Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
1/8/92 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 1/8/92 — Sábado
Um aspecto tirânico da lei da Reforma Agrária que está para ser aprovada * Exemplo de um dos disparates da Reforma Urbana * O que está sendo preparado pela TFP contra as Reformas Urbana e Agrária * A questão de Maastricht é a coisa mais estúpida, mais maluca, mais anárquica, e mais inimaginável que se possa imaginar * Realiza-se em Madrid uma reunião de altos homens de negócio da Europa inteira, para fazer uma prospecção da situação do futuro econômico da Europa * Fazer uma economia euro-sul-americana que deixasse de lado os Estados Unidos * Uma contradição das mais chocantes: Reforma Agrária, Reforma Urbana, ECO 2D92, miserabilismo total; e em oposição a esse miserabilismo total, uma política que visa fazer uma Bagarre Azul * O que se pode achar de toda a situação atual é a ostentação mais cínica possível do caos * Há um projeto de lei em andamento, mandando abrir todas as casas de louco do Brasil * A TFP dentro desse quadro geral * Necessidade de vítimas expiatórias
…. esse é o be-a-bá da coisa. Mas então, meus caros, qual é o nosso tema hoje?
(Sr. Gonzalo: O sr. Guerreiro tem uma pergunta.)
Então, meu filho, o que é que há?
(Sr. Guerreiro: […] De um lado, há um andamento da situação de tal modo grave, que o senhor não tem tratado, e que o senhor não está querendo tratar; mas de outro modo, dado a gravidade do assunto, se se perguntasse, o senhor trataria.)
Trataria, é claro.
(Sr. Guerreiro: […] Tem toda a questão do “ninho” também. Agora, não sei o que o senhor considera mais necessário tratar. Mesmo porque há duas semanas que o senhor não faz nenhum gênero de reunião, e nós não temos uma notícia de como está o andamento de todo processo. Não só extrínseco, mas na alma do senhor, o que é que aconteceu nessas duas semanas, frutos dos acontecimentos externos, mas sobretudo fruto de sua vida interior, etc.)
(Sr. Gonzalo: Sabemos que o senhor está muito empenhado e trabalhando na questão da Reforma Agrária, Reforma Urbana, CEE, etc. […])
(Sr. Guerreiro: […] Nós, por insuficiência de sensibilidade e de amor de Deus, não temos a noção bem acurada por onde entrar, por onde o senhor gostaria de tratar um assunto que preenchesse essas duas semanas de…)
Eu trato de bom grado. Eu vou começar com os assuntos assim mais palpáveis, e depois passo para os que são menos palpáveis, me parece melhor.
* Dentro dos assuntos palpáveis, está sendo preparada uma grande campanha para evitar um haraquiri do Brasil
Assuntos palpáveis, são os trabalhos que estão sendo feitos. Quer dizer, está sendo preparado uma grande campanha… Agora, o problema ainda precisa ser tratado com o Plinio Xavier e o nosso coronel aqui, etc., onde é que está o dinheiro para a campanha. Porque está bom, é bonito fazer uma campanha, onde é que está o dinheiro para a campanha?
Mas se não houver dinheiro para essa campanha, eu tenho impressão que é um haraquiri do Brasil. E nós temos obrigação de evitar esse haraquiri até onde nos for possível evitá-lo.
A lei da Reforma Agrária, é propriamente uma regulamentação do dispositivo constitucional sobre o Reforma Agrária. É uma coisa enorme, e nós poderíamos perfeitamente entendermos com o Fernando, e quando o último toque estiver dado no negócio — está praticamente dado — trazer aqui para vocês verem. Por exemplo, se poderia fazer uma distribuição de exemplares para vocês tomarem conhecimento e depois de vocês terem lido, para evitar de estarmos lendo juntos, numa lenga-lenga que não acaba mais, então poderíamos fazer até, eventualmente, se der tempo para isso, etc., uma reunião extra em que poderíamos tratar da questão da Reforma Agrária e da Reforma Urbana.
