Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
16/1/93 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 16/1/93 — Sábado
Algumas perguntas em torno da figura de Garcia Moreno que possibilitam a compreensão da luta R-CR em nossos dias * O mal-estar em que se encontra hoje a Revolução: para produzir a “Bagarre” com o caos que ela deseja, não pode ter homens como os de Garcia Moreno na direção de nada * O povinho, sem ter para onde apelar e para onde se mover, seguirá os homens que apareçam sem compromissos com a Revolução * A graça encontra um suporte para agir na ação natural do SDP sobre a Opinião Pública, eximiamente levada a cabo * SDP: “Eu que fui o primeiro, que saí do nada, a conversão de cada um de vocês é um pouquinho uma conversão de São Paulo” * A fotografia do SDP menino, na praia de Santos: “refletindo sobre as preocupações de minha vida, na angústia do medo de apostatar!” * Há, na alma de cada um de nós, uma preguiça de admirar, de olhar para o sol e de esperar as melhores coisas * Educadas, em geral, para os próprios interesses, as pessoas não vivem em função de um ideal, nem sabem admirar a quem elas tenham vocação de fazê-lo
* Algumas perguntas em torno do Presidente Garcia Moreno, do Equador: que relação ideológica havia entre a sua atitude religiosa e a força eleitoral que o elegeu?
Há um ponto da história do Equador, que eu tive sempre muita vontade de conhecer. E essas histórias que há por aí não tratam disso direito. Vocês já devem ter lido também alguma coisa — maior ou menor — do Equador, alguma coisa sobre o affaire Garcia Moreno, todo o mundo já leu.
Bem, mas é o seguinte: qual foi a força eleitoral que levou o Garcia Moreno à Presidência da República? Que relação ideológica havia entre a atitude religiosa de Garcia Moreno, e essa força eleitoral? Essa força eleitoral era uma espécie de chouannerie eleitoral, portanto legal e pacífica, mas que estivesse para as coisas do Equador, como a coisa do Andreas Hofer estava para as do Tirol? Ou não era assim? Então, como é que, afinal de contas…?
Porque podia dar-se, por exemplo, que, sendo ele um homem muito brilhante, sobretudo para o Equadorzinho onde ele era chamado a brilhar, quer dizer, sendo ele uma mecha muito grossa para uma lamparina pequena, ele brilhasse muito lá. E que isso, mais a boa impressão que a pessoa dele dava, um certo fundo de catolicismo que havia, que dava para ele ficar Presidente da República. Era possível.
* Houve lutas entre liberais e conservadores, sendo estes últimos liderados por Garcia Moreno, até ele ser assassinado? O movimento conservador sobreviveu à sua morte?
Ou havia uma luta entre liberais e conservadores, e ele, desde o início, antes de ser Presidente da República, etc., já era um líder conservador que conduziu essa espécie de guerrilha, até ser assassinado? E se esse movimento tinha alguma consistência, pergunta: sobreviveu a Garcia Moreno? Liderado por quem? Com que atitude face aos ideais de Garcia Moreno? E como é que se apagou?
São perguntas que eu acho que, para nós que conhecemos o que é o movimento católico, e quais são as provações internas pelas quais ele pode passar, e as externas, e as alegrias e tudo, para nós tudo isso tem muita significação. E eu gostaria que vocês vissem, então, as fotografias das várias equipes com que trabalhou o Garcia Moreno, e que o apoiavam, etc.
* Havia um liberalismo brutal que queria demolir a Igreja Católica no Equador, que produziu uma reação contrária, de igual radicalidade
A resposta, para se entender desde já o que eu quero dizer, a resposta é essa. Havia um liberalismo cru, agressivo, estúpido, brutal, ateu, que queria demolir a Igreja Católica no Equador. Agora, isto produziu um choque contrário. E os chocados com isso, os “agredidos pela realidade”, formaram um bando que detestava essa orientação liberal, lutava contra essa orientação liberal, lutava até pelas armas se fosse necessário, ou quando era necessário.
(Sr. Gonzalo Larraín: Muitos lutaram pelas armas. Garcia Moreno foi um general de primeira.)
Foi bom general, é?
