Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
18/4/92 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 18/4/92 — Sábado
Comentários sobre um trecho do apocalipse * “Tenho contra ti que não mantivestes a tua caridade primitiva” * A Oração da Restauração a oração feita por uma pessoa que não se penitencia de um modo específico de tal pecado, é uma coisa difusa, é uma inocência primeva que a pessoa não conservou * Na luz do Fundador pode-se ver a luz de Deus * O Fundador deve despertar o entusiasmo vivo na pessoa chamada: “Eu encontrei o homem, eu encontrei o caminho. E deste homem não me desligarei, deste caminho não afastarei os meus pés” * O encontro do SDP com um novato vindo da Índia: Quando nossos olhares se cruzaram por primeira vez, “eu vi que ele se iluminou todo e sorriu” * A pessoa tem com o fundador uma afinidade que é única, mas que não corresponde às tendências erradas dela. Ela deve combater essas tendências; mas se não corresponde declina no amor de Deus * O nexo com o Fundador pode dar uma felicidade enorme, mas pode dar um mal-estar interior indizível se a pessoa forma a idéia de polarizar sua vida por alguém que conhece fora da vocação
(Sr. P. Roberto: … que nós só nos preparamos na medida em que nós reagimos contra o caos, porque senão chegaremos lá e não teremos condições de fazer espalhar essa luz. Nós queríamos que o senhor desenvolvesse, se fosse possível, no sentido co-relacionar com esse aumento desse amor ao senhor. Porque o que senhor pode dizer não pode dizer para o Grupo inteiro, então nesse sentido seria interessante se o senhor pudesse desenvolver isso.)
(Sr. Guerreiro: Queríamos o seguinte: é que essa temática, toda essa questão que o senhor comentou com o sr. Tejedor, a gente vê que ela é uma temática muito ligada à data, que foi o dia da Ressurreição de Nosso Senhor. De tal modo esse assunto é ligado, que nós entendemos que era muito razoável se fazer essa pergunta ao senhor, porque ou nós caminhamos por aí ou então a Ressurreição da nossa inocência sempre tardará muito. Não sei se o senhor nos compreende que o assunto também nos é tão caro.)
George, os mais moços carregam os abacaxis. Você quer chegar lá no meu escritório, naquela mesinha redonda do abat-jour tem aberto assim um papel que diz respeito a isso, que o João leu aqui durante o jantar.
Tem um texto do apocalipse que tem relação com isso…
(Sr. G. Larrain: Ah, da caridade primeira.)
Da caridade primeira. Ele pega num instante e é um trecho…
Você conhece esse trecho, meu filho?
(Sr. P. Roberto: Não, senhor.)
É muito, muito bonito.
* Comentários sobre um trecho do apocalipse
Numa certa parte do apocalipse são sete igrejas. Aquelas sete igrejas são interpretadas pelos exegetas de modos vários. Uns dos modos é o julgar que são as sete dioceses principais da Ásia Menor, a quem a cada uma dessas dioceses a Providência faz um elogio e uma censura. Mas outros têm uma coisa de mais vôo e dizem o seguinte: que é verdade que aquilo diz respeito a sete dioceses, mas que também diz respeito a sete idades em que se dividiria a história da Igreja, e que, portanto, cada uma daquelas representa o brilho e depois a censura que Deus faz à Igreja num dos seus estados. Então tem aqui um estado desses — leia um pouquinho — que a nós nos diz muito respeito.
(Sr. G. Larrain: “Conheço as tuas ações, as tuas fadigas e a tua paciência”.)
Paciência é preciso notar o seguinte: na linguagem da Escritura, no latim, você sabe melhor isso, é a virtude pela qual se suportam os sofrimentos. Quer dizer, portanto, uma virtude muito alta.
(Sr. G. Larrain: “Conheço as tuas ações, as tuas fadigas e a tua paciência. Sei que não podes suportar os malvados, e pusestes à prova os que se dizem apóstolos mas que não são e os apanhastes em falsidade. Tens paciência e sofrestes pelo meu nome sem te cansar, mas tenho contra ti…”)
Veja o seguinte, portanto. Se trata de uma diocese ou de uma era da história da Igreja, ou também de uma pessoa, depende, que é rica em qualidades. Agora veja o que é que vem aqui.
