Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
25/1/92 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 25/1/92 — Sábado
A medula da inocência consiste em que o indivíduo ame a ordem considerada na sua globalidade * Não compreendeu a R. Francesa quem não compreendeu que era a ordem inteira que estava sendo ameaçada de destruição e que era uma luta de seres de uma natureza mais alta do que os homens * É preciso fazer à Ordem uma consagração a la São Luís G. de Montfort e entender que é necessário uma dedicação e uma imolação completa. * Os dois modos da Ordem operar em nós — O flash é a melhor vinculação da Ordem * O livro da nobreza é destinado a fazer sentir o sabor da Ordem na meditação aristocrática, para fazer com que a pessoa ame essa Ordem total. * Uma ajuda extraordinária da Providência: a coleção das homilias do cardeal Herrera Oria * O papel da nobreza é de ser na sociedade como a mãe. O primeiro milagre e Nosso Senhor foi para ilustrar esse papel da aristocracia no molejo social.
(Sr. Gonzalo: … e consente nessa loucura coletiva — hoje — é provável que haja demônios que nunca hajam saído do inferno e que entram agora em…)
Não, e depois isso é próprio da Bagarre, porque nunca houve uma provação como a da Bagarre. E, portanto, os demônios que entram lá são também especialmente nocivos, os que entram agora. Nunca houve antes, nunca vieram à face da Terra antes.
(Cel. Poli: A Bagarre vai ser a maior provação da história.)
Eu acho que sim, muito mais do que a dispersão da Torre de Babel.
(Sr. Gonzalo: […] Ver o senhor enquanto ordenador e enquanto possuindo em si a ordem, enquanto causando desordem na desordem…)
Porque o menos vezes o menos, dá mais.
* A medula da inocência consiste em que o indivíduo ame a ordem considerada na sua globalidade
(Sr. Gonzalo: […] O Reino de Maria que será a plenitude da presença de Deus na terra, venha quando encontra um varão que tenha essa ordem do universo inteiro na alma, e que isso imanta a Deus. Isso é que acaba sendo que a TFP seja o istmo da história, porque se não houvesse esse varão ordenado, o mundo teria acabado…)
Eu não vejo jeito de não ser assim.
(Sr. Gonzalo: […] Em função das aflições das quais nós somos objetos, tentações, provações e sobretudo do que virá para frente, para falar de uma coisa próxima, por exemplo a ECO-92, a gente vê que vem carregada de demônios…)
Carregada, e para encher o Brasil.
(Sr. Gonzalo: Ou o senhor tem a bondade de tratar conosco como o senhor é o veículo de graças especiais para os membros do Grupo e também para as pessoas de fora, ou se não temos isso presente, não temos os elementos para se defender contra essa tentação muito grande que vem. […] A presença do senhor é portadora de muita graça, e nós deveríamos degustar enormemente mais, quando as almas estão abertas, as pessoas devem se encantar muito com isso…)
Deveria ser.
(Sr. Gonzalo: […] A vida da Senhora Dona Lucilia foi um contínuo encantamento com a alma do senhor…)
Foi.
(Sr. Gonzalo: […] É missão dela produzir esse encantamento. Nós somos pocas e vamos e pedimos a ela quando nos falta roupa, e ela ajuda, mas o senhor disse que isso é uma poquice nossa porque ela tem uma missão muito mais alta do que isso…)
Muito mais!
(Sr. Gonzalo: […] Nos parecia que como ela viveu isso, a missão dela é produzir esse encantamento e por aí produzir uma grande desinfestação que conduza ao senhor, mas de modo inteiramente diferente, é propriamente um prenúncio do Reino de Maria. […] Então se o senhor pudesse tratar da necessidade desse encanto, e de como ela é a patrona, e como ela conduz as pessoas para isso. Senão começam os problemas de mau-espírito, as coisas que o senhor falou, as panelinhas, aquelas coisas todas…)
É, horrorosa! Querer fazer carreira.
(Sr. Gonzalo: A carreira da Senhora Dona Lucilia foi esse encantamento.)
Foi.
(Sr. Gonzalo: Se o senhor pudesse tratar disso. Ou seja vem uma coisa com…)
(…)
Não, mas é uma coisa horrível, ECO-92 é uma coisa horrível.
(Sr. Gonzalo: …)
A questão é a seguinte, meu filho, o lado delicado da questão, é que isso toca na questão da inocência. Mas toca diretamente pelo seguinte: a medula da inocência consiste não em que o indivíduo ame essas ou aquelas parcelas da ordem, mas que ele ame a ordem considerada na sua globalidade, e portanto na sua essência, de maneira que ele ame as pétalas da ordem porque ama a corola, e a corola é uma espécie de ordenação geral de todas as coisas. Uma espécie de ordem das ordens que o indivíduo deve amar, mas que é de tal natureza, que quando ele ama isso, ele ama toda a ordem, todas as ordens e a ordem inteira. E daí vem todo o resto.
