Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 20/2/93 – Sábado – p. 15 de 15

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 20/2/93 — Sábado

Quando se é fiel no estado religioso, as coisas voam: desde o estudo intelectual até os dotes artísticos * O demônio, desistindo de contestar a devoção à SDL, procura fazer o vazio em torno dela * Uma divisão na Igreja poderia acarretar a semi-dispersão do Grupo: hora em que o demônio quererá jogar no vazio a devoção à SDL, que é a “companhia dos isolados” * Nossa Senhora às vezes visita nossas almas com uma graça própria à vocação, na linha da mística ordinária, mas à qual não correspondemos como se devia * Quando recebemos essa visita da graça, nosso pedido deve ser o dos discípulos de Emaús: “Ficai conosco, porque a noite se faz em torno de nós!” * Durante a Reunião de Recortes o SDP sentiu um delicado aroma de “Bagarre”, como se Deus se aprestasse a romper os vínculos que nos prendem ao mundo revolucionário * Como o SDP recorda e conserva os sabores que, a propósito de um tema, a graça incutiu-lhe na alma. Por exemplo, o prédio da Estação da Luz * São mais ou menos sem fim as recordações que o SDP conserva das cores, dos sabores, dos símbolos de espíritos e de mentalidades

(…)

* O SDP estuda ação no Rio Grande do Sul através do “Amanhã de Nossos Filhos”

isso, até você querendo pode pedir, para você apalpar um pouco a coisa, pode pedir ao Clarindo. Ficou com ele para transporte, e ele sumiu por aí. Mas é uma lista muito boa, que dava para duas coisas. Dava para muito bons correspondentes esclarecedores e muitos bons ouvintes, etc., para o “O Amanhã de Nossos Filhos” e que valeria a pena… Não sei se há recursos no momento…

(Sr. Paulo Henrique: Nós temos muitos aderentes lá no Rio Grande do Sul, caso o senhor queira fazer uso de alguns deles para efeito de dar apoio à TFP, talvez fosse o caso…)

Eu acho excelente.

(Sr. Paulo Henrique: Talvez fazer por carta ou uma visita pessoal.)

Podia me dar essa lista?

(Sr. Paulo Henrique: Posso sim senhor.)

Mas eu achava que era preciso para isto, é arranjar uma pessoa que ficasse no Rio Grande do Sul — no Grupo naturalmente — mas especialmente se dando para esse trabalho.

(Sr. Paulo Henrique: Porque normalmente eles não associam. Não sei se todos já associam uma coisa a outra, o “O Amanhã de Nossos Filhos” com a TFP. Eu acho que nem todos.)

É, eu acho que nem todos não. Eles podem notar uma vaga afinidade, mas não chegam a imaginar a [explicação].

(Sr. Paulo Henrique: Há uns seis meses, eu perguntei para o senhor se era o caso já de fazer uma relação de uma coisa com outra, e o senhor disse que naquele tempo ainda era prematura.)

É, e acho ainda um pouco prematura.

(Sr. Paulo Henrique: Então vamos continuar ainda na paralela.)

É, eu acho que é um pouco prematura.

Agora, eu acho que se nós tivéssemos uma pessoa que pudesse — o ideal seria um casal — que pudesse ir trabalhar lá no Rio Grande do Sul, arranjar um emprego, e dedicar-se a isso… Melhor ainda seria se nós pudéssemos arranjar um jeito de pagá-los para eles trabalharem nisso. Mas eu acho que não há dinheiro para isso, não é?

(Sr. Paulo Henrique: É uma coisa para se estudar. Ver com o coronel, acho que ele não vai ficar desinteressado, sobretudo sendo Rio Grande do Sul…)

Na terra! Na pátria dele, hein!

(Cel. Poli: Para isso eu acho que tem verba.)

Porque eu acho que ali pelas repercussões daria resultado.

(Sr. Paulo Henrique: Nós temos muitos bons aderentes lá, doadores, telefonam, etc. Gente com um bom nível de simpatia.)

O que se poderia fazer é o seguinte: era mandar uma…

(Cel. Poli: Está gravando.)

Pode gravar, não há segredo nenhum.

Era mandar a resposta, a nossa réplica para eles, junto com a tréplica. Agora, sem dizer que é o “O Amanhã de Nossos Filhos” que mandava. Mandar pôr no Correio de Porto Alegre mesmo, e até com o endereço da TFP, eventualmente, para ver se eles procuravam a TFP, ou como é que era.

* Pensa-se na possibilidade de promover encontros de simpatizantes do “Amanhã de Nossos Filhos”

(Sr. Paulo Henrique: Já que o senhor tocou no assunto, vou roubar uns minutinhos da conversa, mas não está muito fácil conseguir um expediente com o senhor…)

Não, não está fácil…

(Sr. Paulo Henrique: Tem havido muitos convites para fazer reuniões em grupos, em cidades onde há TFP e onde há correspondentes. É o caso de se aceitar esses convites e fazer num lugar neutro, onde na reunião do “O Amanhã de Nossos Filhos” vão Correspondentes da TFP para assistir…)

Enquanto ouvintes da…

(Sr. Paulo Henrique: Depois eles ficam conhecendo lá quem presta e quem não presta e a gente fica conversando com alguns lá, etc. Agora, isso já tem pelo menos uma meia dúzia de cidades.)

