiram o que eu assisti que é a irrupção da televisão no mundo, e o encantamento que produziu, o entusiasmo, uma coisa extraordinária, mais essa coisa agora, incomparável!, e tal. Vai ver sai esses horrores. E, portanto, eu queria não deixar de levar isso ao seu conhecimento. Você faça disso o uso que queira.

(Sr. Paulo Henrique: [Dá um resumo de um artigo que saiu no “O Estado de São Paulo” sobre a televisão])

Otimo! Se você pudesse me arranjar isso eu gostaria muito.

Bem, mas vamos às matérias da noite. O que é que temos então.

* Como é que se delineou na alma do SDP, o gosto das coisas superiores, delicadas, elevadas e que papel isto exerceu na sua formação contra-revolucionária

(Sr. Gonzalo: Quarta-feira completará 25 anos da morte da Senhora Dona Lucilia, e nós não queríamos deixar passar a data de hoje, sem que deixar de pedir ao senhor que tenha a bondade de tratar um pouquinho sobre ela. […] O pedido seria se o senhor pudesse tratar um pouco de qual eram as graças místicas que a Senhora Dona Lucilia saboreava, cultivava, e em função da qual ela vivia. […] O sr. Horácio também tinha pedido se o senhor pudesse tratar de uma coisa que o senhor mencionou com os da hipoteca, que são as harmonias da Senhora Dona Lucilia. Que ela era muito convidativa para a paz de alma e ao mesmo tempo para a Cruz de Cristo. Que seriam duas coisas aparentemente meio opostas. […])

Eu vou entrar por um lado um pouco colateral, mas é para tratar realmente disso.

Durante o jantar aqui, estavam presentes o João e o Fernando Antúnez, e começou a se falar a respeito de uma coisa e de outra e tal. Eu não me lembro bem como é que a coisa se introduziu, mas falou-se em determinado momento do seguinte:

Como é que se formou, se delineou na minha alma o gosto das coisas muito superiores, muito delicadas, muito, não diria finas, mas muito elevadas, como é que isso se delineou na minha alma, etc., etc., e que papel isto exerceu na formação contra-revolucionária de minha alma. E aí nós podemos tratar bem do que…

A tendência de minha alma era, naturalmente, para tudo aquilo que despertava em mim certos estados de espírito que eu gostava de sentir, mas não é porque eu gostasse no sentido saboroso da palavra, como uma criança pode saborear uma bala muito boa, mas é um gostar diferente, eu me sentia idêntico a mim mesmo, conforme a mim mesmo, e no caminho que me era próprio, quando eu estava posto na linha da admiração, da degustação de tudo quanto era elevado, etc.

* Um exemplo: a carruagem de Versailles

O fatozinho da carruagem de Versailles é absolutamente característico disso. Eu vi a carruagem, me regalei com ela, mas não era regalar com a idéia de que seria gostoso entrar dentro e passear naquilo. Podia entrar um pouco como um complemento do que eu sentia, talvez entrasse, mas era muito secundário, o problema era como, em si mesma considerada, aquela carruagem era delicada, era harmoniosa, era fina, era superior, tinha uma categoria em função da qual a minha alma se sentia como que em casa, desejoso daquilo.

E depois olhando dentro, e vendo como o que estava dentro era conforme com o que estava fora, uma sensação de autenticidade, como uma criança que dá uma dentada num bombom, acha delicioso, e olha a parte do bombom que ainda não comeu, a criança pode olhar para ver como é. É uma coisa que com freqüência uma criança faz. Aliás, um adulto pode fazer também. E assim, eu olhava para a carruagem como que para um bombom, e percebendo que tudo quanto estava dentro conferia completamente com o que estava fora, e que acentuava, dava uma nota de autenticidade, acentuava o valor que eu sentia na carruagem.

* O esplendor é a casa de minha alma

Agora, isto não era um desejo, eu já disse, de gozar a vida, mas era um desejo de entrar em contato com coisas que me pusessem num estado de espírito em que eu pudesse dizer: “Aqui assim, eu me encontro na minha casa, assim são as coisas como devem ser; não por serem ricas — porque a carruagem era riquíssima! —, é por ela ser esplêndida. Esse esplendor é a casa de minha alma e eu me sinto em casa com isto. Com uma tendência que isto punha em movimento, que era de procurar em todas as coisas fazer uma idéia de como seria o modelo ideal da coisa. Então como é que seria a coisa estupenda, a coisa perfeita, etc., considerada na sua idealidade como é que ela seria. E daí para frente, daí para frente.

E, naturalmente, conduzindo um tanto para o mundo da utopia. E é o lado perigoso disso. Quer dizer, é a imaginação de coisas que não são e nem podem ser e que a gente quer imaginar como sendo para encontrar nelas este estar em casa no mundo do irreal, no mundo do fabuloso, no mundo do extraordinário, que a gente procura ter.

Então, vejam bem, havia uma procura de uma super-realidade que existia de fato. E ao mesmo tempo na procura dessa super-realidade, uma tal avidez desta super-realidade que levava a imaginar uma irrealidade, e com uma irrealidade, uma utopia que levava à depaysé, a tirar do próprio país a minha alma e fazê-la viver bem apenas no mundo do irreal. Então aí o desvio.

* Mamãe estava continuamente na contemplação de certas super-realidades que ela considerava e que ela estimava muito

Agora, o que eu sentia muito com mamãe, era que a alma dela estava continuamente na contemplação de certas super-realidades que ela considerava e que ela estimava muito. Ou eram qualidades morais — isto era mais do que tudo — de certas pessoas que ela prezava extraordinariamente. Teriam ou não teriam tudo quanto ela imaginava? Eu não sei, mas não eram utopias, eram coisas que se as pessoas em que ela imaginava isso não tinham, outras pessoas tinham, eram, portanto, coisas possíveis. Era quando muito a construção de uma coisa que ela não conheceu mas que era possível, não era nada de utópico, portanto.

