Conversa da noite (Alagoas, 1º andar) – 22/2/92 – Sábado – p. 12 de 12

Conversa da noite (Alagoas, 1º andar) — 22/2/92 — Sábado

Comentários sobre uma foto da Senhora Dona Lucilia * Possibilidades de uma maldição para aqueles que criam tapeações, politicagem, etc. * O ponto chave é o chamado individual para cada um * Cada membro do Grupo é arrancado de seu “habitat” e projetado para um destino individual que é um destino especial, que supõe um agradecimento, uma generosidade e um “praesto sum” * Eu tenho afirmado e reafirmado a vocação individual de cada um, e eu os chamei, rechamei, deste modo, daquele modo, insistentemente * Quando a alegria da extirpação, do dar-se com entusiasmo, se tornar real, começou o “Grand-Retour”; o papel das “Fs” na recusa dessa entrega * Com as invasões e a aceitação de que os 500 anos de ação civilizadora nas Américas foi um erro, será uma tal mudança de padrão que a extirpação será feita pela ordem natural das coisas

(…)

Aahahahah! Eu acho que algumas coisas é difícil prever.

(Sr. Gonzalo: Difícil para o homem comum, mas o senhor não.)

Não, não, secreta et oculta tua no manifestasti mihi?. Mas então, qual é o nosso tema de hoje?

* Comentários sobre uma foto da Senhora Dona Lucilia

(Sr. Gonzalo: Temos umas fotos da Senhora Dona Lucilia que o sr. Horácio mandou. É a mesma circunstância dela com dona Iaiá…)

Não é a mesma não.

(Sr. Gonzalo: Ela está olhando para um menino que haveria aqui.)

Eu acho que é o bisneto dela. Naquela foto lá, ela estava muito entristecida, e aqui não, ela aqui, você vê que ela está comprazida e distraída com o menino.

(Sr. Gonzalo: O sr. Horácio mandou com uma pequena dedicatória para o senhor.)

Leia aí, faz favor.

(Sr. Gonzalo: Ao querido Senhor Doutor Plinio ofereço essa foto da Dama Lilás, sentada regiamente no seu salão azul.)

É, isso seria algum aniversário alguma coisa assim. E ela está também menos acabada do que na outra foto, ela está um pouco mais…

(Sr. Gonzalo: Não é no mesmo dia?)

Não, não.

(Cel. Poli: Ela estava com o colar aí.)

(Sr. Gonzalo: Essa foto o senhor conhecia?)

Tenho idéia dessa foto.

(Sr. Guerreiro: Ela está com o colar…)

Portanto, provavelmente papai não tinha morrido ainda. E ela está ainda menos velha do que do momento da morte.

(Dr. Edwaldo: Ela está com o rosto muito mais cheio…)

Rosto mais cheio e mais animada.

(Sr. Gonzalo: Queríamos entregar para o senhor.)

Fico muito agradecido.

Fernando, você queria fazer o favor de deixar isso em cima de minha escrivaninha?

* Em toda a nossa história, o horizonte nunca teve o tamanho que tem agora

(Sr. Gonzalo: Nós estávamos comentando a Reunião de Recortes de hoje com um panorama grandioso, com a invasão da Europa de um lado e depois com todo o problema da América com os índios, a apostasia da “estrutura” completa. […] E o momento da luta da Revolução com a Contra-Revolução até agora parece que não houve. […] E a isso se soma a eventual adesão de certo clero, ainda que seja por razões muito…, mas com uma divisão dentro ….)

E [que] se possa apresentar ao público, essa é que é a questão.

(Sr. Gonzalo: […] Foram mil sacerdotes que apoiaram o livro da “Igreja do Silêncio”, na Espanha…)

Foi uma coisa notável.

(Sr. Gonzalo: Se isso foi para um livro de outro lugar, a questão da Conquista pode pegar…)

Pode.

(Sr. Gonzalo: […] O que se pode levantar em matéria de problemática para eles, não é brincadeira.)

Ah, não, não é.

(Sr. Gonzalo: Portugal a mesma coisa. […] O que significa que há uma massa a ser movida nessa matéria não pequena.)

Não pequena.

(Sr. Gonzalo: De outro lado, o senhor está lançando o livro da nobreza exatamente nesse momento para defender alguns restos, e levanta toda essa campanha que vai ser mais importante do que a campanha da Lituânia. […] O senhor tinha dito que a Senhora Dona Lucilia não cumpriu uma grande parte do papel dela, e o senhor concordava que estava nesse papel, dar graças de sacralidade muito grande para os membros do Grupo…)

É.

