Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 15/8/92 – Sábado – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 15/8/92 — Sábado

Em geral, Deus nos faz conhecer, ao longo da vida, as pessoas que nós devemos tomar como arquétipos para sermos à maneira delas, ou então para recusarmos de ser * Às vezes uma expressão torna-se uma espécie de moeda cunhada que define um tipo humano: “Un chavalier sens peur et sens reproche” * Outro exemplo: um dito de François I para sua mãe: “enfin madame, tout est perdu hormis l’honneur” * Como o SDP se modelou: de um lado ele era sumamente afeito às relações cordiais e amigáveis * O amor à grandeza mais o amor ao afeto, tem que dar necessariamente no amor a Nosso Senhor e a Nossa Senhora * Como se instala dentro disso a combatividade? * A finalidade da vida é a luta pela vitória do Bem contra o Mal, e para essa luta é preciso mobilizar tudo o que a gente tem * Um fato que mostra a arte de saber conversar, saber sair de um apuro de um modo agradável. A beleza do cerimonial * Dr. Gabriel José ensina a Da. Teresa Cristina a dançar e causa sensação na corte

(Sr. Gonzalo: … o ambiente tem um papel extraordinário.)

Ah não, eu faria. Se eu ficasse na alternativa de fazer reunião em cima ou não fazer, eu iria para cima, isso é certo. Mas podendo fazer aqui é muito mais acomodatício… não sei, o ambiente […inaudível].

(Sr. Gonzalo: Aqui tem mais “penas do ninho” de passarinho. Em cima não tem penas.)

Ahahahah! É uma coisa engraçada como o ambiente pode mudar de um andar para outro. É uma coisa sui generis, especial. Você vê, por exemplo, aqui esse ambiente…

(…)

(Sr. Gonzalo: Uma coisa muito bonita da Reunião de Recortes…)

De hoje?

(Sr. Gonzalo: De hoje. Foi quando o senhor mostrou como a TFP é um milagre.)

Mas é verdade.

(Sr. Gonzalo: Certa vez o senhor disse que tinha feito duas coisas: uma era fazer a si mesmo, e outra era a TFP. Mas como a TFP não lhe obedece, não é uma obra plena nesse sentido. Mas que a obra propriamente plena do senhor, é o senhor mesmo.)

Tem que ser! É para cada um.

(Sr. Gonzalo: O senhor disse: “a obra minha, sou eu mesmo”. […] O bonito da questão, e o que é um milagre no sentido mayor, é como é que o senhor se fez a si mesmo e conseguiu de Deus, “arrancar” de Deus uma coisa que não estaria nos planos d’Ele fazer. […] A pergunta que gostaríamos que o senhor tratasse, foi como é que o senhor fez-se a si mesmo? […])

* Como a pessoa se forma a si mesma

Quer dizer o seguinte: a pessoa se faz a si mesma no sentido de que uma semente se faz constituindo a planta. Quer dizer, ela é de início semente, mas tem uma porção de potencialidades que Deus pôs na semente e a semente deve pela sua vitalidade ir assimilando os elementos que tem em torno de si e rejeitando os elementos nocivos e por esta forma ir crescendo. E travando, portanto, no ambiente onde ela está uma espécie de luta de sim e de não. É um trabalho no sentido da assimilação. E é uma rejeição, é uma espécie de luta no sentido de não. Neste vaivém, a coisa viva se faz a si mesma. No caso de uma semente… a semente não tem consciência disso, ela faz isto por causa de um dinamismo que Deus pôs na semente para isso.

