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Conversa de Sábado à Noite — 25/4/92 — Sábado

Em muito boa medida, o SDP é tão equilibrado devido ao ter uma mãe como a SDL * A Revolução mete na cabeça das pessoas que a posse da autoridade vicia a cabeça de quem a detém: “agora, chegou a ocasião de eu abusar, de eu fazer coisas descabidas” * Apesar do SDP ter um coração de mãe para conosco, nós não nos entregamos porque na infância adquirimos uma espécie de dobra errada na alma * Desde pequeno o SDP tinha uma espécie de interrogação na cabeça sobre a autenticidade inteira da atitude das pessoas em relação a ele * O fato do SDP em menino acordar a SDL durante à noite: “se ela é minha mãe como deve ser, ela vai tolerar esse abuso, porque tem razão” * A graça de Genazzano dava muita confiança mas com a idéia de que podia haver muito contratempo que me faria sofrer, mas que tivesse certeza: minha vocação eu realizaria * Uma possessão diabólica da Revolução, tão particularmente venenosa, que mesmo possessões diabólicas muitos espalhafatosas, a pessoa começa a gritar, não dão o que é isso

(Sr. Gonzalo: O senhor disse que a graça de Genazzano, se os membros do Grupo quisessem, estivessem abertos, receberiam também essa graça por participação.)

Sim.

* Em muito boa medida, o SDP é tão equilibrado devido ao ter uma mãe como a SDL

(Sr. Gonzalo: […] Como hoje é dia de Nossa Senhora de Genazzano, nós queríamos relacionar isso com a Senhora Dona Lucilia. […] O senhor dizia que a mãe tem, na ordem natural, um papel muito importante para o equilíbrio da pessoa. E o senhor dizia que o senhor é tão equilibrado quanto é, em muito boa parte porque tinha tido a Senhora Dona Lucilia como mãe…)

Ah, isso é coisa indiscutível.

(Sr. Gonzalo: E que a essa maternalidade da Senhora Dona Lucilia o senhor acrescentou duas graças que o senhor recebeu, que foi de Nossa Senhora Auxiliadora que foi na linha da maternalidade e depois de Nossa Senhora de Genazzano que veio acentuar isso.)

Foi. É bem verdade.

(Sr. Gonzalo: E a gente vê que há uma relação muito grande entre a Senhora Dona Lucilia e Nossa Senhora de Genazzano…)

Sim.

(Sr. Gonzalo: Inclusive no modo de operar dela. […] O senhor dizia que um contato de alma verdadeiro com a Senhora Dona Lucilia e dela conosco, seria de molde a restaurar em nós essa carência de senso materno que nós tivemos, e que isso poderia restaurar as graças de 67, etc. Não sei se o nexo está claro.)

É isso, o nexo está muito claro.

(Sr. Gonzalo: Então o senhor não podia tratar sobre o papel dessa maternalidade e desse afeto. […])

Está muito bem! Está muito bem formulado.

[O sr. João entra na sala]

Meu João!

* A Revolução mete na cabeça das pessoas que a posse da autoridade vicia a cabeça de quem a detém: “agora, chegou a ocasião de eu abusar, de eu fazer coisas descabidas”

Essa dificuldade em relação à autoridade, à “Sempre Viva”, etc., resulta realmente do que você disse, mas resulta de um outro lado colateral a esse e do qual eu nunca tratei por falta de ocasião, por não me lembrar, etc. Mas quem foi educado por uma mãe como era mamãe, tem muito mais facilidade em compreender a praticabilidade, já a simples praticabilidade do princípio da autoridade com uma torrente indizível de bondade.

A Revolução mete na cabeça das pessoas que a posse da autoridade vicia a cabeça de quem a detém, porque o sujeito que detém a autoridade, uma vez que vê o outro sujeito a ele, esfrega as mãos e diz: “Agora, chegou a ocasião de eu abusar, chegou a ocasião de eu mandar, de eu fazer coisas descabidas, etc., etc., uma vez que ele está debaixo de minha autoridade e não tem defesa”.

* A perfeição do amor materno é que pode fazer uma pessoa compreender que outrem possa ter autoridade sem nenhum desejo de abusar e pela mera vantagem da pessoa que é mandada

E é a perfeição do amor materno que pode fazer uma pessoa compreender que outrem possa ter autoridade sem nenhum desejo de abusar e pela mera vantagem da pessoa que é mandada.