(Sr. Gonzalo Larraín: De longe o melhor general do Equador. E ele lutou, matou muita gente.)
Isso eu não cheguei a apanhar.
* Na história de outros países da América Latina não houve semelhante contenda entre liberais e conservadores, como a que existiu no Equador
(Sr. Horácio Black: Houve 50 batalhas entre liberais e conservadores.)
Agora, você veja, por exemplo, meu filho, na história da Argentina, do Chile, do Brasil, essa diferença entre liberais e conservadores, e entre católicos e anticatólicos, existia em algum modo, mas não tão vivaz quanto no Equador, hem? Não sei se você concorda com isso?
(Sr. Horácio B.: Perfeitamente.)
E você?
(Sr. Gonzalo L: Tão vivaz quanto no Equador não, porque não houve um Garcia Moreno, mas houve muita guerra também no Chile.)
No Brasil, guerra religiosa não houve nenhuma. Eu pelo menos não conheço nenhuma. Não sei se Edwaldo, Guerreiro, Poli…? Houve contra os holandeses e os franceses, mas isso é outra era histórica.
(Dr. Edwaldo: Uma luta interna, como no Equador, não houve.)
Não, não houve. Na Argentina não conheço que tenha havido.
(Sr. Horácio B.: Acho que não teve, não.)
Bem, em conseqüência, o Equador aparece de modo muito saliente dentro dessa história.
Por exemplo, o Peru, que foi uma verdadeira terra de santos, uma coisa extraordinária, quando chegou a essa hora, não brilhou do mesmo modo.
(Sr. Gonzalo L.: Pelo contrário. Peru e Colômbia queriam destruir o Equador. Garcia Moreno foi defensor da integridade territorial do país também.)
Imagine isso. Agora, o Garcia Moreno era apoiado, na Colômbia, pelo Santo Ezequiel Moreno Diaz.
(Sr. Gonzalo L.: Ele é um pouquinho posterior. Mas, digamos, gente dele apoiava o Garcia Moreno.)
É, exatamente. Eu acho que as guerras entre liberais e conservadores, do Peru e do Equador, se entrelaçaram várias vezes. Isto sim era muito o hábito. Vamos dizer, por exemplo, guerras revolucionárias no Brasil se entrelaçarem com bagunças dentro da Argentina, um partido “A” do Brasil, apoiar na Argentina o partido “A”; e o partido “B” da Argentina apoiar no Brasil o partido “B”. E saía enroscadas, etc. São coisas que se vê, e se compreende que fosse assim.
* A equipe de homens que Garcia Moreno reuniu em torno de si surpreende pela boa apresentação pessoal dos mesmos
Agora, o Garcia Moreno reuniu em torno de si uma equipe de homens, que espanta por uma coisa que a gente não pensava: o quanto eles eram bem vestidos, apresentados como pessoas de categoria (a gente vê que eram pessoas de categoria no Equador), e pessoas que inspiravam confiança. E alguns do partido contrário eram do mesmo jeito. Eram bem vestidos, que davam idéia… sabem aqueles homens com barba, do século passado, aquelas barbas grandes, aquele jeito assim, meio parecidos com o pai de Santa Teresinha, ou meio parecidos com D. Pedro II, essa escola de gente.
* Aqueles homens incutiam no povinho uma certa esperança de que, qualquer que fosse a bagunça, acabariam consertando a situação
Vocês precisam imaginar, para compreender bem essa história, não uns Quércias, nem este coisa que está aqui, o Itamar, nem o Collor, nem nada disso, mas homens que tivessem essa posição, e ocupassem nos partidos políticos um lugar proeminente. É ou não é verdade que o povinho teria uma certa esperança de que, por qualquer que fosse a bagunça, acabariam homens assim consertando a situação?
(Sr. Guerreiro: Ainda hoje.)
Ainda hoje.
* O mal-estar em que se encontra hoje a Revolução: para produzir a “Bagarre” com o caos que ela deseja, não pode ter homens como os de Garcia Moreno na direção de nada
E uma das coisas mais interessantes aqui, para vocês medirem o mal-estar em que se encontra hoje a Revolução, é que a Revolução, para tocar as coisas para frente, não pode ter homens assim na direção de nada! Porque se tiver, o senso da ordem se acende de novo…
(Sr. Paulo Henrique: Polariza neles.)
