Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
12/9/92 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 12/9/92 — Sábado
O modo como o SDP toca, ao mesmo tempo, dois trabalhos que exigem muito esforço, como a Reforma Agrária e Maastricht * O que estava na alma do SDP e que levou-o a escrever o manifesto contra Maastricht, defendendo a integridade da Europa * Da Europa que o SDP sempre amou, só resta o pó das pedras, e foi por amor ao pó dessas pedras que ele fez o manifesto contra Maastricht * A mais alta forma de visita de Deus a um povo, é quando Ele dá para aquele país, santos e místicos, ou profetas * Se o povo brasileiro aderisse seriamente à Igreja Católica e os que pertencem a TFP tomassem a TFP profundamente a sério, poderia nascer alguma coisa original, magnífica * A importância de se considerar a pessoa do Fundador para que as instituições tomem forma * Os movimentos de entusiasmo e estagnação, durante as reuniões no Auditório Nossa Senhora Auxiliadora
(Sr. Paulo Henrique: O sr. Horácio tem uma pergunta, que talvez o sr. Nelson complementasse.)
Então vamos lá, meu Horácio.
(Sr. Horácio: Primeiro queríamos pedir que o senhor trate do que o senhor queira tratar. Porque o senhor disse uma vez que a reunião mais abençoada é aquela que o senhor trata o tema de que o senhor quer tratar.)
Isso é verdade, mas vamos dizer, isso é quando eu estou querendo tratar um tema, mas não estou querendo tratar nenhum tema em particular. Qualquer tema que vocês queiram tratar, para mim está muito bem.
(Sr. Horácio: Estamos na confluência de duas grandes campanhas, a da Reforma Agrária em que o senhor está salvando o Brasil católico, e a de Maastricht em que o senhor está salvando a Europa católica. […] Que considerações o senhor fez tanto quando redigia o manifesto da Reforma Agrária, quanto o manifesto de Maastricht? […])
Eu compreendo muito bem a pergunta, mas eu tenho uma resposta meio decepcionante a dar. Cada um de nós é feito de um jeito, e eu sou feito desse jeito.
* O modo como o SDP toca, ao mesmo tempo, dois trabalhos que exigem muito esforço, como a Reforma Agrária e Maastricht
Quando eu faço essas duas coisas ao mesmo tempo, quer dizer, a Reforma Agrária e Maastricht e que são coisas que tomam muito a cabeça, e ainda tenho as coisas de todos os dias, acontece que eu fico tão tomado pelo trabalho, que eu só penso naquele trabalho, sem maiores desenvolvimentos, sem maiores cogitações, etc., etc., para que o trabalho fique pronto. E para que as coisas [inaudível] ficam resolvidas e para que tudo corra bem, de maneira que quando termine essa avalanche de trabalhos, eu encontre uma situação pouco mais ou menos normal, na qual eu possa pensar em outras coisas maiores.
É desapontante, não é? A gente compreende por exemplo um guerreiro que possa durante a batalha pensar na… vamos dizer um cruzado, para usar o exemplo que eu usei hoje a qualquer hora, não sei com quem, um exemplo muito conhecido, os cruzados em Jerusalém, etc. E que ele pense com amor em Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto ele está tentando escalar o muro, tentando conquistar cidades, etc., nada melhor, é muito razoável. Mas o que é meu feitio é: se eu tenho que escalar o muro, eu vou pensar no muro; e é desse jeito, daquele jeito….
Por quê?
Porque o meu dever no momento é escalar o muro. Eu tenho receio de que se eu quiser pensar em outra coisa, eu não escalo o muro. Mas as razões pelas quais eu devo escalar, já estão conhecidas, já estão resolvidas, já estão sabidas, não preciso voltar à elas. É preciso escalar.
(Sr. Paulo Henrique: O que estava no contexto da pergunta do sr. Horácio, é exatamente o background que o senhor tinha ao escrever esse manifesto.)
Ah isso é diferente.
(Sr. Horácio: Eu não soube exprimir, mas era isso.)
(Sr. Paulo Henrique: Desde a infância do senhor, a Cristandade, a alteridade de cada país.)
Ah bom, isso…
(Sr. Paulo Henrique: Então eram várias peças desse “ninho” que estavam na matriz do pensamento do senhor, e que levou o senhor escrever aquilo demblé.)
É, demblé foi mesmo, porque foi escrito demblé com base — é preciso dizer, creio que ressaltei isso bem — com base em estudos do Dufaur que me ajudaram muito no caso. Mas enfim, foi isso.
