Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 11/4/92 – Sábado – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 11/4/92 — Sábado

Como é que se dá o “tocar em Nosso Senhor”, analogamente ao fato narrado no Evangelho em que Nosso Senhor se sente tocado por alguém de um modo especial * No Santo do Dia, durante a leitura das narrações da Paixão feitas pelo Pe. Berthe, o SDP se sente tocado de modo especial * Um outro ponto da narração, representou para o SDP, do lado sensível, uma certa míngua * “Pelo amor à lógica, à coisa bem alinhavada, o ver alguma coisa mal alinhavada constitui um obstáculo à minha inteira abertura a uma graça que aquele fato fosse o portador” * Na luta da Revolução e Contra-Revolução há uma repetição da vida de Nosso Senhor, onde a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, é crucificada * Com a situação da Igreja, a todo propósito e a todo momento o SDP sente uma apunhalada. Alguns exemplos

(Sr. G. Larrain: … de continuar com o tema da última reunião?)

Eu nem me lembro mais qual é, meu filho?

(Sr. G. Larrain: Eu lembro ao sr. em uma palavrinha. Fizemos uma pergunta no sábado passado, perguntando ao sr., baseado naquele episódio do Evangelho, quando Nosso Senhor Jesus Cristo foi tocado por uma mulher, o padre Alonso Rodriguez faz um comentário […] [faz o resumo da última CSN] …)

Estou sentindo um cheiro de carne frita ou qualquer coisa assim, aqui não é? Um cheiro qualquer de comida aqui. Do quê?

(Sr. Paulo Henrique: Tem sim, alho sobretudo.)

Meu filho, você quer me examinar um pouquinho se tem alguém cozinhando alguma coisa aqui? Estou sentindo um cheiro de alho que vem até aqui à sala, e a essa hora da noite cozinhar aqui?!

Não é adorno para uma sala cheirar a alho.

[Sr. Fernando fala baixinho perto do SDP]

(Sr. F. Antúnez: Parece que o sr. Amadeu fez uma canjica aí, uma coisa qualquer. Tem um cheiro de comida lá dentro…)

Bom, vamos para… sursum corda!

* Como é que se dá o “tocar em Nosso Senhor”, analogamente ao fato narrado no Evangelho em que Nosso Senhor se sente tocado por alguém de um modo especial

(Sr. G. Larrain: SDP, esse tocar em Nosso Senhor e em Nossa Senhora sempre vai crescendo. […] se o sr. pudesse dizer como o sr. considera esse tocar de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, em que ordem de realidade isso se dá, como se dá, etc.)

É preciso andar devagar aqui. Eu disse isso que você está dizendo mas com uma retificaçãozinha. É que eu disse que havia nisso uma lógica, uma coerência entre as impressões, não era apenas a mera impressão que toca mas é uma lógica, uma coerência…

(Sr. G. Larrain: O sr. reduziu a princípios depois.)

É. Depois eu devo ter falado também é propriamente do princípio abstrato, não é?

Então, a gente toca Nosso Senhor por esta coerência nas impressões, você está vendo bem que por detrás tem princípios nessa coerência. Bem, e depois na pura abstração também, mas é por amor à coerência.

A coerência o que é que é? É um nexo lógico [inaudível] lógico, estabelecida entre várias coisas, várias idéias, vários conceitos. Um sistema filosófico, por exemplo, o tomismo, um castelo maravilhoso de coerências, não é?

Bem, então tem como ponto de partida premissas iniciais inteiramente certas, mas das quais a gente está inteiramente seguro porque elas são evidentes. São Tomás trata disso na Suma Teológica quando ele pergunta quais são os primeiros princípios a partir dos quais se raciocina, porque se toda a verdade decorre de um raciocínio, então…, porque toda verdade se baseia num silogismo, o silogismo se baseia em duas premissas e uma conclusão, então se acaba não pegando o começo. Porque então há a evidência direta dos fatos — as impressões estão nessa linha — e há depois a coordenação lógica dos vários fatos. Os princípios, são as certezas adquiridas por essa via, não é?