Agora, no caso de nós homens, eu acho que a situação própria a todos nós, é que nós sejamos como sementes, que pela assimilação e pela rejeição, mas então conscientes, amorosos do que é bom, e pugnazes contra o que é ruim, aquilo vai se fazendo, mas então com o mérito de ser uma coisa que decorre também de uma operação intelectual, e operação intelectual essa que envolve um conhecimento, uma apreciação, uma rejeição, ou uma aceitação. E há aí de fato, alguma coisa por onde a pessoa se modela a si mesma. Deus [vai] fazendo passar diante dos olhos do indivíduo, vivo e consciente, modelos de aceitabilidade e modelos de rejeitabilidade, de maneira que, no convívio humano a pessoa mais ou menos vai estabelecendo meio subconscientemente aquilo que quereria ser. E aqui essa luta se torna mais difícil, porque quando a pessoa chega ter uma idéia do que quereria ser, começa uma luta mais árdua para adquirir coisas mais difíceis. Porque o homem, quando se pergunta a ele o que ele quer ser, a menos que ele seja muito indolente, ele fixa pontos altos para ele querer ser. E subir esses pontos altos é uma forma de alpinismo mais dura do que qualquer alpinismo tipo Himalaia. É qualquer coisa dessa.

* Em geral, Deus nos faz conhecer, ao longo da vida, as pessoas que nós devemos tomar como arquétipos para sermos à maneira delas, ou então para recusarmos de ser

E em geral, Deus nos faz conhecer, ao longo da vida, as pessoas que nós devemos tomar como arquétipos para sermos à maneira delas, ou então para recusarmos de ser. E por esta forma, as pessoas acabam tendo, sem perceber, uma espécie de função docente umas sobre as outras.

Não sei se este ponto está claro.

Uma função docente da qual a pessoa não se dá conta, mas que de fato a pessoa exerce modelando outros, e no mesmo passo em que modela a si mesmo, ela encontrará as almas que ela deve modelar e que às vezes é também sem elas perceberem. E é nesse trabalho imenso de interação de uns sobre os outros que se realiza o plano de Deus sobre as almas.

Se a gente se colocasse na posição de Deus para apreciar essa ação mútua, é um trabalho colossal, imenso, belíssimo, naturalmente com episódios tristíssimos, com coisas muito recusáveis, etc., etc., e que constitui a trama da salvação das almas nessa terra. A trama é inteiramente essa.

Então, às vezes, quando a pessoa, por exemplo, faz uma coisa muito boa, fala de um modo tão marcado, tão acentuado, que ela tem um dito, e no dito ela, sem perceber, faz passar toda a sua alma.

* Às vezes uma expressão torna-se uma espécie de moeda cunhada que define um tipo humano: “Un chavalier sens peur et sens reproche”

Então por exemplo, aquela… são dois ditos contemporâneos, um é o modo pelo qual os contemporâneos de Bayard o chamavam: Le chevalier sens peur et sens reproche. É uma expressão linda. Fica uma espécie de moeda cunhada, é uma espécie de tipo humano. Un chavalier sens peur et sens reproche é uma espécie de tipo humano.

Para um indivíduo que tenha por exemplo, “intelectualosa”, é excelente curar, falando e pensando no chevalier sens peur et sens reproche. Porque a biblioteca fica uma coisa tão pequena… é evidente! Sens peur et sens reproche

Bem, ele leu muitos livros!

E daí?

Ele sabe muito, ele, a respeito de Cipião de Útica, ele tem informações que ninguém tem.

E daí? Ele é sens peur? Ele é sens reproche?

Depois, em geral, esses ditos assim tem um sentido que não é o sentido imediato e que é o mais bonito. Você veja, por exemplo, Sens peur et sens reproche é uma redundância. Porque se ele tivesse peur teria reproche, portanto… Não se pode negar! Sens reproche, mas poltrão? Isso não funciona.

Ou então outra coisa: Chevalier sens peur. É admirável, está bem. Mas é reprochable. Isso um ladrão qualquer pode ser, ahahah, sens peur mas sobrecarregado de reproche. Mas eu não vi até hoje uma pessoa fazer notar sequer, esta evidente imperfeição do dito. Porque há uma coisa que é o “transdito” que fica além de sens peur et sens reproche e que tem… Nós poderíamos aqui em conjunto até, fazer um esforço para ver o que é que isto quer dizer.