(Sr. Gonzalo: Em vista de toda esta situação como é que o senhor veria esse papel da Senhora Dona Lucilia em função desta situação toda? Porque o panorama é tal que nunca se deu uma coisa assim desse tamanho.)

Não, não, em toda a nossa história, o horizonte nunca teve o tamanho que tem agora. É inteiramente líqüido.

* Possibilidades de uma maldição para aqueles que criam tapeações, politicagem, etc.

(Sr. Gonzalo: Aí não adianta nada a não ser participar dessa unicidade. […] Porque aí ou se é inteiramente um ou se leva a breca mesmo, tanto que o senhor chegou a dizer que seria tentado a pedir uma maldição de Nossa Senhora para quem está fazendo o papel de Ananias e Safira…)

Não, e eu disse mesmo… E foi positivo o que eu disse.

(Sr. Gonzalo: Foi um recado claríssimo para todos nós.)

É, isso é certo. Porque se nessa altura começa gente a me criar tapeações, politicagens, etc., etc., se é necessário eu deito uma maldição. Para isso existe a maldição. E outra coisa, o sujeito nunca saberá se eu deitei ou não. Pode ser que eu deite até em público, mas pode ser que eu no meu foro privado peça a Nossa Senhora que maldiga e está acabado.

(Sr. Gonzalo: A gravidade de todo o quadro foi fechado com a chave de ouro dessa maldição.)

Foi, foi!

(Sr. Gonzalo: Daí levanta o pedido se o senhor podia aprofundar mais…)

* O ponto chave é o chamado individual para cada um

Eu acho, meu filho que os vários assuntos que você levanta formam um anel e que se pode, portanto, a partir de qualquer deles chegar ao outro e portanto tratar da coisa no seu conjunto.

Eu acho que o ponto, para efeito de vida espiritual, de cada um e para efeito de interesse coletivo da Causa, o ponto chave é o seguinte. Quando eu fiz sentir na reunião, eu fiz sentir muito claramente que havia um chamado individual para cada um, essa é a questão. E que esse chamado é como se só aquele tivesse sido chamado, e que não adianta porque de qualquer maneira o chamado está feito e aquele está destacado de todos os outros homens, ele está colocado num lugar único e tem que responder pelo chamado que recebeu.

Vamos imaginar uma coisa diferente. Que por exemplo, vamos dizer que Nossa Senhora dispusesse que eu passasse um ano, dois ou três doente e portanto sem poder dirigir a TFP. E que um de vocês recebesse a visita de um anjo e dissesse: “você foi chamado, agora tem tais graças, enquanto o Plinio estiver doente, você é chamado a arcar com esse fardo”. Bem, mas é uma coisa individualíssima. Seria preciso, para corresponder a esse chamado, que vocês se sentissem extirpados de dentro da lei comum, do tram-tram comum, dentro dos desígnios da Providência comum, vocês se sentissem extirpados, como que arrancados e colocados numa economia da graça e da Providência diferente, e diferente da [economia] de todos os homens, e como tal colocados numa situação prodigiosa, porque ou vocês se dariam inteiramente e então teriam um lindo destino, ou vocês não se dariam e teriam então, uma situação que eu hesito em qualificar, mas que seria pelo menos a de desertor. Pelo menos. E desertor que recusa um generalato, é um general que foge, não é um soldado comum que foge.

Dado o número muito pequeno de elementos da TFP em face dessa avalanche, é evidente que há uma tarefa pessoal para cada um. Pode não ser esta tarefa de fazer aquilo, aquilo outro, mas é uma série de tarefas que recai sobre um, ora num lugar, ora noutro, etc., como um soldado na guerra, ele tem que ser herói num lugar, herói noutro, herói noutro, ele tem que combater em tal lugar, tal lugar, isso não tem importância, a questão é que ele tem que ser herói a serviço de seu país durante toda a guerra, e está acabado. E isso acontece conosco também.

Há aqui uma coisa qualquer que causa uma espécie de arrepio, e é essa extirpação de dentro das regras comuns da economia da graça e projetado para um acontecer completamente novo.

Eu não sei se eu explico bem?

