Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
5/12/92 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 5/12/92 — Sábado
O SDP tomou conhecimento da existência de Nossa Senhora ao mesmo tempo que conheceu Nosso Senhor * Com a graça recebida aos pés da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, iniciou-se a devoção e a acentuada predileção do SDP por Ela, relacionada com a devoção à SDL * Por 18 mil réis, o SDP compra uma imagem do Coração Imaculado de Maria que marcou o início de seu afervoramento espiritual * A SDL mandar construir o oratoriozinho de madeira para o SDP levar a imagem em suas viagens ao Rio * Nas horas vagas do escritório de advocacia, o SDP ia rezar diante da imagem da Imaculada Conceição, no Mosteiro de São Bento * O velho Abade beneditino, tocado por uma graça interior, consulta o SDP — então com 20 anos — se deveria demitir-se, ou não, de sua função * Anos depois, já advogado da Ordem de São Bento, o SDP encontra com o Arqui-Abade, em uma casa de retiros no interior fluminense * Estudando o Tratado da Verdadeira Devoção, o SDP compõe uma ladainha com todas as invocações sugeridas pelos elogios de São Luís Grignion a Nossa Senhora
(Sr. Paulo Roberto: … quando o senhor tomou conhecimento da existência de Nossa Senhora, como é que isso se pôs para o sr., o descobrir que havia Nossa Senhora? Toda a concepção que o sr. tinha […] se o sr. poderia dizer alguma coisa sobre isso.)
(Sr. Poli: Ou seja, como é que o sr. foi formando a idéia que o sr. tem hoje de Nossa Senhora, das manifestações de Nossa Senhora, a proteção de Nossa Senhora, da grandeza d’Ela, do socorro d’Ela.)
(Sr. Paulo Roberto: Da existência d’Ela também, porque saber que existe Nossa Senhora é uma tal coisa que muda.)
* O SDP tomou conhecimento da existência de Nossa Senhora ao mesmo tempo que conheceu Nosso Senhor
Eu acho que, pelo que eu me lembro, eu tomei conhecimento da existência d’Ela junto com a existência d’Ele, foram coisas concomitantes. Nas primeiras noções de piedade, já rezar para Nossa Senhora, Ave Maria, depois Padre Nosso, etc., eu acho que isso foi simultâneo.
E assim como eu não me lembro de tomar consciência assim inteiramente da existência de Nosso Senhor, eu desde sempre soube; também de Nossa Senhora desde sempre eu soube.
* Quando pequeno, diante das imagens de Nossa Senhora que tinha em seu quarto, o SDP sentia certa estranheza com o culto a Ela, achando-o excessivo
Agora, a questão que é muito singular, é o seguinte: é que no meu quarto de dormir em pequeno, mas isso até eu fazer oito ou nove anos, uma coisa assim, era um quarto espaçoso mas dividido ao meio por uma espécie de biombo, de um lado dormia eu, e do outro lado minha irmã. De maneira que era inteiramente separado.
Mas do meu lado tinha uma imagem de Nossa Senhora, um quadro representando Nossa Senhora, tanto quanto eu me lembro pintado sobre vidro. Não tenho idéia se era de valor ou não, não tinha idéia disso. Mas eu sei dizer que quando já era bem mais velho, talvez com dez ou onze anos, houve um acidente qualquer com essa imagem, uma porta que abriu e bateu na imagem ou qualquer coisa e quebrou, e cessou de haver essa imagem no meu quarto.
Mas tinha outras pequenas imagens e coisas de Nossa Senhora no meu quarto e eu me lembro que eu tinha — infelizmente — um certo nó com essas imagens de Nossa Senhora. É uma coisa incrível, mas achando que era um culto excessivo à Nossa Senhora, que prejudicava, que obnubilava o culto a Nosso Senhor. E com isso rezando pouco para Ela e com pouco empenho e rezando muito mais para Nosso Senhor.
* Com a graça recebida aos pés da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, iniciou-se a devoção e a acentuada predileção do SDP por Ela, relacionada com a devoção à SDL
Até que se deu aquele fato da igreja, de Nossa Senhora Auxiliadora. Aí foi que eu tomei conhecimento inteiro da misericórdia d’Ela, da bondade d’Ela, etc., e começou a minha devoção à Nossa Senhora.
