Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
21/12/91 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 21/12/91 — Sábado
Uma imagem de como poderia ser o começo da “Bagarre” * Como seria a aparição e a relação do demônio com os responsáveis pelo progressismo na Igreja? * Eu sou propenso, dada a maldade dos homens hoje, a admitir que é extremamente difícil uma pessoa ter um arrependimento sério de seus pecados, sem libar alguma coisa desses horrores * Que contas, um membro do grupo tíbio, é chamado a prestar? * A realidade pode ser muito mais terrível do que eu estou dizendo. Eu nem conjeturo bem o que é que poderia ser * A existência do Grupo, considerada em função das pessoas do Grupo, é um ato de misericórdia, porque globalmente falando, o Grupo, nas regras da justiça, não teria direito de existir
(Sr. Gonzalo: (…) Nós queríamos pedir ao senhor, se o senhor pudesse tratar como o senhor vê esse “sabath”. A gente vê que isso vai sair das regras da ação preternatural até agora usada. […] Se o senhor pudesse descrever como será a ação preternatural e como nós vamos poder nos defender disso. E o Grand-Retour entra nisso? […] Em meio de tudo isso, qual é o preceder de Deus e do demônio?)
A pergunta está muito clara, a questão é a resposta que é muito obscura. Mas da obscuridade da resposta se tiram algumas luzes, e por aí se pode dizer alguma coisa.
* Vai haver até às vésperas do “sabath” do demônio, uma completa obscuridade e, de repente, a coisa se apresenta e nós estamos envolvidos no negócio
Eu não tenho a menor idéia de como isso se realizará, porque não tenho nenhum fato concreto, não tenho nenhuma circunstância a partir da qual possa fazer uma hipótese. Mas o próprio fato de não ter nenhuma circunstância até o momento pelo menos, que autorize uma suposição assim, etc., parece indicar o seguinte: que vai haver até às vésperas do acontecimento, uma completa obscuridade a respeito disso. Quer dizer, não se saberá. Parece indicar. E, de repente, a coisa se apresenta e nós estamos envolvidos no negócio.
(Sr. Gonzalo: Mesmo para o senhor ficará obscuro?)
Creio que sim. Pelo jeito e pela completa falta de qualquer indicação, de qualquer coisa que pudesse ajudar fazer uma hipótese. Porque a carência de dados é tão grande, que você deve notar que eu nunca fiz uma hipótese a respeito disso. Porque uma hipótese se pode fazer. Mas ao longo de quantos anos…
(Cel. Poli: De como vai ser a Bagarre?)
Sabath do demônio. Mas a Bagarre e o sabath do demônio são coisa interpenetrantes. Se pode dizer que o sabath do demônio seria o começo da Bagarre ou seria o desfecho final da Bagarre. Quer dizer, começa uma encrenca, a gente não sabe onde vai dar, etc., e, de repente, pluf! E creio que esta ignorância completa faz parte já do castigo.
Quer dizer, seria um alívio se eu a vocês pudesse dizer: “acautelem-se para, talvez, tomando em consideração tal coisa ou tal outra, pode-se conjecturar tal coisa e contra tal perigo vale a pena tomar tal atitude”. Seria um elemento respiratório. Mas você deve imaginar uma situação que vai se tornando cada vez mais densa, cada vez mais carregada, e o ar fresco de um pouquinho de perspectiva faltando. Você compreende bem o que isso quer dizer, como é que isso se põe.
Há uma diferença, e essa não é pequena, entre a posição de vocês e a posição deles.
(Sr. Gonzalo: Deles quem?)
O mundo aí fora.
É que vocês pelo menos saberão que começou uma história e onde é que essa história desfecha. Enquanto que para eles será uma coisa completamente sem sentido. Eles vão ter que descobrir o sentido disso tateando nas trevas e apanhando; debaixo de surra morrendo ou vendo os outros morrerem. E aí fazendo idéias.
(Sr. Paulo Henrique: Para nós por mais que seja obscura a situação para nós é bom… […])
* Uma imagem de como poderia ser o começo da “Bagarre”
Isso. Agora você faz idéia, amanhã, meu filho, começar por exemplo, às dez e meia de manhã, começa a Bagarre. Pode acontecer! E começa a Bagarre, vamos dizer o seguinte — não pense que é uma hipótese, é pura fiction: começa em vários lugares da terra, a terra se abrir, exalar um cheiro fétido e começa uma epidemia muito contagiosa e drástica. Em vinte e quatro horas o sujeito atingido está liqüidado e não tem saída.