* O que estava na alma do SDP e que levou-o a escrever o manifesto contra Maastricht, defendendo a integridade da Europa
A idéia era na Europa como um continente — eu creio que já disse aqui, mas enfim… — como um continente no qual ainda viviam em grande quantidades, as tradições do Ancien Régime e através delas as da Idade Média, e no qual o mal existia também. E eu via bem que existia de um modo até notável, mas me parecia que eram dois cursos de água distintos, correndo no mesmo leito de um rio. De maneira que um seria uma água de uma cor, e outro seria uma água de outra cor. E a água de ouro, a água da Tradição ainda ocupasse uma boa parte do leito do rio. Embora, eu via bem que também a água suja da Revolução fosse caudalosa, impetuosa, etc., qualquer um via bem.
* Mesmo em alguns filhos da Revolução, havia uns resíduos de Contra-Revolução; exemplo do Anatole France
Mas ainda tinha mais, é que eu julgava com uma certa razão, que mesmo nos filhos da Revolução, havia uns resíduos de Contra-Revolução, que não existiam aqui. Por exemplo, o Jaurés, um político e literato francês da Belle époque. Eu não tinha esse exemplo presente porque eu não tinha lido ainda o Jaurés, mas uma série de outras coisas que eu tinha lido…. Anatole France. Anatole France por exemplo. Um tipo de idéias péssimas, ateu, propagandista da irreligião, etc. Mas escrevendo num francês magnífico, com uma suavidade de estilo, uma verdadeira maravilha.
Eu fazia o seguinte raciocínio: se não houvesse nesta alma, deste precito alguma coisa que ainda resultasse das velhas tradições, ele não escreveria como escreve. E, portanto, nele havia alguma coisa de magnífico. Enquanto em outros lugares, nada! Era a vulgaridade de estilo se aliando à completa insipidez do pensamento, e à ausência completa de pensamento e à tendência a dar-se completamente à Revolução sem nenhum limite nem nada. Era tanto quanto a Revolução quisesse eles se entregavam.
Esse cálculo fazia-me então pensar que mesmo em contato com os péssimos se hauria alguma coisa da tradição da Europa. E outros países me davam uma impressão fundamentalmente diversas.
Por exemplo — isso não deve mais existir, mas eu não sei se vocês sabem o que é aqui em São Paulo a rua da Boa Vista. Sabem qual é ou não?
(Sim!)
* O SDP se recusava a ir num restaurante alemão, na R. da Boa Vista, onde se reuniam literatos e intelectuais, porque percebia que era um ambiente imoral
A rua da Boa Vista tem dois segmentos, porque ela chega até certo ponto encontra um viaduto que a liga depois ao pátio do colégio. Mas ela começa no Pátio do Colégio e termina no Largo de São Bento. Do lado direito de quem vai para o Largo do São Bento, existia um restaurante de coisas alemãs, de coisas européias em geral, que se importavam naquele tempo. Já pagava imposto, mas era imposto muito menor, de maneira que as pessoas dispondo de alguma largueza, podiam comer lá, etc., e tal.
Eu não ia porque eu percebia que era um lugar de literatos, de intelectuais que se reuniam lá, e pelas gargalhadas que eu ouvia quando eu passava de bonde vindo do colégio São Luís passava lá em frente, eram gargalhadas homéricas, que eu percebia que eram brincadeiras imorais, graças imorais, etc., etc., que se faziam ali. E eu via bem que eu aparecendo ali, eu já era mocinho, eles iriam me convidar para incorporar àquela roda, e eu não queria pertencer a essa roda, então melhor era não entrar.
Mas eu percebia o seguinte: que era gente até europeizante, que não se contentavam com as coisas correntes… Naquele restaurante, por exemplo, tinha numa espécie de vitrine que se via da rua, vários queijos roquefort expostos, abertos assim, e que a gente via que eram roqueforts de várias qualidades, vários matizes, e me pareciam que deviam ser excelentíssimos. O queijo roquefort é um queijo de grande qualidade, de grande valor.
E de longe eu sentia o cheiro da cerveja. Essa cerveja era nacional, mas a cerveja Antártica daquele tempo era uma cerveja excelente, fabricação alemã, técnicos alemães, era uma cerveja excelente. Eu passava por lá e sentia o cheiro da cerveja, e percebia que eles ligavam essa comedoria e a arte de comer, que eles ligavam isto à arte de dizer coisas engraçadas, de ter um certo espírito. Mas esse espírito eu percebia que era pútrido, que era a obscenidade escancarada, a piada grossa, a gargalhada de motorneiro, uma coisa assim do último naipe.
Agora, chegava à minha casa, abria um livro do Anatole France e psiiiiii!
Resultado. Eu achava que — depois o contraste ia mais longe — eu achava que o Anatole France em relação a eles tinha algo de contra-revolucionário. E tinha sua verdade; no meio disso tinha sua verdade.