É uma coisa que se podia pensar, ouviu?

Agora, é preciso tomar cuidado num ponto, é que essa história é uma roda viva que absorve muito. Eu vejo com….

(…)

nessa semana ainda, depende exatamente do tempo que essa porqueira do Rio Grande do Sul me dê… Não é o Rio Grande do Sul que é uma porqueira, uma porqueira que há lá.

(Cel. Poli: Essa porqueira do Rio Grande do Sul.)

(Sr. Paulo Henrique: Ele acabou de dizer que há lá repercussões ótimas…)

Eu disse com muito cuidado, porqueira no Rio Grande do Sul.

Então, estava dizendo que logo depois havia três serviços diferentes em que eu queria mexer. Um é dar umas audiências sistemáticas para o Caio Newton. Porque essa história dos padres está dando realmente bom resultado, mas que eu vejo que ele é de um temperamento um pouco indeciso e que ele fica… E se ele tivesse oportunidade de fazer algumas perguntas de início, ele depois pegava e tocava para frente.

(Cel. Poli: Ele está muito dedicado.)

Muito, muito dedicado.

(Sr. Paulo Henrique: “O Amanhã de Nossos Filhos” deve ter já uns mil sacerdotes que já apoiaram algum lance nosso. Também é um veio muito bom para depois ele começar.)

Um veio ótimo. E depois um outro com Roberto Kallás sobre uma série de coisas lá dentro, e depois o outro é o “O Amanhã de Nossos Filhos”. Aí tratamos de tudo isso.

(Sr. Gonzalo: Com o MNF também.)

Ahahahahahah!

(Sr. Gonzalo: Em quatro lugares…)

Mas meu filho, sem brincadeira, seria a primeira coisa. É claro.

(Cel. Poli: Quando o senhor tratar do “O Amanhã de Nossos Filhos”, podia tratar dos problemas do êremo da Divina Providência.)

Ahahahah! Vamos sentar e conversar.

(Sr. Gonzalo: No fim da reunião tenho uma informação muito urgente para dar para o senhor…)

Depende de você me lembrar. Vamos sentar meus caros.

* Quadro de D. Pedro II pintado por um artista da Serra da Piedade: “É interessante a semelhança com D. Bertrand…”

Eu perguntei se vocês já viram o quadrinho de D. Pedro II na sala ao lado. Veja um pouquinho porque vale a pena. Ficou bom. Atrás aqui dessa parede.

(Sr. Paulo Henrique: Ficou ótimo. Ficou muito bom.)

O que eu acho muito interessante é a coincidência de semelhança com D. Bertrand. É muito parecido.

(Cel. Poli: E parece que foi feito para aquele lugar.)

(Sr. Paulo Henrique: O senhor escolheu cuidadosamente lá. Numa noite que nós estávamos aqui, o senhor pediu que fosse até lá, que colocasse, e depois ia pensar…)

Foi isso.

(Sr. Gonzalo: O senhor se lembra do autor?)

Sim.

(Sr. Gonzalo: O senhor tem na retina?)

Não, na retina não. Parece que ele está no São Bento.

(Sr. Gonzalo: Ele é da Serra da Piedade. Mas outro dia…)

(…)

* Devemos aprofundar o estudo da Revolução Industrial, segundo o sistema dos torreões

é uma coisa que nos falta muito ainda, é a gente mexer e aprofundar, é a Revolução Industrial. Porque o automóvel é produto típico da Revolução Industrial. Há até livros a respeito disso, e uma porção de coisas. Mas era preciso ter uma espécie de equipe que se dedicasse a esse estudo, mais ou menos como esse pessoal que está fazendo os torreões, etc., etc. Aliás, é uma coisa monumental os torreões.

(Sr. Gonzalo: Espetaculares.)

Espetacular! Dedicar-se assim com isto.

* Quando se é fiel no estado religioso, as coisas voam: desde o estudo intelectual até os dotes artísticos

Porque aí há uma espécie de mão de anjo que intervém junto àquele que está não num estado religioso, mas como que, e que intervém também no que estão em estado religioso, por onde a gente vê que quando nesse estado se é fiel, as coisas voam. Donde os prodígios e obras-primas de toda ordem, feitas por ordens religiosas no passado.

Você pega, por exemplo, os dominicanos. Entre São Tomás e Fra Angélico, por exemplo, que variedade de talentos, mas que sumidades e coisas extraordinárias, e daí para fora. Não tem palavras! E nós podíamos nos beneficiar mais disso se nos compenetrássemos disso, e fizéssemos então coisas…

* Não se tem idéia do mal que faz a democracia, se não se compreende a Revolução Industrial

Por exemplo, Revolução Industrial, nós não temos idéia do mal que faz a democracia se nós não tivermos noção da Revolução Industrial.

(Sr. Gonzalo: E que hoje se viu muito nessa parte magnífica da reunião sobre sociedade orgânica. […])

É o contrário da Revolução Industrial.

(Sr. Gonzalo: E a bênção que entra quando o senhor trata como tratou hoje…)

(…)

* O demônio, desistindo de contestar a devoção à SDL, procura fazer o vazio em torno dela

ela não era esquecida, o demônio procurava contestá-la, mas a partir do momento que ele sentiu que não valia a pena contestar, ele achou mais inteligente ficar quieto e fazer o vazio.

