Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 20/3/93 – Sábado – p. 21 de 21

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 20/3/93 — Sábado

No assunto graça, haverá um ponto para o qual olhando-se se veja tudo, e a partir do qual se compreenda melhor todo o conjunto que nosso olhar ainda não conseguiu abarcar? * O pavão e o trono do Xá da Pérsia: belezas fulgurantes que remetem o espírito à suprema beleza * A criança inocente forma em sua alma uma espécie de museu, onde ela guarda as noções de coisas que ela considera lindas, às quais, depois, ela associará os grandes personagens da História * Quando a graça mística incide sobre a alma aparelhada pelas visões naturais de sua inocência, confere-lhe outra possibilidade de compreensão: é a coração do processo humano * A ação de graças pelo dom recebido, é, primeiro, conservá-lo na memória, como coisa prodigiosa e inesquecível, sobretudo nas horas de aridez, quando começa a crucifixão na vida espiritual * Quem se desabitua, à força de moleza, de ter um vitupério interior militante contra o mal, este não é favorecido senão raramente pelas graças que fazem saborear o bem

Eu acho que nós estamos hoje no número absolutamente regulamentar, não é?

(Sr. Gonzalo: São os complicados estrito senso mesmo.)

Ahahahah!

(Cel. Poli: Complicados, propriamente complicados.)

Ahah! Propriamente complicados.

(Sr. Gonzalo: Os insuportáveis, como o senhor disse uma vez.)

Eu procurei a palavra “complicados” e não encontrei…

(Sr. Gonzalo: Mas saiu do fundo do coração senhor…)

Ahahahah! [Risos]

(Sr. Gonzalo: E com toda razão do senhor.)

Não, não, não. Quer que eu diga mais? Eu acho que melhoraram muito.

[Risos]

(Sr. Gonzalo: Menos insuportáveis, então?)

Não, realmente eu tenho a impressão que…

(Sr. Guerreiro: Qual seria o símbolo desse grupo aqui?)

Ahahahah! Um nó cego! Um nó cego!

Mas então, qual é o nosso tema? Quais são as coisas?

* Nossa senhora tem sido boníssima para com todos nós

(Sr. Gonzalo: Queremos agradecer todas as reuniões que o senhor tem feito aqui, mas especialmente as 4 ou 5 últimas que têm sido realmente extraordinárias. São reuniões que o senhor tem tratado da graça.)

É verdade.

(Sr. Gonzalo: Isso é para nós um motivo de alegria, de leveza, etc. […] É uma misericórdia de Nossa Senhora para conosco extraordinária.)

Isso é mesmo, Ela tem sido para com todos nós, tem sido boníssima.

(Sr. Gonzalo: […] Porque nós não merecíamos estar aqui.)

(Cel. Poli: Isso é verdade. Há vários títulos nós não merecíamos estar aqui.)

Há vários títulos?

(Cel. Poli: Não mereceríamos estar aqui.)

(Sr. Gonzalo: […] Então o pedido seria se o senhor poderia continuar tratando dessas graças místicas, do papel delas enquanto ordenadoras e enquanto vivificantes. […] Porque a solução está em saborear essas graças que vêm através do senhor para nós e povoar a alma disso. […] Não sei se está claro?)

Está claro sim.

(Sr. Gonzalo: O senhor poderia então, por misericórdia, tratar mais sobre o assunto.)

O que é, meu Guerreiro?

(Sr. Guerreiro: Está uma temática fantástica, senhor.)

* No assunto graça, haverá um ponto para o qual olhando-se se veja tudo, e a partir do qual se compreenda melhor todo o conjunto que nosso olhar ainda não conseguiu abarcar?

Quer dizer, com muito gosto, eu tenho apenas o embaraço da escolha. Quer dizer, eu poderia tratar disso, mas no momento, aquilo que se apresentaria no meu espírito como mais próprio a chamar e atrair, etc., etc., seria tratar da questão seguinte.

Vamos dizer isso: uma torre, por exemplo. Eu vou [fazer] uma escolha que não é boa: um minarete. Mas vamos dizer um minarete. Você imagina que eu esteja num dia muito brumoso, com muitas nuvens, etc., etc., e que eu esteja ao pé de um minarete. E por causa das nuvens que há, eu não consigo ver o minarete inteiro, porque as nuvens toldam uma parte do minarete. Qual é a parte do minarete que mais eu devo querer ver, que mais eu devo torcer — a torcida não é uma coisa boa, mas vocês compreendem o que quer dizer a palavra “torcer” aqui —, para que com a idéia de que não conseguindo ver o minarete inteiro, eu vendo aquela parte, veja todo o resto do minarete implicitamente?

Essa pergunta equivaleria a um modo simbólico, figurado, de tratar da questão seguinte: nos assuntos da graça de que nós tratamos, etc., esses assuntos se apresentam a nós muito nebulosamente. Ora, sob um aspecto, ora sob outro aspecto, etc. Haverá um aspecto que, vendo, nos dê uma visão global do minarete que nós não estamos vendo?

(Sr. Paulo Henrique: Seria como que a clave.)

A clave.

Então, vamos dizer que se se trata não de um minarete, mas de uma torre medieval. No minarete não há janelas, a torre medieval pode ter janelas, por isso convém mais à exemplificação que eu vou usar. Eu sei que a certa altura da torre há um jogo de janelas famoso, janelas muito bonitas e que estão dispostas numa relação recíproca que fazem o ornato da torre. Então eu posso perguntar: eu deverei querer ver aquilo para ter visto a torre inteira? É ali que o olhar deve pousar para ter uma idéia abarcativa da torre? Ou é preciso a gente deitar os olhos em alguma outra coisa da torre, que melhor do que o jogo famoso de janelas, o jogo de janelas que, por exemplo, vamos dizer, atrai os turistas do mundo inteiro, entretanto, melhor do que o jogo de janelas, deixe ver a torre como é que é, e qual é a posição chave da torre?

Assim também nas considerações todas que nós fazemos juntos aqui, na imensidade de temas, de aspectos, de coisas de toda ordem que são mobilizadas para nos servir de exemplos e de instrumento de trabalho intelectual para compormos um quadro, etc., etc., nessa imensidade haverá um ponto para o qual olhando-se se veja tudo, e a partir do qual se compreende melhor todo o conjunto que nosso olhar ainda não conseguiu abarcar? É a pergunta.

* A mesma pergunta, transposta para um exemplo concreto: o que é que faz com que a vista da Estação da Luz possa ser tão agradável para uma determinada mentalidade?

Por exemplo, o Gugelmin me arranjou um jeito de quando nós vamos visitar a Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, nós passarmos agora para a Igreja da Luz passando diante da Estação da Luz, quase sem perda de tempo, e cada vez que eu passo diante da Estação da Luz, eu, tendo tempo, interrompo a oração e fico olhando a estação nos vários aspectos que ela tem, etc., etc. Leva uns minutos. Depois meu olhar se deita ainda, mas aí não no sentido artístico, mas apenas de rememoração, na igreja de São Cristóvão, feiona, insípida, mas enfim, foi onde os meus pais se casaram…

(Sr. Gonzalo: Foi aí?)

Foi lá, foi lá que se casaram. Foi lá que se celebrou o 25º aniversário do casamento deles, as bodas de prata, e é aí que eu conheci por dentro a igreja, nunca tinha visto. A igreja era a antiga capela do seminário que depois se estende até o fim da rua. Porque aquele edifício com uma porção de lojinhas embaixo — edifício, aliás, de uma vulgaridade e de uma feiúra exemplar — aquele edifício era antigamente seminário. Embaixo não tinha aquelas lojinhas, mas tinha janelas vidradas e salas de aula e sei lá o quê, e depois para o fundo tinha jardim, como tinha na Luz, jardim muito grande, etc., etc.