* “Tenho contra ti que não mantivestes a tua caridade primitiva”
(Sr. G. Larrain: “… mas tenho contra ti que não mantivestes a tua caridade primitiva.”)
Lembrem-se que caridade é amor de Deus.
(Sr. G. Larrain: “Lembra-te, pois, de onde caístes. Converte-te e faz as obras de antes.”)
É do outro mundo.
(Sr. Guerreiro: Dir-se-ia que as qualidades numeradas anteriormente, senhor, grosso modo poder-se-ia definir aquelas que dividem um santo, não é?)
É, perfeitamente.
(Sr. G. Larrain: “E tenho contra ti”.)
Veja como a expressão depois é impressionante: “Tenho contra ti isso”. Depois não sei se querem que releia, talvez seja interessante reler mais uma vez.
(Sr. G. Larrain: “Conheço as tuas ações, as tuas fadigas e a tua paciência. Sei que não podes suportar os malvados…)
Tudo isso são coisas extraordinárias.
(Sr. P. Roberto: É um elogio isso, não é senhor?)
Elogio ditirâmbico.
(Sr. G. Larrain: “… e pusestes à prova os que se dizem apóstolos mas que não são…”)
Ele é uma pessoa muito combativa, pode-se dizer que é o arquétipo do guerreiro.
(Sr. G. Larrain: “… e os apanhastes em falsidade. Tens paciência e sofrestes pelo meu nome sem te cansar…”)
Que elogio magnífico.
(Sr. G. Larrain: “… mas tenho contra ti que não mantivestes a tua caridade primitiva.”)
Quer dizer, houve tempo em que ele tinha muito mais do que isso.
(Sr. G. Larrain: “Lembra-te, pois, de onde caístes. Converte-te e faz as obras de antes. De contrário, venho ter contigo e removerei de seu lugar o teu candelabro caso não te converteres. Ao vencedor darei de comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus.”
(Sr. Guerreiro: Ao vencedor a quem ele se refere, senhor?)
À pessoa que vencer esse juízo tatá, que vencer, quer dizer, voltar ao estado primitivo, este lhe será dado a comer frutas do paraíso de Deus.
É um trecho que deixa pensativo, não é? Mas deixa muito pensativo.
* A Oração da Restauração a oração feita por uma pessoa que não se penitencia de um modo específico de tal pecado, é uma coisa difusa, é uma inocência primeva que a pessoa não conservou
Esse trecho se torna especialmente claro à vista da Oração da Restauração. Porque a Oração da Restauração é isto: é a oração feita por uma pessoa que não se penitencia de um modo específico de tal pecado, de tal outro e tal outro, é uma coisa difusa, é uma inocência primeva que a pessoa não conservou. Contra o mais a pessoa não se acusa de nada — é o que está aí. Mas como não conservou a inocência primeva, a pessoa teme porque vê que todo o resto fica frustro, e que, portanto, precisa recuperar a inocência primeva.
A Oração da Restauração, se vocês procurarem lembrar-se, tem isto, ela é isto. A concepção que ela tem é esta. E ela parte da idéia de que a pessoa, no começo da vida, e, portanto, também no começo da vocação, que a vocação a bem dizer é uma nova vida, o sujeito nasce de um outro com a vocação, tem graças, tem élans, tem movimentos, etc., que são a caridade primeira que Deus proporciona à pessoa.
Acontece que a pessoa, no impulso dessa caridade primeira, chega a praticar todos esses atos, mantém-se na prática desses atos, a pessoa não é acusada de não mais praticar esses atos, pelo contrário, Deus elogia: “Tu tens tais qualidades. Mas houve um amor de Deus primeiro que tu não tens mais, decaístes. Então lembra-te de onde viestes”. Quer dizer, dá a entender que altura onde essa pessoa esteve é muito superior às excelentes ações que ela pratica.
(Sr. G. Larrain: Lembra-te de onde caíste. Não é onde caístes, de onde, de que altura caístes.)