(Sr. G. Larrain: O sr. tratou disso, mas eu apenas por brevidade não… a [inaudível] da observação em princípio, clara completa.)

(Dr. Edwaldo: Falava da explicitação das impressões.)

As impressões a gente explicita, mas explicita e põe em coerência; agrupa-as de acordo com as harmonias internas que elas têm entre si.

Vamos dizer, por exemplo, a harmonia musical é no fundo uma coisa parecida com a lógica, não é? É a coerência de dois sons, quando na lógica existem as coerências de dois princípios, de duas verdades, maior, menor conclusão.

Bem, agora voltando ao caso, eu também creio não ter dito que eu certamente toco em Nosso Senhor. Eu digo abstratamente que se toca, vocês podem achar que eu toco ou não toco, isso é uma coisa diferente. Mas vamos tratar da coisa em abstrato, não é?

De fato se toca a Nosso Senhor assim.

(Sr. G. Larrain: Sim, mas isso tem caso concreto, por exemplo, não foi um abstrato que foi na igreja de Santa Cecília, foi o sr. concretamente que viu aquela imagem de Santa Cecília […] o sr. teve um flash […] não foi com uma pessoa em tese, isso foi consigo.)

Foi uma graça.

(Sr. G. Larrain: Uma graça que depois dessa impressão… então se o sr. poderia dar alguns outros exemplos, mas da vida mais recente do sr. em que Nosso Senhor vem digamos, e depois o sr. por abrir-se a isso toca nEle.)

Sim, quer dizer o seguinte, mais recentemente essa coisa se dá, de um modo geral, com as coisas da Igreja Católica, mas mais umas coisas do que outras coisas, não é?

* No Santo do Dia, durante a leitura das narrações da Paixão feitas pelo Pe. Berthe, o SDP se sente tocado de modo especial

Por exemplo, em certo dia pode ser que um terço de jaculatória de que você reze vários terços por dia com aquela jaculatória… lhe diz relativamente pouco. Você reza aquele terço porque sabe que aquela invocação é grata a Deus, e você deve fazê-la porque ela é boa, verum, bonum e pulchrum. É verdadeira, porque é verdadeira Doutrina Católica; ela é boa, e tem uma certa pulcritude. Você então oferece.

Bem, às vezes a mesma invocação feita num outro dia toca em você profundamente, porque naquele momento, naquele dia a graça tocou, e na hora em que a graça nos tocou, nós sentimos que aquilo tem algum conteúdo, alguma coisa que é toda especial.

Então, por exemplo, o João está dando para ler lá nessas reuniões dos enjolras à noite, uma narração feita por um padre redentorista francês, que se eu não faço confusão de nomes, eu já ouvi falar muitas vezes, um tal Berthe.

(Sr. G. Larrain: Ele é o autor da vida de Garcia Moreno também. É o mesmo que o sr. leu.)

Eu não me lembro de ter lido esse livro mas o João leu esse livro e achou muito bom.

Mas, esse livro que nós estamos lendo, — eu estava conversando com o João no caminho — ele é muito bonito e depois muito ortodoxo, muito direito, não há problema. Mas acontece na realidade o seguinte, é que o livro põe uma porção de cenas que tocam muito, mas que não está certo se isso tem base na Escritura ou é simplesmente uma composição legítima e até santa. E ele hoje pôs, por exemplo, uma coisa que eu não… senta meu filho! Por que não pegou aquela cadeira, meu filho?