E eu passando diante da Luz aparece, vamos dizer, a Estação com uma porção de aspectos diferentes que ela tem. Eu estou longe de querer glorificar a Estação além do que ela merece. Ela não merece tanto assim. Mas ela — aqui nós vamos entrar exatamente no assunto — ela tem uma torre interessante de se olhar, ela tem uma espécie de toldo envidraçado cuja entrada a gente percebe assim mais ou menos da metade para cima, ou da gare onde entram os trens, onde ficam parados, e os passageiros descem, sobem, etc., etc., o cais de encosta. E depois do lado de fora tem várias rangées de janelas, mas que têm aspectos diferentes conforme a destinação primitiva. Tem as janelas do hotel que têm um aspecto. E depois tem as janelas dos escritórios que têm outro aspecto. E depois tem as janelas que dão para os halls internos que têm outro aspecto. E essas coisas até, dentro da similitude e da coerência que elas têm consigo, elas são bem diferentes.

Entretanto, há uma pergunta que é a seguinte: a Estação é mais digna de atenção enquanto um todo do que enquanto as partes. Qual é nesse todo a parte que exprime melhor o todo? Que indica melhor o que é esse todo? E o que é que mais serve para a pessoa poder ter de uma estação ferroviária que por toda parte do mundo é um edifício simples, e uma estação construída para a Sãopaulinha que hoje seria inteiramente insuficiente se não fosse o enorme tráfego rodoviário que há em São Paulo, seria inteiramente insuficiente para a cidade, o que é que faz com que para uma determinada mentalidade a vista desta Estação pode ser tão aprazível?

É a transposição para uma situação concreta, para um objeto concreto da mesma pergunta feita há pouco.

* No caso concreto, a Estação da Luz representa os primeiros acordes de um certo padrão ideal de estação, que existe na alma sob a forma de uma possibilidade criada

Mas essa transposição nos leva mais perto do assunto. É o seguinte. Aquele edifício, visto no seu conjunto, nos aproxima de um certo padrão ideal que ele não realiza, mas que é o padrão ideal muito alto daquilo que ele é, e que nós sentimos através da consideração daquela Estação. De maneira que há na ordem do possível, uma estação muito mais bela, mas da qual aquela é um primeiro golpe de vista, uma primeira anschauung, um primeiro olhar, ver a coisa…

(Sr. Guerreiro: Os primeiros acordes.)

Os primeiros acordes, perfeitamente.

Os primeiros acordes. Esses acordes, existem na minha alma sob a forma de uma possibilidade, de uma coisa que eu nunca vi, mas quando eu vejo a estação, eu vejo esta coisa possível na sua beleza que a estação não realiza senão de um modo pobre. Mas eu aí vejo um mundo do possível criado que é extraordinário.

* Quanto mais desses possíveis criados existam numa alma, tanto mais ela será rica e densa, à procura do ponto “unum” dessas possibilidades

E quanto mais desses possíveis criados existam numa alma, tanto mais essa alma é rica, tanto mais ela é densa, tanto mais coisas ela tem para se servir, para se exprimir, para se manifestar, etc., etc. E no fundo do fundo, há um ponto unum que seria o objeto por excelência, o ser material — porque eu estou pensando em seres materiais — no ser material por excelência que me daria essa beleza que as coisas não realizam, e que é o para onde toda a minha alma toma seu élan.

Em primeiro lugar, eu terei exposto bem o fenômeno ou seria interessante dar mais duas ou três exemplificações mais breves? A primeira questão.

Segunda questão: uma vez posta a exemplificação com todo grau de clareza que se pode exigir, o que é que é em nós isto? E qual é o unum, por fim, das matrizes primeiras que temos dentro da cabeça. Isso dá o ponto de partida para descrição da mentalidade que nós deveríamos ter.

E, por exemplo, se eu fizesse análise de mim mesmo, daria o ponto unum do homem que eu deveria ser.

Agora, se quiserem eu posso tomar mais dois ou três exemplos simples, rápidos, para que isto tenha a segurança das coisas já muito sabidas, já muito conhecidas — primeiro ponto.

Segundo ponto, seria preciso daí, então, com segurança, com garra, dar as exemplificações seguintes para a gente compreender a si mesmo, o ideal para o qual a gente foi feito, para o qual a alma de cada um de nós tende, e que é por assim dizer o trilho por cima do qual nós devemos andar para a nossa santificação. Então a vida espiritual seria vista assim.

Não sei se é tarde demais para eu tratar da questão, se…

(Não!)

(Sr. Guerreiro: Está muito tarde no seguinte sentido, que essa temática é tal que devia ter sido tratada muito mais cedo.)

Ahahahahah! Não, mas é verdade.

(Sr. Guerreiro: O senhor já tratou dessa temática, mas com essa precisão…)

É! E é uma precisão na qual minha alma se escancara.

Agora, então eu pergunto: primeiro, exemplos, mais dois ou três, é o caso de dar? Sim ou não? Quem achar que sim diga.

(Sr. Guerreiro: Eu posso levantar uma outra questão que é a seguinte: nesse auge para o qual a alma é convidada a partir de situações como o senhor acabou de descrever, para a cabeça de uma pessoa que não tem inocência, é quando o senhor chega a esse ponto, o fato do senhor dizer que há um ponto, fica-se com a impressão de que este mar de valores magníficos, de repente, ele é comprimido e dá num, e este um, fica-se com a impressão que fica indecifrável. Como é que se resolve essa problemática criteriológica? Mas isso para depois, mas o senhor não poderia dar uns exemplos?)

Eu acho que à medida que nós formos nadando nesse mar, ele vai se tornando explicável a nós; de maneira que se quisessem eu poderia dar dois ou três exemplos.

* Alguns exemplos. O trono do Xá da Pérsia e a cauda do pavão: uma beleza tão fulgurante que a alma se sente agredida na sua capacidade de pegar o belo

Eu não sei se vocês têm em memória, sobretudo na memória visual, se vocês têm a recordação do trono de pavão que é o trono do Xá da Pérsia. Eu estou vendo que…

(Sr. Paulo Henrique: Eu alguma idéia tenho.)

(Sr. Guerreiro: O senhor trate que depois nós procuramos. O senhor vai descrever melhor do que a realidade.)

Ahaha! Antes fosse.

Parece-me que aquele trono só se explica a partir de um pequeno fato que eu vou dizer. É uma tal quantidade de pedras preciosas que tem naquele trono, e depois todas grandes, bonitas, ricas, com colorido variado, etc., que o encosto do trono que é o principal que se vê nele, muito mais do que o assento, do que os braços, que são bonitos, mas são acessórios, o encosto do trono dá realmente a idéia multicolor que se tem vendo a cauda do pavão quando ele abre completamente a cauda.

Os senhores devem ter visto, analisando o que acontece aos senhores quando o pavão abre aquela cauda, a primeira impressão que tem é de um tal variolé, uma tal inter-mistura agradável, mas estonteante de rica e de ordenada, e de atraente que aquilo dá, que a pessoa fica um pouco agredida por aquilo, no sentido de que é tão belo, tão belo, que a capacidade de pegar o belo fica agredida, fica meio arrombada. Depois a pessoa, numa segunda parte, depois de ter absorvido mais ou menos o aspecto geral que há naquilo, e pessoa começa a deitar os olhos neste ou naquele pormenor da cauda do pavão. E é levada mais uma vez por outra impressão que é no fundo a primeira impressão mais explicitada.

