Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 1/2/92 – Sábado – p. 10 de 10

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 1/2/92 — Sábado

O Fundador do Reino de Maria: a realização do “sonho” de Nosso Senhor Jesus Cristo. * “Eu não poderia ter sido, internamente, mais enérgico, mais radical, mais inclemente com o adversário?” A explicação da oração da Restauração * As palmas dos enjolrinhas servem um pouco para quebrar a recusa dos antigos * Uma das fontes de recusa ao SDP é o preconceito revolucionário em relação ao aspecto aristocrático dele * Atitude do Grupo face aos dois príncipes * O princípio um tanto sacral da aristocracia metido na ordem temporal, como uma lâmina de uma espada está metida na bainha, é uma coisa que contunde a mentalidade má e revolucionária. * “Certas facilidades naturais que eu tenho, tenho de maneira a agravar essa antipatia que eles têm à aristocracia”

(Sr. Gonzalo: […] A pergunta seria essa.)

Então a pergunta qual é, meu filho?

* O Fundador do Reino de Maria: a realização do “sonho” de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(Sr. Gonzalo: Se corresponde bem isso, de que o senhor seria a realização do sonho de Nosso Senhor Jesus Cristo, depois da Igreja e da Cristandade e, evidentemente, da Senhora Dona Lucilia. E a relação disso com o encanto, e o nexo de alma com o senhor fica um nexo completo. […] Isso é altamente exorcístico. Se a pessoa deixou de encantar por quem deve, o resultado é que fica possesso, passa do encantamento para a possessão direto, sai todo um bolo.)

Mas dos piores. Não é um bolo, é um câncer.

(Sr. Gonzalo: E depois muito rápido.)

É rápido.

(Sr. Gonzalo: […] Quando a pessoa está bem, é porque está encantada com o senhor. Quando começa andar mal, vai ver o fundo da questão é porque não está encantada.)

É, isso é assim. Isso é assim inteiramente.

(Sr. Gonzalo: Então o pedido seria esse.)

Quer dizer, meu filho, se eu olhasse só para mim, eu teria dúvidas a esse respeito. Mas olhando para Nossa Senhora e olhando para o Mal e olhando a “entestagem”, o choque meu com o Mal e do Mal comigo, eu sou levado a achar o que você disse. E, às vezes, isso me vinha em outros termos, mas me vinha ao espírito antigamente com muita freqüência, até que eu deixei de pensar no negócio por duas razões:

Primeiro, porque sempre se deve ter cuidado com essas coisas no que diz respeito à vaidade, orgulho, essas coisas. A gente deve ser de uma cautela como se a gente estivesse… A cada momento da vida a gente deve ser cauteloso com o orgulho e com a vaidade, como se a gente tivesse pecado de orgulho e vaidade há cinco minutos, e que portanto estivesse muito de sobreaviso com o que fez e a necessidade de tomar cuidado, etc. E por causa disso eu deixei de pensar no assunto. Me pergunto se eu deixar de pensar no assunto teria sido melhor, ou se eu pensar nisto não tornaria isso muito mais comunicativo, muito mais benfazejo para os outros.

Mas cheguei à conclusão de que se eu não tivesse que olhar a não [ser] as almas dos outros e não a minha — o que não é verdade, eu tenho que olhar a minha antes de tudo — eu, entretanto, acho que o que conviria fazer era isso, porque me parece que sendo melhor para mim, ipso facto é melhor para os outros.

* “Eu não poderia ter sido, internamente, mais enérgico, mais radical, mais inclemente com o adversário?” A explicação da oração da Restauração

E depois por uma outra razão que é a seguinte: é uma dúvida se em determinado momento de minha vida, eu não poderia ter sido mais enérgico, mais radical, mais inclemente com o adversário — internamente, na minha atitude interna com o adversário — se eu não poderia ter ido mais longe, e se neste ponto eu não estaria muito devedor a Nossa Senhora, e daí também uma grande alegria com o tema de que você trata, mas um grande receio. E aí a explicação da oração da restauração.