(Sr. F. Antúnez: …)

Ele trouxe hoje uma coisa muito bonita na narração dele — o padre Berthe — que quando Nosso Senhor foi injuriado e cuspido e, etc., enfim tudo, ao longo daquela via dolorosa, Ele passou por um lugar chamado o local da infâmia ou uma coisa assim. Onde havia, provavelmente de pedra porque naquele tempo as coisas expostas ao ar livre se faziam de pedra porque resiste mais às intempéries, havia uma espécie de placar ou de mural onde se afixavam as sentenças condenatórias dos que iam ser crucificados. Então, no alto, de acordo com essa concepção, no alto do Gólgota havia o lugar para as crucifixões. E entrava-se no alto do Gólgota passando por um pórtico ou uma coisa desse gênero, onde estavam fixadas as penas e os crimes que os condenados tinham praticado. Então tinha dos três condenados: os editos de Pilatos. Um ladrão A fez isso, outro ladrão B fez aquilo, Nosso Senhor Jesus Cristo procurou levantar o povo romano contra o imperador e fez mais uma outra coisa qualquer, então seria morto. E, Nosso Senhor passando teria visto essa calúnia infame e também Nossa Senhora pouco depois passou por ali e viu também essa calúnia infame contra Nosso Senhor. E isso, naturalmente, foi um aumento de dor para Ele e para Ela.

Bem, essa idéia de que Nosso Senhor passou diante de um placard onde estava afixado de um modo infamante um crime que Ele não cometeu, do qual Ele era o contrário mas tanto quanto se pode imaginar Ele é o contrário. Nossa imaginação não é capaz de conceber até que ponto Ele é o contrário de qualquer crime ou de qualquer pecado. [Ele] passou por ali e com os olhos ensangüentados, etc., ainda leu aquilo e depois continuou.

Bem, aquilo a mim me tocou, naquele momento me tocou.

* Porquê o SDP se sentiu tocado

Por quê? Porque eu estou habituado — mas é uma razão meramente psicológica que eu vou dar — à descrição clássica dos tormentos d’Ele. Agora, imaginar, acrescentando-se à essa descrição clássica, que já nos dá a impressão de um auge de dores e de crueldade inimaginável. Imaginar acrescido a isso ainda mais esta infâmia, me pareceu de tal maneira ir além de todo cabimento, de toda medida, e todo propósito, como nem se pode dizer. E me deu uma impressão que me tocou muito.

Por quê tocou? Essa é uma razão meramente psicológica. O fato de me chamar muito a atenção, mais um auge junto a tantos auges que vinham sendo narrados antes — eu vinha ouvindo a narração e naturalmente vinha me indignando, enfurecendo-me, compadecendo, etc., etc., au fur et á mesure que a narração continuava. Mas, de repente, apareceu uma coisa inesperada com a qual eu não contava; era uma coisa que logicamente podia provocar em mim essa impressão. Mas uma coisa é impressão lógica que é o juízo feito, e que é banal, todo o mundo entende, não entra nenhuma inteligência especial nisso, todo o mundo entende, berra, urra, isto é uma coisa que passa da conta!

Bem, mas ao lado disso entrou uma graça para mim que me fez, vamos dizer, sentir de um modo especial aquilo. Sem os mil pequenos imponderáveis que aquilo acrescenta à Paixão, e ao medir isto tocando a minha sensibilidade mas por via da razão, fazendo a razão perceber coisas que normalmente eu não perceberia naquilo. E ao mesmo tempo tocando a razão e tocando o coração, no sentido antigo da palavra coração, quer dizer, tocando a minha vontade, tocando a minha sensibilidade, neste sentido da palavra sensibilidade, quer dizer, uma inconformidade, uma repulsa: “Isso não poderia ter sido feito, é uma coisa que não tem nenhum propósito ter feito isto. Eu tenho pena d’Ele, mas por que eu tenho pena, eu me indigno! Não posso suportar a idéia desse superávit de sofrimento.”

[Isso] é uma coisa que se distingue do mero juízo, do mero silogismo.

