Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
3/4/93 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 3/4/93 — Sábado
O sentir-se vinculada, em determinado ponto, ao princípio da vocação, impede a pessoa de traí-la, embora ela possa cometer erros e disparates * O tédio é o fator que mais freqüentemente assalta o membro do Grupo, e que pode levá-lo à abandonar a companhia do SDP * Ficar fiel, e de uma fidelidade redobrada, à graça que foi sensível e não o é mais: este o pagamento que Deus nos pede pelo dom místico que nos concedeu * Devemos pedir, ao mesmo tempo, a graça mística e uma grande adesão a ela, que persista quando a sensibilidade tiver passado * Algumas das inúmeras provações pelas quais passou o SDP, em cascata * A fidelidade do SDP, levada ao ponto de suportar o insuportável, é a disposição que é o contrário da traição
(Sr. Horácio B.: Por exemplo, quando eu saio de um chá ou uma reunião, anoto para guardar os pontos altos da reunião para saborear as graças místicas.)
Mas o que é que você guarda nessa….
(Sr. Horácio B.: Habitualmente, eu anoto discretamente os cortes para depois na reunião…)
Ah, os cortes…
(Cel. Poli: É um anotador de primeira, senhor.)
(Sr. Horácio B.: Nas reuniões de 5ª feira eu relembro os cortes.)
Ahahahah! Está bom! Não conte isso para o Luizinho porque ele vai querer ter todos, ouviu? Sem nenhuma dúvida.
E por onde é que entramos hoje?
Meu Gonzalo, eu queria perguntar a você o seguinte: um conjunto de páginas do “Point de Vue” com o negócios dos clãs está com você, não é?
(Sr. Gonzalo: Não, Senhor Doutor Plinio, eu estou com muita vontade porque o senhor me tinha dito…)
Meu filho, você como vai, está bom?
(Sr. Guerreiro: […inaudível].)
(Sr. Gonzalo: O senhor tinha dito já para mim que eu estudasse isso, mas não recebi o material e creio que houve uma…)
Um extravio qualquer. (…)
* O sentir-se vinculada, em determinado ponto, ao princípio da vocação, impede a pessoa de traí-la, embora ela possa cometer erros e disparates
(Sr. Gonzalo: […] Pedimos que o senhor tratasse desse assunto, abrisse a alma sobre isso.)
Mas sobre que ponto, então, em concreto, meu filho?
(Sr. Gonzalo: Sobre esse fogo novo nascendo da alma do senhor e depois também o que disse o sr. Juan Miguel: compenetrando-se de que “uno” é um embaixador desse fogo sagrado que desceu do céu, não tem que temer nada. E isso enquanto antídoto contra a traição. Não sei se está claro assim.)
Está muito claro.
Na realidade, o antídoto contra a traição é este. A pessoa pode, vamos dizer, cometer disparates, erros, etc., etc., de toda ordem, mas se a pessoa em um determinado ponto se sente vinculada pela vocação, se sente vinculada ao princípio da vocação, há alguma coisa que segura a pessoa e que impede a pessoa de fazer a traição. Eu dou um exemplo muito característico disso, da seguinte maneira… (…)
* O tédio é o fator que mais freqüentemente assalta o membro do Grupo, e que pode levá-lo à abandonar a companhia do SDP
… vários fatores podem assaltar uma alma nesse sentido. E o fator que mais freqüentemente assalta, tanto quanto eu possa julgar, não é inveja, nem aquilo, nem aquilo outro, é o tédio.
(Cel. Poli: O tédio é pior do que a inveja?)
Não é questão de pior, é mais freqüente. Pior, já é outro problema. Mas é mais freqüente. E é por causa disso que nas reuniões, por exemplo, o fato que pesa mais contra a reunião é o tédio.
(Sr. Horácio B.: O tédio pode levar à traição também?)
Pode, porque o tédio leva a pessoa ao desejo de abandonar essa vida, e de abandonar a minha companhia e minha influência tidas como muito tediosas. E então evadir-se.