A oração da restauração eu compus, como você sabe, no Jordano, uma noite, etc., mas eu compus com aquela facilidade, que eu ditei na hora, não é porque eu estava pensando em fazer uma oração anteriormente, etc., mas é porque eram idéias que me vinha na cabeça, e que me vinham na cabeça nessa forma: eu não teria em determinado momento tido possibilidade de elevar a minha correspondência à graça, todavia, mais longe do que levei? E isso não representa um certo déficit no meu caminho, que eu tenho obrigação de remediar inteiramente para estar inteiramente em dia com isto? Donde uma certa — não é uma certeza, mas uma dúvida — donde uma certa tristeza que o assunto me dá, ao mesmo tempo da alegria que dá. Isso de um lado.

Agora, de outro lado, porque toda pessoa exceto naturalmente Nossa Senhora e talvez São José — esse é um tema sobre o qual se precisaria pensar um dia porque é um tema absolutamente incomparável —, eu não quero com isso pretender que São José seja concebido sem pecado original, mas quero dizer que ele esteja fora desta regra que eu vou dizer agora. Eu acho que toda criatura, mesmo um santo que esteja para entrar para o céu porque cumpriu sua vida e vai para o céu, mesmo esse santo deve sentir [isso] em si, para ser leal para consigo, porque se ele não sentir isso em si, ele não está leal consigo.

(Cel. Poli: Isso o quê?)

Isso que eu vou dizer agora.

Que é uma espécie de sensação de insuficiência e de falta de inteira correspondência que dá a ele um certo pesar. E a gente vê aquele famoso sonho de São João Bosco e São Domingos Sávio — você conhece o sonho, não é meu filho? Aquele sonho é ilustrativo a mais não poder.

Então a pergunta para formulá-la de modo clemente para comigo, seria: São João Bosco — um tão grande Santo — São João Bosco não teria em si dúvidas assim a respeito de si próprio? Porque não é à toa que São Domingos Sávio disse aquilo a ele. Também não é à toa que ele pôs aquilo no que ele contou. Porque ele podia fazer a narração e omitir aquele trecho. E ele tout bonement põe dentro da narração dele. Isto não constituiria também para ele uma tristeza e uma vontade de até o último alento suprir de maneira a comparecer diante de Deus com a integridade da perfeição que Deus queria que ele tivesse tido, para ele poder dizer que ele era o sonho de Deus realizado?

Quer dizer, eu não queria que os senhores tivessem, portanto, idéia de mim de que eu seja o “sonho” de Deus realizado na sua integridade, ou que eu tenha de mim essa idéia. Porque isso não, eu não tenho de mim essa idéia. Não nego que seja, mas não nego que não seja.

* “Desde o começo Deus teve os “olhos” d’Ele voltados para quem haveria de assumir os encargos e os ônus inerentes à minha vocação e levá-los adiante”

Agora, isso excetuado, quanto mais os dias vão se passando, quanto mais vai ficando clara a unicidade desse papel que nós temos e com essa unicidade, não tem dúvida, não pode deixar de ter sido que desde o começo Deus teve os “olhos” d’Ele voltados, Nossa Senhora também, os olhos voltados para quem haveria de assumir os encargos e os ônus, nada pequenos, inerentes à minha vocação e levá-los adiante. Porque de algum modo está sendo levado adiante, isso é uma coisa evidente, graças a Nossa Senhora.

(Cel. Poli: A prova é que o mundo não acabou.)

Sim, mas é verdade mesmo. Porque com o jeito que as coisas estão… Por exemplo, eu não sei se impressionou a vocês tanto quanto a mim, mas quando o João me contou aquela história da revistinha infantil, propagando a homosexualidade, estávamos andando lá para o Praesto Sum para a reunião, e a coisa vai, foi falando [como] quando às vezes se fala no automóvel quando todos acabaram a oração e se conversa um pouco. Tatataratá.

Quando ele disse isso, eu tive uma espécie de grito: “Mas como? Uma coisa assim!” Porque é uma coisa! Mas é uma coisa que a gente não sabe o que dizer, não tem o que comentar, não é só da gravidade do mal, mas é da amplitude do mal, a extensão do mal, é uma coisa que não tem palavras.