* A virtude que sai de Nosso Senhor é uma graça sensível que existe nEle, pela qual Ele toca o juízo para se ver com uma nitidez especial, e tocando o juízo, a vontade é tocada também

Bem, agora a virtude que sai de Nosso Senhor, a virtude aqui é tanto quanto eu posso imaginar, é uma graça sensível que existe nEle como causa e da qual a graça é um efeito, é uma coisa sobrenatural pela qual Ele toca ao mesmo tempo no meu juízo para ver isto com uma nitidez muito especial, e tocando meu juízo, no momento que meu juízo é atingido por isso, a minha vontade é tocada também. E aí por uma graça especial que é própria à vontade e própria à sensibilidade. Então, nisso eu todo fui, por algum tempo, tomado por esse fato, não é?

Bem, é um fato da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

* Um outro ponto da narração, representou para o SDP, do lado sensível, uma certa míngua

Agora, por outro lado o livro, se não houve no copista algum engano, o livro entra numa contradição pequena, uma ninharia. Mas ele diz a certo momento que São João retornava a Nossa Senhora —muito antes do alto da cruz — que São João ia constantemente do pretório de Pilatos, etc., etc., à casa de Nossa Senhora contar a Nossa Senhora o que estava se passando, e que depois voltava para ver de novo os fatos.

E isso, por exemplo, para mim representou do lado sensível uma certa míngua. Agora, por quê? Porque me parecia que Nossa Senhora tinha um conhecimento sobrenatural do que estava se passando, que o fato é tão tão arqui-transcendental que aquilo ou era comunicado por um anjo ou era visto diretamente por Ela por uma comunicação feita por Deus, mas que Ela sabia disto assim. E de algum modo também pelo instinto materno que faz pressentir algo disso, não é?

(Sr. Poli: Sobretudo nEla.)

Sobretudo nEla e que fazia com que tudo isto junto a tocasse muito. Que São João contasse, poderia contar alguma coisa mas me parece que não era a mesma coisa do que eu imaginava. De maneira que ele pura e simplesmente narrar que São João contava, dá a impressão de que se não contasse Ela ficaria sem saber. E essa hipótese me desagradou e, portanto, pelo contrário produziu uma certa aridez na narração essa hipótese.

(Sr. G. Larrain: Muito jornal falado que se dá ao sr. no grupo é inútil porque o sr. sabe e a pessoal está [inaudível] […] São João é uma espécie de exemplo para quem não acredita no discernimento do espíritos, não é? […])

Não tem dúvida, não tem dúvida.

Bem, depois ele mais adiante conta que Nossa Senhora estava na praça em frente ao pretório de Pilatos.

(Sr. Poli: Na flagelação?)

Não, na praça. Onde Ele foi também flagelado, mas onde se passaram várias coisas: Ele foi flagelado, o ecce homo foi lá, o diálogo dele com Nosso Senhor foi lá, era lá que ele estava quando a mulher dele, a tal Prócula, mandou um bilhete a ele dizendo que não mexesse com aquele Justo, que ela tinha tido um sonho, etc., etc., tudo isso se mistura, não é? — e se compreende. Mas que Ela estava lá desde o começo então.

Não se compreende que Ela depois tenha voltado para casa e tenha deixado os acontecimentos correrem. Como não é uma narração tirada estritamente do Evangelho, uma contradição dessas se compreende bem e é muito legítimo fazer uma narração em que os vazios do Evangelho alguém procura preencher com sua própria imaginação, desde que deixe claro que é sua própria imaginação.

Mas por causa disso — você veja como é a psicologia humana — também o que ele conta que Nossa Senhora viu Nosso Senhor e teve um encontro, perde alguma coisa de sua dramaticidade. Porque eu imaginava que Ela estava na casa d’Ela e que em determinado momento, — tocada pela graça, por um desígnio de Deus que Ela conhecia — Ela saiu e foi encontrá-Lo. E que foi pouco antes de Ele ser crucificado, até não tão pouco, mais ou menos na ocasião do Cirineu, eu imagino que Eles tivessem se encontrado. E que tivesse havido essa efusão de afeto, e que Eles tivessem até abraçado. Não sei vocês…

(Sr. G. Larrain: Nós acreditamos muito mais no sr. do que no padre Berthe.)