* A impressão que dá a cauda do pavão é de qualquer coisa que tem, ao mesmo tempo, o brilho da seda e o do cristal, superior ao chão que ela toca e por ele não é tocada

Aquilo tem assim uns semicírculos que todos eles são com penas de cores diferentes, e todas aquelas penas da cauda do pavão tem qualquer coisa de sedoso, qualquer coisa do brilho da seda ou do brilho do cristal, do brilho da pedra, fica entre a pedra e a seda. A gente deveria imaginar uma pedra sedosa, ou uma seda pétrea para compreender um pouco o que é aquilo.

E depois, dentro, há umas sub-cores que se acumulam e se resolvem umas nas outras e que a gente ainda olha e fica meio pasmo. A esta hora o pavão fecha a cauda e vai passear em outro lugar, tranqüilo e arrastando no chão aquela cauda — porque ele arrasta no chão! — uma cauda feita de pseudo pedrarias incomparáveis. A gente tem vontade de pegar o pavão e dizer: “Não ande assim com essa cauda, ponha isso no alto porque estraga!”

No outro lugar, ele vê um verme no chão e fica com fome, e tiunft! abre a cauda, talvez como sinal de perplexidade: “Que verme eu vou comer, aquele ou aquele outro?” A dúvida.

Ele está assim, a gente vai ver, aquilo que se arrastou no chão é tão superior que nada no chão colou, nenhuma sujeira colou ali. Aquilo também não varreu o chão, o chão ficou intacto. Ele passou por cima do chão, dir-se-ia que como um avião passa por cima de uma cidade, sem derrubar nenhum prédio, mas também sem se deixar abalar pelo prédio em nada. Tiuuuuu! Assim a cauda passou sobre o chão.

* A distinção do pavão é semelhante a de uma “grande dame”

E a gente fica naquele entusiasmo, e os olhos caem não mais sobre a cauda, mas no pescoço do pavão. E é um jogo de verde-azul misturados, e éclatant de beleza, e com aquela distinção do pescoço do pavão que é uma distinção de grande dame, uma coisa que vira para trás, que olha assim de cima, que toma um recuo como quem diz: “Realidade, como te atreves a estar tão próxima de meu olhar! Afasta-te que eu te vejo igualmente bem de longe, e tu me ves melhor quando eu estou longe de ti. Para longe!” E um jeito assim de grande dame ao pé da letra, e olhando de um lado para outro à procura de um verme. É a miséria da criatura.

* Um topetinho que tem o encanto do supérfluo

Seja como for, a gente fica pasmo com aquilo e o pavão levanta o topetinho, que não seria necessário de nenhum modo para a beleza dele, mas tem o encanto do supérfluo. E a gente não imagina com aquilo, que ele levanta o topetinho, e aí a gente compreende uma coisa curiosa: é que quando aquilo levanta, a gente diz: a partir de agora, qualquer coisa a mais não é supérfluo, é abarrotado, é cheio, é demais. O pleno foi realizado quando aquela coisinha se levantou em cima da cabeça dele. Não permite mais ornato.

* Quando o pavão se torna banal ao nosso olhar, aí ele ficou como que incrustado em nossa alma: por nenhum preço o esqueceremos

Também há uma coisa curiosa na gente. Depois que ele levantou o topete, a gente diz uma coisa curiosa a ele: “Eu te vi”. E vai tratar de outra coisa. O pavão fica no jardim, e a gente vai tratar de outra coisa. E é só à noite, na hora de deitar, que a gente se lembra de novo do pavão, e aí vai ver o pavão várias vezes, em vários dias consecutivos, até o pavão se tornar banal. Quando ele se tornou banal, é que ele foi morar dentro de nós. Ele está como que incrustado na nossa alma. A gente conhece tão bem, já o degustou tanto que por nenhum preço a gente consentiria em se esquecer dele, mas ele já está visto…

(Sr. Gonzalo: É meu.)

É meu. E eu, ao pé da letra, absorvi alguma coisa dele. E todo o pulchrum que eu vá ver depois, é um pulchrum que toma como medida a beleza do pavão.

Essas são as coisas que as pessoas não têm a paciência de descrever ponto por ponto, devagarzinho, mas o sabor está no ponto por ponto devagarzinho. Se alguém, por exemplo, rapidamente, faz uma poesia, não sei o quê, não há poesia que valha esta…

* Quando o pavão levanta seu penacho, ele decifra seu segredo, e se dá a conhecer por inteiro

(Sr. Gonzalo: Este é o pavão meio visto pelos olhos de Deus.)

Exatamente. E em certo momento ele decifra, ele revela seu segredo quando ele levanta seu penacho, porque aí a gente vê a plenitude da beleza dele no que é que está e que explica todo o resto. Ele é meio enigmático enquanto ele não tem aquilo. Ele revela aquilo, ele está visto. Todo o resto está compreendido. A pontinha última da cauda dele, que ele arrasta no chão, está bem vista quando se viu o penacho.

* O conhecimento pleno da beleza do pavão é ponto de partida para compreender belezas mais elevadas

(Sr. Paulo Henrique: O acostumar-se com ele, é o processo normal de quem faz esse conhecimento processivo que o senhor acabou de descrever. Agora, uma vez assimilado, ele passa a ser clave para ver outras belezas…)

Ele não corta o caminho.

(Sr. Paulo Henrique: Não esgota o que ele deveria dar para uma alma.)

Não, quando a gente conhece muitas coisas que esgotam seu próprio caminho, é que a gente fica com o aeroporto da teoria posto, e a gente voa para mais alto. Já é uma outra coisa.

(Sr. Paulo Henrique: Porque do contrário não daria vontade de esgotar, porque se esgotasse…)

Eu matei o pavão! Ahahah! Matei o pavão.

Agora, o que é que acontece?

* Espalhadas pela criação, existem umas tantas coisas-pavão: o trono do Xá da Pérsia, por exemplo

É que cada um de nós tem espalhado pela criação umas tantas coisas-pavão. O trono do rei da Pérsia seria um deles. É de tal maneira bonito e rico, que mesmo quando havia monarquia na Pérsia, ele não era guardado no palácio imperial, ele era guardado — é baixa de nível mas é assim — num super cofre de grande tamanho, num Banco, arqui-Banco, em Teerã com arqui-guarda, arqui-tudo, etc., etc., inclusive para fazer face ao perigo de dinamitação por baixo, despertado por invejas de povos vizinhos, por coisas de toda ordem.

E realmente é uma dor de cabeça do outro mundo ter guardado um objeto desse. Porque como guardar uma coisa dessa? E para ver esse trono, não era para turista, esse trono era tirado do lugar e levado para uma espécie de campo todo preparado, etc., com toldo, e tal, para as grandes cerimônias da monarquia. Então quem pudesse ver de perto, e tivesse boa visão, via muito do trono. Quem não tivesse não tinha remédio, ficava sem ver, e está acabado.

* Um conjunto de pedrarias diante do qual a alma que tem fé respira a plenos pulmões: é a idéia material da beleza absolutamente invulgar

Agora, o conjunto de pedrarias é muito bonito porque cada pedra parece ter um lumen próprio, um reluzimento próprio, e a gente tem impressão de um firmamento, a gente tem a impressão de que alguém passou uma mão assim por muitas estrelas do céu, fez com elas um pacote e colocou naquele trono, de maneira que fica uma beleza extraordinária. A alma humana que tem fé, se sente cheia, respira com uma coisa dessas a plenos pulmões, como respiraria no alto dos Alpes, ou de uma coisa assim.