* Cada membro do Grupo é arrancado de seu “habitat” e projetado para um destino individual que é um destino especial, que supõe um agradecimento, uma generosidade e um “praesto sum”

(Sr. Gonzalo: No começo da vocação se sente muito isso.)

Muito!

(Sr. Gonzalo: É tirado de dentro para fora…)

Exatamente. Como se pega por exemplo uma pedra preciosa dentro de uma mina e leva para o joalheiro, para o joalheiro burilar e pôr numa coroa. Bom, a pedra foi arrancada do subsolo onde estava o habitat dela, e da obscuridade e das trevas do anonimato foi levantada para a coroa de uma rainha ou de um rei. Assim também cada membro do Grupo é arrancado à maneira dessa pedra e projetado para um destino individual, mas que é um destino idêntico para todos nós, mas que é um destino especial para cada indivíduo. Não é um destino comum, é um destino individual, e que supõe um agradecimento, uma generosidade, um praesto sum que é de dar-se generosamente e não se deixar com as raízes presas na mina. Eu acho que essa comparação mais ou menos serve com certa precisão ao que eu estou querendo.

Eu disse isto ontem sem empregar esta metáfora. Eu estava muito cansado… Ontem eu tratei disso sumariamente, hoje na Reunião de Recortes, eu fui mais preciso. Mas já ontem eu disse isso e foi porque eu notei uma espécie assim, como quem diz: “bem, é uma coisa literária, uma metáfora que ele está usando de que nós todos fomos chamados, etc., etc., e num certo sentido relativo, é verdadeiro e que ele está empregando para nos afervorar. É um processo de afervoramento que ele está usando, legítimo, mas que não deve ser tomado ao pé da letra.”

Ora, isto é o que não é verdade, porque deve ser tomado ao pé da letra. E isso eu digo com a responsabilidade de minha vocação, não é brincadeira. E por exemplo, não excetuo ninguém dentro dessa sala deste princípio; por exemplo, logo de cara.

(Cel. Poli: O primeiro movimento nosso é de dobrar o joelho e agradecer porque é uma super-vocação…)

Uma super-vocação.

(Cel. Poli: O senhor está dizendo uma coisa aqui que numa vida não se pode ter motivo para alegria maior do que esse.)

Não pode ter motivo.

(Sr. Paulo Henrique: “Bendito o dia em que eu nasci…”)

* “Eu tenho afirmado e reafirmado a vocação individual de cada um, e eu os chamei, rechamei, deste modo, daquele modo, insistentemente”

Foi o que eu disse ontem à noite. Que todo e cada um devia dizer isso por causa da bem-aventurança desse chamado individual, deveria dizer: “Bendito o dia em que nasci, bendito as estrelas que me viram pequenino, etc., etc.”

Eu tenho tanto afirmado e reafirmado a vocação individual de cada um, e como essa vocação se pôs aos meus olhos clara para cada um e como eu, a bem dizer, os chamei, chamei, rechamei, e quantas outras vezes chamei deste modo, doutro modo, insistentemente, isso supõe uma renúncia.

E é essa renúncia que se exprimia na “Sempre Viva” já com a mudança de nome. Quer dizer, muda de nome porque é como uma outra pessoa e não é mais aquele, perdeu a identidade com aquele outro, e aceitou a extirpação. E daí também uma convicção de que a pessoa está colocada para ver as estrelas, para ver as grandezas, para ser grande, grande na dor, grande no sacrifício, mas grande na vitória, grande na glória, desde que a pessoa aceite essa extirpação e que tenha esperança nisso, e queira isso.

Ora, há certo gênero de gente que nem a glória terrena deseja, para poder continuar no tram-tram da sua projeção inicial.

(Sr. Paulo Henrique: De seu próprio egoísmo.)

De seu próprio egoísmo. É puro egoísmo, é uma maneira de egoísmo. E hoje, quando eu insisti nisso no auditório, eu notei a mesma coisa. Quando eu tratei disso tratei bem claramente e notei que eles…. Como eu falei de modo mais impressionante, não foi possível a eles tratarem como uma coisa…, um fervorinho, eles viram que era uma coisa séria, mas não os encantou de nenhum modo. Ora, essa coisa ou encanta ou não está bem recebida. É como um soldado que parte para a guerra, se ele não parte entusiasmado, o exército está derrotado. Não adianta [vir] com coisa que pode acontecer de bater uma bala dentro do olho, ou aqui e então ficar gagá, etc., etc., porque ou o sujeito parte entusiasmado ou ele não é um elemento positivo, ele é um elemento negativo.