As Vias Sacras, etc., etc., a piedade [em] que a gente se hauri desde menino leva a isso, não é? Ele não, ele põe Nossa Senhora acompanhando desde o começo, vendo tudo, e portanto, já sabia como Ele estava quando se encontrou com Ele. A cena perde muito de seu pungente, perde muito de seu pungente. E há uma espécie de diminuição daquilo que a narração anterior tinha deixado em nós.

(Sr. G. Larrain: É uma narração meio científica francesa assim, não é?)

É capaz de ser isto, mas seja como for, seja como for, há uma diminuição, não é?

Bem, de outro lado também me parece que ele carrega um pouco quando ele fala que cada vez que Nosso Senhor se levantou, Nosso Senhor era objeto de bofetadas e de maus tratos, etc., quando estava se esforçando para se levantar e se levantava. Se fosse cada vez, seria um tipo de milagre, ostensivamente milagroso que não está com a linha geral do caminhado da cruz, em que Ele não quis fazer nada de ostensivamente milagroso porque Ele estava velado com toda a sua formosura, sua grandeza, sua majestade, etc., tudo estava velado. Não era lógico que Ele mostrasse ali uma força que pudesse deixar desconcertados os seus carrascos. Me parece.

Isso eu não cheguei a dizer ao João porque não deu tempo. Saltou para fora do automóvel — muito a la ele — enfim, todo um pequeno episódio engraçado, mas não deu jeito.

* “Pelo amor à lógica, à coisa bem alinhavada, o ver alguma coisa mal alinhavada constitui um obstáculo à minha inteira abertura a uma graça que aquele fato fosse o portador”

Bem, mas essas pequenas contradições — aí está o feitio de cada um — eu tenho a impressão de que um temperamento muito caloroso, muito entusiástico julgaria mais piedoso passar por cima disso. E eu sou muito analista e gosto de analisar a coisa em todos os pormenores; por mais que eles sejam piedosos eu gosto de ver que eles estão bem alinhavados, e que não entram em contradição consigo mesmos. Não quero exagerar nem um pouco o alcance dessas pequenas contradições; eu volto a dizer, são pequenas contradições e não têm importância nenhuma, mas pelo amor à lógica, à coisa bem alinhavada, o ver alguma coisa mal alinhavada constitui um obstáculo à minha inteira abertura a uma graça que aquele fato fosse o portador, conforme o feitio, conforme o modo de cada um, e a via espiritual de cada um, não é?

Agora, por aí Nosso Senhor quer ser tocado por todos de uma mesma família de almas de um mesmo modo, sem tirar alguma coisa de individual que caracteriza aquela alma e que é o modo de ela tocar, como também o modo de ela ser tocada. E que me parece que corresponde ao estilo do nosso cântico eterno no céu, que às vezes terá uma certa melodia e outras vezes não terá, de acordo com todo o coro da TFP cantando no céu, mas também de acordo com a nota individual de cada um.

Não sei se…, diga meu filho!

(Sr. Guerreiro: Está magnífico o que o sr. acabou de dizer. Agora, […] diante da Paixão da Igreja o sr. não podia explicitar um pouco como é que é esta… quais são são os pontos que presidem toda a vida cotidiana do sr.? Como é que é isto?)

* Na luta da Revolução e Contra-Revolução há uma repetição da vida de Nosso Senhor, onde a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, é crucificada

Meu filho, é uma coisa assim, a Revolução e a Contra-Revolução como sendo a repetição da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, quer dizer, a Igreja crucificada, etc., com Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo faz um só todo, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo. E levada ao último ponto para onde está levada, eu nem saberia dizer exatamente o que eu acho do ponto onde a Igreja está levada. Mas o que eu sei dizer é o que eu disse hoje à tarde na RR, que é uma coisa puxada, vai longe!