(Sr. Paulo Henrique: E o requinte.)

Requinte e extensão. É requinte na qualidade do mal, e é requinte na quantidade. Porque levar o mal naquela proporção é uma coisa que não tem palavras.

Você veja por exemplo na geração de vocês ainda, graças a Nossa Senhora, esta era uma tendência que fazia exceção, era péssima exceção.

(Cel. Poli: E a vergonha para o homem era isso.)

A vergonha!

Mas agora, se nessa geração eles não têm mais esse corrimão da escada, eles se jogam de qualquer jeito, de qualquer modo. Quer dizer, a próxima geração estará num pé que exceto graças excepcionais vai se poder receber muito pouca gente dentro da TFP.

Vocês vejam uma coisa característica. Aquele… (…)

meios em si mesmos exceto com uma graça especial para ter essa reação diante das coisas. Não tem. Depois está se vendo que não terão. Não tem conversa.

Então ver até que ponto chega esse mal, e ver que na proa do navio de guerra de Nossa Senhora o que está é o estandarte da TFP, não tem outra coisa!

(Dr. Edwaldo: Não se pode deixar de ver.)

Não se pode deixar de ver porque isso é assim. Isso é assim! Por exemplo, a pergunta mais normal seria: e os bispos dos Estados Unidos que atitude tomaram com isso? Isso deveria ser pastorais em todas as catedrais. Homem!, não sei. O que o episcopado francês fez contra a TFP porque a TFP combatia a imoralidade, eles deveriam ter feito contra essa história. Aí você vê a torção completa da situação.

Agora, nós estarmos na ponta do couraçado que combate esta torção, então é isto, é de um lado uma coisa e de outro lado outra. Não pode deixar de se ver assim.

(Dr. Edwaldo: Na ponta e sozinho.)

Estamos sós, nós não temos ninguém conosco.

Agora, o resultado é que o que você diz tem que ser respondido afirmativamente sob pena de uma crassa negação da verdade evidente como tal. Isso eu tenho como evidente.

Então, por exemplo, o desfile da fidelidade visto em todos aqueles aspectos, etc., etc., é uma ruptura com isto, é um desafio, é uma coisa que tem uma grandeza da época do quê? Do Cid, do Roland e de tudo mais.

(Sr. Gonzalo: E daí para cima.)

Mas é, é um lance de Carlos Magno.

* Ter encanto pelo Senhor Doutor Plinio, uma forma de reparação

(Sr. Gonzalo: Nós estamos chegando [no aniversário] do desastre, e o modo de reparação que Nossa Senhora pede para que o Grupo ande bem, vai na linha de ter esse encanto por esse homem sonho. Porque o pecado foi o contrário…)

Foi.

(Sr. Gonzalo: […] Foi uma decadência desse encanto, que Deus tem o direito de cobrar isso…)

Tem, tem.

(Sr. Gonzalo: […] Como reparar isso? Se o pecado foi esse, a reparação é pedir a Senhora Dona Lucilia que tenha misericórdia e que nos encha dessa graça desse encanto.)

Eu acho que sim.

(Sr. Gonzalo: Porque flagelação nós não fazemos, e se não enfocarmos no ponto certo dá uma coisa meio de lado. E amando o senhor assim, a TFP se pode transformar em outra coisa.)

Pode.

(Sr. Gonzalo: Por outras vias não há modo de resolver o caso.)

Não há.

(Sr. Gonzalo: […] Se o senhor pudesse tratar um pouco mais ainda desse sonho e dela enquanto contemplando isso e podendo conduzir a TFP toda. O Grand-Retour está ligado a isso…)

Não, é isso!