O que é meu Paulo Roberto?

(Sr. P. Roberto: É isso mesmo.)

A questão é… uma pessoa pode dizer: “Dr. Plinio, eu concordo, mas eu não sinto em mim esse alento”.

Eu digo: está bem, peça. Peça a Nossa Senhora, peça com insistência que ela recomponha em você esse alento que outrora você teve. Aí está a Oração da restauração com pequeníssimos retoques a oração pede isso. É a própria. Bem, e peça essa oração, confie que Nossa Senhora dará. De um jeito ou doutro, ou doutro ainda, Ela dará.

* Quando a alegria da extirpação, do dar-se com entusiasmo, se tornar real, começou o “Grand-Retour”; o papel das “Fs” na recusa dessa entrega

Agora, eu creio que se este ponto se tornar sensível, nós teremos que a oração Emítte spíritum túum terá começado a ser atendida, porque isso é o começo da vinda do Espírito Santo.

(Sr. Gonzalo: Quando isso se torna sensível.)

Exatamente, quando a alegria da extirpação, do dar-se com entusiasmo se tornar real, começou o Grand-Retour. Mas esse é um ponto muito sensível, muito especial, e é a recusa dessa extirpação que em grau maior ou menor fica na responsabilidade de cada um. A gente vai ver, de um modo ou doutro acaba sendo isso.

Naturalmente eu vejo bem “F” entra pelo meio…

(Sr. Gonzalo: O senhor mandou cortar?)

Não. Está sendo gravado?

(Cel. Poli: Sim.)

A “F” nós sabemos quem é. É evidente que entra pelo meio o gosto de aderir à “F”, de ser um só com a “F”, ser uma célula deste tecido vivo que é a “F”. Esse é um gosto ao qual as pessoas às vezes dão uma espécie de adoração. Não quer perder esta identidade. Bom, é isto que é preciso perder, é isto que é preciso dar.

Agora, se a pessoa recusa, qual é o efeito dessa recusa?

Eu não sei, ajuste com Nossa Senhora. É diferente de começar a fazer um complô de intriguinhas e “fosquinhas” para a qual pode ir a maldição. Aqui é uma coisa menos horrível do que as “fosquinhas” e briguinhas, etc., etc. Mas sem que eu diga que vá uma maldição, eu não garanto que Nossa Senhora não amaldiçoe.

(Sr. Gonzalo: É um pouco Ananias e Safira o que nós fazemos.)

Ananias e Safira, e depois é das tais coisas, foi chamado, não quis, é ou não é o moço rico de Evangelho.

(Sr. Gonzalo: Depois muda de nome, mas quer continuar com o nome antigo da “F”, é o caso nosso…)

É, exatamente.

Aí, naturalmente… Porque essas coisas são engraçadas, aí a pessoa perdendo a perspectiva da “F” tem toda espécie de coragem, mas do contrário ela adota aquelas tabelas de valores da “F” — e cada “F” tem sua tabela de valores — e lhe parece aquilo tão verdadeiro e depois tão agradável, tão consentâneo com suas próprias qualidades e com seus próprios defeitos que a pessoa não quer largar daquilo. Aquilo a pessoa não quer deixar de ser.

* O método de Santo Inácio de Loyola quebrar o apego às “Fs”

Santo Inácio de Loyola fazia uma coisa terrível. Ele recebeu na Companhia de Jesus muitos fidalgos, etc., e mais de uma vez o sujeito apresentava-se com roupas de fidalgos, porque no tempo deles os fidalgos tinham uma indumentária própria. Mais de uma vez ele incumbia o sujeito de começar o seu noviciado sendo irmão servidor da Companhia, e mandava fazer os serviços de servidor com trajes de fidalgo. Não renovava e o traje de fidalgo ficava caindo aos pedaços, e o povo na rua dava risada: “Olha que fidalgo é esse!” E o sujeito tinha que agüentar e comprar laranja, comprar banana, ou comprar não sei que fruta, em Roma, na gargalhada geral da molecada, etc., etc., que era para extirpar no indivíduo aquela condição de “F”. É necessário! E nós devíamos tomar isso em consideração e dar-nos a esse ponto. Porque do contrário no que é que isso dá?

(Sr. Gonzalo: Muito vivo o problema.)

