Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
9/5/92 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 9/5/92 — Sábado
Quando se segue o caminho da fidelidade, a gente chega a um termo final e percebe que é um retorno ao que tinha no ponto inicial * Além das bolinhas de gude, o SDP comprou certa vez umas caixinhas de madeira imitando os baús do século XV com pedrarias, etc.: eram exercícios de “emerveillement” * A tendência a procurar sempre o mais perfeito era uma meditação essencialmente religiosa que era a matéria-prima de um anhelo do Reino de Maria * Uma visão das coisas que exige como condição prévia a pureza e o thau * No dia que eu conseguisse levar esse pensamento à toda sua explicitude, a terra se teria tornado o paraíso, o seminário do Céu, que deve ser * O contra-revolucionário, propriamente dito, é isso que eu acabo de dizer * Para ter a alma com as asas inteiramente “deployé” para esses vôos, é preciso a castidade do celibato perfeito, e melhor ainda, se for possível, a virgindade * Uma reunião que abre panoramas do que devemos ser, mas também um panorama de exame de consciência
(Sr. Guerreiro: [Resumo da reunião anterior] O senhor explicitou o que o senhor pretendia realizar na “Gruta do Cornélio”…)
Ah, estou me lembrando agora, estou me lembrando.
(Sr. Guerreiro: […] O senhor não gostaria de falar um pouco sobre toda essa matéria. […] Prosseguir nessa ordem de considerações e de como é que o senhor vê esse ponto de inserção do senhor em Deus, dessa relação de Nosso senhor e de Nossa Senhora com o senhor, esse profetismo que o senhor continuará desenvolvendo depois de implantado o Reino de Maria. […] Dado as graças da semana passada, o senhor nos permite a indiscrição de nossa parte…)
Não, estamos aqui para isso.
(Sr. Guerreiro: A pergunta: seria que questões o senhor teria sobre todo esse assunto, como é que o senhor vê de momento toda essa questão.)
Eu me dou conta agora durante sua pergunta, não tenho certeza que se tivesse isso claramente no espírito quando falamos no êremo de Amparo de Nossa Senhora, mas eu me dou conta o seguinte: que há uma expressão francesa que é muito ruim, é até fassura, mas que pode ser entendida num sentido bom se a gente quiser forçá-la e entender ao pé da letra. Ela não é feita para ser entendida ao pé da letra.
(Sr. Guerreiro: “Fazer flecha dessa madeira”.)
É isso.
* Quando se segue o caminho da fidelidade, a gente chega a um termo final e percebe que é um retorno ao que tinha no ponto inicial
E que é o seguinte: L’homme revient toujours à ses prémiers amour. É uma coisa que se citava muito no meu tempo de moço.
Bem, se se quiser dizer o seguinte, que quando se segue o caminho da fidelidade, a gente chega a um termo final e a gente percebe que é um retorno ao que tinha no ponto inicial, e que portanto, em vez dessa caminhada do homem na vida poder ser considerada apenas como uma reta que vai se perder no céu — aliás, nada vai se perder no céu, se dilui no céu — é alguma coisa que volta às primeiras cogitações, à primeira inocência, aos primeiros impulsos bons que a gente teve nos tempos áureos da inocência e aos quais a gente volta completando as perguntas e os anhelos da inocência inaugural.
Então, eu me lembro perfeitamente do período pré-colégio São Luís, portanto da inocência pré-conhecer a Revolução, e pre-qualquer ocupação com ela e que entretanto a Contra-Revolução estava sendo modelada pela graça na minha alma por fazer-me admirar uma porção de coisas que no fundo seriam o Reino de Maria com que eu sonhava.
Bem, então isso dá uma volta enorme! cheia de batalhas, de avenidas com becos sem-saída, etc.
* Na fase inicial o SDP tinha uma tendência de querer admirar, de querer respeitar, de querer maravilhar-se
Eu me dou conta de que nessa fase inicial eu queria certas coisas, todo élan de minha pessoa era voltado para certos pontos. Que pontos são? Nós vamos ver daqui a pouco. Mas é voltado para certos pontos, e que a trombada veio, e veio com essa violência em relação ao mundo da Revolução que eu encontrei no colégio São Luís porque esses pontos iniciais estavam muito firmemente postos na minha alma e chocando com toda velocidade com um mundo que vinha em sentido oposto. Mas se esses pontos iniciais não tivesse muito firmes, não teria havido trombada, simplesmente; como acontece com muitos outros casos, eu teria caído sobre os trilhos e o trem da Revolução teria passado sobe mim e está acabado, como acontece com milhões, e milhões de pessoas.
O que é que era esse ponto?
Era uma tendência, própria à graça, de querer admirar, de querer respeitar, de querer maravilhar-me que eu trazia dentro de mim, e que diante das várias coisas me fazia instintivamente formular essa pergunta, que é a pergunta do verdadeiro inocente:
“Aquilo é bonito, mas se aquilo fosse lindo, como é que seria? Tal pessoa me parece bem, mas se ela fosse um padrão perfeito daquele tipo de pessoa, como é que ela seria? Tal vitral, tal pinturinha feita na parede, de propaganda comercial, tal isto, tal… se fosse chegar até o seu último ponto de perfeição, qual seria?”
* O SDP se encantava com a madrepérola
Isso era a pergunta que continuamente se punha no meu espírito. Ela não se punha desde logo, ela se punha devagar. Vamos dizer, como aquele objeto de madrepérola que está ali, presente, aliás, do CBV…
Eu gostava muito de madrepérola. Naquele tempo era corrente botão de madrepérola, mas vendiam e punham no comércio, madrepérola muito boa, de maneira que era freqüente que esses botõezinhos de camisa fossem de madrepérolas. Aliás, eu creio que às vezes ainda são hoje.
(Sr. Guerreiro: É de plástico que imita a madrepérola.)