Não sei se eu faço bem a distinção entre uma coisa e outra.

* Dois modos de imaginar um mundo inexistente: um modo desvia o espírito, o outro eleva o espírito e traz consigo uma repulsa ao mal

Vamos dizer, por exemplo, uma criança que imagina um palácio, e nesse palácio há, por exemplo, um jarro feito de uma ametista colossal dentro da qual um artífice escavou o necessário para colocar flores e água. Que nesse palácio se poderia encontrar um vaso de jade que é o maior jade do mundo, e que tinha tais e tais… Enfim, imaginar uma porção de coisas, um palácio composto de coisas que existem, quer dizer, de material que existe.

Outra coisa seria uma criança imaginar um palácio feito de materiais que não existem, ou que pelo menos não estão ao alcance do homem. Então uma sala que fosse toda ela feita de lua. Então de material lunar, e que a criança imagina projetando a claridade própria à lua, então ali haveria uma sala, e nessa sala poderia haver no meio uma espécie de tanque e com um jorro de água, mas essa água seria uma água com um predicado tal que ao cair em cima do reservatório de água do qual provinha, produzia uma música. Enfim, aí já é utopia. São as coisas que não podem existir. Outra é a imaginação do palácio que não existe, mas que em tese alguém poderia fazer.

A primeira construção, a do utópico, desvia o espírito. A segunda construção eleva o espírito e traz consigo — a segunda construção — uma repulsa ao mal, porque na construção do utópico a pessoa nem imagina o mal, não existe o mal, a primeira utopia é essa: não existe o mal, tudo é delicioso, tudo é maravilhoso, etc., etc.

Na segunda construção não, o mal é possível e até se tomam medidas para impedir que ele se manifeste. Vamos dizer, por exemplo, nesse palácio haveria grades, as grades falam da idéia de alguma coisa que há do lado de fora e que não deve entrar. Pode ser que a grade seja até muito ornamental, mas a idéia que ela traz é de uma vedação, de uma proibição, de um choque com o mal, que no palácio das maravilhas utópicas, no palácio da lua não existiria. No palácio da lua todas as portas seriam abertas, nada entraria de nocivo dentro dele, nem haveria propriamente portas, haveria arcos continuamente abertos, e daí para fora.

* Quando em menino eu tratava com mamãe, eu percebia que dela emanava uma doçura, uma acolhida, uma retidão, uma harmonia de opostos que fazia dela quase uma utopia

E eu, quando tratava com mamãe — eu era muito meninote, eu tinha 3 anos, 4 anos, 5 anos — eu tratava com ela, e percebia que dela emanava uma doçura, uma acolhida, uma retidão, uma harmonia de opostos que fazia dela um todo muito harmônico, e fazia com que eu tivesse a impressão de que ela era uma imaginação, que ela era quase uma utopia…

(Sr. Gonzalo: Uma fada, como aquela pessoa que viu uma foto dela e perguntou se era uma fada.)

Exatamente. Uma fada.

O contrário de tudo quanto eu via em torno de mim. E com tanta doçura, tanta suavidade, tanta firmeza, que eu, às vezes, gostava de ficar perto dela não era para ficar conversando com ela — eu era muito tagarela, e estando com ela eu puxava assunto, mas às vezes ela deixava cair o assunto, ela estava preocupada, pensando em alguma coisa, etc., ou estava rezando, qualquer coisa e me fazia um sinal para eu ficar quieto, porque ela estava ocupada com alguma coisa. Mas já esse sinal para ficar quieto não era assim: “Cale essa boca!” Mas é: “Filhão, fique um pouco quieto ao meu lado, que quieto mesmo você entenderá alguma coisa”.

(Sr. Guerreiro: Ela deixava entender ou dizia?)

Não, deixava entender.

E isso me dava uma impressão assim de uma trans-realidade maravilhosa, e algo de parecido com uma coisa que chama — não sei se vocês ouviram falar —fata morgana, que é uma espécie de miragem que ilude a pessoa, como existe no deserto por exemplo. Então como se ela fosse uma miragem.

* A foto do Senhor Doutor Plinio com a Senhora Dona Lucilia em Águas da Prata: um exemplo do que era sua atitude habitual diante dela

Há uma fotografia por aí, deve andar por essas gavetas, pelas do João Clá, senão pelas minhas, uma fotografia dela em Prata. A gente está vendo que ela tinha ido tomar água porque aquela água segundo a saga médica do tempo devia tomar-se em horas fixas, e ela seguia isso muito exatamente. A gente está vendo que ela estava voltando da fonte e que estava indo para o hotel. Ela era bem moça ainda aí, [eu] não tinha ainda 4 anos, andando apoiada numa espécie de bastão, que não é uma bengala, é um bastão qualquer que pelo mato assim se encontra no chão, ela pegou e como ela tinha uma certa dificuldade de locomoção, ela usava isso, usou isso nesse pedaço de caminho. Não usava habitualmente, mas usou nesse pedaço de caminho. E apoiada no tal bastão, andando com uma decisão… e vê-se que ela estava pensando em alguma coisa que a preocupava.

Mas eu estava junto a ela, à esquerda dela e falando com ela. E ela tomava diante de mim uma atitude em que eu me sentia afetuosamente acolhido, embora se via que o espírito dela estava noutra paragem. Mas eu encantadíssimo com ela, mas encantadíssimo. A minha idéia — ela era naturalmente muito mais alta do que eu — era que se eu pudesse arranjar um banquinho qualquer coisa, para me pôr à altura desse banquinho para falar com ela perto da cara dela para obrigá-la a não deitar atenção naquele outro assunto e prestar atenção só em mim. Mas encantado além do limite do dizível.