Polariza neles. E a Bagarre com o caos que eles querem, não sai. Então, para fabricar a Bagarre, eles precisam ter o Quércia, precisam ter o Fleury, precisam ter todo esse gênero de gente, Itamar, Collor, etc. Para eles é uma verdadeira necessidade.
* O povinho, sem ter para onde apelar e para onde se mover, seguirá os homens que apareçam sem compromissos com a Revolução
E como é para eles uma verdadeira necessidade, o povinho fica sem ter a quem apelar. O povinho fica sem ter para onde apelar, para onde mover-se. E então, se aparecem homens que não têm compromissos, e com essa atitude, é evidente que o povinho vai seguir, e que vai ter a tendência a mitificar essa gente.
* A Revolução se encontra numa encruzilhada
Então, a Revolução fica numa espécie de encruzilhada. Porque se ela, para nos tornar a vida impossível, precisa ter concorrentes nossos, que façam o nosso papel com a nossa cara. Se fizer isto, o jogo do caos não vai para a frente. Se fizer o jogo do caos, nós entramos na partida com uma possibilidade que até aqui não tínhamos.
Quer dizer, isso é das muitas situações contraditórias em que hoje fica posta a Revolução. E que ou nós, a todo momento, vamos para este ponto de partida, ou a coisa fica inexplicável.
* O exemplo do Congresso Monarquista, disputando comodamente as bases do Lula, em São Bernardo: potenciais adeptos de um Garcia Moreno
Agora, acontece o seguinte. D. Luís estava vindo agora do tal congresso monarquista. E muito amável como ele é, telefonou-me para dar o compte-rendu de como foi o negócio. E disse-me que, de manhã, foi quase brilhante a reunião.
Ele não foi tão claro quanto eu vou dizer agora, mas creio interpretar bem o que ele pensava, assim: que depois das reuniões da manhã, etc., um Pe. Jamel disse missa. E depois de ter dito missa, eles comeram alguma coisa, e foram para não sei que ponto de encontro lá de São Bernardo, onde fizeram uma propaganda monarquista, com cento e tantas pessoas na rua, distribuindo folhetos. Que não ficaram quase folhetos no chão, e que a acolhida foi excelente. E a gente via que ele, D. Luís, estava fervoroso de contentamento com isso.
Agora, o que é isto? É a idéia dos três Príncipes que estavam lá, da Monarquia, pelo menos um certo número de pessoas com uma aparência que podia se compor em torno deles, e que disputavam terreno ao Lula, comodamente. Em virtude desse fato que eu estou dizendo.
Agora, a gente compreende que no momento em que houvesse um entrechoque das duas correntes, alguns ficariam lulistas frenéticos, mas outros ficariam partidários de tudo aquilo que o Lula não é, contra o que o Lula é, e etc., etc. E que seriam — para me exprimir assim — potenciais adeptos de um Garcia Moreno. E que daí nasceria o fio…
(Sr. Gonzalo Larraín: Está muito interessante!)
Quer dizer, uma explicação um pouco comprida, mas que coloca ao alcance dos senhores a visão da coisa como poderia se desenvolver.
* A graça encontra um suporte para agir na ação natural do SDP sobre a Opinião Pública, eximiamente levada a cabo
(Sr. Paulo Henrique: Não me ficou muito claro se isso seria uma ação da graça, ou se seria factível através da arte real, de criar condições para que isso se desse no momento certo?)
Eu acho, meu filho, que se deve ver isto nos termos comuns da doutrina católica. Quer dizer, um homem escreve um livro, e procura escrever o livro tão bem quanto ele consegue. A graça toma isto que é uma ação natural, e se esse homem tem vida interior e se coloca no fio da Providência, a graça intervém, somando-se à ação natural do livro, mas — para usar uma imagem de Santa Teresinha — como uma águia que pega o cordeiro e voa. Ela se soma ao cordeiro, mas o cordeiro não é quase nada no total da águia mais o cordeiro.