Mas a madrepérola daquele tempo tinha um inconveniente que se trincava paralelamente à camisa, assim… ela se trincava e tirava lasca. E se a Fräulein fosse um pouco preguiçosa e desse para gente uma camisa com um botão um pouco trincado, eu via outros reflexos da madrepérola que ela não tinha na superfície comum, em que era meio trabalhada aquela superfície comum, meio opaca, menos bonita do que a madrepérola rachada.
Reflexão: na sua essência essa madrepérola como tantas outras coisas que eu vejo por aí estão meio deformadas, mas a essência vale mais do que ela, e na sua essência ela é assim, assim, assim, ela é uma maravilha em relação à apresentação comercial, um pouco… eu não sei como é que manipulavam mas era menos bonita do que dentro.
Então, existe, portanto, um modo de ser bonito à maneira do interior da madrepérola, com cores chatoyantes assim mutáveis. E existe um modo de ser que não é um modo de ser fixo da beleza clássica, mas é um modo de ser de outras formas de beleza incontáveis que há, além da clássica, e que são assim chatoyantes, opalecentes, etc., e no mais fundo do mais fundo, existirá pelo mundo uma quantidade enorme de belezas assim, que essa gente que me rodeia e uma quantidade infinita de gente como eles, que constitui São Paulo — eu julgava São Paulo uma cidade grande, era uma Sãopaulinho de 200, 300 mil habitantes. Mas nasci ali… e cada um é chamado a achar grande a aldeia em que nasceu. E eu achava São Paulo grande.
Então, “nessa São Paulo enorme, existem gentes como minha família em quantidade, porque eu ando pelas ruas e vejo o número enorme de casas mais ou menos como a deles. E vejo sair dessas casas e entrar dentro dessas casas, gente que tem a mesma mentalidade, o mesmo gosto, o mesmo modo de ser que a deles; e uma parte deles vem aqui em casa fazer visitas, e vejo que o pessoal meu vai visitar aquele pessoal. É um mundo! Ora, esse mundo não fixa a sua atenção nessas maneiras fugidias da beleza, nem conversam sobre isto. Por que é que é? Por que eles não prestam atenção? Qual é a reação?
* Qual seria a reação das pessoas se o SDP fosse querer conversar sobre as belezas da madrepérola
Se eu aparecer com esse botão quebrado no — não era propriamente living, mas era à maneira de living que havia lá — se eu aparecer com esse botão quebrado e quiser conversar com eles sobre isso, eles vão dar um risinho condescendente, como diante de um menino bobo, vão dizer que é linda e depois vão continuar conversar coisas nas quais eu não acho graça nenhuma. Então, eu me distancio sem beligerância, sem hostilidade, mas com um fundo de decepção e de gelo, e vou prestar atenção noutra coisa, noutra coisa, noutra coisa, mas ou menos indefinidamente”.
* Desde a infância o SDP tinha horror a uma atitude que pudesse ser desequilibrada
Por exemplo, havia uma casa… As papelarias antigas vocês não conheceram, mas as papelarias antigas importavam muito artigo de luxo da Europa, tipo assim de agendas, bloquinhos de notas, e não sei o quê, mas tudo com tranche dorée, com lapiseira de metal fingindo ouro, enfim, a encadernação de couro com uma aplicação de metal em cima, uma porção de coisas assim, que eu quando arranjava um dinheiro, antes de começar a mania dos soldadinhos de chumbo, eu comprava coisas dessas. Mas comprava não com intenção de usar, mas de ter. Mas eu tinha medo que houvesse um certo desequilíbrio dentro disso, porque todas as pessoas tidas e havidas como equilibradas não faziam isso, então eu também não comprava isso só para ter, porque eu não queria soltar à brida essa tendência, porque de repente me levava à uma posição pouco equilibrada, e eu tinha horror desta atração do vazio, do desequilíbrio, da monomania. Me parecia isto a boca do inferno, eu não queria ter. E aliás, eu tinha razão.
* As bolinhas de gude que o SDP comprava não tanto para jogar mas para ter como padrão de uma certa beleza que aquilo dava ao espírito
Então, eu era homem por exemplo, de comprar isto, mais bolinhas dessas bolas de gude que eu comprava não para jogar — eu jogava um pouco daquilo, mas não interessava muito — mas era para ter a bolinha como padrão de uma certa beleza que aquilo me dava no espírito.
Ao lado da bolinha, eu poderia comprar — eu me lembro que uma vez vi isto numa casa da rua Líbero Badaró, a casa até não era muito grande — umas duas ou três caixas que para a minha idade pareciam caixas enormes, em que havia um mundo de caixinhas de madeira… Toma aquela caixinha com aquelas fábulas de La Fontaine ali, aquela dourada, mais ou menos daquele gênero. Aliás, isto está colocado lá e devia estar aqui, não sei por que… Ah, puseram para lá por causa do gravador.
* Além das bolinhas de gude, o SDP comprou certa vez umas caixinhas de madeira imitando os baús do século XV com pedrarias, etc.: eram exercícios de “emerveillement”
Bem, daquele tamanho mais ou menos, mas de madeira, e todas pintadas e de formas diferentes, representando esses baús que usavam no século XV antes de aparecer o armário perpendicular, e que eram muito bonitos, com pedrarias, com não si mais o quê, etc., etc., sobretudo no norte da Itália, na Lombardia. [Vêneto] e a Lombardia, eram riquíssimos e tinham coisas dessas belíssimas, e essas caixinhas de madeira imitavam isso e eram muito baratinhas. Eu eu comprava cinco, dez caixinhas de madeira dessas e levava para casa.
Eu me lembro que uma vez eu escolhi umas caixas dessas equilibrei nos meus bolsos de colegial — já usava aquelas roupas de bolso colegial, mas ainda não era colegial — equilibrei aquilo no meu bolso de colegial o tanto quanto pude para não esmagar demais os meus vizinhos de bonde, e fui para casa. E chegando em casa: “O que é que você traz no bolso?”