* O SDP foi introduzido no único salão intelectual que havia em São Paulo
E uma vez, não me lembro bem a que propósito, eu fui introduzido no único salão intelectual que havia aqui em São Paulo. Era uma casinhola, não tinha nada dos salões suntuosos do Ancien Régime, mas nem que se parecesse, era uma casinhola… Não sei se vocês conhecem, mas é coisa muito anterior a mim, quanto mais a vocês, mas eram uns vidros de janelas meio coloridos assim nos ângulos, onde as esquadrias se encostam tinham umas coisas coloridas, um jogo de coisa… muito banalzinho. As janelas eram assim. E morava ali uma senhora aleijada. Eu me lembro até a hora em que carregavam essa senhora para dormir. Ela não podia andar, mas eu não sei porque ela não usava cadeira roda, ela se fazia carregar por uma empregada e ia assim nas costas. A empregada pegava ela pelas pernas e ia pelas costas para dormir. Na sala só homens. E o centro da conversa era ela. E eram uns homens que freqüentavam esse negócio chamado Bar Viaduto — viaduto por causa do viaduto. Os freqüentadores do bar Viaduto eram os freqüentadores em casa dela, e ela era tida como uma espécie assim de Maintenon, de grande conversa de senhora, espirituosa, etc., etc.
E a coisa chega a tal ponto que eu conheci um homem que era assim de meia idade, uns 50 anos, que parecia para mim, que era um menino assim de 16, 17 anos, parecia um homem provectíssimo. Mas com uma cara, assim uma barba cerrada, e uma cara muito amarrada. Esse homem era freqüentador deste salão. E apaixonou-se por essa mulher. E a mulher disse:
“Olha, você vê bem — aliás, eram sr. e sra. — o sr. ver bem meu estado físico qual é. É capaz do senhor por um momento de imaginação querer casar-se comigo, depois, na realidade do casamento, o senhor verá que fez uma tolice.”
— Não! Mas eu quero! Porque… etc.
— Então eu lhe imponho uma condição, eu me comprometo a casar-me consigo desde que o senhor faça um ano de viagem nos Estados Unidos — não é na Europa, eu não sei porque — sem me ver portanto, e sem participar dessa roda onde eu converso. O senhor vai ver outros ares, vai ver outras coisas. Se quando voltar, o senhor quiser casar comigo, eu aceito. Mas se o senhor não quiser, poderá perfeitamente, como bom amigo continuar a freqüentar a minha casa, nessa mesma roda, etc., etc.
Bem, a emprise desta senhora sobre esse homem foi tal, que o homem foi aos Estados Unidos, voltou e pediu em casamento. E estavam tratando para se casar, quando ela teve uma doença qualquer e morreu.
E ele passou alguns anos, e um belo dia eu me encontrava em casa… Ele tinha parentes casados com parentes meus, uma coisa muito remota, mas eu me encontrava na casa desses parentes comum, às vezes, com ele. E ele sempre com uma cara de desesperado e de filho das trevas.
Uma vez me disseram: sabe que fulano morreu?
Eu disse: Ah, ele morreu é?
— É.
— Do que é que morreu?
— Meteu um tiro na cabeça, porque não se consola do fato dessa tal senhora ter falecido, etc.
Era uma coisa, portanto, com uma certa emprise. Mas tudo de um nível debaixo de todos os pontos de vista, tão, tão pequeno… E eu lia coisa na Europa, conversas por exemplo no salão da Marquesa de Castelani, com Paul Bourget um romancista de fama mundial almoçando em casa dela com o duque de [Huisés], primeiro par de França, e um dos chefes do partido monarquista francês que naquele tempo tinha força.
Vocês estão vendo, é… outra coisa! Outro mundo! Outra atmosfera, etc.
Então aquilo era mais ou menos como Adão e Eva pensariam no Paraíso depois de terem sido expulsos. Assim eu pensava na Europa. (…)
* Da Europa que o SDP sempre amou, só resta o pó das pedras, e foi por amor ao pó dessas pedras que ele fez o manifesto contra Maastricht
… meu enlevo então por cada nação européia, com as características dessa nação, os lados bonitos, naturalmente também os lados prosaicos, mas em que o lado bonito sobrepujava o lado prosaico, me levava a tal ponto, que quando eu ia a Santos, eu olhava o oceano Atlântico e com conhecimentos de oceanografia paupérrimos, eu olhava para aquela água do Atlântico, e dizia: essa água bateu em terras da Europa.
(Sr. Paulo Henrique: A figura do tapete.)
A figura do tapete, é isso mesmo.
(Sr. Paulo Henrique: Se puxasse o tapete viria…)
Viria a Europa.