Isto exprimia minha atitude habitual diante dela. Era só eu me lembrar… não sei… está brincando, e de repente dissessem: “Mamãe está chamando”. Eu me lembrava dela e ia correndo. Por quê? Porque mamãe estava chamando, e era ocasião de estar com mamãe. Então ia correndo. Assim tinha uma espécie de éblouissement, de deslumbramento por ela, mas que era um deslumbramento todo moral que vinha, exatamente, dessa harmonia, dessa doçura que emanava dela, mas acompanhada de sabedoria, de decisão, de maturidade, de constância, de continuidade, de uma série de outros predicados cada um mais precioso do que o outro, e possuídos sem a menor ostentação, mas a menor das menores ostentações. Nem tinha perigo disso, porque o ambiente dentro do qual ela se movia não achava bonita essas coisas. Absolutamente, não tinha apreço por isso.

De maneira que era preciso uma espécie de vitória sobre o respeito humano para ser assim. Que não tinha tendência, portanto, para a ostentação.

* A ação de presença da Senhora Dona Lucilia era toda feita de comunicação de imponderáveis

E isto era o que o Adolphinho naquela conferência dele sobre mamãe, depois numa carta que ele me escreveu sobre essa conferência, chama muito bem de ação de presença dela, e ação de presença que era toda feita de comunicação de imponderáveis. E que ele descreve muito bem como tendo exercido sobre ele, uma ação muito mais profunda do que tudo quanto ela pudesse dizer. Era uma coisa que era preciso ter conhecido para ter uma idéia de como era.

Agora, naturalmente, vocês compreendem, eu era levado a fazer comparação disso entre ela e as pessoas da idade dela. (…)

* O Sagrado Coração de Jesus era o auge daquilo para o qual a SDL estava orientada

e tendo a idéia de que tudo isso era superior completamente ao ambiente em que estava. Mas depois vendo-a rezar no Coração de Jesus — eu já disse isso — quer para a imagem do Sagrado Coração de Jesus que está hoje no quarto dela, quer para a imagem do Sagrado Coração de Jesus na igreja do Sagrado Coração de Jesus, vendo-a rezar lá, eu via que a alma dela que não se abria inteiramente nos outros ambientes, ali se abria completamente, e de um modo pleno. E a idéia que prevalecia nisso é exatamente que o píncaro das perfeições que havia nela não estava nela, mas estava nEle, e que Ele era o auge daquilo para o qual ela estava orientada. Então a facilidade muito maior do compreender o que queria dizer o Sagrado Coração de Jesus. Enfim, todas as perfeições morais de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Depois, quando ela contava episódios do Evangelho a gente entendia melhor porque compreendia melhor a meiguice de Nosso Senhor, a bondade d’Ele, depois a força d’Ele, etc., etc., de maneira que acaba sendo uma espécie de lição viva do Evangelho, mas o Evangelho à luz da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Era propriamente a coisa.

Isso é o que me ocorreria contar.

* O espírito hollywoodiano era completamente o contrário do espírito da Senhora Dona Lucilia

Agora, isso e a Contra-Revolução.

Naturalmente, o mundo hollywoodiano que eu via nascer em torno de mim era completamente o contrário disso. Mas completamente. E daí o choque e o propósito de combate. A incompatibilidade e o propósito de combate. Mas aí é a Contra-Revolução.

Voilá la reponse!

(Sr. Guerreiro: O senhor comentou que a presença dela era muitíssimo marcada por uma série de imponderáveis. Eu tive a graça de vê-la no primeiro andar, e exatamente essa foi a grande impressão que me ficou dela, da personalidade e depois da voz.)

Uma voz que… eu não sei que crime nós fizemos de não gravar, ouviu?

* Um fatinho: a visita de dr. Bento ao Senhor Doutor Plinio, e a apresentação deste à Senhora Dona Lucilia

[Uma pequena pausa]

(Sr. Guerreiro: O senhor pensou alguma coisa agora, o que o senhor pensou?)

Pensei. Eu pensei um fatinho. Nós estávamos instalados nessa casa há pouco tempo, e ela, quando era solteira, tinha conhecido, não muito, mas bastante, a família do Bento e do Marcos, mas dos avós do Bento e do Marcos. Eu creio que eles nem conheceram. E de vez em quando, antes de eu conhecer o Bento e o Marcos, ela me falava um pouco dessa gente. Eram descendentes de um tal conde e condessa de São Joaquim, mas que eram títulos de nobreza recentes dos reis de Portugal, não do império do Brasil. Enfim, era gente educada e de boa família, etc. E uma vez ou outra entrava isso em cena.

Quando eu conheci o Bento e o Marcos, eu contei a ela que tinha conhecido netos do Conde e da Condessa de São Joaquim, etc. E depois uma manhã, o Bento veio falar alguma coisa comigo, e eu tive que receber aqui em casa — não era manhã, é um modo de dizer, era mais ou menos meio dia e meio, uma coisa assim — tratar comigo, e ela não sabia que ele estava aqui. A porta fechada, e ela viu que a sala estava aberta e provavelmente quis ver por que é que estava aberta fora de hora. Então entrou. Quando ela entrou, nós nos levantamos, naturalmente, e eu apresentei; mas sem fazer referência à família do Bento, eu só disse: “Bento Ribeiro Dantas, um amigo do Rio de Janeiro; minha mãe, etc.”

E ele era assim muito — você tratou bem com ele pode se lembrar — muito cavalheiresco, no modo dele meio descamisado, ele era muito cavalheiresco, muito garboso até. Não sei se você chegou a formar essa mesma idéia, você e o Edwaldo, a respeito dele.