Eu, bobo, disse: “são umas caixinhas lindas que eu comprei, olhe que beleza!”
— Ah, engraçadinha!…
Quer dizer, cretino, cale a boca, você não devia estar gastando dinheiro com isso… Se fosse fotografia de uma fassura, diriam: “que menino precoce, que notável! Mas essas caixinhas o quê, o que fazer dessas caixinhas?”
Assim eu guardava um mundo de brica-braque, mas que eram exercícios de emerveillement. Eu não sabia que era isso, eu fazia. Hoje em dia, é que voltando-me para esse ponto, eu realizo que era o que eu fazia. Mas eu fazia mais ou menos com tudo.
* Um porta-cartas de um tio avô que tinha uma fotografia do Bois de Boulogne com alguns jovens em trajes de montaria de antes da I Guerra
Eu me lembro, por exemplo, que nos guardados de um tio avô meu que morreu sem descendência — também gastou os últimos tostões de uma boa fortuna, para os últimos dias da vida dele, quando acabou o dinheiro, acabou a vida, e ele foi prestar contas a Deus — encontraram pelo meio, um negócio assim, um porta-cartas para colocar sobre a mesa, feito de uma matéria industrial qualquer, preta, e muito luzidia, e 4 pezinhos dourados que separavam essa plataforma preta, do chão da mesa. E depois, em cima, havia 4 divisões douradas, ou três, ou duas, uma coisa assim, e depois bem na frente uma fotografia, mas não projetada sobre o papel, mas sobre uma forma qualquer de… não sei de que matéria. Não era esmalte, mas visava dar uma certa idéia de esmalte. E era o Bois de Boulogne na hora de um trânsito apenas mediano, com aquela vegetação muito delicada que o Bois de Boulogne tem na primavera e três ou quatro rapazes e moças, em trajes de montaria de antes da primeira Guerra Mundial. Então com aquelas coisas vermelhas, paletós vermelhos, para os homens calças vermelhas e botas. Para as mulheres, vestidos vermelhos mas chegando até o tornozelo a saia, e sentada a cavalo como andavam as mulheres naquele tempo e não como andaram depois.
Eles e elas com uns chapeuzinhos pretos. De maneira que o jogo todo era vermelho e preto. E os cavalos, a fotografia bem apanhada, andando com uma certa ligeireza no Bois de Boulogne. E eu pensava…
Vocês conhecem o jardim da Luz aqui em São Paulo?…
Eu era obrigado, todos os dias, a ir ao jardim da Luz porque fazia muito bem aquele ar para as crianças, não sei mais o quê. E muitos conhecidos meus de infância, eram do tempo do jardim da Luz. E encontrávamos lá e brincávamos como a criança brinca.
Mas eu vi aquilo e pensei… Eu vi aquele porta-cartas do meu tio e pensei: isto é vida, o jardim da Luz o que é que é? É apresentado em São Paulo como uma beleza, essa gente aí pensa isso. Mas isso não é beleza!
(…)
Então certas coisas mais ou menos desse gênero.
* Quando cai uma república se exalam cheiros de sujeira; quando cai um império, sobe uma poeira dourada
Os impérios centrais tinham caído…
Quando cai uma república se exalam cheiros de sujeira; quando cai um império, sobe uma poeira dourada. E o império austríaco, dos meus amores, tinha caído, mas eu tinha aquela loucura por aquilo que eu descrevi. E lendo os jornais, que eu comecei a ler exatamente quando o imperador Carlos e a imperatriz Zita voaram de avião sobre a Áustria procedentes da Suíça para irem para a Hungria, aí eu comecei a ler e me interessar pela política.
* A visita do Príncipe Adalberto da Áustria a São Paulo e a recepção em casa de Da. Olivia Penteado
Bem, vejo nos jornais — estava à procura de notícias de minha bem amada Áustria — vejo notícia que chegou a São Paulo o arquiduque Adalberto ou Alberto da Áustria. Que ele vinha aqui com um resto de dinheiro para passear, ou vinha fazer negócio… não sei o que ele vinha fazer aqui. E que dona Olívia Guedes Penteado, uma das senhoras mais dramáticas, mas bonitas, mais elegantes e mais fassuras de São Paulo, bem entendido, da alta sociedade; filhas, ela e a irmã dela, filha do barão de Pirapitingui. Na França seria Barão de Saint-Brieuc, de La Roche sur Lyon… E aqui é Pirapitingui.
Então, contavam todos os de minha gente que foi à recepção que a dona Oliva ofereceu ao arquiduque Adalberto. Então contavam numa coisa republicana que a dona Olivia aprendeu a fazer reverência para fazê-la ao arquiduque Adalberto, porque a família imperial estava exilada e não tinha voltado e não havia príncipes aqui e ninguém aprendia reverências. Mas que a dona Olivia arranjou uma senhora da nobreza empobrecida, da Europa, para ensinar reverência. E que fez uma reverência mas que quase caiu no chão, porque fez uma reverência muito funda e ela tinha um… usava-se naquele tempo uma espécie de diadema de tartaruga com incrustações de pedras preciosas ou não preciosas, e uma pluma branca. E que ela foi fazer reverência, a pluma perdeu o plumo, enfim, quase dona Olivia foi para o chão.
(Sr. Gonzalo: Dona Olívia era de que idade? De dona Gabriela?)
Não, não, ficava entre vovó e mamãe como idade.
Mas eu não podia ir a essa festa porque era um sub-menino. Minha vontade era de ir à festa de dona Olívia — eu ponho a coisa bem como é — porque eu queria ver a dona Olívia fazer a reverência para o arquiduque Alberto, eu queria ver o arquiduque Adalberto, e queria ver a música — naquele tempo era orquestra, não tinha aparelho de som — e como eu sabia que se comia muito bem em casa dela, eu queria comer. A gastronomia nunca se separou dos meus sonhos de ideal.