Eu tenho impressão que todos concordarão comigo em que isto significa o seguinte: que se pode fazer uma distinção entre o homem e o chevalier. O homem somos nós. O chevalier é um homem que se entrega a certo tipo de atividade. Bayard teria sido sens peur como chevalier, mas como homem, na vida comum, sens reproche. E isto daria o sentido da frase que assim como está, é até um excesso.

* Outro exemplo: um dito de François I para sua mãe: “enfin madame, tout est perdu hormis l’honneur”

Por exemplo, aquele dito do François I, o rei do Bayard, para a mãe. Ele escreve uma carta à mãe contando uma derrota que ele teve — tudo derrota, uma série de coisas —, ele acaba e disse: enfin madame, tout est perdu hormis l’honneur. A frase, conforme o estado de espírito em que a pessoa esteja quando lê, pode até arrepiar-se de tão extraordinária que é a frase. Bem, cunhou moeda, ficou aquela coisa.

Eu acho que ele foi escrevendo, enumerando, e ele mesmo quando chegou ao fim, ele se perguntou a si mesmo: “mas o que é que ficou faltando?” E ele então pôs: hormis l’honeur. Mas ele não calculou talvez, o que era isso. Quer dizer, um infortúnio sem nome, mas a honra ficou de pé. E como a honra é tudo, não perdeu nada.

Engraçado que a interjeição madame para a mãe, que era corrente naquele tempo, dá uma beleza à frase, que o modo de falar contemporâneo não tem. Enfin, madame

(Sr. Gonzalo: Tem que ser em francês também.)

Entra uma coisa dentro que é incomparável.

Enfin, madame, tout est perdu, hormis l’honeur. Outros dizem sauf l’honeur, uma coisa assim

Mas estas são frase que cunham depois uma porção de pessoas. Uma porção de pessoas acabam tendo um zelo especial pela honra, e também tendo uma coragem especial no infortúnio quando podem dizer: “tudo foi perdido, menos a honra”. Não sei… que modela uma pessoa. É o trabalho admirável da modelagem de uma pessoa.

Mas o ponto principal disso é o seguinte: é que Deus quer que, segundo a ordem natural, cada alma se modele para ter uma perfeição moral de caráter sobrenatural de um determinado modo para completar a coleção de santos de Deus. Não serão necessariamente santos de altar, mas de almas santas que possam ir ao céu, ficar no céu. Esses são os santos de Deus.

* Deus reúne uma coleção de almas que dão as virtudes necessárias para que o Céu seja moralmente lindo

E se nós olharmos o céu do ponto de vista de Deus, nós percebemos que Deus vai reunindo lá uma coleção de almas que dão toda espécie de virtudes necessárias para que o céu seja moralmente lindo. Porque todas as virtudes excogitáveis cabem ali dentro. E Ele vai a cada um dando recursos, fazendo os lumens aparecerem, a pessoa compreender, Ele mesmo intervém e faz a pessoa querer. A pessoa rejeita, Ele espera a pessoa mais adiante, dá mais, dá menos, conforme as orações que outros fizeram por essas pessoas. Vai todo um torneio imenso. E nós, cada um de nós, fica no centro de toda uma roda de salvação e perdição. Ao mesmo tempo cada um de nós é um mero elemento extrínseco dessa roda em função de um outro, e por outro lado é o centro de uma roda em função dele mesmo. E isso mais uma vez nos reconduz à idéia da beleza de toda a arquitetura que Deus pôs. É como eu julgo ver a coisa.

(Sr. Gonzalo: O senhor poderia tratar um pouquinho de como o senhor se modelou?)

* Como o SDP se modelou: de um lado ele era sumamente afeito às relações cordiais e amigáveis

É Nossa Senhora obtendo que Deus pusesse antes de tudo alguns elementos, e depois a luta, porque tinha também dentro da flor, a cobra; em todos nós, que é o pecado original. E aí vem o problema.

