Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 30/11/91 – Sábado – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 30/11/91 — Sábado

A inocência dá uma espécie de conhecimento quase místico, experimental, direto, de uma porção de coisas que a criança percebe pela rama, mas que contém toda a sabedoria futura * Se todos nós fizéssemos um esforço para ter um conhecimento das coisas a partir dos píncaros, a TFP teria um poder de desinfestação fabuloso * A alma inocente sabe tudo, conhece tudo, responde tudo, na hora!, com uma facilidade de deixar pasmo * Havia na SDL uma resolução de manter-se nas vias da inocência, que isto traçou para ela, desde o começo, um caminho completamente retilíneo * “Tudo quanto um homem dotado pode desejar retamente do desenvolvimento natural de seus dotes, eu teria se eu tivesse como finalidade servir a inocência, servir Nossa Senhora * Um exemplo de como a pessoa pode entenebrecer a alma, numa eleição para prior da Ordem Terceira do Carmo

* A inocência dá uma espécie de conhecimento quase místico, experimental, direto, de uma porção de coisas que a criança percebe pela rama, mas que contém toda a sabedoria futura.

Vamos entrée dans matière!

Então, que é o “parleiro” hoje?

(Sr. Guerreiro: […] Porque tudo isso que o senhor comentou hoje à tarde e ontem no MNF…)

O que comentamos ontem no MNF mesmo?

(Sr. Guerreiro: Todo o problema da degustação, do espírito contra-revolucionário, etc.)

(Sr. Gonzalo: (…) Estava uma reunião de um encanto, de uma leveza, de uma graça…)

Eu não senti isso, ouviu? Estou surpreso com o que vocês estão dizendo?

(Cel. Poli: O senhor achou a reunião pesada?)

Não, não, mas não percebi que estivesse achando isso.

(Sr. Gonzalo: Todo o mundo ficou encantado…)

(Sr. Paulo Henrique: Foi arrebatadora a reunião.)

Não tive noção disso.

(Sr. Guerreiro: […] E esse encantamento nos prepara para o Reino de Maria…)

Sim, claro, claro!

(Sr. Guerreiro: Se nós deixarmos de olhar isso por estes “filtros de de cristais” que o senhor tem na alma, a gente fica parado no meio do caminho ou toma os desvios colaterais que acaba dando sempre no lugar errado.)

É, isso é o que seria o Proust lido na reunião dos médicos, sem que alguns de nós estivéssemos presentes, não é?

(Sr. Gonzalo: Foi mesmo, foi domingo retrasado.)

Eu ouvi dizer que eles estão esperando para amanhã também, não sei. Não sei o que é que se combinou lá.

Mas então, meu filho?

(Sr. Guerreiro: Se o senhor, à luz desse pedido comentar como é que o senhor discerne esta modalidade de espírito degustativo no senhor dado esses outros que eventualmente têm tratado de temas mais ou menos conexos, ou aparentados a esses que o senhor tem comentado conosco. […] O senhor não podia tratar um pouco como é que é esse olhar muito interior, muito cristalino, muito límpido e sem nenhuma conotação de espírito egoísta?)

Está muito bem expresso. Eu não sei se vocês têm em mente um comentário que uma vez o Fernando Furquim fez a meu respeito, e quando chegou o comentário aos meus ouvidos, eu fiquei surpreso e assim achando que tinha qualquer coisa de meio subversivo no que ele dizia. Mas depois eu vi que não tinha nada de subversivo e que era uma coisa até verdadeira, que valia a pena prestar atenção, e que é a seguinte:

Quando eu elogiava certos livros, certos autores, certas coisas assim, eu depois contava para os outros que eu tinha gostado, e que o livro dizia tal coisa, e que tal monumento tem tal coisa assim, etc., etc. E que então o sujeito vai ao livro para ver, e percebia que eu não estava mentido, mas que eu tinha visto no livro, algo a mais que o autor não tinha posto, e que era uma espécie de construção minha a respeito do que o autor tinha posto e que ia além do autor. E que essa construção não estava, portanto, no texto do livro.