* Um aspecto tirânico da lei da Reforma Agrária que está para ser aprovada
A Reforma Urbana é muito mais terrível do que a Reforma Agrária. A Reforma Agrária, eu dou um dispositivo do qual eu me lembro, e já dá a vocês idéia de todo o resto, do espírito tirânico dessa regulamentação da Reforma Agrária.
Eles dividem as propriedades em grandes, médias e pequenas de modo arbitrário. Eles nem especificam, nem dão uma definição do que é uma propriedade grande, média ou pequena, eles dizem assim: “a grande, a média e a pequena, […inaudível].”
Enfim, na pequena propriedade, há uma disposição seguinte: todos os filhos do casal, do dono daquela terra, devem também trabalhar na terra. Se um filho sair da terra para trabalhar noutro lugar, a terra se torna desapropriável pelo Estado. De maneira que um filho, vamos dizer, é mais inteligente, sente desejo de um estudo mais alto, qualquer coisa assim, vamos dizer que ele sinta muita propensão para estudar pintura e queira vir cursar um curso de pintura, etc., ficar pintor. Ele não pode fazer isto sem deixar de residir na fazenda, na terrazinha do pai dele. E então, automaticamente a fazenda fica desapropriada. E desapropriada por um preço zero. Com o pagamento ainda feito durante dez anos e com juros insignificantes, etc., etc. Quer dizer, a família vai água abaixo.
Então, porque um sai, a família vai água abaixo. Se você quiser é uma espécie de servo da gleba. Mas com a agravante seguinte: não marcam a idade até onde o rapaz ou a moça tem que ficar trabalhando na terra do pai, é para a vida inteira. De maneira que se a pessoa tiver um impulso para um outro ramo de atividade, qualquer coisa, não pode exercer essa atividade e está acabado. Não tem conversa. Vocês podem compreender facilmente o disparate que vai numa coisa dessa. Isso é uma das disposições legais.
* Exemplo de um dos disparates da Reforma Urbana
E na Reforma Urbana, os disparates são tantos que nem sei o que dizer. Um dos disparates é esse: venda ou compra de qualquer imóvel urbano, entendo imóvel edificado ou não edificado, o Estado tem preferência para a compra. De maneira que o Estado tem direito a ficar duvidando se compra ou não compra durante não sei quanto tempo. E se o Estado não aprontar para a hora, você perde seu comprador e não acontece nada com o Estado.
Então, você para não perder o comprador, é obrigado a oferecer ao funcionário que está tratando da questão, uma grossa quantia por detrás, para ver se desta maneira você não perde tudo. Isso para dar vocês uma idéia.
De outro lado, você está vendo bem quanta vingança, quanta pressão política, quanta coisa desse gênero que se pode exercer atrás de um dispositivo desse. O sujeito quer vender uma coisa, a Erundina não gosta desse homem, e manda então fazer um negócio de preços desagradável… sei lá quanta coisa. É quase inimaginável o que daí decorre. Uma cidade do tamanho de São Paulo, com 15 milhões de habitantes, onde não há uma polegada que possa ser comprada ou vendida sem ter que ser avisado o Estado, e o Estado tem um prazo confortável para dizer se quer ficar com aquilo ou não quer. Isso é comunismo!
(Sr. Gonzalo: E depois dizem que o comunismo acabou.)
Pois é! Comunismo acabou! Isso é comunismo e está acabado.
* O que está sendo preparado pela TFP contra as Reformas Urbana e Agrária
Então nós estamos pensando em fazer uma espécie de coisas assim de duas folhas, mas constituindo uma só folha de papel dividido em dois. De um lado vem as críticas à Reforma Agrária, de outro lado críticas à Reforma Urbana e em cima, tomando toda a extensão das duas folhas, de maneira que aberta a gente tem um só texto unido, vem então uma coisa mostrando o caráter comunista dessa história. Sem falar diretamente em comunismo, porque do contrário já vem história também de perseguição: “você está injuriando o poder público, etc., etc. Não pode também! Não é que não tenha liberdade de expressão, você pode dizer o que quiser contanto que diga o que o prefeito quer.”
Então jeitosamente acabando por dizer qual é a situação. E fazer essa distribuição pelo interior todo, mas sensível que cidade. Fazer essa distribuição por largas unidades do Grupo, não todas, mas largas unidades do Grupo participando dessa distribuição, e assim ver o que é que se pode fazer. Não tem mais nada para dizer. Isso é de um lado.