Eu conheci… todos nós conhecemos várias mães aí pelo mundo a fora, o mundo está cheios de mães, mas quantas e quantas vezes eu vi mães abusarem da autoridade junto aos filhos. Não quero dizer que tenham sido em coisas muito graves, mas que são muito sensíveis para a alma de uma criança, e que nesse ponto, pedagogicamente falando, do ponto de vista da formação moral, são coisas muito graves.

Vamos dizer por exemplo, o quê? Um dia muito quente, há sorvete em casa e estão comendo, e resta uma dose que a mãe pode comer sozinha ou pode dividir com o filho que chegou tarde da escola e só tomou meia dose. Dona Lucilia certamente fingiria que nem percebeu e poria a dose inteira no copo do filho. É uma coisa indiscutível.

Mas eu vi mães, e vocês é possível que tenham visto também, que indiscutivelmente diriam para o filho: “Olha aqui, esse pedaço de sorvete aqui, essa dose de sorvete é de mamãe”, punha na taça e tomava o sorvete e deixava criança a lamber sabão. E depois não vinha pelo menos um agrado que atenuasse isso, que reduzisse essa proporção: “Agora, vai brincar, porque sua mãe está ocupada”. E está acabado.

Vai ver nem estava ocupada, ia dormir. Nem precisava dormir… qualquer coisa, ia chamar uma amiga no telefone e conversar bobagens. É qualquer coisa, imaginem o que quiserem.

Mas quem não foi repetidamente objeto da autoridade de outrem que insaciavelmente se sacrificava e nunca, nunca tirou vantagem da posição de mando que tinha, esse tem dificuldade de compreender que o mando não degenere em abusos.

* Apesar do SDP ter um coração de mãe para conosco, nós não nos entregamos porque na infância adquirimos uma espécie de dobra errada na alma

(Sr. Gonzalo: O senhor é assim conosco, o senhor tem um coração de mãe conosco, e no entanto nós não entregamos o coração.)

É por causa de que na infância foi adquirida uma espécie de dobra errada pela qual a pessoa não chega a acreditar nisso. Eu não quereria chamar isso de complexo, porque Freud dá à palavra complexo uma série de sentidos execráveis, mas é uma dobra da alma que precisa ser tranqüilizada, precisa ser distendida, etc., etc. Contra o que militam o que você disse, o que eu acabo de dizer, e a circunstância de que eu exerço a minha autoridade no sentido contra-revolucionário pedindo de vocês uma posição de vocês se sacrificarem, que é enorme, e que isto são os três elementos de resistência.

* A ação apaziguadora da Senhora Dona Lucilia; pela ação de presença ela se comunicava mais do que dizendo algo

(Sr. P. Roberto: O senhor podia dizer alguma coisa da ação apaziguadora da Senhora Dona Lucilia sobre isso? Porque de fato a gente indo à Consolação sente-se muito isso, e que ela abriu algo de novo desse relacionamento nosso com o senhor.)

Foi, ela fez vocês crerem de algum modo que a minha autoridade seria uma autoridade lenitiva, tranqüilizadora, do mesmo modo que foi a dela. E isto é como? É por este diálogo imponderável que há no cemitério da Consolação, mas que existe, que não é expresso em palavras, mas que existe. E que era aliás, um certo modo dela se comunicar, porque a presença dela tinha muito mais do que o que ela dizia.

De maneira que você toma, por exemplo, aquela fotografia dela, grande, que o João mantou pôr lá… uma fotografia estupenda. Às vezes uma pessoa ou outra me pergunta muito explicavelmente, o que é que o senhor conversava com dona Lucilia, etc.

Eu compreendo que pergunte, mas é que não entendiam que com ela, a conversa era muito mais uma ação de presença do que uma interlocução. Muito mais.

Você pega, por exemplo, aquele círculo, aquela coisa… uma pessoa poderia ficar sentada o dia inteiro olhando para ela, sem ela dizer nada. Não porque ela não quisesse dizer, mas é porque ela sabia de algum modo, instintivamente, que ela sentada ali estava dizendo.

* Dois episódios num hotel em Paris: uma senhora russo e um médico russo que procuram a SDL para se abrirem com ela

(Sr. P. Roberto: Estávamos lembrando dela lá no hotel em Paris, como que uma russa e um russo…)

Exatamente, uma russa e um russo.

(Sr. P. Roberto: Sentiram tão atraídos por ela e que revelaram coisas íntimas a ela.)