Mas aí nessa ocasião já começou — tanto quanto cabe para uma cabeça de menino — um conhecimento muito claro, muito positivo e uma predileção muito acentuada por Ela. Um tanto relacionada, aliás a justo título, com a devoção à mamãe. Porque eu pensava o seguinte: “Mamãe é para mim isto, isto e isto. Mas Ela é incomparavelmente melhor inclusive para mim, não só para todos os homens mas inclusive para mim. Quer dizer, Ela me quer muito mais bem do que mamãe quer. Agora, o que é que há de ser o me querer mais bem do que mamãe quer? Já que eu vejo que mamãe é tanto, Ela, como é que será isto? Eu não sei dizer.”
Mas naturalmente me atraía muito essa idéia e fixava muito o meu pensamento. E a partir dessa graça de Nossa Senhora Auxiliadora, Ela passou a ser a minha principal padroeira.
* Anos mais tarde, a graça da devoção a Nossa Senhora de Genazzano, cujo quadro se achava na capela do Colégio São Luís
Mas a essa graça juntou-se a graça de devoção à Nossa Senhora de Genazzano, mas que eu sabia confusamente que era de Genazzano. Eu sabia que era Nossa Senhora do Bom Conselho e tinha uma idéia da qual eu até hoje não vejo muito claro como era.
Uma idéia de que havia uma imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho que — era uma coisa mais ou menos assim — viajava para o Brasil com vários jesuítas que vinham aqui para a evangelização. E os protestantes abordaram esse navio e os jesuítas foram mortos e parece que é daqueles quarenta mártires, parece que é isso. E essa imagem veio a ter no Brasil, trazido pelas ondas veio até a praia. Um ou outro jesuíta que escapou e que não está no número dos quarenta, reconheceu. Então, naturalmente, pegou a imagem, lavou, etc., etc., e fê-la objeto de um culto que está até hoje na igreja dos padres jesuítas.
E com eu era aluno lá, no mês de Maria e em outras ocasiões assim, eu rezava muito para essa imagem. Eu não ia muito à capela, eu ia pouco à capela, eu só ia para a capela quando havia o mês de Maria, atos comuns em que todos os alunos eram obrigados a comparecer. Aí eu comparecia de bom grado, bastante bom grado, mas sem entusiasmo. Eu ia de boa vontade.
Mas a minha atenção estava muito mais fixada na imagem de Nossa Senhora Auxiliadora no Coração de Jesus, eu ia de muito mais bom grado ao Coração de Jesus do que àquela capela interna — era um quarto — lá dos jesuítas.
* Na Congregação Mariana de Santa Cecília, a fita azul com uma medalha de Nossas Senhora das Graças
Bem, depois eu entrei para a congregação de Santa Cecília e ali os congregados usavam uma fita azul com uma medalha que parecia de prata mas não devia ser — mas a mim me dava a impressão de que era de prata — mas cunhada na Europa. E você deve saber que as imagens cunhadas na Europa são muito mais bonitas do que as imagens cunhadas habitualmente aqui no Brasil.
[Elas] têm relevo, mesmo imagens populares comuns são muito mais bonitas, essa era uma bonita imagem de Nossa Senhora das Graças. E daí as várias invocações à Nossa Senhora foram se somando umas às outras.
* Por 18 mil réis, o SDP compra uma imagem do Coração Imaculado de Maria (e a Imaculada Conceição), que marcou o início de seu afervoramento espiritual
Uma imagem muito popularzinha e muito feinha que eu tenho na minha cabeceira no meu quarto, é uma imagem do Coração Imaculado de Maria. Mas misturada na imagem duas invocações: o Imaculado Coração de Maria e Nossa Senhora esmagando o demônio, portanto, Imaculada Conceição. E eu comprei, eu me lembro que por 18 mil réis, que era um preço ínfimo na livraria Coração de Jesus.
E para mim essa imagem me é muito cara porque marcou o início do meu afervoramento, antes de eu propriamente entrar para a congregação, antes de eu romper com o Reizinho, etc.
