Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 27/3/93 – Sábado – p. 15 de 15

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 27/3/93 — Sábado

O SDP conta a história de um ex-amigo, do tempo da Congregação Mariana, que o traiu por ocasião do “Em Defesa” * Algumas rachaduras no panorama interno, mas ainda não há terremoto * Coisas que aparentam não ter importância, freqüentemente são pontos de partida para profundas deteriorações * Lamentar a própria fraqueza, sem confiança, é negar tudo quanto Nosso Senhor disse de Sua misericórdia infinita para com o pecador * A jaculatória exímia para se pedir forças e ânimo: “Emitte Spiritum… et renovabis faciem terrae”: antes de tudo a face de meu mundo interior, tornando-o mais branco que a neve * O Fundador se debruça sobre cada um de seus filhos, sem nunca se impacientar * O SDP propõe uma visita à Estação da Luz e à estação da Sorocabana, numa noite de sábado * Fotografia do Bem-aventurado Palau: limpeza de alma, coerência, seriedade, combatividade para o que der e vier

* O SDP comenta um amigo dos tempos do movimento católico, que em diversas ocasiões quis superá-lo

Uma filha casa com um sujeito assim com um certo dinheiro aqui em São Paulo. Há uns sujeitos que ficam numa situação em que já não são mulatos, mas que a gente percebe que a mãe e o pai eram. Assim era este.

(Sr. Guerreiro: Em matéria de raça ou de dinheiro?)

De raça. Mas era um homem muito inteligente.

Fez dinheiro aqui em indústrias. Ele arranjou uma indústria no período da Bagarre Azul, do grande surto industrial. Ele enriqueceu não como um plutocrata, mas ficou muito bem de fortuna.

A mulher dele era uma senhora simpática também. (…)

Tinha uma filha que era solteira e era um dragão, uma mulher enorme. Eu acho que era daquelas mulheres que vinham nos barcos vickings da Suécia, da Noruega, da Escócia conquistar a Islândia, descer na América do Norte. Esse gênero, era uma mulher dessas. Com uma ponta de dedo cortado que ela cortou num acidente qualquer, e assim máscula, um másculo feio. Uma mulher imatrimoniável, absolutamente imatrimoniável. Depois um gênio muito arrevesado.

Depois tinha outras pessoas da família que não interessam ao caso.

Esta imatrimoniável no primeiro período das minhas relações com eles, porque fizemos logo muitas relações, ela favorecia muito essas relações. Mas com uma mentalidade assim:

A irmã dela estava noiva, e um irmão do noivo da irmã dela eles convidavam às vezes para ir jantar com o irmão na casa. Uma das primeiras vezes que eu fui almoçar nessa casa… almoço de domingo deliciosos, leitões excelentes, muito bem feitos. Quando tinha leitão eles me convidavam, e eu freqüentemente ia porque o leitão era muito bem feito segundo todas as regras da arte. Eu, muito loquaz, falava muito por minha natureza.

Durante uma pausazinha que houve na conversa o “gendarme” [a mulher imatrimoniável] disse: “Está vendo, eu gosto de convidados como o Plinio, porque comem muito mas ao menos fala muito. Fulano — o irmão do noivo da irmã — não, esse vem aqui, não diz uma palavra e come muito, tanto quanto o Plinio”.

É um comentário…

(Sr. Guerreiro: Troglodítico, não é?)

Troglodítico, propriamente troglodítico.

Eu fiquei muito pasmo porque eu não conhecia gente assim. Fiquei muito surpreso à primeira vista, mas disfarcei em consideração do irmão, que era uma relação muito boa para o movimento católico. Fingi que não percebi, etc.

* Um homem que não era burro, e que procurava imitar em tudo o SDP

Em certo momento eu percebi o seguinte: que o irmão dela, tudo quanto eu fazia, procurava fazer também. Ele não era burro, o que ele queria fazer ele conseguia fazer com decência, mas não era uma pessoa brilhante. Tudo quanto ele me via fazer, ele fazia também.

Então, por exemplo: escrevíamos ambos no “Legionário”. Se eu escrevesse um artigo contra tal aspecto da atitude de tal potência na Segunda Guerra Mundial, algum tempo depois ele aparecia com um artigo sobre o mesma tema, mas procurando fazer muito melhor do que eu tinha feito.

Vocês sabem bem que meu forte não é de citar muita coisa, de documentar muita coisa, são os meus filhos que me arranjam isso. Eu faço alguns comentários às vezes, mas eu escrever artigo erudito… Eu não sou erudito em nada, não gosto de ser erudito.

Ele vinha com coisas exatíssimas, muito bem citadas, que evidentemente tinha por vontade superar-me. Eu deixava superar quanto ele queria, enfim, me deixava enrolar inteiramente à vontade.

Eu notava que esse desejo de me surpasser se acentuava cada vez mais…

(Sr. Guerreiro: Tremenda essa questão.)

Disso e de cem outras questões.