Íntimas! Mas exatamente… Nunca tinham falado com ela, mas a senhora morava no mesmo andar, encontravam-se. O russo era médico do hotel. Esse deve ter conversado com ela, ela deve ter chamado para alguma doencinha minha ou de minha irmã, essas coisinhas assim. É provável que tenha sido isso. Bom, mas ele o que é que fez? Fez o que faz o médico de hotel, troca duas ou três palavras, dá uma receitinha e está acabado o negócio. Como é que ele sentiu tão atraído a se abrir com ela, etc.? É por causa daquilo que há nela e que faria com que se vocês a encontrassem viva, sentiriam dentro de pouco tempo, propensos a se abrirem com ela, a conversarem com ela, etc. O que ela receberia com uma naturalidade extrema.

(Sr. Gonzalo: “Un jour viendra”)

Un jour viendra, un jour viendra”.

(Sr. J. Clá: A gente no convívio com ela sentia uma coisa sui generis. Evidentemente, a gente sabia que ela tinha pecado original, mas não se sentia o pecado original. Eu tomei com surpresa quando soube que ela tinha morrido, eu fiquei pasmo: “como é? Essa senhora, não pode ser!”)

É, mas é isso.

(Sr. J. Clá: Não se sentia o pecado original.)

Eu sabia que ela tinha que morrer, porque ela falava da morte dela mais de uma vez, e era com intenção de me preparar para isso. Mas eu não achava que fosse para já. Eu, o mínimo que teria feito, era mandar gravar a voz dela sem ela perceber. É o mínimo!

(Sr. J. Clá: Filmava.)

Quer dizer, é irreparável eu não ter feito isso.

* O timbre de voz da SDL

(Sr. P. Roberto: Eu tive a graça de ver o senhor conversando com ela no escritório. Eu ainda me lembro do timbre de voz dela.)

Era um timbre de voz inconfundível, muito discreto, mas cheio de ressonâncias extraordinárias.

(Sr. Guerreiro: Foi a voz mais bonita que eu ouvi na minha vida.)

Mas é assim. Eu como filho não diria isso, mas é o que era.

(Sr. Guerreiro: Era a voz mais melodiosa, mas cheia de entretons, etc.)

No modo dela impostar uma pergunta, dando a frase e o tônus interrogativo, quantas coisas estavam naquela interrogação! É uma coisa única!



* Durante a doença de 67 o SDP tinha que comer recostado; reação da SDL ao ver um pessoa do grupo ao lado do SDP segurando a bandeja

(Sr. J. Clá: O senhor estava com problema na doença de 67 e tinha que comer recostado, e não tinha no que apoiar, então eu estava ao lado segurando a bandeja enquanto o senhor comia.)

Você estava segurando?

(Sr. J. Clá: Estava ao lado. E ela entrou, cumprimentou a todos, etc., pôs-se ali ao lado onde ela sempre ficava. E às tantas ela avançou um pouco assim na cadeira, olhou bem… E o senhor disse baixinho: “ela vai dardejar alguma coisa contra você, eu quero ver como é que você vai sair”.)

Você disse?

(Sr. J. Clá: Não, o senhor disse baixinho. Ela percebeu a cena toda, que eu estava de joelhos segurando a bandeja. E então ela voltou um pouco para trás assim e disse: “Mas Plinio, você não percebe que está cansando esse moço?!”)

Isso era ela inteira!

(Sr. J. Clá: E aí o senhor disse: “e agora, como é que você se sai dessa?” Eu disse: “mas dona Lucilia, a senhora não gostaria de fazer isso?” Ela ficou assim pensativa e disse: “mas meu filho, você está cansando esse moço!”)

Ahahahah! Ela ficou embaraçada e saiu pela… Ahahaha!

(Sr. J. Clá: Olha que era filho dela… qualquer outra mãe dizia: “não, deixa que ele sirva, etc.” Como ela não compreendeu a cena pelo lado religioso e tudo mais, ela não podia compreender que o Senhor Doutor Plinio pudesse estar sendo servido por uma outra pessoa assim.)

É isso, é isso sim. Mas isso é ela inteira!

(Sr. J. Clá: Mas preocupada com o outro.)

É isso.

(Sr. J. Clá: Mais do que com o filho dela.)

Isso é ela inteira! a mais não poder.

Mas você falava então — eu quero retomar a sua pergunta — você falava da relação que há entre a graça de Nossa Senhora de Genazzano, a graça de Nossa Senhora Auxiliadora e com ela.