Eu tinha tido um começo de afervoramento que vinha de um movimento interior mas vinha também da convicção de que o Reizinho, cuja companhia era ocasião para irmos juntos a uma porção de lugares sociais e então com os inconvenientes dos lugares sociais, eu estava vendo que o Reizinho daqui a um ano ou dois no máximo ia romper comigo para começar a freqüentar mulheres fassuras, e que eu ficaria inteiramente isolado.
E essa perplexidade me levava a rezar especialmente à Nossa Senhora e afervorar-me. E aí eu comprei essa imagem e comprei um tercinho, que eu não tinha também. E foi o começo do meu afervoramento.
(Sr. Paulo Roberto: Antes do sr. conhecer as congregações marianas?)
Quer dizer, eu tinha conhecido a minha congregação no São Luís mas eu pensava que aquilo era um tipo de associação só para aluno de colégio. Saía do colégio, estava desligado da congregação e está acabado.
(Sr. Guerreiro: O sr. tinha que idade?)
Eu deveria ter uns quinze anos ou dezesseis anos, já era mais esporudo, portanto. Já usava calça comprida, etc. Fumava!
* Da. Gabriela, num gesto único para com o SDP, quis pagar-lhe a imagem que ele comprou
Eu me lembro que minha avó ouvindo que eu tinha comprado essa imagenzinha, ela disse a uma espécie de governante de casa, eu me chamava naquele tempo de “Seu Plinio” e não Dr. Plinio, não é? Ela disse para essa governante de casa baixinho:
— “Pegue esses 18 mil réis que ele gastou e quando ele estiver lá fora diga a ele que eu mandei e entregue a ele. Porque eu quero pagar essa imagem para ele.”
(Sr. Paulo Roberto: Muito bonito o gesto.)
É, foi um gesto… eu acho que inteiramente único porque nunca teve outro gesto assim comigo. Mas o fato de ser a imagem, talvez, ou uma coisa assim, o fato é que ela fez isto.
* A imagem do Imaculado Coração de Maria acompanhava o SDP, quando deputado, em suas viagens para o Rio de Janeiro: ensejo para a SDL mandar construir o oratoriozinho de madeira
E essa imagem, depois quando eu era deputado eu levava comigo para o Rio, aí eu já era congregado mariano, tinha 24 anos, etc. Levava comigo para o Rio mas com a minha habitual falta de arranjo, eu levava na mala misturada com a roupa limpa. E quando voltava tinha o cuidado de não misturar com a roupa usada, mas levava com a roupa. E mamãe aí mandou fazer um oratoriozinho de madeira no qual a imagem viajava.
(Sr. Poli: Esse oratoriozinho foi a SDL que mandou fazer?)
Foi ela que mandou fazer, mas mandou fazer à maneira de uma pequena surpresa para mim, de maneira que quando eu fui arranjar a mala… ela me ajudava a arranjar a mala, não é? Eu era muito desajeitado, entende? Não cabiam as coisas, etc. [risos]
(Sr. Poli: E com ela cabia tudo, não é?)
Ah, cabia tudo e ainda sobrava lugar, etc., etc. [risos]
E depois eu fazia depressa e ela não, mais ou menos uma hora antes de partir já estava arranjando a mala, etc., etc.
Comigo você pode imaginar bem como é que era, não é? Aos trambolhões, de qualquer jeito, amassado, etc.
Mas aí entrou esta imagem na minha devoção. Todas as noites e todas as manhãs eu osculo essa imagem.
Bom, e daí para a frente.
Bem, aí entrou o quadro de Nossa Senhora de Genazzano por meio do qual eu recebi aquela graça quando eu sofri uma operação logo depois da diabete, etc., eu estava muito desanimado e recebi essa graça.
Daí mais ou menos isso.
Diga, meu filho.
* Nas horas vagas do escritório de advocacia, o SDP ia rezar diante da imagem da Imaculada Conceição, no Mosteiro de São Bento
(Sr. Horácio Black: O sr. rezava muito para aquela imagem de Nossa Senhora Imaculada Conceição no mosteiro de São Bento. E também rezava muito à imagem de Nossa Senhora do Divino Amor ali na Consolação.)