Assim também a ação “Ambientes e Costumes”, a ação natural produzida assim, existe e deve existir, mas a graça quer encontrar essa ação como um suporte para ela agir. E o papel da graça é muito maior do que o papel natural que tem de existir, e eximiamente bem cuidado. Como um livro: se você vai escrever um livro, você tem que escrever o seu livro eximiamente, tão bem quanto pode. Mas, confiando em que a graça vai somar-se ao livro, para produzir o efeito que você deseja.
* A Providência poderá, às vezes, agir de modo extraordinário aproveitando-se de um lance da Contra-Revolução, como agiu no Monte das Tabocas, transformando areia em pólvora
(Sr. Paulo Roberto: A comoção que já existe é suficiente para produzir essa espécie de centelha assim, ou não?)
Vamos dizer o seguinte. Em rigor seria possível, mas é muito puxadamente. E essas ações muito puxadas, a Providência não as faz normalmente. Ela age mais normalmente. Quer dizer que é pouco provável que muitas vezes umas ações puxadas como essas existissem. Mas, às vezes existirão.
(Sr. Paulo Roberto: É uma coisa inesperada mesmo.)
Inesperada. Vamos dizer, por exemplo, aquele tiroteio com areia, no Monte das Tabocas, é uma coisa completamente inesperada. Mas a Providência interveio em determinado momento, e foi assim que a batalha teve que se dar, e deu-se de modo faustosamente glorioso!
Assim também com um livro, com uma atitude, com um gesto de guerra psicológica revolucionária, sei eu com que outras coisas, pode dar-se uma coisa assim.
* A conversão de São Paulo é um exemplo de graça inesperada concedida pela Providência
(Sr. Paulo Roberto: Por exemplo, a conversão de São Paulo, no início do Cristianismo, foi mais ou menos nessa linha, uma espécie de graça inesperada, que trouxe algo de novo.)
Ah, é fora de dúvida! Dos dois lados, hem? O desconcerto que a ruptura de um tal fariseu com os judeus deve ter trazido a eles; e o entusiasmo dos católicos, verificando a maravilhosa sinceridade daquele homem que, pouco antes, tinha ido para Damasco para liquidar com eles lá.
Então, você imagine, por exemplo, uma coisa assim…
(…)
* SDP: “Eu que fui o primeiro, que saí do nada, a conversão de cada um de vocês é um pouquinho uma conversão de São Paulo”
(Sr. Gonzalo Larraín: E enquanto fenômeno mais freqüente, o que seria? Seria um volver-se para esse Garcia Moreno?)
Eu acho que é isso. Eu acho que são coisas desse gênero.
Vocês notem bem uma coisa, hem? Do ponto de vista em que eu me coloco, eu que fui o primeiro e que saí de dentro do nada, a conversão de cada um de vocês é um pouquinho uma conversão de São Paulo. E eu sinto muito mais com as próprias mãos o que representa o cada um de você estar aqui, como infração ao que era regra absoluta antes de começar o que está aí…
(Dr. Edwaldo: Só que nós caímos do cavalo, e o senhor começou a nos carregar.)
E vocês começaram a me ajudar.
* A fotografia do SDP menino, na praia de Santos: “refletindo sobre as preocupações de minha vida, na angústia do medo de apostatar!”
Bem, outro dia, na reunião dos norte-americanos, eu não sei como é que a coisa andou, andou de um jeito qualquer, afinal de contas aconteceu que eu estava falando a respeito de como eu tinha sofrido no tempo em que eu andava sozinho. E me referi a uma fotografia que eu tirei na praia de Santos, menino assim de uns 12 anos, vestido como um menino se vestia na praia, naquele tempo: quer dizer, como um menino que vai a uma festa hoje não se veste, porque acha o traje da praia era pomposo demais!
Mas, estou vestido daquele jeito. Mais adiante há uma senhora lendo um livro. A gente vê que era uma senhora fina e tal, mas que não era uma grande coisa. Eu conheci essa senhora, a cumprimentava, mas só assim com o chapéu. E ela também, amável, cumprimentava, mas não nos falávamos.