Bem, você compreende, nós podemos ver que isso é o começo de uma Bagarre, sobretudo com esse estampido e com o ar fétido saído debaixo da terra, tem-se a idéia de uma coisa preternatural; as entranhas da terra dentro das quais talvez esteja o inferno, exala o seu cheiro, exalam suas coisas mefíticas, etc., etc. Se compreende mais ou menos. Mas fora disso a coisa como é que é? É tremenda!
Agora, você imagine que você — que Deus nos livre — não pertencesse o Grupo, trabalhasse para uma firma aqui em São Paulo e tivesse no seu apartamento dormindo tranqüilo quando estoura uma coisa dessa. E você já ouviu falar que em alguns lugares do Brasil houve isso, e você já compreende que essa epidemia. Então arrebentou onde você está, daqui a alguns minutos pode te alcançar. E pronto! Você está numa coisa que pode te levar embora de repente, mas pode também a epidemia tomar uma forma de lenta devoração do corpo pela qual sem esperança de cura o sujeito leve um mês ou um ano rolando de dor numa cama.
Bem, você não tem fé, você não entende o sentido do que está acontecendo para todos, você ouve blasfêmias — porque esse pessoal começa a blasfemar —, ouve blasfêmias, ouve um ou outro que grita: “Nossa Senhora!” Mas é um “Nossa Senhora” que é um mero gemido sem conteúdo religioso. Depois um outro que: “Aí! Morreu meu marido!” ou “morreu meu fassur!”, etc. Essas coisas assim.
Um outro no prédio de frente, pega o corpo da pessoa que morreu e joga pela janela para evitar que o contágio continue a se dar dentro da casa. Quando chega embaixo o doente está gritando, ele não tinha morrido. O sujeito de cima diz: “olha, arranja-se você, você já me atormentou a vida inteira, morra à vontade!”
Esse pessoal sai por aí, com as coisas mais horrorosas. Também debaixo grita, e, de repente, joga um móvel para acabar de matar a pessoa que está morrendo. É tudo! Você pode imaginar toda espécie de horrores.
(Sr. Guerreiro: Esses aspectos faz parte da Bagarre física, agora toda a questão do Sabath que o senhor tinha feito alusão no MNF…)
É, vem daqui a pouco.
* Numa situação de desespero entra o demônio
Agora, acontece o seguinte: que esta situação dá uma situação de desespero, e nessa hora de desespero entra o demônio. E então com tentações de toda ordem, que podem ser desde meras tentações interiores, até blasfêmias, quebras de imagens sagradas dentro de casa, e depois suicídios, etc., como pode, e é o que seria razoável, à medida que a situação vai ficando trágica, o demônio se fazer aparecer. E aí com gargalhadas: “imbecil!, você acreditou em mim! Agora você vai ter! Agora você vai morrer daqui a uma hora! Reze lá para aquela rainha lá que você costuma rezar — é Nossa Senhora cujo nome ele não ousa pronunciar —, reze lá para ela e vamos ver como é que a coisa te acontece. Ahahah! Quer que eu te apareço? Eu te apareço”.
— Não, por favor não me apareça.
— Você não quer é? Eu vou te mostrar…
E aparece horrível! E atormentando a alma de um sujeito — de um precito, porque nessas condições o sujeito já está quase um precito — atormentando de todo modo e dizendo: “no que é que você viu Deus? Você rezou em tal lugar, e Ele não te atendeu. Em tal outro lugar não te atendeu. Para que é que Ele te criou? Vamos nos revoltar juntos! Olha aqui, pega aqui uma arma que eu te dou, mate-se! Se quiser eu te mato.” E o sujeito some dessa terra e é julgado por Deus e vai para o inferno
Pode aparecer demônio sob formas terríveis de animais, de bichos, de gigantes, de bichinhos, de qualquer coisa, e pode nos comunicar os tormentos de alma mais horríveis que são os que eles sofrem. E aí você compreende… Nossa Senhora acaba ajudando alguns, mas outros já estão tão habituados a resistir a graça, a não se incomodar com nada, que até onde vai essa história?