Agora, por que isto? É porque eu vendo aquelas coisas, eu para atendê-las, eu as tomava como manifestações decadentes de uma coisa que foi incomparavelmente melhor e procuro partir do cone disto, como é que isto teria sido na sua perfeição, como é que essa qualidade esse modo de ser, essa coisa teria sido na sua perfeição. Ou se a coisa chegasse à sua perfeição, como é que ela seria.

(Sr. Guerreiro: Esse é um outro movimento da alma do senhor.)

Isso, um movimento de minha alma. E incorporava aquilo da figura que eu faço da coisa, e a justo título não porque a coisa contém aquilo de um modo explícito, mas porque implicitamente aquilo está ali à maneira de recordação ou de esperança, e é o que a coisa tem de melhor.

Então, a gente chega a uma compreensão de um ápice que leva a pessoa a entender bem as coisas, etc., etc. Isto é um costume que é contínuo de minha parte e que explica a compreensão de muitas coisas, enfim, explica muitíssimas coisas que eu faço.

Agora, então a pergunta podia remontar a outro ponto: como é que eu conhecia, previamente, a conhecer a coisa, conhecia o cone? Conhecia o ápice?

Eu continuo claro?

Então, como é que eu conhecia o ápice?

Esse ápice provinha da inocência. A inocência dá uma espécie de conhecimento quase místico, experimental, direto, de uma porção de coisas que a criança percebe pela rama, mas que contém toda a sabedoria futura. E então preservada muito esta inocência, ela com o curso do tempo dá o conhecimento do Bem e do Mal.

Por exemplo, agora essa porcaria aqui perto tocou [o alarme de um automóvel], se fosse o caso, eu teria manifestado a minha censura a isto. Mas eu teria manifestado com uma veemência maior do que talvez algum de nós manifestasse.

Agora, por quê?

Porque eu parto de uma ordem do silêncio absoluto, que não é o silêncio total onde nunca há um barulho, mas é o silêncio perfeito que até pode ser percorrido de vez em quando por algum ruído familiar, pequeno, harmônico mas que não quebra o silêncio, enriquece, mas que é incompatível com sons dessa natureza.

(Sr. Guerreiro: As noites antes da revolução industrial tinham isto.)

Tinham isto, exatamente.

Então, vamos dizer, por exemplo, à noite você está dormindo, ou está assim num estado intermediário e ouve um cachorro que late ao longe, você não pode dizer que seu silêncio foi interrompido. Não pode, porque é um dos tais sons que habitam familiarmente no silêncio e não o matam, são harmônicos com o silêncio. É como você está acordando ainda de manhã, e na rua ainda quase não movimentada, você ouve uma gargalhada de criança, se é uma gargalhada pura, você não pode dizer que aquilo atrapalhou seu sono, aquilo te ajudou dormir.

(Sr. Guerreiro: O silêncio pode ter adereços sonoros.)

Isso! Perfeitamente! Perfeitamente é isso.

Uma criança inocente tem essa sensação do silêncio. Mas o que [se] vê por aí, nem conversam sobre o que nós estamos falando. Vamos mudar de assunto, deixar essa gente.

* Como o Senhor Doutor Plinio construíu a idéia contra-revolucionária da corte de Luis XIV

Então, vem daí que por exemplo, na corte de Luis XIV, um pouco me tem a idéia de como seria a corte medieval se ela tivesse continuado a progredir mais na Idade Média; e um pouco me fica a idéia de como será um dia, vamos dizer, aquela própria corte de Luis XIV se tivesse progredido retamente na linha da promessa do Sagrado Coração de Jesus à Santa Margarida Maria, e se ele tivesse tornado, para usar a expressão de Nosso Senhor, um amigo d’Ele, como é que aquilo poderia ter conservado todo o seu esplendor, mas com alguns adereços, com alguns adornos, como você dizia, mas que adornos!, adornos de estrela, de sol, posto pelo sobrenatural ali. E é vendo isto em Luis XIV e tendo a consciência de que o ódio revolucionário mais se dirigia a estes dois extremos do que o que foi no tempo de Luis XIV, é que eu construo a idéia contra-revolucionária da corte de Luis XIV. Que é, portanto, até certo ponto uma reconstrução.