E eu, não sei porquê, em vez de estar sentado de frente para o mar, eu estava sentado de lado. Vamos supor que esse seja o banco: eu estava sentado aqui, com as pernas para cá. E se o mar estivesse ali, eu estava sentado ali, com as pernas para lá. A senhora estava por aqui.
E eu estava refletindo sobre as preocupações de minha vida.
(Sr. Gonzalo: Que idade?)
Uns 12 anos, mais ou menos. Mas, refletindo com uma… perdido nas brumas da reflexão! Completamente! E numa situação em que um menino dessa idade está alegre: estou na praia, provavelmente os meus companheiros estavam por ali, eu tinha arranjado um jeito de me isolar, provavelmente, não posso me lembrar, mas deve ser uma coisa desse gênero. E em vez de estar alegre como todos eles estavam, eu estava perdido na angústia, na aflição, etc. — do medo de apostatar!
O João, que estava ali presente, muito a la João, puxou um maço de fotografias dessas, e distribuiu para todos os que estavam dentro da sala. Eu não sei por que coincidência ele tinha essa fotografia lá.
* Olhando para essa fotografia do SDP, podemos compreender o que significa para ele de excepcional um membro do Grupo
Mas, se vocês olhassem para essa fotografia, aí vocês compreenderiam o que representa para mim de excepcional um só de vocês!
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor se contenta com muito pouco mesmo.)
Meu filho, mas para quem não tem nada! Não há nada para ensinar a gente a se contentar com pouco, do que o não ter tido nada.
(Sr. Gonzalo Larraín: É uma coisa extremamente aflitiva.)
Uhhh! Não se pode ter idéia do que isto foi.
Então, eu fico muito mais aparelhado para esperar coisas extraordinárias, do que vocês.
(Sr. Paulo Roberto: Mas também para nós, o fato de termos conhecido o senhor, foi para nós uma coisa extraordinaríssima.)
(…)
* Há, na alma de cada um de nós, uma preguiça de admirar, de olhar para o sol e de esperar as melhores coisas
…e nunca andam como homem, inteiramente erecto. Andam assim meio para a frente, e com aqueles braços pendurados assim. É a imagem da preguiça de entusiasmar-se, da preguiça de admirar, da preguiça de olhar para cima, de olhar para as estrelas, de olhar para o sol, de esperar as melhores coisas. Há um pouco disso na alma de alguns de nós.
(Dr. Edwaldo: E para isso nós fomos feitos.)
Foram feitos para isso. Mas, não dá. Não tem dúvida nenhuma.
(…)
* Sensíveis até o entusiasmo com a morte do Sr. Petterssen, não o somos como devíamos em relação ao SDP
… favoreci esse movimento de entusiasmo o quanto pude, porque não vi nele exagero nenhum, não vi nada. Pareceu-me que era uma coisa boa, que era preciso incentivar. Uma coisa muito boa. Fiz. Mas, paralelamente, eu fazia essa reflexão. E essa reflexão não seria bem recebida. As pessoas pensariam: “Não me importune agora com a sua grandeza, eu que estou vendo esta coisa tão aprazível, e tão menos exigente diante de mim.”
(Sr. Gonzalo Larraín: Também a facilidade que tivemos para nos sensibilizarmos em relação à dor dele, foi muito grande. Mas sem nos sensibilizarmos pela dor do senhor, por razões muito maiores. Mas é uma coisa impressionante de culposo e de preternatural.)
Entra preternatural pelo meio.
(Sr. Gonzalo: Mas também culposo.)
Culposo.
(Sr. Gonzalo: Tudo o que houve de manifestação em torno das previsões do senhor, tudo isso é mais importante, de si, do que a morte do Sr. Petterssen, que merece todo respeito…)
Respeito, afeto, tudo.
(Sr. Gonzalo: Mas há uma espécie de atração errada pela coisa, que é feroz. Mesmo por coisas que são boas, mas são menos boas. Aí o jogo do demônio entra nisso.)
Aliás, São Paulo tem uma epístola — Edwaldo, que é o nosso escriturista, deve saber bem qual é a epístola — em que ele faz a enumeração dos méritos dele, das coisas que ele fez, das proezas, etc., etc., porque quiseram compará-lo erradamente, e subestimadamente, não me lembro com quem.