* Desde pequeno o SDP tinha uma espécie de interrogação na cabeça sobre a autenticidade inteira da atitude das pessoas em relação a ele

Dir-se-ia, dir-se-ia — não é verdade, não é assim, mas dir-se-ia — que desde pequeno eu tinha uma espécie de interrogação na cabeça sobre a autenticidade inteira da atitude das pessoas em relação a mim. Quer dizer, me agradam, me agradam — porque qualquer criança é objeto de agrado —, mas o que é que aquilo tem de verdadeiro?

Eu vejo que em antigas fotografias minhas, até de criança de braço, meu olhar — era uma coisa instintiva, porque não podia ser — mas tinha qualquer coisa de interrogativo, como quem dizia: esse “gajo” aqui como é? Como é isto? Esse negócio como funciona? Como é? Como não é? etc., etc.

* O fato do SDP em menino acordar a SDL durante à noite: “Se ela é minha mãe como deve ser, ela vai tolerar esse abuso, porque tem razão”

E eu me lembro da cena que já contei muitas vezes, de minha cama estar posta ao lado da cama dela, eu acordava durante à noite, queria ter conversa, não consegui acordá-la eu subia de minha cama para a cama dela para acordá-la. Um pouco, o que havia na minha cabeça era: “se ela é minha mãe — era brumosos, mas era — como deve ser, ela vai tolerar esse abuso, porque tem razão”.

Eu sentava em cima do peito dela e abria os olhos com os dois dedos assim. Afinal, ela acordava. Imediatamente: “O filhinho!, etc., etc.” Eu percebia que eu estava causando um transtorno a ela, e via com que integridade ela fazia aquilo. E ela de uma vez se sentava. Eu entendia que era para que o sono não voltasse, e não acontecesse dela dormir, o que seria natural. Sentava sentada de uma vez, e começava logo a falar comigo. De fato mais falando com o sono dela do que comigo, e me agradando, etc., etc., até aquela insegurança da criança durante à noite passar, aí ela me ajudava a ir para minha cama, ela dormia e eu também.

Ao lado dela meu pai dormindo no oceano delicioso do sono. Ele percebia algo, que eu estava perturbando, mas não ligava absolutamente, e já ia se abrindo uma distância comigo, e amarrando a confiança nela. Porque quando eu descia — isso é certo —, o que ia na minha cabeça é o seguinte: “ela é mesmo! Me satisfaz inteiramente, eu confio inteiramente nela, e como recíproca, me sentia inteiramente dela. Daí um entrelaçamento a fond perdu, até onde fosse o caso. E que foi, graças a Nossa Senhora, até a morte dela.

* Na última noite, ela deveria se perguntar: “Onde é que está meu filho?” Não chamou o SDP uma vez só. E na hora de morrer, viu que ia morrer e não mandou chamá-lo

Eu me lembro que eu estava… eu não podia ainda andar em razão dessa operação aqui no pé, eu não podia ainda andar, mas eu me arrastava de muletas ou de vassoura, nem lembro como era, do meu quarto de dormir até o quarto dela. No dia antecedente da morte, eu passei o dia inteiro no quarto dela, não a deixei um instante só. Fui dormir… eu teria ficado a noite inteira acordado, mas eu fui dormir porque eu percebi que meu estado de saúde não comportava de ficar a noite inteira acordado e ainda acordado durante o dia, então fui dormir. Mas do contrário eu teria ficado com ela, porque eu não queria que ela tivesse a idéia de que eu a deixei arfando nos últimos episódios da vida, e eu sai: “onde é que está o Plinio?”

Agora, veja você o que talvez a Providência tenha pedido dela. Que ela não sabia o que tinha acontecido comigo, ela entrevia e contava uma história toda embrulhada que eu tinha machucado o pé na fazenda com aquele calçamento feito pelos escravos, antigos, que tem lá, em ponta. Que eu uma vez contei a ela que havia aquela calçamento, e ela fez um embrulho — já não estava lúcida — fez um embrulho e contava para as pessoas que eu tinha machucado o pé e que estava de cama por causa disso.

Mas na última noite, que e bem possível que ela não tenha dormido quase, pela falta de respiração, ela deveria se perguntar: “onde é que está meu filho?” Não me chamou uma vez só. Nada! E quando ela morreu, na hora de morrer, viu que ia morrer e não me mandou chamar. E já era dia claro.

(Sr. J. Clá: Dez horas da manhã.)

Dez horas da manhã.