Sim, é verdade.
(Sr. Horácio Black: O sr. se lembra de ter recebido alguma graça especial junto a alguma das duas imagens?)
Não. O meu primeiro escritório de advocacia ficava a um quarteirão do São Bento, e levou muito tempo para encher o escritório, de maneira que eu tinha o tempo muito vazio. E com freqüência eu ia lá à igreja de São Bento para rezar. E a imagem de Nossa Senhora que tinha lá mais ao meu alcance era aquela. Aliás, apesar do estilo da igreja, era uma imagem colonial pertencente à antiga igreja de São Bento que havia lá antigamente. São duas imagens coloniais que tem lá, essa e um crucifixo que tem perto da capela do Santíssimo Sacramento. São boas imagens.
* O velho Abade beneditino, tocado por uma graça interior, consulta o SDP — então com 20 anos — se deveria demitir-se, ou não, de sua função
Eu me lembro que isso foi objeto de um fato, enfim um pouquinho interessante. Eu rezava lá diante dessa imagem e sabia que o abade tinha um confessionário ali perto. Bem, e que em tese ele de dentro do confessionário me via. Pouco me incomodava.
E eu não o conhecia. Uma vez ou outra creio que me confessei com ele mas não tínhamos relações.
E um dia eu estava rezando diante da imagem veio um irmão leigo e me disse: “Dom abade manda pedir ao sr. para antes de ir embora subir até a cela dele em cima.”
Eu nem sabia onde era a cela, eu rezei quanto eu quis e depois saí e perguntei: “Como é que se faz para ir à cela do dom abade?” Eles me disseram: “Por aqui, etc., etc.” E subi.
Ele me recebeu muito amavelmente. Era um alemão de altura plutôt média, e com os olhos azuis muito simpáticos, muito abertos, muito francos, muito direitos. E me fez sentar junto a ele, mas ele era um velho e eu era um moço, tinha uns vinte anos. E ele me disse o seguinte, explicou:
“Eu tenho um confessionário ali perto e vejo o sr. sempre rezar à Nossa Senhora. E como o sr. — é uma coisa muito esquisita — é muito devoto de Nossa Senhora, eu quero deixar nas suas mãos a resolução de um assunto muito importante. Aqui está um papel”. E me deu para ler.
É um papel em que ele renunciava as funções de abade nas mão de uma autoridade superior que eu não me lembro qual era. Num papel grande escrito com uma letra grande. Ele me disse:
“Agora, eu não vou lhe dar as razões disto nem nada. Não vou lhe dizer nada. Eu quero só que o sr. diga se o sr. me aconselha a pedir demissão ou não?”
Eu fiquei pasmo.
(Sr. Paulo Henrique: O sr. tinha que idade?)
Uns vinte anos mais ou menos.
(Sr. Paulo Henrique: E ele?)
Ele seria um homem de uns sessenta e tantos para setenta anos. Mas você pode imaginar como eu fiquei pasmo, não é?
E depois a abadia de São Bento uma grande instituição, vocês vêem ali aquele colégio, ainda mais naquela São Paulinho que importância aquilo tinha. E depois riquíssima, mas é uma ordem religiosa riquíssima! Muitos monges e tal.
E ele me disse:
“Se o sr. me disser: “sim, peça demissão”, restitua-me o papel. Se o sr. não disser isto — não me lembro se era que ele ia rasgar ou dava para eu rasgar ali.”
* SDP: “Dom Abade, eu aconselho que não renuncie”
Mas eu pensei o seguinte: “Esse homem que manifesta tanta confiança em mim, é melhor que esteja num cargo decisivo do que não esteja”. É um raciocínio elementar de menino de vinte anos, mas é uma raciocínio verdadeiro. Mas não disse a ele o que me andava na cabeça.
Eu, assim meio perplexo disse a ele: “Dom abade, eu aconselho que não renuncie.”
Ele pegou o papel ou me deu para rasgar, um de nós dois rasgou o papel, ele colocou na cesta de papel e depois me disse muito amavelmente: “Muito obrigado!” como quem diz, “é só isso, pode ir embora, não é?”