(Sr. P. Roberto: Eu convivi pouco com ele.)

Você conviveu pouco com ele, é? Eu não imaginava isso, pensei que você estivesse convivido bastante tempo. Edwaldo conviveu bem com ele, não é?

(Dr. Edwaldo: Sim senhor.)

(Sr. P. Roberto: Quando eu estava entrando ele estava se afastando.)

É, foi uma tristeza aquilo. Mas eu me lembro que havia um contraste entre o jeitão dele, grandão, king-kong, elegante e nobremente brutamontes, e o jeito dela que vocês vêem nas fotografias, e completamente diferente.

Apertaram-se as mãos e ele beijou a mão dela. Ele era baiano de origem, então aquelas baianadas dele, elogios, amabilidades à la Bahia, que eu aprecio muito, eu gosto muito do gênero.

(Sr. Guerreiro: Mas não pertence ao gênero.)

É, tem um baiano aqui, tinha me esquecido isso. Mas à la Bahia, eu gosto muito do gênero. E ele então disse para ela:

─ “É a primeira vez que eu tenho o prazer de vê-la, mas desde já com alegria de felicitá-la por esse salão tão bonito.”

E ela fez um agradecimento que estava no oposto do dele. Era um sorriso, sem nenhuma palavra, ou uma palavra quase um sussurro. Nós estávamos com pressa, e ela saiu e ele também. Mas nesse momento, o voile daquela janela — se minha memória não me trai — era cor de rosa, e bateu um vento e o voile voou longe até perto dos dois, assim, relativamente perto dos dois, e fez um movimento bonito, e ela saiu por aqui, e ele voltou, sentou-se e nós voltamos para a banalidade do assunto, tatatatatá.

Uma vez que você percebeu que eu pensei uma coisa, foi o que eu pensei.

(Sr. Guerreiro: No olhar do senhor havia uma atitude de alma…)

Ah, apreciando a cena toda e gostando inclusive do Bentão.

(Sr. Gonzalo: Aliás, [precisamos] voltar a rezar por ele, porque no meio do naufrágio todo, de repente ela…)

Ah, eu já tenho pensado muito nisso, e tenho rezado pelo Marcos e por ele. É fora de dúvida.

Mas são essas cenazinhas insignificantes, mas que deixam um certo perfume.

* Outro fatinho: o Senhor Doutor Plinio no Largo do Boticário

É como no Largo do Boticário, ali em frente da sede do Rio, uma vez, eu não sei o que é que foi, mas eu estive lá e não subi até a sede fiquei esperando embaixo, apenas mandei o automóvel entrar no Largo do Boticário enquanto gente que estava comigo, gente do Rio ou de São Paulo, pouco importa, subiu na sede e eu fiquei embaixo. E com aquelas casinhas, aquelas coisas todas pitorescas do Largo do Boticário, e de repente eu vejo sair de uma casa com um jardim, nem era jardim, um parque com umas árvores frondosas, estilo Rio de Janeiro, muito bonitas, eu vejo sair uma mulher que parecia um pesadelo. A coisa era mais ou menos assim, que ela levava pela coleira um cachorrinho, uma coisa qualquer assim, e falava sozinha. Velha. Mas ela estava meio louca, mas meio louca não de idade, mas porque era meio gagá, ou tinha ficado meio gagá, e via-se que ela era dona daquela casa. E que ela estava idealizando um encontro com os rapazes da sede do Rio, e falando com eles como se eles estivessem presentes. Ela não me viu. Ela levava atrás dela uma espécie de criadinha, uma coisa assim, mas que eu acho que era uma guarda-louca. Se ela quisesse se jogar naquele riozinho, segurava a mulher, não deixava.

Quando apareceu… Eu vi atrás — o meu automóvel estava de costas para aquela entradinha que passa da rua Cosme Velho para o Lago do Boticário — eu vi por detrás que vinha o pessoal da sede para me pegar para irmos embora, para o quê, já não me lembro, só me lembro que foi isso. E a mocinha que acompanhava a ela, vendo vários moços que chegavam e à la nosso gênero, dando risada, e falando e fazendo barulho, que a mocinha se pôs a querer namorar os rapazes, e fazendo umas micagens para os rapazes. E eu percebia pelo jeito dela que nenhum estava dando entrada nenhuma para ela. Minha impressão é que nem tinham percebido a ela, nem a louca nem nada. Eles estava conversando entre si e não deram atenção a nada. Mesmo porque, no tempo da Bagarre Azul não era hábito prestar esta atenção meticulosa nas coisas que desse para descrever uma cena tão meticulosamente como eu estou descrevendo.

Mas eu ouço então a mulher dizer. A mulher falava assim, resmungando, e dizer para eles: “É isso sim, e vocês comigo, não me amolem, hein, porque eu conheço o chefão de vocês, eu sou lá de São Paulo como ele, e se houver alguma coisa, eu falo com ele, e ele põe vocês todos no lugar.”

Quer dizer, que essa mulher me deve ter conhecido antes de ficar louca. Eu fixei a vista para ver se reconhecia quem era. Mas não reconheci, não cheguei a reconhecer.

Chegando a São Paulo, eu contei em linhas muito gerais à Rosée a cena, e disse à Rosée: “Mora naquela casa um Bitancourt.”

Rosée disse: “Ah você não lembra quem é?”

Eu disse: “Não, não me lembro.”

É Fulana de tal Arruda Botelho — é uma descendente do Conde do Pinhal — que nós conhecemos em tal ocasião assim, assim, e que ficou louca. Mas o marido dela é muito bondoso para ela e mantém-na na casa. Podia mandar para um hospital de loucos, não manda, ela vive bem lá como uma louca pode viver.