Quer dizer, eu era sumamente afeito — quem diria?, com a vida que eu levei! — sumamente afeito à concórdia, às relações cordiais, amigáveis, em que todo o mundo bom, age bem com todo o mundo bom, e ao prazer do afeto, da amizade, etc., que facilmente levaria [a] correr o risco, mais de uma vez, de levar até o sentimentalismo. Nunca se diria isso de uma pessoa que combateu tanto quanto eu, e que espera ainda dar umas bordoadas antes de morrer. Não se diria isto de uma pessoa assim. Mas o começo foi, de um lado isso.

Mas de outro lado…

(Sr. Gonzalo: O senhor é muito afetuoso.)

Sou.

(Sr. Gonzalo: É só se não quiser ver, mas o senhor é imensamente afetuoso.)

* O SDP é afetuoso, mas a vida o ensinou a pôr uma reserva

Sou, é verdade, mas a vida me ensinou a pôr dentro uma reserva.

(Sr. Gonzalo: Mas isso não quer dizer que não tenha muito afeto, até materno, muitas vezes.)

É. Isso eu tenho muito mesmo. Mas uma certa reserva que é o seguinte: esteja pronto a receber uma pancada no rosto, no momento em que você fizer o seu melhor benefício, aí você estará dentro da realidade. Então aí não se vingue, não fique azedo, não fique nada, seja sereno e continue o mesmo, não se deixe bobear.

(Dr. Edwaldo: Aquela frase do senhor quando ia para a mesa de operação: “se os membros do Grupo soubesse o quanto o senhor estima a cada um, bastaria para convertê-los”.)

É, mas não quereriam saber.

(Dr. Edwaldo: Mas para mostrar o afeto do senhor…)

Foi mesmo. E é isso.

* O amor à grandeza

Agora, vinha junto depois, como segundo elemento disso, o amor à grandeza, de que eu já tenho falado aqui. Mas esse amor à grandeza existia como um prolongamento desta afetividade.

Quer dizer, gostando muito que todo o mundo tivesse muito bem, tivesse muitos bens, tivesse muitas circunstâncias favoráveis, propícias, etc., alegria de ver nos outros mais do que aquilo que a gente tem ou é. E quanto mais o outro é grande, mais satisfação com isso. Tem que dar necessariamente no amor à grandeza. É lógico.

* O amor à grandeza mais o amor ao afeto, tem que dar necessariamente no amor a Nosso Senhor e a Nossa Senhora

Agora, o amor à grandeza mais o amor ao afeto, tem que dar necessariamente no amor a Nosso Senhor e Nossa Senhora, porque Nosso Senhor é inteiramente isso. Nas imagens do Sagrado Coração de Jesus bem feitas deve-se procurar exprimir isso. Nossa Senhora é Mãe d’Ele, nem preciso dizer mais nada.

Então, fica o problema da combatividade. Como é que se instala dentro disso a combatividade?

* Como se instala dentro disso a combatividade?

A percepção de fatores hostis e de pessoas hostis que querem destruir isto, que gostam de ver a maldade com que uns tratam os outros, caçoam dos outros, e são indiferentes aos outros, pisam nos outros, e que a gente nota já no colégio desde meninos, hein! No modo de brincar um com outro, e uma porção de coisas assim, há uma rejeição realmente muito desagradável e que a gente nota muitas vezes. Então a idéia de que nós não podemos permitir que tudo aquilo de bom que há em nós, seja vilipendiado assim. E a idéia de que há uns tantos Bayards da infâmia que querem passar a vida destruindo essas coisas nos outros. Porque há, vocês devem ter conhecido, e há.