(Sr. Gonzalo: […] E não se tem falado entre nós. E é uma coisa trágica.)

Sim, é uma coisa horrível.

(Sr. Gonzalo: Então nos pareceu, quando o coronel contou o fato, veio como um pouco de pedido para nós: por que não pedem ao senhor hoje à noite para conversarmos sobre ela hoje à noite.)

Está muito bom.

(Sr. Gonzalo: São tais as dificuldades, tais as encrencas […].)

Por exemplo, a casa dela, passou a ser menos “dicedora” para vocês. Uma coisa evidente nas reuniões de sábados à noite, há menos do extraordinário que havia — e há — do que havia aqui. E isso é como se a presença dela se tivesse evanescido em boa parte. Eu acho isso. Não falaria disto se vocês não tivessem tomando a iniciativa de falar e de me perguntar. Porque praticamente estão me fazendo uma pergunta, mas a verdade é essa.

(Cel. Poli: É isso mesmo.)

* Antes de voltar ao 1º Andar, após a RR, o SDP janta no São Bento, ouvindo minueto de Boccherini e Kurfürsten

Ainda agora eu tive no São Bento, depois da reunião e jantei lá. Tive todo necessário para um jantar excelente, quer dizer uma peixada de primeira ordem, muito bem feita, uma sobremesa muito boa. Durante o jantar, o Ramón León executou o minueto de Boccherini que é uma música de que eu gosto muito, depois repetiu o Boccherini para eu ouvir, depois eu vi que eles estavam com muita vontade de tocar o Corelli para eu ouvir. Eu já ouvi o Corelli e sei que é um muito bom músico — ah, tocaram Mozart também, o minueto do Mozart — sei que o Corelli é um muito bom músico, mas não tenho o entusiasmo que tenho pelo minueto do Boccherini. Eu acho aquele minueto formidável do ponto de vista da afirmação de espírito hierárquico. Aquele modo de ser do minueto… [O Senhor Doutor Plinio cantarola o minueto], é o charme que atrai mas põe limite. Atrai, põe limite, que é o que deve ser na hierarquia.

Vamos dizer por exemplo, um bispo, deve atrair enormemente, mas a hierarquia o faz aparecer no seu trono, com sua mitra, etc., etc., enfim em toda aquela espécie de majestade de um bispo, atraindo e fazendo entender que o limite é o encanto da intimidade. Que isso é assim.

Bom, depois eles tocaram a meu pedido o Kurfürsten, e eles ficaram meio espantados de eu passar de dois minuetos para o Kurfürsten, que é o contrário. Mas eu acho que as coisas vão bem juntas. Muito, muito bem juntas.

(Sr. Paulo Henrique: Os extremos se tocam.)

Os extremos se tocam. O fato é que eu gostei muito.

* “A casa de Dona Lucilia é a casa de Dona Lucilia!”

Bom, mas quando cheguei aqui em casa e me deitei no sofá, eu pensei: “Bom, seja o que for, a casa de Dona Lucilia é a casa de Dona Lucilia.”

Entra aqui meu caro? Então, o que é isso, está chegando agora?

(Sr. G. Antoniadis: Chegamos um pouco antes….)

Como vai você?

(Sr. G. Antoniadis: Com muita saudades do senhor.)

Então, muito gosto em vê-lo, de dentro do vidro de pimenta quente que estiveram, não é?

(Sr. G. Antoniadis: Foi fenomenal, a vitória do senhor foi espetacular.)

Foram vocês que trouxeram um rolo com repercussões, ou veio pelo gravador?

(Sr. G. Antoniadis: Não, não, eu acho que veio pelo…)

São estupendas! São estupendas! Eu fiquei muito contente.

(Sr. G. Antoniadis: Mais um triunfo do senhor.)

Triunfo de Nossa Senhora.

(Sr. Gonzalo: Mas a casa dela é a casa dela…)

Meu George, pega uma daquelas cadeiras lá ou aqui, onde você preferir. Aqui tem uma poltrona relativamente cômoda. O que você quiser.

E deitei-me com esta sensação. E depois pensei: é pena que eu não vá ter jeito de tratar dessa questão com o pessoal de sábado à noite agora, porque se não aparecer uma oportunidade excepcional, eu não trato disso com eles. E está aparecendo essa oportunidade com muita facilidade, muito bem. É interessante. De maneira que…

* Não convém que os fatos internos e externos tomem lugar nas conversas de Sábado à Noite

Aliás, de um modo geral, eu queria dizer também o seguinte: que nós estamos numa situação em que os fatos internos e externos do Grupo, vão tender a tomar muito lugar nas conversas de sábado à noite, e que isso não convém.

(Sr. P. Roberto: Sente que é uma esfera própria, mais alta, que é a esfera própria dessa reunião.)

Exatamente. E que nós deveríamos prestar muita atenção. Por exemplo, normalmente podia me ocorrer de pegar essas repercussões — talvez ainda esteja aqui em casa, não sei bem onde estão — e propor de um de vocês lerem e nós ouvirmos, mas seria uma infidelidade. Se houver ocasião, pode-se ler na 4ª feira à noite no auditório Nossa Senhora Auxiliadora, qualquer coisa assim.