Você se lembra dessa carta, Edwaldo?
(Dr. Edwaldo: Eu não me lembro exatamente qual é a epístola, mas é isso mesmo que o senhor está dizendo. Acho que o queriam comparar com um tipo chamado Apolo, uma coisa assim.)
Não era o deus Apolo, era um tipo qualquer chamado Apolo. Bem, mas Apolorum, infinitus est numerus.
E é porque os camponeses do Andreas Hofer não tinham isso, eram espíritos abertos para as coisas, etc., etc., era por isso então que eles seguiam o Andreas Hofer com aquele entusiasmo, etc. e tal.
* Um exemplo das dificuldades internas que encontra o SDP no grupo: se morresse em 67, haveria gente que, ao lado de seu caixão, entregar-se-ia ao mundanismo
Numa ocasião, quando eu tive esse acesso grande de diabetes, eu estive realmente em perigo — aliás, maior do que eu pensava; se eu soubesse, eu teria mandado vir a Extrema-Unção — mas afinal, seja como for, passado o perigo, quando começa a vida normal, a um dos mais chegados a mim, eu disse… Começou a se falar a respeito de minha morte, que esteve por pouco, etc. E eu disse:
— Bom, o meu enterro seria assim, etc. E você, rapidamente se esqueceria de que era eu que estava sendo enterrado, para fazer relações mundanas, etc., com minha irmã e minha sobrinha.
Ele me disse:
— É isso mesmo que eu faria.
Não sei se vocês se fazem uma idéia das nossas dificuldades nesse ponto. São muito grandes.
* A educação que em geral recebemos é dada em função dos interesses pessoais, da consideração que a pessoa deve conquistar no seu ambiente
(Sr. Paulo Roberto: Como a Revolução conseguiu fazer isso? Porque isso é propriamente o espírito revolucionário. O senhor disse que antes não havia essa dificuldade para a pessoa se abrir para o maravilhoso, para essas coisas assim, e nós fomos como que abafados por isso.)
Meu filho, a começar pelo seguinte. Esse é o primeiro ponto, e desse ponto você verá logo a coisa como vai. É que a educação que nós recebemos — é possível que com vocês os fatores dessa educação tenham sido menos desfavoráveis, mas eu apresento a coisa — em geral é o seguinte.
Você tem a obrigação de agir em tais, tais, tais condições, de tais maneiras e não de tais outras. E entra de cambulhada uma série de princípios morais — quando entram os princípios morais — misturados com regras de educação, e com regras de habilidade, apresentadas assim: “Se você não fizer assim, você se torna uma pessoa de um convívio desagradável, e passa a ser evitado pelos outros, ou passa a ser desprezado pelos outros. Se você quiser ser tido em consideração, como são tidos os de sua família — olhe este, aquele, como são considerados — habitue-se a ver bem que você não pode fazer tal coisa, não pode fazer tal outra.”
A mais simples das regras de educação: pôr a mão na boca, na hora de bocejar. Então: “Você não pode bocejar! Estando diante de gente de uma certa educação, e certos bons hábitos, não pode bocejar. Mas, se estiver diante de gente com uma certa intimidade, que você acha que vai, boceje. Mas, ponha a mão diante da boca! E nunca boceje em pôr a mão diante da boca. Por quê? Porque o sujeito que não põe a mão diante da boca ao bocejar é um asno, é um imbecil, é um sujeito que não sabe educação, não compreende que da boca dele se evola um hálito que o outro pode achar desagradável, que aparece toda uma série de acidentes dentários que não deveriam ser como são… E que a boca de ninguém é uma gruta ou uma caverna para ser mostrada a ninguém!
“Por causa disso, também, não abra a bocarra na hora de dar gargalhada, mas ria com os lábios razoavelmente entreabertos. E quando fala também, não fale com a bocarra aberta. Tenha boca e não bocarra. Bocarra é para bicho. Você é bicho?”
Você todos devem ter ouvido coisas talvez mais amenas…
(Sr. Gonzalo: Mas a mesma coisa.)
A mesma coisa.