Bom, mas não pude realizar nada, nem do lado de fora. Eu podia ao menos ficar do lado de fora para ver os convidados entrarem, mas [frase em alemão]: “expressamente proibido” porque é birichino gente fina ficar olhando pessoas entrarem nas casas dos outros, faz papel de “pé-rapado”, você não é “pé-rapado” não pode ir lá e não vai. Não tem idade para essas coisas, não se meta onde não foi chamado.
(Sr. Guerreiro: Que idade o senhor tinha?)
Oito anos, nove anos uma coisa assim.
Mas eu então imaginava…
* Se eu conhecesse o arquiduque Adalberto e ele correspondesse ao que se pode imaginar de um arquiduque, eu imaginaria um outro ainda mais na linha ideal do que deve ser o arquiduque
Se eu conhecesse o arquiduque Adalberto e ele correspondesse ao que se pode imaginar de um arquiduque Adalberto, eu imaginaria um outro arquiduque Adalberto ainda mais na linha ideal do que deve ser o arquiduque. E assim ficava o tempo inteiro, vejam bem, não fantasiando, imaginando-me como uma pessoa que faz parte daquela cena, não me incluindo na cena, um espectador, e portanto não era o sonho vulgar de olhos abertos que seria eu ser o arquiduque Adalberto e que papel faria. Não, era outra coisa.
* A tendência a procurar sempre o mais perfeito era uma meditação essencialmente religiosa que era a matéria-prima de um anhelo do Reino de Maria
E esta tendência levaria por si, se eu tivesse maturidade e inteligência — não tinha, eu era menino — mas levaria a uma pergunta: “há então uma ordem de coisas que tem uma beleza absoluta, perfeita e imutável. Esta ordem de coisas encheria a minha alma e para isto eu fui feito, e isto eu quero conhecer. Mas não quero só conhecer, quer dizer, entrar lá dentro para ver, mas eu quero compreender por que isto é assim. Há uma razão — eu não sabia dizer a palavra metafísica — mas há uma razão metafísica pela qual isto é assim. E eu quereria era chegar até esse conhecimento, porque eu sinto que isto me transformaria, e faria de mim o Plinio que eu devo ser.
Eu não sabia que isto era uma meditação religiosa, mas isso aí é uma meditação essencialmente religiosa. E que me levava então a toda uma idéia assim, que é no fundo a matéria-prima de um anhelo do Reino de Maria.
Eu estou sendo inteligível?
* Toda beleza, toda grandeza só se realiza inteiramente quando se realiza numa pessoa
Bem, e é bem evidente que aí estava o meu thau — é até curioso — mas se eu tivesse encontrado um padre que me explicasse que isto é Deus, que este é Deus, que isto que eu podia imaginar como panorama, de fato existia de modo pessoal, absoluto, perfeito imutável em Deus Nosso Senhor, que o que eu estava imaginando eram uns reflexos requintados de uma beleza eterna, e sobretudo pessoal. Que toda beleza, toda grandeza só se realiza inteiramente quando se realiza numa pessoa. Porque isto, restos, um bonito Bois de Boulogne, sei lá…
Uma coisa que me encantava, aparecia naquele tempo muitas fotografias, etc., etc., da Suíça, então panoramas, por exemplo, culminâncias de montanhas na aurora, então róseas, e lagos com um azul prodigioso, em certo lugar uma capelinha, e essas coisas todas assim, que tudo isso não é nada, mas que há um Ser que Ele é isso, Ele não tem isto, mas Ele é isto… Mas até lá eu não chegava. Porque no catecismo não diziam isso, também não disseram no catecismo de vocês.
(Sr. Gonzalo: Se dissessem iam matar isso.)
É, podiam de descrever de tal jeito que….
* Eu eu sentia que quando estava trabalhado por considerações desse gênero, indo à igreja do Sagrado Coração de Jesus para rezar, sentia muito mais minha afinidade com tudo
Mas o fato é que eu não sabendo isto, eu não associava isto à religião, mas eu sentia que quando eu estava inteiramente trabalhado por considerações desse gênero, eu indo à igreja do Sagrado Coração de Jesus para rezar, sentia muito mais minha afinidade com tudo, tanto quanto mais eu estivesse nessa linha. O que é muito direito, está perfeitamente certo.
Eu datilografava um pouco de piano naquele tempo, e eu ouvia uma musiquinha que eu tocava. Algumas tinham assim, uns sons que iam nesta linha, eu gostava muito de tocar aquilo para ouvir aquele som. E assim outras coisas de outro gênero, etc., mas com uma peculiaridade singular: é que eu nunca sentia — vocês vão estranhar um pouco o que eu vou dizer, mas essas coisas ou são muito sinceras até com o que tem de esquisito, ou não são nada — eu nunca sentia que eu apanhava tão bem essa espécie de mistério que eu queria alcançar nas coisas, mas eram mistérios de sublimidades, não era mistério de cores escuras, eram mistérios de luz que eu queria alcançar, do que comendo. Não é pelo mero gosto de comer, eu tinha o gosto do comer, e do comer bastante, eu era guloso, propriamente, mas certos alimentos me viam conjugados com impressões dessas, e eu tinha uma sensação de que essas impressões, eu só as apreendia inteiramente comendo coisas que fossem nesse sentido.
(Sr. Gonzalo: E como que, por exemplo.)