* Numa festa de família, o tal amigo tentou rebaixar o SDP, ridicularizando-o

Por exemplo, uma vez fomos a uma festa aí na casa de uma família católica, gente muito boa. Eu me lembro que nessa festa havia um peru delicioso, não comi igual em nenhum outro lugar. Em certo momento inventaram de fazer uma espécie de jogo da parte do jardim detrás da casa. Esse jogo consistia na coisa mais idiota que pode haver. Faziam uma roda, uma moça, um rapaz, uma moça, um rapaz. Como tinha muitos convidados era uma roda muito grande. Todos cantavam e se não me engano batiam palmas ritmadamente também, mas disso eu não estou bem lembrado. Então um rapaz meio dançando sozinho ao ritmo da música vinha tirar uma moça para dançar. Dançavam ali, dançavam bem, dançavam mal, aplaudiam mais ou aplaudiam menos e lá ia a história.

Eu estava achando a coisa paulérrima e este sujeito, que me conhecia bem, sabia que eu estava achando paulérrimo. Em certo momento tocou a ele sair dançando. Ele veio dançando e em vez de procurar uma moça, chegou, curvou-se diante de mim como se tratasse de dançar para fazer uma brincadeira. A certa meia altura ele já começou a rir. Eu pensei: “Esse animal vem fazer uma brincadeira comigo”. Fuzilei-o com o olhar como quem diz: “Não se meta a besta porque você paga depois. Aqui eu vou fingir de bonachão, porque é a única atitude possível, mas lá fora vou te esfregar”.

Veio dançando, e quando chegou mais perto ele achava tão engraçado o que ele estava fazendo que ele começou a rir sozinho. Quando chegou perto de mim eu disse a ele: “Deixe de ser besta — disse baixinho para ele — e volte para trás com os pinotinhos”.

Ele deu uma risada, todo o mundo percebeu o que era e passaram por cima. Mas eu via que a vontade dele era de me rebaixar com isso, me pondo numa situação ridícula e ele como todo engraçado, para de qualquer maneira me surpasser.

* O amigo ouve da irmã: “Você, em toda a sua vida, nunca dará senão um Plinio desbotado…”

Uma vez almoçando em casa dele, ele disse qualquer coisa e o “gendarme” disse diante de mim: “Você está vendo? Fulano, você está querendo procurar imitar o Plinio em tudo. Você fique sabendo, você em toda a sua vida nunca dará senão um Plinio desbotado, porque você não tem matéria-prima para dar o Plinio”.

Isto é uma dentada no amor-próprio. Todos nós somos homens e podemos imaginar uma dentada dessas o efeito que causa.

* Combativo em favor da doutrina católica, o SDP quis atrair seu amigo (pouco disposto à luta) para seu lado

Eu levava a ele ali no duro, obrigando-o a tomar atitudes combativas como eu tomava. Mas obrigando no seguinte lado: mostrando qual era a doutrina católica e que a doutrina católica obrigava a ser combativo. Não é que ele tivesse medo de mim — porque ele era de minha idade, não tinha medo nenhum de mim, um homem do lado financeiro muito mais rico do que eu, como situação familiar menos, mas o dinheiro pesa muito —, é que eu persuadia a ele na honestidade da minha alma e da dele que era preciso ser assim, que a vida exigia isto, e ele concordava. Não gostava porque não era combativo, mas fazia e entrava ao meu lado.

* No clima de ecumenismo post-Segunda Guerra Mundial, o conhecido do SDP deixa-se levar pela ilusão de que os homens estavam todos melhores

Aí começou aquele período de longínquo ecumenismo entre bons e maus de que já falei a vocês aqui, e que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial. Ele começou a se persuadir de que de fato os homens estava ficando todos melhores e muito mais receptivos para com a Igreja. Era, portanto, preciso ser mais confiante, abrir-se mais para com eles, não discutir com eles e não só manifestar, mas sentir uma certeza de que esse movimento todo era um movimento espontâneo e natural.

* A má influência da irmã “gendarme”, contra o SDP

A primeira pessoa que ele agarrou nesse sentido foi a irmã. Porque a irmã começou a dizer para ele: “Olhe aqui, o Plinio é exagerado, ele forma uma idéia excessivamente desfavorável das pessoas e obriga você a tomar uma posição de combate, na qual ele tira bons efeitos para si próprio, mas você não tem personalidade suficiente para combater como ele”.

(Sr. Guerreiro: Conversa miseravelmente calculada…)

Calculada para me demolir.

Ela disse: “Ele de fato nesses combates não dá o sangue como você dá. Na aparência dá, mas ele se sai bem e você não, você sai como um cachorro batido. De maneira que na conversa vocês dois brigam e quem sai surrado é você. O adversário de vocês o Plinio surra, mas o adversário de vocês surra você. Então você compreende que você deve mudar de tática. O mundo está diferente, o mundo está mais conciliador, mais inteligente, compreendem que não há vantagem estar brigando, a guerra ensinou o espírito de paz para o mundo”.

A mulher não era nada burra.

(Sr. Horácio: Era solteira…)

Solteira.

(Sr. Poli: Essa gendarme, não é?)

Gendarme, é.

(Sr. Guerreiro: Dá a impressão que ela pegava essas coisas meio em confessionário ou pelo pai.)

Eu peguei uma coisa dela que foi do outro mundo.