E então essa recordação entre a calma esplendorosa… [vira a fita] … a louca atravessando aquilo nos delírios irrecuperáveis dela. A mica procurando namorar rapazes que não prestavam atenção nela. E a TFP que chega festiva, casta e inocente, no meio dessa bagunça, constituiu um tableau. São dessas coisinhas de que a gente se lembra, e da qual as memórias de vocês estão povoadas também, cada uma das suas, não é?

(Sr. Guerreiro: Com todos os requintes do pincel artístico que o senhor acabou de ilustrar.)

Mas eu garanto que vocês também se lembram bem de coisas dessas, é questão de ter o hábito de dizer. E o meu querido baiano acho que sabe fazer isso muito bem. Ahahah!

Bem entendido, vocês sabem, que se ela estivesse lá na praça, sabendo quem era, ela: “Não, coitada, eu vou lá para sossegá-la um pouco”.

Chegava e dizia: “Olha aqui fulana, eu sou Lucilia, você vai bem”. E agradava a fulana. E sossegava. Quando ela saísse a mulher estava mais tranqüila.

(Sr. Gonzalo: Nesta linha não há uma ação dela que possa acentuar-se mais, dada a necessidade da Contra-Revolução? Não só na linha do sossego, mas em ajudar-nos a nós a entrar nesse mundo maravilhoso… […] E que quebra muito os padrões heresia branca.)

Nada de que eu estou descrevendo é heresia branca. Essa cenazinha aqui com o Bento, nada é heresia branca.

(Sr. Gonzalo: […] O senhor não acha que ela tem um papel a ajudar-nos a quebrar essa crosta que existe, que nos fecha para essa consideração de coisas esplendorosas? […])

Eu acho que seria numa ação fundamentalmente contra-revolucionária, e até sem a qual a Contra-Revolução não é possível. Chega até esse ponto. Mas uma vez que você faz a pergunta eu digo o seguinte: eu estou por exemplo descrevendo a ela. Vocês estão pensando nisso, naquilo e naquilo outro… (…)

* Comentários sobre a foto do Senhor Doutor Plinio na praia de Santos: atitude de frieza antipática em relação ao mundo que o cercava

O fato concreto é o seguinte: é que o valor moral nessas coisas não está apenas no ter gostado, mas é no ter se exposto a todas as formas de ostracismo para não deixar de gostar.

Quer dizer, Nossa Senhora pediu uma fidelidade a isso de custar sangue, mas sangue, sangue. E aquela minha fotografia em menino, na praia, pensativo, era esta questão: permanecer fiel a todos esses estados de espírito, a todas essas coisas, equivalia a uma distância entre aquele mundo e eu, que não se declarava de um modo beligerante, mas declarava-se uma espécie de hostilidade, de frieza — não era ainda de hostilidade — mas de uma frieza antipática.

(Sr. Gonzalo: Isso não é o ato de virtude imenso que é o contrário do pecado imenso?)

Naquela fotografia, por exemplo, eu estou vestido de uma determinada maneira, aquela maneira era a maneira pela qual o costume naquele tempo exigia que um menino de boa família estivesse vestido. De maneira que não havia nenhuma objeção a fazer desse lado. Educação eu tinha. Qual era a razão dessa distância?

* Os sanduíches de língua e o papa-níquel

Mil coisas. Por exemplo, havia um bar nesse hotel, e um bar onde aliás faziam sanduíches de língua, deliciosos, que eu comia à vontade. E havia um negócio chamado papa-níquel, que é uma espécie de roletinha, mas perpendicular, a gente punha uma moeda, apertava uma coisa, aquilo girava e saíam algumas moedas ou nenhuma moeda, dependia do que fosse. E havia uma mesa ou duas de bilhar, tudo junto na mesma sala, e cheio de rapazes mais ou menos de minha idade, porque os rapazes e as moças se misturavam muito menos naquele tempo, e sobrava tempo, os rapazes ficavam um tempão enorme conversando entre si, enquanto, a uma certa distância, as moças conversavam entre elas. E eu no meio, porque eu tinha que estar em algum lugar, portanto, estava lá.

De repente, eu notava o seguinte: o papa-níquel funcionava várias vezes de modo ruinoso para o rapaz “x” que estava jogando lá, e alguns outros brincando com ele: “Sai, não sai, puxa; sai, não sai, puxa; sai, não sai, puxa.” Em determinado momento, furor geral, pegam a máquina e começam a suspender e sacudir a máquina com todo vigor para ver se assim ela começa a dar dinheiro. Gargalhadas, porque começa a dar dinheiro.

Bem, minha seriedade natural: “Vocês estão roubando! E roubar não se pode fazer”.

Mas todo o mundo ria em torno de mim e achavam natural que eu risse também. Mas se eu risse, eu estava estimulando o roubo. E eu pensava o seguinte: “Se eu disser para esses rapazes que estão aqui, para cada um deles: você é um ladrão!, eles ficariam indignados e sairia uma cena de pugilato. Mas como todos estão roubando coletivamente, o pugilato é contra o homem que diga: vocês são ladrões.”

Isso determinava de minha parte uma atitude de chevalier à la longue figure. Eu ficava com uma cara assim, e olhando para o que todo o mundo estava dando risada.

Você compreende… o mal-estar, a gene que isso provocava neles. E eu tinha que tomar um ar de quem não percebia, não tinha medo nenhum, estava tão indiferente, que eu estava olhando com uma displicência cheia de tédio para aquilo, mas inteiramente despreocupado. Sabendo que daí há uns minutos eu podia tomar um taco de bilhar na cabeça, ou começar qualquer história. E que os meus parentes que estavam ali não me valeriam para nada. Mas estritamente nada.