Eu acho que é bem isto, não é meu filho?

* Se todos nós fizéssemos um esforço para ter um conhecimento das coisas a partir dos píncaros, a TFP teria um poder de desinfestação fabuloso

Vamos dizer o seguinte: se eu não fizesse assim, eu não saberia viver, porque a coisa chega até lá.

(Sr. Gonzalo: É só o senhor que viu o luxo como o luxo é, então trata do luxo como um amor ao luxo, e vendo o que a Revolução odeia no luxo… […] Porque todo o mundo pode ter um amor ao luxo, mas mundano…)

Não é o nosso.

(Sr. Gonzalo: É visto com tal pureza, com tal cristalidade, que já se vê como é que vai ser o luxo no Reino de Maria, mas ou se vê através desses olhos do senhor ou não tem jeito.)

Não tem jeito, nesse ponto eu concordo inteiramente.

(Sr. Gonzalo: […] Sai um fogo, que é altamente degustativo.)

Não, degustativo é isto!

(Sr. Gonzalo: […] Então quando se degusta coisas assim sai desinfestado.)

Eu concordo muito com isso e acho que se todos nós fizéssemos um esforço para sermos assim, a TFP teria um poder de desinfestação fabuloso.

(Cel. Poli: Assim como é?

Quer dizer, praticar esta degustação a partir dos píncaros. Mas então tendo esse conhecimento dos píncaros a partir da inocência.

(Sr. Guerreiro: […] A solução é exatamente olhar para este “cristal”.)

* Um exemplo de como é a aurora da infância ou de uma adolescência: São Domingos pintado por Fra Angélico

Eu vou mostrar uma coisa para vocês que dá bem a idéia de como é na aurora da infância, ou de uma adolescência que é o prolongamento… [toca a sineta]

Pede ao Mourão que está aí para chegar aqui um pouquinho.

Escute, meu Leonardo, você quer chegar lá na minha escrivaninha tem um cartão postal que está assim posto de pé, você trás aqui.

Bem, eu não conheço que coisa que exprima melhor esta candura que sabe tudo e que conhece tudo do que nesta pintura que vocês conhecem, a questão é que se trata de uma fotografia muito boa. São Domingos pintado por Fra Angélico. São Domingos não era assim, porque ele não conheceu São Domingos, ele imaginou, como o artista costuma fazer. Mas vejam…

(Sr. Paulo Henrique: E Fra Angélico dominicano imaginando que era…)

O Fundador dele. Mas não sei se vocês percebe que esta pessoa assim sabe tudo, conhece tudo, tem uma transparência de alma, por onde as correlações de tudo, a reversibilidade de tudo em tudo, tudo isso ela conhece à força de transparência interior.

(Sr. P. Roberto: O senhor falou de uma recordação, uma recordação é de algo já conhecido.)

De algo já conhecido, exatamente. Você chegou a ver meu filho?

(Sr. P. Roberto: Eu já conhecia, senhor.)

Mas olha, não perde em ver a fotografia diretamente, porque esta tem alguma coisa que as outras reproduções do São Domingos não têm.