Eu me levantei e desci. E depois mais tarde eu o conheci em casa do Alfredo Egídio de Souza Aranha, de cuja esposa ele era diretor espiritual. E encontramo-nos lá e falamos muito cordialmente mas sem a menor referência a esse fato, que é um fato todo confidencial.
(Sr. Poli: E ele continuando abade?)
Continuou e morreu como abade.
(Sr. Poli: E morreu bem?)
Tudo leva a crer que sim. Eu tenho uma boa recordação desse abade, ouviu?
* O Abade, vendo no SDP um devoto de Nossa Senhora segundo S. Luís Grignion, resolveu consultá-lo
(Sr. Paulo Henrique: Para ele ter feito esse ato em relação ao sr., eu creio que…, não é?)
(Sr. Guerreiro: Um discernimento tocado por uma certa graça para poder.)
(Sr. Paulo Henrique: Claro, ele percebeu algo.)
Eu desconfio que foi isso, que ele foi tocado por uma certa graça. A construção devia ser essa:
Ele era evidentemente um devoto de São Luiz Grignion. E São Luiz Grignion fala de como as almas chegadas à Nossa Senhora são almas muito preferidas por ela. Ele me via muito chegado à Nossa Senhora, eu às vezes rezava o rosário inteiro diante da imagem de Nossa Senhora, e ele achou que eu estava na linha do devoto de São Luiz Grignion. Deve ter sido isto.
E então achou que eu estava em condições de resolver esse caso. É preciso notar também que eu parecia muito mais velho do que eu era e que isso talvez tenha concorrido algum tanto para isso. Mas foi um fato muito inesperado, fato igual nunca houve em minha vida.
* Anos depois, já advogado da Ordem de São Bento, o SDP encontra com o Arqui-Abade, em uma casa de retiros no interior fluminense
Houve uma cena, uma cena de muito menos expressão mas bonita como cena.
Depois disso as águas correram, etc., e eu fiquei advogado do São Bento. E tinha bastante serviço com eles e ganhava bem.
(Sr. Poli: Com esse abade mesmo?)
Não, esse abade tinha morrido. Era um outro abade qualquer, não me lembro como chamava.
Bem, e a Santa Sé nomeou um arqui-abade para ser o abade de todos os abades do Brasil, era um tal D. Lourenço Scheller, eram quase todos alemães. E eu recebi um recado que o D. Lourenço Scheller queria falar comigo e que mandava me pedir para nos encontrarmos a meio caminho entre Rio de Janeiro e São Paulo. Porque ele ia falar comigo e depois ia tomar um navio para ir para a Europa. Mas ele queria deixar um negócio de dinheiro resolvido e que pedia para eu ir falar com ele lá.
Era o direito dele, porque [se eu era?] advogado dele, eu cobrava a viagem e está acabado.
E fomos a um lugar chamado Três Poços, Três Corações, uma coisa mais ou menos assim. Paulo Roberto acho que conhece mais ou menos aquela zona.
(Sr. Paulo Roberto: Não era Três Rios?)
Três Rios?
(Sr. Paulo Roberto: É, tem uma cidade chamada Três Rios lá.)
Não, Três Rios não. Eu conheceria porque eu conheci a família do marquês de Três Rios e isso me teria ficado na cabeça.
(Sr. Poli: Era uma fazenda que tinha, não é?)
Uma fazenda.
(Sr. Poli: Eu fiz um retiro lá quando… é em Barra Mansa ou Volta Redonda, naquela região.)
Podia ser bem isso.
(Sr. Poli: Eu fiz um retiro lá quando estava na Academia Militar, antes de entrar na TFP.)
(Sr. Horácio Black: Aquela que tinha uma escada muito bonita, não é?)
Uma escada muito bonita. Eu até mandei tirar um desenho da escada, etc., e que ficou por aí.
Bem, e cheguei, eles me receberam amavelmente mas muito tarde da noite já, e eu fui para o meu quarto.