E essas considerações, hoje, estão nesse estado que já não é mais a Europa no salão funerário, mas são os ossos da Europa. Mas há uma frase muito bonita das Sagradas Escrituras a respeito de Jerusalém: amarei o templo. Se o templo fosse destruído, eu amaria as pedras, e se as pedras se desfizessem em pó — era um daqueles profetas — ele amaria o pó no qual aquelas pedras se tivessem desfeito.
Eu fiz isso aí por amor ao pó das pedras. Porque e só isso. Mas às vezes esse pó é tão excelente que a gente tem vontade de exclamar: “ó ouro!” (…)
* O estilo original não nasce da cabeça de um artista, ele nasce da alma de um povo
É um ponto muito duro para os europeus, mas é o seguinte: suposto que a Europa do tempo da Belle Époque para cá, já não digo do tempo da Revolução, mas do tempo da Belle Époque para cá, não tivesse decaído, qual é que seria o papel da América do Sul?
Era de qualquer maneira de fazer aparecer algo de novo, e também algo de excelente.
E qual seria a comparação entre a mãe e a filha?
A Europa é a mãe, inegavelmente. Todos nós descendemos de europeus. Talvez não descendamos só de europeus, mas todos nós descendemos de europeus.
Agora, como é que teria sido… Você tome a França, a Inglaterra, a Alemanha, o que for, no esplendor da Belle Époque. Se isto aqui tivesse continuado a surgir, no que é que teria dado? Na transição em que o Gilberto Freire formula muito bem, da Sinhá para a Madame, o que é que teria dado? Teria vindo uma coisa original, ou teria começado por uma imitação?
Falam muito da imitação, mas a imitação — aliás, eu pensei nisso também a respeito de Buenos Aires — a imitação até certo ponto se impõe. Porque, como é possível você ser um miliardário platino, ou carioca, ou paulista, e estar pensando em construir uma grande casa para morar, ter dinheiro para fazer a casa, e pensar em fazer de um estilo original? O estilo original não nasce da cabeça de um artista, ele nasce da alma de um povo. Isso é que é um estilo. O povo muito atrasado em relação a uma elite que já estava perfeitamente capaz de compreender o ambiente europeu. O resultado tinha que ser a imitação.
* Não se pode qualificar como falta de originalidade, o fato de que na América se procurava imitar a Europa
Então você pega, por exemplo, construções de residências magníficas em Buenos Aires, e depois numerosas, mas magníficas! Está bem, são todas imitação. Como as de São Paulo do mesmo também mais ou menos, são todas imitação. Mas as pessoas também tinham que imitar a Europa, não tinha por onde escapar. E não se pode dizer que isso seja um processo artificial. Eu acho muito banal, muito mal pensado acusar isso de artificial. É a mesma coisa que tomar uma criança que procura modelar-se segundo os mais velhos, e dizer que aquilo é falta de originalidade. O mais velho está lá para ser olhando e imitado pelas gerações mais novas que vêm. Agora, dizer:
— “Não falta originalidade.”
O que é que queria como matéria de originalidade? O que é que esse povo tinha produzido que não fosse meio inspirado pela Europa.
(Sr. Pedro Paulo: É o mesmo que se dá entre o filho e o Fundador, não é senhor?)
Também, mas é evidente! Evidente.
(Sr. P. Paulo: A grandeza do filho é a imitação do Fundador.)
Mas é, tem que ser, tem que ser.
* Ninguém acusa Roma de falta de originalidade, entretanto, Roma copiou a cultura helênica
Agora, então poderia ser… Vamos dizer por exemplo, quando os latinos copiaram servilmente a Grécia, todo o mundo acha que é uma beleza. Mas a Grécia estava muito mais adiantada e quando entes fabulosos, no sentido literal da palavra, mais pertencentes à fábula do que à História, como os reis de Roma, anteriores à república, eram no fundo uns caciques brancos, já a Grécia era o colosso que era. Depois, todo o mundo em Roma falava [grego] como no meu tempo de menino todo o mundo sabia francês. É natural.
Agora, o brasileiro, ou o argentino falar francês é falta de originalidade.
“E Roma que importou a cultura helênica…”
Importou não, copiou! Por que é que isto aí não é falta de originalidade.
(Sr. Nelson: E a língua também.)
E a língua também! É o tal negócio, eu não percebo esses padrões como se aplicam.
(Sr. Nelson F.: O que precisa [é] ter um povo que engendre um estilo próprio e autêntico?)
Em última análise ele precisa ter convicção muito arraigadas e que ele tome a sério. (…)
* A mais alta forma de visita de Deus a um povo, é quando Ele dá para aquele país, santos e místicos, ou profetas
(Sr. Nelson F.: O mais importante é que esses povos em certo momento de sua história sejam visitados por Deus, não é?)