O demônio joga com muita habilidade e consegue que o sujeito faça um jogo pelo qual ele imagina que a coisa é o contrário que o indivíduo deve começar a amar as pétalas para depois chegar à corola e essa não é a realidade.
O que se passa é o seguinte. É que a inocência é uma espécie de noção fundamental da ordem em si mesma, e por reflexo compreender a analogia da ordem que ele sente bimbalhar como sinos numa porção de outros domínios da existência, mas em que ele reconhece que é o mesmo sino que bimbalha dentro dele. E que ele quer unitariamente esse bimbalhar do sino, e por isso é aquilo, aquilo outro, é aquilo outro. E querer reconhecer que no caso presente não estão ameaçadas tais ou tais aspectos da ordem, ou não corre risco de haver vitória de tal ou tal desordenzinha, mas da desordem inteira que está em luta contra a ordem inteira. E é porque é inteira não é porque é cada pedacinho, mas é porque é um totum, é um total da coisa como seria a ponta da pirâmide que engloba de algum modo todas as descidas da pirâmide pelos vários lados. E que a gente poderia conceber da seguinte maneira.
A criança é inocente não é quando ela se deita por exemplo, numa cama boa que os pais arranjam para ela, e que ela se deita afavelmente lá, mas é quando ela se deita e percebe como aquilo não só é bom, quer dizer, é deleitável, mas como aquilo está de acordo com toda ordem de sua pessoa, como convém, como é adequado a sua pessoa estar ali, ter aquela boa roupa de cama, ter aquele bom travesseiro, ter aquele bom quarto, por causa de alguma coisa que tem de ordenado nela, que é a razão também pela qual os pais são bons, pelo qual os outros membros da família são bons ou ela se ilude que são bons, e que o conjunto das coisas todas lhes parecem boas.
A criança tira disso uma espécie de noção central de todas as ordens que é a Ordem — com O maiúsculo — e que esta é um bem do espírito muito mais do que um bem do corpo. É um bem do espírito ao qual se trata de estar — em espanhol se diria adicto — ligado, estar devotado, a palavra é bem essa, estar devotado inteiramente. E que esta devoção inteira à ordem total é que cria a possibilidade de uma coisa que é sem isso impensável, é um inteiro altruísmo, pelo qual a pessoa não fica querendo isto para si, aquilo para si, mas para ela é um bem em si que esta ordem exista, e ela preferiria morrer a que essa ordem deixasse de existir. Ela preferia ser insignificante, decair economicamente, socialmente, preferia qualquer coisa a perder a visão dessa ordem, ou que essa ordem caísse em si. Esse é o ponto inteiramente central.
* Não compreendeu a R. Francesa quem não compreendeu que era a ordem inteira que estava sendo ameaçada de destruição e que era uma luta de seres de uma natureza mais alta do que os homens
E não tem dúvida nenhuma que em todas as narrações que eu tenho feito a pedido desses ou daqueles, de como nasceu em mim o espírito da Contra-Revolução, eu talvez não tenha insistido tanto sobre isso que vocês me pedem que eu insista agora que é a noção global, total da ordem.
Você veja uma coisa por exemplo — e depois são assim as coisas — veja por exemplo a Revolução Francesa. Só compreendeu a Revolução Francesa bem, quem compreendeu duas coisas: que era a ordem inteira que estava ameaçada de destruição inteira ali. Era sem dúvida a forma de governo monárquica, era sem dúvida a aristocracia, era sem dúvida o bem ordenado da plebe, sobretudo do clero, tudo isso estava visado, mas visado por uma razão transcendental que era um ódio fundamental a um princípio unitário de ordem que se aplicava igualmente em todos esses setores, e que é por sentir isto que vinha o ódio à Revolução Francesa, porque contém em si todas as coisas detestáveis, execráveis, com outra sensação mais profunda que é a seguinte:
É que por esta forma era a luta de seres, através dos homens, de seres de uma natureza mais alta do que o homem, e que era uma luta, portanto, que excede de muito o homem. Luta que por causa disso, fica tão mais interessante, tão mais digna de atenção, de dedicação, de participação, do que todas as coisinhas que por exemplo nas “F” empolgam as pessoas, e que em comparação com isso são coisinhas de lo último, mas de lo último.