Fiz minha toilette com um jeito que eu detesto: mas foi com água e bacia. Eu detesto isto porque não sei quem se lavou naquela bacia antes, mas enfim não tinha outro remédio, me lavei. A gente despejava a água da bacia num balde e tinha junto umas garrafas com água que a gente despejava na bacia. Uma mecânica detestável, mas enfim… e depois eu não tinha jeito, com a mão ensaboada, escapava a bacia e derramava água no chão, toda espécie de tristeza.
Mas quando eu ouvi baterem na porta, eu pensei: “Mas a esta hora da noite ainda vem gente para bater na minha porta?!!”
Eu disse:
— “Quem é?”
Uma voz de alemão responde:
— “Senhorrr arqui-abade está aqui para falar com o senhorrrr.”
Eu disse:
— “Bem, peça para ele esperar um instantinho, eu já estava preparado para dormir, mas vou me arranjar e conversamos.”
* Uma cena saída do claro-escuro de telas flamengas: o Arqui-abade cercado de padres e monges, à luz de vela
Arranjei-me depressa e fui de encontro à porta, abri a porta e estava uma cena curiosa:
Estava o arqui-abade com uma cruz peitoral — ele era bispo — com o solidéu e anel pastoral e tudo, um homem de uma feiúra rara, simpático. Mas cercado de uma série de padres alemães que eu não conhecia, que eu acho que moravam lá, que devia ser uma residência talvez para retiros, etc., ao mesmo tempo que servia para encontros, etc. E formava um quadro desses quadros assim de claro-obscuro de pintor da escola flamenga. Perfeito! Com as velas e aquelas figuras todas teutônicas, altas, hieráticas, parecendo todas saídas de um quadro e o arqui-abade parecia sair de uma caricatura. E com velas acesas e eu então os cumprimentei, eles também fizeram cumprimentos, etc. Cumprimentei o abade e coisa e tal mas aí ele compreendeu que eu estava mais do que cansado e marcamos o encontro para o dia seguinte.
Mas a surpresa daquele quadro me ficou na memória agradavelmente. Foi uma coisa interessante.
E assim são coisinhas, são ciscos do passado. Coisas que vão e não vem; vem e não vão.
(Sr. Horácio Black: As palhinhas do ninho.)
Palhinhas. É, são ciscos.
* Estudando o Tratado da Verdadeira Devoção, o SDP compõe uma ladainha com todas as invocações sugeridas pelos elogios de São Luís Grignion a Nossa Senhora
(Sr. Paulo Henrique: O papel d’Ela na criação? Na arquitetonia do universo criado por Deus?)
De Nossa Senhora?
(Sr. Paulo Henrique: De Nossa Senhora.)
Tudo isso São Luiz Grignion dava. Eu só tomei conhecimento com São Luiz Grignion. Mas eu sorvi com São Luiz Grignion. E cheguei a fazer uma ladainha com todas as invocações com os elogios de São Luiz Grignion a Nossa Senhora, e usava isso. Era uma coisa dobrada de um certo jeito mas sumiu do meu bolso, eu não sei como também e desapareceu infelizmente.
(Sr. Poli: O sr. não se lembra?)
Não me lembro mas tinha… talvez umas dez folhas batidas à máquina por mim e com as invocações, não é?
(Sr. Poli: Em latim ou português?)
Português. O exemplar que eu tinha era em francês mas eu tinha traduzido para o português essas invocações.
São palhinhas, são coisinhas da vida das quais a gente tem que prestar contas depois.
Diga lá meu Guerreiro.
(Sr. Guerreiro: Não. Era ele que estava fazendo uma pergunta.)
Diga meu Horácio?
(Sr. Horácio Black: O sr. se lembra da primeira vez que viu a Sagrada Imagem? As considerações que o sr. fez?)
Eu me lembro que a Sagrada Imagem produziu um efeito muito profundo sobre mim, eu gostei imensamente. Mas é certo que eu fiz a consagração diante d’Ela porque eu faço a consagração todos os dias e não ia deixar de fazer a consagração diante d’Ela. Mas não me lembro de nada de especial a esse respeito.
É decepcionante mas é assim.
Diga, meu filho.
(…)
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