Sim, é claro.
(Sr. Nelson F.: Que a partir daí tudo é possível.)
Mas Deus, normalmente quando visita, Ele ativa esse sistema. As convicções se tornam intensas, são levadas a sério, e começa o sistema. Mas é por aí que normalmente o auxílio de Deus se manifesta.
Agora, você tem razão de dizer que a mais alta forma de visita de Deus, é quando Ele depois disso, dá para aquele país, santos e místicos. Aí é o pináculo.
(Cel. Poli: Ou profetas.)
Ou profetas.
* Se o povo brasileiro aderisse seriamente à Igreja Católica e os que pertencem a TFP tomassem a TFP profundamente a sério, poderia nascer alguma coisa original, magnífica
(Sr. P. Roberto: Não estaria surgindo no Brasil que seria o nascimento de algo de novo com aquela graça que o senhor dizia, das pessoas que aderem ao senhor no seu todo, sem se perguntarem o que estamos fazendo. Não é uma misericórdia de Deus, primeiro pôr o senhor, e depois pondo algo que levaria a segui-lo?)
Sim. E disto, se o povo brasileiro aderisse seriamente à Igreja Católica e os que pertencem a TFP tomassem a TFP profundamente a sério, poderia nascer alguma coisa original, magnífica, etc. Mas isso está acontecendo à meias, não é?
(Sr. Nelson F.: Mesmo agora.)
Ah, mesmo agora, não tenham ilusão.
(Sr. P. Roberto: Não é uma coisa que tem uma densidade assim…)
Há um convite para ser o que não somos, e esse convite está na graça de Deus e na linha do que nós somos, quer dizer, na linha de nossas qualidades. Deus nos convida nessa linha.
Não sei se eu me exprimi bem?
(Sr. P. Roberto: Mas da parte do público que quer aderir e tal…)
Eu acho que vai ser preciso vencer essa espécie de moleza refratária a toda e qualquer sistematização que você encontra aqui. Isso vai ser preciso vencer. Não tem remédio.
(Sr. Paulo Henrique: E sem a graça com que dificuldades.)
Ah não vence, sem a graça não vence. Não tem remédio. Isso é preciso a graça. A graça é o be-a-bá.
(Sr. P. Roberto: É um povo a-ideológico mesmo.)
Mas eminentemente a-ideológico. Toma a ideologia como tema de conversas nos melhores casos.
(Cel. Poli: Mas o lado bom brasileiro tem uma apetência para a sistematização, por exemplo a Senhora Dona Lucilia é um modo de sistematizar a coisa, à la brasileira.)
Sim, e depois à maneira de uma senhora.
(Cel. Poli: Mas ela era muito exata nas coisas…)
Muito! Mas é porque ela tinha uma fé profunda, enraigada nela e que ele tomava a sério.
(Cel. Poli: Mas à la brasileira, não é?)
Sim. Mas o que é que é esse à la brasileira? É que com essa bondade brasileira, e certa clareza de percepção própria ao brasileiro… (…)
… mas aí cada povo do mundo, e portanto cada povo da América do Sul, tem algo próprio nesse sentido.
(Cel. Poli: À medida que se puder apresentar a ela como o arquétipo brasileiro, de repente as coisas começam a se mudar.)
Acho que sim, que seria uma coisa. Mas quem é que toma a sério. Você veja, por exemplo, o pessoal que vai ao túmulo, recebe graças muito grandes ali, e por causa dessas graças vai, mas se não fosse essas graças, levado apenas pela consideração do Quadrinho, não voltariam.
Por que você me olha tão perplexo?
* Os obstáculos que levam um povo a não ser o que deve varia conforme a nação
(Sr. Paulo Henrique: Com o arquétipo que nós temos, se fôssemos coerentes já deveríamos estar em outros patamares. Parece que isso não se restringe só aos filhos brasileiros, ou sul americanos. […] Então o problema é quase universal. Evidentemente com raízes maiores aqui… […])
Meu filho, os obstáculos variam de país para país. E o obstáculo que leva, por exemplo, um espanhol, a não ser o que devia, é diferente do obstáculo que leva o brasileiro a não ser o que devia. Eu estou descrevendo o brasileiro, se eu falasse do espanhol, eu diria outras coisas. Mas no brasileiro é isso.
E depois tem no francês, no austríaco, oh! quanto defeito acumulado ali! Mas por toda parte… O resultado: o mundo é esse aí. Quer dizer, tomando a metáfora da Europa a mãe, a América a filha, a filha e a mãe estão degringolando juntas, numa corrida para ver quem vai mais depressa para o abismo. Não tem dúvida.
(Dr. Edwaldo: A mãe já chegou aqui meio degringolada.)