Aliás, era imprevisível, eu acordei, perguntei como ela estava, me disseram que ela tinha passado uma noite muito aflita, etc., mas que estava tocando. Eu ainda mandei vir o jornal, quando o Ducan que estava com ela mandou avisar que ela estava morrendo, que o coração começou a bater menos, ou qualquer coisa. Aí eu fui e quando entrei no quarto ela já tinha morrido.

Bom, mas esta atitude de confiança inteira, correspondia de tal maneira às necessidades de minha alma, que você vê que com Nossa Senhora Auxiliadora também era um apelo à confiança que vinha, que era a coisa assim: (…)

* A graça de Genazzano dava muita confiança mas com a idéia de que podia haver muito contratempo que me faria sofrer, mas que tivesse certeza: minha vocação eu realizaria

E depois em Genazzano, é a idéia de uma confiança! que Ela, Nossa Senhora, se faz ver a mim sorrindo, e um sorriso inexcedivelmente bondoso — isso estava contido nisso que Ela me fez sentir naquele momento — que podia haver muito contratempo, que esse contratempo podia me fazer sofrer, mas que eu tivesse certeza que minha vocação eu realizaria.

Quer dizer, uma bondade que supera tudo que a gente pode supor ou imaginar e que leva ao que ela quer. Mas é verdade que pela avenida dos becos-sem-saída. Isso não tem conversa! É pela avenida dos becos-sem-saída.

Por que me olha tão fixo, meu Paulo Henrique?

* O bom conselho de Nossa Senhora para mim, foi: “Confie!”

(Sr. Paulo Henrique: Estou acompanhando com muita avidez e com muito interesse o que o senhor está dizendo, porque de fato é muito edificante. O que o senhor disse dela, de Nossa Senhora do Bom Conselho…)

O Bom Conselho — eu esqueci de dizer isso para os enjolras agora à noite — o bom conselho de Nossa Senhora para mim, foi: “Confie!” Ela é Nossa Senhora do Bom Conselho, o bom conselho é: “Confie! Confie porque tem saída. Na aparência, inúmeras vezes você vai ser jogado contra a parede, mas não tenha dúvida, a parede se abre.”

(Sr. Gonzalo: […] O cumprimento da vocação é uma coisa, agora, restaurar a inocência é outra, que é o problema para nós. Na reunião passada o senhor tratava a caridade primitiva. […] São os fundamentos do prédio, no nosso caso, que está furado, e Nossa Senhora de Genazzano e a Senhora Dona Lucilia também, a missão dela se não é isso, não adianta. Agora, como o senhor vê em função da restauração da inocência primeva dos membros do grupo, o papel dela.)

É exatamente de ajudar vocês a terem a confiança de que isto também se restaura. Porque, se não há o que não tenha perdão, então isso existe, logo tem que perdão. Não se escapa. Não é?

* A bênção que havia na Capelinha de Mater Boni em Consilii, em São Bento, no dia da festa dela

(Sr. Gonzalo: […] Na capelinha do São Bento a gente sente muito isso.)

Hoje a capelinha estava extraordinária!

(Sr. J. Clá: O senhor precisava ter visto a missa. Não sei se o sr. gonzalo….)

(Sr. Gonzalo: Foi uma traição…)

Ahahah! Qual é a traição que ele te fez?

(Sr. Gonzalo: Não me avisaram que havia missa na capelinha, e eu cheguei numa parte da missa, mas havia uma bênção…)

(Sr. J. Clá: Uma bênção extraordinária! Com gregoriano e com órgão. O órgão ficou extraordinário! E depois um imponderável, uma coisa impressionante.)

(Sr. Gonzalo: A imagem estava muito expressiva.)

(Sr. J. Clá: A gente passa todos os dias ali, reza, mas hoje eu não sei o que tinha…)

Não, estava diferente. Estava diferente. Estava diferente, não tem conversa.

Passou-me pela cabeça, depois que eu estive na capela hoje, de propor a você de fazermos a reunião embaixo, junto à capelinha, mas infelizmente com essa propensão que eu tenho para me resfriar, eu tentei… não sei se você viu que um momento eu mandei empurrar minha cadeira mais para o lado, eu queria ver se ali eu conseguia me instalar que eu proporia que nós nos reuníssemos lá. Mas não dava jeito e eu achei que não devia fazer. Seria uma verdadeira maravilha se pudéssemos fazer uma reunião ali aos pés da… É o ideal.