(Sr. Poli: Já nessa época a mulher tinha…)

Ela tinha porque era muito máscula, era mais um vicking… ah, entrosagem feminina? Algumas tinham. Eu não sei bem como era, mas tinham.

* Ruptura com o SDP e oposição ao lado do Montoro

No final do final das contas ela levou-o a dissentir de mim e tomar uma atitude nitidamente de oposição, liderando uma ala de congregados marianos que mudou de atitude e que queria meter dentro da Congregação Mariana qualquer sem-vergonha que quisesse entrar, porque depois ali dentro melhorava. Eu era contrário a isso, eu dizia: “Não, você faz entrar como noviço. Como noviço aceita-se qualquer sem-vergonha, como congregado não. É só se ele melhorar no noviciado, do contrário cai fora”.

Isso aí é evidente, existe noviciado para isso, não existe para outra coisa.

Realmente de um noviço muita coisa se pode tolerar que você não tolera de um congregado, mas esperando que com o tempo ele melhore. Se não melhorar, cai fora. Até piora, então cai fora.

Ele começou, com isso, a passar para a ala do Montoro e daquela gente toda e ficar contrário a mim.

* Num supremo esforço, o SDP tenta atrair para a causa do bem o antigo amigo: viagem a Campinas e conversa sobre o assunto do futuro “Em Defesa”

Eu resolvi fazer um supremo esforço, para tentar fazer um jogo e passá-lo ainda para a causa do bem. Com isso eu obtive do superior dele, que era o D. Pedrosa, licença dele ir a Campinas comigo em trem — viajava-se de trem nesse tempo — ida e volta. Na ida e volta eram duas horas que levava naquele tempo, hoje talvez leve menos. Duas horas para Campinas ida, duas horas volta, eram quatro horas de uma boa conversa. Com a vantagem de que nós pernoitávamos em Campinas e nesse pernoite descansávamos. E, portanto, não era uma conversa massacrante de quatro horas sobre o mesmo tema.

Embarcamos para lá. No caminho fomos conversando — ele estava vindo da Europa onde ele tinha feito o noviciado e se tinha ordenado — e ele perguntando como estavam as coisas em São Paulo. Eu comecei a falar das construtivas, disso e daquilo, daquilo que viria a ser a matéria do “Em Defesa”.

Em certo momento disse a ele: “Olhe, infelizmente nesse movimento, que é heretizante, estão metidos quatro ou cinco bispos. A lista desses nomes eu tenho até no bolso, eu poderia dizer a você”. Ele ouviu, a coisa passou.

À noite, no teatro municipal de Campinas, que é um teatro do interior mas bem grande, portanto, repleto de gente, era um jubileu do Bispo de Campinas e eu deveria ser o orador. Então falei. Falei, o Bispo foi muito amável, mandou-me convidar — mas não era nada de extraordinário, era o comum — para ir para a frisa dele, sentar-me ao lado dele, etc. Este homem no meio do povo com os iguais dele.

* Quem confia excessivamente nos que estão fora da Igreja, desconfia dos que estão dentro…

No dia seguinte, encontramo-nos na estação para tomar o trem para São Paulo. Sentamo-nos juntos e ele disse:

Olhe, eu queria dar a você umas impressões que eu recolhi de ontem e que você gostará de saber.

Ah, está bom. O que é que é?

Em primeiro lugar que você deu um orador acomplie.

Há anos que ele não me via falar em público porque ele tinha estado na Europa e ele usava palavras francesas, porque a mãe dele era de origem francesa.

Acomplie, como você estão vendo pela palavra, quer dizer completo. Não é um grande elogio, mas, enfim, ele disse isso.

Ah, está bom.

Mas eu passei a noite em claro, não pude dormir com o que você disse a respeito dos bispos. Eu não posso acreditar que os bispos tenham caído em heresia. É uma coisa que não me vai, não me passa pela cabeça. Gente tão santa, tão boa cair nessa heresia eu não posso acreditar nisso.

É sempre assim, quando o sujeito se dá de excessivamente confiante com os que estão fora da Igreja, ele desconfia dos que estão dentro. Porque contra algo o homem tem que ser desconfiado.

(Sr. P. Roberto: E inflexível com relação ao bem.)

Inflexível.

* O amigo conta ao SDP como os noviços de sua Ordem indignavam-se com a “brutalidade” de São Jerônimo, no tratar os hereges de seu tempo

Ele me contou esse episódio interessante, do noviciado dele, como era a vida de noviciado, isso aquilo. Depois disse que um leitor [lia] em latim, mas como todos sabiam latim, apesar da diferença de línguas natais, a coisa ia, todos tinham muita consonância uns com os outros. Eram lidas as cartas de São Jerônimo contra tais e tais hereges e que eles ferviam de indignação. Eu disse:

Contra os hereges naturalmente, não é?

Não, contra São Jerônimo, pela brutalidade com que ele tratava os hereges.