* “Tenha cuidado, porque conforme for Deus retira de ti o candelabro”: a pessoa que está em foco está iluminada por uma luz, mas que Deus retira da pessoa essa luz caso a pessoa não se emende
“Qual era a espécie de paraíso do qual você caiu. E tenha cuidado, porque conforme for Deus retira de ti o candelabro”.
Então vocês notam que a pessoa que está em foco está iluminada por um candelabro, iluminada por uma luz, mas que Deus retira da pessoa essa luz caso a pessoa não se emende. Caso se emende tem um paraíso de volta. É muito bonito.
(Sr. P. Roberto: Dá a impressão que tinha um paraíso antes, não é?)
Dá a impressão que tinha um paraíso antes e que recupera. Mas há uma coisa qualquer imponderável que deixa entender que é melhor ainda do que o que tinha primitivamente.
* “Algo que foi sempre o receio da minha vida, é de que eu não tenha conservado a totalidade do que eu tinha”
Eu tenho a impressão que isso reconduz, portanto, a meditações e a considerações antigas, em que não há um de nós — [corum primum sum ego?] — que não tenha o receio disto que foi sempre o receio da minha vida: é de que eu não tenha conservado a totalidade do que eu tinha. E apresentar-me diante de Deus com a idade com que eu estou e a pergunta é: “Tu fizestes isto, aquilo e aquilo outro, mas tenho contra ti essa história”. E retirar o candelabro… Eu não sei, eu estou vendo esta… nunca recorri a um exegeta para essa interpretação, mas pode ser que eu te tirarei a vida, não viverás mais, encerro contigo as contas. E até pode ser que seja um encerrar com misericórdia, para que não caias ainda mais.
É uma coisa que é cheia de ponderações, que estão na linha da pergunta que você levantou.
(Sr. Guerreiro: Exatamente o que me vinha à mente para perguntar ao senhor, é que toda essa problemática é relativa de nós em relação ao senhor. De modo que não é propriamente o texto que o senhor acabou de nos dar, ele é extraordinário na linha de ainda dar uma tônica, uma ênfase a toda essa problemática, à qual o senhor comentava com o sr. Tejedor, e aqui o que nos preocupava no momento era essa relação dos discípulos com o fundador.)
* Na luz do Fundador pode-se ver a luz de Deus
Isso pode dar-se perfeitamente da seguinte maneira: o amor de Deus de quem é religioso ou comum à situação como que de um religioso, análogo por vários lados à situação de um religioso, convivendo com o fundador exerce o amor de Deus amando o fundador que Deus lhe destinou. E o fundador deve ser o canal de uma porção de graças de caráter místico, como também de caráter ascético, para que os que foram chamados caminhem numa determinada direção. E aqui não se trata apenas de tomar o fundador mais ou menos como se considera, como se pinta, um homem de um desenho de curso de anatomia para curso secundário. Quer dizer, a gente desenha um desenho vazio de homem, pode ser qualquer sem expressão, mas aqui ficam os dedos, fica não sei o quê, os pés, as plantas dos pés, etc., etc. Não é isso, não é um anônimo, portanto, que é fundador como todos os outros foram fundadores, mas é uma determinada pessoa que tem luzes e que tem graças, para que nós, através dele, vejamos alguma coisa de Deus.
Talvez possa se aplicar a essa relação aquela frase muito bonita da Escritura: “In lumine tuae videbimus luminem” — na tua luz veremos a luz. Quer dizer, na luz do fundador pode-se ver a luz de Deus.
* O Fundador deve despertar o entusiasmo vivo na pessoa chamada: “Eu encontrei o homem, eu encontrei o caminho. E deste homem não me desligarei, deste caminho não afastarei os meus pés”
O fundador, quando ele age assim, o fundador normalmente deve agir assim, a pessoa dele enquanto emblemática, enquanto simbólica, mas enquanto simbólica da vocação, deve despertar o entusiasmo vivo que a pessoa chamada tem pela vocação. E tem, portanto, pela voz que o chama, que é a voz da graça. E o primeiro contacto com o fundador deve ser uma chama que acende e que diz: “Eu encontrei o homem, eu encontrei o caminho. E deste homem não me desligarei, deste caminho não afastarei os meus pés. Agora vou”.