* As justificativas que um tedioso procura para separar-se do SDP
Mas na evasão, o sujeito procurar para justificar-se — eu vou falar com franqueza — vamos dizer, se eu fosse tartamudo e falasse de um modo muito estropiado, eles diriam: “Eu não agüento uma dicção como aquela durante muito tempo.”
Se eu tivesse outros defeitos mais ou menos assim, a pessoa podia dizer: “Olha, tem isso, aquilo”. Dava para si uma satisfação. A tartamudez muito insistente, muito marcada, etc., etc., pode dar impaciência. Se você vai privar com uma pessoa que desde a manhã está titubeando para dizer o que diz, pode dar uma impaciência. Aí, depois vem a censura contra o que eu disse, porque o que eu disse não estava bien tourné. Depois, mas adiante, é porque eu costumo tourné mal tais e tais outros pontos. No fim é porque, no fundo, eu sou mais ou menos como um navio que tem um rombo, o navio flutua, mas desde que haja um pequeno balançar das águas, começa a entrar [água] por uma brecha que tem mais alto, e o navio fica mais baixo. E começa o drama e afunda o navio, etc. São coisas que podem dar-se facilmente.
E este tédio é agravado pelo seguinte: é que o tédio quando vem acompanhado de seriedade, de uma certa compostura e uma certa solenidade, fica ainda mais tedioso.
Eu não tenho direito de fazer isso, mas se eu fizesse, de me tornar mais banal para reter uma alma, acontece que ele começaria a dizer: “Está vendo, isso aqui é uma coisa rachada, ele no fundo é um bobão. No fundo tem uma altura comparada à nossa, não tem nada demais.”
Tudo serve de pretexto para abandonar.
* A partir do momento em que a pessoa se deixa atrair pelo mundo, mais do que pelo Fundador, este fica sem defesa
(Sr. Horácio B.: A alma precisa estar possuída pelo demônio para pensar isso, o senhor é a pessoa menos tediosa que existe na face da terra.)
Ah, não, não, há gente que acha que eu sou tedioso. Você vê nas reuniões, meu filho.
(Cel. Poli: Não é possível, senhor.)
Mas você não vê nas reuniões gente que está com tédio?
(Sr. P. Roberto: Está cheio de gente dormindo lá.)
É! O que eles estão fazendo? Eles não ousam não ir, mas o que eles queriam é não ir. Então a vontade é essa. Não tem cavação. Eu vou dar um exemplo presunçoso, mas que pode dar idéia.
Se há uma cidade que não permite o tédio é Veneza, mas eu posso compreender que um sujeito morando em Veneza e tendo degustado Veneza, tenha uma vontade louca de morar em Nova York.
(Sr. Guerreiro: Há uma coisa que é verdadeiro, que diante de certas belezas o homem ou tem uma atitude de muita veneração e amor e tomar cuidado para conservar esse amor, ou então não tem outra escapatória.)
É, é isso. E depois eu fico completamente sem remédio, porque a partir do momento em que a pessoa fixa a idéia de que no mundo moderno há mais entretenimento, há mais alegria, há perspectivas mais leves, há mais despreocupação de espírito, do que nos meus alentours, a partir desse momento eu não tenho defesa.
* O tedioso é insensível até mesmo ao sobrenatural que cerca a vocação do SDP
(Sr. P. Roberto: Por exemplo, aquela conclusão que o senhor chegou na reunião de ontem a respeito da direção última da Revolução, o senhor dizia que uma conclusão dessa é uma coisa de molde a trazer muito mais alegria do que qualquer outra coisa que a pessoa possa lucrar. E é mesmo. […] Quer dizer, qual é essa ligação [com Deus] que o senhor tem, para o senhor tratar disso assim?)
Eu acho que pode ser uma graça. É um misto de fatores naturais e sobrenaturais, onde, naturalmente, os sobrenaturais preponderam de longe. Mas em última análise esse misto de fatores, entretanto pode deixar as pessoas insensíveis e saturadas. Para a gente imaginar que o mundo viveu no gótico e abandonou o gótico… você imaginar que o mundo deixou de fabricar vitrais…
(Sr. Gonzalo: Para fabricar Brasília.)