É, já foi! Já foi! Não tem dúvida.
(Dr. Edwaldo: Porque não era mais a Idade Média.)
Não era mais, exatamente. Não só isso, mas numa decadência…. Porque todos os estigmas da Renascença, sujaram o nosso berço. Todos! Com os lados bons que ainda se conservavam no tempo da Renascença. É uma outra questão.
(Dr. Edwaldo: Mas já era um pecado muito grave.)
É, já! Uma coisa horrorosa.
Tivéssemos nós sido descobertos na Idade Média, alguma coisa se podia ter salvo.
(Dr. Edwaldo: Nós estamos numa nova descoberta.)
Nós estamos na coisa mais difícil que há, que é uma meia descoberta, e meio criação. E que a gente não deve ter muita preocupação com isso. É só ir amando a Deus, a Nossa Senhora, a Igreja e cumprindo o dever, que a gente sem perceber vai fazendo essa coisa nova como a abelha faz o mel.
(Dr. Edwaldo: Mas olhando para o descobridor.)
Sim, isso não tem dúvida. É fato. Mas basta ir tocando que a coisa tomaria jeito.
* A importância de se considerar a pessoa do Fundador para que as instituições tomem forma
(Sr. Paulo Henrique: De fato se tomarmos a TFP no seu conjunto, depois que o sr. João Clá começou a falar do Fundador, mostrar a alma do Fundador, as instituições tomaram corpo, tomaram forma que até então elas não haviam tomado.)
Mas é fora de dúvida.
(Sr. Paulo Henrique: E isso como que institucionalizou a TFP em pouco tempo, uma coisa que há décadas se arrastou desforme… Basta ver os êremos, e tudo que adveio dos êremos…)
Mas é verdade! É evidente.
(Sr. Paulo Henrique: Tomou forma. Ninguém pode dizer que a TFP não tomou o seu perfil. Ela já tem o seu perfil.)
Ah tem, é indiscutível.
(Sr. Paulo Henrique: Graças a isso, porque se não aparecesse o sr. João Clá que rasgasse o véu e mostrasse a pessoa do Fundador, aí estaríamos um pouco perdidos aí sem rumo.)
O João Clá não pode ser considerado pura e simplesmente um brasileiro. Porque sangue brasileiro ele não tem, mas ele se adaptou ao Brasil de um modo tal que por vários lados o João Clá sentiu o Brasil melhor do que os brasileiros. E há uma coisa que é a tarefa que ele empreende, e que é uma coisa muito delicada. Eu até não sei até que ponto… Ele vai me ouvir e ahahah! depois vai me dizer o que é que ele acha, do que eu vou dizer.
(Cel. Poli: Vem com 500 observações.)
É. Mas há o seguinte: que para um povo que sofre desta forma de moleza pela qual não toma a sério as coisas, não as leva às últimas conseqüências, e por causa disso, um povo que não tem pela lógica, o entusiasmo que deveria ter, o João Clá resolve um problema que está no centro desta enfermidade e que é o seguinte.
Ele torna muito atraente, muito leve, quase muito divertido o tomar as coisas até às últimas conseqüências. É o dom dele.
Por exemplo, esse Jour le Jour, essas coisas todas que ele faz, ele arranja um jeito de cair no goto desse pessoal, de tal maneira que ele trata de coisa seríssima, e as pessoas sentem uma — evidentemente entra um auxílio muito grande da graça dentro disso — mas as pessoas sentem uma atração em fazer as coisas que por mero dever lhe seria muito penoso fazer. E nisto ele introduz um remédio para a enfermidade.
Eu não sei se eu estou…
(Está perfeito!)
E nesse ponto ele é único.
* Comentários sobre os proclamadores da Reunião de Recortes
Você imagine por exemplo, a reunião de hoje à tarde se não fosse a atmosfera criada pelo João Clá. Aquilo não teria dois leitores — entre parênteses: que magnífico leitor é o Suscena, hein! Que inflexões de voz… eu não sei se concordam comigo.
(Dr. Edwaldo: Ele tem uma voz magnífica.)
Magnífica!
(Sr. Paulo Henrique: O sr. João já sabendo disso, quando ele está no Brasil, o coloca lá para fazer as leituras, senhor.)
Eu ainda não tinha notado, ou se notei me esqueci.
(Sr. Paulo Henrique: Não, o senhor já tinha dito que gostava da voz dele.)
Então eu me esqueci. Para mim foi uma revelação segunda, ouviu? Eu achei a voz… Olhe que eu acho o André Dantas um bem bom declamador. Mas acho que o Maurício Suscena supera. Ele toca nos dois outros que acham que são muito bons declamadores, que são o Dustan e o Nelson Tadeu, que declamam muito bem.