(Sr. Guerreiro: Isso toca no píncaro que o senhor estava falando…)

Exatamente. Eu estava fazendo com o João — esse é um postal que me deu o Rugelles aqui na entrada — eu estava falando com o João, a respeito dessa fotografia e estava comentando com ele que existe uma certa noção da dormição de Nossa Senhora, que é comparada com a morte de um de nós, porque a dormição foi uma morte, a alma d’Ela separou-se do corpo; separou-se mas tão leve que chamam de dormição, o corpo como que ficou vivo apesar da alma se ter separado — como quê. E você compara então o esforço de um intelectual comum para produzir suas obras, com esse esforço leve como um sopro, assim o sopro que vinha à tarde no Paraíso quando Deus vinha conversar com Adão, o sopro leve, a perspicácia leve, fácil, ágil, com que ele está assim… discernindo. E um trabalho vamos dizer de um Churchill, o Churchill é como a morte, é um budog, e depois o trabalho intelectual dele é pesado, como é pesada a morte de um de nós. E a morte de Nossa Senhora é leve como é leve o trabalho intelectual do Fra Angélico. É uma coisa única!

Até vamos dizer, se defeito essa pintura tem, é que a força de inocência parece um pouco menino demais, a gente não sabe bem se ele teve a intenção de pintar um menino fisicamente muito desenvolvido, ou se ele teve a intenção de pintar um homem ainda extremamente inocente.

* A alma inocente sabe tudo, conhece tudo, responde tudo, na hora!, com uma facilidade de deixar pasmo.

(Sr. Guerreiro: E com uma delicadeza…)

Impressionante! Bem, mas isto, uma alma assim — não é que eu queira me comparar a isto — mas eu digo que isso é o ápice de uma escola em cujas encostas estou eu. Mas uma alma assim sabe tudo, conhece tudo, te responde tudo! Na hora! Com uma facilidade que a gente fica pasmo: “de onde é que ele tirou isso?” Ele põe o dedo assim: “pensando.” Mas é essa a inocência.

Por exemplo, se ele fosse um penitente poderia ter sido o que você quiser, mas isso é outra coisa.

* Santo Inácio é um penitente que teve todo o esplendor da penitência. São Domingos tem toda a candura da inocência

(Sr. Guerreiro: Curiosamente Santo Inácio não tem essa leveza.)

Não, não! É o grande Santo Inácio! De todos os santos que eu tenho relíquia, aquela para o qual todo o dia eu rezo mais é Santo Inácio, você vê até que ponto eu o admiro, mas isso não é!

(Sr. Guerreiro: Nosso Senhor deve ter tido algo disso assim…)

Ah!, mas em que grau! Que coisa!

(Cel. Poli: Esse aqui contém o pensamento de Santo Inácio, ou esse aqui tem algo que o pensamento de Santo Inácio não tem?)

Meu filho, Santo Inácio é um penitente que teve todo o esplendor da penitência. Ele [São Domingos] tem toda a candura da inocência. São coisas diferentes. É um pouquinho como Santa Maria Madalena e São João Evangelista. Santa Maria Madalena merece todo o nosso respeito, aquela penitência, nem sei o que dizer. Se a conhecéssemos não nos julgaríamos no direito de estar na mesma sala do que ela; mas São João Evangelista é São João Evangelista!

* Havia na SDL uma resolução de manter-se nas vias da inocência, que isto traçou para ela, desde o começo, um caminho completamente retilíneo

(Sr. Gonzalo: Uma vez o senhor Nelson Fragelli pediu uma comparação de via de santidade entre a Senhora Dona Lucilia e Santa Terezinha. E ele dizia para o senhor que Santa Terezia falava das aridezes dela na vida espiritual, e que às vezes parecia que a coisa pára, que não ia para frente…. Que ele notava que na Senhora Dona Lucilia parece que não tinha tido isso…)

Não!

(Sr. Gonzalo: Eu me lembro que o senhor respondeu que realmente não, porque havia na Senhora Dona Lucilia desde o comecinho, desde quando ela tomou noção de si, uma resolução e com uma intensidade de resolução de manter-se nas vias da inocência, que isto traçou para ela desde o começo, um caminho completamente retilíneo…)

Isso.

(Sr. Gonzalo: E que nesse caminho não houve vacilação nenhuma…)

Nada! Nada!

(Sr. Gonzalo: Santa Terezinha foi muito santa, mas o problema é outro, é que há um ponto de partida de predestinação e de correspondência a essa predestinação, que é como uma carga de bênção, de graça, e de correspondência, que não é questão de compará-la, mas que é superior.)