Quer dizer, nós estamos entrando na 4ª Revolução, a revolução autogestionária, mas que prepara todo o decór para de um momento para o outro o demônio aparecer e tomar conta das coisas, foi o que eu disse hoje.

Bem, eu me esquivei de uma pergunta que alguém fez lá, porque eu não quis tratar da pergunta… (…)

você fica colocado diante de uma situação que é essa, você fica convidado a supor que há um background de tudo isso que aparece tão infame, que ainda é muito mais infame.

Agora, não pode deixar de ser que uma coisa tão infame quanto o que aparece, tenha atrás de si coisas muito mais infames, não pode deixar de ser. E você fica levado a imergir o seu olhar em horrores que não tem… a cogitativa não abarca tudo. Porque a partir disso até onde é que você vai? É uma coisa que se fica sem saber o que dizer!

Agora, quem quer ter… o que eu acho que não convém espalhar isso pelo grupo porque aí começam as fantasias, é preciso ter muito bom senso, ter tudo muito calibrado para entrar por essa porta. Porque do contrário começam as fantasias, e aí as loucuras, não é?

(Sr. Guerreiro: E as exigências para que o sr. tome atitudes retumbantes, não é?)

É, e retumbantes, etc., e que não caberiam, não é o caso, etc., etc.

Bem, mas admitido isto, você é convidado a ficar diante de uma situação como diante da Paixão de Nosso Senhor; descrevem-se as dores d’Ele mas de fato deve-se descrevê-las, mas elas são indescritíveis. E se a gente não tiver como pressuposto que tudo que Ele e Nossa Senhora sofreram é indescritível, qualquer descrição morre. Quer dizer, de todas as dores d’Ele, de toda espécie, dores morais, dores físicas, o que possa querer, de tudo aquilo o que vem é que não há avaliação capaz de conter suficientemente essa descrição.



É um background doloroso, de dores e de vergonhas, que é extraordinariamente parecido com o quadro que eu pintava, neste ponto de vista.

* O que representava para o SDP a tiara papal; seu flash a propósito da tiara

E a meditação disso, a cogitação disso é acompanhada por mim continuamente com uma posição que é mais ou menos assim: tudo aquilo que na Igreja e na Civilização Cristã foi destruído, tudo isto quando eu considerava produzia em mim uma espécie de flash.

Vamos dizer, por exemplo, a tiara. Os italianos chamam triregno porque são os três reinos, o reino do céu, o reino sobre a Igreja, e o reinado sobre os estados pontifícios, se não me engano. Bem, pouco importa o simbolismo disso, um simbolismo legítimo, eu não estou concentrando a minha atenção nisto.

É o único rei da terra que se permitiu de usar três coroas superpostas, e que tinha naquela tiara com aquela forma, com aquilo tudo, algo que me dava um flash sobre o Papado.

Não sei se é assim com vocês também?

Um flash difícil de descrever, mas dir-se-ia que toda a venerabilidade do Papado, toda a respeitabilidade do Papado, a santidade do Papado, as cogitações que um Papa santo, mas não é só isso, um Papa digno, remoia em seu cérebro venerando a respeito de tais e tais problemas, de tais e tais questões, etc., etc., que aquilo tudo produzia no âmbito fechado da tiara, eu não sei que emanação sagrada, como seria sagrada a transpiração da fronte de um São Tomás de Aquino trabalhando.