(Sr. Gonzalo: Se o senhor pudesse tratar um pouquinho mais…)

* As palmas dos enjolrinhas servem um pouco para quebrar a recusa dos antigos

Meu filho, eu me tenho posto várias vezes a seguinte questão: de que a reunião de hoje tivesse causado essa impressão que você diz, eu não tive idéia. Eu estava vendo que era uma reunião em que uma boa parte do auditório tinha bastante consonância comigo. Isso eu estava vendo. Mas não tinha a idéia que chegasse a esse ponto. E é compreensível que tenha porque muitas vezes a graça passa por uma pessoa sem que a pessoa note, a pessoa nota pelos efeitos que percebe nos outros, mas a própria pessoa não nota, é uma coisa que pode acontecer e que é até freqüente comigo.

Mas há uma coisa que durante a reunião eu notei um pouco e que se acentua muito com o que você diz, que é a seguinte:

Qual é a razão psicológica de ordem natural na qual depois está pendurado uma coisa preternatural, mas vamos concentrar nossa idéia na ordem natural; qual é a razão de ordem natural pela qual se não fossem reuniões aqui à noite, estando vocês com a mentalidade que teriam se não fosse essa reunião à noite, a reunião poderia ter muito mais do que você chama encanto, do que teve, e terminada a reunião vocês cinco sairiam da reunião sem fazer nenhum comentário. Porque isso é assim.

E vou dizer mais, se não fosse a ação contínua do João, de um modo ou doutro sobre o pessoal que está sob a influência dele, isto acabava sendo assim. Porque as palmas dos enjolrinhas, etc., etc., por uma espécie de “patiosa” mas também porque quebram um certo respeito humano, uma certa coisa, essas palmas dos enjolrinhas servem um pouco para quebrar nos antigos essa recusa de acompanhar essa atitude.

Mas qual é o conteúdo psicológico dessa recusa? Por que é que isso é assim?

* Uma das fontes de recusa ao SDP é o preconceito revolucionário em relação ao aspecto aristocrático dele

Eu tenho a impressão que vem de várias fontes. A primeira das fontes é essa: é que eles — daqui a pouco dou um exemplo — eu vejo que está na minha obrigação conservar algo de aristocrático no meu modo de ser, e que eu não cumpriria a minha missão se esse algo não fosse o que é, e talvez alguma coisa a mais. E noto que há um preconceito revolucionário com todas as letras, sem descontar nem sequer o pingo que está em cima do “i”, é tudo assim, um preconceito revolucionário, isso. As pessoas ficam sentidas, meio maguadas e achando que isto não é a verdadeira virtude, que é uma nódoa da virtude. Que raciocinando teoricamente eu tenho razão, mas que há alguma coisa que eles não sabem dizer por onde é, que no les gusta, não vão com a coisa. E que por causa disso ficam numa atitude de reserva como quem tem receio que eu me sirva desse quê de aristocrático para pisar no próprio indivíduo. Que no trato comigo ele está exposto a um pisão aristocratizante a qualquer hora.

O sujeito reconhece que eu nunca fiz isso, mas pode acontecer. E como a grande preocupação dele não é defender a Causa, mas não permitir que se pise nele, porque a razão da vida dele é essa, então acontece que isto coloca uma espécie de prevenção definida a respeito do elogio de qualidades minhas. Primeiro porque esse elogio pode me dar mais pretexto para esmagar duramente e aristocraticamente um coitado que eu julgo que não está em proporção comigo.

Depois, em segundo lugar, porque é meio vergonhoso estar fazendo um elogio de um indivíduo assim acrescendo superfluamente a impressão que lhe causa. Se a impressão que [ele] causa já é tão favorável a ele, para que ainda vir eu com coisas em cima elogiando. Deixe, ele já está bem aquinhoado, deixe eu agora tratar do pobre de mim que não estou tão bem aquinhoado quanto ele. Eu vou tratar de ver como é que eu sou tratado… enfim, eu, eu, eu, em todos os pontos de vista.

* Uma espécie de antipatia contra a aristocracia enquanto aristocracia que não pode deixar de ser vista como uma espécie de antipatia contra Deus enquanto Deus

Mas o pior é que não é só isso, é uma antipatia contra a aristocracia enquanto aristocracia, mas enquanto tal, que não pode deixar de ser vista como uma espécie de antipatia contra Deus enquanto Deus.