* O êremo da comissão B se dissolveu na maior naturalidade da parte dos eremitas, por causa da vontade subconsciente de não se deixar arrastar

Todos que estão aqui sabem que eu os quero muito. Dois dos que estão aqui não levem a mal de eu lembrar isso. Depois eu ponho um terceiro na história.

Mas o êremo da Comissão B. O êremo da Comissão B representou isso em tese: saírem dos respectivos meios, irem morar num êremo e depois se dedicarem exclusivamente ao estudo que era o estudo da opinião pública, etc., etc. Mas não houve vontade de extirpar-se, houve uma mudança de casa, mas não houve vontade de ser outro. De tal maneira que quando por essa ou aquela razão o êremo se dissolveu, dissolveu com a maior naturalidade da parte dos eremitas, não houve uma lágrima vertida, não houve uma estranheza nem nada, é como quem muda de pensão, simplesmente.

No começo, naquela casa onde morava o Átila e o miserável do Felipe, havia tantas graças — eu não sei se vocês sentiam — mas tantas graças que saíam de lá, que era uma coisa de chamar atenção. Eu me lembro o Plinio Xavier que não peca por excesso de sensibilidade nessas matérias dizer que ele estava na casa principal e que sentia de longe as graças daquela casa lá.

Bem, tudo isso se desfez com a naturalidade, combinou-se com mais facilidade do que se combina por exemplo de mudar dessa casa para uma outra, e foi-se, e está acabado. Os papéis correspondentes foram fechados, colocados num sarcófago e a vida continuou. Nunca terão a idéia do que terá sido o fundo disso. Mas é uma subconsciente vontade de não se deixar arrastar.

Aliás, eu me lembro que nessa ocasião eu quis levar lá para o êremo, também, você, o Péricles, o Lanna e o José Ciro e o Abel. Teria constituído uma plêiade e se tivessem levado a sério a extirpação, junto com vocês, teria sido o que a geração de vocês podia dar de melhor, estava ali. Teria sido uma plêiade.

Eu me lembro que fiz uma reunião para estes de Minas no São Bento — não sei se meu Paulo Henrique estava presente ou não.

(Sr. Paulo Henrique: Estava sim senhor.)

Bem, eu falei, falei, acompanharam com atenção, pelo visto até se distraíram com o que eu estava dizendo, quer dizer a reunião não lhes foi penosa, mas quanto a ir nada! Nem satisfação nem nada.

Por quê? Porque….

— “Para quê?!”

No fundo: extirpação.

Se naquele tempo tivessem simplesmente vocês dado esse exemplo, a história do Grupo mudava. Foi uma vez que foram chamados e que responderam “talvez”. E está acabado.

Agora, são os fatos que a gente tem que pedir de toda maneira a Nossa Senhora para não se repetirem, porque a coisa chegou a um ponto que é um ponto agudo, e que não pode ter repetição. Agora, corre o risco de se repetir, porque cesteiro que faz um cesto faz um cento. E pode sair.

* Pedir a intercessão, o apoio, a indulgência sem fim da Senhora Dona Lucilia é altamente animador

(Cel. Poli: Dada a missão especial da Senhora Dona Lucilia a ser cumprida em ordem a nos mover nessa linha, não tem algo que se possa fazer para isso?)

Eu acho que o pedir a ela, pedir a intercessão dela, o perdão dela, o apoio dela, a indulgência sem fim dela, mas o desejo real dela de que as coisas sejam assim, a paciência dela, pedir tudo isso como intercessora junto à Nossa Senhora, é altamente animador. Porque a gente vê aqueles enjolrinhas, aquela gente toda — ainda hoje eu vi, estivemos no cemitério de manhã e vimos — fica o tempo inteiro ali rezando. Comentamos muitas vezes isso, não temos que repetir, há um diálogo mudo com ela muito mais expressivo do que qualquer diálogo falado.

Bem, peçamos isso, não desanimemos, pensamos na misericórdia, na bondade que tudo isso traz, etc., etc., etc. Mas não paremos de esperar.

* Nosso caminho é um caminho de becos-sem-saída, trata-se de romper as barreiras do beco e de transformar isso numa avenida

Ainda ontem eu estava dizendo isso a D. Bertrand uma metáfora que nós usávamos — com o tempo tem sido usado menos — mas que diz muito isso, é a “avenida dos becos-sem-saída”. Nosso caminho é um caminho de becos-sem-saída; um depois de outro, depois de outro, trata-se de romper as barreiras do beco e de transformar isso numa avenida.