* É preciso fazer à Ordem uma consagração a la São Luís G. de Montfort e entender que é necessário uma dedicação e uma imolação completa
E que era preciso a pessoa entender isto, consagrar-se a isto, etc., mas que pedem, nesta situação, uma dedicação completa. E essa dedicação completa é uma imolação em favor de um ideal tão alto que a gente poderia fazer uma consagração à ordem como São Luís Grignion de Montfort faz à Nossa Senhora, vendo em Nossa Senhora na ordem das meras criaturas a mais alta expressão da ordem, na ordem das puras criaturas, é Filha, Mãe e Esposa da ordem absoluta. Portanto, com uma ligação com a ordem absoluta como ninguém teve, nem anjo, nem nada disso. Uma coisa completa, perfeita, etc. E produzindo por causa disso, uma espécie de dar-se à Contra-Revolução em que a pessoa de fato compreende o quanto é insípido qualquer coisa que não seja isso.
Quer dizer, então por exemplo, uma preocupação: é possível que amanhã eu jante fora. Então será que a minha melhor gravata está pronta para isso?
No momento oportuno eu tenho o Amadeu que cuida disso mais ou menos, e cuidado mais ou menos já está bem, porque ou há em mim uma ordem transcendente que faz com que a gravata passe inteiramente para o segundo plano, ou se eu dependo de minha gravata para eu ser eu mesmo, é preciso recomeçar o jogo desde o começo, porque não vale a pena eu ser eu mesmo [se] depender de minha gravata.
Não sei se…
Assim mil outras coisas.
Automóvel. Então se eu tenho ou não tenho automóvel e até que ponto meu automóvel me qualifica ou desqualifica.
* Quando o sujeito está se agarrando nos acessórios para não naufragar, ele é um náufrago
Se o sujeito chegou a se colocar nesse pé, ele sentiu que ele abandonou a ordem e a ordem o abandonou. Ele precisa então arranjar uma coisinha, etc., para se valorizar. E daí para fora, não tem limites.
No tempo em que os rapazes ainda usavam chapéu, eu tinha um primo meio afastado meu, mas enfim, eu conhecia bem a ele, que se penteava e se arranjava — era um ateu absoluto — com os cuidados que naquele tempo se punha nisso. Punha gomalina na cabeça, fazia não sei mais o quê, o que vocês possam imaginar. Depois dentro de casa mesmo, punha o chapéu diante de um espelho de um modo irrepreensível. Mas ele professava a tese de que quando um homem estava vestido de um modo irrepreensível era repreensível, que devia ter um certo negligé num ponto qualquer para dar aquilo uma certa naturalidade. Então ele tinha um como que ato de heroísmo. Ele, depois de ter bem posto o chapéu, ele saia de casa — o tal espelho ficava a dois passos da rua — ele saia de casa descendo uma escadinha externa da casa dele e heroicamente dava um peteleco no chapéu, para pôr aquilo meio desequilibrado de dentro do equilíbrio para dar o negligé. Bem, quando uma coisa chega nesse ponto ele perdeu a batalha da vida dele.
Seria mais ou menos como a derrota de um general que pensasse o seguinte: “bom general eu não sou, mas se eu me apresento muito elegante no meu QG, quem sabe se eu ganho essa batalha”. Então vai para o espelho, se arranja, tem o uniforme, berebebé. Perdeu a batalha! Porque se está dependendo disto — meu coronel sabe disso perfeitamente — se está dependendo disso a batalha está perdida.
(Cel. Poli: Isso se sabe menos do que se precisava…)
Não, eu não quero dizer isso.
Por exemplo, um tipo que vai fazer uma conferência, ele está tão inseguro de si na conferência que manda comprar uma gravata nova para usar na conferência, e depois uma roupa nova. Isso não vai ajudar a conferência dele em nada.
Naturalmente, se é uma conferência com certa solenidade, compreende-se que ele se componha um pouco, não mais do que isso, porque o resto são os acessórios, e quando o sujeito está se agarrando nos acessórios para não naufragar, ele é um náufrago, não tem por onde escapar.
Por que está me olhando tão fixo?
(Sr. Paulo Henrique: Está muito bem descrito…)
É assim, é assim.
Então se pode dizer que há duas categorias de gente: categorias de gente que fez com a Ordem, mas bem entendido a relação da ordem com Nossa Senhora e com Deus, com Nosso Senhor Jesus Cristo e tudo mais, uma consagração a la São Luís Grignion de Montfort, do que decorre que ele faz o propósito firme de em todas as coisas deitar atenção, sobretudo nessa ordenação, com uma definição do que é a ordem e de qual é essa ordenação, etc., etc., pede perdão pelas várias infrações, pelos maus hábitos que adquiriu a esse respeito.