Acabou!

(Sr. Gonzalo: Não tem jeito. E isso acontece com a Senhora Dona Lucilia. Ela teve esse mundo todo de inocência que ela teve, e que o senhor degustou imensamente…)

Ah, sim!!

(Sr. Gonzalo: Por quê? Era fundamentalmente por isso.)

É! É!

(Sr. Gonzalo: Desse píncaro de resolução primeira a essa inocência primeira que Nossa Senhora deu a ela, desta encosta saia todo um sabor do qual o senhor viveu 62 anos disso.)

Foi.

(Sr. Gonzalo: […] Há um retilíneo desde o primeiro momento que o senhor existiu até hoje e que vai até o fim, que se explica só por aí.)

Eu acho que sim, eu acho que sim.

(Sr. Gonzalo: Aquilo foi, e vai…)

Como um rojão.

(Sr. Gonzalo: É uma coisa que participa um pouco de algo meio angélico… […])

É isso sim. Eu acho que sim, meu filho.

(Sr. Guerreiro: O senhor vai continuar a responder a pergunta do senhor Gonzalo?)

Não, eu julgava que tinha respondido.

(Sr. Guerreiro: […] O senhor há pouco na resposta fez um comentário que era uma percepção do píncaro daquela coisa, e que ela pode ser feita ou de uma recordação ou de uma esperança que aquela coisa sugere…)

Sim.

(Sr. Guerreiro: Agora, nisto entra esse traço retilíneo da inocência do senhor que é um elemento fundamental. Mas há uma outra questão que é a seguinte: o início desse movimento na alma do senhor, vem exatamente daquilo que nós podíamos dizer que são os cristais que dão ao senhor a noção das arquetipias das coisas, e depois a deliberação de alma de seguir isso de modo retilíneo e contínuo sem nenhuma vacilação…)

Sim.

(Sr. Guerreiro: Aí vem uma coisa interessante que é esse toque do movimento retilíneo na alma do senhor vem desta percepção que o senhor tem das arquetipias. Então a gente fica com a impressão de que Nossa Senhora fez um enxerto na alma do senhor e que foi algo tão cristalino, tão própria a Ela que a alma do senhor podia não ser fiel a isso, porque senão o senhor não teria mérito, e como o senhor para desenvolver a obra que está desenvolvendo precisa ter um mérito que tenha a proporção desta graça, o senhor precisa ter mérito para isso…)

Sim, é claro.

(Sr. Guerreiro: Essa retilinedade do senhor é fruto de seu amor, de sua dedicação. Eu pergunto ao senhor se aí nesses cristais — para usar essa palavra — no que é que exatamente esta inocência que é tão marcada pela noção das arquetipias, como é que isto se explica, como é que o senhor sente que isto está alma do senhor…)

* “Tudo quanto um homem dotado pode desejar retamente do desenvolvimento natural de seus dotes, eu teria se eu tivesse como finalidade servir a inocência, servir Nossa Senhora

Assim respondendo… dando uma primeira resposta, talvez refletindo eu acrescentasse alguma coisa, tirar não, mas acrescentasse alguma coisa e tal, assim uma primeira resposta eu diria a coisa da seguinte maneira:

É que há uma espécie de — é muito singular a coisa —, há uma espécie de oferta da Providência — vamos dizer no meu caso, eu não sei se com toda alma inocente é assim, mas no meu caso — que é a seguinte: uma idéia de que um grande papel, uma grande missão… (…)

guardava, e que tudo quanto retamente, um homem dotado pode desejar retamente do desenvolvimento natural de seus dotes, eu teria se eu tivesse como finalidade, não o meu amor próprio, mas servir essa inocência, servir Nossa Senhora, e, acima d’Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo que estão no ápice desta inocência. De maneira que eu nunca consentisse em estar fazendo devaneios de como seria esta glorificação, de como seria este ápice, de quando seria, nem onde seria, querer apenas a vitória do bem que foi a vitória de Carlos Magno. E, portanto, nunca me comparar, nunca me analisar, nunca me… enfim, qualquer coisa que significasse qualquer apego ao amor próprio, não, não e não. De maneira tal que não entrasse nenhuma forma de apego dentro disso. Então, aí se daria naturalmente esse desenvolvimento reto.