(Sr. Gonzalo: O assunto aqui é o senhor e a Senhora Dona Lucilia.)

Mas nós não devemos escapar nem abrir mão do tema fundamental. Eu acho que isso é uma coisa que tem que ser assim, e acabou-se.

* É necessário cuidado no tratar sobre a SDL, a fim de não suscitar antipatias contra ela em pessoas tentadas pelo demônio

(Sr. Gonzalo: O senhor poderia tratar um pouco mais tanto sobre essa ação preternatural de tirá-la do centro das atenções? […] Porque é notório a partir do momento que se diz.)

E cuidado na hora de dizer, porque há certas ocasiões em que essa ação de sucção do demônio se faz sentir, e se você for falar fora da hora, define uma porção de antipatias da vítima em relação ao tema, que ainda não estavam definidas, estavam apenas esboçadas vagamente e que se definem nessa ocasião. Um movimento assim como quem diz: “Chega, disso eu não quero tratar. Não está me interessando”.

(Sr. Gonzalo: Mas o fato como hoje, como o coronel contou… […] Ontem eu fui à J. Gora fazer uma reunião…)

Eu gostei muito de saber que você retomou as reuniões lá.

* É uma forma de tentação específica a pessoa sentir vazio em relação a um tema fundamental para ela. Por exemplo, o modo com foi recebida a tréplica de “Zero Hora”

(Sr. Gonzalo: A saúde está permitindo, então vou lá. E as pessoas também concordaram com isso. […] O senhor teria alguma coisa a dizer?)

É o seguinte, meu filho. É preciso admitir que o vazio é uma forma específica de tentação. Assim como existe uma tentação que desencadeia numa pessoa, a vontade de roubar, por exemplo, pode dar-se. Assim também existe um tipo de tentação que desencadeia no indivíduo, a respeito de um tema fundamental para ele, um vazio.

Vocês hoje presenciaram um vazio característico. No meu modo de entender, aquela porcaria toda da tréplica da Zero Hora, deveria ter sido recebida com muito mais indignação na Reunião de Recortes. Mas houve um vazio. Quer dizer…

(Sr. Gonzalo: Quer dizer, saiu tudo errado a reação.)

Saiu tudo errado.

* Se não se pedir a Nossa Senhora e à SDL que tirem o vazio criado pelo demônio, a coisa não sai

Agora, é evidente que isto é criado pelo demônio, antes da gente se dar conta. E que a gente só pode vencer pedindo que Nossa Senhora tire, porque se não pedir para Nossa Senhora tirar — pedir para mamãe tirar, e tal —, se não pedir a coisa não sai, fica colada.

Vamos dizer o seguinte, pode ser que daqui a um ano, por uma bondade de Nossa Senhora o vazio caia no próprio vazio. Mas leva muito tempo, com prejuízo enorme, com riscos de toda ordem, etc. Porque não se tem a idéia definida de que o vazio é uma forma específica de tentação.

* O demônio promove o vazio em torno de tudo aquilo que leva o Grupo a subir

(Sr. Gonzalo: O que o demônio está tendo em vista ao criar este vazio, no caso dela?)

Eu acho que é uma coisa que ele faz com tudo quanto no Grupo vai levando o Grupo a subir.

(Sr. Gonzalo: Primeiro é o senhor, que é tema proibido.)

É tema proibido. Absolutamente proibido. É uma coisa que me chama atenção como… (…)

* Uma divisão na Igreja poderia acarretar a semi-dispersão do Grupo: hora em que o demônio quererá jogar no vazio a devoção à SDL, que é a “companhia dos isolados”

vocês vejam bem, hein!, tudo quanto eu tenho dito a vocês há anos atrás já, que as previsões na época do caos, não seriam como as previsões pré-caóticas, que eram ordenadas, etc. Quer dizer, são sujeitas à hipoteca do caos. Feita essa reserva, eu tenho a impressão de que aquela história — que também encontrou um certo vazio, prestaram muito atenção, os olhares estavam fixos, mas sem consonâncias — aquela história daquelas visões sobre o papado, etc., etc., que eu tenho impressão de que aquilo é verdade. E tenho a impressão de que esta verdade acarretará circunstâncias e situações que podem conduzir à uma meia dispersão.

(Cel. Poli: Meia dispersão do Grupo?)

Isso. E tenho a impressão de que o demônio quereria muito, na hora da dispersão ou da meia dispersão, que tudo quanto diz respeito à mamãe, à sepultura dela, etc., tivesse caído no vazio.

(Cel. Poli: O senhor tendo dito, a gente vê que é exatamente isso. Porque a ação dela seria o contrário. […])

E para estar presente aonde os isolados estivessem. Seria, vamos dizer, o consolo, a companhia dos isolados. Mas é isso que seria.

(Sr. Guerreiro: E que companhia, não é?)

É! E depois ela que viveu o martírio do isolamento, ela estaria inteiramente indicada para aliviar o isolamento dos outros. E por causa disso, o que poderia poderia suavizar os efeitos dessa meia dispersão, isso, precisamente, dá no contrário.