* A questão de Maastricht é a coisa mais estúpida, mais maluca, mais anárquica, e mais inimaginável que se possa imaginar
De outro lado, tem a questão de Maastricht que, aliás, o Jean me informou o seguinte: que curiosamente, o marechal de Montesquiou [d’Armagnac], que foi o D’Artagnan, o verdadeiro nome do D’Artagnan era esse, foi morto diante de Maastricht, no cerco de Maastricht.
(Sr. Gonzalo: Toma um pouco mais de colorido.)
É, um pouco mais de colorido.
Essa coisa é a mais estúpida, a mais maluca, a mais anárquica, a mais inimaginável que a gente possa imaginar. Basta lhe dizer o seguinte: que o texto da Reforma Agrária, como o texto da Reforma Urbana, são menos doido do que esse texto de Maastricht. E agora a França vai fazer um plebiscito para saber se quer ou não quer o Maastricht. E existe sempre a possibilidade de opinar pelo Maastricht, mas se não opinar, numerosos comentadores de imprensa fazem ver, ou dizem, ou afirmam, ou solta o bergantim no ar, de que se na França o plebiscito não der a favor, estoura a Europa. Por que essa ameaça? Qual é o fundamento dessa ameaça? Não dão, eles dão como uma coisa evidente. Mas essa coisa evidente tem uma certa importância, parecendo que eles têm meios para lançar a Europa numa espécie de conflagração, numa coisa dessa, em que vai tudo pelos ares.
Agora, se vocês tomarem esses três dispositivos, muito desiguais, pela desigual importância da federação européia e do Brasil, mas todos três danosos no mais alto grau, vocês têm um passo colossal para a comunistização do mundo, etc., etc., e nem precisa entrar em pormenores com vocês.
Mas isso é um lado da coisa. A coisa tem outro lado. O Casté mandou um grafonema que eu pretendo… Aliás, pretendo fazer isso com os três documentos, com os dois da reforma e depois o de Maastricht também, e pretendo fazer com o documento do Casté. Formam quatro documentos. É se esse resfriado eterno, permitir que eu saia durante a noite essa semana, eu fazer três ou quatro reuniões quotidianas consecutivas para aproveitar a presença aqui dos não-brasileiros, porque daqui a pouco estão viajando para outros lugares, e eu dou importância em que eles possam retornar aos respectivos países com o calor de quem viu a exposição e depois de quem leva naturalmente a papelada para mostrar lá, etc., etc., e recomendação formal minha de fazer ouvir a fita no lugar, no próprio país, etc., etc. De maneira que se possa ter uma larga distribuição dessa situação.
Aí entraria também a questão do Casté. Quer dizer, formariam quatro reuniões.
* Realiza-se em Madrid uma reunião de altos homens de negócio da Europa inteira, para fazer uma prospecção da situação do futuro econômico da Europa
Sobre a questão do Casté, eu digo o seguinte: há em Madrid uma praça com uma espécie de jardim grande, etc., eu não me lembro como se chama essa praça. Está ali o hotel Ritz que é o melhor de Madrid e onde eu estive hospedado. Mas há, a uma pequena distância, um outro hotel muito bom também, de muito boa categoria, etc. Vou lhe dizer mais, ele, debaixo de certo ponto de vista é mais interessante de ser visto que o hotel Ritz. Por exemplo, na Espanha fabricam tapetes muito bons, e tem um tapete espanhol imenso que enche uma sala colossal, lá e que é muito haut en couler, é muito interessante.
E o Casté, não sei a troco do quê, foi parar nesse hotel, e ele tem uma dessas entradas de jornalista para poder ver as coisas que se passam, etc., entrou e encontrou o seguinte:
Uma reunião de altos homens de negócio da Europa inteira, que se reuniam ali para fazer uma prospecção da situação, do futuro econômico da Europa, uma vez que se faça o Maastricht. Quer dizer, se aprovem em plebiscito Maastricht. A gente vê que eles estão com pressa na execução e que assim que esse plebiscito se realize favorável a eles, que eles já querem começar a executar.