Aí a gente poderia ter idéia, uma idéia material de uma coisa que chega a um pleno de beleza absolutamente invulgar.

* O mar, nas suas mil formas, mil rugidos, mil tonalidades: a idéia de algo que atingiu a plenitude de si próprio, a perfeição da alma bem-aventurada

Para dar um outro exemplo, é o mar nas suas mil formas, nas suas mil maneiras, mil rugidos, nos furores magníficos que ele tem, nas tranqüilidades esplendorosas que ele tem. O mar tem assim momentos em que a gente tem impressão que está a bordo, ele está assim, as águas estão assim, e a gente tem a impressão que está na posição que ele está. Depois aquilo se ajeita. É uma beleza. E dele emana o som de que eu falei, mas também um perfume que é o perfume da maresia que não tem nada de comum com o perfume feito por um Lanvin, uma grande fábrica francesa de perfumes, é outra coisa. É outra coisa. Mas é uma coisa incomparavelmente superior. O cheiro da maresia, quem nunca sentiu, ou quem nunca prestou atenção, nunca se encantou, não compreende o que são as coisas. É inútil! Não viveu! É uma coisa do arco-da-velha.

(Sr. Paulo Henrique: As cores.)

As cores, as tonalidades que variam, depois aquela espuma branca. Aquela espuma branca tem um papel na beleza no mar. Você já imaginou um mar sem espuma como ficaria sem graça? Aquela espuma…

Bom, são coisas que a gente pega e percebe padrões ali em que se tem a sensação de uma coisa que se acabou a si próprio, que chegou à plenitude de si próprio, acabou nesse sentido. Ela chegou a uma espécie de plenitude de si própria. E vamos dizer assim, de eternidade de si própria, que nos faz ter um pouco a idéia da perfeição da alma bem-aventurada, porque o homem quando chega ao céu, ele não atingiu necessariamente a santidade para a qual ele foi criado, mas ele atingiu uma certa santidade, e ali, aquilo tomou um aspecto fixo, eterno, imortal, vivo, e a seu modo perfeito, que faz com que aquilo seja…

* As perfeições terrenas encaminham para a visão do sobrenatural, para a graça que nos toma em seus braços para que possamos vê-la

Agora, imagine as miríades e miríades de anjos que há, e depois em número menor, a quantidade incontável de homens, etc., e todos com belezas deste grau, e a gente pode compreender o que é que é, por cima deles, Deus. Aí a gente compreende, bem no fundo do fundo, todas essas coisas como é que se ordenam e como é que elas caminham para uma visão religiosa, mas daí do seguinte: não do natural, mas do sobrenatural. O sobrenatural é uma visão tal que nós precisamos ser sustentados para agüentar de ver. Enche-nos de tal maneira que nós precisamos ser… A própria graça tem que nos tomar nos seus braços para nos pôr de pé para poder vê-la, de tal maneira ela é prodigiosa, magnífica, e tudo mais que possam querer, imaginar, etc., etc.

* Nas maravilhas inferiores a alma procura o supra-sumo para o qual ela foi feita, ela procura o topete do pavão

Então nós temos no fundo do fundo do fundo, uns tantos pontos maravilhosos que são pontos de comandos de maravilhas inferiores que nossas almas devem ver, e há um ponto de comando dos pontos de comando, que é o supra sumo para o qual nossa alma foi feita e para que ela se dirige quando ela vê isto, vê aquilo, vê aquilo…. Ela não percebe, mas ela está procurando o topete do pavão.

(Sr. Gonzalo: Mesmo sem perceber?)

Sem perceberem, mas querendo.

E quando ela tem uma atitude como que de êxtase, é o sinal de que ela viu o topete do pavão, é o flash.

* A educação bem feita deve ajudar a criança a percorrer as várias etapas da procura do “topete do pavão”: é o que faz a Igreja; e é o que não faz, fazendo o contrário, a civilização moderna

Então, a educação bem feita, deveria ajudar a criança a percorrer essas várias etapas… [vira a fita] … como sendo a essência da vida. E se vocês prestarem atenção em como se apresenta para a criança aquilo que deve ser a vida vista por ela, é o contrário. De maneira que entra uma deformação sobre a qual eu acho que não vale a pena nem a gente gastar tempo da reunião vendo as várias formas de deformação. Não é o que …

(Sr. Gonzalo: Nós a conhecemos muito bem.)

É, não é o caso de mexer nisto. É o caso de ver antes, como, por exemplo, isto é preparado pela Igreja na alma da criança, mas não pela “estrutura” de hoje, mas é por exemplo o que é que significou, talvez ainda para vocês, a noite de Natal. O que significou para vocês o cortejo dos reis magos levando ouro, incenso e mirra, e vestidos como potentados orientais, acompanhados de seus escravos e seus camelos, junto ao presepe onde estava Nosso Senhor com Nossa Senhora, etc., tudo isso. Como isto leva a alma da criança para o que eu estou dizendo. Enquanto as coisas de hoje, para as quais eu viro meu rosto enojado, as coisas de hoje preparam exatamente para o contrário. E, por exemplo, como os brinquedos de sentido preponderante mecânico, deforma a criança para isso. Tiram essa visão necessária que eu estou tentando descrever e põem a coisa de outra maneira, põem numa visão…

* A criança inocente forma em sua alma uma espécie de museu, onde ela guarda as noções de coisas que ela considera lindas, às quais, depois, ela associará os grandes personagens da História

Trata-se de reconhecer, então, que a criança deve ter e tem uma perpétua procura do topete de pavão quando ela é inocente, e que a inocência traz consigo uma atenção voltada para várias coisas que a pessoa deve querer olhar, deve querer ver, etc. E que a pessoa vai guardando pre-noções de coisas que ela considera lindas, e que depois vão se acumulando e se destilando, e aí ela vai captando coisas de um sentido mais alto, e mais alto, etc. Mas formando um mundo do desejável, um mundo do ideal, que é o para onde a alma vai caminhando. E que faz uma espécie de coleção, uma espécie de museu dentro da alma — museu no sentido etimológico da palavra: lugar onde estão as musas — um museu dentro da alma, de coisas assim que depois a pessoa vai colocando em função da História. Os grandes personagens da História são acompanhados de uma recordação de grandes feitos, mas ao mesmo tempo de mitologia. E a mitologia é o modo pelo qual o mito cerca e comenta, e faz a beleza do pavão no personagem histórico que existiu.

(Sr. Gonzalo: É uma espécie de corte do personagem.)

É uma corte do personagem.

* Alguém que perca a crença nos três Reis Magos, apaga de sua alma uma riqueza que ela havia adquirido; é como ficar cego de um olho

E é mais ainda do que isso, é como por exemplo, se eu quisesse, vamos ver os reis magos. Há estatuetas de reis magos das mais variadas formas, mas elas no seu conjunto exprimem a idéia popular, mítica, de um rei, de um rei mago, de um rei do Oriente, vindo de longe adorar o Menino. Isto tem um sentido, tem uma coisa que é a mitologia desses três reis, dos quais, aliás, não se sabem se foram reis. É certo que foram magos. Que levam seus presentes, etc., etc. Mas tudo isso, para nós, se uma pessoa deixasse de acreditar nos reis magos, era a mesma coisa do que perder um olho, ou até pior do que isto, porque é uma riqueza desta que se apagaria para alma como o olho que pode deixar de funcionar. Então uma tristeza.