* A impressão que tinha o SDP ao comer “poire duchesse”
Você precisa ver que eu estava num mundo que ainda não era protegido por leis aduaneiras, de maneira que as coisas se importavam na Europa em quantidade, e de vez em quando aparecia na mesa de casa poire duchesse. Umas pêras de um verde claro delicado, mas com umas zonas um pouco mais avermelhadas, quando a gente metia a faca na poire duchesse era preciso meter com cuidado porque já vinha saindo suco de tão líquida que ela era; saborosa e deliciosa. E quando eu comia aquilo, eu tinha a dupla impressão de uma delicadeza ducal, de um rafinement ducal, mas ao mesmo tempo de uma abundância de suco em que quase não era preciso mastigar para comer, como que dando a entender que havia uma certa clave na qual os problemas da vida não exigiam esforços, e que era só engolir. Então poire duchesse, eu nem sei dizer a você…
* A riqueza de sabores da manga, o perfume da manga, faz da manga uma feeria do paladar
Apesar de meu gosto pela Europa, eu não tardei em colocar muito alto na minha escala gastronômica, mangas. Que são realmente frutas épatantes, não tem o rafinement da poire duchesse, não tem dúvida. Tem algumas mangas que tem alguma coisa que se aproxima disto, mas a riqueza de sabores da manga, o perfume da manga, homem!, eu não sei o que da manga, faz da manga uma feeria do paladar que a meu ver a poire duchesse não tinha, elas se igualavam por outros lados, mas por aí não. Então mangas… maravilhas! Assim uma coisa ou outra.
Mas também pão preto com salsicha e mostarda, e isso, e aquilo, e aquilo outro. E caviar preto — não era o caviar ótimo que se come hoje, era um caviar menos bom, mas era o melhor que se conhecia — chamado Romanov, que se comprava até em confeitarias ordinárias de bairro, e eram caras, mas eu arranjava um dinheiro, e ia lá na confeitaria comprava, e à noite para não ter que dividir com ninguém, eu antes de me deitar abria a lata de caviar Romanov, pingava uma gotas de limão que era de rigor para o negócio, e passava sobre fatias de pão com manteiga e comia o caviar Romanov. Eu ia dormir realizado.
(Sr. Guerreiro: Mas por causa desse ponto grandioso.)
É.
(Sr. Paulo Henrique: À procura de um absoluto.)
É evidente, tudo isso à procura de um absoluto. Tudo, tudo!
(Sr. Gonzalo: …) [vira a fita]
(Sr. Gonzalo: Isso são os pressupostos e os pilares da pureza.)
* Uma visão das coisas que exige como condição prévia a pureza e o thau
A pureza é a condição para que isso se dê. Quer dizer, se o sujeito não for casto, ele não vai por aí. Ele ouve essa conversa e pensa que é um delirante que está falando. Um literato de “meia tigela” que está querendo fazer bonito.
(Sr. Paulo Henrique: Mas não basta ser casto para fazer isso…)
Não, não basta ser casto para fazer isto, é preciso ter thau. Isto é thau, e é um thau especial que no fundo é o aspecto global do universo, mas o universo não o universo geográfico e o sideral, mas é de tudo que existe, mas tendo ao centro o convívio humano como a coisa mais importante e no centro do convívio humano, o contato com as almas, de alma a alma, meio parecido com estas sensações.
Não sei se este último ponto está claro?
E no centro do centro, se eu fosse inteiramente lógico, eu teria que chegar por mim, até Nosso Senhor Jesus Cristo. De algum modo chegava porque eu sabia que [era] supremo, etc., e olhando para as imagens d’Ele, sobretudo para aquela imagem que está aqui no quarto que foi de mamãe, eu tinha a noção de que ninguém tinha sido como Ele, mas não podia ser igual a Ele, muito menos podia ser superior a Ele, porque aquilo é a perfeição do homem. Evidentemente, eu tomava aquela imagem e idealizava também, porque aquela imagenzinha é muito respeitável, muito bonitinha, mas não tem tudo isso que eu queria ver nela, mas no fundo é o thau.
(Sr. P. Roberto: Entrava dentro desse mundo que o senhor…)
É o centro do mundo para o qual eu caminhava.
(Sr. P. Roberto: Nessa clave.)
Nessa clave. Continuamente a clave era essa. E é impossível que vocês tratando comigo não percebam aspectos disso.
Então, continuando a coisa. Era um aspecto global do universo nesse sentido da palavra, mas muito no fundo querendo-o ordenado, tendo muito em vista que isto não era um montão de maravilhas que existem jogadas no chão, mas que havia uma ordem ali, e que está ordem era hierárquica e monárquica, e que isto era preciso amar assim.
* Por desígnios de Nossa Senhora eu nem sequer tive interlocutores que tivessem o desejo ou a paciência de ouvir isto a não ser tendo eu 83 anos
Sou eu! O que vocês conhecem de mim está aí isso.
Agora, é evidente que nem tudo foi pensado até o fim. Por desígnios de Nossa Senhora eu nem sequer tive interlocutores que tivessem o desejo ou a paciência de ouvir isto a não ser tendo eu 83 anos. É uma coisa enorme! Quantos interlocutores passaram por mim ao longo da vida! Interlocutores inimigos, interlocutores amigos, interlocutores incompreensivos, interlocutores indiferentes, quanto, quanto, quanto! Não me foi possível conversar com nenhum nessa clave.
Nossa Senhora quis que houvesse essa demora.
(Dr. Edwaldo: Entretanto é uma coisa essencial.)
Essencial! Para ser inteiramente membro da TFP é uma coisa essencial.
(Sr. P. Roberto: Sem isso não se pode viver também…)
Não pode! Fazer o quê? Por que realmente fazer o quê?
A respeito desse salão aqui e daquele lá, para mim, não é que sejam tão bonitos, o que eles têm de bom, é que tendem a elevar o espírito para essa região. É o que eles têm de melhor. E foi por uma coincidência que isso se fez assim, uma coincidência providencial, mas é isto.
(Sr. P. Roberto: Essa coincidência tem muito daquele “ninho de passarinho” também.)
É faz parte… Exatamente, é material do “ninho de passarinho”.
Agora, é compreensível que tendo feito aquilo que eu deva fazer, eu queira não morrer sem ter acabado de pensar o que eu devo pensar a respeito disso. A tal ponto que eu possa dizer: “estou completo”. Porque então eu vivi minha vida.
(Sr. P. Roberto: E o mundo como que fica meio completo também, porque sem que alguém tivesse pensado isso, ficaria faltando algo no mundo.)
(…)
No que é que estávamos?