(Sr. J. Clá: O próprio quadro do Praesto Sum de Mater Boni Consilii, estava atraente também.)

É isso.

(Sr. J. Clá: Quando íamos para a Reunião de Recortes, chegamos a cadeira e o senhor cumprimentou a imagem à distância, estava cativante. E quando levaram para a cabine hoje à noite para o senhor oscular a imagem, parecia uma imagem diferente.)

Pareceu-me que estava muito expressiva.

Uma pergunta baixa de nível, mas afinal, aquilo está colado sobre metal ali?

(Sr. J. Clá: Não é um poster, e colocaram sobre o poster um vidro especial e para prender o vidro colocaram uma moldura de metal.)

Porque quando eu osculei eu tive a sensação dos meus lábios estarem tocando metal.

(Sr. J. Clá: Era um vidro especial.)

Ah sei.

(Sr. Gonzalo: Esse imponderável da capelinha dá a impressão que é meio restaurador da inocência.)

Pode se achar isso.

(Sr. Gonzalo: O senhor já disse que a capelinha poderia se chamar a capelinha da restauração…)

É, eu acho que sim.

(Sr. Gonzalo: Aquilo tem algo que a pessoa tem que ouvir, é um convite para isso, mas que está sempre com a relíquia dela junto, e a gente não sabe bem…)

(Sr. J. Clá: É uma junção…)

* Uma inter-relação entre o amor materno de Nossa Senhora e da SDL

(Sr. Gonzalo: É uma junção de graças, porque a gente não sabe de quem vem a graça. É uma coisa muito misteriosa isso.)

Quando, depois dela morta, etc., eu comecei a circular, eu ia quase todos os dias ao cemitério, e inseria no circuito de minhas orações. Ia ao cemitério e depois ia fazer as outras orações. E muitas vezes saindo do cemitério eu rezava indistintamente umas jaculatórias ou para Ela ou para mamãe, e eu não retificava quando eu percebia que eu tinha rezado por uma e não por outra, de tal maneira na minha perspectiva são isso… e isso… mas na mesma reta, que eu pensava:

Rezando a uma, rezei a outra”. O princípio é: o amor como que materno de Deus — Deus comparou o amor d’Ele a de uma galinha com os pintainhos, Nosso Senhor Jesus Cristo — se fazia como que sentir em dois degraus incomensuravelmente distantes um do outro na mesma escada. A escada é a mesma. O número de degraus que intermedeiam é incalculável, mas a escada é a mesma. E até hoje, às vezes, eu faço um erro desse e não corrijo, porque eu rezei a uma rezando a outra. O que daria lugar para máfias, mas eu não me incomodaria com essa máfia porque é completamente sem fundamento essa máfia, se destrói com três petelecos e está acabado.

(Sr. Gonzalo: É deixar-se banhar por isso…)

* Qual seria o ambiente de uma cidade em que todos tivessem a inocência restaurada?

Você quer ver uma coisa, você imagine que por um milagre — eu não acredito que o Reino de Maria se restaure assim como eu vou dizer, mas você imagine — você está numa cidade, eu quero imaginar de preferência cidades da Europa, uma cidade de qualquer país da Europa, pequena, conservando ainda uns aspectos de uma cidade um pouco medievalizante e, de repente, vem uma graça que sem as pessoas perceberem restaura completamente a inocência primeva de todos. Bem, as pessoas conversam à noite, como estamos conversando, e no dia seguinte vão todos à igreja; é uma só igreja, uma só paroquiazinha, numa só capela, um só vigário, o vigário também mirabile dicto ficou com a inocência primeva restaurada.

Vocês podem imaginar, num ambiente assim como seria facilitada a prática de todas as outras virtudes, que são tão difíceis hoje em dia?

Aí vocês podem perceber essa inocência primeva como [dá] facilidade à coisa.

(Sr. J. Clá: O que aconteceu com os apóstolos foi isso. Eles estavam entre si e no último momento ainda, que foi o último dia que Nosso Senhor permaneceu com eles antes da Ascenção, estava discutindo se Nosso Senhor iria restaurar ou não a supremacia de Israel sobre os outros povos. Isso Nosso Senhor já ressuscitado.)

(Dr. Edwaldo: Na hora da Ascenção.)