Você veja o disparate. São Jerônimo, santo canonizado pela Igreja, não podia ter agido mal em relação a esses hereges senão a Igreja não o canonizaria. Doutor da Igreja insigne, é um dos grandes doutores da Igreja. Numa casa daquela natureza todo o mundo fervendo de ódio contra ele porque tratava mal os hereges. Ora, o espírito que ele tinha apreendido de mim era o contrário, era ficar entusiasmado com São Jerônimo, antes de tudo porque era um santo canonizado pela Igreja e que, portanto, é indiscutível. Primeira conversa. E segundo lugar porque realmente disse coisas excelentes e muito capazes, etc.

Depois saiu com essa história dessa coisa aqui.

* O “Em Defesa” recebido com “muitas restrições”

Dias depois eu mandei para ele — e para o que era dele — um “Em Defesa”, que acabava de ser impresso, com uma dedicatória muito amável para cada um, dizendo que se tivessem objeções ou quisessem falar qualquer coisa que era só me dizer que eu iria falar com eles. Se não quisesse, estaríamos às ordens na casa de D. Mayer.

Recebi um telegrama do tio dele dizendo: “Estaremos na casa de D. Mayer no dia e hora por ele indicados”. Como quem diz: “Por você não, mas por D. Mayer sim”.

Chegamos à casa de D. Mayer, eu também fui lá. Eles com os livros empacotados, sentamo-nos e eles puseram os livros em cima de uma mesinha central, mal desamarrados por delicadeza.

Eu disse:

Bem, o que é que acharam do livro?

É, é uma coisa que quem sabe se fará algum bem.

Mas fará algum bem não, tem algum erro aqui?

Não, erro propriamente não tem — os dois consonantes.

Mas espere um pouquinho, se o livro difunde coisas boas e não tem erro, eu não vejo como é que o livro possa ser considerado com tanta restrição.

Ah, muita, muita.

Podia o Sr. dizer o quê?

Não, isso vai trazer complicações, não vale a pena — levantaram-se e saíram.

* Em reunião presidida por D. José Gaspar, o ex-amigo acusa o SDP de pôr em risco a união do movimento católico

Dias depois houve um congresso — já estava marcado — de Ação Católica para padres. O D. José presidia, o D. Mayer como vigário da Ação Católica estava à direita de D. José. Este pediu licença para dizer que ele queria denunciar a todos os padres a existência de um movimento que acusava bispos, que não sei mais o quê, que era um movimento perigosíssimo que podia abrir uma fenda no movimento católico tão unido, que nós devemos prezar acima de tudo a confiança que nós temos nos nossos amigos, todos tão bons, e que quem espalhava era tatá-tatatá.

(Sr. Horácio: Mencionou o seu nome?)

Oh! Contou a história da lista, etc.

(Sr. Horácio: O Sr. tinha mostrado a lista para ele?)

Não. Ele não quis ver, ele esquivou-se. Eu queria oferecer e ele esquivou-se.

* Um complô armado para “excomungar” o SDP

A gente está vendo que era um complô preparado para rebentar não com D. Mayer, mas comigo e com toda a minha influência. Com o Arcebispo presente ficava patente que o Arcebispo, que era um homem simpaticíssimo e novo no cargo, tinha sido consultado e aprovava aquela atitude. É patente. Portanto, equivalia a uma palavra do Arcebispo e equivalia praticamente quase a uma excomunhão.

A partir desse momento cessou a minha ação pública como orador. Porque em nenhum lugar mais eu fui convidado para nada até hoje.

* A traição que redundou numa vida amolecida, adulterada, hipócrita

Esse homem depois resolveu dar mais um passo.

Ele contou a uma pessoa com quem ele era muito chegado e que me conhecia — porque ele veio em São Paulo tratar de qualquer coisa do testamento do pai, qualquer coisa assim, então ele andou fazendo visitas em penca aqui nas casas de família — que eles lá não falam, observam o silêncio rigorosamente. Mas que têm todo um código de gestos, cada gesto representando uma palavra, de maneira que eles têm toda a comunicação que teria um convento de mudos. Quer dizer que falam entre si à vontade, apenas não pronunciam a palavra.

Quando o Kennedy foi assassinado, em poucos minutos a Trapa inteira sabia do fato, porque um sinal assim com os lábios queria dizer o presidente da república e assassinado se dizia não se como. Então um frade encontrava outro e fazia assim, esse ia para outro e fazia assim. Em poucos momentos todos sabiam.

Você está vendo, é uma vida completamente amolecida, adulterada, hipócrita. É no que deu essa traição.

Bom, mas tratemos de outras questões mais altas do que essa miséria.

* “Pode ser que vocês encontrem coisas dessas pelo caminho…”

(Sr. Poli: Tudo o que diz respeito ao Sr. é muito alto.)

Não, eu tratei porque eu notei que vocês estavam tomando algum interesse pelo tema, do contrário não teria tratado.

Pode ser que vocês encontrem coisas dessas pelo caminho, e é bom que estejam entendendo que isto é assim e que a gente tem que se preparar para coisas dessas.

(Sr. Guerreiro: O Sr. não pode falar desse assunto com certos…)

Hahahaha!… assim também.

(Sr. Guerreiro: […] Pode ter um certo propósito tratar do assunto.)

Eu não vejo qualquer coisa de suficientemente próxima para tratar com os nomes.