Para fabricar Brasília.
(Sr. P. Roberto: Deixou a Europa para vir para América…)
Para vir para a América… Quer dizer, são coisas terríveis.
* Há no homem uma possibilidade de recusa do “verum”, do “bonum” e do “pulchrum” maior do que se pode imaginar. Por exemplo, a rejeição dos vitrais
Eu não sei com quem, de ontem para hoje, estava conversando a esse respeito. Mas no tempo em que eu era mocinho ou moço mesmo, era freqüente, vocês devem ter visto isto, você no Chile, você na Argentina devem ter visto isso como havia no Brasil, em certas casas particulares, sobretudo perto das escadas, vitrais; vitrais que estavam a não sei quantos quilômetros abaixo dos vitrais da Idade Média, mas que eram artigos que se podiam apresentar. Ou era um jogo de cores apenas, de vidros coloridos, ou que apresentavam umas coisas para ver, por exemplo, umas rosas num jarro, uma coisa qualquer assim, mas tinha, e tornava muita escada, muito panorama, por exemplo num living, no fundo uma escada e um vitral desse, podia tornar agradável uma casa.
O Horácio que é o mais moço de todos deve ter alcançado ainda isso.
Agora, isso cessou a tal ponto que chega a esse ponto: deve haver em São Paulo depósitos em que se vendem materiais de construção antigos, usados e que não se fabricam mais para as pessoas que queiram comprar e aproveitar. Eu tenho impressão que está cheio de vitrais que ninguém compra. Porque há uma proibição muda de usar vitrais. Então não só os vitrais da Idade Média são destroçados, mas qualquer vidrinho um pouco colorido, está condenado.
(Sr. P. Roberto: Está ao alcance de qualquer pobre ter.)
De qualquer pobre ter. Numa casa de um pobre, sobretudo, tomaria muito realce, poderia quase parecer luxo. Está bem, não tem! Agora, como é que pode evoluir a mente humana de maneira a deixar uma coisa tão desejável, tão apreciável quanto é o vitral e passar para esse vidro transparente comum? Quer dizer, há uma possibilidade de recusa do verum, do bonum e do pulchrum muito maior do que a gente imagina. Isso não se pode negar.
* A Catedral de Notre-Dame de Paris, salva pela Revolução Francesa…
Vocês pensarem que existe a ata do Conselho de Estado na França mandando demolir Notre-Dame para construir um templo em estilo grego para servir de catedral em Paris! Quer dizer, mandarem demolir Notre-Dame! Quem salvou Notre-Dame foi a Revolução Francesa. Quando a gente vê em livros, etc., gravuras representando aquelas hordas que vão avançando contra Versailles para liqüidar com Versailles, como liqüidaram, a gente não tem idéia de que eles estavam defendendo a catedral de Notre-Dame da ruína. Então a gente compreende o ilógico profundo, aberrante de uma porção de coisas.
* Ficar fiel, e de uma fidelidade redobrada, à graça que foi sensível e não o é mais: este o pagamento que Deus nos pede pelo dom místico que nos concedeu
(Sr. Gonzalo: Mas o remédio, o antídoto contra esse questão está relacionado com esse fogo que o senhor falou na reunião. […] Ou nós readquirimos isso, ou deixamos de qualquer jeito o tédio, a inveja, o que for. […inaudível] e que está sendo muito necessário que isso venha …)
Esse fogo? Ah é claro!
(Sr. Gonzalo: Eu pergunto se o senhor não teria alguma coisa a dizer sobre essa visão de conjunto, que atraia esse fogo, pelo qual a pessoa queima em si a Revolução e que reata o nexo de alma com o senhor.)
Eu acho, meu filho, que é um nexo místico. Por sua própria essência é uma ação da graça, mas é uma ação da graça que freqüentemente se torna sensível, e até às vezes se torna habitual. Agora, tanto quanto eu posso ver, a questão é a seguinte: enquanto a ação da graça não sofre nenhuma diminuição no lado sensível, é muito difícil acontecer alguma coisa. Mas quando a Providência diminui o lado sensível, faz com que o lado sensível se torne mais fraco, ou desapareça, ficar fiel ao que a gente viu e não ver mais, ficar fiel àquilo com uma fidelidade redobrada, é o pagamento que Deus quer de nós pela graça mística que ele nos deu. E aqui é a questão.