(Sr. P. Roberto: Essa divisão que haveria na Igreja, entre papa e antipapa…)

Eu acho que seria a conseqüência lógica do que está havendo.

(Sr. P. Roberto: A dispersão.)

A dispersão não. A dispersão seria um efeito… essa história do papa produziria efeitos entre os quais essa dispersão.

(Sr. Gonzalo: Por quê?)

Por causa de uma convulsão muito grande de ordem espiritual, moral e ideológica no mundo inteiro. E daí no caos, mexidas.

* Num eventual cisma da Igreja, Nossa Senhora poderia nos pedir o sacrifício da dispersão, para o bem da Causa

(Sr. Paulo Henrique: O senhor aproveitaria para lançar as redes.)

Eu teria que aproveitar para lançar redes, agora, para isso era preciso dispersar.

(Sr. P. Roberto: A dispersão seria uma coisa provocada pelo senhor?)

Quer dizer o seguinte: todas as razões palpáveis do desenvolvimento do Grupo levam a evitar essa dispersão como uma peste. Mas eu creio que Nossa Senhora nos pediria essa sacrifício.

(Sr. P. Roberto: Um sacrifício para o bem da…)

Da Causa.

Porque a questão é a seguinte: a TFP ficaria diretamente envolvida no caso. E de um jeito ou doutro nos fariam a pergunta: vocês de que lado estão? E o lado pelo qual nós entrássemos… é uma coisa… eu vou involuntariamente arrepiá-los um pouco mas vamos tratar das coisas seriamente, pegando a coisa pelos chifres. (…)

* Nossa Senhora às vezes visita nossas almas com uma graça própria à vocação, na linha da mística ordinária, mas à qual não correspondemos como se devia

que o João andou estudando, da mística ordinária. Em última análise, Nossa Senhora visita as nossas almas com sensações — vamos dizer assim — de caráter místico, e que essas sensações dão a vitalidade a todas as nossas concepções doutrinárias, etc., etc. Quer dizer, o indivíduo pode continuar…

Por exemplo, um caso característico. Eu pouco coisas conheço tão lógicas quanto o Tratado da Verdadeira Devoção. Mas a par desse Tratado que é persuasivo no mais alto grau (embora d. Mayer achasse que como teologia aquilo é fraco), mas embora fosse assim, aquilo a meu ver é altamente teológico, altamente lógico, persuasivo… vocês todos leram aquilo e viram, é extraordinário. Mas se não houvesse um certo viver interior de que Nossa Senhora é nossa Mãe, e que Ela tem para conosco misericórdias inenarráveis, e termos de vez em quando como que experiência da bondade d’Ela, todo aquele Tratado nós continuaríamos rationabiliter a professar, é aquilo; mas não nos moveria.

E o problema é que há uma graça que Ela nos dá que não tem ainda nome nem características definidas no nosso vocabulário, mas pela qual, de vez em quando, a partir de um certo ponto de união, se tem uma graça assim vivida. Ou, para empregar um adjetivo mais exato, vívida. E a pessoa não deita a menor atenção a isso, não tem a menor idéia do valor disso, isso não lhe diz nada. É gente incapaz, pela graça de Deus e pelos rogos de Maria Santíssima, de deixar de rezar o rosário diário, passa por cima de uma graça dessas, como por cima de uma formiga que a pessoa encontra na calçada.

* Na recusa a essa graça entra uma espécie de maldade, que é a rejeição do verum, bonum, pulchrum, por questões de egoísmo

E nisso entra uma espécie de maldade…

(Sr. Guerreiro: Está gravando.)

Não sei se está gravando? Está? Poderia gravar.

Nisso entra uma espécie de maldade que é isto: a pessoa ficou colocada em face de um verum, bonum, pulchrum, e rejeitou porque ela está preocupada com outra coisa que, bem entendido, diz respeito à ela. Porque o papel do egoísmo aí é totalmente fundamental, avassalador, etc., etc. É o egoísmo. Mas então a pessoa diz para uma graça dessa assim: “Vai-te embora porque eu hoje preciso resolver, não sei, qual é a melhor casa onde eu possa mandar fazer sapatos para mim. E, portanto, eu não quero nada com você, porque meus sapatos vão acabar saindo menos excelentes do que eu quero tê-los, ou menos baratos do que eu quero tê-los — qualquer coisa —, se eu não deitar toda atenção nesse negócio”. A graça se retira.

Bom, quando é que ela volta?

* A graça nunca se retira inteiramente: permanece um raio de luz pálido, atravessando um ar caipira, queimado do incêndio de florestas

O curioso é o seguinte: é que ela raras vezes se retira inteiramente, ela diminui de intensidade, e fica um raio de luz pálido, luz de sol caipira, com poeira no ar, com tudo isso, um raio de sol metido no meio de tudo isso. Queimado de incêndio de floresta, etc., e até isso tomar alento de novo, quanto tempo leva? E para que isto fosse um assunto tratável entre nós, seria preciso quase o empenho de durante alguns sábados à noite, de vez em quando, voltar a esse tema e alguém ter a coragem de dizer: comigo se passou tal coisa. E ou foi uma graça, ou se não foi uma graça, foi uma infidelidade.