* Algumas rachaduras no panorama interno, mas ainda não há terremoto

Você imagine um muro ou uma parede de uma casa. Às vezes a casa é bem sólida, mas apesar disso o muro tem um ponto onde está rachado. A gente percebe pelo todo que aquela fenda não compromete o conjunto. Enquanto não comprometer o conjunto a gente não chama a atenção dos convidados para a fenda. Se houver um terremoto a gente diz: “Olhe, cuidado, ali tem uma fenda atrás daquela cortina. Venha para cá”.

Meu Guerreiro não está muito de acordo com a tese não.

(Sr. Guerreiro: Estou inteiramente de acordo.)

Por causa disso, existe a fenda, não existe o terremoto.

(Sr. Guerreiro: Uma fenda só?)

Não, digamos, há de cá, de lá e de acolá, coisas na parede que a gente não sabe se são no reboco ou se atingem os tijolos.

(Sr. P. Roberto: Que os outros não sabem mas que o Sr. sabe.)

Um pouquinho a gente pela experiência acaba vendo.

* Exemplo de rachadura: a insatisfação de uma parte do auditório com a contagem dos presentes, feita pelo Coronel

Por exemplo, o nosso coronel, com intuitos administrativos dos mais eficazes e louváveis, começou aquela contagem de membros. Eu percebi que aquilo não agradou. Naquele pedaço de reboco não agradou.

Razões, duas:

Uma razão é porque isto lhe dá ares de chefe. E eles não querem saber de influência do coronel, porque o coronel não pactua com relaxamentos, com contemporizações, com serviços mal feitos, com drogas desse gênero. Ele arregaça a manga, faz a maior parte do serviço, mas quer que os outros trabalhem também. Vagabundos sem pressão da parte dele não existem. Muita gente vê isso e não gosta. Então isso não produz simpatia.

Agora, por outra razão. Porque percebe-se que se as contagens passarem a ser habitualmente feitas por ele, em certos momentos quem levanta o braço ou não toma uma atitude ideológica. Fica mal marcado se tomar uma atitude ideológica oposta ao que eu penso. Existe o perigo do coronel me contar, então não satisfação.

É compreensível que haja essas misérias ou não é compreensível?

(Sr. P. Roberto: Só o Sr. para notar isso aí.)

Ah, mas noto.

(Sr. Poli: Só o Sr. e só o zelo do Sr. Porque isso é um dom natural do Sr. que tem um discernimento das situações, mas é também um zelo pela causa de Nossa Senhora, que pega as coisas mais recônditas e escora, ataca, segura, não deixa andar para a frente.)

Às vezes finjo que deixo.

(Sr. Poli: É, para poder cortar mais, não é?)

Isso. E o sujeito que anda para a frente percebe que eu estou deixando andar para a frente, e fica meio surpreso: “Ele vai me laçar mais adiante. Como é que é esse negócio?”

Assim existem coisas, e coisas, e coisas, então a gente tem que… Bom, e por isso mesmo eu convido que mudemos de tema.

* Coisas que aparentam não ter importância, freqüentemente são pontos de partida para profundas deteriorações

(Sr. Guerreiro: [Dá um resumo da última reunião]. Então, dentro desta caminhada para realizar o processo humano, o que é que o Sr. acha que poderia nos dar para que nós continuássemos nesta temática?)

Meu filho, eu dei isso aí da traição no caso concreto de vocês aqui, porque era uma ocasião muito boa de fazer notar a hediondez do mal, e como essa hediondez pode aninhar-se em almas que vistas por outro lado têm — ao menos no começo do processo — algumas qualidades apreciáveis. Essa pessoa de que eu falei, no começo do processo tinha qualidades apreciáveis, com o tempo foi se dando uma deterioração que eu descrevi.

A descrição era um defeito moral em si mesmo grave, que é a inveja, consentido habitualmente em relação a uma pessoa com a qual se tem muito convívio. Portanto, a inveja habitualmente tentando-nos a um ato de consentimento, a inveja modificando uma alma e transformando-a de soldado do bem em soldado do mal. Isso apenas por uma espécie de inconformidade com uma hierarquia de valores que Nosso Senhor estabeleceu e contra a qual, por exemplo, Satanás se revoltou.

De onde chega à conclusão que uma coisa que pode na linguagem comum passar por uma coisa sem importância, é, entretanto, freqüentemente ponto de partida para deteriorações importantíssimas e pode fazer notar como nós somos putrefatíveis. Porque não será aqui o caso da inveja, mas será o caso de outro defeito qualquer que se instala na nossa alma, que começa a fazer o efeito que na outra produziu a inveja.

* É preciso estar continuamente de olhos abertos contra o mal

Por aí compreender ao mesmo tempo como o mal é horrível, mas como ele é ativo e como é preciso estar continuamente de olhos abertos por cima dele, porque do contrário ele nos pega. Se não pega hoje, pega amanhã; se não pega amanhã, pega depois de amanhã.

Uma cidade forte, com boas muralhas, etc., mas em que há o hábito de deixar a porta da cidade aberta durante a noite, um dia ou outro é invadida. Isso não tem conversa, um dia ou outro é invadida.