* Os desejos temperantes e inocentes proporcionam uma grande facilidade de expressão: a beleza do vocabulário é ainda maior do que a beleza da pena do pavão

E assim forma-se uma porção de desejos, de anhelos, que quando são retos, temperantes, inocentes, vão fazendo com que a pessoa adquira uma grande facilidade de expressão. Porque a palavra no que ela tem de miroitante, assim à maneira de espelho, a palavra tem beleza como tem beleza as penas do pavão, e a gente procurando ver o sentido e o alcance de cada palavra, o como a palavra matiza os sentidos e tudo mais, tudo mais, a gente chega à conclusão de que a beleza do vocabulário é ainda maior do que a beleza da pena do pavão…

* O vocabulário português: a diferença entre ultraje e injúria

Por exemplo, por exemplo, no português. Porque o português tem essa vantagem, ele é muito miroitant, ele é muito cheio de palavras cujos sentidos se interpenetram. Mas, por exemplo, as tais palavras — ainda hoje eu estava pensando nisso — “ultraje” e “injúria”. São sinônimos perfeitos como lábio e beiço? Você diz com ênfase não, e você tem razão. Mas no que é que ultraje é diferente de injúria? Procure estabelecer a diferença e você vai ver que o núcleo do significado é o mesmo, mas cada uma dessas palavras têm algumas tintas a mais e algumas tintas a menos do mesmo núcleo do que a outra. De maneira que à primeira vista são sinônimos, mas vendo bem, a gente vê que não são perfeitamente sinônimas, que aquilo é diferente e que é como o verde e o azul no pescoço do pavão.

Por exemplo, ultraje. A gente poderia dizer que num parlamento digno de grande classe, ou numa discussão num Sacro Colégio — foi dos ambientes mais culturalizados do mundo — em certo momento um cardeal diz uma coisa pesadíssima para outro. Nós devemos excluir desde logo a palavra soez, a palavra porca, a palavra incompatível com o ambiente. Mas poderia dizer, por exemplo, uma palavra que realmente ultraja. No que é que essa palavra é diferente da palavra injuriosa?

No meu modo de sentir, uma referência à honra do cardeal enquanto honra e enquanto cardeal, atingido ali é ultrajá-lo. Contestar-lhe rudemente uma qualidade que ele não tem enquanto cardeal, mas que tem enquanto homem, e que a qualidade atingida é de um nível menor, a pedrada dói menos, quebra menos janelas, e é uma pedrada que, portanto, é menos agressiva do que o ultraje.

(Sr. Gonzalo: Injúria é menos do que ultraje?)

Menos do que ultraje.

Por causa do som que produz para nossa sensibilidade o u-l-t, “ult”, esse “ult” é ultrajantíssimo. O injúria, o “i” tira qualquer coisa do pesado do “ult” e é menos pétreo.

Então, por exemplo, dizer a um cardeal: “Vossa Eminência é um Judas”, é um ultraje. Dizer: “Vossa Eminência é um analfabeto” é uma injúria.

* Quem sabe sentir a diferença nas palavras, iriza sua alma de matizações, e vive mais intensamente o tesouro acumulado por sua inocência

Bom, não são sinônimos, mas quem sabe sentir essa diferença nas palavras, adquire facilidade de expressão.

A alma se irisa de matizações, o vocabulário toma expressões, a pessoa sente mais o que está acontecendo, vive muito mais intensamente quando todo esse trajeto que eu falei foi feito, e esse conjunto de inocência foi guardado.

(Sr. Paulo Henrique: Nós estamos sentindo ao vivo à medida que o senhor vai descrevendo.)

* Esta é uma descrição do que será o “Grand-Retour”, “la recherche de l’âme perdue”

E eu fico muito contente de ouvir, com a idéia seguinte: que se for possível algum dia fazer desses conceitos um sistema de aquisição ou de reaquisição enlevado e emocionado, é possível reconstruir a nossa vida que foi jogada no chão.

(Sr. P. Roberto: Só o senhor dizendo é que há essa possibilidade de recunhar isso na alma da pessoa. Quando o senhor diz parece que aquilo entra no universo novamente da pessoa, e toma vida.)

Revive partes córneas da alma, que eram carne e viraram chifres, viraram osso, e que por causa disso perderam muito, mas que são suscetíveis de reaquisições, de restaurações. Não sei se você percebe bem, meu filho, se vocês percebem todos, que aqui estaria o…

O Proust dá num dos romances dele, péssimos, um título bonito: “À la recherche du temp perdu”. Aqui é la recherche de l’âme perdue. São pedaços de alma que se perderam e que se reintegram, que se refazem, a pessoa volta para seus sete, oito anos, etc., e revive. E é propriamente uma descrição que eu estou fazendo do que o Grand-Retour deve fazer em nós.

(Sr. Gonzalo: […] O senhor está mostrando como o senhor fez isso, e como o senhor faz isso…)

E tive uma auxiliar preciosíssima! Indescritível!

(Sr. Gonzalo: […] É a partir de contemplar isso feito por Nossa Senhora, por ela e pelo senhor, na alma do senhor, por isso tem um grau de autenticidade e de novidade que é maravilhoso. Isso é que pode mover a nós. […] É impressionante como o senhor fez isso.)

Graças a Nossa Senhora é.

(Sr. Gonzalo: Pergunto se está bem observado ou não, para entender bem a reunião.)

* “Roteiro”, mais nobre do que “caminho”: matizes que exprimem na alma possibilidades de voar que são de primeira ordem

Não, mas é isso. É isso, e eu estou fazendo a reunião com essa intenção. Quer dizer, eu estou com palavras estas ou aquelas, exprimindo coisas indizíveis que se passam nas almas que estão neste roteiro, e que…

Aqui entra um exemplo que eu não deixarei de registrar de lado. Eu disse nesse roteiro. Se eu dissesse “nesse caminho”, ao pé da letra seria a mesma coisa, mas é menos nobre, e no ser menos nobre, alguma coisa da realidade escapa. Então tem que ser roteiro.

Agora, só o saber assim ao alcance da mão a diferença que vai de roteiro para caminho, e duzentas, quinhentas outras aplicações assim, só isto já exprime na alma umas possibilidades de voar que são de primeira ordem.

Eu não estou cansado, não sei se vocês….

* Quando a graça mística incide sobre a alma aparelhada pelas visões naturais de sua inocência, confere-lhe outra possibilidade de compreensão: é a coração do processo humano

Mas antes de ir adiante, é preciso pôr agora uma questão: como é que se põe dentro disto o místico.

Então o místico tem isso. É que eu acho que é preciso uma certa aptidão de alma, um certo treinamento de alma, que tem alguma coisa de natural ou que é quase todo natural, que ajuda a pessoa a ver as coisas naturais assim, mas que todo este aparelhamento feito para ver as coisas naturais assim, quando incide sobre a alma a graça mística, a alma tem outra possibilidade de entender, de degustar, de analisar para si mesmo, de fazer disto o objeto aproveitado de um dom altíssimo de Deus, que é a coroação do processo humano.