Você imagine São Tomás de Aquino numa noite muito fria, em Paris, na Universidade onde ele era professor, põe um gorro — na Idade Média se punha — e nesse gorro ele transpirou apesar do frio, pela intensa ocupação do espírito dele em resolver um problema determinado. Aquele gorro, a gente tem a impressão que a santidade das idéias se condensou em suor e que esse suor aderiu ao forro, aderiu ao pano, e que nós temos ali uma como que — é uma impressão! — santidade consubstanciada, de sabedoria consubstanciada. De maneira que se um de nós tivesse que fazer um trabalho de muita responsabilidade, ousaria tomar o gorro pelo lado de dentro e persignar-se fazendo a cruz com ele, na esperança de que um pouco daquela luz, e sobretudo um pouco daquela santidade nos ajudasse a fazer um trabalho decente, não é? Assim também a tiara contém tudo do Papado, deste jeito, deste modo, etc., etc.

Agora, vem Paulo VI e imprime uma medalha, que representa uma mesa com uma mitra… não, é uma coisa mais ou menos assim: dois anjos; um anjo tira da mesa uma tiara e leva para o céu, e outro baixa do céu trazendo uma mitra; e a partir desse momento os Papas não usaram mais tiara mas mitras.

(Dr. Edwaldo: E a tiara dele já era aquela de ogiva, não é?)

Já era aquela de ogiva.

Você está vendo bem que existe ali uma censura à tiara que nós veneramos de tal maneira, uma censura que vale muito mais do que um ato de menoscabo ao gorro de São Tomás de Aquino.

Isso produz em mim uma espécie de flash, mas que é o flash do horror, não é o flash do belo, do pulchrum, mas é uma espécie de pegar com a mão o horror da coisa, e uma rejeição que vem do fundo da alma e que nega aquilo, mas que a meu ver é um viver de piedade.

Alguém dirá: “Não, porque não tem aí diretamente uma visão de misericórdia.”

Não vamos perder tempo refutando isto, é vácuo!

* Com a situação da Igreja, a todo propósito e a todo momento o SDP sente uma apunhalada. Alguns exemplos

Bem, a todo propósito e a todo momento eu tenho uma punhalada a esse respeito.

Quando, por exemplo, eu passo diante da igreja do Coração de Maria e me lembro do tempo em que nós rezávamos lá, e no tempo em que nós estávamos trabalhando naquela sedezinha da Martim Francisco, nós ouvíamos — se não me engano de quinze em quinze minutos — esse relógio dar horas; se não era de quinze em quinze era de meia em meia hora, certamente. Uns sinos paroquiaizinhos, sem pretensão, bonzinhos, dignos, bons, mas não passavam disso, mas tocando as horas e os quartos de horas — eu tenho quase certeza que era quarto de hora.

Bem, aquela imagem de Nossa Senhora, um pouquinho sulpiciana mas simpática.

(Sr. G. Larrain: Aquela que está em cima?)

(Sr. Poli: Da cúpula?)

Da cúpula, que em certo momento caiu. E a indiferença deles, a imagem permaneceu caída um tempão, virada para baixo. Depois um belo dia resolveram mandar consertar, eu acho que entrou um donativo só para isso.

(Sr. G. Larrain: Foi a CAL.)

Ah, foi a CAL?

(Sr. G. Larrain: O sr. sugeriu…)

* Na consideração da imagem do Coração de Maria o SDP viveu um dos momentos mais “flashosos” de sua vida

Bom, então será isso, a CAL repôs a imagem no lugar. Está bem mas, não reparou a coisa, aquela imagem para mim ficou caída, não é?

Ora eu, exatamente na consideração daquela imagem eu vivi um dos momentos mais “flashosos” de minha vida, que foi quando o meu primo reizinho morreu. E eu tive que ir em funerárias, essas coisas, etc., etc., eu andei metido pelo meio. Em certo momento eu parei diante daquela esquina à espera de um bonde que me conduzisse à Avenida Paulista, onde estava o corpo do meu primo no necrotério da Avenida Paulista. E amanheceu e eu comecei a ouvir passarinhos cantarem nas árvores feias da Rua Baronesa de Itu e da Avenida Angélica que fazem esquina ali, chama-se hoje Veiga Filho ali, se não me engano.