Bem, a toda hora nós encontramos também na vida espiritual becos-sem-saída, talvez seja principalmente na vida espiritual que nós encontremos becos-sem-saída, é possível perfeitamente isso, eu não contesto isso. Mas o fato positivo é que então a priori peçamos com confiança porque todo esse nosso caminho é um caminho de becos-sem-saída. Tem sido até aqui, por que não será daqui por diante? Vai ser cada vez mais, então, tenhamos confiança, não nos desesperemos, ela arranja, ela ajeita, e devemos pedir à Senhora do Quadrinho muito especialmente isso.

(Cel. Poli: Para que essa extirpação seja possível é necessário um encantamento pela vocação que nos leva a achar todo o resto desprezível como de fato é. Agora, a Dona Lucilia teve esse encantamento, e a esse título não é uma intercessora que…)

Muito boa, uma intercessora adequadíssima a vários títulos, isso é um dos muitos títulos.

Diga, meu filho.

(Sr. Guerreiro: […] Aí fica todo um programa de vida indicado pelo senhor que é do ponto de vista natural de arrebentar qualquer homem. Ora, a gente pergunta o seguinte: como é que o homem deve lidar com isso? É só a fé que deve pedir, ou tem alguma forma de exercício moral, alguma forma de exercício da mente, da alma, por onde a pessoa vá se preparando para isso sem ser um jogo de “science fiction”. Onde é que estaria a sustentação filosófica, metafísica? Porque como nós não temos olhos inteiramente sobrenaturais, nós somos catacegos nisso. Então, quais são os bastões que o senhor podia nos oferecer para nós andarmos com alguma facilidade dentro desse cenário? Porque é uma afirmação tão densa, tão séria, num relance assim fica definido para as nossas vidas futuras, que então o lidar com essa questão toda passa a ser o exercício fundamental de nossa alma.)

É, é isso. Você está vendo perfeitamente, é isso!

(Sr. Guerreiro: Então o senhor não teria condições de explicar um pouco mais esse assunto, ou exemplificar não sei, aquilo que seria mais apto para as nossas almas meio cegas?)

* Com as invasões e a aceitação de que os 500 anos de ação civilizadora nas Américas foi um erro, será uma tal mudança de padrão que a extirpação será feita pela ordem natural das coisas

Meu filho, há uma primeira coisa que é a seguinte: como eu estive falando hoje à tarde na reunião e nas reuniões anteriores, nas conversas, etc., essa questão das invasões, das migrações, etc., de um jeito ou doutro dar-se-á isto ou algo de parecido com isto, mas alguma coisa nesta linha acontecerá. Os recortes lidos hoje na reunião foram muito característicos nesse sentido.

Agora, isto traz consigo uma transformação das condições concretas e práticas de existência de cada um assombrosas. Eu não sei se você já imaginaram… Vamos imaginar, feitas as migrações, e, portanto, a Europa toda ocupada por bérberes, etc., etc., misturados com gente de outra natureza, etc., e mandado um bom número deles para nós, porque nós não escapamos disso: o Menen já se dispôs a isso, mas você está vendo que aqui tem gente que quer isso, facilita de todos os modos, etc.; pedido do Papa para que isso se faça, etc., etc., acho que os senhores não têm a menor dúvida de que mais ou menos sai isso.

Então, isso [as migrações] como modifica todos os padrões ideais dos homens no meio dos quais nós nos movemos.

Quer dizer, a partir do momento que a Europa vire bérbere, ou vire eslava, toda uma série de coisas que nós achamos que devem ser de um certo jeito perecem e começa-se achar que devem ser de outro jeito, ou não se sabe mais como deve ser; é um perecimento dos padrões. Com o perecimento dos padrões, o perecimento de um consenso que mais ou menos ainda existe a respeito de uma porção de coisas.

Vamos dizer uma coisa, por exemplo essas duas saletas aqui. Essas duas saletas são de um estilo antigo, mas há um consenso de que há um direito de ser assim, não há uma obrigação de ser assim, mas há um direito de ser assim, e que quem monta uma saleta assim, está em dia com os padrões aceitos. Mas a partir do momento em que na Europa isso deixe de ser o padrão, aqui não se tem segurança nenhuma. Pode ser uma coisa ridícula de velha, anacrônica, pode ser uma coisa admiravelmente arcaica, pode ser tudo… E evidentemente, é uma espécie de selvageria que invade, criando o clima das selvas mais ou menos, na Place Vendôme onde tem o Ritz ou em qualquer outro lugar de Paris, ou então naquela Avenida que conduz […inaudível], ou, ou, ou….