* Uma estação em Santos era uma estação de tormento

Mas se eu não pensasse assim, eu quebraria minha adesão à Igreja Católica. Porque quebraria. Eu ia fazer profissão pública de que um determinado Mandamento da Igreja era irrelevante e podia ser calcado aos pés que não tinha importância nenhuma.

Eu sentia que se eu saísse logo depois desse episódio, como eu não ia ouvir o que se dissesse, ia sair uma murmuração contra mim, então eu tinha que ficar lá, até eu sentir que o episódio estava meio esquecido, para depois sair. Isso não faz férias para ninguém. É um martírio. Mas é preciso agüentar, agüentar, agüentar.

Depois com essa contradição que eu gostava muito da boa vida. Quer dizer, praia, era por inocência, mas gostava enormemente de praia, de olhar para o mar, enormemente; de estar ali naquele hotel a dois dedos do mar, e ouvindo o ruído do mar…

(Sr. Guerreiro: Um bom hotel.)

Otimo hotel, era o melhor hotel de Santos, onde iam as melhores famílias de São Paulo, etc.

Tudo isso junto, eu gostaria enormemente de tudo isso, e se isto existisse num mundo inocente, eu me apegaria a isso prodigiosamente. Mas esses lugares que para minha inocência eram lugares de delícia, de fato eram lugares de tormento. E uma estação em Santos era uma estação de tormento.

(Dr. Edwaldo: E sem poder partilhar com ninguém.)

Não, com ninguém, porque se eu fosse dizer isso, diriam que eu estava louco.

* A Senhora Dona Lucilia em face ao isolamento do Senhor Doutor Plinio

(Sr. P. Roberto: Ela chegava a perceber alguma coisa disso?)

Mamãe? Sim, o que ela chegava a perceber eu não sei, mas eu sei que ela chegava a perceber.

Eu contei a vocês um episódio e um comentário dela de mim chegando com pasta do colégio São Luis e abrindo o portão da casa, não é? Aquilo mostra bem o que ela percebia.

(Cel. Poli: Percebia tudo e acompanhava com uma acuidade…)

E com muita oração e com muita ação de presença, mais uma vez.

(Sr. Gonzalo: O senhor disse uma ocasião que ela não percebia tudo. Que esse como que aparentar abrutalhar-se que era para acomodar-se por jogo político, que ela não percebia isso, por isso que ficou aflita.)

Não, mas quando eu digo que ela não percebia tudo, quer dizer, ela percebia, se isso fosse um ato verdadeiro, tudo que significava.

(Sr. P. Roberto: Mas eu pergunto se ela não percebia a luta que o senhor tinha que desenvolver, o sofrimento, o isolamento.)

Não propriamente, porque ela me via sempre dentro de casa e no meio dos meus primos, e de minha irmã, etc., e sempre, quando era mocinho, um bando muito alegre, etc., e eu em parte por ser muito expansivo, e em parte porque eu sabia que de momento entre eles não sairia nada comigo, e eu ficava muito à vontade, muito despreocupado, e em parte porque eles se agradavam muito de minha companhia, e queriam me ver estar falando, me ver estar gracejando com eles, etc., etc. E isso levava-os a terem muita consideração comigo, como um juju que não se quer quebrar. E, portanto, no meio onde eu me movia, ela não sentia isso assim. Aí ela tinha uma idéia…

Rosée contou aqui uma coisa que eu nunca percebi que fosse assim. Ela contou que quando lá no jardim de casa tinha aquela primalhada toda, que começavam, o que toda criança faz, devem ter feito no seu tempo, no tempo do Horácio, que é o mais jovem aqui devem ter feito, andar de bicicleta pelas avenidas do jardim, etc., essa coisa de mocinho e mocinha, etc., e pelo meio dizem brincadeira, graças etc. E a coisa não começava enquanto eu não aparecia, e que ficavam todos lá esperando, meio languissant, e que quando eu aparecia que a coisa tomava vida. Antes tudo ficava um brinquedo meio ensabugado.

(Sr. Guerreiro: Ainda na expectativa.)

Ainda na expectativa. E que eu era muito displicente, e que aparecia quando queria, e às vezes com atraso, porque eu ficava lendo, porque eu ficava conversando com mamãe, porque isso, porque aquilo, e que eles ficavam lá esperando, mas não ousavam reclamar. Eu nunca notei que isso fosse assim, que podia ser um elogio fraterno dela, exagerado. Mas era como ela apresentava.

Mas eu me lembro muito que uma ocasião, naquele tempo…. (…)

* Na medida em que a imoralidade e a hollywoodização iam crescendo, a SDL ia ficando mais à margem, e com isso o martírio dela ia ficando também mais amargo

(Sr. P. Roberto: Mas é muito semelhante a luta que ela tinha que enfrentar com a do senhor.)

Muito! Muito! E depois em todo gênero. E depois foi crescendo, porque na medida em que isto ia piorando, quer dizer, a imoralidade ia crescendo, a hollywoodização ia crescendo, ela ia ficando mais à margem, forçosamente. E com isso o martírio dela ia ficando também mais amargo.

(Dr. Edwaldo: Sobre isso nem o senhor falava com ela, nem ela com o senhor.)

Não. Havia um princípio, ouviu Edwaldo, que era tido como princípio de boa educação, que mesmo entre mãe e filho, certas coisas que tocassem muito com o interior da alma, não se falasse.

(Sr. Gonzalo: Mas é mesmo assim, o senhor não acha não?)

Não, eu acho que a barreira era excessiva. Mas enfim, essa barreira existia, ela era muito formalista, eu também e portanto observava isso por temperamento.