Uma coisa que me disseram, eu ouvi nessas conversas a respeito de Natal. Você faça idéia da coisa.
* O que é a ida para o inferno de um chefe de Estado que sancionou uma lei dando liberdade a homossexuais? Ou de um padre que sistematicamente advogou uma impunidade legal, ou moral?
Que havia uma lenda antiqüíssima — lenda ou será uma tradição histórica — de que na noite de Natal, 24 para 25, todos os homosexuais da terra morreram. Está na proporção. Mas agora você faça a idéia, com a difusão desse vício por aí e tudo mais que nós sabemos a respeito disso, o que é que será o fim desses tipos?
(Cel. Poli: São uns tipos super revoltados.)
Super revoltados. Não, mas Deus também com um horror tremendo deles, para limpar deles a Terra para o Menino Jesus nascer, você faça idéia do que é que é.
Santa Margarita de Crotona dizia que o ato sexual com esses sujeitos é uma coisa tão antinatural que o demônio que o provoca por ódio a Deus, sente uma espécie de eflúvio de descarga dolorosa decorrente daí, razão pela qual ele se afasta. Ele provoca o ato e se afasta. Naturalmente, a coisa o pega. Mas você pode imaginar! Para o demônio detestar isso o que é que é? E o que é que é um desaparecimento de um tipo desses?
Agora, o que é que é a ida para o inferno de um chefe de Estado que sancionou uma lei dando liberdades a esses sujeitos assim? Ou de um padre que sistematicamente advogou uma impunidade legal, ou mesmo uma impunidade moral.
(Sr. Gonzalo: Quando não foi.)
Quando não foi! Quando não foi ele próprio.
* Que contas tem que prestar uma mãe que mata o próprio filho?
Aqui se pode ter… E depois tomando em consideração os vários pecados de hoje, ainda conversávamos por aqui sobre essa história das mães que ficam com horror aos filhos. Quando elas concebem ficam com horror aos filhos porque ficam com raiva de ter concebido um filho que vai dar trabalho, vai dar preocupação, etc., etc., e que querem levar uma vida sem trabalho. E vão e matam o filho. Bem, como é que isto é visto por Deus? Uma criança que vai para o limbo, que fica privada do Céu por toda eternidade, e que é por causa dessa mãe, que pelo menos não teve a compaixão necessária para batizar a criança antes de matar. E lembrando-se perfeitamente a questão de céu, de limbo, etc. Como está com ódio do filho, mata e não batiza. Agora, quais são as contas para prestar?
* Como seria a aparição e a relação do demônio com os responsáveis pelo progressismo na Igreja?
Vocês já pensaram de como seria a aparição do demônio e a relação do demônio com os responsáveis pelo progressismo na Igreja? Quer dizer, não tem palavras! Tudo isso são coisas horríveis!
(Sr. Gonzalo: E o nexo com a Revolução.)
Pois é, o progressismo é a Revolução.
(Sr. Gonzalo: […] Esse demônio vai agir em função de ser o senhor da Revolução, e com aqueles que tem partes com a Revolução…)
Sim, e pode-se ser membro do Grupo e ter parte com a Revolução dentro do Grupo.
(Sr. Gonzalo: Por isso eu digo, nós temos parte com a Revolução. Mas ele, provavelmente vai ter poder sobre todas as pessoas que tenham parte com a Revolução.)
É evidente!
(Sr. Gonzalo: Agora, como o senhor vê que será para nós e tomando em consideração as tentações contra o senhor no Grupo. Uma vez que nós temos parte com ele, ele vai nos jogar contra o senhor.)
Ah, claro!
Bem, eu deixei a questão do Grupo para daqui a pouco porque tem relação com a questão de Nossa Senhora, é muito mais delicado. Enquanto que com esses aqui é… É o que você sabe! É mais lógico começar pelo castigo no que ele tem de mais extremo para depois baixar para as gradações sucessivas e tal. Então compreende-de o método adotado.
* O horror que essas coisas devem causar se pode medir pelo sentido oposto: imaginem a alegria e o bem-estar de Nossa Senhora, de Nosso Senhor, dos Magos, dos Pastores na gruta de Belém
Acontece que o horror que essas coisas devem causar se pode medir pelo sentido oposto. Imaginem a alegria e o bem-estar de Nossa Senhora, de Nosso Senhor, dos Magos, dos Pastores na gruta de Belém quando foram visitar, etc., etc. É uma alegria indescritível! Não é verdade? Por causa da alegria que os bens espirituais podem causar.