E daí a idéia de que eles se confederam, se aliam entre si, e que eles montam o assalto aos bons, intencionalmente e quase se diria planejadamente. E no fim do fim, do fim, a posição seguinte: a conjuração anticristã contrária à Igreja Católica. Quer dizer, a Revolução anti-monárquica, anti-aristocrática, anti-democrática, tomada a palavra democracia no sentido de massa e não de povo. Quer dizer, nós devemos considerar a situação de massa, uma má situação. A situação de povo, uma boa situação. Aquele que faz parte da massa e se compraz em ser massa, faz parte dos Bayards da infâmia. Aquele que pelo contrário se compraz em ser povo, em se diferenciar de dentro da massa, não para subir, mas para não se deixar engolir, não se deixar tragar, esse é povo e está do lado positivo. Forma uma idéia de uma batalha imensa também, como é imenso todo esse jogo. E a gente compreende que [Volens nolens??], querendo ou não querendo há uma situação na qual nós podemos interferir enormemente — cada um! — para a vitória do Bem ou da vitória do Mal. Do Reino de Maria ou da Revolução.

* A finalidade da vida é a luta pela vitória do Bem contra o Mal, e para essa luta é preciso mobilizar tudo o que a gente tem

Então, conseqüência: a finalidade da vida é fazer essa luta. Aqui vem o fim da modelagem. E se é para fazer essa luta, é mobilizar nela tudo que a gente tem. Então procurar os recursos que possa ter, vamos dizer por exemplo, um que canta muito bem, se dará um grande cantor, mas saberá cantar coisas e utilizar a sua voz de maneira tal que fará grande bem, por exemplo. Isso faz parte dessa mobilização de tudo para essa luta, e compreensão que a luta não é apenas o choque de dois opostos, mas é antes do choque, a vigilância, a observação, a esperteza, e saber pan!, bater a pancada no hora certa. Aí nós teríamos uma espécie de construção, que naturalmente conforme a vocação de cada um e as circunstâncias de cada um, isso se acentua mais um lado, acentua mais um outro, etc. Isso varia indefinidamente.

Aí estaria a resposta à sua pergunta.

(Sr. Gonzalo: Mas isso de si, não explicaria o milagre.)

Não. Porque tudo isso é milagre.

(Sr. Gonzalo: Tudo isso…?)

No sentido seguinte: o que é que é aí milagre? Sem a graça isso não seria nada. E onde entra a graça, entra alguma coisa que num certo sentido pode chamar-se milagre.

(Sr. Gonzalo: […] Mas é de algo que não podia nascer. Ora, nasceu. Isso que o senhor explicitou se aplica de modo genérico, mas há algo de muito específico aqui, por onde, estava como que decretado que um homem como o senhor não ia nascer. E daí todo o problema que o senhor coloca para a Revolução, como por exemplo agora com essa campanha. […] E aí é por onde se dá o problema com o demônio, pelo qual o demônio está liqüidado, e de outro lado a compra do Reino de Maria. Mas é um tipo de modelagem muito específico. O senhor deu de modo muito genérico. O mais específico da coisa está em quê?)

Mas eu dei o genérico junto como o específico há pouco.

(Sr. Gonzalo: Sim, quando o senhor falou da grandeza, da…)

Da afetividade, e de tudo, são coisas que existem em mim de um modo muito específico, e que concorrem todas elas muito, para que a TFP exista.

(Sr. P. Roberto: O senhor disse que é um conjunto de docente na vida. Quais foram essas arquetipias que mais marcaram o senhor para que o senhor fosse modelando, fazendo esse jogo de resistência?)

Quer dizer, que pessoas?

(Sr. P. Roberto: Que pessoas, que situações, que coisas…)

É muito difícil dizer.

(…)

* Como era o luto das senhoras quando o SDP era menino

mas as senhoras usavam um tipo de chapéu que tinha assim um véu na frente, e elas deixavam cair aquele véu, e tinham uma gaze preta transparente. De maneira que elas podiam andar, ver e tudo, mas com aquela gaze, para dar entender que elas estavam tão entristecidas que só viam a luz do dia através da cor negra.

(Sr. P. Roberto: É muito bonito.)

É bonito.