Eu não sei se eu me exprimo….
* Devemos pedir, ao mesmo tempo, a graça mística e uma grande adesão a ela, que persista quando a sensibilidade tiver passado
(Sr. Gonzalo: Está muito claro, mas se o senhor pudesse explicar mais ainda, porque no MNF o senhor disse que isso se dá assim, mas que na aridez, o contato com o senhor, mesmo que seja um contato árido, se a pessoa reporta tudo do que está vendo a esse flash primeiro, no fundo, vai fortificando na alma uma adesão ao senhor.)
É verdade.
(Sr. Gonzalo: Há algo a ser feito nessa linha.)
Mas o que há para ser feito é pedir esta graça mística, mas ao mesmo tempo pedir uma tal forma de adesão a ela, que quando ela falta o indivíduo sente que a vida dele se tornou absurda se ele não continuar a acreditar naquilo que ele não vê mais. Esse é o negócio. E que por causa disso ele deve, portanto, continuar insistentemente a persistir em atos de fidelidade íntegra até que essa coisa volte.
(Sr. P. Roberto: Uma brasa fica, não é senhor.)
Não só fica, meu filho, mas aumenta, porque o indivíduo nessa provação sendo fiel, ele recebe depois graças muito maiores. Mas há um período em que isso é assim.
* Santa Isabel, Duquesa de Turíngia, num momento de provação murmura contra Deus
Eu me lembro, Santa Isabel, Duquesa de Turíngia, dizem erradamente Rainha da Hungria, que ela não foi; ela foi casada com o Duque da Turíngia, ela era filha do Rei da Hungria, uma coisa dessa. Houve um fato com ela que era isso: o marido dela partiu para a Cruzada, e deixou-a num castelo, enfim, com a vida organizada. Mas vieram naturalmente pessoas inimigas, etc., atacaram o feudo, e afinal de contas ela ficou sem defesa nenhuma. O pai dela também nas cruzadas, etc., ficou sem defesa nenhuma. E em determinado momento, ela não tinha mais aonde viver com os filhos, vários filhos pequenos, e ela então foi refugiar-se num convento pedindo por esmola que a acatassem lá.
E o convento foi muito correto com ela e fê-la entrar, agasalhou-a, etc., etc., e perguntou o que é que ela queria como homenagem pela honra que ela fazia ao convento de se hospedar lá. E ela pediu que a igreja do convento se iluminasse toda, e que contassem um Te Deum pelas provações pelas quais ela estava passando.
E assim se fez, o convento cantou o “Te Deum”, etc., etc. Mas depois, por razões que eu já não me lembro mais, porque eu li isso há muitos anos atrás, muitos anos atrás, eu li isto quando eu tinha vinte, vinte e um anos, você pode calcular. Por uma razão que eu não me lembro qual é, ela teve que prosseguir no caminho dela, ela não pode ficar no convento. Vamos dizer, por exemplo, que os inimigos políticos dela estivessem ao encalço dela, entrariam no convento e a pegariam. Então ela teve que fugir.
Mas fugindo, ele teve que passar por um mato, e quando era noite, e estava com os filhinhos famintos, passando pelo mato, caiu uma tempestade medonha com água escorrendo de todo lado. E ela foi atormentada por esta idéia: Deus permitiu, não lhe poupou nem sequer a chuva dentro do auge da tempestade, Deus a abandonou de tal maneira que não teve para com ela a menor contemplação, o menor pequeno cuidado para com ela. E ali ela teve um ato qualquer — ela hein! — de repúdio a Deus, de renúncia, qualquer coisa assim, que foi um pecado horroroso.
Depois, parou de chover, enfim, o mundo continuou a girar sobre seu eixo. E ela arrependeu-se, pediu perdão, etc., etc., e afinal de contas voltou ao bom caminho.