Santa Terezinha quando morreu e que teve aquele êxtase quando morreu, ela se levantou de corpo inteiro em pé na cama, e teve uma exclamação inundada de felicidade e depois morreu.
Bem, a contrário senso, nós podemos compreender a desventura de uma alma na hora em que ela sente que por causa dos pecado dela e com o consentimento dela, o demônio a agarra e por ordem de Deus a leva para o inferno. Em que ela sente penetrar nela como uma chuva imunda, o primeiro castigo eterno que será sempre.
* Os tormentos de um precito no inferno
Mais ainda, as almas no inferno ficam tão desfiguradas que ficam como ficariam um homem se ele passasse, de repente, para bicho, e passasse a ser um bicho repugnante, indecente, etc., que causasse riso ao ser visto. E por outro lado cheio de desgraça completamente, transbordando de uma dor fixa, sem variante, sem repouso, sem atenuação em nenhum instante, e que sabe que isto é assim e que não tem variação. E que está posta num tal estado que se Deus oferecesse o perdão e o céu, ela não quereria. Porque é preciso imaginar isso, que é o que, por exemplo, a carta do Além diz e que é coisa tremenda. Aquela condenada disse que tinha tanta fome que se dessem para ela comer, uma estrela, um astro, feito de pão, ela tinha a impressão de que ela comia inteiro. E entretanto tinha náusea diante da idéia da comida. São coisas que precisam… Já imaginaram o que é a sensação de um homem que tem duas brasas no lugar dos olhos, nas cavidades da órbita? Isso pode ser o estado do olho do condenado. São duas brasas acesas lá dentro, e cada vez que olha alguma coisa aquilo lhe dilacera. E ele não pode deixar de olhar porque está com as pálpebras abertas por ordem de Deus e se cerrar dói de outro modo, mas igualmente dói.
Então como é que é? Agora, pode imaginar o começo dessa torrente? Vooof! O que é que é uma coisa dessa? Isso não se tem uma idéia!
Ora, durante esse sabath muitos vão para o inferno. E outros se não vão, vão para um purgatório tremendo. Mas a gente vê o começo disso no ato deles desaparecerem.
(Sr. Guerreiro: No ato de…)
De morrerem. E o começo já deixa a gente horrorizado.
* Eu sou propenso, dada a maldade dos homens hoje, a admitir que é extremamente difícil uma pessoa ter um arrependimento sério de seus pecados, sem libar alguma coisa desses horrores
Eu sou propenso, dada a maldade dos homens hoje, a admitir que é extremamente difícil uma pessoa ter um arrependimento sério de seus pecados, sem libar alguma coisa disso. Ver os outros! Ficar com pânico! Mas pânicos não sei de que tamanho! Um estado de alma que leve o indivíduo a cair tanto em si que afinal tenha um muito que diga a Nossa Senhora: “Minha Mãe, nunca mais!”
Agora, tomando em consideração essa gente que a gente vê aí. Existe uma possibilidade normal de imaginar que muitos se convertam?
Quer dizer, eu compreendo que a graça pode tudo, e fez, por exemplo, com o São Paulo o que fez. Mas não é a mesma coisa.
(Sr. Gonzalo: Não haverá alguns casos de gente que tenha como que alegria de que isso aconteça? O senhor se lembra quando houve um caso de um famoso incêndio de um prédio…)
Joelma.
(Sr. Gonzalo: E as gentes por causa do calor tiravam a roupa e depois descobriram muitos cadáveres que estavam fassurando, homens com mulheres… Haverá também esse lado de orgia…)
Evidentemente. Evidentemente! Orgia maldita. Quer dizer, são coisas meio impensáveis, mas que serão a que a justiça e a misericórdia se osculam. Para estes serão a justiça, mas para os que tiverem em estado de pecado e virem isso, pode ser a misericórdia. Mas eu temo que sejam relativamente pouco numerosos. Quer dizer, se vai comparar o número deles com o número de pessoas presentes nessa sala, evidentemente são numerosíssimo, mas em comparação com o total da humanidade é um pingo! Eu temo isso!
(Dr. Edwaldo: É uma situação em que a “estrutura” desistiu de converter e só faz perder.)