(Sr. Guerreiro: O senhor estava falando do diadema do Reino de Maria e da escola…)
* No dia que eu conseguisse levar esse pensamento à toda sua explicitude, a terra se teria tornado o paraíso, o seminário do Céu, que deve ser
É, quer dizer, no dia que eu conseguisse levar esse pensamento à toda sua explicitude, mas baseado nos ensinamentos tradicionais dos papas e de modo geral da Igreja, sobretudo São Tomás de Aquino, no dia que fosse possível isto, em que isso se tornasse um ponto de encontro dos espíritos mais chamados, das almas dotadas de mais thau, das que correspondessem mais, das almas mais fervorosas, etc., etc., isso fosse de tal maneira que uma pessoa assim, encontrando-se com outra pessoa assim, se conheceriam, se notariam, se confraternizariam imediatamente e com toda facilidade, aí a terra se teria tornado o paraíso, o seminário do Céu, que deve ser.
Então, daí a necessidade da “Gruta” e do Cornélio.
O que é que isso, meu…
(Sr. Gonzalo: Da “Gruta” sim, mas do Cornélio…)
O, o Cornélio… E depois um tradutor do latim para mim, é claro.
(Sr. P. Roberto: Se fosse para entregar ao senhor na Gruta…)
Pois então, fica comigo noutra “Gruta”.
Você sabe que Subiaco é feito de várias grutas vizinhas, não é?
* O contra-revolucionário, propriamente dito, é isso que eu acabo de dizer
Agora, esta consideração faz propriamente o contra-revolucionário. Quer dizer, tudo que está escrito na RCR, está muito direito, graças a Nossa Senhora, etc., etc., mas o contra-revolucionário propriamente dito, esse contra-revolucionário é isso que eu acabo de dizer.
(Sr. Paulo Henrique: Na RCR o senhor fala isso, que a Contra-Revolução de algum modo sobrepassa o papel da Santa Igreja.)
Ela abarca também a esfera temporal.
(Sr. Paulo Henrique: E não é própria da Igreja abarcar a esfera temporal.)
Não, são esferas distintas. Mas aí é a esfera temporal iluminada pela luz da Igreja. Tudo isso é luz da Igreja é graça.
(Sr. Gonzalo: Mas o senhor está falando de algo que não está escrito…)
Não está.
(Sr. Gonzalo: O todo o maravilhamento que o senhor está falando agora….)
Não está. E também não tem no MNF, há traços disso no MNF.
(Sr. Gonzalo: Tudo isso é uma outra coisa que não está na RCR. Se o senhor pudesse tratar ainda mais, porque a perseguição ao thau consiste na perseguição a isso, está muito mais ligado ao pulchrum do que ao verum. […])
(Sr. Guerreiro: O verum para ser inteiramente verum precisa esplendor, não é senhor?)
É isso. A definição do pulchrum é splendor veritatis.
(Sr. Gonzalo: […] Agora há uma perseguição contra isso, que é a perseguição de que o senhor é objeto. […] Se o senhor dissesse as verdades despidas disso, o senhor não seria tão perseguido.)
Não, não seria.
(Sr. Gonzalo: […] Agora, esse “segundo andar” é de uma importância primordial.)
* A Revolução faz-se amar porque ela recusa o “pulchrum”
A Revolução faz-se amar, porque ela recusa o pulchrum, todas as tendências mais infames do homem, são contrárias ao pulchrum e é por causa disso que a Revolução coliga as pessoas, mais do que pela atração do erro.
(Sr. Gonzalo: […] Esse movimento de alma primeiro corresponde a quê? Uma vez o senhor tratou numa Conversa de Sábado à Noite, que é algo que participa do céu empíreo. Mas isso é uma tendência que o senhor tem e que propriamente o define muito. […] E que o Reino de Maria nasce disso.)
* No Reino de Maria seria a hora do “pulchrum”
Eu acho o seguinte. Que na trilogia verum, bonum, pulchrum, o papel do verum e do bonum, foi muito estudado, polido pela Igreja, etc., ao longo dos séculos, mas que cada coisa tem sua vez, e chegou a vez do pulchrum. Essa é a questão. E que no Reino de Maria seria a hora do pulchrum. Ligado a Ela, etc., etc. A pulchritude tem no que diz respeito a Ela uma relação especial e intimíssima, etc., de primeira qualidade.
(Sr. Gonzalo: O senhor ficar meio amordaçado por nós nessa matéria…)
Completamente.
(Sr. Gonzalo: […] A possibilidade de expandir as leituras do senhor é muito pequena…)
Muito, muito!
(Sr. Gonzalo: E o thau o que pede é uma consonância nesse ponto.)
Em nossa época mais do que nunca, porque exatamente chegou com a época terminal da História do mundo, quer dizer, os últimos tempos. Nos últimos tempos chega a esse coroamento.
Você queria dizer alguma coisa, meu filho?
(Sr. P. Roberto: Fundador, propriamente, é ser Fundador de uma escola como essa que o senhor dizia, porque isso fala da missão do senhor no que ela tem de mais alto. Isso é o cerne da missão do senhor, que é a restauração disso no mundo.)
É aqui que estava começando, ia florir quando veio a Revolução com o bafo do erro, do mal e da feiúra, e começou a destruir isso até onde estamos.
Eu tenho certeza, por exemplo, que nós estamos conversando nisso, nenhum dos que estão aqui conversando comigo, se fosse dia, teria apetência de chegar e olhar um pouco pela janela, porque ia ver o contrário, então não. Nem há sinais disso, de todo jeito, de todo tamanho, como eles destroem tudo. Mas eu acho que nem vale a pena falar disso.
(Sr. Gonzalo: Não, se o senhor pudesse continuar a tratar do que estava tratando antes de como o senhor vê isso, procura esse pulchrum em tudo, porque isso indica o caminho e mostra muito a alma do senhor, não só quando era menino…)
Não, hoje, é claro!