O hábito da flanação que ele adquiriu a esse respeito. Hábito, talvez, mais freqüente do que vocês imaginem. Quer dizer, pessoas que não pensam em nada, que ficam com o pensamento vagabundeando nas coisas e que acham gostoso, acham que assim se vive. E que se consagram a essa ordem, e pedem a Nossa Senhora que pelas pinças dessa ordem as mantenham na ordem, lembrando aquele pensamento muito famoso de Santo Agostinho: Serva ordo et ordo servabit te, “Conserva a ordem e a ordem te conservará”. É um pensamento lindíssimo. E a pessoa se dar a isso inteiramente, ou não tem feito nada. Tudo, por exemplo, os próprios atos de piedade: rezar uma ladainha a mais e depois fazer não sei o quê, não sei o quê, é sempre melhor do que nada, mas não conduz a esta posição de alma de que eu estou falando aí.
* Os dois modos da Ordem operar em nós — O flash é a melhor vinculação da Ordem
(Sr. Gonzalo: Explica também a graça de 67 como devia ter sido entendida.)
Era isso.
Agora, há o seguinte. Essa Ordem opera em nós de dois modos diferentes. Às vezes de um modo que parece inteiramente natural e pelo qual nossa atenção é atraída por uma coisa qualquer cuja boa ordenação agrada. E isto faz algum bem, o espírito não deve perder a ocasião de aproveitar isto, etc. Mas a outra são os flashs da Ordem. Porque há certos momento em que a Ordem “enflasha”, a pessoa tem um flash de determinada Ordem e aquilo é uma graça que entra e que se a gente não expulsa, pode ficar até o fim da vida na alma da gente, e que é o elemento fundamental dessa caminhada na Ordem, é por meio da oração, das penitências obter de receber vários flashes desses e ficar por esta forma ligado à Ordem. Porque a melhor vinculação da Ordem é o flash, são iluminações.
* O livro da nobreza é destinado a fazer sentir o sabor da Ordem na meditação aristocrática, para fazer com que a pessoa ame essa Ordem total
(Sr. Guerreiro: E o flash da RCR muito global nesse sentido.)
O flash da RCR muito global.
Eu não sou muito juiz daquilo que eu escrevo, mas pelo menos o tema, senão o livro que estou fazendo, pelo menos o tema do livro que eu estou fazendo é fundamentalmente destinado ao seguinte: a fazer sentir o sabor desta Ordem na meditação aristocrática para fazer com que a pessoa ame essa Ordem total pensando nisso.
* Uma ajuda extraordinária da Providência: a coleção das homilias do cardeal Herrera Oria
A gente vê que a Providência ajuda a gente de um modo extraordinário nisso — aqui o que eu vou fazer é um parênteses só — mas eu estava lamentando o seguinte: eu pus nesse livro todo o sangue que ainda me resta dentro dessa batalha em que eu estou. Mas pus tudo. Mas eu via que faltava alguma coisa, que eu precisaria levar uma vida tranqüila de uns dois, três meses de reflexão despreocupada com outras coisas, para conseguir explicitar e pôr. E que o livro não diria tudo quanto eu quero se não tivesse isso dentro.
E eu vejo que o Jimenez, e parece que um pouco o Sepúlveda também, aparecem com um livrão — menos o Murilo, me pareceu que o Murilo não mexeu tanto nisso —, mas uma coisa assim, que eu nunca num sebo teria comprado. E que o Bernardo Glowack que é um pesquisador a la Casté ou a la Átila, as coisas vêm parar para dentro da mão dele, comprou. Você fazem idéia do que é: Coleção de esquema de homilias de um tal cardeal Herrera Oria, ou Oria Herrera lá da Espanha.
Esse cardeal Herrera Oria…
Quem foi?
O João teve me lembrando hoje do seguinte. Que quando eu estive na Espanha em 50, eu estive com vários líderes daquelas direitas da Espanha, direita falsa, entre os quais um Elias de Tejada, que eu acho que você chegou a conhecer, não foi meu filho?
(Sr. Pedro Paulo: Sim senhor.)
E que com certeza não lhe deu uma idéia exageradamente nítida da ordem…
(Sr. Pedro Paulo: Um homem sem lábio superior e que falava cuspindo.)
E, que horror! Não me lembro disso.
Mas todo ele sujo, repugnante, uma coisa horrível. Mas enfim, era muito cotado naqueles meios de direita de Madrid. Ele me deu um cartão de apresentação a cardeal Segura que estava passando umas férias em Cuenca. E o cartão — me lembrou disso o João, porque eu tinha me esquecido — o cartão era um cartão assim rápido dizendo o seguinte: “eminência, pode falar à vontade com o Professor Plinio Corrêa de Oliveira porque ele pensa como nós… (…)
… cardeal Segura.
Eu dei o cartão ao cardeal Segura, e ele leu com placidez, como uma coisa comum. Pôs o cartão em cima da mesa e disse: “Então vamos conversar”. Quer dizer, é mesmo!