A mesma coisa se diria no que diz respeito à amizade, ao afeto. A amizade, o afeto têm um papel na vida do homem. Um homem que diga que para ele, ele é inteiramente estranho ao sentimento de amizade, que é inteiramente incapaz de afeto, ele se revelaria um monstro, porque capaz de ódio todo o mundo é, se ele é um tipo capaz de ódio e incapaz de afeto, ele é um monstro! Causa horror conceber um homem assim.

Então, uma alma inocente pode ser capaz de afeto, de amizade; deve ser, é! Mas é uma amizade que existe porque encontra no outro um pequeno fragmento que seja da inocência que é a única coisa que ele ama. Então porque encontra isso numa alma, ele quer bem aquela alma, e quer o bem daquela alma, lhe tem amizade, lhe tem afeto, mas tem por isto e por nenhuma outra razão. E não é, portanto, porque a pessoa lhe satisfaz os interesses, ou por causa disso, daquilo, daquilo outro, mas é só e unicamente por causa disto. De maneira que tudo quanto o homem possa desejar, reflui para isto.

* “Ao longo de minha vida Nossa Senhora tem disposto as coisas de tal maneira que eu fico constantemente diante da hipótese de nada das grandes esperanças se realizarem”

Mas ao longo de minha vida Nossa Senhora tem disposto as coisas de tal maneira que eu fico constantemente diante da hipótese de nada dessas grandes esperanças se realizarem e diante da hipótese de nada realizar, uma pergunta:

- “Ainda assim tu me queres? Ainda assim tu me amas? Tu me amas por eu ser eu, e não por eu ser a tua glorificação? Vamos ver. Eu vou colar-te em situação que são becos sem nenhuma forma de saída, e eu quero ver se nesta hora, você com ânimo igual e sereno me quer do mesmo modo”.

Então você compreende o sentido de minha vida que em certo modo se realiza como nós estávamos falando, mas em certo modo é um desmentido flagrante, quase explosivo do que eu estou falando. E as coisas que a Providência exigiu nesse sentido, coisas do outro mundo! Do outro mundo! Mas que é preciso aceitar, é preciso engolir, que é preciso… etc., etc., com essa transparência de alma.

Se eu numa coisa dessa tivesse um movimento de apego e dissesse: “Até lá não! Eu quero uma garantia, e essa garantia eu vou pegar para mim mesmo, eu vou por exemplo, aceitar a proposta que me fez uma vez minha irmã” — quando os dois éramos muito moços ainda e estávamos começando a vida, ofereceu pegar todas as jóias delas, vender para me pagar um curso de dois, três anos na Sorbonne para eu voltar com uma formação intelectual que metralhasse o ambiente aqui. Ela como irmã, estava no direito de fazer-se essa ilusão.

(Sr. Gonzalo: O senhor já metralhava, fazia muito tempo.)

Mas enfim, é assim.

Eu dizer: “Bom, essa eu pego, porque ninguém mais vai fazer isso por mim, e essa oportunidade é única e eu fico aqui senhor de uma situação, de uma coisa única”.

Agora, a alternativa: “Não dá dinheiro para levar mamãe. Deixá-la dois, três anos aqui sem vê-la não é possível! Depois se eu for embora durante dois ou três anos, esse grupinho que é o último fermento precioso de anos de apostolado e de vitória se desfaz”. Era um grupinho que andava mal, mas que havia possibilidade de nunca mais se reconstituir. Porque com toda essa coisa, havia toda possibilidade de nunca mais se reconstituir. Então, por amor a essa coisa na qual habitava esperança, eu dizer: “Não, eu espero e eu rejeito essa coisa segura que me passa pelas mãos, eu rejeito. Eu fico na insegurança — insegurança numa ótica, numa perspectiva — mas na esperança e vamos tocar para frente”.