* Os princípios morais, nesse tipo de educação, são apresentados de mistura com o próprio interesse, e jamais em virtude de um ideal
Agora, não sei se vêem que vem misturado no mesmo caldo, para você beber junto, alguma coisa que toca um pouquinho ao preceito moral, quer dizer, o respeito que você deve aos outros. Mas, muito o interesse seu, para você ser bem tido e bem considerado. E uma ameaça se você não considerar esses interesses: você se precipita para um tipo de quinta condição, como todo o mundo tem ao seu alcance para olhar, a qualquer momento. O tipo de quinta condição está lá. E que isto é um verdadeiro infortúnio, ser um tipo de quinta condição. E então é preciso prestar muita atenção.
Acaba sendo que todos os princípios de moral acabam sendo apresentados de envolta com isto. E a nota tônica acaba sendo: “Preserve seu interesse agindo de acordo com a moral”. Isto, quando falam da moral. E não: “[De acordo com] um ideal que você deve ter, que vale mais do que seu interesse, ao qual você deve sacrificar tudo, porque é um preceito de Nosso Senhor, ou é um conselho de Nosso Senhor, isto vale mais do que tudo. E em aras a este ideal, você deve absolutamente fazer esse sacrifício, etc., etc.”
(Sr. Gonzalo: Isso jamais. “Não boceje grotescamente por causa de um ideal”, jamais diriam.)
Jamais. Aliás, o ideal é coisa que quase não se fala.
Então, fica o indivíduo habituado a girar, sobretudo, em torno de si, pensando a respeito de si, etc., etc. E nesta coisa, o outro é sempre o parceiro que está na iminência de ganhar a batalha contra ele. Isso é assim. Será seu melhor amigo, será seu irmão, será seu primo, será seu companheiro de infância, é assim que você o acaba vendo.
Agora, qual é o desfecho disso tudo? É que o simples interesse por um ideal moral não vale nada.
Mas, me digam uma coisa, francamente: vocês todos não participaram…
[Totalmente!]
Totalmente.
* Educadas para os próprios interesses, saem pessoas de um egoísmo tal, que não saberão admirar a quem elas tenham vocação de fazê-lo
Agora, saem pessoas de um egoísmo tal que, conhecendo alguém a quem elas tenham vocação de admirar, tudo isso se mistura. Sem que, naturalmente, as “Fs” tenham com isso a menor preocupação.
(Sr. Gonzalo L.: Quanto mais atrapalhar, melhor.)
Exatamente. Quanto mais atrapalhar, melhor.
(Dr. Edwaldo: Como a mãe dos Zebedeus, que foi procurar a Nosso Senhor pedindo um lugar para os filhos…)
À direita e à esquerda, não é?
(Dr. Edwaldo: E é o que eles queriam também.)
Eles queriam também. Tudo acaba girando em torno disso.
* O verdadeiro idealista é um homem capaz de amar a Deus, por Deus, e com o desprezo de si mesmo
Agora, como fazer disto um verdadeiro idealista? Não é simples. Tanto mais que a palavra “idealista” não tem sentido. É um homem capaz de amar a Deus, por Deus, e com o desprezo de si mesmo. Aqui está a questão.
(Sr. Paulo Henrique: O senhor tem esperança de que Nossa Senhora cumprirá a parte d’Ela, de nos transformar inteiramente naquilo para o que Ela nos chamou, com a graça do “Grand-Retour”.)
Tenho.
(Sr. Paulo Henrique: Nós também temos essa esperança, só que muito fragmentária, por todos os defeitos que o senhor apontou, e ao mesmo tempo por todas as faltas de dar-se, de admirar a grandeza, etc. Dadas as circunstâncias, vemos que a hora do São Paulo não deve estar tardando para nós… A quantas estamos? Como o senhor vê isso no Grupo em geral? Porque deve ser muito aflitivo, inteiramente aflitivo, porque se fomos chamados, era natural que seguíssemos esse chamado até o fim. E ficamos pela metade. É apenas um comentário, mas…)
Não, não é um comentário. É uma interrogação muito justa.
(Sr. Paulo Henrique: Sim, uma interrogação, exatamente. Como o senhor nos alenta, como o senhor nos encoraja?)
(…)
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