(Sr. Pedro Paulo: Esse é o Herrera Oria.)
Você sabe bem, vocês dois, até que ponto isso é típico, etc., etc.
(Sr. Gonzalo: E depois delicioso para eles.)
Delicioso.
Foi o livro deste Herrera Oria, que foi o fundador da Democracia Cristã na Espanha — não precisava mais nada —, um homem da esquerda completamente, que fundou o jornal “Ya” em Madrid que até hoje continua a ser um jornal recusável — não é dos piores até, mas é recusável — e foi elevado ao cardinalato por Paulo VI, traz sobre aristocracia os esquemas de algumas homilias. Tinha tudo o que eu queria dentro! Não entendo! Não entendo! Eu não entendo!
E tem umas duas ou três coisinhas que pelo menos podem ser mal interpretadas, pelo menos, se é que são interpretáveis. Uma ele sustenta o seguinte. Ele sustenta, a tese dele, é de que a aristocracia é um elemento indispensável para a formação de uma sociedade, e que numa sociedade onde não tem elite não é sociedade. E depois ele passa para os deveres da aristocracia e sustenta muito bem a coisa. Diz o seguinte:
* O Cardeal Herrera Oria diz que a aristocracia é o molejo de acolchoamento entre o rei e a plebe
Que a aristocracia é o molejo de acolchoamento entre o rei e a plebe. Que é papel do rei ser durão, enérgico e pouco concessívo. É papel da aristocracia estar num contato respeitado, mas materno em relação à plebe. De maneira tal que a aristocracia sinta antes do que o rei as necessidades da plebe, mas os leve ao rei com todo o prestígio dela, aristocracia, de maneira que o rei que poderia abusar da plebe se não houvesse nobreza, não abusa porque a nobreza impede.
(Sr. Guerreiro: Extraordinário!)
Extraordinário! Então ele acrescenta que — aqui a coisa range um pouco, mas você vai ver como é que range — que a aristocracia tem o direito…
Eu estou me estendendo um pouco demais sobre isso.
Que tender para a perfeição é o dever de todo católico, mas que se enganam os que acham — é incrível — que tender para a perfeição é só em matéria estritamente moral, que tender para a perfeição é tender para melhor, tudo. De maneira que em toda família bem constituída, por exemplo, os pais devem tender a que os filhos sejam mais cultos e mais bem educados e mais finos do que eles pais foram.
(Sr. Gonzalo: Isso dito por um democrata cristão é impressionante.)
É o contrário da Democracia Cristã. E depois está com todas as letras.
Que por causa disso também, faz parte da condição e do decoro da aristocracia ter palácios, ter carruagens, ter quadros, mobiliário precioso, biblioteca, documentos preciosos, etc., etc., faz parte, que não se chega a ser aristocrata se em alguma medida não se tem isto. Mas que, o que sobrar disto, a aristocracia tem obrigação de dar aos pobres.
(Sr. Guerreiro: Aí está um pouco…)
Quer dizer, é a tal história do supérfluo mas tem o seguinte, é que não toma em consideração… a necessidade da melhora contínua, supõe um aumento contínuo do patrimônio e que esse aumento contínuo do patrimônio dificilmente dá margem a um supérfluo. Quer dizer, em tese, se atendida a necessidade econômica do aumento contínuo de nível que ele acha indispensável, se há além disso alguma margem de dinheiro que sobre, eu estou de acordo com que deva dar aos pobres, mas não estou de acordo em que essa possibilidade de melhora fique desacompanhada de importantes reservas financeiras.
Bem, não se pode dizer que haja nisto um erro de doutrina, há uma omissão que talvez seja velhaca.
(Sr. Guerreiro: Ele não considera que uma sociedade assim constituída, ela tende pelo seu progresso e pelo exemplo magnífico que da, a atrair o desejo de que outros também sigam a inspiração que ela oferece.)
Não, isso ele considera e diz que é um bem que a nobreza deve fazer e faz.
Depois ele passa mais adiante e diz o seguinte: que nessa perspectiva, devem estar também as outras classes sociais levadas por esse impulso para cima que a nobreza comunica a toda sociedade. Aí está tudo muito direito.
Mas ele quando fala dos móveis e coisa dos nobres, ele diz o seguinte: que representam para o bem comum uma coisa tão importante, é tão importante para um país que a nobreza tenha essas coisas, que se pode dizer debaixo de certo ponto de vista, que são propriedade do país no uso dos nobres.