Bem, isto é uma tal mudança na mentalidade de todo o mundo que já não tem muita mentalidade, que há uma capitulação diante de uma semi-selvageria.

De outro lado, o aceitar mais ou menos como defensável que esses 500 anos de ação civilizadora na América foram um erro, porque o que é preciso é retrogredir até onde estavam os índios, se isto prevalecer, é também uma tal mudança de padrão que é uma outra vida. E as próprias extirpações serão feitas pela ordem natural das coisas. O sujeito vai ser ejetado, é como uma pedra que está no fundo do Vesúvio e vem uma erupção, e vem aquele ímpeto daqueles gases e joga aquela pedra lá, e ela cai dentro do mar, ela passou por uma modificação completa de condições de existência.

* Por castigo, o solo no qual estão implantadas as nossas raízes está sendo erodido; e se nós não aceitarmos o destino que nos é oferecido, seremos como árvores desenraigadas e atiradas no chão

Bem, a mesma coisa se dará com o destino individual de cada um se isto for para frente, com uma agravante que é preciso não perder de vista. Vocês, aliás, sabem bem disso. Se não tiram todas as conseqüências é porque não querem a extirpação. É que a instituição da família está moribunda. Eu não tenho a honra de conhecer as famílias de vocês, portanto estou falando sem picuetada contra ninguém, mas vocês sabem que está moribunda. E não me levem a mal de dizer, embora eu não conheça as famílias de vocês, em concreto as de vocês estão, como a minha está, como todas estão moribundas. Isso determina mais cedo ou mais tarde outro esfarelamento e outra…

De maneira que o solo no qual nós estamos implantados e que estão implantadas as nossas raízes, por um castigo da Providência está sendo erodido, e se nós não aceitarmos o destino que Ela nos oferece, nós vamos ser como árvores que foram desenraigadas e atiradas no chão. Não há outro meio de refletir a respeito desses fatos. Ou vocês acham que eu estou pessimista?

(Não.)

(Sr. Gonzalo: …) [vira a fita]

eles serão os primeiros a migrar das condições em que estão para a 4ª Revolução.

(Sr. Gonzalo: Mas se nós não desenraigamos agora, pode ser que nós terminemos na 4ª Revolução também.)

Perfeitamente! Perfeitamente!

Agora, eu quero ver só daqui a oito anos, quando vier a passagem do milênio e do século, e que, em tese, todo o mundo deveria estar indo para as igrejas para o Te Deum… Mamãe contava muito a mudança de século como é que tinha sido, na catedral, etc., etc. O como vai ser isto no ano 2 mil? E vocês que ainda estarão mocetões nessa ocasião, como é que considerarão ver a TFP dar clarinadas e lutando ao longe e vocês na lama sentados. Já imaginaram a vergonha, a inconformidade — é perigoso dizer o que vou dizer agora, mas — a inveja, e, portanto, o ódio daqueles que andaram bem? Porque vocês sabem que o espírito humano pode tomar esse rumo.

(Sr. Guerreiro: O senhor podia repetir para o gravador?)

Sim. Vocês podem imaginar ainda mocetões como serão daqui a dez anos, um que não se tenha deixado enraigar e que vê ao longe as clarinadas, também os tiros, os gritos, os gritos de avançar, mas os gritos de dor porque foi estraçalhado, porque não sei mais o quê, daqueles que são os nossos. Vocês identificam ao longe os gritos, vocês admiram, vocês olham para si mesmos e têm vergonha de olhar para as próprias mãos, para a própria pele.

Por quê? Por que o que é que serão? O que é que será qualquer pessoa nessa ocasião? Não sei se vocês imaginam o que é que é essa caminhada para o selvícola! E é disso seriamente que se trata. Quer dizer, o que terá havido de nossa parte é uma birra de criança de não querer reconhecer que as coisas vão para lá. Não reconhecer seriamente.

[…inaudível] mas que no fundo: “apesar de tudo, as coisas tomam um jeito e continuam mais ou menos como estão”. Diante da evidência do contrário, da evidência da necessidade de um castigo, a atitude vai ser esta.