(Sr. Horácio B.: É impressionante.)
Impressionante, impressionante! Tão impressionante que antes de contar a vocês, eu hesitei um pouquinho […inaudível] em contar.
(Sr. P. Roberto: Se uma santa pode fazer isso…)
Para você ver.
* A perfeição estaria em Santa Isabel, na hora da provação, lembrar-se das predileções de que fora objeto
Mas qual teria sido a perfeição? Era lembrar-se de todas as predileções de que ela fora objeto, e dizer o seguinte: “A maior predileção é esse abandono em que eu caí. Aqui Nossa Senhora, Deus, estão me provando de um modo como Nosso Senhor foi provado na cruz, e, portanto, eu aceito isso, etc., etc.”
E tenho impressão de que se ela estivesse sozinha no mato, ela talvez não tivesse sido tão provada, mas a questão era ver os filhos.
(Sr. Guerreiro: Para a mãe, o problema dos filhos é muito mais…)
Pungente. Pungente.
(Sr. Guerreiro: Consigo própria até que não.)
Mas vê com os filhos… vê uma criança que chora porque está com dor de ouvido, e outra tem fome, e outra tem medo, e ela não sabe o que fazer, etc., etc., pede para Nossa Senhora para socorrer, pensa que a chuva vai melhorar, a chuva reprende plus belle, e redobra ainda mais, o aguaceiro fica mais horrível, as crianças choram mais, e se diria que ela estaria no caso de exclamar: Eli, Eli, lamma sabactani: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste!” Nesta situação, ela continuar inteiramente fiel, aí, ela teria feito entre outras coisas, um ato de recordação das graças sensíveis que recebeu, e compreendendo o seguinte: “Ele me amou outrora a ponto de eu sentir essas coisas, se no momento eu não estou sentindo, é para me provar, e ele me ama mais nesta provação do que em todas as graças sensíveis que me deu.”
(Sr. Gonzalo: Por aí a gente vê quanto Deus ama ao senhor, porque é cada provação na vida do senhor que não é brincadeira.)
Bem, esta situação assim, esta fidelidade feita de uma série de atos de fé, que são um rationabili obsequium, mas junto com esta experiência mística que em si é um argumento apologético muito bom, aí o lembrar da bondade de Deus no momento em que de todos os lados tem a ilusão, a tentação de iludir-se que Deus não a quer, aí está a coisa.
* O que permanece fiel nas provas, este viveu, e Deus não se esquecerá dele
(Sr. P. Roberto: Aí Deus não esquece mesmo dessa pessoa.)
Não esquece, não esquece. Mas aí há uma espécie de passar por coisas onde a vida fica vivida.
Não sei se eu me exprimo bem?
(Sr. Gonzalo: Até se pode viver várias vidas assim.)
A vida fica vivida, quer dizer, ite vita est. Acabou. Isso é verdadeiramente terrível!
* O sublime exemplo de Nosso Senhor, no alto da Cruz
É como Nosso Senhor. Você veja, por exemplo, Nosso Senhor na cruz, Ele diz ao bom ladrão: “Tu hoje estarás comigo no Paraíso”. O que nos deixa ver bem claro que Ele tinha em mente — nós sabemos pela fé, que não podia deixar de ser — mas que Ele tinha em mente que cada pulsar de coração em que ele sentia em que a morte estava chegando, estava chegando o Paraíso. E tanto é que isto era segundo a visão, que Ele, para alentar ao bom ladrão, disse isso. A gente vê que o bom ladrão devia estar sofrendo muito também, devia estar caminhando para a morte, e Nosso Senhor quis ajudar ao bom ladrão, e por causa disso Ele disse isso. Hodie mecum eres in paradisio. O que deve ter sido dito com consolações para o bom ladrão.
Mas Ele daí a pouco exclamou: Deus, Deus meus, quare me dereliquisti?, que é o começo de um salmo de um homem muito provado, mas que termina dizendo: “Mas Vós não me abandonais, etc., etc., etc.” Mas a gente vê o susto, vê o dereliquisti completamente.