Mas afinal, seja como for, não teria aqueles declamadores. Aquilo é invento do João. Escola de declamação fundada pelo João. Porque aquilo é uma escola, com certos traços de declamação do século XIX. Não são declamação contemporânea, mas…
(Sr. Paulo Henrique: Mas sempre afinados com o Fundador. Se ele estivesse aqui, já teria feito a ressalva.)
É, mas é verdade. Muito afinados até, mas conservando as originalidades próprias. E é o que deve ser.
Depois outra coisa: acusam o João Clá de ter uma claque. Eu até agora não descobri bem a realidade sobre o caso, pelo seguinte: a zona do auditório Nossa Senhora Auxiliadora da onde partem os vivas dessa suposta claque, estão numa tal distância dele, que eu não sei com que telefone sem fio ele se comunicaria…
[Risos]
Existe uma zona que eu localizo à minha direita no fundo do auditório…
(Sr. P. Roberto: Atrás fica o pessoal mais novo, e dali, tanto de um lado quanto de outro, vem aquele vozerio.)
Pois é, aquele vozerio também vem da esquerda, você tem razão. De um lado e doutro daquele corredor central. Mas me parece perceber mais da minha direita do que da minha esquerda.
(Dr. Edwaldo: Os eremitas ficam mais à esquerda do senhor.)
(Sr. Paulo Henrique: Talvez por uma questão de som…)
É capaz de ser.
* Os movimentos de entusiasmo e estagnação, durante as reuniões no Auditório Nossa Senhora Auxiliadora
Mas a questão é a seguinte: eu vejo que em geral o entusiasmo nasce no fundo do auditório e que se propaga por ondas até às primeiras fileiras. Mas se não fosse o João Clá, era o contrário, estagnação partiria das primeiras fileiras e se propagaria até o fundo.
(Cel. Poli: E aí com uma energia que chegava lá no fundo vigorosa.)
Nem me fale.
(Sr. Paulo Henrique: Hoje, todas as manifestações dos europeus eu vi que foi movimento dele, não foi sr. Pedro Paulo, o sr. que estava mais próximo lá…)
(Sr. P. Paulo: Sim, sim.)
Foi dele?
(Sr. P. Paulo: Em torno dele.)
Mas como é que por exemplo, isso em torno dele isso se propaga até lá o fim? Como é? Por sinaizinhos?
(Sr. P. Paulo: É mais rápido do que…)
Castanhola?
(Sr. P. Paulo: Nem precisa isso. [vira a fita] A comunicação de um certo elán é rapidíssimo.)
Mas então quem passam?
O Andreas disse o que disse, como é que aquilo chega até o fundo da sala?
(Sr. P. Paulo: Pela manifestação dele, todos vemos como estão andando as coisas.)
Mas a questão é que eu presto a atenção nele e não vejo tanta manifestação.
(Sr. P. Paulo: Tem diversas maneiras de manifestar.)
Mas o que é? Assim?
(Sr. P. Paulo: Não precisa nada.)
Então é a nuca mesmo!
(Sr. P. Paulo: É um estado de alma, senhor.)
Não sei, o que eu sei é o seguinte: falam da claque. Eu queria saber se não fosse a claque, que espécie de “plaque” existiria.
Quer dizer… (…)
“Houve uma campanha em Paris na Opera.”
Eu estou vendo o outro dizer: “é perto do café de la paix, onde tem uns eclaires excelentes. É o comentário. Se tanto, hein! Se tanto.
(Sr. Paulo Henrique: Cemitério.)
Mas é assim. Quantas vezes você vê alguém das primeiras fileiras tomar uma atitude que levanta o auditório inteiro? Você conhece muitos casos assim? (…)
* Uma das queixas do mutuca era em relação às reuniões “tão tranqüilas e compostas” que não se fazia mais…
(Sr. Pedro Paulo: … senta à direita do senhor, sente uma certa dificuldade de acompanhar as coisas, porque é um peso-pesado. No duro. Agora, se senta ali naquela proximidade, é um ar, uma comunicação que contagia.)
Bem, eu me lembro na carta de ruptura que me escreveu, o Fedeli falar das nossas antigas reuniões tão dignas, tão compostas…
(Cel. Poli: O Fedeli?)
O Fedeli. Tão tranqüilas… Parece uma brincadeira, porque ele ficava durante o tempo inteiro da reunião junto aos arbustos lá do Buissonets que eu poderia indicar qual é, fazendo aquela chalaça dele. E de gente que, portanto, não entrava na reunião, que não acompanhava a reunião, e ficava na pagodeira dele lá fora. E dentro, era uma dormideira da mais maciça, compacta e irremovível que havia. Eu já tenho contado a vocês, repito numa palavra só.