Quer dizer, isso elevaria toda a nossa reunião, de um grau. Mas também acertaria um lamentável desvio em nossa vida espiritual, pelo qual continuamente a graça vem entrando e é canalizada para um lugar oposto. Que começaria por, vamos dizer — eu não sei se isto é viável — mas começaria pela narração por um, por outro ou por outro, de uma graça sensível que teve durante a semana sobre isso, dessa natureza. Sendo que não é obrigatório que uma pessoa tenha uma graça dessa cada semana.

[Parece haver uma interrupção da gravação]

mas aí começam os falsos amores próprios, incerteza…

(Sr. Gonzalo: É mais interessante o senhor relatar alguma graça nessa linha que o senhor tenha recebido. Nesta reunião, em geral, os relatos pessoais não pegam. É como o senhor disse, cada um quer aparecer de um jeito… […] Por exemplo, quando o senhor comentou a chegada do senhor aqui na casa da Senhora Dona Lucilia, estava cheia de uma graça que o senhor sentiu nessa ordem de coisas.)

Por exemplo, eu…. (…)

* O reter essas graças requer mais guarda do coração, sem contudo fazer disso uma idéia obsessiva

de mais difícil, do que conservar a memória de um esquema, que você toma nota e está acabado.

(Sr. Gonzalo: Requer mais guarda de coração.)

Requer mais guarda de coração e um apreço, uma compreensão de que isso deve ser tomado em consideração. Mas não pode também ser transformado num tormento. Quer dizer, a gente deve reter com afeto, com veneração, mas não pode fazer disso um tormento, uma espécie de idéia voluntariamente obsessiva. Porque isso aqui já resvala do equilíbrio católico que é um dos sinais da divindade da Igreja. Agora, é uma coisinha mínima.

* Quando recebemos essa visita da graça, nosso pedido deve ser o dos discípulos de Emaús: “Ficai conosco, porque a noite se faz em torno de nós!”

(Sr. Gonzalo: É como “in fractionis panis…”)

In fractionis panis cognoverunt eum”. É isso, é isso.

(Sr. Gonzalo: Era um fatinho mínimo, se diria, mas o que aconteceu aí…)

É exatamente. E depois logo: “mane nobiscum Domine”, não é? Logo! Que foi a atitude que nós devemos tomar, quando uma coisa acontece conosco assim, o primeiro pedido é — mas sem tensão, porque tudo quanto seja tenso aí, está errado, sem tensão: “Mane nobiscum Domine, quoniam advesperavit”: Senhor, fique conosco porque está caindo o dia”. Assim também continuamente, nós estamos vivos nesse vale de lágrimas, a noite está se fazendo em torno de nós. Então, “mane nobiscum Domine, quoniam advesperavit”. É uma oração feita para essas circunstâncias.

Agora, se houvesse uma franqueza de uns contarmos aos outros o que se passou nesse sentido, e não houvesse falso respeito humano de passar uma semana inteira, dez ou quinze dias, sei lá quanto, sem nada, que não versasse apenas sobre ela, mas sobre qualquer tema de piedade, tema da Igreja que produzisse esse efeito.

* Devemos pedir à SDL a graça de saber degustar, como ela, todas as coisas sem nenhuma tensão

(Cel. Poli: O senhor disse que isso tem que ser feito placidamente, não pode ser feito tensamente.)

Sim, eu disse isso.

(Cel. Poli: [….] É propriamente mais um elemento para pedir a Senhora Dona Lucilia porque ela era exatamente isso.)

É, exatamente.

(Cel. Poli: Isso estaria na linha do que o senhor está…)

Estaria. Estaria.

(Cel. Poli: Porque ela tinha uma tranqüilidade muito zelosa das coisas.)

Muito, mas muito tranqüila.

(Cel. Poli: Ela era capaz de degustar todas as coisas sem nenhuma tensão.)

Ah sim.

* Durante a Reunião de Recortes o SDP sentiu um delicado aroma de “Bagarre”, como se Deus se aprestasse a romper os vínculos que nos prendem ao mundo revolucionário

Vamos dizer — me dê licença um instantinho, mas é só para exemplificar. Por exemplo, quando eu falei aqui há pouco a respeito de todas as eventualidades que poderiam dar-se, me veio uma espécie de — delicadamente — aroma de Bagarre, mas com uma idéia de…. Há uma canção muito bonita, tirada de um salmo: “Dirumpisti vincula mea, Domine; Domine virtutum, Domine virtutum”. Isso se cantava no corozinho paroquial da igreja de Santa Cecília. Cantava-se em latim durante a celebração da missa, em canto gregoriano: “Vós rompestes meus vínculos, ó Senhor Deus da força, Vós rompestes meus vínculos”.

Quer dizer, tudo que nos ata a este mundo revolucionário, burguês, enfim, que todos conhecemos, em certo momento está rompido, e dentro de não sei que caos, é mais ou menos como um preso que sai de dentro do cárcere e entra na tempestade. Ele precisa ser muito chocho para voltar para o cárcere para não tomar chuva.

(Sr. Guerreiro: Essa metáfora está de arrasar.)

Mas é isso.

(Sr. Gonzalo: Na Reunião de Recortes havia um pouco esse aroma.)

Havia um pouco esse aroma.