Bem, mas enfim, circunstância assim, muitas vezes coisas desse gênero, desse gênero, desse gênero.

(Cel. Poli: A todo minuto o senhor tem que ter essa esperança…)

Eu me lembro, por exemplo, o seguinte:

Não vale a pena gravar… (…)

a coragem de fazer frente a um desaforo, era a coragem de fazer frente a gentileza que é muito mais difícil. E uma gentileza requintada e que não provinha de nenhuma simpatia doutrinária, era simplesmente isso… Bem, mas num tempo que ninguém me procurava… [vira a fita]

nas nossas conversas, eu teria guardado a…

(Sr. Guerreiro: O fato é sumamente gracioso…)

Gracioso, muito delicado. O caso é muito delicado muito…

(Sr. Gonzalo: …)

* O Gofredo Teles convida o Senhor Doutor Plinio para visitar a Academia Paulista de Letras

Havia um outro homem aqui, eu não sei se você conhece… Casarole você conhece, perto do Casarole tem um prédio que tem umas portas de bronze muito grande com uma argolonas… Esse prédio foi construído pelos anos cinqüenta e ali está instalado em alguns andares a Ademia Paulista de Letras a qual, se não me angano, é dona do prédio, e esse prédio a Academia Paulista de Letras naquele tempo era muito propagada, etc., etc., e o presidente da Academia de Letras era o Gofredo Telles que é de uma muito boa família de São Paulo, casado com uma senhora que é o que há de mais fino em São Paulo, e ele um velho muito bonitão, muito amável, bem mais velho do que eu, bem mais velho do que eu. Assim, cabelão branco ainda abundante, um velho todo cor de rosa assim, é uma coisa especial…

(Sr. P. Roberto: De vez em quando ele ainda aparece…)

Esse é o filho dele já. Exatamente isso, o filho dele era integralista, os dois filhos muito integralistas, e eu com as relações praticamente rompidas com o filho, e ele me tratava com se isso fosse briga de crianças, porque eu sou um pouco mais velho que os filhos, uns seis ou sete anos mais velho que os filhos dele, e ele tratava como se fosse briga de criança que um homem mais velho não toma em consideração. Então era gentilíssimo comigo como se não houvesse nada.

Um dia encontrei-me com ele por ali — eu morava na Vieria de Carvalho que é ali perto. Eu não sei o que eu estava fazendo, eu estava ali e ele me pegou assim pelo braço e disse:

Doutor Plinio, o senhor não conhece ainda a nossa Academia, eu faço questão que o senhor venha ver a Academia comigo”. Ele era o presidente. Eu tentei tartamudear uma desculpa, mas não consegui desculpa sem mentir. Não ia mentir, subi.

Ele foi e me mostrou toda a Academia. Estava muito bem instalada, com muito bom gosto, luxo, coisa fina, etc., como ele saberia fazer. E depois levou-me para baixo e tinha um auditório já um pouco modernoso, mas assim um auditório de um bom tamanho, talvez do tamanho do auditório Nossa Senhora Auxiliadora, mais ou menos aquele tamanho, mas escorria o ouro ali. E ele me disse o seguinte:

- “Aqui nós fazemos a recepção dos novos membros da Academia Paulista”.

Mas isso depois de me ter forçado em cima a sentarmos no terno, conversar sobre várias coisas, etc., etc., depois me soltou. E eu, naturalmente, não queria romper com ele, queria tratá-lo bem. Mas quando chegou a questão do salão… você está vendo a coisa.

(Sr. P. Roberto: “Tudo isso vos darei se prostado me adorardes”)

Exatamente. São as tais coisas que eu poderia num momento — andaria mal — mas dizer: “Não, isto eu vou pegar. Isto eu pego!” Podia ser. Nossa Senhora me ajudou nem tive a tentação. Mas isso é para explicar um pouco o que é que poderia por exemplo entenebrecer a transparência desse cristal primeiro. E muitas vezes, meu filho, as pessoas entenebrecem a alma porque tem apego a uma coisa dessa.