E eu não teria sido ajudado por Nossa Senhora para guardar a minha fidelidade se eu não tivesse guardado isso. Eu poderia escrever um tratado teórico, mas não é disso que se trata só, a coisa é outra.
* Para ter a alma com as asas inteiramente “deployé” para esses vôos, é preciso a castidade do celibato perfeito, e melhor ainda, se for possível, a virgindade
Bem, mas eu queria fazer sentir a propósito do que foi dito, uma coisa de uma importância enorme, que é o seguinte:
Para ter a alma com as asas inteiramente deployé para esses vôos, é preciso ser casto, e casto de uma castidade que não é só a castidade conjugal, mas é a castidade do celibato perfeito. E melhor ainda, se for possível, a virgindade. Porque a gente não pode imaginar que, por exemplo, se todos nós fôssemos casados, agora fôssemos para a cama… não iria! Por isso o João encontrou em São Tomás a afirmação de que os homens casados que vão para o céu, têm a terça parte do mérito do que fizeram, a menos, só pelo fato de serem maridos castos e fiéis.
Eu não sei se exprimo isso bem?
A vantagem do celibato. A santidade da castidade recuperada, do perdão obtido, o lírio que renasce, tudo isso é lindíssimo, mas é lindíssimo! E convidabilíssimo, mas faz explicar uma porção de coisas que sem isso a pessoa não compreende. Deste vôo de espírito.
(Sr. Gonzalo: É por onde o puro vê a Deus.)
É isso.
Que é curioso, mas comparado com a mística — e é nesse sentido que nós temos empregado a mística corrente, ordinária — comparado com a mística, tem um lado interessante. É que esse pulchrum do qual falei, ao longo de tudo quanto eu disse, eu tenho impressão que entra um saborzinho de sobrenatural, e que é o que mais atrai, porque é um ponto onde a natureza toca no sobrenatural e fica toda iluminada por ela. Eu falei de paisagens suíças. Quando o sol parece nascer por detrás do monte todo gelado, o sol se reflete no gelo e a gente tem impressão que o sol está nascendo de dentro do mundo, é uma coisa que nasce da outra. Assim também da castidade bem guardada nasce tudo isso. Se começa sonhos de lubricidades, é difícil. É uma coisa toda especial.
Também se uma pessoa conserva isto mesmo quando a batalha pela castidade é muito grande, e portanto comporta quedas, se conserva isto, é o sinal que é uma alma que Nossa Senhora está segurando pela mão, e deixa imergir na tinta negra até o alto dos cabelos, mas não deixa afundar, não perde a ligação. Um dia Ela tira aquela alma do poço onde está e a alma está como o sol que renasce. É uma coisa muito bonita.
* Uma escola que é combativa, porque ela só pode existir combatendo
Então, a gente compreende que essa escola, a viver assim, a ser assim, ela só poderia ser no Reino de Maria, porque ela despertaria tal cólera, tal inveja, homem tal coisa, que ela seria estrangulada e liqüidada, e por isso ela é uma escola combativa, porque ela só pode existir combatendo.
Quer que eu explique melhor, meu filho?
(Sr. Gonzalo: O senhor viveu 83 anos no meio da Revolução…)
Combatendo, combatendo.
(Sr. Gonzalo: No caso do senhor isso não pode ser ainda uma civilização…)
É uma contra-civilização.
* São Paulo dizia: Ai de mim se não evangelizar; uma alma assim poderia dizer: ai de mim se não combater
Então, São Paulo tem essa expressão [vae mihi si non evangelizavaro?]: “Ai de mim se não evangelizar”.
Uma alma assim, eu não sei como é que se diria isso em latim, mas deveria poder dizer: “ai de mim se não combater”. Porque fora do combate, a oposição é tão feroz, é tão inenarrável na atual quadra que é liqüidado quem pensar assim.
E se por exemplo fosse o caso de no Teatro Municipal que é a tribuna mais aparatosa de São Paulo, uma pessoa falar sobre isso, ou fala acabando por invectivar ou ela é liqüidada. Mas há um certo modo de invectivar que se impõe ao respeito, e que pode acabar ganhando a vitória final. É este o modo de pregar este pulchrum, esta forma de via espiritual e mística para coroar o Reino de Maria.
(Sr. Gonzalo: E nós precisamos ver tudo isso no senhor.)
(Sr. Guerreiro: Essa cegueira que nós temos, e parte não vem também de um outro problema, que é que o orgulho é uma espécie de sensualidade da alma.)
É.
(Sr. Guerreiro: E que aí a pessoa em vez de olhar para fora continuamente, acaba olhando para si e começa a perder a nitidez desse esplendor da ordem criada, e que nos é dado ver pela graças do profetismo, e a pessoa então começa em certo momento achar que ela que está vendo a coisa e não é o Fundador que ensinou ela a ver.)
Nessa escola a gente fica radiante de conhecer o Fundador. Mas o orgulho não dá isso.
(Sr. Guerreiro: E aí quando entra o orgulho, a pessoa fica radiante dela estar vendo isso.)
* Um exemplo de como o orgulho pode fazer distanciar do Fundador
Quer ver uma coisa. Um membro do Grupo, evidentemente dos mais antigos, um membro do Grupo em certo momento teve altos e baixos — no Grupo ainda quando começava — tinha um que tinha momentos de muita união comigo, e outros momentos de muita distância e até raiva de mim. Mas eu ia tocando com paciência, etc., etc. Ele era mais moço do que eu. Eu já estava no curso universitário quando ele estava no fim do curso secundário, e ele de repente tomou uma carreira completamente inesperada e fora dos trilhos de nossa vocação. Eu achei aquilo esquisito, mas ele tomou essa escolha num momento em que eu não podia falar nada com ele. E então fiquei quieto. Algum tempo depois eu perguntei:
“Mas fulano, por que é que você tomou essa carreira tão extravagante?”
Ele me disse: você quer saber bem a verdade:
— Quero, pode dizer.