* A vigilância só existe quando se tem uma noção muito grande da concatenação dos males entre si

É preciso, portanto, ter uma vigilância muito grande. Nós temos que tomar o hábito dessa vigilância, mas essa vigilância só existe se a gente tem uma noção muito grande da concatenação dos males entre si e como de um pequeno mal pode resultar um mal muito grande. Porque do contrário é uma coisa à toa.

(Sr. Poli: É uma grande misericórdia que o Sr. está fazendo dizer isso a nós. Uma grande misericórdia, porque quem de nós não tem males, e não pequenos? O dinamismo desse mal é ativo, se não for combatido ele toma conta.)

Ah, toma.

(Sr. Poli: Daqui a pouco o Sr. está numa direção e nós estamos noutra direção, e depois nós estamos contra o Sr.)

Depois é irremediável, não é? Isso pode acontecer em plena Bagarre, e evidentemente isso pede de nós uma aplicação muito grande.

* Lamentar a própria fraqueza, sem confiança, é negar tudo quanto Nosso Senhor disse de Sua misericórdia infinita para com o pecador

Naturalmente uma pessoa poderia dizer: “Mas eu estou de tal maneira atolado nisso… Eu vejo teoricamente que o Sr. tem razão, mas se eu for pensar na simples idéia de me pôr a caminho como o Sr. indica, eu já não tenho força. De maneira que no meu caminho eu não vejo a não ser condenação. Porque isso é assim, o Sr. expõe com essa frieza, torna-me patente essa coisa, mas contra isso eu não tenho a menor propensão, desejo, força, eu não tenho nada para resistir contra isso. Eu tenho isso platonicamente e, portanto, não posso fazer outra coisa”.

A resposta é: “Esta é uma resposta que nega tudo quanto Nosso Senhor disse da misericórdia que ele tem para com o pecador…” [Vira a fita]

(Sr. Guerreiro: Isto seria negar tudo aquilo que…?)

Que Nosso Senhor diz de si mesmo e da Sua própria misericórdia.

Quando Ele fala, por exemplo, da ovelha que está no meio do carrascal, etc., é uma ovelha que já não pode se mover, está paralisada. E paralisada no ponto errado, ela foi se meter no carrascal, ela está completamente errada. O Bom Pastor chega até ela com o perigo de se arranhar a si próprio no meio do carrascal, tira com cuidado do meio dos espinhos, etc. Mas a ovelha está numa situação tão miserável que não é capaz de andar, então o Pastor coloca a ovelha sobre os ombros. E numa atitude de afeto que Ele não tem para com as ovelhas comuns, a ovelha perdida Ele leva com afeto, a bem dizer cicatrizando enquanto carrega.

Isto Ele faz com essas almas que estão assim no carrascal, que não têm saída. É o ensino d’Ele. Se você vão ler a parábola, a parábola é isso, a parábola não tem outro sentido senão esse. Depois ele faz um comentário que caminha nesse sentido.

Uma pessoa, portanto, pode dizer: “Eu não tenho forças”.

A resposta é muito simples: “Meu filho, eu sei, eu até sei que você não tem força, mas peça força que ela virá”. (…)

* A jaculatória exímia para se pedir forças e ânimo: “Emitte Spiritum… et renovabis faciem terrae”: antes de tudo a face de meu mundo interior, tornando-o mais branco que a neve

Eu estou indo, portanto, até onde se pode ir. Mas eu estou indo até onde se pode ir para quê? Para animar, para dar contentamento, para fazer compreender que isso não é absolutamente tão difícil assim, que é preciso ter espírito sobrenatural, é preciso pedir, pedir, pedir. E jaculatória exímia é emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae.

Aquela face da terra está muito bem, é verdade, mas começa por se entender da face do meu mundo interior. Vós renovareis a face do meu mundo interior, fareis de mim o que está dito de um modo muito bonito num salmo: “Asperges me hyssopo, et mundabor; lavabis me, et super nivem dealbabor — Aspergi-me com hissopo e eu ficarei limpo, Vós me lavareis e eu ficarei mais alvo do que a neve”. Dá idéia de uma pessoa carregada de sujeira e que lavado por Deus acaba ficando mais alvo do que a neve.

Vamos dizer, no caso da inveja acaba ficando uma pessoa propensa à admiração dos outros, contente com as qualidades dos outros, alegre de ser superada pelos outros. Limpa, portanto, neste ponto como a neve.

Vocês sabem, conhecem esse salmo e conhecem tudo isso e sabem o sentido que isso tem.

Isso tem como efeito natural fazer todo o possível para que as pessoas se ergam. Mas a pessoa objeto dessas graças não deve desconfiar, deve confiar. Momento virá em que… etc.

* O Fundador se debruça sobre cada um de seus filhos, sem nunca se impacientar

(Sr. Poli: Nessa linha todos nós somos continuamente objeto de graças dessas.)

Continuamente objeto de graças.

(Sr. Poli: Também se não fôssemos onde é que nós estaríamos? O Sr. vai dizendo uma coisinha, vai dizendo outra, é uma coisinha, é uma coisona, é um silêncio. A gente vê um zelo do Sr. para puxar, puxar, puxar, resgatar, limpar impressionante. É só a gente recordar um pouquinho a atuação do Sr. sobre cada um de nós, é impressionante como é de uma precisão. Parece que só um de nós existe, que o Sr. não tem outra coisa a preocupar-se a não ser fazer bem a nós.)