Aliás, uma das razões pelas quais eu estou escrevendo esse livro, é porque me parece que a forma de desamor a Deus em que peca esta gente, é diretamente nesta implicância contra a aristocracia. E no meu entender, esse livro sobre aristocracia é um tratado de amor de Deus. Não tem esta fórmula, mas é esta. Só não tem, para ser ainda mais eficaz. Só! É a única razão pela qual não tem isto dito assim.

(Cel. Poli: Para nós é claro isso.)

* Atitude do Grupo face aos dois príncipes

Basta o indivíduo querer pensar um pouquinho que nota. Mas eu vejo uma outra coisa. Nossos dois príncipes nessa campanha, têm de fato mostrado valores terrenos e humanos maiores do que se pensava. Quer dizer, por exemplo a exposição fácil, corrente, por vezes até brilhante, com uma capacidade de encher o seu papel, e de representar o que eles são, indubitalvemente isto eles têm feito.

Ora, enquanto não aparecia para eles essa ocasião, eles eram meio retraídos, o que eu não aprovo, mas também é verdade que havia um imponderável em torno deles, que eles porque príncipes e enquanto príncipes eram meio nulos, meio incompetentes. Porque a incompetência é um imposto que pesa sobre o aristocrata, maxime um príncipe, pesa necessariamente. E que portanto, eles meio nulinhos de cabeça, mas muito respeitáveis pela vida pura, bons católicos, etc., etc., então está acabado. Mas propriamente vendo reluzir neles essas qualidades — vendo reluzir, é preciso afinal de contas reconhecer, a capacidade de ação notável de D. Bertrand, não se pode negar, é uma capacidade de ação notável, e com sacrifício, muitas vezes e penoso, e ele vai, se joga, e faz, etc., etc. — que ele representa algo que ninguém imaginava.

Agora, porque razão é que se isso se revela assim num príncipe, [e] há uma espécie de retração em reconhecer, em comentar? Mas se fosse, por exemplo, de um rapazinho bem zerinho na ordem humana dos valores, todo o mundo achava interessante. (…)

E sobretudo o que fere a eles aí, é um certo êxito pelo qual por exemplo, no caso dos príncipes o êxito obtido por eles, fere esse tipo de democrata cristão, para usar a expressão que é muito adequada, muito própria, é que o êxito coloca-os ainda mais abaixo. Porque o jeito deles é dizer: “Não, essas aparências deles, isso não é nada, porque eu aqui, o Macanudo, eu faço coisas. Ele é um enfeite! Aquela ametista colocada ali. Pronto! Não é outra coisa. Eu não, eu sou o esteio da casa, se não fosse eu a casa caia. Aquela ametista está lá para enfeitar um pouquinho, não tem… esses negrinhos aqui, estão aqui para enfeitar, está acabado, não tem mais nada!”

* O princípio um tanto sacral da aristocracia metido na ordem temporal, como uma lâmina de uma espada está metida na bainha, é uma coisa que contunde a mentalidade má e revolucionária

Bom, tudo isso contunde a eles. Mas contunde sobretudo porque o princípio um tanto sacral da aristocracia metido na ordem temporal, como uma lâmina de uma espada está metida na bainha, quer dizer, adequado, é uma coisa que contunde a mentalidade má e revolucionária.

(Sr. Gonzalo: O aristocratismo no caso do senhor é sacral e altamente eficiente. […] O despliegue completo disso não dá mesmo.)

Aí eles ficam muito sentidos: “Onde é que se viu isso?”

(Sr. P. Roberto: O Brasil não aceita o senhor por essa razão, não é?)

Essa razão entra a fundo, não é só isso. Mas é que eu represento a regra, a ordem, a lei, o sacrifício, a coerência, e essas coisas, é preciso dizer, infelizmente um número enorme de brasileiros de hoje não aceitam. É o esmazelamento, o laissez faire, laissez passé, não no sentido clássico das palavras. Mas deixa tudo acontecer… Tomam como tomam o Collor. Isso não tem nada, isso está muito bom.