(Sr. Gonzalo: O senhor levantou a questão… […])

Você sentiu também, não é?

(Sr. P. Roberto: Eu senti também.)

É uma coisa…. “Dirumpisti vincula mea, Domine”.

Eu tive a impressão…. Eu não tive a impressão seguinte: que em tal zona da sala houve isso, não. Eu tive a impressão que salpicadamente, irregularmente, sobre uns poucos houve isso. Vejo dois. Terá havido mais, eu calculei talvez uns trinta assim, que tiveram isso de passagem.

* O “manem nobiscum”, de uma beleza evangélica, é de que nos devemos servir, a fim de prolongar a visita da graça

Bem, a gente não pode reter, a gente não pode deter, mas a gente pode fazer o possível para que a visita continue. Não se trata de agarrar pelo braço, mas é fazer com que a visita continue… “Mane nobiscum”.

(Sr. P. Roberto: É muito bonito esse “mane nobiscum”.)

Ora, é de uma beleza perfeita. E depois a gente vê que o Espírito Santo levou-os a dizer isso, e que foi posto no Evangelho para servir para essas aplicações colaterais também. Porque é lindo! É a tal beleza evangélica: “Olhai os lírios dos campos”, ou “Mane nobiscum…”

(Sr. P. Roberto: Não se precisa acrescentar mais nada.)

Nada! Nada! Até vou dizer mais, é nocivo acrescentar uma palavra a isso. “Mane nobiscum, Domine, quoniam advesperavit”. Pronto, está acabado.

E depois a noite daquele tempo, com estradas inseguras, em que a estalajaderia era o único lugar onde se podia estar bem, etc. Então você pode imaginar como eles tiveram vontade de passar a noite com Nosso Senhor na estalajaderia. É evidentíssimo. De repente….

Bom, quem sabe se uma coisa assim, para a reunião que vem, seria…. [vira a fita]

Agora, seria preciso ir numa ocasião onde não houvesse muita gente lá para não chamar atenção.

(Sr. Gonzalo: Um dia de semana…)

Semana não carnaval.

(Sr. Gonzalo: O coronel combina com o senhor e nos avisa.)

Isso. Perfeitamente.

(Cel. Poli: E cultivar esse gosto, mais do que a memória, o sabor.)

O sabor a gente conserva, é uma coisa curiosa, é como a memória visual. Há pessoas que têm, São Tomás de Aquino tinha, ele lia um livro e nunca mais se esquecia de nenhuma página do livro. Era capaz de ler assim no vácuo, o livro. Assim são esses sabores, eles ficam na delectação espiritual independente de qualquer coisa.

Agora, meu filhos, eu preciso ver um pouquinho a hora.

(Sr. Gonzalo: Está na hora.)

Bom, vamos até às três. Não sei se querem dizer alguma coisa a isso? Diga meu filho.

* A graça ligada à presença da SDL que o SDP sentiu, hoje, ao voltar para o 1º Andar, após o jantar no São Bento

(Sr. P. Roberto: […] Isso parece que é algo nessa linha que o senhor sentiu, eu não sei se o senhor poderia dizer.)

Quer dizer o seguinte. Num primeiro instante foi uma espécie de reflexão que eu fiz alto. Eu não disse que eu estava fazendo essa reflexão e falando, mas foi o que se deu. É que no São Bento, como aliás, acontece graças a Nossa Senhora, todas as vezes e de modo excelente, sem nenhuma exceção, eu fui muitíssimo bem acolhido por todos, etc., fui até aquela sala de cima onde eu costumo estar quando vou ao São Bento, e estava muito cansado. Então estiquei-me naquele sofá. O pessoal saiu e eu me estiquei naquele sofá. Depois veio um jantar muito gostoso, e logo que o jantar terminou, eu estava sentindo que eu precisava de outra coisa. Ouvi o Boccherini, etc., etc., mas eu estava sentindo que eu precisava de uma outra coisa. Tomei o automóvel, vim para cá, o coronel veio comigo, vim para cá e quis até passar pelo cemitério antes de vir aqui, depois vim para cá. Quando cheguei aqui em cima, o escritório, eu mais uma vez fiz o que tinha feito lá, estendi-me no meu sofá. Aquele sofá eu mandei fazer para isso, para eu estando cansado poder me deitar. Quando eu não estivesse cansado, estaria à disposição dos meus amigos.

Estendi-me e senti, mas num nível muito mais baixo, muito menos sobrenatural, tinha uma gota de sobrenatural aí, eu me estendi e senti-me envolvido pelo ambiente caseiro como ele era, e como ele é. Mas é o ambiente onde para mim é a casa de mamãe. E a presença dela está ainda que não tenha nada de presente.

Por exemplo, esse quadrinho que eu mandei pôr ali, para mim esse quadrinho reforça a presença dela pela alegria que eu sei que ela sentiria que esse quadro estivesse lá.

(Sr. P. Roberto: Toda visão que ela tinha da monarquia….)

Isso. E depois do filhão dela arranjar esse quadro, de pôr, etc., etc., ela ficava muito contente com isso, etc.

Mas aí me veio à cabeça: esse pinguinho de coisa especialmente deleitável que eu tenho, o que é que eu estou tendo? É no fundo uma graça, e é uma graça ligada à presença dela.