* Fazer da América do Sul um prolongamento do todo econômico europeu
Agora, o problema que está exposto pelo Casté, é mais ou menos esse: a Europa considera que ela tem as suas terras, etc., aproveitáveis [já] aproveitadas, e que dali grosso modo se tira o que é possível tirar. Mas que eles acham que a capacidade de operação e de propulsão econômica da Europa, pode ser estendida muito mais longe, ocasionando o refluxo para a Europa de recursos de primeira ordem de caráter financeiro e que isso poderia se realizar fazendo da América do Sul um prolongamento do todo econômico europeu.
Isso teria um fundamento de caráter afetivo, um pouco ideológico talvez, religioso, etc., no fato de que a Espanha e Portugal estão na Europa, e que são uma espécie de cabo da Europa estendido pelos mares a dentro. E que tem muita influência, possibilidade de influenciar, etc., as nações a que eles deram origem na América do Sul. E que essas nações têm possibilidade de desenvolvimento financeiro incalculável e eles acentuam muito a esse respeito, as possibilidades do Brasil. O Brasil tem, taratatatá, tudo mais que o vocês sabem. Eles omitem a superioridade esmagadora, de que eu só ouvi falar outro dia, da qualidade das terras argentinas sobre as terras brasileiras. Eu não sei se foi aqui que se falou disso, ou se se falou em qualquer outro lugar.
(Dr. Edwaldo: Foi D. Bertrand que deu esses dados.)
Foi D. Bertrand que falou. Mas disse que as terras da Argentina, o tal Pampa da Argentina, tem três vezes mais capacidade de produção do que a terra brasileira, e que tem riquezas incalculáveis, tatatatá. Mas eles parecem esquecerem disso e olharem só para o Brasil e assestarem os holofotes deles em cima do Brasil.
* Segundo estes altos homens de negócios reunidos em Madrid, a situação do Brasil, em profundidade não é má, pois o Brasil tem a 6ª economia do mundo
Que o Brasil está numa crise política, mas que era preciso não exagerar o alcance dessa crise, que a crise era superável ao todo, e que de outro lado também a situação econômica brasileira não era boa, mas que em profundidade ela não é má, que o Brasil tem a 6ª economia do mundo, uma coisa assim, e que os recursos aqui são muito aproveitáveis, etc.
Não está dito, mas está dado a entender que colocando gente mais capaz, gostando mais de trabalhar, e com uma direção mais deutsch, que isso aqui produz outra coisa.
Você não alcançou isso — ao menos creio — por questão de idade, mas depois da segunda Guerra Mundial — isso foi oficial — os japoneses organizaram umas frotas para pescariam no litoral brasileiro…
(Sr. Guerreiro: Eu peguei isso.)
Você pegou?
(Sr. Guerreiro: Peguei sim.)
Bem, o que pescavam era uma coisa fantástica. Naturalmente, eles vendiam alguma coisa para esses dispépticos aqui, mas o grosso era para o Japão bem amado. Bem, o governo mandou parar. Por que parar? Podia dar muito dinheiro isso, os japoneses pagavam o que pescavam. Mas parar porque diz que quando o Brasil estivesse em condições então haveria de pescar aí, e não seriam os japoneses. Essas condições nunca vieram, nem ninguém mais pensou nisso, isso ficou no ar. Enfim, os senhores conhecem, a coisa é espantosa simplesmente.
* Fazer uma economia euro-sul-americana que deixasse de lado os Estados Unidos
Então, essas coisas diziam que se tratava de fazer uma economia, portanto, euro-sul-americana, que deixasse de lado, desse todo econômico, os Estados Unidos, que eles tinham queixas, essas e aquelas com os Estados Unidos, que aliás achavam que a economia norte-americana estava debilitada por estes e aqueles fatores, etc.: dívida interna, sei lá o quê, e que portanto eles não queriam mexer nos Estados Unidos. Os Estados Unidos continuassem a vida deles para frente. A Europa haveria de dar impulso ao Brasil prioritariamente, mas não cronologicamente, porque uma quantia menor do que a destinada ao Brasil, seria destinada aos hispanos, para já os hispanos começarem também a se preparar e produzir. Porque tudo tem que produzir.