* Da parte dos que não estiverem na nossa luta, vai haver remorso, mas também inveja e possivelmente ódio

Bom, vai haver da parte dos que não estiverem na nossa luta, vai haver remorso, mas também inveja. Possivelmente ódio. Pobre alma que tenha se deixado cair nisso. Pobre alma! A gente nem sabe o que dizer. Mas a questão é que quando se aproximam os dilúvios, as pessoas não querem reconhecer que vai chover. E eu tenho a impressão que quando começou o dilúvio o pessoal chegava para Noé é dizia: “ah, agora você está de cima, você está vencendo! Você vai ver, daqui a pouco seca e você não vai fazer nada de sua barca; nós vamos pegar fogo na sua barca e na sua barba”. Noé cuidando de preparar o embarque. Quando ele embarcou a bicharada, não devia estar chovendo, e a gargalhada devia estar maior do que nunca. E ele fazendo entrar aquela gente toda.

Bem, e quando choveu, provavelmente houve gente até aparentada com ele que bateu do lado de fora da arca: “Noé, deixa entrar!, eu fui sempre seu amigo! Eu sou seu primo, sou neto de seu tio Absalão, por que é que você não me deixa entrar? etc., etc.”

(Dr. Edwaldo: A porta da Arca tinha sido fechada por Deus por fora.)

A porta foi fechada por Deus por fora? Que coisa característica! Quer dizer, ainda que Noé quisesse não podia deixar entrar. Quando ele dissesse: “Mas Deus fechou a porta e eu não posso abrir”.

- Mentira! Você foi sempre um hipócrita.

Com água, chovendo, chovendo, em certo momento leva o sujeito e ele tem seu fim.

Agora, isso é preciso ser considerado com a maior seriedade! A maior seriedade!

(Sr. Gonzalo: Muitíssimo obrigado! Porque é uma graça extraordinária que o senhor nos está ando agora.)

Eu acho que é. E de vez em quando, sem arrebentar corda nenhuma, que eu não quero arrebentar, eu vou puxar a corda para esse lado, porque não pode deixar de ser.

* Qual é o castigo que merece aquele que diante da Igreja perseguida, quis ficar aderente às raízes “Fs”?

Agora, do outro lado, a Igreja perseguida dessa maneira, eu fico sabendo que eu tive um chamado pessoal, gratuito, enorme, e eu não quis seguir porque eu quis ficar aderente às raízes “Fs”. Qual é o castigo que eu mereço?

Quer dizer, as aflições da Igreja, o chamado comovente de Deus, de Nossa Senhora, o perdão que me é prometido junto com isso: “então, meu filho, vamos!”

- É, mas eu gosto tanto daqui! Não vai acontecer nada! Olha, sabe de uma coisa? Eu não acredito no seu chamado.

- Por que é que não acredita?

- Porque não quero acreditar. Não me agrada, não me conformo com isso.

- Do que é que adianta não conformar? Te cai a casa em cima da cabeça!

- Ahahaah!

Está bom, quando cair, caiu, vá prestar contas diante do juízo eterno.

(Sr. Gonzalo: Já caíram várias casas…)

Ora, ora!

E isso é preciso tomar assim. Isso é uma espécie de demônio… esse apego às raízes é uma espécie de demônio, dá um apego que não tem nenhuma razão de ser, a própria pessoa reconhece que não tem nenhuma razão de ser, mas é apego porque é apego. “Eu quero!” E está acabado. É disso que se trata de fazer o sacrifício. E façamo-lo enquanto é tempo.

Agora, para isso a gente deve pedir a intercessão de Nossa Senhora, os que quiserem podem pedir a intercessão de mamãe, para conseguirem — e farão muito bem se pedirem — para conseguirem esse resultado.

Mas esse é o fato concreto! Esse é o fato concreto!

Veja a tristeza da situação: um auditório cheio do que é o creme do chamados, trata-se disto… Xodó! “Não pode ser porque eu tenho xodó!”

- Como xodó!

Não é?

Não me levem a mal se eu consulte a hora.

(Sr. Guerreiro: Já está bastante tarde já.)

São três e quinze já.

(Cel. Poli: É, e vamos levando muita matéria para pensar.)

Ah, se isso não der para pensar eu não sei o que mais pode dar para pensar.

(Sr. Guerreiro: É melhor arrancar a cabeça fora.)

Eu acho que sim.

Vamos andando.

*_*_*_*_*