(Sr. Gonzalo: Curioso, porque dona Rosée nunca perguntou ao senhor por que o senhor tinha fundado a TFP.)

Nunca.

(Sr. Gonzalo: Eu queria saber por que ela não perguntava, se era por essa barreira…)

Não, era uma outra barreira. É que ela e toda a família com exceção de mamãe, tomava a minha posição de líder católico como se fosse uma coisa meio vergonhosa, e uma coisa socialmente meio própria à decadência, e, portanto, é uma coisa sobre a qual não se deveria falar. É mais ou menos como, por exemplo, eu tinha alguns parentes mesaliados, casados com gente com quem não deviam casar-se. Eles freqüentavam a casa, mas nunca se perguntava como é que ia a esposa, a esposa hein!, esposa legítima, nem os filhos.

(Sr. Gonzalo: É curioso que ela nunca, desde jovem, tenha perguntado porque o senhor tomou esse caminho.)

Não ousava porque ela via que saia briga, mas briga furibunda. Então para evitar a ruptura de relações, ela não tratava e eu também não. É uma coisa que a gente compreende.

Mas é um mundo já muito diferente do de vocês, não é?

(Sr. Gonzalo: É o único mundo que vale.)

* Recordações de fatos ocorridos na sociedade de São Paulo, na época da Senhora Dona Lucilia

São coisas desse mundo que vocês não têm idéia… (…)



dois outros irmãos judeus como ele. Não tem remédio. E esses dois irmãos judeus, enquanto o meu judeu era ultro prolífico, teve uma série de filhos, uma série de netos, dava para uma tribo, os dois outros eram estéreis. Casaram-se com duas irmãs que eu desconfio que eram judias também, e que não tiveram filhos. Mas eram muito ricos também, porque judeu faz dinheiro. Com o café aqui, etc., etc., faziam um dinheirão. E aconteceu que um deles, um homem muito feio, diziam deles que ele tinha cheiro de bode… homem!, é o que se pode imaginar de deplaisant, mas muito rico, uma vez ficou colocado diante dessa situação.

Havia no Rio de Janeiro, mas o Rio comércio, o Rio porto de mar, não o Rio balneário e Rio social, havia um navio mercante do qual era comandante um dinamarquês, e esse dinamarquês manejava os dinheiros do navio. Um comandante de bordo de navio mercante com muita movimentação tinha que manejar muito dinheiro, compra comida, vende comida, ele faz isso, faz aquilo, é toda uma história. Para encurtar, em determinado momento, ele procurou a mulher dele e disse:

─ “Fulana, eu queria dizer a você o seguinte, que eu estou na iminência de ser preso e levado para a cadeia, e nossa filha — ele só tinha uma filha, solteira — não vai encontrar marido, porque ninguém vai querer casar com a filha de um homem que está na cadeia. Ela, portanto, vai ficar solteirona, está com a vida dela engarrafada e você está na miséria. Você com ela não têm com que viver, e a única saída que tem é casar nossa filha com o tal judeu assim, esse, aquele e aquele outro. Que é mais velho do que nós, pais dela. Mas o judeu viu-a, encantou-se por ela, e quer absolutamente casar com ela. Ele sabe dos meus apuros e me disse que antes do casamento — é horrível, não é? — antes do casamento, ele põe na minha mão todo dinheiro. Ela casa, ainda que seja com esse bode, você fica numa posição normal, e eu fico com minha eterna vergonha diante de vocês carregando. Eu é que amarrei a pobre Selma — chamava-se Selma — a ele, vou ter a vergonha eterna do que eu fiz, e vamos viver assim, qualquer outra fórmula é pior.”

Chamam a Selma. A Selma é o que poderia haver de moça fina, educada, bonita, e jeito de uma pessoa boníssima, mas boníssima…

(Cel. Poli: E moralmente boa.)

Moralmente muito boa. Gostava muito de mamãe, por exemplo. Muito direita, etc. E puseram o problema para ela. Ela não tinha visto o bode. Foi ver o bode. Organizaram um encontro, e eu posso calcular o horror que ela teve. Uma coisa…. mas de outro lado, o papai iria para a prisão, e ela tinha um xodó tremendo pelo pai, queria enormemente bem o pai. E percebia o martírio do pai. O pai teve até um derrame, uma coisa qualquer, e ficou manco, com esse negócio. E quando chegou o fim do prazo, ela disse: “Está bom, eu vou casar”. E casaram.

E ela era, portanto, essa Selma, era tia da mulher do meu tio, e vinha muitas vezes a São Paulo e ia à casa do meu tio onde eu a encontrava muito. Ia a um cinema que havia perto lá, onde também eu a via muito. E uma vez ou outra ia em minha casa, também a via. De maneira que era uma pessoa que eu vi muito. E me dava pena de ver o seguinte: sempre bem vestida, com muito bom gosto, mas sem aparato de mulher que se vendeu para ricaço. Distinta, mas discreta. O jeito apagado.

Ele sentava a mulher na frisa, na primeira coisa, e ficava sentado mais para trás para evitar de serem vistos juntos. Ficava sentado mais para trás, e ela durante os intervalos, ela olhava para as pessoas que estavam lá, se ela conhecia alguém cumprimentava, mas com uma cara de tristeza profunda, mas uma tristeza de devorar a alma. E eu tinha uma pena dela enorme. Razão pela qual eu a tratava muito bem, com uma atenção especial. Porque tinha verdadeiramente pena. Depois me admirava que uma pessoa tão bonita, tão moça, não tivesse sucumbido a tentação, de uma vez dado o dinheiro para o pai, dizer: “Está bom, eu não caso! Vá embora você agora, e eu não restituo o dinheiro. Que prova você tem que deu esse dinheiro? Cão, sujo, sai daqui!”