(Sr. J. Clá: Na hora da Ascenção. Nosso Senhor tinha prometido aos doze que viria o Espírito Santo, e entretanto o Espírito Santo desceu a cento e vinte, porque desceu sobre os doze, mais os discípulos e as santas mulheres. E até há um comentarista que diz isso, que Deus promete pouco mas cumpre muito. Ele prometeu para doze, mas deu para 120. E aí saíram cheios de fogo, cheios de entusiasmo, restaurados.)

É, assim de repente. Eu tenho impressão que uma semana numa cidadezinha onde todo o mundo está com a inocência primeva restaurada, equivaleria a mais de um ano de repouso nesses chiqueiros contemporâneos.

Nem isso, não é meu… [inaudível] É evidente.

(Sr. Gonzalo: A restauração da inocência, não é só que a gente não é inocente, mas é que há um demônio está dentro de nós.)

É isso. E mete a garra.

(Sr. Gonzalo: E essa restauração implica num exorcismo, que aquilo saia.)

Saia! Agora, também a beleza quando nós percebemos em plena batalha, que os demônios estão saindo de dentro de nós, e que…

(Sr. Gonzalo: É melhor que seja antes, entrar na batalha sem demônios é melhor…)

Ah bom, melhor já, mas a questão é que a Providência que sabe. Mas enfim, o fato…

* Uma possessão diabólica da Revolução, tão particularmente venenosa, que mesmo possessões diabólicas muitos espalhafatosas, a pessoa começa a gritar, não dão o que é isso

(Sr. Gonzalo: É preciso ter bem claro que é uma posse do demônio que temos dentro da alma. É uma possessão diabólica que existe… O senhor já tratou disso no MNF, mas é isso.)

Você disse que é uma possessão diabólica, eu estou de acordo com você. Mas acho que é uma possessão diabólica da Revolução, tão particularmente venenosa, que mesmo possessões diabólicas de que se contam exemplos na Idade Média e muito espalhafatosas, a pessoa começa a gritar, não dão o que é isso.

(Sr. J. Clá: Uma coisa é o demônio possuir o corpo como um motorista possui um carro, ele pode dirigir o corpo para cá, para lá, mas outra coisa é ele está com uma união “mística” com a vontade do sujeito, com a inteligência do sujeito…)

Isso causa um verdadeiro pavor! Um verdadeiro pavor!

(Sr. Gonzalo: O senhor dizia na reunião do MNF que é o demônio da Revolução.)

É, é o demônio da Revolução.

(Sr. Gonzalo: […] Mas esse demônio não existia antes da Revolução…)

Não existia na terra.

(Sr. Gonzalo: E agora é uma coisa… O senhor disse que tem um enclave em nossas almas.)

É um enclave, é um enclave.

* É preciso confiar de que esse demônio sairá em tempo oportuno; confiar, confiar, confiar, a respeito de tudo confiar

(Sr. Gonzalo: Agora, como isso sai?)

É das tais coisas, é confiando. Não tem outra solução. Confiando, o demônio ruge e acaba saindo. Mas é preciso confiar.

(Cel. Poli: Confiar de que ele sairá…)

Confiar de que ele sairá, de que ele sairá em tempo oportuno, confiar, confiar, confiar, a respeito de tudo confiar.

(Sr. J. Clá: Mas eu acho que o problema principal é confiar naquele que vai expulsá-lo. Esse é o problema.)

O que é que é meu filho?

(Sr. Guerreiro: Não sei se dá tempo?)

Dá tempo, diga qual é a pergunta.

(Sr. Guerreiro: […] Qual é a família de temas que mais aproximam a alma do Grand-Retour? Porque em tudo que o senhor faz há a preocupação de destruir a Revolução.)

Sim, isto é claro.

(Sr. Guerreiro: […] Quais são as graças que mais nos aproximam do Grand-Retour e portanto desse exorcismo desse demônio que é o demônio da Revolução? […])

* Para cada gênero de infestação, o bom exorcista percebe qual é o ponto que ele tem que tocar para tocar o demônio dali de dentro

Tem o seguinte Eu vou dar um exemplo extremamente prosaico, mas é como a coisa tem que ser. Às vezes se dá o caso, por exemplo, com crianças, etc., que brincando no jardim, uma coisa qualquer, um bicho qualquer mete-se na própria carnatura na criança. Um bichinho qualquer que fica metido ali dentro. Então qual é o jeito de tirar esse bicho?