E uma coisa eu posso dizer: sem nunca me impacientar. Vocês nunca terão notado que eu perdi a paciência com algum de vocês. Mas nem nada de parecido com o perder a paciência.

(Sr. Poli: Tanto é que o Sr. não perde a paciência, que eu não vi nunca ninguém levantar o problema de paciência com o Sr.)

Não.

(Sr. Poli: É uma coisa que é inamovível, a paciência do Sr. é uma coisa…)

(Sr. Guerreiro: O comentário que há é no sentido contrário, a não conformidade com a sua paciência.)

Gente a quem a minha paciência dá raiva. Porque se sente quase que extraído de dentro do mal pela bondade, e a pessoa diz: “Mas eu não quero!”

(Sr. Guerreiro: Não quer que o Sr. faça isso com outrem, não é?)

É isso, exatamente.

* O bem nunca é inteiramente conhecido se não se conhece o mal

Tudo isso traz consigo a lembrança do seguinte: a necessidade de conhecer bem o mal também. O mais importante é conhecer o bem, mas o bem nunca foi bem conhecido se a gente não conhece o mal.

É um pouquinho como um homem do qual se pudesse dizer: ele tem uma visão excelente, ele vê muito bem as coisas de dia, mas de noite ele não vê. Então ele não conhece a realidade da vida.

(Sr. Guerreiro: Essa palavra carrascal para descrever essa tentação está quase uma onomatopéia.)

Quase onomatopaico. (…)

O sujeito está metido num carrascal quer dizer uma coisa. Uma palavra vizinha, ele está numa enrascada, não tem a mesma nobreza.

(Sr. P. Roberto: Abaixa o nível.)

De todo o nível baixo.

(Sr. Guerreiro: Não descreve a situação.)

Não descreve a situação, a situação é noutra plana.

* O SDP propõe uma visita à Estação da Luz e à estação da Sorocabana, numa noite de sábado

Uma noite que vocês tiverem apetência podia-se fazer o seguinte: nós darmos um pulo — mas naturalmente na maior reserva — à Estação da Luz em vez de fazermos a reunião aqui.

Não sei se acham que vale a pena.

(Sr. Poli: Acho que vale enormemente.)

Vamos de automóvel. Ali descemos, eu suponho que aquela calçada esteja inteiramente vazia à noite, e nós podemos parar, ver bem, depois dar a volta por detrás, ver a estação atrás. E depois, se quiserem, podemos ver a estação da Sorocabana, que é ali perto e que a meu ver é o próprio símbolo da irreflexão, da imponderação, da falta de estilo e da bobagem. Podemos examinar um pouquinho.

Fica o quê, a um quarteirão talvez?

(Sr. Poli: É perto.)

Absolutamente perto, não é? Se tiverem vontade, me lembrem.

Como isso não é uma coisa muito corriqueira vale a pena esperar que estejam todos bons e que possamos ir todos. Seria interessante fazer isso uma noite.

* Uma visita ao Palácio dos Campos Elíseos com dois casais argentinos

(Sr. Horácio: Há um certo tempo está aberto a visitação o Palácio dos Campos Elíseos. […] Outro programa que daria para fazer em conjunto, seria fabuloso.)

Podíamos perfeitamente fazer.

Uma vez eu fiz isso à noite com o CBV, madame CBV, senhor e senhora Ibarguren. Se não me engano eram esses. CBV e madame CBV certamente, mas havia mais um casal argentino.

Cheguei lá, falei com a sentinela, expliquei que eram dois casais argentinos que queriam ver o palácio apenas por fora. A sentinela com uma bonomia toda brasileira concordou sem consultar o capitão, enfim, o chefe militar, e nós passeamos lá por detrás.

Eu tive a impressão seguinte:

* Em Buenos Aires, o nacionalismo argentino forçou a transferência do aristocrático bairro de Palermo para o “socialismo em tecnicolor” do bairro San Isidro

Revendo um álbum com fazendas argentinas se confirmou no meu espírito que em Buenos Aires, e depois estando em Buenos Aires eu vi, tem muita coisa bonita e bem construída lá, datando de uma época um pouco posterior a essa. Vamos dizer que o Palácio dos Campos Elíseos é do fim do século passado e as construções que eu vi em Buenos Aires a meu ver eram entre deux guerres, eram entre a Primeira e a Segunda Guerra. Um pouco antes, um pouco depois, mas o eixo era isso.

Foi o período antes de entrar a mania da hispanização na Argentina. Então faziam coisas de gosto francês, gosto inglês, e não tinham a mania de estar construindo coisas — aliás, um estilo muito bonito — estilo espanhol.

A gente via que havia uma espécie de nacionalismo não bem calculado, que criava, no tempo que eu estive na Argentina, uma espécie de birra contra o bairro de Palermo, do qual eu gostava muito, até maltratavam o bairro de Palermo, e pegavam um bairro que eu considero muito inferior, que é San Isidro, e punham San Isidro como se fosse a última palavra.