Naturalmente, quando elas chegavam dentro de casa, numa visita qualquer coisa, tiravam aquela gaze dos dois lados e punham atrás. Mas antes de ir embora se levantavam, faziam descer aquela gaze e saíam.

Luvas pretas nem se fala. Jóias pretas! Havia jóias para luto, mas que não eram preciosas, eram meio bijuteria. Mas preta, para uma senhora usar durante o tempo do luto. E isso fazia aparecer a morte uma coisa terrível. A perda de um ente querido… Às vezes era uma mulher da qual o sujeito ficava contentíssimo de estar livre. Ou era um marido do qual a mulher estava contentíssima de estar livre. Mas aquele luto preto! E luvas pretas, etc.

* Um fato que mostra a arte de saber conversar, saber sair de um apuro de um modo agradável. A beleza do cerimonial

E uma tia minha — quer dizer, casada com um tio — tinha perdido a mãe dela. E ela ia de vez em quando em casa no vaivém comum da vida de família. E estavam conversando ela, mamãe e vovó. E eu estava sentado ali na roda, ouvindo conversar mas sem participar da conversa. Criança não entrava nessa conversa. Estava sentado e vendo aquela minha tia toda de preto, aquela coisa toda.

E eu disse: “isso aí afinal de contas devia ter um remédio.” Interrompi a minha tia e disse: “Titia, a senhora está sentido tanto a morte de sua mãe, por que a senhora não faz uma coisa mais prática, pede para vovó ficar passando como sua mãe, e a senhora tira esse véu todo e tudo mais, e leva a vida comum.”

Bom, a saída. Eu vi que aquilo causou um mal-estar. A saída da minha tia: “É isso, meu filho, você tem toda razão, é o que eu devia fazer mesmo, porque sua avó é uma verdadeira mãe para mim…”

(Sr. Gonzalo: Uma saída fabulosa.)

A cerimônia da saída, porque ninguém na roda podia dar uma saída para uma cartada dessa da criança. Minha avó dizer para a nora dela: “não minha filha, eu quero ser sua mãe…” Ficava muito artificial. Mamãe intervir não tinha que intervir. Ela dizendo assim… A minha tia disse: “é isso, você, me aconselhou muito bem, eu vou tomar a sua avó como minha mãe muito especialmente, etc.”

Vovó disse umas palavras amáveis e todas fugiram do assunto e tocaram a roda para frente.

Bem, eu tive a sensação de que eu tinha dito uma coisa qualquer que não estava regular. Mas que a situação tinha sido consertada, e acabei percebendo como era a história, e achando como era bonita a solução que a senhora tinha dado.

Então: “está vendo essa gente como é um pessoal que sabe conversar, sabem se tratar nas ocasiões difíceis, nos apuros, etc., sabem sair do apuro de um modo agradável. Isso é cerimônia. Que coisa bonita! Como a cerimônia é uma coisa linda!”

Então observar as visitas. Quando chegava a visita, ficar olhando para como é que se cumprimentavam. Depois como é que me cumprimentavam a mim mesmo, como é que faziam a douceur de vivre daquele tempo. Que levou mais anos aqui do que na Europa. Porque a guerra ainda não tinha chegado aqui, e portanto a coisa corria de qualquer jeito.

* O gosto pelo trato ao mesmo tempo cerimonioso e afetuoso. Como era o cerimonial para uma família fazer um passeio a pé

E tudo isso me dava muito gosto pelo trato ao mesmo tempo cerimonioso e afetuoso.

E eu gostava de ver que nos homens — isso eu creio que vocês não pegaram — nos homens… isso se completava com uma outra coisa. Saía a família à rua. Habitualmente saíam em fila assim, horizontal, e de modo espontâneo. Em geral a mulher saía ao lado do marido e os filhos se distribuíam de um modo movediço enquanto andava a pé. Um saía, estava ao lado do outro… era a vida comum. Mas os homens usavam bengala, e usavam chapéu coco. E a bengala era um sucedâneo da espada do gentilhomme. E assim como o gentilhomme usava espada para se defender contra qualquer agressão, o burguês afidalgado daquele tempo, usava a bengala. Mas não tinha outra finalidade senão espantar um cachorro, afastar um bêbado, umas coisas assim…

(Sr. Gonzalo: Mas era muito prestigioso.)