Agora, dizia o Casté que o luxo desta reunião é extraordinário. Cocktails, automóveis esplêndidos que chegavam, desciam magnatas dos negócios, entravam lá… nas salas em que se combinavam as coisas, etc., etc., e depois refeições, não sei mais o quê. Enfim, um luxo enorme.
Isso não espanta, qualquer hotel grande, se lhe pagarem fornecem tudo quanto pedirem, porque para o hotel é… Esses eram magnatas, pediam e estava o negócio liqüidado.
Mas o Casté então abordou vários desses potentados. E realmente a esperança deles é de fazer da América do Sul uma Canaã.
* Uma contradição das mais chocantes: Reforma Agrária, Reforma Urbana, ECO 2D92, miserabilismo total; e em oposição a esse miserabilismo total, uma política que visa fazer uma Bagarre Azul
Agora, vocês têm uma contradição, portanto, a mais chocante possível.
(Sr. Gonzalo: Reforma Agrária, Reforma Urbana.)
Reforma Agrária, Reforma Urbana, mas mais, meu filho, ECO 2D92, miserabilismo total, e em oposição a esse miserabilismo total, uma política com os países de cá parecida com a política que eles já fizeram com a Península Ibérica. Despejar dinheiro sobre a Península Ibérica à vontade e fazer uma Bagarre Azul, etc., etc., o que fez em Portugal, Espanha. Todo o mundo está vendo isso. Quem vai a Portugal por exemplo, diz que o que está entrando de dinheiro lá é incalculável.
Mas então para onde é que nós vamos? Quer dizer, qual desses planos é sério? Não é possível ter ouvido a ECO-92 sem chegar à conclusão de que essa ECO corresponde a uma intenção deles. Mas como é que então se concilia isso com este plano europeu? Por outro lado, nessa semana aconteceu que a ONU mandou fazer um pedido oficial às nações européias para que dessem acolhida a dois milhões de croatas ou de qualquer coisa dessas, sérvios, etc., etc., porque as guerras lá continuam e que o pessoal tem que sair. E que aliás, tomassem em linha de conta que essa elasticidade da política européia em matéria de receber gente de fora, teria que continuar porque em última análise o pessoal dos países da antiga URSS também acabaria querendo ir para a Europa.
Então, vocês têm o seguinte: uma série de planos contraditórios entre si, que são lançados com todos os sinais da verossimilhança e que juntos parece que não podem ser executados. Mas que recebem um começo de execução muito sério. E ao mesmo tempo faz parte desse plano, o velho plano das invasões, como vocês estão vendo.
* O que se pode achar de toda a situação atual é a ostentação mais cínica possível do caos
(Sr. Gonzalo: O que o senhor acha disso?)
Para ser muito cauto, o que se pode achar disso, é a ostentação mais cínica possível do caos. Porque há isso: de qualquer maneira não se pode negar que essas coisas estão publicadas, e que publicadas, elas têm um efeito, este efeito não pode deixar de ser o caos. Diretamente. É claro que não é só esse efeitos, há outros efeitos, mas o efeito imediato, direto, etc., etc., é o caos.
Agora, como é que fica esse caos? Como é que fica essa bagunça?
Quer dizer, isto é de tal maneira o caos multiplicado pelo caos, é tão mais caos do que o simples ECO-92, do que a exposição que nós fizemos a respeito das invasões, que até dá pena da pobreza como caos, daquilo que naquela época foi publicado.
(Sr. Gonzalo: Os elementos o senhor tinha…)
Tinha, é fora de dúvida.
E depois eu acho que não está certo que isso não vai ser feito, isso tudo vai ser feito à la caos — parece pelo menos — para dar num caos não sei de que tamanho. E acabou. Ponto final!
* O que fica mais claro do que tudo, é o desígnio de criar uma situação na qual ninguém entenda nada
(Sr. Paulo Henrique: Na política internacional tem a questão do Iraque.)
Também aquela história.
Você viu uma coisa mais maluca do que aquela?
(Sr. Gonzalo: Mas o senhor sempre disse isso.)
Foi!