Ainda hoje, por exemplo, eu tive uma coisa curiosa a esse respeito.
* O encontro do SDP com um novato vindo da Índia: Quando nossos olhares se cruzaram por primeira vez, “eu vi que ele se iluminou todo e sorriu”
O José Luís veio com um hindu que vinha pela primeira vez ao Brasil. Me apresentou o hindu rapidamente antes da missa, era para ser rápido porque havia pouco tempo, e trocamos umas rápidas palavras em que ele não entendia o que eu dizia, porque eu falava português, e eu não entendo inglês. Ele falava hindu e falava inglês, com o José Luís falava em inglês. Então, eu entendia um pouco o que eles diziam, ele não entendia nada do que eu dizia.
Foi uma coisa curiosa, ele chegou, tomou posição, o José Luís também, e começamos a conversar. Foi eu começar a conversar e que os nossos olhos — naturalmente como as pessoas que se encontram — se trocaram, cada um olhou para dentro dos olhos do outro. Coisa tão natural. Quando aconteceu isso eu vi que ele se iluminou todo e sorriu.
É um filho vindo da Índia…
(Sr. Guerreiro: Nunca viu o senhor, não é?)
Nunca viu, pela primeira vez viu. Mas ficou todo ele luminoso.
É um hindu de altura média e esguio. Os hindus que têm estado aqui quase todos são grandões, gordões, roliços. Ele é assim de outra maneira de ser, talvez seja de outro Estado da Índia, não o que é — também não importa. O fato é que para vocês realizarem um pouco a cena, ele sorriu e ficou assim falando para o José Luís para me dizer coisas. E quando ele desviava os olhos de mim ele voltava ao normal, quando ele parava de falar e olhava para mim, para estudar o efeito em mim do que ele tinha dito ao José Luís, ele se iluminava de novo.
* É a graça primeira que contém em semente tudo o que vem, com um “lumen”, que provavelmente ainda que ele seja fiel não se repetirá a não ser depois de muito esforço e muito empenho
A gente vê que era uma graça primeira, essa graça primeira um espírito superficial diria que é graça de principiante, e que, portanto, é uma graça que contém um pouco dos tesouros das graças futuras que deve receber, etc., etc. Mas isso é um engano, é o contrário, contém em semente tudo o que vem. E com um lumen, com uma coisa, que provavelmente ainda que ele seja fiel não se repetirá a não ser depois de muito esforço e muito empenho. Aí até se pode repetir com muito mais chama, com muito mais brilho, etc., depende da circunstância. Mas o fato concreto é que ali ele recebeu a tal graça primeira, que é a altura da qual se cai.
Isto é assim porque eu me lembro de minha infância. Mas vocês todos se lembram de suas infâncias.
(Sr. G. Larrain: Estamos lembrando do momento em que conhecemos ao senhor, também nós tivemos um momento em…)
Em que conheceram.
(Sr. G. Larrain: Ninguém esquece.)
* Há um determinado momento, que não é matematicamente o primeiro encontro, em que diz isto: “Eu encontrei o meu chamado, encontrei o meu caminho, isso eu vou seguir”
Nem sempre é matematicamente o primeiro encontro como foi com esse hinduzinho, o hinduzinho foi uma circunstância.
(Sr. G. Larrain: Há uma hora em que acontece isso, digamos.)
Isso, exatamente.
Então há um encontro, mas um encontro em que diz isto: “Eu encontrei o meu chamado, encontrei o meu caminho, isso eu vou seguir”. Mas diz maravilhado.
É mais ou menos como um órfão, vamos dizer, desses tipos aí de Santa Casa de Misericórdia… Vocês conhecem o negócio da roda onde punham os órfãos, conhecem essa história, não é?