* O SDP com dois membros do Grupo na Igreja de São Bento: a graça mística incidindo sobre uma impressão natural

Por exemplo, uma pessoa vai… Deu-se isso uma vez, eu já descrevi, comigo, com o pobre “falecido” Carlos Antúnez e com o Marcelo P. de Almeida, irmos à Igreja de São Bento, e a igreja, de repente, reluzir para nós de um modo único, etc. Ali junto à capela do Santíssimo, há um ícone oriental que é uma Nossa Senhora com o Menino Jesus, e depois o toucado todo feito de pequenas pérolas. É muito bonito o ícone. E tem um genuflexório na base disto, de maneira que a pessoa chega lá, se ajoelha, etc.

Aquilo é uma coisa natural. De repente é tocado por uma graça, que pode ser simplesmente a graça de um “flash”, a graça de uma degustação sobrenatural mística daquilo que a gente está vendo. Está bem, mas tudo isso que eu fiz aqui, torna muito mais fácil que a alma aproveite tudo para a análise da graça mística.

* A ação da graça mística numa alma que vê o ícone de Nossa Senhora coroada de pérolas, na Igreja de São Bento

E eu vou procurar descrever como é essa graça mística, como é que ela toca na alma, por exemplo, a respeito daquele ícone — esse ícone acho que nenhum de vocês chegou a ver, chegou?

(Sr. Gonzalo: Está onde?)

Na Igreja de São Bento. Quando eu freqüentava estava junto à capela do Santíssimo.

(Sr. Gonzalo: Não me lembro.)

Mas podem ter mudado de lugar também, podem ter mandado para outra igreja, essas coisas são assim.

(Sr. Horácio B.: Está lá na igreja. Logo que a gente entra na igreja, está à direita.)

Mas à direita está uma imagem de Nossa Senhora das dores, não é?

(Sr. Horácio B.: Está na parede logo na entrada, está na coluna.)

Ah, então mudaram de posição. Mas então estão vendo onde é.

O que é que acontece? Quando a pessoa é tocada por uma graça ali, pode essa graça atuar da seguinte maneira: a gente olha primeiro, e tem uma certa impressão — sabe perfeitamente que aquilo não está vivo, que aquilo é matéria, e que é uma imagem, não é uma realidade viva — mas tem uma impressão de que algo está vivo ali dentro e que sente. Mais ou menos como se tem com a Sagrada Imagem quando a Sagrada Imagem está comunicativa. A gente sabe durante todo o tempo que está olhando para a Sagrada Imagem, que aquilo é um pedaço de pau pintado. Mas sente ao mesmo tempo que é uma enormidade chamar aquilo de um pedaço de pau pintado. Porque o que se passa nos nossos olhos a propósito daquele pedaço de pau pintado, e aquilo que esse pau procura reproduzir são tais, que é um pedaço de pau pintado, mas ai! do pobre cego que veja ali apenas um pedaço de pau pintado! Porque é alguma coisa de imensissimamente mais do que isso.

Olhando para a imagem de Fátima, a gente tem impressão que algo vive nela, e a gente tem uma sensação, portanto, de conhecer pelos próprios sentidos — não é pelos próprios sentidos, é por uma ação da graça na alma — mas a gente tem impressão de conhecer pelos próprios sentidos, uma vida que nos maravilha e nós não sabemos porque, mas é porque é uma participação da vida de Deus, e é por isso que nós sentimos esse maravilhamento que está li.

Mas logo o segundo passo, é sentir em concreto a ternura dela para com o filho, e compreender então o que é que uma ternura pode ser. Coisa que… (…)

Agora, depois vem uma coisa diferente. Essa ternura parece abranger-nos também, e a gente sente dentro de si como se estivesse sendo nós olhado e nós acariciado como aquele Menino está sendo ali. E então uma qualquer coisa tem em nós um desejo, e alguma coisa nos diz: “Afinal, o que eu tanto queria, eu estou uma vez sentindo”. A pessoa não sabia que queria isso. Se dissesse para ela que ela queria, ela dava risada: “Eu não quero isso, eu quero ganhar dinheiro, deixa de ser idiota!” Mas de fato é assim.

* Semelhante ação da graça mística sente-se na Capelinha de Mater Boni Consilii a Genazzano, no Êremo de São Bento

(Sr. Gonzalo: Nossa Senhora de Genazzano tem muitíssimo.)

Muito, muito!

(Sr. Gonzalo: Pelo menos na capelinha do São Bento eu sinto isso a toda hora.)

É prodigioso! Prodigioso! E é a capelinha, não é só a imagem.

(Sr. Gonzalo: Exatamente, é o conjunto.)

É o conjunto. Um conjunto do qual a nota principal é o quadro. Mas é a capelinha. É o conjunto.

(Sr. Gonzalo: Aquilo é um sacrário da TFP.)

É fora de dúvida que é. A tal ponto que eu nunca, nunca vou lá, exceto com mal tempo, sem ir lá na entrada e na saída.

* É uma outra vida que começa, quando a alma diz “sim” ao convite da graça mística

Mas a gente se sente objeto assim desta ternura quase como se Ela olhasse para dentro de nossos olhos e dissesse: “Meu filho, não quer inaugurar comigo relações desse gênero? Assim eu lhe quero. Aceite de ser querido assim e você começa uma outra vida para si.” E é outra vida que começa. Quando o sujeito diz sim, começa uma outra vida.

É um fato de caráter místico, sobrenatural, mas para cuja compreensão, descrição, etc., etc., os fatos naturais de que eu falei antes preparam enormemente.

Eu estou sendo claro?

(Claríssimo!)

* Deus passa a agir na alma que corresponde à graça mística

Aqui começa uma coisa — porque aí começa umas coisas novas — a partir desse momento não se é um só, é-se dois. Tem a graça, Deus, portanto, que age, e temos nós. E Ele começa agir em nós dando essa graça ora de um modo sensível, ora de um modo insensível, e segundo as intenções dele, e aí tudo muda. É um outro horizonte. Porque Ele quer o seguinte:

* A ação de graças pelo dom recebido, é, primeiro, conservá-lo na memória, como coisa prodigiosa e inesquecível, sobretudo nas horas de aridez, quando começa a crucifixão na vida espiritual

A ação de graças que Ele quer quando Ele nos dá uma graça dessa sensível, a ação de graças que Ele quer de nós é o seguinte: é que quando essa graça se retira — é o primeiro ponto — a gente tenha se deixado trabalhar tanto por ela, que ela fica na memória como uma coisa prodigiosa e inesquecível. A pessoa não faz assim, se abana para ver se aquela graça passa. Porque há gente que faz isso. Mas não é isso. Fica como uma recordação, mas dentro da secura. E aparece a correspondência à ternura que a gente sentiu. E aqui é a vida dura da vida espiritual.

Quer dizer, a resolução dura: “Ela me amou com aquele olhar, Ela me quis e me quer daquele jeito. Passado o olhar, passada a sensibilidade, eu terei mudado, Ela não. E Ela, para lá da insensibilidade, está me olhando assim, e está me dando graças para uma energia, para uma força, para uma resolução inquebrantável, pela qual eu serei como um avião que arremete com tanta força sobre uma montanha de areia, que vara a montanha e vai do outro lado, mas não pára e continua a voar. Assim também eu vararei a montanha da secura, da aridez e passarei do outro lado na minha resolução, e continuo fiel de todo jeito”. Aí é a crucifixão que começa.

Eu notei que se fez uma espécie de silêncio…

(Sr. Paulo Henrique: É isso mesmo, porque do contrário não estaríamos num vale de lágrimas.)

Porque seria o céu, não seria a Terra.

(Sr. Paulo Henrique: Mas é a realidade. Ela assusta porque nós não queremos isso, a nossa natureza pede o contrário. Mas é isso.)