* A frieza do grupo quando o SDP deu a notícia do término do estrondo em 1975
Mas aquele “estrondo” que houve logo depois do meu desastre, foi o “estrondo” mais terrível que se possa imaginar. Basta tomar em consideração que em certo momento as câmaras municipais de São Paulo, todas começaram a pedir ao governo federal, o fechamento da TFP. O que indicava claramente, um movimento nacional de prefeituras pedindo o fechamento da TFP.
Depois do quê, um Geisel ou um outro qualquer que estivesse na presidência da república, fechava a TFP dizendo: “todas as câmaras pediram, eu estou fazendo isso.”
Aquilo só parou porque o bom general Ednardo que parece que apreçou o fim de um homem chamado Fiel Filho, aqui, a respeito do qual “O Estado de São Paulo” fez ditirambos incontáveis, o general Ednardo não tinha ainda feito essa — para dizer pouco — essa asneira… Ele era o comandante do exército aqui e tomou uma posição a nosso favor numa reunião de empresários no Jockey Clube. E falou. E aliás “O Estado de São Paulo” publicou. Não falaram da TFP. O Ednardo dizia: “acusam gente de fascista e nazista que não têm nada de fascista nem de nazistas, são bons brasileiros…” Saiu isso, e o negócio cortou assim…
(Dr. Edwaldo: Falou da infiltração comunista na imprensa e no meio político.)
Exatamente. Foi uma coisa muito enérgica e acabou a história.
Depois do “estrondo” do Rio Grande que foi uma seqüela disso, etc. Afinal, um dia acabou porque a CPI de lá declarou que ia suspender as sessões embora continuasse até o fim do prazo recebendo as denúncias que aparecessem. Não apareceu mais denúncia nenhuma e o negócio acabou.
Quando a CPI declarou isso, eu vi que estava morto o negócio — houve outros fatos muito significativos — eu compareço no auditório São Miguel à noite e digo: “eu tenho a alegria de dizer para os senhores hoje, que felizmente o “estrondo” terminou, o “estrondo” colossal…” (…)
Quer dizer, a TFP emergiu de um pântano, foi quase tirar da… foi quase o venit foras de Lázaro, foi quase isso. A TFP estava morta.
[Faz algum gesto indicando a dormideira do auditório]
E está acabado!
Agora, tivesse ali o João em ação, o pessoal todo se levantava, e os dorminhocos iam dormir em pé, de medo da crítica que vinha detrás.
Não é isso?
(Sr. Pedro Paulo: Tal e qual.)
É isso, sem tirar nem pôr.
Agora, o que é que é?
É uma coisa que ele arranja que eletriza num certo sentido da palavra, o pessoal, levando-os a ter um entusiasmo sem preguiça por coisas levadas às suas últimas conseqüências.
(Sr. Pedro Paulo: Que não é outra coisa que o entusiasmo que o senhor comunica mas que há uma parede que muitas vezes somos…)
Absolutamente.
(Sr. Pedro Paulo: E ele rompe isso.)
(Cel. Poli: Ou é um maravilhamento que ele tem em relação ao senhor que é detonante de coisas boas? E é esse maravilhamento que a gente precisa pedir à Senhora Dona Lucilia, porque ela tinha esse maravilhamento.)
Tinha.
(Cel. Poli: Porque o senhor é maravilhoso. Se nós não nos maravilharmos pelo senhor, não nos maravilhamos por nada.)
A lógica não move. É o fato.
(Cel. Poli: O horário é do senhor.)
Que horas são?
(Cel. Poli: [inaudível].)
Nossa Senhora!
Fale você, Horácio, depois…
(Sr. Horácio: Eu assisti a muitos Jour le Jour, e ele é sumamente autêntico, não tem nada de truque aí. A claque existe, mas não tem truque, ele pede as pessoas que rezem jaculatórias durante a reunião, ele faz um apostolado do senhor que é admirável. Por exemplo, eu assisto aos chás na Sede do Reino de Maria, mas às vezes eu indo ao Jour le Jour, e ele transmitindo o chá do senhor, eu compreendo muito mais o senhor do que assistindo diante do senhor. Então ele sabe comunicar esse [inaudível] que tem o senhor.)
Sem o que as coisas não andam. Porque não andam.
(Cel. Poli: Infelizmente por nossa culpa.)
Ah sim!, porque…
(Sr. Paulo Henrique: Porque se ele vê e comunica, por que nós também não…)
Exatamente.
(Sr. Paulo Henrique: Há uma infidelidade de nossa parte.)
É evidente.
(Sr. Paulo Henrique: Se vemos não comunicamos. Se não vemos também por infidelidades.)
Evidentemente.
Bem, meus caros, vamos dormir.
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