Era uma tentação, não quero dizer que ela fizesse bem. Mas tentação não é de fazer o bem, é de fazer o mal.

Ela sempre cortês com ele, educada com ele. Ele fazia gafes, dizia coisas que não devia dizer, ela, às vezes, assim em rodas mais íntimas repreendia e dizia: “Mas João, pensa um pouquinho, não diga isso dessa maneira!

Mas é assim mesmo! Por que é que você quer esconder? Minha vida foi essa! O dinheiro que está aqui veio disso.

Está bem, mas olha aqui, nós falamos disso depois, mais tarde quando estivermos juntos, nós conversamos.

Está bom, você me explica isso direito depois.

Uma coisa….

Bom, esse homem sentiu-se ficar velho e percebeu que ia morrer. Fez o testamento. Papai foi o advogado que redigiu o testamento. Mas o testamento era secreto, e papai, portanto, não podia dizer a ninguém, com segredo profissional.

Quando abriram o testamento, com a morte do homem, papai confirmou. Aí estava público. Ele deixava uma quantia pequena para a mulher.

(Sr. Gonzalo: Tudo é maldito…)

Mas tudo isso é….

(Sr. Paulo Henrique: Gente ruim mesmo.)

Ruim! E todo o dinheiro ia para os dois irmãos estéreis.

(Sr. Guerreiro: Ele não teve filhos?)

Ele não teve filho com a Selma.

Mas daí as coisas também se desfizeram, porque ela passou a morar no Rio de Janeiro, e lá com as relações dela, que eu nem sabia quais eram, não a vi mais. E de outro lado, lá aqueles outros… aquilo tudo se desfez. Mas desfez os outros no dinheirão, e ela no dinheirinho. Ela tinha para viver sem trabalhar, mas modestamente. Não era uma coisa que ele devesse fazer. É horrível, é espantoso!

Bom, anos, anos e anos depois, abriu-se a TFP, fundou-se o Grupo do Rio, entrou o Otto no Grupo do Rio, e anos depois do Otto entrar no Grupo do Rio, ele uma vez me disse:

─ “Eu ouvi falar muito bem do senhor.”

Eu disse: “Quem é que falou?”

─ “Dona Selma de tal coisa assim.”

─ “Mas como é que dona Selma soube que você se dava comigo?”

─ “Não, conversando assim — eu vi que a dona Selma estava na família do Otto — eu disse que ia a São Paulo estar com o senhor e ela disse que lhe conhecia muito, e que gostava muito, etc.”

E eu disse: “Olha, você estando com dona Selma, você aproveita para dizer que eu fiz as melhores referências, que eu tinha muita simpatia por ela, mamãe também, etc.” E depois eu nunca mais ouvi falar da dona Selma. É a vida!

(Sr. Guerreiro: Uma coisa surpreendente é que nesse momento da história que o senhor formou uma certa noção da vida, curiosamente se passavam certos casos arquetípicos. Eu não sei se isso na geração do senhor era assim, porque depois as coisas acontece até trágicas, mas acontece com um tal desbotamento, de tal modo as coisas todas caíram, que esses dramas assim as pessoas não sentem mais, as pessoas que sofrem o drama não sofrem mais, não falam…)

A primeira regra é não contar. Não contar a ninguém. Que daria matéria de romance.

(Sr. Guerreiro: É uma espécie de apagar…)

Mas um apagar a respeito do qual eu posso dar testemunho num ponto. As pessoas começaram a deixar de ser bonitas. As senhoras foram ficando cada vez menos bonitas. Com o homem o problema de bonito põe-se muito menos, mas na medida em que se põe, também começaram a ficar cada vez menos apresentáveis, menos bonitos, e tudo mais comum, mas ordinário, mais assim…

(Sr. P. Roberto: Aquela cena que o senhor comentou do voile, foi uma espécie de última homenagem a esse mundo.)

É isso. É um mundo que acabava.

(Sr. Guerreiro: Como em poucos anos o mundo se precipitou…)

* Gradualmente todo o mundo passou a viver cinematograficamente

Mas isso é fruto de Hollywood, porque a fita de cinema já apresentava a coisa de modo diferente, gradualmente mas de modo diferente, e todo o mundo, passou a viver cinematograficamente.

Eu conheço um caso — é simplicíssimo, vou contar portanto, numa palavra. Um homem da geração da dona Selma, já não mais da geração da minha avó, dos judeus, etc. Esse homem era casado com uma moça, esse homem e essa moça era o tipo do casal moderno daquele tempo. A moça chegou para o marido e disse: “Olha aqui, eu estou esperando nossa primeira criança”.

Ele disse: “Mande vir um médico para abrir você e arrancar a criança de dentro. Porque é um despudor uma mulher ostentar a criança que vai ter”.

Não é despudor nada, é um… não tratemos disso.

Bem, a mãe disse: “Não, eu não quero fazer isso.”

— “Sei, está bom.”

Dias depois, a mãe estava deitada e vem a criada e diz: olhe, sr. fulano entrou no banheiro para tomar banho e não sai mais. E parece que ele teve algum colapso cerebral, alguma coisa assim. A senhora veja o que é.

Ela se levantou, foi depressa ver, etc., bateu na porta, ele não respondia, todos os dramas que se possa querer.

Afinal, depois de muita coisa, ele saiu do banho, secou e apresentou-se. Ele tinha feito isso para ver se a mulher ejetava a criança. O medo dele ter morrido às vezes precipita. Então ele tentou matar a filha desse jeito. Isto já era contado sem nada de dramático. Uma coisa da qual eu achava que… Quer dizer, não tem palavras, meça o tamanho desse pecado!

Bem, meu caros…

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