Agora, então com um mecanismo, por assim dizer, um tanto diferente do outro, mas é que essas coisas nunca se repetem, têm modos de ser diferentes.

(Sr. P. Roberto: E essa casa está toda cheia de…)

Ah, impregnadíssimas de tudo isso, de tudo isso.

Você ia me dizendo uma coisa, meu filho?

(Sr. Guerreiro: Está um pouco tarde para o senhor.)

Mas diga.

* Como o SDP recorda e conserva os sabores que, a propósito de um tema, a graça incutiu-lhe na alma. Por exemplo, o prédio da Estação da Luz

(Sr. Guerreiro: O senhor poderia comentar mais o que o senhor falou há pouco que é mais importante do que ter o esquema do tema, é a pessoa cultivar o sabor que aquele tema trouxe para a alma dela…)

Cultivar é uma palavra um pouco vaga no caso, é recordar, conservar o sabor.

(Sr. Guerreiro: O senhor não poderia explicar um pouco mais ainda este comentário e o papel disso na formação nossa, na união disso com a alma do senhor, como modo do senhor ver e avaliar as coisas… […] Porque o modo como o senhor conserva as graças na sua alma, é assim.)

Não só as graças, mas as operações naturais parecidas com essas graças, mas que não são propriamente sobrenaturais. Ontem, por exemplo — eu acho que você estava comigo quando passamos ontem em frente à estação da Luz ou não?

(Cel. Poli: Estava sim.)

Eu tive toda vida encanto por aquele prédio da estação da Luz. Eu não sei o que é que tem, que todos os que guiam automóvel para mim, têm uma espécie de aversão de indo para o São Bento ou para a Luz, passar em frente à Estação da Luz, através daquela ponte de metal, passar em frente à Estação da Luz, depois a igreja de São Cristóvão, e ir depois à igreja da Luz propriamente dita. E eu tenho um encanto por aquela estação por causa do jeito muito inglês da Estação. Mas inglês no melhor sentido da palavra: correto, distinto, garboso, cheio de si no sentido bom da palavra, ordenado, com uma noção do dever que está presente ali, mas uma noção do dever que não é o dever estrangulante, mas é um dever feito com métodos, com tempo, com pontualidade, onde dá tudo certo, etc., etc. E o estilo da estação me agrada, eu acho… não diria tanto que é bonita, ela é agradável de ver, mas não diria tanto que é bonita, mas é muito simpática, e, portanto me dá muito gosto de passar em frente àquela estação.

Os velhos sabores do meu tempo de criança, olhando para a estação, que eu achava naturalmente colossal, porque para o tempo da Sãopaulinho era. Para você ver a previsão da Companhia inglesa que tomava conta daquilo, uma boa ala daquele prédio, no primeiro andar, era feito de hotel. Então eles tinham um restaurante bem bom, que acho que ainda continua no mesmo lugar, e tinha um hotel em cima, que era razoável, uma pessoa limpa e direita podia hospedar-se perfeitamente bem ali. Depois, aos poucos os escritórios foram invadindo tudo…

(Sr. P. Roberto: É uma diferença total.)

Total! Mas eu me lembro que uma vez fui até visitar uma velha parente que estava vindo da Europa conflagrada, e que acabava de chegar, e que mamãe mandou-nos visitá-la. Fomos visitá-las na Estação da Luz. O trânsito era tão pequeno que uma senhora viúva podia morar ali seis meses até encontrar para comprar uma casa que conviesse a ela. Era a calma de antigamente.

Todas essas coisas assim se conservam no meu espírito de tal maneira que eu seria capaz de fazer um “Ambientes e Costumes” da Estação da Luz sem passar por lá. A única coisa que tem, que tinha que ser, porque tinha que ser, é o seguinte… (…)

eram para mim um modo de gravar o próprio suco da realidade. E vocês sabem até que ponto eu gosto da lógica, mas devem ter notado muito bem que eu tenho outros lados de horror a uma lógica seca, e puramente matemática.

(Sr. Gonzalo: Filosofia alemã.)

* São mais ou menos sem fim as recordações que o SDP conserva das cores, dos sabores, dos símbolos de espíritos e de mentalidades

Eh! Aquilo então nem se fala. Aquilo é loucura em ação. E por causa disso, eu procurava muito definir os conceitos abstratos, mas conservar as cores, os sabores, os aspectos, etc., porque tudo isto eram símbolos de espíritos, de mentalidades, de estados de coisas… De maneira que o que eu tenho de recordações nesse sentido, são mais ou menos sem fim.

Não sei, meu filho, se eu respondi sua pergunta.

Por exemplo, nessa última conferência que eu fui fazer em São Bernardo, qualquer lugar assim, aqui perto… (…)

eu fiquei pasmo, porque não compreenderia como era possível viver assim.

(Sr. P. Roberto: Aliás, quando nós conhecemos o senhor, o que era mais atraente era todo esse mundo no senhor, que era uma riqueza que não havia em mais ninguém.)

Eu nunca notei que isso atraísse a ninguém.

(Sr. Gonzalo: Sim. Todo o ambiente que o senhor criava em torno de si. […])

Eu não tinha idéia disso. Eu tinha muito idéia de outra coisa… (…)

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