Só, ela só trabalha nesse sentido.
Quer dizer…
(Sr. Gonzalo: Para o senhor João pode ficar?)
Vocês depois explicam a ele.
(…)
* Que contas, um membro do grupo tíbio, é chamado a prestar?
Um membro do Grupo que tem um fato que não depende da vontade dele: ele recebeu a vocação. E ele não tem dúvida nenhuma que ele tem a vocação. Está colocada na alma dele como um ferrete. Ele foi chamado.
Bem, chamado. Ele sabe bem que ele foi chamado para participar de modo ativo, abnegado, contínuo, do funcionamento da única pequena máquina existente na terra que ex professo e com intenção especial trabalha contra a Revolução, e, portanto, faz o que há de mais importante, de mais útil, etc., para a glória de Deus e para a salvação das almas. Ele entra naquilo e sabe que ele tem ali o peso do tíbio, ele sabe que ele assiste uma reunião com negligência, e que ao assistir a reunião com negligência, ele contagia de inércia e de inação, um irmão de alma dele, irmão de vocação. Ele, tíbio, sabe bem como é difícil carregar a cruz de uma perseverança, ele se pendura na cruz do outro com todo peso de sua preguiça, na melhor das hipóteses, indiferente ao efeito que ele está causando. E percebe que com tudo isso ele produz um retardamento na situação. Porque produz.
Bem, ele sabe que um retardamento pequeno no funcionamento dessa máquina que efeito produz no conjunto.
Está bom, eu pergunto: como é esta situação? Que contas ele é chamado a prestar?
* Para o tíbio o demônio dará a convicção de que ele não tem perdão
Bem, e o demônio o que é que vai fazer? O demônio, antes de tudo, em certo momento, vai dar a ele a convicção de que ele não tem perdão. Num primeiro momento a indiferença: “não, afinal sou da TFP, à última hora eu me salvo! Eu falo com o Doutor, e ele me dá um jeito, etc., etc.” Mas disso que é temerário, que é uma presunção temerária de salvar-se passa para o desespero:
“Não, não tem mais jeito — porque o demônio leva por aí — não tem mais jeito, não adianta rezar, não adianta fazer nada, porque estou perdido mesmo. Nós todos que somos assim estamos perdidos mesmo, e então eu vou me entregar. E como na TFP ainda não entrou este fogo, eu não quero sair da TFP para ser consumido por este fogo lá fora, eu vou continuar aqui dentro prejudicando”.
É o curso natural de misérias morais de toda ordem. Tem que acontecer! E então como é que fica a situação?
Depois, alguns com a idéia de se salvar, de pedir perdão. Mas o demônio diz: “não, não, agora Dr. Plinio não perdoa. Ele já avisou muito, e se você for falar com ele, ele te põe fora. Dirá mesmo que não, que não se aproxime porque você vai contagiar, etc., etc. — desvario de toda ordem —, ele teve muita paciência, mas a hora da paciência de Deus chegou, chegou a hora da paciência dele. E é melhor até nem se aproximar dele”. É o que o demônio vai dizer fatalmente.
Então, diz: “o Doutor Plinio pelo menos recomendava a oração à Nossa Senhora”.
— Ahahahah! Nossa Senhora! Você pensa que Ela olha para você? No dia do juízo, quando você for julgado, agora! Daqui a cinco minutos, seu miserável!, você é julgado, e você vai ver com que frieza Ela vai te olhar! E nessas condições, já agora olha! nem pense nEla! Você está perdido!”
Mistura-se nisso o pânico de ser contagiado pela epidemia, o pânico de não ter o dinheiro necessário para comprar os remédios caríssimos com os quais alguns se escapam da epidemia. O pânico de não sei o quê. De repente, um parente e pede asilo, e ele apesar de tudo por familiosa dá o asilo, sabendo que ele se contagiando vai para o inferno, porque ele não está em condições, não está preparado para nada.
Alguém dirá: “mas é um ato de caridade que vale a ele a vida eterna!”
Não, não é um ato de caridade, é uma ato de imprudência, de temeridade. Não vai cuidar da salvação do outro também. Os dos vão morrer juntos e vão abraçados para o inferno. Assim que é o negócio. Lá vai! Isso lá vai! Ninguém sabe como é que isso vai.