Nas Santas Casas de Misericórdia — quase todas elas datam do tempo colonial, vocês vêem pela expressão e tudo o mais — entre outras coisas eles acolhiam as crianças das quais os pais queriam se desfazer, porque havia casos em que os pais matavam as crianças porque não queriam mais suportar, e jogavam nos arredores daquelas cidadezinhas pequenas. Era fácil fazer isso meio disfarçadamente, a polícia era também muito primitiva, não tinha meios de acompanhar, então matavam as crianças.
* As Santas Casas de Misericórdia tinha uma roda no muro onde os pais deixavam as crianças das quais queriam se desfazer
Essas Santas Casas faziam uma coisa assim, uma espécie de roda, de maneira que era no muro externo da Santa Casa. Inteiramente murado, apenas tinha uma roda de madeira com umas repartições internas para colocar crianças, uma coisa grande. Então aquilo girava, um pai ou uma mãe faziam uma pressão. Se o compartimento não estava inteiramente voltado para fora, faziam uma pressão pequena com o dedo, punham o compartimento inteiramente voltado para fora. Punha a criança dentro e às vezes alguma coisa, por exemplo: “Esse menino se chama Pedro, nasceu em tal data, em tal cidade”. Às vezes punham, por exemplo, junto uma joiazinha, alguma coisa, para ser entregue à criança quando atingisse a idade madura como prova de afeto do pai ou da mãe.
Havia um hábito da Santa Casa nunca investigar quem é que deixou a criança nem nada, para não desanimar o pai. Porque então o pai ou a mãe ia e matava a criança.
Depois registravam, num registro registravam tudo. Se havia algum objeto o objeto era numerado, era classificado, etc. Então se chamava a criança e a criança sabia que era enjeitada, que o pai ou a mãe, ou os dois juntos, tinham se desfeito dela.
Às vezes acontecia que o pai ou a mãe se tomavam de remorsos, ou emendavam a situação econômica então queria reaver o filho, chegava à Santa Casa e dizia: “Foi deixada em tal noite assim uma criança com tais circunstâncias — por exemplo, cor da tez, cor dos olhos, enfim, se a criança nasceu com uma pinta na testa, punha, etc., etc. —, e esta criança deve ter sido entregue aqui, eu sou o pai”. Pelo fato de eu descrever a criança eu indico que eu sou o autor da rejeição, me dê o meu filho, ou a minha filha. Então ia e davam, o filho ou a filha recobrava o pai que não tinha.
Podem imaginar naturalmente o maravilhamento da criança, desde que o resto… Às vezes era uma mãe que ficou velha, que quer uma criança para cuidar dela, que então manda pegar e tem um criado em casa. Quer dizer, depende de tudo.
(Sr. G. Larrain: Mas, enfim, pintada a coisa idealmente como o senhor a está querendo pintar se entende muito bem.)
Isso, exatamente. Não, e a instituição é bonita.
Hoje, a Santa Casa murou isso, [mas] eu ainda conheci a roda, vi a roda à noite, etc. Porque o sujeito deixava a criança, puxava um sino e saía correndo, porque não queriam que a criança ficasse sem nenhuma espécie de cuidado nem nada, exposta ao frio, ou à chuva, ou qualquer coisa, então saía correndo.
Eu nunca vi ninguém pôr uma criança lá, mas vi a roda inúmeras vezes ali na Rua Marquês de Itú. Eu creio que ainda poderia indicar em que lugar era a roda.
A gente pode imaginar, por exemplo, o seguinte. O pai ou uma mãe que estava sendo objeto de uma acusação muito grave, de um crime, de uma coisa assim, injusto. Mas ele estava vendo que ia ser preso e que ia infamar, o filho ia ser filho de um celerado, então: “ponho lá. Se eu alguma vez provar que eu era inocente, eu volto e pego a criança”.
* A sensação que o religioso tem encontrando o seu fundador, é a da criança da roda da Santa Casa que encontrou o pai de sua alma
Imagine a alegria da criança chegando e encontrando o seu pai ou encontrando a sua mãe, depois de ter passado a vida inteira num instituto, com boas freiras, eram freiras que tomavam conta, etc., mas vocês podem imaginar como isto é diferente da casa paterna, evidentissimamente.