Também tem pelo menos um exagero. Quer dizer, os nobres não podem aniqüilar isso, não podem esbanjar isto; eu estou de acordo. O que um particular poderia fazer, um nobre não pode fazer, mas daí dizer que é um bem comum coletivo, vai um pouco além. E este é o lado ruim. Mas eu ficava na alternativa de publicar isto com autoridade de um próprio cardeal tido como insuspeito, ou não publicar nada. E acho melhor — se eu fosse fazer uma reserva, furava o balão — publicar e deixar por conta dele. Tanto mais que é coisinha muito pequena, que as pessoas não advertem no conjunto da documentação.
* O papel da nobreza é de ser na sociedade como a mãe. O primeiro milagre e Nosso Senhor foi para ilustrar esse papel da aristocracia no molejo social.
E depois ele dá um exemplo lindo. Ele diz que o papel da nobreza é de ser na sociedade com a mãe, enquanto o governo é ser como o pai. Que o governo tem severidades, tem exigências, etc., etc., que sua função retriz impõe, mas que a nobreza que é uma espécie de esposa do governo, nos casos difíceis se aproxima e faz ver ao governo como o povo está precisado, o que é que precisa, como deve fazer, etc., etc., e usando do prestígio social que lhe é próprio, levar o governo a fazer as concessões necessárias.
E o que é que ele vai procurar para documentar isso?
As bodas de Caná.
Em que sentido? Que interpretação?
Que faltou vinho. Aqueles empregados, tendo em consideração o respeito que a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo incutia, mas de outro lado vendo a necessidade pela qual passava o dono da casa, representavam bem a plebe necessitada, que compreendeu que não era para falar com Nosso Senhor, mas falar com a Mãe de Nosso Senhor. Eu acho muito bonito!
(Sr. Pedro Paulo: É o fundo do pensamento do senhor sobre o assunto.)
É. É!
(Sr. Paulo Henrique: Eu estava me pondo essa questão de o que é que há de novo nessa apresentação de que o senhor já não tinha cogitado, não tinha falado conosco…)
É isso.
(Sr. Paulo Henrique: O senhor já disse isso em muitas circunstâncias…)
Bem, mas então veja o bonito desenvolvimento.
Que a plebe, então, pede… os filhos pedem à Mãe que obtenha. A Mãe fala com Nosso Senhor e depois dá a eles só essa palavra: “Fazei o que Ele manda”. Que é sempre o que a nobreza acaba dizendo a plebe: “faça o que manda o governo”. Mas que é preparado pela nobreza para ser bondoso, e que foi o que aconteceu com Nossa Senhora. Que Nossa Senhora fez isso, Nosso Senhor mandou trazer água, Ele transmutou aquilo em vinho e o milagre foi feito. E que o primeiro milagre de Nosso Senhor foi para ilustrar esse papel da aristocracia no molejo social.
Agora, eu volto a dizer, esses dois pontos de que eu falei, eu tive séria dúvida se publicava ou não o documento por causa disso, mas o documento é tão extraordinário! E depois logo por um Herrera Oria, que é uma coisa doutro mundo publicar isso. Então eu estou instalando isso no livro. Tirei uns pedacinhos sob pretexto de brevidade, etc., mas o que está é isso.
Agora, isto é por exemplo, o que eu disse e vocês tiveram disso a experiência, vocês tiveram um flash da Ordem, agora. Vocês não reputaram essa coisa flashosa?
(Sr. Guerreiro: E o livro do senhor sobre a nobreza é um arqui-flash nessa linha.)
Espero, não sei.
E é o nosso choque com a Revolução na boca da Bagarre. Quer dizer, é uma obrigação nossa ou não é, no zênite da confusão, na orla da Bagarre, se temos isto para dar, é ou não é um obrigação dar?
(Sr. Paulo Roberto: O gume da luta da Revolução e da Contra-Revolução é dado por isso não?)
É por isso. Isso forma uma espécie de lupa… de uma parte da RCR considerada com lupa de aumento. De maneira que aumenta um ponto que é o ponto central no que diz respeito à questão da luta do igualitarismo.
(Sr. Paulo Henrique: O simples realce que o senhor está colocando na questão social dos nobres, para os dias de hoje colide duramente…)
Duramente!
(Sr. Paulo Henrique: Com tudo que a Revolução desde os seus primórdios até hoje tramou.)
Mas duramente!
* É obrigação de vida interior tomar o hábito de conservar o sabor flashs
Essas coisas como é que a gente deve tratar? Por exemplo, nós aqui tivemos um flash. Eu já tive quando li o cardeal Oria, e nós agora tivemos um flash com isso. Era preciso fazer com esse flash como quem recebe um dinheiro e não esbanja, mas procurar lembrar-se disso, amanhã algumas vezes, saborear. E de todas essas coisas tomar o hábito de conservar o sabor. Aqui está o dever de fidelidade e a obrigação de vida interior.