(Sr. Gonzalo: Que a guerra não tinha acabado e que tinha brasas acesas aí dentro.)
E a gente vê que tem. Mas a questão é a seguinte: é que entre uma coisa e outra, a gente até esquece, porque é tanta bagunça que…
(Sr. Gonzalo: JPII também.)
JPII também! O que achar daquilo?
(Sr. Gonzalo: São aspectos da Terra muito grandes que estão abalando, não são pedacinhos não.)
Muito, muito!
Bem, mas o que fica, parece, mais claro do que tudo, é o desígnio de criar uma situação na qual ninguém entenda nada.
Agora, por onde é que depois esse caos caminha? Eu não sei, mas de imediato não se pode tirar de certo a não ser isto. E isto é uma coisa enorme!
Isso seria o que eu…
(Sr. Gonzalo: O senhor disse que ia dar os ponderáveis primeiro, e os imponderáveis?)
* O caso do Ex-Frei Boff
Bem, imponderáveis e menores. Por exemplo, um caso menor. Mas do frei Boff. Do ex-frei Boff. A primeira primeiríssima coisa: pode ser que a notícia tenha me escapado, mas eu não tenho memória de ter visto notícia regulando definitivamente o caso do frei Boff. Ele de fato foi reduzido ao estado laical? Se ele não o foi reduzido ao estado laical, ele continua a exercer o ofício de padre? E então ele pode reacender as brasas da “Teologia da Libertação” a qualquer momento? E o movimento eclesiástico e inter-católico bem considerável que estava em vias de se desenrolar, como é que fica agora, dentro dessa história? Também não se sabe. De maneira que amanhã pode ser que ele apareça rezando uma missa na escadaria do Largo da Sé. Por quê? Porque não foi exclaustrado, não foi reduzido ao estado laical, portanto, pode rezar missa. Sabe-se que o D. Arns tem um fraco por ele, além do mais D. Arns é franciscano, ele é franciscano também, foram colegas, de onde então xodós, e que D. Arns autorizou a celebrar uma missa comemorativa do “enésimo” aniversário da Revolução de outubro na Rússia, por exemplo. Pode ser perfeitamente.
Eu tenho certeza que não há nenhum de vocês que me diga o seguinte: “Nesta eu não acredito!” Se algum de vocês dissesse isso, seria tido pelos outros como uma pessoa que é imponderada. Isso de um lado.
* O silêncio da CNBB e o caso Collor
Agora, de outro lado, a CNBB parou completamente? O que é que há com a CNBB? Para onde é que ela ruma?
(Sr. Guerreiro: […inaudível])
Parou!
O caso Collor. Como vai o caso Collor?
Não sei se vocês viram o poder caotizante daquele episódio do Banco uruguaio. Em primeiro lugar todo o mundo sabe que há muito intercâmbio de relações comerciais e de toda ordem entre o Rio Grande do Sul e Uruguai. E que as fronteiras entre as duas unidades pesa assim… às vezes pesa muito, e às vezes é como uma folha de papel que sopra e não tem nenhuma importância. Nesse Banco, Brizola tem muitas relações. O que é a coisa mais normal do mundo é um grande político sul-riograndense ter muitas relações com Bancos do Uruguai. Isso é uma coisa assim.
Foram lá saber dessas negociações como foram, e o Banco uruguaio dá uma resposta: “Nós não vamos dizer nada porque existe sigilo bancário”. Corre a cortina e está acabado.
Mas eles não sabiam que há sigilo bancário no Uruguai? Será que por exemplo o Collor não sabe disso?
* A propósito do caso Collor, Amato declara com toda naturalidade: “no Brasil, todos nós somos corruptos!”
Isso deixa toda a comissão de inquérito no caos. Tanto mais que o Amato declarou: “Como, corrupção? Se o presidente da república é corrupto… todos nós somos corruptos!”
Mas você quer uma coisa que possa mais levar ao caos do que um homem, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo que declara com essa naturalidade: “Todos nós somos corruptos!”? Tanto mais acreditável, quanto todo o mundo sabe que são mesmo. Vocês não conhecem na população de São Paulo, um que diga: “Não, ali tem homens honestos!” Ninguém diz isto.