Muito prestigioso! E alguns usavam a bengala assim, punha a bengala embaixo do braço e ficavam segurando o castão da bengala assim… E tomavam um ar de comandante de navio, assim, um ar de quem está navegando com aquela equipe pelos mares cheios de surpresas que podem aparecer de uma qualquer coisa. E por causa disso com um ar grandioso.

Eu dizia: “Está vendo, o homem faz assim… A mulher faz a coisa com doçura, com suavidade, porque é próprio do homem ser muito afetivo, muito bom em casa; mas fora há canalhas e ele então é o comandante de uma expedição da família, para expulsar os canalhas. Quer dizer, estão passeando, mas se os canalhas aparecerem, o homem saberá… Então bigodudo, e aqueles ares… Os homens faziam uns olhares acesos, e as senhoras uns olhares mais débeis, com quem diz: “eu confio neste aqui que é meu marido”. Mão levemente posta no marido e ele assim, salvando a pátria.

Isto era para ir não sei, vamos dizer, daqui da rua Alagoas até a Sede do Reino de Maria em pleno dia; o cerimonial era esse. Mas eu percebendo que era cerimonial, tinha um verdadeiro entusiasmo pelo cerimonial. Mas não sei se percebem… é o que eu falei da semente, que assimila os elementos positivos, rejeita os elementos negativos, e vai se formando. E com isso as coisas andaram.

(Sr. Gonzalo: É fabuloso!)

Eu preciso ver um pouquinho a hora.

(Cel. Poli: Está na hora.)

São três horas e cinco. Você ia perguntando uma coisa, meu Paulo Roberto, diga o que é.

(Sr. P. Roberto: Parece ter havido um papel providencial do senhor ter nascido nessa família…)

Ah, eu estou certo disso.

(Sr. P. Roberto: Algo de profético deve ter havido no sentido de restos do passado, e de transmissão de alguma coisa para o senhor…)

Tinha! Tinha.

(Sr. P. Roberto: O senhor hauriu do passado algo de muito precioso, de maneira que o senhor foi uma espécie de elo de ligação entre o passado e o futuro.)

Isso foi. Foi sobretudo um elo de perpetuação, porque eu fiz o possível para, no papel de um menino, depois, de um moço feito, conservar tudo que, sem choque excessivo, pudesse ser conservado. Quer dizer, não cair em conservantismo ridículos, [mas] conservar o que eu pudesse conservar. Que era uma coisa necessária.

* O casamento de Pedro II com Da. Teresa Cristina

Então coisas por exemplo que minha mãe contava do avô dela que era deputado no Rio de Janeiro. Deputado por São Paulo. E era um homem muito jeitoso, muito courtisant. Então como é que ele se [havia?] nas circunstâncias e tal.

Mamãe tinha um respeito muito especial pela imperatriz Teresa Cristina, que ela não chegou a conhecer. Mas ela contava que a imperatriz Teresa Cristina…



Você vê o fatinho todo no seu conjunto para ver a coisa como é. A Teresa Cristina tinha se casado com D. Pedro da seguinte maneira: quando chegou a hora de D. Pedro casar-se, o governo estudou com D. Pedro quem seria. Naquela tempo não havia ainda fotografia, e a pessoa só podia conhecer a figura da futura esposa, indo vê-la, ou ela vindo ver. Essas coisas sempre desagradáveis. Ou mandando um pintor pintar. Então o governo brasileiro mandou um tal conde de Alsejur à Europa para procurar uma esposa para D. Pedro II. E a coisa vai, a coisa vem, essa convém, aquela não convém, uma porção de razões que havia para essas, para aquela, acabaram mandando uma miniatura sobre marfim da princesa Teresa Cristina de Bourbon e Duas Sicílias, era o Reino de Nápoles no sul da Itália. E o D. Pedro II ficou apaixonadíssima pela princesa e disse: “não, eu vou casar com essa”.