A sensação que o religioso [tem] encontrando o seu fundador, é a da criança da roda da Santa Casa que encontrou o pai de sua alma. E essa é a sensação de afeto, de compreensão, de apoio, de disposição, enfim, de tudo o mais, que é a disposição que o fundador deve ter em relação à pessoa que vem ter a ele levada pela vocação, etc., etc.
A gente pode imaginar, por exemplo, que o filho depois de ter contacto esse assim com o seu pai decaia do primitivo afeto, porque vê que o pai não é um pai de sonho que ele tinha, porque sonhou o pai errado, sonhou, mas foi coisa errada. E começa a se desajeitar, enfim, tentações, etc., etc., e ele decai do primeiro maravilhamento. Essa é a história inicial de inúmeras vocações. Aí decai o amor de Deus, porque o amor de Deus vem nisso.
Então, a pessoa pode ainda produzir boas ações, mas ainda que esteja produzindo boas ações tenha cuidado porque decaístes da tua primitiva caridade.
* A pessoa tem com o fundador uma afinidade que é única, mas que não corresponde às tendências erradas dela. Ela deve combater essas tendências; mas se não corresponde declina no amor de Deus
(Sr. P. Roberto: Mas o senhor supõe que a pessoa tenha feito uma idéia errada do que…)
Eu estou supondo isso para explicar, mas na realidade não é. Ele conheceu o fundador, fez uma idéia certa do fundador, mas desagradou-se. Por exemplo, porque ele é preguiçoso e o fundador exige trabalho da parte dele, ou ele é mega e o fundador corta a ele a oportunidade de mostrar a mania de exibir e de ser vaidoso, e cem coisas assim. E ele em vez de receber bem ele recebe mal o que o fundador faz.
O mais profundo não é isso, é que ele tem com o fundador uma afinidade que é única, essa afinidade não corresponde às tendências erradas que ele tem. Ele deve combater essas tendências erradas para afinar com o fundador, mas como não corresponde ele declina no amor de Deus. Isso é o fato.
Quer dizer, portanto, a Santa Casa é um exemplo.
(Dr. Edwaldo: É uma coisa tão séria, que São Vicente de Paulo diz que ele acha que um membro de uma determinada congregação religiosa — ele fala especificamente da que ele fundou — que se afasta, ele acha que dificilmente se salva.)
Mas é evidente, eu acho que isso está bem.
(Dr. Edwaldo: Ele dá mais como certo que se perca.)
Eu acho que isso é uma coisa certíssima. Ainda que não tenha votos, porque não é uma coisa que está ligada ao voto, está ligada a uma disposição interna.
(Dr. Edwaldo: É essa afinidade que…)
Uma afinidade. Não, e depois que é única do fundador com cada um, de maneira que cada um tem o direito de se sentir compreendido pelo fundador como ninguém o compreendeu. Mas é preciso para isso que ele não se imagine idéias erradas, não venha com coisas, sei lá quanta loucura, quanta doidice que entra dentro disso.
(Sr. G. Larrain: […] Então talvez na próxima reunião o senhor pudesse descrever um pouco mais de como era o nexo que tinha com ela, e desde já pedimos ao senhor para o senhor pedir no dia 21 e 22, se pudéssemos também ir ao túmulo… O senhor certamente no dia 21 e 22 irá ao túmulo provavelmente, não é?)
Sim, é certo. Agora, não convém que combinemos nos encontrar…
(Sr. G. Larrain: Não, vamos à hora que…)
É, porque de contrário tem cem pessoas.
(Sr. G. Larrain: No dia 21 vamos todos lá e estamos no bolo, não importa. Mas se o senhor puder pedir a ela que ela nos dê uma participação desse amor. Porque é impressionante, as cartas eu ficava… fazem um bem extraordinário, tiram muita revolução de dentro da alma, não é?)
Ah sim, eu acho que sim, certamente.