Eu, na minha infância, assisti a gripe espanhola em São Paulo. É uma gripe que houve logo depois da primeira Guerra mundial, e que tinha poder de contágio enorme. O Rio de Janeiro foi um dos centros de maior contágio, maior ainda do que aqui em São Paulo. Então, não havia quase ainda apartamento, mas haviam casas assim de dois, três andares que alugavam quartos, no Rio de Janeiro mais do que em São Paulo. Então morriam aquelas pessoas em quantidade, e punham os cadáveres na rua. Às vezes nus, porque não havia mais jeito nem nada. Sempre tomavam o cuidado de deixar uma vela acesa junto ao cadáver. Era uma última forma de…
Bem, eu me lembro…
(…)
* No meio da bagunça haverá gente ainda na brincadeira
… uma correntinha, um barbante, uma coisa assim, presa com um pedaço de cânfora. Sabe uma cânfora cristalizada que se usa. Era meio novidade médica naquele tempo, então para estar sempre respirando essa cânfora, porque era uma coisa que seria bactericida. Parece que nem é bactericida nem nada. Nós achávamos divertido andar com aquilo na rua. Brincávamos de cheirar aquilo, levávamos pela rua… passei a vida de crianças felizes e normais sem se incomodar com nada. No meio da bagunça, haverá gente assim. Só nos últimos fins da Bagarre, haverá um momento que não é mais possível. Mas só nos últimos fins da Bagarre não será assim.
(Sr. P. Roberto: Aparece uma brincadeiras em alto-colante fazendo jogo de palavra com cólera e Collor…)
Ah, sei.
(Sr. P. Roberto: Porque a cólera está entrando no Brasil.)
Sei, mas houve casos de cólera no Brasil, não houve?
(Sr. P. Roberto: Já, já houve, e está baixando do norte para o sul. No Pará, na Amazônia, em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte também já ouve.)
Essas coisas se propagam de um modo assustador. Pois é: Collor e cólera e lá vão brincando. Brincadeira! Brincadeira. E depois, vamos dizer, por exemplo, são dois sobreviventes do corpo docente de uma universidade. Terminado o negócio só dois professores sobrevivem: é uma pilhéria!
— Então, a doença não quis saber de você! Você é tão ruim, que não servia nem para isso.
O outro diz:
— Você era o azar aqui da Universidade, e o azar não saiu, heim!
Brincadeiras assim! Está acabado.
Quer dizer, se um castigo desses cessassem de repente sem conversão dos maus, sem Grand-Retour, os homens começariam se assassinar de tão ruins. Porque eles ficariam muito mais córneos.
* A realidade pode ser muito mais terrível do que eu estou dizendo. Eu nem conjeturo bem o que é que poderia ser
Bem, mas essas são hipóteses. É fiction!
(Sr. Gonzalo: A realidade tem que ir muito por aí.)
Sim, mas não é o sabor da realidade provável, baseada em indícios. A gente vê que vai por aí, mas acho que pode ser muito mais terrível do que eu estou dizendo. Eu nem conjeturo bem o que é que seria. Correria de fantasmas! E daí para fora. Eu nem conjeturo bem o que é que poderia ser.
(Cel. Poli: Parece que o pavor que fantasmas põem é terrível.)
(Sr. Gonzalo: Depois ódio também. Porque ter que aceitar o senhor inteiramente, para eles… que suponhamos que Deus a alternativa para eles seja essa: que Deus mande para eles…)
Essa alternativa.
(Sr. Gonzalo: E agora, como é que é o negócio? Vai ser uma explosão de ódio junto com isso…)
Uma coisa inenarrável, simplesmente.
(Sr. Gonzalo: O que vai ter que ser proclamado pela TFP vai ser isso. Proclamar o senhor. E aí?)
Eles não quererão assassinar membros do Grupo que queiram me proclamar?
(Sr. Gonzalo: O que é que vai se aconselhar numa situação dessa? Ou se consagra em termos de 67 como ninguém levou a coisa, ou não tem jeito.)
Não tem jeito.
(Sr. Gonzalo: Se algo de bom ainda nós podemos fazer é isso. E os membros do Grupo que começaram a fugir…)
Não, e alguns terão ódio. Você pega por exemplo, o mutuca. É evidente que ele nos tem ódio.