Eu lhes garanto o seguinte — para não ir mais longe — uma alma que às vezes saboreie isto durante alguns dias, tem possibilidades de resistência em matéria de pureza absolutamente originais e sui generis. É uma coisa de primeira ordem. E depois é uma espécie de atenuação para a vaidade, para amor próprio, etc., etc., porque o indivíduo não fica… Não é isso, é uma coisa muito mais alta, de outra natureza, é a Ordem que aparece.
(Sr. Pedro Paulo: Pureza é isso.)
Pureza é isso. É a Ordem que aparece. A tal ponto isso chegou que lá no São Bento conversando com alguns eu expus isso e todos juntos rezamos depois, por proposta minha, pela pobre alma desse homem porque algum bem ele fez.
(Sr. Gonzalo: É só o senhor para fazer isso.)
* À classe batalhadora por excelência, se pede o instinto materno em favor dos pobres; isso é uma coisa que só a Igreja poderia excogitar, e é de uma beleza peregrina
Mas agora, no meu livro, eu ponho uma notinha que eu acho que — pode ser engano meu, mas eu acho assim — que ajuda muito a tomar o sabor da coisa. Eu ponho uma nota seguinte. Essa história da mãe, o cardeal Oria cita de São Tomás, e portanto, aumenta o peso… Vocês sabem bem quanto aumenta o peso da coisa […inaudíve] de São Tomás. E aí eu ponho uma notinha na citação de São Tomás. Quer dizer, pensar que a nobreza é a classe militar por excelência, a classe batalhadora por excelência em favor do bem comum religioso ou temporal, e que é desta classe batalhadora, a esta classe se pede este instinto materno em favor dos pobres, e esse papel de mãe na organização social supõe um equilíbrio de alma que se pede a essa classe, que é uma coisa que só a Igreja poderia excogitar, mas que é de uma beleza peregrina.
Não sei se eu me exprimi bem?
(Sr. Paulo Henrique: O que é a beleza peregrina?)
É o fato da classe batalhadora por excelência em tempo de guerra, no tempo de paz ter essa função de mãe na organização social, que é a nobreza. Então sai, por exemplo, um piquete de nobres para a defesa da Terra Santa, eles saem com penacho aquilo tudo, está bem. O que é que é? É o elemento materno da sociedade que vai combater, porque é a nobreza. Você não acha de toute beauté? Tem um equilíbrio dentro disso… Então mais uma vez a idéia de Ordem que aparece nesse equilíbrio. Leva o afeto ao máximo e a combatividade ao máximo.
Eu com isso fico encantadíssimo!
(Sr. Paulo Henrique: Quando se chega ao ápice de caos o senhor chega ao ápice de explicitação do ápice da Ordem.)
Isso.
(Sr. Guerreiro: Se ele argumenta de que esses bens mais excelentes que esta classe tem como os palácios, os móveis, as obras de arte, pertencem ao país, porque não é legítimo concluir que esta classe também pertence ao país, e que ela de si deve ser protegida, resguardada e amada.)
Como no lar se defende a mãe.
(Sr. Guerreiro: Se os bens pertencem ao país, a fortiori esta classe pertence ao país.)
Não, e depois, não é fazer o jogo de palavra, você diz muito bem, a classe pertence ao país, e o país pertence a classe. Não é um jogo de palavra.
(Sr. Guerreiro: Ao pertencer ao país a gente identifica esta classe com o país. Portanto, mexer nesta classe destrói o país.)
É. Aliás, é o que diz o cardeal Oria: sem nobreza não existe sociedade. Ele não fala muito do papel político da nobreza, ele fala desse papel social. Eu acho esse papel social muito mais importante do que o político.
(Cel. Poli: A perder de vista.)
A perder de vista.
Bem, meus caros, eu sou obrigado a olhar um pouquinho o relógio. Mas são três horas, uns minutinhos podemos ir.
Não!…)
Uns minutinhos! Vamos degustar isso juntos.
* O que os filhos das trevas mais odeiam no SDP
(Sr. Gonzalo: É muito bonito ver o senhor tratando do cardeal Oria, porque quando o senhor fala isso vem com um timbre torna isso degustável como deve ser degustada para quem queria seguir ao senhor. O senhor dá uma vida à problemática que é onde a coisa toma seu significado maior. […] O degustar isso na pessoa do senhor é o ponto por onde nós nos cegamos. […] Quando o senhor trata dessas coisas, tem um carimbo do céu, e do céu para hoje que é único.)
Mas, meu filho, é o que o filho das trevas mais odeia. Porque o que você diz desse timbre é verdadeiro. Eu, sem fazer falsa modéstia nenhuma, digo é verdadeiro, mas tem qualquer coisa que faz com que os filhos das trevas se bifurcam. Uns falam mal sem dizer que é disso, eles fingem que não percebem que há isso, mas falam mal de raiva porque há isso. E outros não, sistematicamente ignoram a minha personalidade em qualquer coisa porque têm receio que esse timbre apareça.