Essa oferecia as vantagens todas necessárias, ajustaram o casamento e o Alsejur, me parece, que se casou por procuração com a Da. Teresa Cristina e vieram no mesmo navio. E o imperador foi recebê-los a bordo. Mas diz que segundo o cerimonial daquele tempo, para reis, rainhas e tal, a coisa devia fazer-se do seguinte: ela devia estar num lugar do tombadilho qualquer, ou um salão, um lugar fixo, ela devia estar parada lá. E o imperador devia vir de longe…

Não, ela vinha de longe, o imperador estava parado. E quando chegasse diante do imperador, ela fazia uma grande reverência. Até punham no chão uma almofada toda bonita, etc., etc., para que ela pudesse ajoelhar. Mas o imperador a sustinha e não permitia que ela se ajoelhasse. Então vinha os cumprimentos, etc. e depois desciam de bordo.

O imperador viu chegar a Dona Teresa Cristina, e viu tão diferente daquela beleza que ele tinha visto na miniatura, que ele ficou interloquer e na hora de ajoelhar, ele [a] deixou ajoelhar-se. E saiu pesteando contra o Alsejur. Parece que não disse nada a mulher. Mas saiu pesteando. Uma mulher feia, e que com o tempo foi ficando mais feia ainda. E ela era manca, além do mais. O imperador viu chegando quem ele imaginava uma sílfide, uma fada, veio mancando: pon, pon, pon…

(Sr. P. Roberto: Foi um “servição” que essa Alsejur fez…)

Eu desconfio que ele ganhou dinheiro para empurrar a “bruxa”…

Aliás, coitada, essa sofreu de dá pena.

Bem, ela deve ter percebido tudo.

O imperador saiu com ela pelo braço, e tal e foi tocando a vida.

* Dr. Gabriel José ensina a Da. Teresa Cristina a dançar e causa sensação na corte

Mas chegava a hora do baile no palácio, ela não podia dançar. Então ela ficava numa saletinha atinente à sala de baile, uma saleta-passagem, sentada, e em geral tinha alguma dama da corte fazendo companhia a ela, e tal, mas fazendo companhia porque estava escalada, não é porque fosse amiga, etc. e tal. E meu bisavô passou perto dela, cumprimentos, etc., e ela mandou sentar-se, e ele com jeito acabou falando, por que ela não ia dançar. E ela disse: “ora, dr. Gabriel, o senhor vê bem a minha dificuldade, etc., eu não posso dançar”.

E meu avô que era muito… [vira a fita]

ao cabo de algum tempo de treino ali, ele mostrou que se ela quisesse podia até dançar. Ela experimentou com ele, dava para dançar. Ela convidou para entrarem no salão dançando, enquanto os outros dançavam.

Então grande sensação na corte. E o velho Gabriel José que tinha uns sucessos parlamentares, oratórios, que a família celebrava muito, o velho Gabriel José aparecia como o artífice na naturalidade da imperatriz. Você compreende, os agradecimentos, e a situação de corte que isso implicava, etc., etc.

Eu ouvia contar pilhas de coisas dessas. Algumas filtravam através do João Alfredo por intermédio de papai. Mas a maioria era através do Gabriel José e de outras pessoas da família de mamãe então, aqui por São Paulo. E toda essa idéia de vida de corte, de vida de aparato, e o modo pelo qual se dirigiam as pessoas, etc., etc., tudo isso me dava uma impressão e um gosto, que vocês podem imaginar, e que concorreram para a formação do monarquista.

Voilà! Meus caros, dou-lhes habeas corpus, ao menos isso.

Vamos dormir então.

(Sr. Gonzalo: Que pena que todos os dias não sejam sábado.)

Ahahah! Como eu gostaria!

Há momentos minha Mãe…

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