(Sr. Gonzalo: […] como que Deus impusesse as pessoas: “a solução é esta aqui!” Aí é…)
Pranto e ranger de dentes. É para eles o inferno na terra. O inferno na terra!
(Sr. Gonzalo: E para nós é um aperto também.)
Aperto terrível! É preciso ver bem.
* A existência do Grupo, considerada em função das pessoas do Grupo, é um ato de misericórdia, porque globalmente falando, o Grupo, nas regras da justiça, não teria direito de existir
(Sr. P. Roberto: O senhor tinha dito que teria algo e delicado com relação à Nossa Senhora, o senhor já teria dito ou não?)
Sim, é que a questão com os membros do Grupo entra o lado da misericórdia. E é muito misterioso como é que o lado da misericórdia se desenvolve. Nesse sentido: que Ela tem uma misericórdia enorme, a gente vê a todo propósito, de todo jeito, a todo momento. A existência do Grupo, considerada em função das pessoas do Grupo, é um ato de misericórdia. Porque globalmente falando, o Grupo, nas regras da justiça não teria direito de existir.
(Dr. Edwaldo: Um ato de misericórdia permanente.)
Permanente. Agora, como é que se equilibra isso com a justiça? Eu também não sei. Porque há uma coisa no Grupo que me deixa estarrecido, e é a seguinte coisa: Nossa Senhora chama o indivíduo. O indivíduo corresponde à vocação bem. Em certo momento se mediocriza. Ele fica dentro do Grupo e percebe que ele e a geração dele continua a trabalhar, continuam a ser honestos, direitos, mas não fazem aquilo que deveriam fazer por inteiro.
Bem, entra uma geração nova, eles percebem que essa geração nova está na crista da onda, e que faz coisas que eles não fazem. Bem, eles deveriam dar graças a Nossa Senhora, de que ao menos os outros fazem o que eles deveriam fazer e não fazem. Não acontece. Muitas vezes em alguns provoca alegria. Mas se pergunta: “você meu filho, por que é que também não faz? O caminho não está aberto para você?”
Não faz porque ele não quer, porque não acha gostoso. Porque ele não quer ter aquele ato de abnegação por onde ele sai daquele alveolozinho de egoísmo, de confortinhos, sei lá de que coisa para imitar aqueles outros.
Bem, mas esses outros que estão na crista da onda, ao cabo de algum tempo, bom número deles se mediocriza também. E vai fazendo assim alguma coisa parecido com aluvião de medíocres sucessivos. Naturalmente, há exceções a esse regra, graças a Deus, mas é quase uma regra. Não sei se vocês acham que eu estou exagerando? Eu acho que não é exagero.
(Sr. Gonzalo: Os mais velhos temos responsabilidade por nós e temos responsabilidade pela mediocrização dos mais novos também.)
Também! Vai contagiando! Contagiando! Contagiando! [vira a fita]
… arrastar um país como a Colômbia para o narcotráfico nas condições em que ela se desenvolveu e para a guerrilha como ela ficou, e o mal que ela fez, que grau de pecado tem? Só aquele assassinato no Palácio da Justiça, aquela coisa toda, sem falar mais remotamente do Bogotaço. Mas pior do que isso é o estado em que uma importante nação sul-americana fica imersa, creio que há vinte anos já, não é?
(Sr. Merizalde: Do ponto de vista da matança, já há mais de 40 anos.)
Mais de 40?
(Sr. Merizalde: Com diferentes nomes, mas é o mesmo processo.)
É, exatamente, um processo é isso. É uma coisa impressionante.
Está bem, isso é menos pecado do que os impulsionam a Revolução na Colômbia.
(Sr. Gonzalo: Dos que…)
Impulsionam o processo revolucionário na Colômbia.
(…)
… em cada Reunião de Recortes variar, pôr três ou quarto textos desses, depois da reunião outro texto. Porque dá para muito tempo.
(Sr. Gonzalo: Há uns três capítulos do “Em Defesa” que é só chicote.)
Sim. É isso.
(Sr. Gonzalo: Eu posso falar com o senhor João, para que ele selecione…)
Eu acho que seria interessante. Mas independente disto, era também de fazer um folheto para circular, ouviu?
(Sr. Paulo Henrique: Só internamente?)
Pelo menos de momento. Se sair alguma coisa contra nós do lado ecumênico, nós sapecamos… Eles não saem, porque sabem bem…
Bem, meus caros…
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