É isso, e é uma lorota não contar isto no meio.

* No meio das securas, às vezes um raio da graça se faz sentir: começa o heroísmo e começa o homem a ser ele mesmo uma pena de pavão

De vez em quando isto volta. E às vezes será pelo reluzir de um pedaço de vitral, outras vezes será por um som de órgão, outras vezes será por uma iluminura que se viu, será o que for, um pouco daquilo vai mais ou menos como uma criança que acorda na noite, no escuro, fica apavorada porque está sozinha, mas sente a mão da mãe na fronte. A mãe não está falando, não tem nada, mas põe a mão na fronte. A criança diz: “Mamãe está aqui”. Se distende e dorme. Assim também, no meio dessa secura há coisas assim, que Nossa Senhora gradua e gradua misteriosamente segundo, evidentemente, as preces d’Ela a Deus, Deus é que decide, Deus é enfim, o centro de tudo.

E aí começa a grandeza heróica. Eu até aqui não pronunciei a palavra heroísmo. Aí começa o heroísmo e começa o homem a ser ele mesmo uma pena de pavão.

Agora, acontece que as pessoas que tratam disso só falam da parte heróica e não põem em torno do heróico essa moldura toda que eu pus e que alimenta o heroísmo.

(Sr. P. Roberto: É heróico em função de quê?)

Exatamente, em função de quê?

Mas quando se põe o conjunto, a moldura e o tema, e o herói, aí a gente compreende a beleza do que está feito.

Isso seria o conjunto do roteiro de uma alma.

* Se o conjunto da doutrina aqui exposta fosse aceita pelo auditório, a TFP seria outra

E se fosse possível expor isto numa reunião plenária do auditório Nossa Senhora Auxiliadora, e as pessoas dissessem “sim”, e então aconteceria que todos nós nos mudaríamos e seríamos outros. E é de esperar que o Grand-Retour se faça em função de uma coisa assim.

* Fica de pé que, de vez em quando, as reuniões no auditório se iluminam, como no Santo do Dia de ontem (19/3), no qual o SDP tratou da sociedade orgânica

Mas de qualquer forma, de qualquer jeito que seja, acaba sendo o seguinte ficando de pé. É que no próprio auditório Nossa Senhora Auxiliadora vem o de que o Gonzalo falava no começo da reunião, é as reuniões, de repente, de vez em quando se iluminam.

(Sr. Paulo Henrique: Essa de ontem acho que tocou praticamente a todos.)

Mas você veja, o tema era um tema inteiramente natural, era o tema da sociedade orgânica. Mas na descrição daquele tema entrou uma beleza que foi o perceber a beleza da obra de Deus através da sociedade orgânica. Foi propriamente o que entrou, junto com uma consolação sensível. E o resultado é que eu notei bem, se eu não me engano até todos se levantaram para aplaudir, não me lembro bem.

(Sr. Gonzalo: Sim.)

E foi um trecho curto do que eu disse que eles aplaudiram. Mas é por quê? Porque entrou uma graça que fez ver de modo sensível, na sociedade orgânica, uma beleza superior àquela que um homem pode ver de um modo sensível numa flor.

Não se compara.

(Sr. Gonzalo: Aí estava tudo, havia muito da vocação também.)

Da vocação que rejubilou à vista daquela descrição, etc., etc.

Mas o que é que houve?

Foi, de repente, uma graça sensível que transforma um auditório pouco sensível numa espécie de jogo de água cristalina que sobe. Eu não tenho a menor ilusão, as pessoas vão dizer para explicar para si mesmas porque ficaram contentes, elas vão dizer coisas que são verdades, mas que são uma parte pequena da verdade: que a exposição estava bem feita, que estava coerente, que…

(Sr. Guerreiro: Muito lógica.)

Muito lógica. Se quiserem, a matéria estava bem dividida, etc., etc. As pessoas pensam que é por isso que elas aplaudiram, mas de fato elas viram outra coisa. E se, por exemplo, dependessem delas a reunião durar uma hora naquela clave, à vontade.

(Sr. Gonzalo: Uma espécie de Tabor, podia colocar tendas que todo o mundo ficava…)

Diretamente! Diretamente. Mesmo os mais empedernidos. Mas é uma coisa interessante: as zonas do auditório aonde em geral esse fenômeno começa a se manifestar para depois conquistar os outros, são zonas onde há almas que a gente pode supor que sejam mais inocentes.

* Dinheiro e carreira: o que torna o homem insensível à graça

(Cel. Poli: E que não estejam mexendo com dinheiro também.)

Não. Nem com dinheiro, nem com carreira. Quando deu na cabeça do sujeito: “Eu vou ser grande homem”, ele fica córneo para essas coisas. Ele vai perguntar o seguinte: “Afinal de contas está bem, mas eu vou ser superior ao meu primo, porque é objeto de minha vida ser mais do que meu primo, eu vou ser superior ao meu primo no que com tudo isso? Em nada. Não me interessa”.

(Cel. Poli: O dinheiro tem um papel importante nisso.)

Horrível, é um papel horrível.

(Cel. Poli: E maior ou menor do que a carreira, ou vai junto.)

Isso eu não sei. Porque dinheiro acaba sendo um símbolo de carreira. Não tenha ilusão.

(Sr. Gonzalo: É muito importante tudo isso.)

Então, por exemplo, a gente pergunta:

Eu terei sido claro?

Aah! [como quem aplaude.]

De fato não quer dizer que fui claríssimo. Eles acham que foi mesmo, mas é o que está por detrás de clareza. Aqui entra mais uma vez um jogo de palavras: é a claridade, não é a clareza.

(Sr. Gonzalo: Há uma transparência da graça que é arrebatador.)

É arrebatador.

* Quando Nossa Senhora quer que a sensibilidade da graça se afaste, nenhum esforço é capaz de retê-la

Agora, tem uma coisa, não me é dado prolongar isto além do que eu queira. Quando começa a decrescer, é porque Nossa Senhora quis e por maior esforço que eu faça, isso vai se retirando como o sol se põe.

(Sr. Gonzalo: É como o pavão que fecha a cauda.)

Fecha a cauda.

Aqui está, vamos dizer, um conjunto.

Agora, a pergunta terminal, aliás eu preciso ver um pouquinho que horas são.

(Cel. Poli: O senhor começou mais cedo.)

Que horas são?

(Sr. Guerreiro: Vinte e cinco para às três.)

(Sr. Gonzalo: O senhor começou bem cedo.)

Foi, graças a Deus.

* O verdadeiro seria transformar esta reunião em matéria de meditação, como num retiro: exercícios de “refecção”

O que seria bom, o que seria bonito, seria se se pudesse arquitetar um tipo de exercício para isso à maneira dos exercícios espirituais, mas adequado a essa temática. Quer dizer, pegar, por exemplo, essa reunião e bater à máquina inteira, sem — por falta de papel, porque a tinta da máquina está ruim — sem pular trecho nenhum, e batido isso inteiro, numa época de relativa tranqüilidade que a Providência nos dê, a gente se perguntar a si mesmo, se poderia fazer exercícios de refecção — refeição seria ao pé da letra a palavra, porque a pessoa se refaz, mas fica muito feio, dá impressão de comedoria —, refecção, refazer-se. Um exercício meio de reflexão e meio de aplicação de sentidos, etc., etc., para levar a pessoa metodicamente a se refazer. Isso seria muito muito bom.

(Cel. Poli: Seria espetacular.)