— Eu procurei a dedo uma carreira onde nunca você se metesse, para que nunca você estivesse acima de mim.
É o que você está dizendo.
Por que ficou tão quieto assim, meu Guerreiro?
(Sr. Guerreiro: É muito deprimente o raciocínio e depois a deliberação.)
E depois a comunicação, não é? Em tom de desafio. Que era uma capitulação.
(Sr. Guerreiro: No fundo é um rompimento.)
No fundo é um rompimento.
E quando as coisas caminhavam…
(…)
… a reunião.
* Uma reunião que abre panoramas do que devemos ser, mas também um panorama de exame de consciência
Bem, feita essa reunião, se abriram para nós panoramas e panoramas também do que devemos ser, porque se abre aí um panorama de exame de consciência. Não tem dúvida, está tudo muito bonito, tatatá, mas o exame de consciência está presente aí.
Agora, qual é o susto de um indivíduo que morre de repente e que se vê, de repente, interrogado por Deus sobre essas matérias. Nunca pensou, nem passou pela cabeça nem nada, aquilo é um caos, uma bagunça. E ele diante de Deus eterno, perfeitíssimo, puríssimo, limpidíssimo, e que interroga com o olhar. Mas um olhar que equivale a um discurso que dura uma eternidade. Depois… no inferno, no meio das chamas do inferno, aquele olhar o acompanha:
— Por quê? Como?
É uma coisa tremenda! Não é?
* Qual seria a invectiva que o SDP faria se tivesse que fazer uma apologia desse tema
(Sr. P. Roberto: O senhor falou da invectiva que o senhor faria se tivesse que fazer uma apologia disso.)
Sim. A invectiva de quem não é assim, o que é que lhe fica de inferior, de banal, de ruim, de péssimo, mesmo porque o banal e o ruim, não existem na alma do homem, o banal e o ruim são peles de recobrimento de horrores. E todo homem encobre horrores quando ele não segue o caminho que deve seguir.
Não sei se eu estou claro?
* É preciso não deixar escapar o fio condutor desse tema de maneira nenhuma
Agora, o problema é: eu acho que nós não devemos deixar escapar o fio condutor desse tema de maneira nenhuma. E a linha condutora disto, seria, como o Gonzalo pediu há pouco, em outra reunião, dar mais exemplos teórico-práticos de como é isso, com vistas não só a nos familiarizarmos com o tema e podermos jogar com essas idéias adequadamente, mas também com vistas a que depois nós possamos passar daí para o lado negativo. O que é que há, onde é e de que jeito se faz sentir no mundo da Revolução isto, a carência disto. Por que é que o mundo da Revolução é assim? Mas depois com vista a pôr cada um na produção para seu próprio uso, de coisas dessas, de acordo com o seu talento, o seu feitio, o seu modo de ser. Mas eu quase que diria, é abrir uma fonte de água viva no seio da TFP. Me parece que é isso.
E aí nós teríamos chegado a dar a essa comissão, uma plenitude que é uma plenitude especial…
Diga, meu filho.
(Sr. Guerreiro: […] O senhor disse que nem no MNF o senhor tratou disso, mas todavia todo o MNF gira em torno dessa problemática.)
É, isso é fora de dúvida.
(Sr. Guerreiro: O senhor tem três temas no MNF que se articulam em torno desse assunto. Um é a paradisiologia, que o senhor tratou longamente. Outro é das criaturas “ab aeterno!”…)
Sim, sim, é verdade.
(Sr. Guerreiro: E um outro é o mundo dos possíveis, não sei se o senhor se lembra.)
Perfeitamente.
(Sr. Gonzalo: A inocência também.)
(Sr. Guerreiro: É, mas a inocência é o pressuposto para se cogitar disso. […])
É bem verdade. O que levanta uma questão: se não seria o caso de junto com os exemplos…
(Sr. Guerreiro: Ambientes Costumes também.)
Ambientes Costumes tem algo disso.
Mas tomar esses quatro primeiros pontos que você lembrou, e tratar meio de permeio com as exemplificações. Quer dizer, seria pegar a reunião do MNF, vocês lerem antes da reunião aqui e fazerem uma reunião em que umas coisas viriam misturadas com as outras. O que é que acha, meu Gonzalo, você está um pouco receoso, não é?
(Sr. Gonzalo: Está muito bem.)
Mas onde é que vocês obtêm esse material? Com quem está?
(Sr. Guerreiro: Com o senhor Átila.)
Eu posso pedir a ele, se vocês me lembrarem já segunda-feira eu posso pedir a ele.
(Sr. Guerreiro: Eu lembrava no sentido de perguntar um pouco qual era a distinção que havia para efeitos de precisão qual a diferença entre o que o senhor tratava hoje e o MNF, esses aspectos do MNF, se haveria ou não distinção, mas parece que não, isso tudo constitui um todo muito harmônico que se complementam.)
Ah, constitui um todo.
A questão é a seguinte, o que está hoje, é muito mais a medula do que o que está no anterior, mas o anterior é muito vinculado e profundamente impregnado por isso. De maneira que seria uma pena não constituir com isso um todo.
Bem, meus caros, preciso ver um pouquinho a hora, se os senhores me permitirem… que hora são? Três e dez.
E para o meu novato, isso está muito embrulhado, meu filho, ou segue-se bem?
(Sr. Horácio: É um paraíso.)
Você se sente bem com isso?
(Sr. Horácio: É o tipo de tema que eu mais gosto.)
Graças a Deus, está ótimo. Está muito bom.
Então, vamos andando.
(Sr. Gonzalo: Uma bênção especial para o Coronel Poli que faz aniversário hoje.)
Ah é verdade. Vamos rezar.
Agora, me diga uma coisa, onde é que ele está fazendo esse retiro?
(Sr. Gonzalo: É na própria DAFN.)
Mas ele esta dormindo na DAFN?
(Sr. Gonzalo: Está sim, senhor.)
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