(Sr. Gonzalo: …)

* Um exemplo de como a pessoa pode entenebrecer a alma numa eleição para prior da Ordem Terceira do Carmo

Você sabe… Deve ser assim no Chile. Aqui no Brasil vocês sabem disso perfeitamente, ser prior de uma Ordem Terceira do Carmo não é nada decorativo, nem importante nem nada. No tempo da Bagarre Azul, fez-se uma eleição para prior da Ordem Terceira do Carmo, e eu era o prior quase crônico porque a Ordem Terceira era constituída do próprio Grupo.

O frei Jerônimo vai fazer eleições e encontra um voto de uma pessoa num outro membro do Grupo. Um voto de um outro membro do Grupo em alguém que não era eu. E pela letra inconfundivelmente essa pessoa tinha votado em si mesma…

(Ai, ai,ai!)

Mas notem o seguinte: vocês estão gemendo, ai, ai, ai!, mas nenhum de vocês diz: “isso é impossível!”

(Sr. Gonzalo: É até o contrário…)

É quase impossível não sair uma dessa alguma vez. Mas era uma pessoa que absolutamente não precisava ser prior da Ordem Terceira. Mas sendo para ele…, o que é que você quer? É uma ninharia que seja, o sujeito quer.

(Sr. Paulo Henrique: ….)

Mas você não acha que por exemplo, essa alma no dia em que votou em si, alguma coisa ficou mais obscura?

(Cel. Poli: Quantas ciladas o senhor tirou para nós…)

Foi, exatamente.

(Cel. Poli: É propriamente aquela coisa do pai de Santa Terezinha que vai à frente tirando as pedras, porque nós estamos prontos para pegar….)

Nossa Senhora! Nossa Senhora!

(Cel. Poli: Nós passamos a noite, mas o horário é do senhor.)

Três e vinte, meu caros! Estou pensando no meu Paulo Henrique. Onde é que você vai afinal, meu caro, você me pediu licença…

(Sr. Paulo Henrique: Belo Horizonte e a Montes Claros. Na quarta-feira já deverei estar aqui de volta.)

Você vai açular os correspondentes não é?

(Sr. Paulo Henrique: É para incentivá-los a trabalhar pelo “Amanhã dos nossos Filhos”.)

(Sr. Gonzalo: Dos filhos deles como o senhor João diz.)

Filho dos outros. Você podia fazer propaganda um pouco também da reunião dos Correspondentes.

(Sr. Paulo Henrique: O senhor gravou um fita que está sendo levado. E essa reunião começa e se possível termina com essa fita. E o senhor faz muito empenho nesse trabalho dele para trazerem novos para o Encontro…)

Está muito bom, tinha me esquecido já disso.

(Sr. Paulo Henrique: Peço uma bênção para…)

Mas meu filho, eu vou dar uma recomendação: não esteja abusando de suas forças, ouviu? Porque eu não entendo de medicina, mas eu acho que você está num estado de saúde que tem estabilidade e tem continuidade, mas não é um pedaço de madeira que já não tenha levado algumas canivetadas.

(Sr. Paulo Henrique: Passei um ano aí duríssimo.)

E se você começar a facilitar cai de novo. Eu aprecio sua generosidade, tudo isso, mas você precisa pensar nisso, ouviu? Está bom?

(Sr. Paulo Henrique: Já é mais uma pedra que o senhor vai tirando do caminho…)

(…)

eu me dizia: “como é que um homem como Mons. Delassus vai se meter nisso?” Mas pelo visto tem matéria para isso.

(Sr. Gonzalo: O senhor me disse que não conhecia esse livro.)

Não conheço, mas pelo nome fiquei com má impressão.

(Sr. Gonzalo: …)

Então está ótimo! Está ótimo!

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