E fica essa idéia como um elemento terminal da reunião de hoje.

Eu estou à sua disposição.

* O homem cujos deleites principais residem mais na alma do que no corpo, procura a felicidade sobrenatural com o mesmo “élan” com que um gozador da vida procura as coisas terrenas

(Sr. Guerreiro: […] O senhor habitualmente faz esse exercício de transcendência… * [muda a fita] * isso é um exercício natural que o senhor faz habitualmente.)

É preciso ver aí qual é o sentido da palavra natural.

(Sr. Guerreiro: É um movimento próprio da natureza no senhor como o senhor a modelou, etc., mas o senhor está sempre à procura desse ponto superior.)

Sim, sempre.

(Sr. Guerreiro: Isto é algo que está ao alcance de cada um de nós fazer também, na medida que siga os passos do senhor, e se inspirar nas temáticas que o senhor se inspira.)

É, é isso mesmo.

(Sr. Guerreiro: É isto que atrai as graças, esta ação mais intensa de Deus para dar uma vida que naturalmente ela não teria? E é isso que sustenta e chama a graça para que ela venha em certo momento? Como é então a relação entre a ação da graça e a atitude da alma que está continuamente procurando este “au-delà” que as coisas têm.)

A atitude é a seguinte: você diz bem, é um movimento da natureza que procura continuamente o melhor, o mais excelente, o mais magnífico, etc. E o gozador da vida, procura o mais delicioso, o mais deleitável, etc., etc. Mas isso é para um pândego, gozador da vida, da vida física. Mas para uma [pessoa] cujos deleites principais residem na alma muito mais do que no corpo, para uma alma assim, ela procura esse gênero de felicidade com o mesmo élan com o que um gozador da vida procura as coisas da terra. E com isto vai se satisfazendo, e esse exercício todo vai se tornando tão destro, tão fácil e tão respirante para a alma que equivale um exercício de respiração em ginástica. Aquele exercício assim equivale a isto.

E então vamos dizer que um homem que se habitua com aquele exercício de respiração, respira sempre excelentemente. Ele faz exercício de respiração que não é o exercício comum, corrente, um exercício que o hábito tornou nele excelente, mas é um exercício de respiração sem o qual ele não vive.

Não sei se minha resposta responde sua pergunta.

* No “verum, bonum, pulchrum” que se vê comumente nas coisas, com freqüência mescla-se discretamente uma fímbria do sobrenatural

(Sr. Guerreiro: Agora, a relação desse exercício contínuo com esta ação mais intensa e luminosa do sobrenatural.)

Acontece o seguinte. No verum, bonum, pulchrum que a pessoa vê comumente nas coisas, é muito freqüente entrar discretamente alguma coisa que está um pouco acima do natural, e que faz ver o pulchrum, ou o bonum, ou o verum da coisa, um pouco mais do que no natural. De maneira tal que, por exemplo, meus olhos caíram sobre uma moldura vermelha que eu estou vendo aqui à distância, pode acontecer — é uma moldura comum — mas pode acontecer que de repente, olhando aquela moldura, como eu gosto muito do vermelho, eu vejo o vermelho e me agrada de encontrar num conjunto discreto de cores, encontrar o vermelho. Mas nesse momento em que eu tenho a delectação de encontrar o vermelho, alguma coisa é como uma luz que se acende por detrás do vermelho e que faz ver uma espécie de excelência de alma do vermelho, que é uma tintazinha de sobrenatural. É uma fímbria. E essa fímbria se acaba vendo incontáveis vezes durante o dia, em incontáveis objetos. De tal maneira que a gente nem faz, nem fica medindo se é sobrenatural ou natural, vai olhando e vai vivendo, mas a gente sabe que é sobrenatural.

* A partir da Bagarre Azul, o demônio resolveu esconder-se sistematicamente, a fim de estabelecer uma espécie de regime de paz do mal com o bem

(Sr. Gonzalo: E com o mal? Porque o senhor vendo isso, o senhor vê continuamente as coisas feias, o preternatural nas coisas. […] A pessoa contra-revolucionária também vai discernindo a presença do preternatural e do natural feio que há, e o rejeitável que isso tem, como também o preternatural com muita facilidade, continuamente.)

Continuamente. Mas com uma reserva que é a seguinte: o demônio recebe de Deus a permissão de ter manifestações para o homem como que místicas, mas mística do mal, e no jogo Revolução e Contra-Revolução, a partir do tempo da Bagarre Azul, ele resolveu esconder-se sistematicamente, de maneira que no contato com aquilo que tem de mal, o demônio leva a pessoa a não perceber porque é especificamente mal, e estabelecer uma espécie de regime de paz deste mal com o bem.

* Quem se desabitua, à força de moleza, de ter um vitupério interior militante contra o mal, este não é favorecido senão raramente pelas graças que fazem saborear o bem. Um exemplo concreto

Ainda outro dia esteve aqui um advogado tratando de negócios comigo… (…)

Mas ele falava a respeito de costumes de hoje em dia, e dizia o seguinte: “Bom, isso hoje em dia, a pureza não existe mais para as moças, uma mocinha — eu me lembro do gesto dele — com uns 14 anos assim, já perdeu a pureza, e não há mais mocinhas que conservem a pureza”.

Ele dizia como quem deplora, mas não como quem combate. Ele não via nesse fenômeno uma agressão do demônio, mas ele via apenas uma patologia das almas que passaram a ter esse defeito, mas não é uma coisa contra a qual a pessoa se herisse.

Ele disse: hoje em dia, se uma mocinha, numa roda de mocinhas, disser: “Eu sou virgem”, ela fica tão desmoralizada como antigamente ficaria uma outra que numa roda de virgem dissesse: “Eu não sou virgem”. Ele tem razão. Mas ele dizia isto numa constatação de quem não está de acordo, mas em que todo o aspecto pugna desaparecia.

E eu então para ver o que é que ele dizia, eu empreguei uma comparação um tanto exagerada, eu disse mais ou menos o seguinte. Bom, vamos dizer que antigamente se se dissesse para um jovem: “Sua irmã de 14 anos não é mais virgem”, se ele tivesse ao alcance da mão um revólver, ele pegava e matava quem disse isso. Aqui em São Paulo era isto. Hoje é o contrário. Se disser para um jovem: “Sua irmã é virgem”, quem sabe se ele passa a mão no revólver e mata. Há um certo exagero na segunda hipótese.

Ele disse: “Não, não, também tanto não”.

Contra o exagero que ele tomava uma atitude pugnaz, era o exagero de uma coisa boa, porque o que eu estava dizendo era o exagero de uma coisa boa. Ele ali, era pugnaz. Quanto à exacerbação do péssimo, ele constatava com uma espécie de sentido de… E isto, a meu ver, é uma das coisas que mais prejudicam essa vida mística. Porque quem se torna, à força de moleza, e desabituado de ter esse vitupério interior militante contra o mal, este não é favorecido senão raramente pelas graças que fazem saborear o bem.

(Sr. Gonzalo: No caso concreto do senhor, o senhor continuamente está vendo isso, o senhor continuamente está vendo as coisas, […], mas isso que se dá para todas as coisas, para o mal se dá continuamente também.)

Também. Aquilo que eu chamo Revolução, e aliás, é a Revolução, eu vejo naquilo, porque estou definindo como sendo Revolução, eu vejo ali como componente principal, uma ação do demônio.

E é exatamente essa posição ebetée diante do mal que… Eu me lembro de uma… (…)

*_*_*_*_*