San Isidro é um pouquinho como o bairro do Jardim São Bento.

(Sr. Horácio: O Sr. chegou a qualificar San Isidro como “socialismo em tecnicolor”.)

É isso. Eu não poderia qualificar mais de acordo com a minha convicção interior do que isso.

Para quem está habituado às construções argentinas do período entre deux guerres, o Palácio Campos Elíseos não tem o efeito que produz em São Paulo.

(Sr. Horácio: Mas é encantador, é muito bonito.)

A saída é encantadora… hahahaha!

* O subterrâneo que parte do Campos Elíseos até o Pátio do Colégio: para o Governador escapar de eventuais cercos

Podíamos uma noite ir ao Campos Elíseos também, com todo o gosto. Eu mostraria para vocês ali de onde é que parte o subterrâneo. É muito interessante.

(Sr. P. Roberto. E vai até onde esse subterrâneo?)

Até ao Pátio do Colégio.

(Sr. Guerreiro: Até ao Pátio do Colégio?)

Até ao Pátio do Colégio. Tem uma razão de ser, é que os Campos Elíseos era a residência do Governador e o Pátio do Colégio era o palácio dos despachos do Governador. Então, em ocasiões de revolta, de qualquer coisa assim, para o Governador escapar de um cerco tinha toda a facilidade.

Depois São Paulo sabe-se que é o lugar dos subterrâneos.

(Sr. Guerreiro: Parece que todas as grandes cidades têm isso. Ouvi dizer que Nova York também.)

É, mais ou menos isso tem por toda a parte e é até certo ponto uma necessidade.

Você imagine que você tivesse dois palácios e que lhe oferecessem de construir um subterrâneo. Você não aceitava?

(Sr. Guerreiro: Até mais de um. Um para sair os empregados, outro para sair os bens mais preciosos.)

Ora, é uma coisa evidente, não é?

(Sr. P. Roberto: É uma figura desses mistérios que o Sr. estava se referindo.)

(…)

* O bem-aventurado Palau e seu relatório pedindo a Pio IX a ereção de 4 mil exorcistas para atuarem no mundo

Ibiza é uma ilha das Baleares, não é?

(Sr. Horácio: Não saberia dizer.)

Enfim, numa das ilhas morava ele.

Em frente tinha uma ilhota menor — não era habitada por ninguém. Tinha uma praiazinha e os pescadores da região se reuniam para pescar, para limpar as redes, para essas coisas que os pescadores fazem, preparar a comida para eles, etc. Nessa praiazinha ficava também o Bem-aventurado Palau, mas como eremita. Ele voltava para dormir no convento, mas como eremita ele passava os dias inteiros nesse convento tratando da questão do demônio, do corpo místico de Cristo e do demônio.

Recebeu nesse sentido graças extraordinárias e fez um estudo a respeito do poder do demônio no século XIX, porque ele era do século XIX. E levou um relatório sobre o poder do demônio para apresentar ao Concílio Vaticano I — Pio IX, portanto — para pedir a Pio IX a ereção de quatro mil exorcistas atuando sobre o mundo, porque se não houvesse esse modo de cessar a ação do demônio no mundo, o mundo estava perdido. Mas no dia em que ele ia entregar ao concílio esse relatório, Garibaldi entrou em Roma. (…)

Então, não foi possível fazer isso, o Bem-aventurado Palau se ocupou depois em outras coisas e acabou.

* Fotografia do Bem-aventurado Palau: limpeza de alma, coerência, seriedade, combatividade para o que der e vier

Agora vejam a fotografia dele. Se quiserem podem acender a luz porque vale a pena ser muito bem vista.

(Sr. P. Roberto: Os olhos dele estão olhando o inferno, não é?)

É isso. Mas você nota, meu filho, a limpeza de alma, a coerência, a seriedade? Esse deveria ser o espírito de um membro da TFP.

(Sr. P. Roberto: É, nós temos o Sr. diante de nós.)

Ih! Eu acho um colosso esse homem.

(Sr. Horácio: Combatividade também.)

Combatividade para o que for. Ele está para o que der e vier.

* “Não conheço figura de santo que me impressione mais do que essa”

Você sabe que eu não conheço figura de santo que me impressione mais do que essa aí.

(Sr. Guerreiro: Mais do que o Beato Charbel Makluf que o Sr. anos atrás comentou conosco?)

Mais. Tanto quanto ele, ou talvez um pouco mais do que ele, Santo Inácio de Loyola naquela fotografia que está no Praesto Sum.

A tal ponto, que eu estou com vontade de escrever ao Juan Miguel Montes pedindo a ele para mandar um número grande de fotografias desses santinhos e espalhar no grupo. Ou ver se nosso laboratório de fotografia faz um pouco maior para pôr sobre uma escrivaninha, uma mesa de trabalho, etc. Porque é uma coisa que faz bem a gente ter na própria mesa de trabalho.

Eu acho simplesmente extraordinário. Eu não conheço fotografia que me impressione mais do que essa. Um pouquinho Santo Inácio talvez.

Bem, meus caros, agora vamos dormir.

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