Bem, e eu não sei… me senti inundado de uma alegria que não era evidentemente motivada pela morte do meu primo, só podia me causar pesar. Mas era uma alegria, uma coisa… eu tinha a impressão que era o céu que estava se abrindo para mim. Aquilo tinha relação com aquela igreja, católica, verdadeira, dedicada ao Coração Imaculado de Maria, eu tinha muita devoção àquela imagem que está lá, rezava. Havia temporadas em que eu comungava lá todos os dias, dependia de Santa Terezinha ou lá, de acordo com a boa vontade do padre, etc. Mas havia temporadas inteiras que eu comungava lá, todos os dias, todos os dias, etc.

Bem, aquilo tudo parecia para mim uma aura especial daquelas recordações. Agora, passo hoje diante do Coração Imaculado de Maria, fechada. Vira e mexe fechada.

(Sr. Paulo Roberto: Parece que está abandonada, não é?)

* Olhando hoje para aquela igreja, o SDP, através daquelas portas de madeira sente olhos cegos de furor que o olham

Abandonada e mais ainda, mal habitada. Através daquelas portas de madeira super trabalhadas, feias, carregadas, olhos me olham cegos de furor. Uma antipatia, uma carranca, me olha e me vê através daquelas portas. Eu sinto isto, e sinto isto como uma coisa que toma a minha piedade e a atormenta, como alguém que me tomasse pelo braço e apertasse o meu braço a ponto de machucar.

Agora, coisas dessas eu sinto a todo propósito. Quando nós vamos a essas igrejas, amanhã é capaz de acontecer isso, fechada. Está acabado, e não tem explicação nem nada, fechou porque quis.

* Na igreja de N. S. Auxiliadora, é uma fassurota que abre para o SDP a porta da igreja: isso tem o seu simbolismo! “Essas coisas me amarfanham de todos os modos, a ponto de eu ter que resistir”

Ainda outro dia eu vi isso: encostamos na igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, eu acho que era você que estava comigo no carro. E, de repente, aparece uma meninota vestida — vocês podem imaginar como, espevitada vocês podem imaginar como — que vem por dentro… se não me engano veio do jardim… enfim, veio por dentro do jardim, abriu por dentro o portão, e depois abriu a porta da igreja. De maneira que era a fassurota que abria para nós a porta da igreja para entrarmos. Isso tem o seu simbolismo! [vira a fita]

Eu não entrei, nem me parecia que tivesse propósito eu entrar. Mas essas coisas me amarfanham de todos os modos, a ponto de eu ter que resistir. Alguém dirá: “Mas por que é que não aproveita e não reza para Nossa Senhora?” Rezo evidentemente, mas não é o principal a que é preciso atender. Se um flash me faz ver o odioso do que está se passando, eu preciso odiar; porque eu preciso prestar a atenção no flash que eu estou recebendo, não posso receber um flash… vamos dizer, para adorar o Sagrado Coração de Jesus em função de uma imagem, eu recebo esse flash mas rezo para Santa Rita de Cássia que está do lado de cá, uma outra imagem! Eu tenho que atender o chamado do flash e o chamado do flash é esse.

Agora, antigamente eu falava muito a respeito de impressões piedosas que tinha, etc., parei, porque eu não posso estar falando disso a toda hora, são coisas feitas para eu guardar comigo.

* Essa Semana Santa para mim, vai ser a Semana Santa da Igreja

Mas essa Semana Santa para mim, por exemplo, vai ser a Semana Santa da Igreja.

Eu estou certo de que vocês acham isso, eu peço que não repitam mas vocês acham isso ultra lógico, razoável, evidente, não é?

Como é lógico que eu olhe um pouco para o relógio.

(Sr. G. Larrain: Está tardíssimo sr.)

Não sei se é o que queriam ouvir…, se é isso?

(Sr. G. Larrain: Muito obrigado sr.)

Então graças a Nossa Senhora.

Vamos então rezar,

Há momentos minha Mãe…

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