Bem, este estadiamento da corrupção, dessa maneira, tudo no seu conjunto não dá uma impressão de coisa sem remédio?
Apesar disto — aqui agora está o caos — tem-se a impressão de que toda esta desordem, no fundo, tem algo de superficial, e que tem uma certa possibilidade de se ir durando indefinidamente.
(Sr. Gonzalo: É assim mesmo.)
É tal e qual.
(Sr. Gonzalo: […inaudível])
Mais caótico ainda! Porque é um caos que nega seu próprio caos. Quer dizer, é uma coisa de louco.
* Há um projeto de lei em andamento, mandando abrir todas as casas de louco do Brasil
Um projeto de lei agora em andamento mandando abrir todas as casas de louco do Brasil. Só os loucos que agridem fisicamente as pessoas, é que devem ficar presos. Todos os outros devem ser postos em liberdade. Um louco que esteja solto numa casa, pode destruir a casa. Não destruir fisicamente, mas a vida de família. Porque se em todas as refeições que a família toma junto, ele toma parte na refeição, e diz coisas absurdas, e diz desaforos, etc., etc., o que fazer?
Depois o pessoal aqui é sentimental, e mandar embora o filho, não mandam, o resultado: a família se espalha ainda mais.
Fica colocada uma situação a respeito da qual eu tenho impressão que não vale a pena nem insistir, porque está tudo visto. Não sei o que é que há.
Não sei se algum de vocês quer dizer alguma coisa sobre essas situação?
* A TFP dentro desse quadro geral
(Sr. Gonzalo: E a TFP nisso?)
Bem, a TFP dentro disso. Eu tenho impressão de que um fator favorável dentro da TFP, sem nenhum desejo de ser amável, são as conferências que você está fazendo lá em J. Gora. Que pelo que me diz o Luizinho, estão muito bem acolhidas, o pessoal está gostando muito… (…)
… do Amparo de Nossa Senhora, me pareceu na minha rápida estadia que fiz lá, em franco progresso, muito bem dirigido, muito bem orientado. E alguma coisa do gênero me disse o coronel sobre o Japi. Também eu tive gosto de ver nessas últimas vindas de pessoas de outros Estados do Brasil para cá, eu tive gosto de ver que mais ou menos todos os Grupos do Brasil estão em desenvolvimento, com o recrutamento que vai andando bem, que a coisa está bem, etc. (…)
* São Pedro Julião Eymard sustenta, numa de suas obras, que o herdeiro do trono de David era São José
… mas é o seguinte: São Pedro Julião Eymard, Fundador dos Sacramentinos, numa obra dele, sustenta que o herdeiro do trono de David era São José, e que até estava no registro do nascimento de São José, estava registrado o nome dele com saliência porque era o herdeiro do trono. De maneira que Nossa Senhora era a Princesa herdeira do trono e Rainha de Israel. E Nosso Senhor Jesus Cristo que não era filho de São José na genealogia, o era entretanto legalmente pelo direito de São José ao Fruto das entranhas de Nossa Senhora. E que ele, portanto, era o herdeiro do trono de Israel.
Donde concluo eu — São Julião Eymard não dá provas desse fato, ele apenas diz isso — e diz que os registros contêm isso. Onde estão os registros? Não foram destruídos pelos romanos? Como é que é isso? Eu também não sei.
Mas ele é um espírito imensamente sério e que não haveria da afirmar isso como um tonto. Mas então quando Nosso Senhor Jesus Cristo entrou festivamente em Jerusalém, que eles proclamavam Osana ao Filho de David, eles estavam proclamando a realeza do herdeiro do trono.
O que explica o ódio daqueles fariseus e daquela cachorrada toda, que não queria a família de David no trono. É muito, muito interessante. Não tem relação próxima com o que nós estamos dizendo, mas é muito interessante e muito bonito.
* Necessidade de vítimas expiatórias
Agora, independente disso, eu tenho impressão de que o modo de nós vadiarmos esse buraco, é gente nossa se oferecer. Não tem outro remédio. Quer dizer, gente nossa dizer a Nossa Senhora: “para a fidelidade deles, levai-me!” (…)
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