(Sr. P. Roberto: Aquele sonho que o senhor dizia do Brasil, seria no sentido contrário a isso?)

No sentido contrário, mas inteiramente contrário.

(Sr. Gonzalo: A parte preternatural o senhor ia tratar depois ou não?)

Acontece — acrescenta outra coisa seguinte —, enfim é assim: nos príncipes eles elogiam bastante a pureza. Ou por outra, eu não vi ninguém tomar a iniciativa de elogiar, mas eu elogiando eles concordam de boca cheia, ficam contentes. Mas se alguém dissesse que eu sempre fui puro, etc., eles: “Uhm!” Quer dizer, em mim não, porque o desafio é excessivo, o contra golpe é demais, e então não sou aceitável.

(Sr. Paulo Henrique: E essa descrição é ainda só do ponto de vista natural e psicológico?)

* “Certas facilidades naturais que eu tenho, tenho de maneira a agravar essa antipatia que eles têm à aristocracia”

Natural e psicológico. Naturalmente têm implicância do lado sobrenatural, porque se por cima disso vem a Providência e faz reluzir consolações de ordem sobrenatural, ainda que a pessoa não queira reconhecer que isto seja de ordem sobrenatural, vê algo. E então agrava. Porque como é que Nossa Senhora faz uma coisa dessa? Ainda dá mais isso? Não podia dar. É assim! É isso sem tirar nem pôr.

Depois eu noto bem certas facilidades naturais que eu tenho, tenho de maneira a agravar essa antipatia que eles têm à aristocracia. Eu não quero dizer por exemplo, que eu tenha um timbre de voz, uma facilidade de exprimir-me aristocrática, mesmo porque isso não é aristocrático por natureza, a facilidade de expressão é própria de qualquer classe. Na Bahia qualquer mequetrefe se expressa muitíssimo bem. Mas a questão é que isto entra numa pessoa que já tem um quê de aristocrático, e é meio aristocratizante, meio permeado por isso. E então recusa. Tanto mais quanto, o meu vocabulário é aristocrático.

Eu ainda outra dia falava com uma pessoa que falava a respeito do modo de eu me exprimir…

(Sr. Gonzalo: Para o senhor João pode ficar ou não?)

(…)

Mas tem textos de Papas recalcando o espírito nobre de Nosso Senhor, e magníficos!

(Sr. Gonzalo: Mas no caso que nós estamos vendo aqui fica mais vivo…)

Ah sim.

(Sr. Gonzalo: Porque o senhor é chamado a representar isso.)

Bom, e aqui chega ao ponto terminal. Você está vendo que há aqui uma coisa qualquer por onde se a pessoa tem aí uma concessão, ela está picada pelo dente de cobra.

(Cel. Poli: Uma concessão no ponto de…)

No negócio da nobreza, da aristocracia.

* Não gostar do instituto nobiliárquico como tal, é próprio à mentalidade revolucionária

(Cel. Poli: Em relação ao senhor?)

Não só em relação a mim, mas em relação a coisa em geral, ao instituto nobiliárquico…

(Cel. Poli: E agrava quando se trata do senhor.)

Agrava muito quando se trata de mim. Mas não gostar do instituto nobiliárquico como tal, é próprio à mentalidade revolucionária. Sentir-se sentido sempre que entenda que há uma categoria à qual a gente não pertence.

Eu não compreendo porque tenha que ser assim. Por exemplo, vêm aqui esses pernibambos do Liechtenstein e do Pallavicini, são meninos para mim, eu trato com toda consideração, com toda atenção, faço apostolado por cima deles tanto quanto posso. Com o Andreas eu não posso fazer mais do que eu faço. Não falo dos príncipes porque os príncipes estão tão acima de nós, que não sei o que dizer. Mas eu não me sinto diminuído por reconhecer que uma coisa é um Corrêa de Oliveira e outra coisa é um Pallavicini enquanto tal, enquanto tal, e outríssima coisa é um Liechtenstein que o Pallavicini não é. Agora, anh! anh! nesse ponto! Eles são mais do que eu, e não adianta dizer que eu isso, que eu aquilo, porque são mais do que eu, e eu gosto que eles sejam mais do que eu. Eu fico contente que é um título legítimo, verdadeiro, e que eu me comprazo em admirar. Esse estado de espírito não querem ter.