Eu, quando era pequeno, vi que faziam isso com crianças assim que brincavam comigo, etc., e percebi que havia… Por exemplo, criança brinca na areia, pode ser que fique um bicho desse na mão, na ponta do dedo, forma uma manchazinha, e a mãe experiente, ao menos experiente das praias de Santos, a mãe conhece já isso, e compreende que tem que agarrar aquilo de um modo que aquilo é um corpo estranho que é preciso arrancar de dentro da carne do filho, mas que dói por causa da ligação que aquilo deita imediatamente com a carne da criança.

E então eu via que as mães levavam junto uma vela, aqueciam a ponta de uma agulha na vela — não sei se era para desinfetar a ponta da agulha, devia ser para isso. Mas eu ficava olhando e pensando como era esse negócio se um bicho desse viesse parar em mim. E escolhiam o ponto por onde o alfinete devia entrar, devia ser uma coisa qualquer do bicho que é mais fácil pegar e arrancar por lá.

Bem, no exorcismo tem alguma coisa de parecido com isso. Cada gênero de infestação, o bom exorcista percebe qual é o ponto que ele tem que tocar para tocar o demônio dali de dentro, e pega isto. Tem que ser um exorcista que tenha uma intuição da psicologia do demônio, mas que ao mesmo tempo tem jeito para pegar a coisa onde é e arrancar. Na hora de arrancar a criança grita, mas daqui há dois minutos a criança não está mais pensando nisso e acabou.

(…) [vira a fita]

* No tempo de Napoleão, a nobreza exilada tinha perdido tudo exceto a arte de conversar e do trato delicioso

Napoleão para dar a entender que ele não era revolucionário, fazer-se aceitar pelas cortes da Europa que eram todas aristocráticas, ele abriu as portas da França para toda espécie de nobreza exilada que havia. E todos voltaram. Mas voltaram paupérrimos, porque as terras deles tinham sido confiscadas, isso, aquilo, aquilo outro…

(Cel. Poli: Castelos queimados…)

Castelos queimados, etc., etc., títulos de propriedade… Porque os cartórios foram queimados, de maneira que o sujeito não tinha título de propriedade registrado, etc., etc., voltaram paupérrimos. E não tendo terras nem nada, foram morar muitos deles em Paris, em casinholas e disputando empregos. Então, nomes sonoros do Ancien Régime: duque de la Rochefaucault, duque de la Rochefaucault de [inaudível], Clermont Tonerre, etc., em empreguinhos e coisas assim. Mas eles de tudo que tinha perdido, uma coisa eles não tinham perdido: a arte de conversar e do trato delicioso.

Resultado: eles faziam as reuniões entre si, e a única coisa que ele podia oferecer — você faça idéia! — era a uma certa hora um copo de leite para cada pessoa presente. Não tem dinheiro! Então, não tinha nem comida, não podia ter uma briochezinha nem nada. É um copo de leite.

* Alguns nobres saíam das recepções faustosas de Napoleão para tomar leite com os nobres antigos; a reação de Napoleão era a espuma de ódio diabólico de um demônio que havia nele

Bom, quando chegava a hora do copo de leite, o pessoal, os diplomatas estrangeiros, que eram todos nobres das nobreza de outros países, fugiam das Tuileries onde Napoleão dava recepções luxuosíssimas e iam beber o leite dos nobres antigos. E Napoleão percebia que eles fugiam, então fazia esse comentário:

Não sei o que é que tem essa gente, eu faço uma recepção aqui nesse castelo que foi do rei deles, com tudo isso que vocês estão vendo, e esses desgraçados aí fogem para beber copo de leite com uns fracassados, arruinados que estão aí”.

Ele ficava indignado… Havia o amor próprio ferido, por mil razões. Mas havia isso a mim me parece sentir nele, é a espuma de ódio diabólico cutucado num demônio que havia nele, e que ferro em brasa — o demônio não é sensível a ferro em brasa — mas ferro em brasa cutucava e causava um mal-estar horroroso.

Então ele se punha a demonstrar que a família Bonaparte era da nobreza da Córsega, e a França quando comprou a Córsega nunca quis admitir a nobreza da Córsega como uma nobreza autêntica. Dizia que era uma nobreza de vaqueiros. Bem, os senhores sabem isso que no francês o jeito que toma: “iih-iih!” e naturalmente ficava indignadíssimo com tudo isso.

Mas a mim me parece sentir nesse espumar, essa indignação peculiar do bicho que foi tocado pelo alfinete em chama, num ponto por onde ele é tocado.

Não sei se eu me exprime com clareza?

(Sr. J. Clá: Excelente.)

Eu noto isso numa porção de coisas. E…

(…)

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