(Sr. G. Larrain: Mas, enfim, como já é muito tarde o pedido poderia ficar para a próxima reunião, o senhor tratar desse nexo e esse nexo como é uma matriz para ela restaurar em nós…)
* Com cada um Deus tem um nexo único. Por isso, chegando ao céu, nós nos sentiremos queridos por Ele como nunca pensamos que fosse possível, e seremos inundados de uma felicidade inexprimível
Para se compreender, meu filho, esse nexo, é preciso compreender o seguinte. Com cada um de nós Deus tem um nexo único que não tem com nenhuma outra criatura. De maneira que quando chegar ao céu nós nos sentiremos queridos, e amados por Ele, e compreendidos por Ele, como nunca pensamos que fosse possível, e nos sentimos aí, a bem dizer, resolvidos pelo que temos de mais profundo. Com todos os nossos problemas, todas as nossas complicações, etc., etc., nós nos sentiremos resolvidos no mais profundo. E isso, vindo da parte de Deus para a criatura, inunda a criatura de uma felicidade inexprimível. Mas também a criatura vê em Deus alguma coisa que nem os bem-aventurados vêem.
De maneira que cada um é único e realiza uma forma de sociedade muito interessante — os que estão no céu é admirável, no céu só pode ser admirável — que é a seguinte: é que é uma sociedade íntima de todos aqueles que são únicos.
Eu não sei se vocês percebem que isto corresponde bem ao que o instinto de sociabilidade do homem pede. Ele pede de ser conhecido assim por alguém, e depois estar com uma porção de outros que o conhecem em graus diferentes. Isso forma propriamente a felicidade. No céu todos se conhecem assim, mas Deus, que é quem em importa, os conhece dessa maneira.
* O nexo com o Fundador pode dar uma felicidade enorme, mas pode dar um mal-estar interior indizível se a pessoa forma a idéia de polarizar sua vida por alguém que conhece fora da vocação
Isso se realiza muito com o fundador. O fundador às vezes, por exemplo, conhecendo uma pessoa na primeira vez quando apresentam, eu já vejo qual é o thau, o que é que pode dar, por onde a pessoa está pronta para dizer sim e pronta para dizer não, e tudo o que vem depois. De tal maneira esse é um nexo único.
Esse nexo pode dar uma felicidade enorme, mas pode dar também um mal-estar interior indizível se a pessoa, por exemplo, de repente forma a idéia de polarizar a sua vida por alguém que conhece fora da vocação. Sobretudo, naturalmente, casamento.
Ainda que não seja isso, não sei, vamos dizer, um chefe que… O sujeito estuda num estabelecimento científico e conhece ali o chefe fenomenal, inteligentíssimo como ninguém, e que isso e que aquilo, etc., e se entusiasma por aquele chefe. Conforme o modo de dar aquele entusiasmo, desarticula o do fundador; desarticulando o do fundador dá um mal-estar e um qui pro quo interno que já é um começo de inferno. É o problema da vida para nós que fomos chamados.
(Sr. G. Larrain: A “F” é tremendamente puxada nesse sentido, é uma coisa impressionante.)
Porque o poder com que ela chama é único, e, de outro lado, é o chamado por excelência ao qual não se deve atender. Porque aquilo pede um holocausto, eu te dou o que você não imaginava, mas te peço força também não imaginável. Você entra na via do inimaginável.
Sobretudo terrível era antigamente, quando a instituição da família tinha uma solidez, uma santidade e um poder de atração, muito maior do que hoje. É uma coisa que é difícil imaginar o que isto podia representar.
(Sr. G. Larrain: É evidente que tinha que… mas se sente que ainda pesa muito, não é?)
Pesa enormemente.
(Sr. G. Larrain: Para gente que diz que não tem “F”, que não sei o quê, na hora da apostasia vai direto à “F” mesmo, não tem jeito.)
Ah, não tem conversa. E não é só porque a “F” tem dinheiro não…
(Sr. G. Larrain: Não, é porque é “F” mesmo.)
… é porque é “F”, é “F”.
(Sr. Guerreiro: Com ou sem dinheiro é a “F”.)
É a “F”, está acabado e lá vai para a “F”.
(Sr. G. Larrain: É o contrário da vocação. É uma coisa que é por ser contrário, que mesmo que não seja tão bem instituída quanto era antes pesca muito a pessoa.)
(…)
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