(Cel. Poli: … ) [vira a fita]

Um ou outro no Grupo, mas ao longo dos anos, uma vez ou outra se manifesta bem impressionado com o respeito com que eu trato os padres. Mas é porque a nota aristocrática não está envolvida aí. Então sai alguma referência, mas o modo de eu tratar os príncipes não elogiam.

(Sr. P. Roberto: Porque isso aí é permitido pela heresia branca.)

É, exatamente.

(Sr. Gonzalo: [Ainda] quando nós estamos bem, o senhor é tratado como um santo, mas não um santo aristocrata.)

Não, não.

Agora, um dos melhores [meios] específicos para combater isso, não parece, é toda paciência, fingir que não viu, e deixar escorrer as cataratas de erros em cima da gente, como se a gente não… a gente continua sendo como deve ser, não muda em nada, não reclama em nada, não se indigna com nada. Isso é no caso interno do Grupo a réplica específica. Pode me acreditar.

(Cel. Poli: Mas para fora o senhor impõe.)

Ah não, aí impõe, não tem conversa.

(Sr. Gonzalo: E como “uno” resolve esse caso concreto que o senhor está tratando?)

É fingindo que não percebe.

(Sr. Gonzalo: Fingindo que não percebe que o senhor é aristocrata, não pode ser!)

Fingindo que não percebe… Você está imaginando o caso de alguém que trata a você como não deve tratar?

(Sr. Gonzalo: Não, não, não é a mim não, eu digo a nós, se trata de curar esse pecado. Agora, qual é o modo?)

É só entrar no assunto quando perceber que a graça abriu um momento de receptividade no interlocutor sobre essa questão. Enquanto não for isso, não entrar.

(Sr. Gonzalo: E para si mesmo? Coronel, o senhor podia cortar um pouquinho?)

(…)

Põe então a questão, porque que pôs foi o Gonzalo.

* Como curar a visão errada em relação ao Senhor Doutor Plinio

(Sr. Gonzalo: Como curar em nós essa visão errada em relação ao senhor? […] Para curar isso, o cultivar o encantamento e os flashes é um meio ou não?)

Eu precisaria pensar um pouco. Não tenho assim uma resposta para dar a você de imediato. Mas o que eu teria de imediato que é uma resposta incompleta, é o seguinte: no meio de elogiar esses outros aspectos da coisa, elogiar também a distinção, também o porte, ou também tal palavra empregada, que era muito adequada para tal e tal situação, etc., etc., mas elogiar mostrando a suavidade aristocrática da coisa. Então vocês têm um exemplo característico… (…)

cuidadoso de sempre que isso acontece, sempre que essa tentação se apresentou, a gente perceber que se apresentou.

(Sr. Gonzalo: Esse encanto cultivado não cura em nós esse defeito especificamente…)

Nisso você se engana num ponto, é que esse encanto assim não é jato contínuo, entra uma espécie de graça de mística ordinária, que faz com que as pessoas percebam isso. E quando essa graça de mística ordinária cessa, a pessoa percebe de um modo já muito diferente e muito apagado, e nós temos que ter um meio de combater que sirva para ambas as situações.

Então, quando acontece uma coisa assim como ontem à noite, entra uma graça dita da mística ordinária, esta graça a pessoa nutre em si impregnando-se o quanto possível nela, pensando nela, procurando lembrá-la o quanto possível, enquanto ela dure. Mas às vezes ela escapa.

(Sr. Gonzalo: E então?)

Sempre que notam uma coisa assim, notar. Porque a coisa começa: ver, julgar e agir. É preciso primeiro ver, e ver muito, para depois julgar e depois agir.

Meus caros, estou com um pouco de receio… São três e dez? Me desculpem, mas…

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