São exemplos tirados da vida de Nosso Senhor, enfim, do que há de mais sublime. Mas ao mesmo tempo mais acessível ao nosso alcance, etc., etc.
* Após a aridez, a alegria de uma consolação vem de repente
E isto é uma espécie de Via Sacra que a pessoa tem que ir levando, ir levando, ir levando. E a clarinada, a clareza, daquela alegria, vem de repente, é por exemplo, enquanto um de vocês estiver hoje à noite preparando a roupa para o dia seguinte, e passando as abotoaduras desta camisa para a outra, de repente, um de vocês dá com os olhos numa imagenzinha que tem e é inundado de uma graça, e pode durar um ano consecutivo de consolação também consecutiva. São as coisas mais…
Como também as provações podem dar-se nas ocasiões mais… multiplicar-se as provações somando as insignificantes com as imensas, no momento em que a insignificante toma caráter de imensa. (…)
* Algumas das inúmeras provações pelas quais passou o SDP, em cascata…
Bem, eu fui e comprei a casa. Comprei a casa e ato consecutivo mandei uma ordem de despejo contra ele, porque ele estava pagando um aluguel ridículo e não havia lei de inquilinato naquele tempo. O contrato dele estava extinto, eu meti um pontapé, portanto. Ele esbravejou e disse o seguinte: “Eu tenho um mês e tanto para sair, pela lei, pelo código civil, e vou ficar aí, e o Doutor Plinio vai ver o que vai amargar a ele dele estar fazendo isso assim.”
Eu dei risada e disse: “Quem vai amargar é ele, que vai para o olho da rua, porque vai mesmo.”
Eu tomo o trem, venho de Piracicaba para São Paulo — tinha ido fazer uma conferência em Piracicaba — me sento no trem, começo a ler, de repente uma noticiazinha pequena assim: “Lei de inquilinato. O governo acaba de estabelecer — era a ditadura do Getúlio, era portanto, o que ele queria e como ele entendia — a lei do inquilinato, fica proibido levantar os aluguéis, e os aluguéis que foram levantados dentro dos últimos seis meses, terão que ser reduzidos ao preço que tinham anteriormente.
(Sr. P. Roberto: Uma coisa absurda.)
Retroatividade da lei, um absurdo!
Bem, o Ministro da Justiça naquele tempo era meu primo, foi ele que me deu essas gravurazinhas de D. Pedro II, D. João VI, etc., que estão aqui no hall.
(Sr. Horácio B.: Alexandre Marcondes?)
É Alexandre de Marcondes.
Eu fui ao Rio de Janeiro, falei com o Marcondes. E ele muito amável, recebeu-me logo. Eu disse: “Alexandre, mas que negócio é esse, você fazer uma lei retroativa, etc., etc.?”
Ele sempre dando risada disse: “Ah, você não sabe quanto descompostura eu tenho levado aqui por causa disso, de proprietários”.
Eu tive vontade de dizer: “Olha, eu estou com vontade de te esbofetear, está compreendendo?” Mas não adiantava nada.
Eu disse: “Olha, eu trouxe um estudo para provar que a retroatividade da lei é um absurdo, você sabe disso melhor que eu — ele era um grande advogado — mas isso para você encaminhar para ver se me arranja isso.”
— Ah me dá cá, se for possível eu arranjo.
Um mês depois uma carta: “Meu caro Plinio, eu lhe encaminho o parecer do departamento não sei o quê, um parecer contra.”
Portanto, ficou aquele aluguel por um preço ridículo, aquele homem estabelecido lá dentro e uma série de…
Bem, para abreviar tudo, eu tive que ir, para não perder o uso da parte de cima da casa, eu tive que ir morar na casa.
(Sr. Gonzalo: E o homem embaixo.)
É uma coisa horrorosa.