(Sr. Gonzalo: Em duas palavras o senhor podia dizer como é o timbre, quais são as características desse timbre?)
Aí não, porque eu precisaria pensar para explicitar. Não poderia explicitar no momento.
(Sr. Paulo Henrique: O cardeal já disse isso e não aconteceu nada…)
Incomodou tão pouco que não impediu nada na carreira dele. Vocês sabem que havia quem não gostasse desses ditos que ele teve nesse trabalho. E quando ele publicou o trabalho ele não tinha chegado ao auge da carreira, foi depois que ele foi elevado. Quer dizer, é tão insignificante isso impresso num livro assim…
(Sr. Gonzalo: Dr. Adolpho uma vez falou que há um grau supremo de obediência que é a adesão ao tônus do senhor, que o senhor tem um tônus…)
É.
(Sr. Gonzalo: Então ele dizia que na união desse tônus não há um grau supremo de obediência? O senhor gostou muito dessa pergunta…)
O Adolphinho quem fez a pergunta?
(Sr. Gonzalo: Ele fez a pergunta no MNF. E o senhor depois tratou de quais eram as características desse tônus, e o senhor disse que eram a fé, a castidade, o aristocratismo e a combatividade cavalheiresca, e que isso é que dava o tônus do senhor. A gente vê que isso são alguns elementos desse timbre também.)
É, mas acrescenta-se a isto o seguinte: isto é no trato com os filhos das trevas, no trato com os filhos da luz, entra uma forma de afeto cavalheiresco que não é o afeto comum rotariano, “meu amigo, meu amigo” essas coisas, mas é o afeto cavalheiresco, sério, do qual eu estou puxando uma ponta em toda uma história de uns papéis sobre direito alemão antigo, que o Fernando Teles trouxe da Europa. Então havia uma lei, a lei dos saxões. O saxões era uma das hordas germânicas e tinha como elemento…
É curioso, eles estavam meio primitivos, já tinham uma lei escrita. Mas a lei escrita começava pela afirmação de princípios morais que eles tinham a ilusão que se tornavam obrigatórios porque ficava na lei, porque eles não tinham a idéia de um Deus legislador, mas eles tinham uma certa noção da coisa que eles expunham assim. E a amizade leal e guerreira era o primeiro dever de um saxão com outro.
(Sr. P. Roberto: É uma coisa que cunhou o povo, porque até hoje o povo alemão tem algo disso.)
Tem algo disso até hoje, sendo que não são todos alemães que são saxões, isto é um filão.
Mas o Andreas, quando eu falei um pouco disso, disse: “ah não, isso é direito saxão.” Quer dizer, ele já tinha ouvido. Lá no Salzburg mozartiana dele, ele já tinha ouvido alguma coisa a respeito disso e que é o que fica colocado a mais no trato com os filhos da luz.
* Ir atrás da ovelha perdida: uma prova de lealdade
(Sr. Gonzalo: E que nós temos provas a cada momento disso.)
E que eu procuro fazer até o último ponto.
Uma das provas dessa lealdade é ir atrás da ovelha perdida até o último ponto, é uma lealdade do pastor para com a ovelha, não poupar nada, porque se a ovelha é do pastor, o pastor é da ovelha, e nisso há um trato de lealdade.
(Sr. Pedro Paulo: E ovelha perdida, senhor, em certo sentido somos todos nós.)
(Sr. P. Roberto: Dessa bondade todos nós podemos dar testemunho.)
Eu acho que podem mesmo. Se não foi com cada um, foi porque não terá havido ocasião, mas em todo caso, não há um que não me tenha visto fazer “n” coisas dessas com todos os outros, de todo jeito, de todo tamanho e de toda forma, etc. Mas que é uma coisa que não é adocicada, é uma coisa de guerreiro a guerreiro.
(Dr. Edwaldo: Numa formulação muito simples o senhor dizia isso quando fala de cordeiro dentro e leão fora.)
É, exatamente, cordeiro dentro e leão fora. E pelo contrário, leão dentro cordeiro fora. Você pega, em geral um tipo qualquer que está dentro de uma velada oposição a mim na TFP, ele dentro tem restrições: “ele não pode, imagine!”, etc. Você vai ver fora, ele está disposto a lamber as botas do primeiro sem-vergonha que ele encontrar. O primeiro!, que dê a ele um pouco de importância. Nem é preciso lhe dar dinheiro, hein! Que dê um pouco de importância, ele vai lamber as botas.
Bom, meus caros, agora realmente eu lhes dou habeas corpus.
Vamos rezar…
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