Mas no trem, quando eu estava vendo isso, etc., e tal, eu amarguei no trem quando eu vi, porque eu percebi logo que era um jogo, etc., etc., e que eu tinha perdido a partida. E apoiei-me assim, para fazer um movimento, apoiei-me no acento do trem — vocês se lembram que os vagões eram sempre dois lugares, não é?, às vezes três — apoiei-me assim no vagão e dou com a minha mão pegando uma coisa mole e quente. Eu olho para trás, era o pé descalço de um negro, que ele tinha passado… Não adianta eu descrever como eram os bancos, os bancos se prestavam a isso, mas nunca me passou pela cabeça que fosse uma coisa dessa. Não tinha com que lavar a mão, era preciso viajar mais duas horas, talvez, ou três para São Paulo, com a mão suja e carregando na outra mão o decreto sujo. E assim cheguei a São Paulo. Uma coisa inenarrável.
Nesta casa onde estava, passou-se o Natal, eu fui jantar em casa de minha irmã, era noite de Natal, fui com papai e mamãe, era um jantar de família. Voltei normalmente disposto, deitei-me e fiz o possível para dormir. Tive uma indisposição gástrica como eu nunca pensei que fosse possível, na minha vida, uma coisa fabulosa. Até hoje eu nunca ouvi contar de alguém que tivesse tido uma indisposição assim. As coisas uma em cima da outra, uma em cima da outra. Lembrando em ponto muito pequeno a grande Santa Isabel da Turíngia.
Quer dizer, há momentos em que você tem a impressão que o infortúnio completo caiu sobre você. [vira a fita]
* A fidelidade do SDP, levada ao ponto de suportar o insuportável, é a disposição que é o contrário da traição
(Sr. Horácio B.: E o que o senhor pensava para sustentá-lo?)
Eu devo dizer com toda franqueza, eu não pensava nada, eu sabia que era assim, que Deus tinha o direito de fazer isso, que Ele estava fazendo porque queria, e que a mim me cabia aceitar bem porque é o direito d’Ele. Não tem outra conversa.
Mas é esta disposição, meu filho, essa disposição que é o contrário da traição. É a fidelidade levada ao ponto de suportar o insuportável, da parte de Deus — naturalmente eu estou dizendo de suportar o insuportável entre aspas, porque de Deus não se diz isso. Mas é isto. E agüentar. Esta é a lealdade e a fidelidade que vai até o último ponto, que é o contrário da traição.
Pelo contrário, a traição entra pela porta, pelas vias mais inesperadas… (…)
… recalcitrâncias que chegam até esse ponto. Quer dizer, às vezes a pessoa recalcitra.
(Sr. Guerreiro: Quem fica com nó com a Senhora Dona Lucilia […inaudível].)
Por exemplo.
(Sr. Guerreiro: […inaudível].)
Não, há um certo momento, que quando a gente quer se perder se perde.
(Sr. Guerreiro: Nó com o senhor, e ainda vai ter nó com Dona Lucilia […inaudível].)
(Sr. Gonzalo: … [A fita se torna quase inaudível])
Por exemplo isso. Quer dizer, há certos graus de maldades que são meio insondáveis, e a pessoa tem que aceitar, não tem remédio. Isto é o fundo do negócio.
* A posição razoável é a daquele que pede o fogo do Espírito Santo, que nos dá a inabalável fidelidade às graças místicas recebidas
Agora, é verdade que a pièce maÔtresse disso aí é a posição razoável daquele que recebe essas graças místicas, de dizer: “nunca me esquecerei”, e não esquecer-se nunca, e lembrar-se sempre. Mas lembrar nessa perspectiva, [de] Santa Isabel da Turíngia: pode me acontecer tal coisa, tal coisa, tal coisa, eu permanecerei. Esse é o Emitte Spiritum tuum et creabuntur No Venit Creator Spiritus, isso está bem dito, é o fogo do Espírito Santo que acende na alma uma porção de coisas que fora disso não vive. Sem a graça não somos nada. E ainda que o indivíduo seja de uma racionalidade absoluta, e, portanto, diga: “Eu sou tão razoável, Doutor Plinio está dizendo uma coisa tão racional, que eu não tenho que temer nada, porque minha razão já viu isso”. Não diga isso porque é uma loucura, porque a razão sem o auxílio da graça não vale nada. É isso.
Meus caros, eu vou consultar um pouco a hora…
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